Categorias
147ª Leva - 02/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Adriano B. Espíndola Santos

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Mais um

Havia, longe das vistas de Bernardo, uma verdadeira colônia de formigas carnívoras que se formava, com justiceiros que saíam de suas covas; mulheres e suas crianças, indicando que viriam da escola, ou de um passeio matinal; sem contar a quantidade de desocupados que, na falta do que fazer, alarmavam ao vento: “Venha! Acudam! Ainda está vivo!”.

Cautelosamente, marchando em passos trôpegos e cansados, assomavam-se três policiais: o primeiro, de calça frouxa, raquítico, roupas abandonadas num corpo debilitado, suíças e olhos profundos, entretinha-se em mascar o chiclete que tirara do bolso, guardado para os momentos de aflição; o segundo, de ombros largos, com peitoral empinado de galo, mostrava, igualmente impactante, as pernas e o contraste com o resto do corpo, o dito casquinha de sorvete, sem contar a patente moleza de coração, para acompanhar a tragédia, muito diferente do habitual – aproximava-se com os olhos vendados pelas mãos; o terceiro, mais malandro, rechonchudo, cara lisa, ostentando um pequeno bigode safado, regozijava-se com a aglomeração – era tanto que batia o cacetete na mão esquerda, frenético, para excitar a tara.

Naquela altura, já não havia quarteirão; uma massa parava em frente ao monumento, para fotografar, inclusive, e debater sobre o ocorrido; que teriam, propositalmente, provocado o agravo; que, nessa terra, não teria mais espaço para gente de pouca ou nenhuma estirpe; que, bem feito, o agressor fizera um favor, para livrar o governador de ser cognominado de negligente, ou mesmo carrasco, por tentar limpar a cidade do mal das drogas.

Enquanto Bernardo se acercava, temeroso, com receio do que poderia ver e escutar, tocou os ombros de um senhor pouco-caso, parado num poste, a cerca de cinco metros do ocorrido, para tomar pé da situação: “O senhor saberia dizer o que aconteceu? Que alvoroço é esse?”. O homem, com o semblante impassível, mirou fixamente o rosto do rapaz, perturbado pela incerteza, e soltou uma gargalhada: “E eu lá sei? Estou aqui como você, para passar o tempo”. E continuou rindo, embolando a voz, com palavras pouco compreensíveis, de onde se podia extrair, com muito esforço: “bandido”, “lixamento”, “justiça com as próprias mãos”.

Bernardo se aproximou mais, afastando alguns seres plantados, desnorteados, como se estivessem entregues a uma seita. Vislumbrou-se a imagem de um menino, doze a quinze anos – não se podia precisar, dada a magreza e a ausência de expressão –, com um corte profundo na cabeça, de onde, ainda, vertia sangue, recebendo chutes nas pernas, na barriga, menos na cabeça, já deteriorada.

Gritou um homem, muito pronto, de paletó, do meio da multidão: “Tem de pagar! Eu conheço esse marginalzinho. De santo não tem nada. Passa o dia cheirando cola, roubando; levou até um relógio meu, decerto pra trocar por droga!”. Seguindo de murmúrios e urras: “Isso! Isso! Tem de aprender!”.

As pessoas estavam entorpecidas de ódio, com os olhos vermelhos, fulminantes, aplicando grosserias e pontapés no miserável, que não se mexia mais. Daí, Bernardo, por impulso, pensando que teria de reagir, jogou a bolsa no chão e gritou: “Vocês estão loucos! Não existe lei neste país? Vocês não podem sair matando as pessoas! Senhor policial, por favor, temos de chamar a ambulância, urgente!”. Foi engolido por uma avalanche de dejetos: “Cala a boca, desgraça! Leva ele pra casa! Bandido! Comunista safado!”.

O primeiro policial, ao qual Bernardo havia se dirigido, querendo mostrar algum serviço, para colocar ordem, disse: “Saiam! Saiam da frente! O senhor tem razão. Pode ser que ainda viva. Chame você mesmo a ambulância. Nossa função é dar cobertura”. Bernardo, para não ser enleado na história, deu alguns passos para trás e se pôs próximo a uma senhora que chorava, contida. “Meu filho, eu só não liguei ainda porque não tenho essas coisa de celular… Que maldade!”. E, ao mesmo tempo em que Bernardo tentava se comunicar, a mulher ia debulhando uma ladainha sofrida, que seu filho também estaria nas ruas, que esse poderia ser o seu…

Para que não deformassem o corpo, o robusto policial se colocou de prontidão em sua frente, largando o cacetete nas pernas dos que, ainda, tentavam atingi-lo, para deixarem a sua marca da dita justiça. “Cês querem mais o que? Não estão satisfeitos? Morreu, seus monstros! Vão procurar o que fazer!”. Vociferaram: “Policial comunista! Comunista!”. Este policial, no ato, apesar de dez anos de corporação, foi surpreendido pela súbita lembrança do irmão, morto numa chacina no Morro dos Prazeres, quando ainda era pequeno, porque, segundo relatado na ficha, teria relações com o tráfico. Teve um ligeiro impulso de chorar, mas, sabendo da admoestação dos companheiros e da população sedenta por vingança, baixou a cabeça, demonstrando cansaço e resolução.

Do outro lado, o policial sorvete tentava se comunicar, também, com o resgate, mas não conseguia verbalizar, inteira, uma palavra. Esforçou-se e conseguiu declarar o ocorrido. Estava afetado pela comoção. Contudo, dissimulava postura sólida, intransponível, desferindo, por obrigação, alguns golpes de cacetete para que dispersassem e deixassem o canto vazio, para a entrada da ambulância.

Trinta e cinco minutos depois do primeiro contato, a ambulância chegou. Os paramédicos foram rápidos nos primeiros socorros. Apesar disso, não havia sinal vital. Declararam a morte, possivelmente por múltiplas fraturas, dilaceração de órgãos e hemorragia interna. Os que ainda acompanhavam mais de perto espalharam para os de trás, com sorrisos no rosto, até formar uma onda de excitação, resultando no uníssono grito: “Menos um. Uhhrruu!!”.

Perderam o encanto. Já haviam se fartado. Partiram em debandada para completar novos serviços espúrios.

Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

Categorias
147ª Leva - 02/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Ianê Mello

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

A HORA DE 50 MINUTOS

 

com as mãos sobre o colo sentada naquele divã um profundo sentimento de estranheza toma conta de mim e a vontade que tenho é sair correndo dali sem pestanejar mas a consciência me impede e distraidamente pouso os olhos nas paredes brancas com alguns quadros dependurados que me fazem lembrar a visita que fizera recentemente a galeria de artes que era por sinal uma de minhas distrações prediletas e sinto meu rosto corar quando me deparo com o olhar inquisidor do terapeuta a minha frente esperando que eu desse inicio a sessão o que com certeza eu não tinha a menor vontade de fazer porque hoje me sentia esvaziada de palavras mas sabia que quanto mais eu demorasse mais me sentiria constrangida e seria dinheiro posto fora coisa que eu não poderia me dar ao luxo assim como também em anos de terapia aprendera que essa resistência de minha parte significava algo importante que estava submerso representando material de primeira a ser trabalhado em terapia e tudo o que tinha a fazer era dizer a primeira frase que depois o resto fluiria como um rio caudaloso e o tempo passaria a ser pouco para extravasar uma torrente de emoções que aflorariam o que traria em mim um arrependimento por não ter começado logo a falar e assim pensando não me demorei nem mais um segundo e só me dei conta que o tempo havia terminado quando meu terapeuta olhou discretamente o relógio em seu pulso

 

 

 

***

 

 

 

REPRISE

 

naquela manhã quente de verão suas mãos estavam frias e todo seu corpo parecia desvanecer numa palidez inesperada enquanto ouvia sem acreditar o homem que amava dizer-lhe adeus em palavras lançadas como pontas de faca afiada em seu peito matando dentro dela qualquer fio de esperança nesse amor ao qual se entregou sem medidas coisa que jurara para si mesma não mais fazer pois já conhecia o fim e sabia o quanto era amargo como fel e assim estava ele à sua frente agora sendo forçada a assistir o mesmo filme que já conhecia passar frente a seus olhos na mesma forma forçadamente amena de dizer adeus como dizem todos aqueles que se julgam superiores de alguma maneira por haverem superado um sentimento que antes existia e por acharem que se bastam a si mesmos podendo do outro dispor como fosse um chinelo velho que não tem mais serventia sem pensar ao menos que esse mesmo objeto tanto tempo lhe serviu e aqueceu os pés em tempos frios e nem mesmo o olhar incrédulo do outro pode dissuadi-lo do término e nem mesmo a lágrima que disfarçadamente escorre do canto dos olhos o comove como se uma capa de frieza o envolvesse e nada mais possa tocar seu coração que um dia se mostrou tão amoroso e seus lábios que agora proferem palavras duras e cortantes nem mais parecem os mesmo lábios de onde só saíam palavras murmuradas docemente e promessas de amor eterno

 

 

 

***

 

 

 

O OUTRO EM MIM

 

É… a vida que escapa da memória e se perde em devaneios . Quando é melhor esquecer para que a fantasia tome o lugar da realidade… sabe-se lá… E a fantasia ganha asas e voa cada vez mais longe e cria raízes e cada vez mais real ela se torna. Traveste-se de encantos e assume o lugar que não lhe pertencia. Faz-se tentadora com seus ardis e artimanhas com a expressão do desejo de uma vida não vivida. E quem não quer uma vida que não é a sua? A grama do vizinho é sempre mais verde e os frutos mais saborosos. O doce mistério de ser o outro! Apoderar-se de outra vida, de outro corpo, incorporar o outro em si e perder-se. Loucura insana? Pode ser… mas o que importa? Quando se está perdido busca-se uma saída e há tantas portas! E atrás de cada porta o desconhecido habita, sempre à espera para ser desvendado.

 

 

 

***

 

 

 

VIDRO E CORTE

 

um sabor de morte e de coisa finda no desalento em cacos de vidro espalhados por todos os lados a vida que se esvai em poças de vermelho sangue a tingir o branco azulejo como marco derradeiro de despedida do débil e frágil corpo jogado na frieza desse chão impuro de um banheiro público onde tudo são escombros e dejetos na louça trincada e encardida do vaso sanitário ainda cheirando a urina e da pia entupida onde tantas mãos foram lavadas em dias e noites desumanos daqueles que vivem na descrença de uma vida melhor abandonados que estão à própria sorte e desgraça sem ter ao que recorrer e ninguém com quem contar para ao menos dividir sua miséria de existir e estar pela vida mendigando migalhas de miseráveis de espírito sem compaixão e sem coragem de continuar põem fim a sua parca existência de forma trágica como esse corpo que aqui jaz

 

Ianê Mello é carioca, nascida no Rio de Janeiro. Foi professora e orientadora educacional no município. Pós graduada em Pedagogia pelo Instituto Isabel. Experimenta diversas propostas em textos literários, desde poemas e haicais até a prosa. Edita e participa de fóruns literários e tem textos publicados na Comunidade Benfazeja, na Revista Zunai, na Revista e Mallarmagens, na Revista Biografia, na Revista Novitas e na Antologia “A nova poesia brasileira “, pela editora Shogun Arte. Em 2013, publicou seu livro de poemas “Tessituras e Tramas”, pela editora Verve.

 

 

Categorias
147ª Leva - 02/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Susana Fuentes

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Redenção (à luz de Tarkovski e Bach)

 

A água escorre sem pressa de correr o mundo. O rio respinga gotas no vestido e quero tornar-me rio para dar petelecos na água. Vejo o céu e quero ser assim, tão azul (e garboso e tranquilo). Mas, quando chove, passo a achar que o mais belo é a chuva e aí despenco do céu (e visto-me de branco pérola). Embrenhada no verde, quero ser pedra, árvore, e servir de anteparo a esta chuva que tomba. Acaricio a chuva porque ali vejo seu rosto. As lágrimas de seus olhos serpenteiam frouxas nas bochechas enxutas. Gostaria de impedi-las em seu percurso, para lhe conservar a face seca. Gostaria que meus afagos a fizessem sorrir, para ver um riso frouxo traído na boca. Ao invés, sua língua escapa pelos lábios entreabertos e de lado colhe uma gota, e outra, aparando os pingos já em ritmo de enxurrada.

Quando estou no seu jardim, aí quero tornar-me chuva. E, como chuva, devolver à sua pele a festa de suas mãos segurando a minha, quando um dia estive doente e você me trouxe o conforto absoluto de um afago nos dedos tristes sem pouso. Você colheu estes dedos no ar, sua mão em concha inventou-lhes um abrigo já que iam em sua direção. E eu caberia inteira ali, por toda a noite, por toda uma vida, vida tão longa como a noite não dormida quando senti a ausência desta mão. Tão doce como a noite em que você esteve em meu sonho. Noite inventada para que eu coubesse na vida mesmo sem ter você por perto.

Como você ama lírios, flor-de-lis, açucena, para sempre estarei à sua mesa. E você, longe, olhar habitado por uma chama, me fará sorrir – a cada vez que a vela brilhar contra a tampa da panela. Tampa que serve de anteparo à concha e sobrevoa a mesa… para não desperdiçar nada sobre a toalha. A tampa em suas mãos recolherá os pingos e guiará a concha – com pedaços de maxixe, inhame, batata doce, baroa e aipo – em segurança ao colorido dos pratos. Como uma flor no jarro sobre a mesa, eu escutarei as conversas. Uma só mesa para o avô e para o neto. Como era você?, a criança perguntará então. E eu apontarei, com as palavras, para a chama veloz de seus olhos despertos.

 

 

 

***

 

 

 

Suíte

 

Numa Suíte, a Sarabande desliza sem pressa… e ocupa o centro
do poema. É como se dissesse: Não vou suprimir os floreios,
só encurtá-los.

 

A beleza de Sarabande: Beleza que cresce com o Tempo. Sarabande se entrega ao Tempo e ele a toma pelas mãos e diz: você será minha eleita. Gentil, ela se inclina como dama e aproveita o instante para admirar as margaridas – como são belas nesta época do ano, como são queridas!

 

*

 

Sarabande, no esforço de ocupações singelas: trocar a água dos colibris, limpar o cantinho do espelho, varrer a soleira da porta. A pele salpicada de suor sob os olhos. Femina, com um paninho, chega até bem perto e a conforta.

Intermezzo dá de ombros, fita Sarabande… e desfaz de Femina o encanto, em zombaria: veja esta, que mimos inventados para chegar até você.

 

*

 

Zorina olha Sarabande de perto. Tomada de recato, nem se atreve a tocá-la: olha, tão transtornada, que se esquece ali, perdida. E esquece tudo que pensou quando não estava tão perto. Quando podia respirar.

 

 *

 

Sarabande fala e não para de falar. Todas escutam, atentas: Zorina, Apogée, Intermezzo e Femina. Do que fala Sarabande? De meninices. De matreirices. E ela só faz lembrar e deslembrar.

 

*

 

Sarabande, a curva dos seus dedos aponta para fora, para o alto. O que caberá em seus pensamentos, os que desconheço, e os de que faço parte? De pé, junto ao portão, vejo partir suas lembranças. Levam-me até a menina radiante de vida. Sarabande ainda pequena. Menina que já passou pelos caminhos que percorri (e muitos, muitos outros) tantos passos à frente, será que entrei por algum atalho, para agora lhe encontrar na mesma estrada? Quero apresentá-la à Noite, mas ela já conhece seus olhos, seu nome. O Sol, a Chuva, o Dia, chamo para que eles a conheçam, mas eles me respondem: quem, aquela? Já a temos entre nós faz dias. Anos. Você nem tinha nascido. Falo de Sarabande com susto de perdê-la, e chamo a Vida para que a conserve a meu lado. A Razão manda que eu me cale, mas o Amor, que olha tudo com bons olhos, acha natural que eu esteja deste lado do portão e me convida ao jardim onde vivem, então, as cinco rosas: Zorina, Apogée, Femina, Intermezzo e Sarabande.

 

*

 

Zorina, para Sarabande: se eu pudesse alcançar suas folhas…
Apogée, bem prosa: afasto suas mechas curtas, Sarabande, porque aí chego até seus olhos.
Intermezzo: sopro a brisa que passa, Sarabande – porque aí beijo as suas pálpebras.
E Femina, num susto, embola o cobertor: não se resfrie no sono, Sarabande, está bem?

 

 *

 

Femina se espanta quando Sarabande conta uma história. Se fala da menina de cabelos de vento, seus braços (de Sarabande) escapam pela camiseta, longos, finos, dançantes, e os cabelos sem rumo é como se dançassem também.

 

 *

 

Sarabande tem velhas amigas. Quando as encontra, ela tem pena de que estejam tão velhinhas. E pensa se não está assim também. Zorina a acha linda, e nada diz, porque nem sabe o que dizer. Apogée, absolutamente da mesma opinião que Zorina, sorri de lado e silencia, pois imagina que nem lhe darão crédito. Intermezzo, galante, com protestos da mais alta estima, discursa sobre a Beleza e a Força. Mas logo vem Femina com um espelho e cobre Sarabande de beijos. E Sarabande ri e fica feliz assim.

 

 *

 

Altas horas, Zorina não quer ir embora. Sarabande leva todos até o portão e se despede: Intermezzo lhe acena com medida, Apogée palpita que já é chegada a Noite, e Femina discretamente plantou-se de mala e cuia num canto do jardim. Zorina morde-se de inveja de Femina mas não fala nada. Aí Sarabande se aproxima e lhe dá um abraço. Zorina sente o corpo na altura do ventre e então se desmancha e se derrete. E Intermezzo a carrega dentro da bolsa até a Noite que chegou.

 

*

Carta de Zorina, que fugiu, foi-se embora: Adieu.

 

*

 

* * *

 

*

 

Sarabande, de menina atrevida. Descabriolada, descaraminholada. Cabelos revoltos, ombros descobertos, braços pendem para o lado, esquecidos da vida, Sarabande vendo estrelas, bichos, árvores, cheirando o céu e descobrindo o rosto sem pressa de abandonar o dia. De repente, Sarabande diz: estou cega. Não vejo nada. Estou cega. Zorina: não é nada, não se assuste. Apogée: olhe para frente e faça um exercício de olhos. Intermezzo: que invenção, você anda muito impressionada. Aí, vem Femina. E, com jeito, lhe ajeita um cacho que bandeirolava nas bochechas. E Sarabande volta a si com a maior discrição.

 

*

 

Chamo a Noite, minha amiga azulada, com seu rosto de lobo celeste, cintilante e gelada. Ou a Tarde morna e rubra, com seus olhos de cobre, essa dama que escurece. Cada uma já sabe de longa data quem é Sarabande. Já lhe renderam os dias quando a carregavam pequena, pernas ligeiras correndo entre as casas e entre arbustos das rosas. Dos arbustos deslizavam pétalas que o vento pousava em seus cabelos. Que sua mãe escovava intermitente, com a paciência de não atropelar os fios.

Quando apresento Sarabande à Chuva, os pingos riem que já conhecem seu rosto. Vou lhe ensinar a Chuva, e Sarabande nem tem pressa em dizer que o Trovão foi ela que pintou de azul. E deixa molhar seus cabelos, ainda soltos sem rumo. Vou lhe ensinar o Trigo, e Sarabande já dançou horas seguidas quando eu nem tinha nascido e os pés de Sarabande eram redondos de rodopios. Quando falo: Pedra, quero que conheça este rosto, a Pedra me mostra as curvas que copiou de suas costas, de sua nuca, quando você, Sarabande, suspendia os cabelos e revelava os brincos de princesa escorrendo de dois fios. Mas vejo que me despeço do jardim, Sarabande, a cada vez que repito seu nome, porque aí me revelo e você se encolhe de medo, ou de espanto, e se volta para a Noite (que é a sua Noite) e para a Tarde (que é a sua Tarde), e se pergunta o que esta menina tola (que sou eu) está fazendo lá, em seu jardim. Só me resta cruzar o portão em despedida, o que faço inconsolável, mas, antes, fecho-me silenciosa atrás de um pequeno arbusto e ouço as conversas. Em torno de Sarabande, com homenagens, dengos e soluços, minuetam Zorina, Apogée, Intermezzo e Femina. (Será que num descuido deixo-me ficar no jardim?)

 

 

 

***

 

 

 

Salve

 

 

Saaalve. Mestre Tinhô, preso ficô, Ai …tem dó, indoné
sete meninos à toa deixô, Ai… tem dó, indoné

 

As palavras saíam, obedientes mas borradas na borda lisa da pequena folha. O lápis que usava era feito de cera, por isso sua ponta grossa e espiralada ia cedendo ao calor. E a extremidade de um lápis assim se derretendo era a coisa mais descabida para quem, em inspiração súbita, estava tão decidida a criar sobre o papel. A-la-me-das rá-pi-das desenham a estrada con-tra as va-ran-das de portas aber-tas a le-var a ren-da das toalhas e as pé-ta-las se-cas de seu lei-to de pa-lha.

No pátio da escola, última tentativa de refrescar-se. Loló agachou-se na terra molhada e afastando as pedras, desenterrou algumas folhas. Suas mãos firmes eram bem desenhadas, o talhe à galope de um grilo. Quando conseguiu separar a lama de todo o resto, mergulhou a palma em concha e trouxe uma porção para si. Colocou-a em um pano grosso, que torceu e enrolou na cintura. Andando em volta do prédio cinza e quente, de poça em poça os pés descalços se coloriam ao afundar na grama, charco que a terra, saciada e preguiçosa, resistia em absorver. A folhagem caía infinita para uma tarde tão curta que, inquieta e indecisa, quebrava-se sempre outra. E quem não acompanhasse as mudanças imaginaria a tarde constante e quieta como o som das crianças brincando na rua e o cair das flores da velha árvore roxa. Barranco acima as casas multiplicadas lajeavam a silhueta da montanha. Só as pipas surpreendiam o previsível das formas mas, quem podia notar? Ninguém viu quando Loló caiu no passo da bala contra o peito. Aviso de que os lá do morro estão à procura do irmão.

Loló ali parada, na terra quente, sua fisionomia devia estar debilmente distorcida pois dona Dita foi logo gritando que se sentasse enquanto buscava um copo d’água. Pendeu de lado a cabeça, focou a folha na mão. As letras riscadas à sua frente também já iam disformes. A claridade na folha debandava. Agora era a cera preta do lápis perdida no escuro da sala, estava ela na sala do professor talvez? Sala tão bonita, não se recorda, já tinha ali pregado as bandeirinhas? Al-a-me-das rá-pi-das. Um impulso impensado moveu a menina através do corredor. Con-tra as va-ran-das. Sobre pés pequenos demais, inspirou um ar carregado num frenesi quase alegre atravessando os ombros e o peito. A le-var a ren-da. Por instantes sentiu-se tênue chama, pronta a apagar sem mesmo precisar do empurrãozinho de um vento.

Boba essa Loló. Contam histórias, passam cantigas, mas só o que ela quer saber é daquela que a criançada canta na hora do recreio. O padre da Indonésia esbraveja que vai mandar todo mundo lavar a boca com sabão. Loló ri e canta mais alto, mais alto, com uma convicção que tem guardada, que só sentiu uma vez, quando cantou o hino da bandeira e ia bem longe da escola e via aquelas letras que nem bandeirola de São João, qual pendão colorido. Loló debulhava, escolhia as palavras. Puríssimo varonil peito amada. Sagrado? Serve. Encerra. É, bonita. Encerra varonil peito. Amada varonil encerra. E assim ia, deixando cair as bandeirinhas, apanhando as mais bonitas, mais sonoras, escondendo algumas no bolso, outras nas páginas do livro. Quando abro este livro, tem vento. Aposto que o vento já estava aí, escondido no bolso. Não. É ventania de livro mesmo, veja só: voa até palavra. Mas a poeira. Loló sacode e espirra. Espirra de boba. Dona Dita… me conta uma coisa… é verdade que mestre Tinhô tá preso? Na pia do banheiro, Loló assoa o nariz, deixa a água escorrer, faz bolhas de sabão. É, Loló. Foi se meter com o que não devia …Ó lá, dona Dita … Loló pensou nas bandeirolas. Esfregou as palmas. Sacudiu as mãos e meteu-as no bolso. As palavras guardadas a sete chaves e três botões espiavam do escuro. Faltava cozer uma casinha que estava por um fio. Volta e meia, fio e meio, um deslize, uma rajada de vento e uma danada escapulia. Volta, dona va. Aqui, seu to. Não descuida, não, ô sa. Ah, tudo de novo, não saio daqui. O recreio pela metade e mal dava para catar todas. Saaalve. Na fila do hospital ninguém viu a mão que contava palavras e colhia as lágrimas choradas sobre o corpo frio.

 

Susana Fuentes é escritora, atriz, doutora em literatura comparada pela Uerj. É autora de Escola de gigantes (7Letras, contos, 2005), Luzia (7Letras, 2011), romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2012, Anotações de Berlim (Megamíni, 2016) e Carta ao Sol (Funarte, contos, 2020). Escreveu a peça teatral Prelúdios, em quatro caixas de lembranças e uma canção de amor desfeito, solo em que atua (selecionado para o The New York International Fringe Festival). E Olavo, le chat (Edição do autor, 2016).   Seu novo livro, A gaivota ou a vida em torno do lago [tema para uma peça curta], foi lançado pela 7Letras (poesia, 2021). Pesquisa a literatura russa e brasileira e ministrou oficinas de criação literária na Uerj, UFRJ e durante o Printemps Littéraire Brésilien na Université Paris-Sorbonne.

 

Categorias
146ª Leva - 01/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Gabriele Rosa

 

Foto: Fátima Soll

 

[falta, fio, fenda]

 

dias transbordados em xícaras de café. no corpo, silêncios. cortina, copo, cordão. a colher ainda adormece dentro do açúcar. ontem, sete dias atrás, vinte e dois, talvez, não lembro. a tv me assiste, o presente esgarça. lágrimas afogam peito a conta-gotas. horizonte de expectativas rompido. vivo um luto estendido. cada pessoa que morre habita o topo na pilha de corpos que cosem meus poros. dessocializada no álcool em gel. sorrisos agasalhados, abraços suprimidos. medo, máscaras, mortes. suspensão. angustio toques, engaveto afagos. a vacina bate à porta. Eles escolheram as trancas. a estabilidade são mil mortes diárias. mil camas vazias. mil copos deixados nas pias. mil vidas esfaceladas pela Covid-19. como não morrer dentro de uma política de morte? baços destroçados. o meu é um deles, mamãe. queria descrescer, sentir o balanço das tuas águas. aninhar no teu ventre, desaguar pulso. ventania, sopro, tufão. como não sentir medo sendo uma mulher no mundo? mulher, e agora sozinha. negligenciadas por governos fascistas. língua, lenço, linha. as mães não morrem nas canções de ninar.

 

 

 

***

 

 

 

[fornalha]

 

pés sufocados. escondo palavras nas meias coloridas. como caber nas frestas? a cada quatro horas rapto doze segundos de tempo. engarrafo momentos. ofegante, peito bate-estaca. fuligem, fagulha, pó. brônquios embaçados, umbigo aberto. as varandas escondem olhares irredutíveis. pensei ouvir minhas águas, não sei nadar. pernas e pelos e peles queimam colchão suado. das línguas escapam benzeno. gosto do cheiro da fumaça no seu cabelo. inflamáveis: costelas e quadril e clavículas. acendo dedos molhados. chamas penduradas em cabides de plástico. combustão distraída sutura paixão adversa. deslizo. pinço delírio nos dias ensolarados.

 

 

 

***

 

 

 

[infiltração]

 

flores de plástico não gestam lágrimas. bile saturada. pescoço, tornozelo, pulso. falanges Carrara, mapa violáceo. se eu não tivesse tomado aquele picolé de silêncios com cobertura de ameaças, encontraria o palito premiado? espinhos brotam em intestinos fofos. etiquetada. na face, o reboco em seis camadas. no peito, olhares copiosos cavam átrios viciados. empilhada. adormecida entre lascas de detergente e gotas de óleo. pia suja de palavras. desaguada. exaurida desde a placenta. vigiada em caixas. qual a minha fome? ele devorou todo o resto.

 

 

 

***

 

 

 

[fagulha]

 

sopro fósforos entre a tela de proteção e o céu que não alcanço. deixei infância na feira de antiguidades. ardo parapeito oxidado. dentro de um envelope vermelho na caixa de correios pousa a chave extra. sexto andar. prefiro as escadas. na cama, cobertos de sonhos e saliva e medos. pistas, ponte, passagem. olhar turbulento de maré baixa faísca paredes frágeis. magnetizados. vestidos em lençóis, horas suadas de algodão macio. os ossos guardam memórias? corpos arrepiados, constelações em pilot vermelho. poemas riscados nas coxas. línguas disparam vontades: insaciáveis. sono excitado, pupilas flutuantes. páginas arrancadas pela manhã. fotografo a pele cansada, não perco nenhum segundo de vida. marsala, bordô, cornalina. planto fogo e não colho chama.

 

 

 

***

 

 

 

[beira]

 

metatarsos dançam lembranças. piso magoado, afagamento escorregadio. quinas, dores, vasos. alinhavada em cobalto e índigo. perambulo espaços cozidos a olho nu. despertenço. veias chaveadas, espuma rápida. pestanas dragam gotículas de pele. sintonizo águas rasas, visto prumo aluado. corrente alternada, lentes em paralelo. pouso, poeira, pulsão. onde afogo os meus sapatos? pendulares são as tardes de domingo, costelas flutuantes atulham taças de abismo. respiro leds acessos. berro. dependuro balanços chumbados na lâmina do teto. salivo lacunas de vento. medula andarilha., carne viva.

 

 

 

***

 

 

 

[ato]

 

peles afoitas sorriem vendaval. respiros largos, línguas hábeis. na cama desaforada, travesseiros avulsos. jade, buganvília, alamanda. aérea. paredes infinitas. sentados, pelados, invertidos. claraboia observa bulbos talhados. libertos. pequenos lábios acariciam lâmina. corpos abertos devoram os dias. treliças, toalhas, talheres. comidos, amanhecidos. de perto seus olhos me escapam. nuca aquecida, tornozelo em chamas. não aprecio quedas bruscas. me deixa ver seus tentáculos? no varal, roupas abandonadas sugam horas intermináveis. desmascarados. pendurados em sorrisos amplos, viciados em palavras táteis. inflamáveis. piscada em picossegundo. o desejo dorme, a cortina desce.

 

Gabriele Rosa é historiadora, poeta, artesã da palavra e da cena. Atua como dramaturgista e dramaturga de processo na Bonecas Quebradas Teatro. Graduada em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, integra o coletivo CuidadoPoema. Autora de “Lavínia é mais Rosa que Espinho” (Libertinagem, 2021, no prelo) e “Fendas extraordinárias” (Patuá, 2019). Tem contos e prosas curtas publicados em diversas revistas literárias.

 

 

Categorias
146ª Leva - 01/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Helena Terra

 

Foto: Fátima Soll

 

Eu nunca sonhei com você

 

Eu estava no lado de dentro. Ele estava no de fora. E entre nós havia a vitrine estreita e com muitos livros.  Quase todos cinzas e do mesmo tamanho, encaixados uns nos outros como se fossem pedras de uma calçada. Uma ideia, em um certo sentido, interessante e poética: no meio do caminho tinha uma história e mais outra e mais outra. E talvez, em algum lugar do futuro, no meio do caminho, poderia haver uma única para nós dois. A história de A e de A. De Ana e de André. Vamos fazer de conta de que são esses os nossos nomes. Juntos. Não separados como estávamos. E separados, assim tão perto, nos chamávamos de Lígia e de Gilberto e nos conhecíamos vagamente de uma rede social. E, na rede social, ele não estava com ela, não como ali do outro lado da vitrine. Se bem que ali, apesar da proximidade física, havia também algum tipo de espaço divisor entre os dois, e eles pareciam mais uma dupla de irmãos do que um casal.

Lígia estava no lado de dentro da livraria, sozinha, com o mesmo enigma e beleza que em suas fotografias, folheando um livro. Três novelas femininas, do Zweig. Eu estava no lado de fora, parado em frente à vitrine, fingindo grande interesse por alguns títulos porque eu queria vê-la, porque eu estava fascinado por vê-la ao vivo e em cores e queria que ela me visse. Se ela me visse, eu poderia sorrir e acenar e, quem sabe, dizer: ei, Lígia, sou eu, o Gilberto, da internet, vamos tomar um café? Mas em uma outra ocasião, infelizmente, porque, naquele final de tarde, a minha mulher, que há semanas, meses, anos me beijava como se eu não tivesse língua, dentes e um céu na boca e, noite após noite, desencorajava o meu corpo, estava comigo. Não deveria. De acordo com suas próprias palavras, fazia o enorme favor de me acompanhar para ver mais um desses filmes cabeça quando ela poderia estar em casa, de pantufas e de pijamas, bordando mais uma almofada.

Eu vi o exato instante, não foi impressão, em que os olhos do Gilberto não conseguiram mais se focar nos livros para se fixar em mim. E com tanta força e cobiça que eu poderia dizer, como a protagonista de uma das poucas séries de TV que tive paciência de ver: eu ouvi sua mente me observando. E eu, em vez de sair de seu campo de visão ou de apontar o dedo e de falar, o que é isso, abusado, você está acompanhado, como eu faria, já fiz tantas vezes por sororidade às outras mulheres, mexi nos meus cabelos, acariciei o meu pescoço e sorri. Sim, sorri, oferecida, fêmea, ignorando à minha falta de ética e os riscos do jogo em que eu estava entrando. E ele viu que eu o vi e que entendi o seu desejo. E, talvez, ela tenha visto e entendido também. Ou pressentido o perigo, porque parou de fuxicar no celular e o puxou pelo braço. Vamos, Gilberto, ela pareceu ter dito. Fique, não vá, venha, eu pensei.

“Eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema, não gosto de samba”, cantarolei sem me mover um centímetro antes de responder a minha mulher: não, ainda não está na hora, vá indo na frente pegar uma água, eu vou passar no banheiro e depois quero comprar um livro. Dois, três, cinco, na verdade, quantos fossem necessários para que Lígia tivesse tempo de vir falar comigo ou para que eu pudesse me aproximar dela. Ou, sei lá, que o destino nos desse um empurrão maior do que já estava nos dando, porque as chances de nos encontrarmos, de novo, eu sabia, sempre soube, eram mínimas, ainda mais assim, com Lígia sem ninguém no entorno, com nenhum outro homem tentando invadi-la, transpassá-la. E foi aí que ele surgiu, do nada, pelas costas, em um bote territorialista, colocando as mãos peludas sobre os olhos delas, cheirando os seus cabelos longos e escuros e falando, em seus ouvidos, as palavras que eu não pude dizer.

 

Helena Terra mora em Porto Alegre. O seu interesse, despertado na infância, por literatura a levou a cursar a Oficina de Criação Literária, do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC/RS e a frequentar os grupos de produção e de leitura crítica da professora Lea Masina. Em 2013, publicou o seu primeiro romance: “A condição indestrutível de ter sido”. De lá para cá, participou de antologias e organizou,  com o escritor Luiz Ruffato, a antologia “Uns e outros”. É coautora na novela “Bem que eu gostaria de saber o que é o amor”, publicada em 2020, com o ator e escritor Heitor Schmidt. E acaba de lançar o seu segundo romance “Bonequinha de Lixo”, pela Diadorim Editora.

  

Categorias
145ª Leva - 05/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Adriano B. Espíndola Santos

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

Divina

 

Divina, com o nome que faz jus, era a apoteose do escalão dos deuses. E a redundância, que atiça os sentidos, é justamente pela ausência de palavras que a descrevam: divina. Digo, com a pureza de uma nascente, ela foi a minha primeira e verdadeira paixão. Sim, dos tempos de escola – que extrapolou para a vida. Alguns até me chamavam de louco: “Como pode, Sebá, você amar uma mulher vinte anos mais velha?!”. Mamãe, no entanto, achava bonitinho, um amor infantil, quando, mal sabia, me contorcia indócil no banheiro, sentindo o seu cheiro penetrar por todos os meus poros, do qual guardo a essência, presentemente, o perfume de jasmim. Papai, provocado pelo ânimo de ter um filho macho, “raçudo”, como dizia, atolava-me com revistas de mulher pelada; uma coleção de fazer inveja ao Marcos, que se vangloriava de seu pai fazer a assinatura da Playboy. Eu não queria saber nada daquilo; sexos escancarados, sodomizados, que me deixavam penalizado, amuado, com o sofrimento daquelas mulheres em posições circenses. Para mim, somente Divina. Maria Divina Assis dos Santos, seu nome completo. Foi a minha professora de português, na quinta e sexta séries. E, por ela e para ela, me converti num leitor contumaz, num crente da religião literária, para demonstrar-lhe do que era capaz. Mal ela chegava em sala e já me avocava, com um leve sinal, para saber qual era a novidade, que leitura estava fazendo no momento. Para impressioná-la, lia os clássicos da literatura brasileira, de Machado a Lispector, e me atrevia, ainda, aos grandes da literatura mundial, sobretudo dos séculos XIX e XX, como Dostoiévski, Tchekhov e Woolf. A professorinha, a mais linda dos séculos e séculos, posso acreditar, parava a aula para dizer aos meus coleguinhas que seguissem o meu exemplo e se dedicassem a ler não só a literatura recomendada pela escola, mas buscassem almejar “novos campos; verdes e imensos”; que devíamos conhecer os sabores e as liberdades conferidas pelo universo das letras. Houve um tempo em que o meu estado de ansiedade ultrapassou o razoável, com o que estava acostumado; podia ver-me, claramente, para além das nuvens, atônito: Divina estava doente e não viria à escola por, pelo menos, duas semanas ou, quiçá, um mês. Não nos comunicaram qual era a maldita doença; o que poderia suceder dessa catástrofe. Eu tentava elucidar, pelas mínimas sugestões, e em tudo me vinha à mente a gravidade de um problema cardíaco, pois que era muito lívida e miúda, pequenina e bonita como um lírio. Antônio, o mais espevitado dos garotos, logo que percebeu o meu tormento relatou uma mentira das grandes, mas que me fez cair ainda mais no poço da discórdia interior: Divina estava no hospital, sofrendo com as dores do parto. Mas como, se ela nem demonstrara estar grávida ou coisa do tipo? Que canalha a teria deflorado, tão pura que era? O carrasco queria mesmo me agoniar, como se ela tivesse e fosse dada a qualquer sujeitinho. E essa troça rápido se desfez, porque a constatação veio em forma de circular, direcionada aos pais. “Prezados pais, a Sra. Maria Divina dos Santos, professora de língua portuguesa, das turmas da quinta e sexta séries, está acometida por uma forte gripe e ficará afastada, para a sua segurança e também dos alunos, por cerca de um mês, até desaparecem todos os sintomas e, por conseguinte, os riscos. Contudo, no período, os discentes serão assistidos de perto pela direção do colégio, pela professora e coordenadora Mirtes, sem qualquer prejuízo no conteúdo. Gratos pela atenção, a Direção”. “Que troca absurda!” – pensei, revoltado. Mirtes teria sido minha professora em dois momentos, na segunda e quarta séries, nas disciplinas de ciências e estudos sociais. Ela tinha um quê militar, e, o pior, de megera desalmada. Tratava-nos com o mesmo prestígio que se trata um rebanho de bois. Quando ministrava as suas aulas, no mais das vezes, não levantava sequer os olhos para nos encontrar; aplicava os exercícios de maneira indiscriminada, para ganhar tempo, e, no fim, fazia-nos passar vergonha, tendo de ir à frente da sala explicar, tintim por tintim, sobre o que teríamos entendido do material. Vale salientar: em regra, o citado material era um calhamaço de vinte páginas, no mínimo, artigos científicos, que, por vezes, não chegavam à compreensão do mais esforçado dos alunos: eu. Olhavam-me com olhos de ajuda, suplicantes para que os tirasse da enrascada. Eu tinha pena e me juntava aos menos favorecidos, aos excluídos e discriminados pela falta de atenção. Jeferson, Cássio e Tânia, por exemplo, apesar de serem espertos – não bagunceiros, propriamente –, demonstravam certa dificuldade de concentração, por isso se ligavam a mim. Sempre eu e mais um ou uma ficávamos com a incumbência de esclarecer à turma o conteúdo dos trabalhos científicos. Ainda assim, por mais que nos esforçássemos, não seríamos capazes de decifrar os signos egípcios, se nem ao menos tínhamos base para isso. Quando os trabalhos degringolavam, Mirtes, como um furacão, caía sobre nós, dizendo que éramos lerdos e desinteressados; e, com isso, alertava-nos que teríamos uma “provinha” na próxima aula. E qual era o conteúdo? Ciências e estudos sociais; nada de português. Bem, numa dessas, me safei com palavras difíceis, como a algoz gostava. Ou seja, nem mesmo ela entendia o que tinha perguntado. Pedíamos aos céus com tanto ardor, para que a nossa mestra voltasse, pela sua recuperação, que fomos consideradas as crianças rezadeiras. Havia um revezamento na capelinha da escola, nos intervalos e nas horas da saída. Num dia radiante, Divina nos surpreendeu no meio de uma aula maçante da Mirtes. Apareceu como uma luz: divina. E disse que estava morrendo de saudade. E que já estaria conosco no segundo período do dia; lembro até hoje dessa data: cinco de setembro de 1994. Nada mais que a agoniante Mirtes falava valia a pena. As provas e os castigos seriam apagados com o sopro celestial de nossa deidade maior. O meu alívio, especialmente, foi em reconhecer em Divina a esperança, o amor renascido. Ela estava esplêndida, com roupas mais leves, encantadas, que me levavam a outro plano. No retorno do recreio, não conseguíamos nos acalmar com a música de acolhida, que era uma estratégia aplicada pela direção para esfriar os nervos. Olhávamos para ela, felizes e gratos, com sorrisos que eram propriamente abraços – eu ainda mais. Ela entendeu e nos cobriu de paz, com o poema Regresso, de Miguel Torga. Sabíamos que, ali, estávamos enfim seguros. Mas, a mim, desandou o calor de uma partida, pois que o ano estava terminando. Só eu, com as minhas íntimas aflições, fiquei enterrado na cadeira, quando a hora da aula acabou. “Você não ficou feliz com a minha volta, Sebastião?”. “Sim, professora; sim! Mas lembrei que o ano está terminando, e…”. “Não se preocupe, querido, estarei sempre aqui. E a literatura será a nossa mãe protetora”. Deu-me um beijo demorado na testa, que, até hoje, estala entre desejos e vontades. Onde estará o meu amor, Divina?

 

Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; e em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, ambos pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. Membro do Coletivo de Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

 

Categorias
145ª Leva - 05/2021 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

André Mitidieri

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

CINCO EPISÓDIOS À PROCURA DE UM NORTE

 

NA ANTIGA FRONTEIRA OESTE

 

As inscrições quadrangulares de uma incomum calçada e a conhecida placa luminosa da Rua Vinte de Setembro confirmam o endereço: número 1991, Edifício Coronel Cabrita, apartamentos SS/T/01. Após dois lances da escada em mármore verde, a porta de mogno. Entalhes de anjos, querubins, cavalos alados, centauros e cenas da vida campestre.

No meio de tudo, uma guirlanda, flores artificiais e ramos de trigo, pintalgados dum esmaecido brocal na cor do cobre. No seu interior, discreto cartão em letras góticas, douradíssimas, gravadas em baixo-relevo: “Bem-vindos a este humilde rancho, onde não falta o mate amargo e o ombro amigo”.

Ao centro da moldura de prata, contendo arabescos, a campainha. Dois toques, e soa um mugido de vaca, bovinos ou similares. Ao ruído de uma chave na fechadura, segue-se o movimento circular da maçaneta alaranjada, fosforescente.

Em cima da porta, o arranjo metálico tilinta, pequenos sinos dobram. No saguão de entrada, multiplica-se em biombo de espelhos a pequena bailarina. Dança o Tema de Lara sobre círculos imantados de um vistoso porta-joias.

Entre as duas portas no velho estilo faroeste, da cozinha e da sala de jantar, o corredor em cotovelo, onde se enfileiram as fotografias. Retocadas por tintas de coloração primária, imagens unidas de um casal em close-up. Amarelados instantâneos da casa de campo avarandada e do homem de enormes bigode e chapéu. Em preto-e-branco, um retrato de casamento: a mão da noiva sob a do noivo segura a faca de serra, acima do segundo andar do bolo. No terceiro, um par de açucarados pombinhos.

Num verde-oliva destingido, e à frente do esquadrão em continência, o militar bronzeado, com óculos de sol, exibe medalhas no peito a estufar-se. Em tons pouco definidos, a dupla de meninos sorri, sem os dentes da frente, atrás do globo terrestre. Como pano de fundo, a bandeira nacional e o estandarte azul-anil, “Lembrança da Escola do Divino Espírito Santo”.

Lustrosamente coloridos, rapazes em trajes menores, e a dezoito por vinte e cinco, circundam o pôster da Cleópatra seminua. Pernas roliças, escadinhas no abdômen e bronzeado reluzente, no meio de um mar de plumas e tecidos bordados a lantejoulas, em degradês de verde.

Ao fundo do corredor, na grande sala de móveis brancos, laqueados, destaca-se a lareira, de rosáceo granito. Sobre ela, cabeças de cavalos em puxadores de brasa, tubos de vitaminas e a Vênus em bronze. Seus braços amputados, sem pés nem cabeça, mas com o triângulo, entre as pernas, bem definido. Raros pelos crespos, a descerem do ventre liso, rumo à orquídea entreaberta, pronta para estremecer e abrir-se ao primeiro toque.

Impaciente, meto a boca na flor da deusa. Por meio desse pitoresco interfone, comunico-me com a dona da casa e espero. Batendo a cinza do quinto cigarro no cu de ferro de um Hermes grego.

 

 

***

 

 

UM TESOURO TODO SEU

 

Se a minha anfitriã não existisse, de qualquer forma, seria inventada por algum oficineiro em busca de protagonista. Ou de protagonismo.

Importa que existe. De fato, seu guarda-roupa não delata uma perua a rigor. Modelitos mais casuais, no âmbito cotidiano: flanelas e camisetas tamanho L, uma que outra estampa xadrez, jeans e jardineiras, nem amassam. Do outro lado, à espera do ferro de passar, as golas plissadas, pantalonas com vinco, saias mini rodadas, de cintura alta.

Sempre de classe, mas sem os excessos da década anterior, revisita blusas de seda, lã e linha, jaquetas e casaquinhas bem cortadas. Todas em cabides individuais. As cotidianas, bem à frente; as festivas, mais ao fundo.

Ainda separa roupas citadinas da indumentária agreste. Subdivide-as entre as seções matinal, diurna e noturna. Sem contar com o nicho das ocasiões mais assim: o baile das debutantes, carnavais binacionais, o sarau das prendas, as exposições agropecuárias, de Esteio e Palermo (de Buenos Aires, não da Sicília).

As vestes de gala nem serão descritas, congêneres encontram-se nos catálogos de JP Gaultier e do Alexandre, aquele, que tem o mesmo sobrenome da romancista polaca. Sete fantasias, por sua vez, de grega ou de egípcia, devido a alguma crendice, talvez, e com os brilhos cabidos, ornamentam uma arara de aço inox, que fica no canto bem do fundo.

Na fileira anterior, tem que ver, os panos da campeira: ponchos de lã crua e palas de seda pura; as bombachas com casinha de abelha nas laterais. E os cintos de todas as cores, no couro ou no tecido, com fivela ou sem fivela, guaiacas, inclusive.

Tampouco faltariam peças do chiripá, uma grande tira que se amarra na cintura, como saiote ou fralda, a canga dos gaúchos. Quem não tem praia, lagarteia ao sol nas coxilhas, nem fica com areiazinha entrando nas partes.

Caso à parte, um outro quarto inteiro, onde guarda, praticamente, só as bolsas e os calçados. Não vou me debater, porém, no meio de cabides, sapateiras, cobertores, sob os trinta e tantos graus do verão fronteiriço, para expor a sua incontável e mais particular coleção.

Nada nosso, tudo dela. Como os armários embutidos, outros aposentos, o big apartamento, a laje, os ladrilhos, pedrinhas; falsos brilhantes, brincos iguais ao colar do anjo, um bosque, a piscininha; Amor, bombons finos. Dona do carnaval, da coisa toda, menos da voz que narra. Por enquanto.

 

 

***

 

 

UMA FIGURAÇA EM BUSCA DE BIÓGRAFO

 

Desvela-se um fantástico show ao vivo; a vida como ela é. Nada fútil segundo pressupunha. Nem uma existencialista com toda razão, nem a rebelde dos anos dourados. Não queimaria sutiãs, tampouco haveria de pintar a cara e se vestir de preto, tipo carola andaluza.

No lado inverso, como visto pelo closet e se verá pelas melenas, tende para o arco-íris, multicor. Nada mais, nada menos, do que uma fábula. Em carne e osso — que figura! — as curvas sinuosas, o traseiro empinado, as pernas sólidas, meio arruivada.

Os prontuários do doutor Resende, segue à risca, paciente. Toma uma canja revigorante, ou caldo, ou ambos, talvez, ou suco, ou os três, quando acorda, lá pelas dez da matina. E o chá [?] verde num coité que ronca, sorve pelo canudo de metal, durante o resto da manhã, os pauzinhos boiando ao final de mais um conto, se é que há.

Às vezes, acrescenta tília ou erva-cidreira, anda doente dos nervos, mexeram na sua poupança. Congelada pelo governo, pense aí, quadro depressivo, crises de ansiedade. Mesmo com a dieta rica em antioxidantes, betacarotenos, gafanhotos, acha-se meio desmemoriada.

Não sendo chata para comer, nunca passa fome, ainda fica longeva. Prescreve o médico ortomolecular, lá de Resende, como dito, e papa lindo, a figurona, lesmas hermafroditas, lagartas de cartucho, o chá de cavalinha, a tanajura que cai, cai, na panela de gordura insaturada.

Caramujos da maçã, caracoles do café, com sal rosa do Himalaia, caralhinhos de licor, os caracóis dos seus cabelos, até o louva-a-deus morto no pós-coito. Tudo mastiga devagar, mas em refeições ligeiras, entre o desjejum e a comida do meio-dia. O cardápio todinho na ponta da língua, porém se cala quanto aos homens com os quais se enrolou.

Abotoaram o paletó, alguns. O primeiro, na hora do bem-bom/bem-tudo que, com ele, poucos minutos, nada bons. Esta mulher daqui pra frente dá uma pausa no seu relato de cunho biográfico, mas não quer voltar atrás, não é carangueja na enchente da maré. Está mais para uma louva-deusa.

 

 

***

 

 

IN MEDIA RES

 

Meia rês, manda carnear, para os filés a cavalo, que costuma oferecer nos almoços sempre tardios, com batatas fritas mais legumes frugais. Ao revezar o menu, carreteiro de arroz vermelho, feijão mexido na pimenta da braba e as bananas da terra baiana.

Já na sobremesa, pode nem alcançar a metade do assunto de grave urgência para cuja resolução convocou-nos a opinar durante o aperitivo. Se bater um soninho, ou aquela fome mais tarde, ceva outra vez o verde mate, serve mix de nuts, os chips de coco, uns chocolates lá de Uruçuca.

O lauto jantar traduz-se num caranguejo inteiro acompanhado de vinho tinto, ervilhas poás e cenouras baby ao molho campanha. Na ceia da madrugada, o espumante nosso de cada dia, para alternar entre a salada de pepino com frango assado e o quefir de mamão cassis na baguete de aveia. Talvez por isso, não enrugue, é o que aparenta, colagenosa.

Adepta do fogo baixo e da comida lenta, busca não se estressar muito, eu que o diga. Altas horas pelo Beco dos Ricos, até agora no Bar Pirâmide, a biografada discute comigo os pormenores desta narrativa por fazer. E havia proposto só uma espichadinha nas redondezas, perto das doze do meio-dia, para uns três chopes, no máximo, com intuitos de encerrar o papo. Mas esse, como a saideira, nunca chega ao fim, pletórica que só!

 

 

***

 

 

ABRE A JANELA, FORMOSA MULHER

 

Vinha direto da balada. Belíssima como ela só, e uma novela brasileira. Quem não soubesse, presumiria que, de tão nos trinques, recém saísse do cabeleireiro. Após umas vinte e quatro horas na rua, mal tomou uma ducha, o suco de couve, e mate quente até ficar verde, umas duas garrafas térmicas.

A mochilinha das costas, trocou pela bolsa-baguete; do coque, fez um rabo de cavalo. Sente-se meio sufocada, quando sufocado, deveria estar eu, ainda que já fora do armário.

Para respirar melhor, aproxima-se da veneziana pintada de amarelo-ouro, com vista para a Via Pirandello. Rápido, rapidíssimo, escancara dois postigos. Iluminada e policromática, faz fusquinha para uns guapos de bom-porte, passantes. Quanto à plena modernidade que ostenta na cabeça, dá as tintas: Anjo-Caramelo de tonalizantes temporários, mais Cereja do Peloponeso, às custas de Casting 3.1, tintura sem amônia.

Em um ponto, indomável, suas posições modernas orientam-se por determinados limites. Causam-lhe nojo quaisquer clones, inclusive uma telenovela com esse nome. Para que não a confundam com uma cópia mal feita, a personagem em busca de si-mesma como uma outra quis porque quis deixar um pouco da vida para virar páginas impressas.

Nem bem escolho novo ângulo a fim de melhor observá-la, espicha o olho para a tela do computador, que acabou de inicializar-se. E ri de gaiata ao ver um dos seus mimosos apelidos a luzir na mais recente das pastas que vou abrindo neste Word for Windows.

 

André Mitidieri: Pobre bicha na estrangeiridade do lugar e do momento. Professa e pesquisa a nebulosa biográfica, as literaturas transviadas, mas nem tão só. Nasceu na terra do Quintana, mas ama a Baía de Todos os Santos. Oferece em primeira mão, nesta edição de aniversário, super agradecendo à Diversos Afins, os textos que integram a trilogia Eterna miss, a ser lançada em outubro, após 25 anos de engavetamentos, extravios, miles de disciplinas, artigos publicados, ressacas, recomposições, ejós & etc.

 

 

Categorias
144ª Leva - 04/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Dheyne de Souza

 

Foto: Lu Brito

 

Doroteia

 

Vi Doroteia uma única vez. Assustei-a parece que para sempre. Mas desde então, e isso já faz três dias, ela vem me perseguindo a lembrança a ponto de conhecê-la.

Gritei quando a vi. Na verdade, antes de vê-la. Apavoramo-nos ambas. Eu de ver um vulto estrangeiro cair atrás de mim no momento em que movimento a porta e acendo a luz. Ela de perceber meu semblante aterrado movimentando a porta no mesmo instante de acender a luz. Corremos para cantos opostos. Acalmamo-nos, aparentemente. Fui eu quem deu o primeiro passo.

Não sabia ainda o seu nome, Doroteia. Dei três passos e pude contemplar seu silêncio indescritível. Era tão fiel sua ausência completa de movimento que era mesmo possível acreditar que não estava ali, o que era justamente o que ela queria; era mais que perceptível, sensível. Cometi nossa espécie mais chula de pecado e fingi que cri.

Não sei exato. É possível que tenha me dito seu nome, agora pensando bem, naquele tempo ali. Alguns minutos fiquei decorando a recorrência de padrões em sua pele. Fecho os olhos e posso rever sua textura. Jamais descrevê-la.

Busquei metáforas, perdi. Acredito agora também que não emiti som, também não acho que me lembre mais ultimamente o que é isso de a voz ter função externa. Sei que tentei falar-lhe. Provavelmente – agora é que isto me ocorre –, falei na altura com que me falo todo dia bom dia, com que rego as plantas, bebo o café, vejo o noticiário, abro a janela e volto à cama. Telepatia, acho que é essa a palavra que dizem. Diziam.

Joguei fora uns passos na cozinha. Passei os dedos na mesa da sala. Pensei em lavar a cortina. Gastei uns segundos ou mais avaliando o gelo do congelador. Tirei duas batatas e carne moída, que tenho deixado assim os ingredientes soltos na pia a ver se me dizem como preferem renascer. Conferi a chave na porta.

Voltei ao meio da sala. Olhei para a porta onde Doroteia e eu nos esbarramos há pouco. Foi nessa ocasião, agora é que me recordo, que elegi Doroteia como seu nome e acatei a ideia até então sorrateira de tê-la como nos filmes, nos livros ou nalguma anedota antiga de vizinho, não tenho tido propensão a exatificar as memórias, enfim, de tê-la como amiga. Comentar novelas. Reclamar dos preços. Bodejar à toa.

Dei mais dois passos em direção a ela, Doroteia. Estanquei avaliando a utilidade que seria. Nós duas feitas fraternas. Ela aparecer de repente, agarrada nas paredes. Fazer a pose de morta. Riríamos da primeira vez à porta. Você me desculpe é que não sabia. Eu que não sabia. Hahaha, hihihi. E aquela velha história de. Como é que se diz o nome? Conviva, conveva, convisser. Enfim.

Se bem me lembro, ainda a vi uma vez. Não, não foi. Senão começaria mentindo. Sei que, mesmo deixando a porta aberta, a luz acesa, o grito calado, quando voltei, Doroteia não estava mais em lugar algum. Olhei atrás, dentro e debaixo de todos os móveis. Encontrei, inclusive, uma meia que havia abandonado seu par. Nem parecia infeliz. Nem eu me havia dado conta. De qualquer modo, levei a meia para a máquina de lavar. Não quis ligar, menos pela energia que já aumentou vinte por cento mesmo com toda essa loucura acontecendo lá fora, mais porque ainda não sabia se Doroteia gostava de barulho alto. Ainda mais a essas horas.

Não. Agora eu tenho certeza porque, como já disse antes, embora ninguém confie em nada ou nada seja digno de, eu comecei a conhecê-la melhor. Doroteia. Fiquei um tempo escorada na máquina de lavar. Deixei a luz apagada. Ela também prefere assim. Nós combinamos tão bem. É uma pena que tenha durado tão pouco. Ou não. Ainda não sei. Pode ser que ela esteja ainda em algum lugar, espreitando-me, conhecendo-me. Não posso recriminar sua apreensão. E eu gritei deveras alto. Doroteia não disse nada. Um silêncio dos mais elegantes. Mesmo quando eu a devorava com esses olhos desumanos, nunca perdeu a compostura.

Olhando aqui essa sombra que cai na área de serviço. Quando percebo, já estou imaginando Doroteia morando ali, uma cama perto do tanque, meio embaixo. Logo em seguida, peço milhões de perdões. Embora saiba que ela de modo algum vai desculpar esse desvio de conduta.

Digo então, e de novo creio que em mente, que Doroteia fique à vontade para dormir, deitar, enfim, ter casa onde quiser apear. Só não parta. Não me abandone. Não vá pras ruas, é perigoso. Olho as janelas. Chego a me mover para fechá-las, para que Doroteia não se exponha. Abandono o ímpeto no ar. Não sei se precisa voltar.

Doroteia, quando digo esse nome, sai com uma pá de saudade e outra pitada de dor. O frio chega de madrugada. Sento-me na beirada do sofá. Olho o vulto das nuvens atrás dos prédios. Penso em cortar as unhas. Depois ouvir um vinil. Doroteia adora Bach. Ergo-me numa efusão acelerante. Qual sua uva preferida, senão shiraz. Peço escusas, Doroteia, hoje não tenho espumante. Brindemos a isso que a vida nos proporciona cruamente. O tempo. Sim. Essa migalha de pão.

Já faz tanto que não faço uma massa. Podemos tentar. Doroteia escolhe nhoque. Será uma pena sem sálvia. Quem sabe no mês que vem, quando formos ao supermercado. Escolhemos um dia de sol. Um horário mais pela tarde. Conferimos o movimento.

De repente, dou um pulo. Eu me assusto. Corro pra máquina de costura, sopro a poeira, escolho o retalho mais caro, procuro a linha azul da prússia. Vou lhe fazer uma máscara, Doroteia, belíssima. Você nem vai acreditar. Não sei se sabe o que está havendo. Senta, escuta, vou lhe contar.

 

Dheyne de Souza é goiana. Vive atualmente em São Paulo (SP). É doutoranda em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo. Recém-publicou “lâminas” (poemas, pela Martelo Casa Editorial, 2020). Seu primeiro livro foi “pequenos mundos caóticos” (poemas, PUC/Kelps, 2011). Mantém ainda um blog e um canal de leitura de poemas chamado Pequenos Mundos. É membro do grupo goiano de vocalização de poesia Corpo de Voz.

 

Categorias
144ª Leva - 04/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Wellington Amâncio da Silva

 

Foto: Lu Brito

 

Por que o editor sumiu?

 

Um sonho. Lá está ela, nos dias de Junho, durante o auge do solstício de inverno. Lá está ela, no mais alto plano do hemisfério austral, próxima à constelação de Órion. Liúna é uma galáxia, para quem pode vê-la. A mais estrelada do universo. Espiralada, cinco linhas circulares, paralelas, mas que se tocam de leve. Predominam o dourado, o anilado, o prateado, e tons de ardósia nas bordas. Sua figura se consolida no dodecaedro. Veste-se de seda inconsútil, imaculada, e apenas disto se veste. Possui o poder universal de suster os luminares, por isso nenhuma contristação sente, e não há o mais leve sinal de que ela não sinta demais outros sensos. Diz-se que no centro do seu alvor reside a mais fulgurante estrela, que se observada através de um prisma especial, contar-se-á oito pontas, e cinco ao centro. Seus olhos de âmbar transparente e claro transfixam-nos constantemente (por isso a impressão de que somos observados e ao mesmo tempo protegidos). As entidades mágicas de variegados domínios e graus podem pensar, voar, pairar, andar, circunvagar, existir, morrer e reexistir como queiram, quando e onde, segundo os auspícios de Liúna. Debruçam-se sobre as esferas, clarificam certos âmbitos, domínios, e administram certos campos, segundo o que apraz Liúna. E ela estende as mãos e nos toma para si — sua miração primeira possui dois ângulos abertíssimos, e no centro, o adentramento e o anelo. E pode transmutar-se ao coração do homem em dura gnaisse, ou em matéria vaporosa e volátil. Eis a porta aberta, o fogo, irresistível umectância! E ele, o Carlos, abriu uma das mãos, ao máximo, até as pontas dos dedos curvarem-se para cima; desceu as mãos sobre a coxa lisa e dura, perto da virilha dela; parecia tocar em brasas (não porque estivesse quente como o fogo — muito porque a perna, a coxa, em que se toca, muda a sina das mãos, embaralha a ordem das coisas, desfaz o sossego da mente, e eriça alguma coisa dentro do peito — perdição); bordeou a orla da fundura de Liúna, e caiu, de corpo penso, ao fundo. Sentiu estremecimento antigo. Lançou-se, num ímpeto, imerso, e atravessou-se para lá. E em Liúna o editor sumiu. Um sonho.

 

 

 

***

 

 

 

Formação

 

Alceu Vivalma compositor de samba das antigas! Reverenciado, ainda que “dissidente” da Portela. Do tipo “raciado”, porque trazia os sinais supremos do autêntico e do febril criador. Ébrio-de-cara-inchada e pálpebras caídas, ao modo do equilíbrio entre o sadio e o patológico, do fígado não muito cirrosado, porque só no final, tal e qual o auge, amadurece no ser do boêmio aquele horizonte trágico, apaixonado, entre a indiferença do artista diante da proximidade do fim e o seu mais inspirado e fervoroso momento de criação (certamente evidente no último disco lançado). Isto quer dizer — como pensam alguns radicais — que a obra póstuma, por vezes incompleta, é a obra máxima do artista, “a obra de porta aberta”, em que os críticos têm pano pra manga. E a obra-prima é aquela que nos lega espaços vazios e brancos, suscetíveis a enchimentos interpretativos, e aos questionamentos de todos os tipos, sem os quais a conversa não se prolongaria, nem a crítica se lamberia, e a rodada de cerveja vai que se acaba em breve. E é preciso que digam alguma coisa e sempre, nos jornais, na roda de samba, na esquina cotidiana, dentro dos lares, dentro do pensamento de quem curte a coisa toda, porque se se acabar o converseiro sobre o artista quando morto, ele pode ainda morrer novamente. E é essa “segunda morte”, o silêncio da boca do povo, que o artista tem medo de morrer.

Diziam que os “iniciados” o reconheciam em qualquer lugar, sem requerer dele nenhum imperativo de palavras de apresentação. Era necessário o silêncio para que reverberasse o som. Cantava ao violão Di Giorgio 1979. Voz de barítono levemente alcoolizada e rouca. Alguém batucava de leve num pandeiro deitado sobre a mesa — “A vida é assim/ Eu sou assim/ Não me leva a mal…”.

Após, Alceu Vivalma ainda recebia os aplausos, quando Safiro do Borel cochichou no seu ouvido. Em seguida, num canto do bar, ambos conversavam.

— Alceu, meu amigo, agora é a tua hora, o teu primeiro disco. Por favor, não diga não desta vez! A oferta é irrecusável. Fubica disse que ele mesmo produzirá o teu disco! Aceita, homem! Fubica é gênio de mixagem, e Aloísio um mestre do merchandising, das rádios, da tevê. Aceita, homem! Ou vai morrer cantando em bares? Compondo música para tocar em mesa de boteco? Teu repertório, bicho, está fadado ao sucesso! Vai estourar! Fubica é um mestre! Aloísio é um mestre! Você é um mestre! Vai tocar em todo mundo.

Alceu, com ar de pensativo, disse, pondo a mão direita sobre o peito:

— Não me vendo, meu amigo. Tu sabes porque resisto. Tu sabes…

Safiro se aperreava.

— Homem! Eu sei das tuas filosofias. Mas, seja um pouco mais flexível. Seja sábio desta vez! Ou prefere mofar naquele barraco?

Alceu enrugava as sobrancelhas, como se estivesse zangado:

— Ninguém é sábio, rapaz!  Essas gravadoras todas não iriam desvirtuar minha imagem e minha música? Eles gostam de meter o dedo em tudo. Lembra-se que modificaram a minha capa?

— Águas passadas, meu amigo. Pode crer. E os caras da OMD são imbatíveis, profissionais!

Alceu o encara, põe a mão no ombro dele.

— Quanto custará sua comissão por esta empreitada? Me diga!

Safiro do Borel ajeita a gola da camisa.

— Homem, isso é de menos… o teu sucesso é o que importa.

Alceu o encarou por um instante.

— Me fale a verdade: lembra-se que modificaram a minha capa?

Safiro coçou o topo da cabeça e olhou de lado.

— Sim, sim. Há vinte anos atrás? E tu ainda se lembra disso, bicho? Deixa de orgulho, meu irmão! Aquela capa estava mais para disco de música clássica, ou caipira… do que para o teu disco de samba raiz.

Alceu descansou a mão direita novamente sobre o ombro de Safiro, e disse em voz demasiadamente pausada:

— Além da capa, eles regravam os batuques, mudaram o ritmo, descartaram nosso partido alto, tiraram os graves do som.

Quando ouviu a expressão “Partido Alto”, Safiro respirou fundo e calou-se. Tremeu-lhe o queixo. Encheu-se os olhos d’água, ainda encarando os do Alceu. Baixou a cabeça e foi-se.

Em seguida, Abelardo e a esposa chegaram junto do Alceu.

— Ouvi a conversa to-di-nha! — cochichou Abelardo, num tom assisado, e continuou — Novamente, Alceu!? Vai negar até quando a oportunidade de ouro? O tempo passa, meu irmão. E o nosso disco? E o nosso disco?

— Ah… Disso eu sei, Abelardo. Um dia eu gravo. Agora, não.

— Compadre, compadre, tome jeito! — disse Lurdinha, esposa de Abelardo.

— Não sei o que dizer… — finalizou Alceu de cabeça baixa.

Lurdinha o encarava com aquele semblante de zangada, de quem exorta um amigo ou um parente.

— E o senhor não dá a mínima para registrar a sua obra? E o nosso disco?

Alceu passou a mão no rosto, de cima para baixo.

— Do fundo do meu peito, vocês sabem que não minto. Digo o que penso. De verdade: quem quiser me ouvir, que venha até aqui me escutar tocar e cantar. Eu amo este bar, as pessoas, vocês dois… não porque vocês sejam os proprietários… eu amo este bar… há décadas nos reunimos aqui. E isso já me basta. Encontro paz e sossego, aqui. E eu acho, aliás, que a fama é exigente demais, sufoca o artista em demandas impossíveis.

Os três detiveram-se em silêncio por um instante. Lurdinha e Aberlado reconheciam sua genialidade, sua sinceridade, por isso o olhavam-no com orgulho e apreço.

— Como pode cantar canções tão belas?… — perguntou Lurdinha depois de longo silêncio. Os clientes observavam de longe.

Com esta pergunta, os olhos de Alceu encheram-se d’água:

— Vou te contar algo que nunca antes disse a ninguém — ele falava entoado, com aquela rouquidão típica de sambista, que brota do fundo da garganta, quando se expressa e se expira desde o ventre —Sou íntimo de mim mesmo, quando não tem alguém por perto. Parece óbvio, mas não é.  Assim, me debruço em mim mesmo e passo um tempo nisto, só cavando. Desço às profundezas do Alceu de verdade e reconheço a sua face de homem que nunca desistiu no meio das lutas, e vou buscar por lá, no fundo da alma, umas poesias, uma canções, o meu jeito mais particular de ser. Depois, apresento o que tudo naquela mesa, ali, aquela… sim, a minha mesa, a mesa que me basta. Mas, apresento porque… é o dever do artista, vocês sabem como é…. Depois descanso. Depois, missão cumprida. Depois, volto para casa. Fico por lá por alguns dias, olhando as paredes e as telas pintadas que os amigos me deram de presente. Leio umas coisas… leio Drummond, Bandeira e João Cabral e outros, e choro, mas ninguém vê, graças a Deus, porque lágrima verídica na cara de artista pode ser sinal de fraqueza, pode ser seu sim, dar em má interpretação. Se vissem as lágrimas que choro todo dia, meu samba perderia a graça, viraria um “caldo ralo”, porque só se pode ver a boa lágrima, com a poesia e tudo, no próprio samba, ali, naquela mesa, onde cada nota do violão e verso cantado é suada e chorada, mas o artista não pode chorar pra o mundo ver, somente no samba, eu já disse. Quando escrevo eu tomo um baque e a boca do mundo vem me visitar, me fazer sofrer, aí eu não suporto o seu peso — daí eu penso nas crianças jogadas, eu penso nos velhinhos… eu penso no amor negado a uma mulher fiel que por sofrer demais caiu na vida, eu penso no cara que morreu de tanto tomar pinga por causa de amor não correspondido, eu penso nessas coisas e penso no próprio samba, na coisa em si, tá entendendo? E após, eu lembro dos grandes que antes de mim cantaram, e a sua música fica tocando o dia todo dentro da minha cabeça, eu lembro da paixão de cada um deles, e as minhas pálpebras começam a pesar abaixo da testa, meus olhos ficam vermelhos, meu nariz se enche d’água e eu começo a fungar e a garganta dá um nó. Tudo isso que digo, a intimidade do artista, é cafona, apelativo, fora de moda? É. Mas sem essa matéria-prima não pode haver samba. Por isso gosto de ficar sozinho.

 

Wellington Amâncio da Silva nasceu em 1979, em Delmiro Gouveia, Alagoas. É professor graduado em Pedagogia e Filosofia, e tem mestrado em Ecologia Humana. Editor das Edições Parresia. É membro da equipe editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Em literatura, publicou-se: Apoteose de Dermeval Carmo-Santo (2019), O Reneval (2018), O Quasi-Haikai (2017), Epifania Amarela (2016), Distímicos e Extrusivos (2016), Diálogos com Sebastos (2015), Primeiros poemas soturnos (2009) e Elegia da Imperfeição (2001).  

 

Categorias
144ª Leva - 04/2021 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Fernanda Paz

 

Foto: Lu Brito

 

Moro numa cidade de bonecos

 

Moro numa cidade de bonecos.

Nem sei como isso começou, sei que sempre gostei muito de bonecas.

É como se eu tivesse acordado de repente nesse lugar, ou no mesmo lugar de antes, e as pessoas é que foram substituídas. Sabe quando a gente para e tenta lembrar o que aconteceu do nosso nascimento até cerca de uns três ou cinco anos de idade? Parece que simplesmente a gente acordou de repente. É isso que sinto agora.

As moradias são do tamanho das humanas, com móveis de verdade. Só que estes são programados. A TV passa quase o dia inteiro ligada. Existem coisinhas parecidas com trilhos dentro da casa que fazem os bonecos se mover por ali bem como na rua.

Na casa que eu vivo, existem dois bonecos. Um feminino e outro masculino. De manhãzinha o boneco se levanta e se direciona para fora de casa, e passa o dia por lá mesmo. Acredito que seja uma espécie de trabalho, já que esporadicamente ele chega com coisas novas, as coisas que vemos na TV. A boneca vai para a cozinha. Eu fico por ali observando o movimento. Também aproveito pra ler. Há muitos livros, mas não são tocados. Acho que não existe ainda mecanismo de leitura nesses bonecos, apesar de se alimentarem e fazerem outras coisas dignas de humano.

Sinto-me estranha. Eles não conversam, nada de sentimento, nada de afeto. Sinto falta dos afagos de família, de beijos de mãe, cócegas no sofá, risos pela casa. Eles se reúnem sempre à noite, em frente à televisão. Em algumas ocasiões me põem nos trilhos e sou obrigada a fazer certas coisas e ir a lugares dos quais não gosto. É complicado porque os meus pés não se adequam nunca e doem. Quando vou a esses lugares realizo trabalho chato. Lá não posso cantar que é algo que gosto bastante.

Acho que meu canto é de certa forma inútil pelo fato de não conseguir enxergar nenhum tipo de vibração por parte dos bonecos. Deduzo que eles não apreciam música. O rádio nunca é ligado, só por mim. Mas a música que existe na cidade dos bonecos é de uma péssima qualidade: rimas pobres, ritmos chatos, melodia irritante aos ouvidos. Então, logo desligo. E canto.

Lembro-me da criatividade humana quanto à música e começo a cantá-las. Meu coração se entristece um pouco por não poder mais tê-las. Se fosse boa o suficiente eu comporia, mas apenas canto. Há dificuldades de relacionamento entre mim e os instrumentos musicais. Contudo, do que acontece na cidade dos bonecos, esse é o fato que mais me entristece.

Vivo aqui e espero o dia em que os bonecos se transformem em seres humanos para que tudo se torne completo. Nas minhas reflexões penso se isso há de ser um tipo de praga que contamina o mundo aos pouco. Penso no dia em que eu serei contaminada e me tornarei uma boneca. Choro, depois acalmo, acreditando que se me transformar certamente entenderei a lógica deles e terei felicidade em viver de tal modo. Não há espaço aos que no mundo estão diferentes.

 

 

 

***

 

 

 

Envelope

 

Começamos a namorar.

Enlouquecida, deixei que tudo acontecesse muito rápido.

Primeiro, se foram os olhos.

Ele me arrancou um de cada vez. Comecei a poder ver menos, devagar fui me acostumando, e quando me arrancou o segundo eu já não senti tanta dificuldade de adequação. Não pude mais ver nem mesmo a ele mesmo, o que fazia, com quem convivia.

Mas eu o amava e deixei.

Da outra vez foi minha boca. Deixei de opinar. Na hora não vi necessidade porque certas coisas que saíam dela visavam nosso próprio bem-estar.

Mas eu o amava, e podia aprender a viver sem falar.

Arrancou-me um dos ouvidos. Poucas coisas eu podia ouvir dele antes de me arrancar o outro. Do que conversava com os amigos, do que lhe diziam as outras garotas.

Mas eu o amava e não me importei.

Quando me arrancou um braço, ainda consegui dirigir por um tempo. Eu queria estar nos lugares. Mas sem os dois braços, passei a ficar mais tempo em casa. Sequer podia fazer o que eu mais gostava: escrever.

Mas eu o amava e acreditei que faria bem.

Um dia me arrancou as pernas, ambas ao mesmo tempo.

Nosso relacionamento se resumiu a cama, pois era o lugar onde eu conseguia passar todo o tempo, sem queixas. Confesso que foi difícil essa vida.

Mas eu o amava, e me contentei com suas visitas e frases de amor.

Muito tempo de cama me fazia ter certas reflexões.

Quando ele apareceu para mais uma visita de amor, eu estava pronta.

Entreguei-lhe um envelope numa pulsão risonha.

Ele abriu e pôde ver.

Lá dentro estava todo o meu amor. Eu o estava devolvendo em troca de mim.

Com dificuldade ele aceitou, e me devolveu tudo de uma vez só: olhos, pernas, braços, ouvidos.

Agora ali estava eu, com tudo que precisaria para recomeçar.

E ali estava ele, com o meu e o seu amor nas mãos.

 

Fernanda Paz é Artista Visual e Especialista em educação infantil pela UFPI. Professora, escritora e produtora no FragmentadoLab. Estudou Teatro e participou de curtas metragens, performances e montagens teatrais. Tem dois livros publicados “O Buraco e Outras Histórias”(Multifoco, RJ) e “Olhos de Vidro”(Quimera, PI), participou de antologias de contos e poemas e publicações em revistas virtuais.