Ventos de dentro, quando nascem e tomam corpo de gente, ignoram contenções. Precisam soprar e dançar nos quintais dos dias, das noites e das madrugadas. Precisam varrer emudecimentos, rodopiar nos terreiros de que somos feitas/os, acordar o chão e lançar nuvens de poeira ocre-vermelho-cobre no mundo. Esses ventos são abalos necessários que incham de vida a arte e de arte a vida; só têm significância se sentidos por outres também atravessades por dentro (esse espaço ainda nem tanto conhecido) – cada qual ao seu modo de intensidade(s).
Ventos profundos e dançadores têm espalhado para outras paragens o universo sonoro de Rafique Nasser. Nascido e vivido em Valença (território cultural do Baixo Sul Baiano), com seus 19 anos, esse jovem negro do quintal de si dialoga bela e intensamente com o vasto acervo do cancioneiro nordestino setentista: Fagner, Ednardo, Orquestra Armorial, Ave Sangria, Lula Côrtes e Zé Ramalho manifestados nos poderes do invisível em Paebirú (e tantas outras possibilidades musicais daquela década vibrante). Também Rafique Nasser acolhe em si outras cantorias no que há de mais esperançoso, logo afrontoso: quem sabe um Dércio Marques na sua potência sonhática, por exemplo. Esses sobrevoos de Rafique reverberam aqui e acolá no EP Arado (2017).
Num ano bastante ebulido no cenário musical baiano, Arado, primeiro registro sonoro de Rafique Nasser, ficou entre os dez finalistas na votação de melhor disco de 2017, organizada pelo site El Cabong. Muito bem produzido no interior da Bahia, o EP reúne compositores e músicos de Valença, Ilhéus, Itabuna, Ipiaú, o que me faz pensar num elemento a mais dessa profundeza, desse lado de dentro que é tão saltante em Arado. Não por estar nas indicações do El Cabong esse EP captou a minha atenção. Conheci Arado a partir da indicação virtual feita por um amigo. E confesso: dei o play em casa mesmo, nos trânsitos de afazeres de casulo. Logo na abertura, suspendi as movimentações domésticas e fui colecionando pequenos assustamentos provocados por deliciosas descobertas. Foi primeiramente na interioridade do casulo que fiz o mergulho (novamente o lado de dentro).
Rafique Nasser / Foto: arquivo pessoal
Fiquei e fico sem poder baixar a guarda da esperança quando me re-inaugurei (e continuo reinaugurando-me a cada nova sessão sonora) ao ouvir o EP de um jovem que, com menos de vinte anos de permanência neste mundo, salta para trás e nos traz um caçuá transbordante em diálogos musicais. Rafique Nasser chega e não vem só. Uma falange de cantadores (os de ontem, os de hoje, todos permanecentes) toma assento e lança focos de incêndio nas nossas profundidades – que resguardam os sonhos, amores, as esperanças políticas. Já na primeira música, manifestado em psicodelias cortantes, Rafique brada e canta com a rouquidão macia de quem muito tem a dizer ao mundo: “Depois da bomba atômica vem/ um cogumelo para nos alimentar” (Rafique Nasser, Na Valença)
“O rasgo na terra é preciso” (Rafique Nasser/Ayam Ubráis, Arado). Diria que certeiro, necessário. Daí brotam os sentidos do novo, dos poderosos frutos teimosamente gestados em tempos tão ameaçadores quanto estes que nos cortam a experiência de existir. E assim é Arado: “esse canto torto”, que fere a inércia e alimenta movimentos de re-existências. Sensivelmente gestado pelas vias da marginalidade e camaradagem artística, esse EP pode ser acessado nas principais plataformas virtuais e vem como intenso chamamento para que a gente, do lado de cá, avie, tome rumo e corra trecho negando a imobilidade que parece ter se transformado no mote do agora que nos é imposto. São cinco canções, cinco chamamentos, cinco desafios/ventos de dentro, cinco intensidades imãtizando as nossas veredas do sensível.
Penso Arado como inauguração do jovem músico Rafique Nasser e também (re)inauguração nossa. Ver Rafique Nascer em poetência sonora é enxergar em nós ovo das esperanças cortantes, é “Deixar que Deus se vingue por nós/ já que o nosso algoz/ está sentado no trono do poder” (Rafique Nasser, Nessa terra). E assim, Rafique, nascido, vai conosco (re-inaugurades) cosendo e colhendo ameaças ao desencanto, dançando em pontas de facas e lançando ao mundo canções cortantes que mantêm “teso o arco da promessa”, como bem diz outro baiano, Caetano Veloso. Com olhar poético e voz dissidente, Rafique Nascer, acompanhado por tantes, é também o que eu chamo de “interrogação vagando com pressa”. Daí a experiência imprescindível de ouvi-lo em Arado.
Daniela Galdino (BA) é Poeta, Performer e Produtora Cultural. Docente da UNEB. Como Poeta, publicou Espaço Visceral (Editora Segundo Selo, 2018), Inúmera/Innumerous (Mondrongo, 2017), Inúmera (Mondrongo, 2013), Vinte poemas CaleiDORcópicos (Via Litterarum, 2005). Organizou Profundanças 2: antologia literária e fotográfica (Voo Audiovisual, 2017) e Profundanças: antologia literária e fotográfica (Voo Audiovisual, 2014).
Continuar os caminhos é sempre uma complexa missão quando o assunto é a criação artística. Nesse processo, o desafio maior parece ser o de desenvolver um novo projeto com consistência e uma identidade própria, capaz de comunicar algo ao mundo. É no quesito autoral que as coisas ganham corpo, sobretudo na expectativa gerada em torno daquilo que um artista pretende expressar ao seu público após ter obtido sucesso com um trabalho de outrora.
As linhas que iniciam este texto se aplicam bem à trajetória de uma banda como OQuadro. Tradicionalmente marcado pela sonoridade emanada do rap, o grupo agora traça seu novo voo através do seu segundo disco, Nêgo Roque (Natura Musical), consciente de que tem em mãos uma vasta possibilidade de enveredar também por outras vias musicais. Tudo isso, claro, sem deixar de lado a potência discursiva e sonora do gênero que marca a banda desde as suas origens, algo que remonta a pouco mais de duas décadas de estrada.
A julgar pelas escutas de cada uma das 12 canções, a aposta em Nêgo Roque rendeu bons frutos. OQuadro continua colocando em prática o viés da criatividade coletiva na concepção de seus trabalhos. Isso significa que cada detalhe que compõe letras e arranjos foi pensado de forma a contemplar a participação ampla de todos os integrantes da banda. O resultado dessa sinergia de diálogos desembocou num álbum que projeta o grupo numa condição de sempre ter algo relevante a nos dizer.
OQuadro / Foto: divulgação
Desde a faixa abre-alas, Ainda é cedo, já somos devidamente apresentados ao universo revitalizado da banda. Dizer isso representa a constatação de que os sentidos aqui estão abertos para perceber o mundo em que vivemos, lugar este que nem sempre nos transmite boas novas, atravessado que está por nossas colossais desumanidades cotidianas. Na canção que batiza o nome do disco, a qual conta com a participação de BNegão, paira a sensação de que a expressão que vem de África não pode se reduzir a um espaço geopolítico delimitado no mapa mundi, mas sim de algo maior, sentimento que atravessa fronteiras e assume seu lugar de destaque no pensamento e na ação dos sujeitos dispersos pelo mundo. Noutro momento, estamos diante de Trabalho, composição que lança um olhar de criticidade sobre a lógica perversa das relações trabalhistas, estas mesmas que ainda trazem, sobretudo num país de marcas colonizadoras como o Brasil, reminiscências e máculas da exploração do homem pelo homem segundo a estúpida ordenação capitalista.
Em Muita onda, faixa que conta com as participações de Emicida e Dj Gug, o vigor discursivo das falas não deixa nada a desejar, representa a propriedade de uma atitude inquieta que se exalta após se deparar com a avalanche de acontecimentos de uma conturbada contemporaneidade. Nesse “mar revolto” da tão propalada pós-modernidade, o sujeito da perplexidade testemunha seu tempo sem se considerar acima de qualquer regra estipulada. É ele mesmo um alguém que transita pelas vias escorregadias da sua própria identidade.
Me diz quanto vale expressa um questionamento permanente a respeito da violência, mesmo que algumas vezes simbólica, exercida sobre o Outro. Então, quem seríamos nós para mitigar nossos semelhantes em razão de qualquer suposta diferença ou pelo simples capricho de reproduzir a miopia das relações de poder? Certamente, a resposta ficará a cargo das nossas consciências e do quanto estamos imersos numa noção de controle da liberdade alheia, as tais amarras do corpo e da mente.
Se a paisagem que atravessa a vida está impregnada por uma insônia manifesta, há momentos em que buscamos algum alento. Diante do contraste entre tensões e levezas tão típicas das paisagens humanas, é salutar pensar que uma canção como Luz vem para equilibrar nossas mais opostas percepções da existência. É uma espécie de tomada de consciência que aponta para um necessário resgate do sublime em nós. Seguindo esse fluxo, a canção aqui ganha contornos de beleza pelas luxuosas interpretações de Indee Styla e Raoni Knalha.
OQuadro / Foto: divulgação
Um dos pontos altos do álbum é certamente Jahggant, um verdadeiro conjunto de referências que conciliam elementos derivados do jazz de New Orleans, efeitos eletrônicos e da pungência da cultura afro-brasileira. Nessa harmoniosa evocação de ritmos que dialogam entre si, OQuadro consegue comunicar o poder precioso da mescla de linguagens sonoras que aproxima mundos distantes. Já Pés no chão reforça a necessidade de se firmar a continuidade dos caminhos sem perder a lucidez e tampouco a capacidade de sonhar, e nos diz: “A verdade precisa de quem milite em nome dela/ e não de revolucionários de meia tigela”.
Nêgo Roque é um álbum que nasce com uma proposta de comunicar pelas vias mais enxutas possíveis e mais certeiras, é o que nos diz o baixista e também vocalista Ricô. Segundo ele, uma perspectiva de simplicidade foi buscada para os arranjos. “Em alguns momentos, esteve presente a ideia de estudar o silêncio, o barulho e o rock também. O rock é muito além de distorção, está na fala, nas frequências mais graves e sujas, e acho que a gente conseguiu usar isso de maneira minimalista e inteligente ao mesmo tempo”, sustenta.
Norteado por um viés experimentalista, o disco segue a atmosfera do rock e tem a característica marcantemente voltada para o afropunk, evidenciando uma atenção especial às temáticas ligadas ao negro e seu lugar no mundo. A banda reflete sobre a negritude como um resgate de algo pretérito, mas também direcionando um olhar para o futuro, quiçá um ambiente de ressignificação, diálogo e construção identitária. Por sua pluralidade vocal, potencialidade discursiva, arranjos cuidadosamente elaborados e um trajeto por múltiplos estilos e texturas sonoras, é possível arriscar que o OQuadro inscreve sua importância na cena musical brasileira contemporânea. Eis aí algo irreversível.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
É certo que de passo em passo se constrói um caminho e é de single em single que a baiana Illy Gouvêa vem conquistando seu espaço, não só junto ao público e à midia, mas também aos artistas já consagrados da MPB. Pavimentando uma carreira cuidadosa e sólida, regida com louvor por Jorge Velloso, Illy lançou em junho deste ano seu primeiro de dois singles, Afrouxa.
Com cinco músicas, disponíveis gratuitamente no spotify, o trabalho tem como carro chefe a faixa Afrouxa, canção inédita de Arnaldo Antunes, um dos compositores paulistas mais baianos, em parceria com Davi Moraes e Pedro Baby. Esta primeira música já mostra de cara que, mesmo radicada no Rio, a baiana quer mesmo é trazer ainda mais a Bahia para o mundo.
Mas esqueça clichês de axés, arrochas, humor escrachado ou pagodões. A Bahia que Illy traz, sob regência do produtor Moreno Velloso, um craque, é a Bahia de ritmo próprio, com uma leve lembrança dos Novos Baianos, mas com outros baianos. E se arte fala e mostra, Afrouxa faz isso tudo e mais: traz sensação. É quase possível sentir o cheiro do dendê misturando com alfazema e mijo da lavagem do Bonfim. A musicalidade que acompanha os versos de manhã /ainda é cedo / de tardinha, amor/ ainda é cedo também é um explícito convite à cidade alta para ver o pôr do sol nascer, deixando neste verso o jogo de oposição poética, uma marca de Arnaldo. Tudo isso com a percussão contrastando a doçura vocal de Illy.
Imagens são o que não faltam nesta faixa, na qual os compositores mostram que a sereia (talvez do Rio Vermelho) é Iemanjá, que beija Iansã e também Nanã, ampliando o cenário da baía com beijo da chuva com o mar. E o tom libertário da música, de quem pede um pouco de espaço para curtir a profanidade baiana, exemplificando o beijo de Adão e Eva, sem esquecer a lealdade (não suposta fidelidade) do amor, segue para uma balada mais pop em Só Eu e Você, lançada em 2016 e produzida por Alexandre Kassin.
A música, com letra de Chico César, ficou conhecida pelo grande público ao se tornar tema de Claudia Ohana na novela Sol Nascente e é uma daquelas baladas que não saem da cabeça. A faixa traz também a intensidade artística de Illy, quando degusta dos versos vigorosos fazendo amor/botando pra moer/ só eu e você ou tudo em pausa só por causa do eclipse/ da elipse que o tempo fez por nós, dando sobriedade e sinceridade a um término de um romance de sexualidade profunda e energias explosivas. A balada pop, que já abre falando que o Instagram não terá fotos, comunica tanto com as novas gerações digitais, quanto com as gerações analógicas.
Illy / Foto: Fernando Young
E Illy é ainda mais Illy quando começa a faixa Ela, do baiano Arnaldo Almeida, integrante da histórica Confraria da Bazófia. Uma letra de mulher forte, extremamente apaixonada, intensa e, principalmente, inteligente. Não à toa, esta é a música do meio e nos dá a melhor pista do que virá no próximo single, Djanira, a ser lançado em novembro e que já tive a honra de ouvir. Sem o feminismo de fachada, em voga ultimamente na tal arte engajada, mostra não só o trânsito livre social da mulher ela é do centro mas não se incomoda/com as cores do subúrbio, como também a alma feminina, que se apaixona, mas observa. A mulher do século 21, que transpira formosura enquanto é sulamericana, inglesa, do tempo e, acima de tudo, baiana. Com a percussão da terra da magia e de musicalidade gostosa, fácil de ouvir e viradas empolgantes, Ela traz a suavidade da voz de Illy, mas com ataques nos versos um pouco mais firmes.
Enquanto você não chega, de mestres baianos como Cézar Mendes, Capinan e Pretinho da Serrinha, traz em sua musicalidade a lembrança do samba santoamarense, terra de Cezinha. Com a poética utlizando-se de termos do samba como enredo, porta-bandeira e compasso, é uma ode ao samba. Dentre tantas homenagens ao ritmo já produzidas, esta se destaca por mostrar a doçura de Illy de uma forma mais ágil, valorizando também a sonoridade do recôncavo baiano, em excelente produção de Alexandre Kassin.
Ainda aproveitando-se da influência do samba, talvez onde Illy se encontre melhor, Olhar Pidão tem musicalidade um pouco mais de balada, e a letra, do também baiano Ray Gouvêa, segue a linha da mulher forte e irresistível, em jogo de palavra que amacia o ouvido: quando você me olha com esse olhar de louça/outra moça fica pra trás. A faixa curta encerra o single deixando o ouvinte com gostinho de quero mais.
E virá mais Illy em Novembro, com o single Djanira, que, junto com Afrouxa, se tornará o albúm Voo Longe, produzido por Moreno e a ser lançado no ano que vem. Enquanto isso, você pode assistir aos clipes de Illy e aos vídeos dela com artistas como Caetano, Fagner, Chico César e Mart’nália.
Thiago Mourão é escritor, autor dos livros Mosaico de Sensações e Java Jota e de alguns artigos políticos em O Globo. Atualmente, prepara um livro de contos para ser lançado em breve. É também revisor responsável pela Editora Bem Cultural e trabalha com assessoria de imprensa da bela região do Vale do Café, no Rio de Janeiro.
Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, lançou quatro álbuns de estúdio em carreira solo, antes de morrer, em 7 de julho de 1990, vítima da aids. “Só se for a dois” é seu segundo trabalho e, visto no conjunto da obra do cantor e compositor carioca, pode ser considerado um disco menor. É, de acordo com números da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), o que registra a vendagem mais baixa: 600 mil cópias. Artisticamente, também não tem canções icônicas, a exemplo de seu antecessor “Exagerado” e de seu sucessor “Ideologia”.
O caso é que “Só se for a dois” não pode ser analisado somente pelo universo que contém em si. Passados exatos trinta anos, sua importância está em ser um álbum inexoravelmente de transição, uma ponte modulante para tudo o que transformou a vida e a maneira de enxergar o mundo do seu autor.
Antes de entrar no repertório do disco, é preciso reconstituir um momento dramático, que seria chave de virada para a carreira de Cazuza. No livro “Só as mães são felizes”, construído a partir de depoimentos de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, a Regina Echeverria, esta relata que, um mês antes do show de estreia de “Só se for a dois”, o cantor começou a apresentar sintomas de debilitação da sua saúde. Preocupada, Lucinha pediu que o filho fosse ao médico. Na volta da consulta, ela perguntou sobre o parecer clínico, no que Cazuza respondeu: maneirar. E completou: “Isso é uma virose boba. Logo vou me curar!”.
Mas não era virose, nem doença boba. Às vésperas do show, o médico chamou Lucinha e seu marido João ao consultório e revelou que seu filho havia sido “tocado pela aids”. O próximo a saber foi o produtor Ezequiel Neves, que tinha Cazuza como neto (o chamava carinhosamente assim). Foi Ezequiel quem convenceu o cantor a retornar ao médico, e estava do outro lado da porta quando este ouviu o resultado do exame de sangue (ter o vírus HIV, nos anos 80, era uma sentença de morte) e correu atrás dele até a praia, numa cena refeita pela diretora Sandra Werneck, no filme “Cazuza – O tempo não para”. “Zeca, eu sei que todo homem nasce e morre um dia, mas eu não mereço isso!”, chorou igual a um menino.
Naquele mesmo ano de 1987, ao fim da turnê de “Só se for a dois”, Cazuza, seus pais e Ezequiel Neves fizeram a primeira viagem aos Estados Unidos, em busca de tratamento. “Não vou deixar você morrer, meu filho. Vou virar céus e terras, vou vender minha alma ao diabo, mas você não morre”, sentenciou Lucinha. Porém, foi somente na segunda internação no hospital de Boston, para combater uma febre incontornável, que o cantor iniciou o tratamento com o novíssimo AZT. Apesar de causar efeitos colaterais pesados, a droga restabeleceu o ânimo de Cazuza, que começou a trabalhar agora sob um lema: urgência!
Dessa fase, nasceu o álbum “Ideologia”, de 1988, e o espetáculo subsequente, dirigido por Ney Matogrosso, que iria resultar no disco ao vivo “O tempo não para”, lançado um ano depois. Nesse mesmo período, Cazuza concedeu uma entrevista ao programa “Cara a cara”, conduzido pela jornalista Marília Gabriela. A certa altura, ele declara que, por conta de uma “inveja criativa” pelas letras do Renato Russo, decidiu falar também sobre a sua geração, escrever sobre o Brasil, e sair da dor de cotovelo, do nhem nhem nhem.
Pois a identidade de “Só se for a dois” é justamente essa dor de cotovelo, esse nhem nhem nhem. Ao contrário de “Ideologia”, em que alarma: “O meu prazer/Agora é risco de vida”, o segundo trabalho traz versos leves: “O nosso amor a gente inventa/Pra se distrair”. Se antes saudava a vida: “Viver é bom/Nas curvas da estrada/Solidão, que nada”, agora entrevê a finitude em sua própria imagem: “Eu vi a cara da morte/E ela estava viva – viva!”.
Cazuza / Foto: divulgação
“Só se for a dois” é, portanto, um trabalho marcado pelo romantismo, por um lado que o próprio Cazuza definiu como o de “cantor de churrascaria”. Mas, posto na distância dos anos, é o derradeiro registro de um compositor que nunca mais existiria além dessas faixas, de um homem ainda despreocupado e repleto de vitalidade física e emocional, em oposto àquele que a aids e os sintomas da doença iriam cunhar: um artista que resolve processar as mazelas do país e a própria; que não tem outra alternativa exceto dar forma ao seu trabalho em meio à urgência, contra o tempo que não para.
Engana-se, porém, quem acredita que o disco seja embalado em platitude. Se a proporção sonora se despede aos poucos da gravidade e dos rasgados riffs de guitarra, herdados da passagem de Cazuza pelo Barão Vermelho, é possível divisar um artista experimentando casar seu timbre roufenho a novos ritmos. Nas 11 faixas que integram o elepê, há uma aposta em arranjos multíssonos, num escopo musical cuja densidade consiste em elementos do blues, do pop rock, da MPB, do uso de sintetizadores, da voz e violão.
À parte os hits “O nosso amor a gente inventa” e “Solidão que nada”, que figuram até hoje nas paradas noctâmbulas, as canções se alternam entre o andamento acelerado e o lento, às vezes emulando o canto à capela, nas quais se derramam contemplações sobre o amor, as despedidas de relacionamento, uma interação meio blasé com a melancolia, os deslindes mundanos e as introspecções de uma existência frívola e desregrada. A veleidade e a irreverência também dão as caras.
Em “Lobo mau da Ucrânia”, por exemplo, Cazuza faz uma versão radioativa do clássico personagem das histórias infantis, ambientando-o ao desastre de Chernobyl. Já a faixa-título canta uma babel de miscigenação entre os povos e entre os corpos, ao passo que a dançante “Vai à luta” dá uma alfinetada nos críticos ao comportamento do cantor. “O pessoal gosta de escrachar/De ver a gente por baixo/Pra depois aconselhar/Dizer o que é certo e errado”.
“Completamente blue” e “Quarta-feira” flertam, em sonoridade e letra, com um clima down. “Heavy love” e “Balada do Esplanada”, por sua vez, são belos opostos. Enquanto a primeira fala de uma relação inconsequente (“não sei se é paixão ou doença”), a segunda é um pedido a alguém para que esqueça o mundo e fique contigo.
Porém, nem tudo é evidente e pressuroso. Ainda que sem a contundência dos álbuns posteriores, Cazuza planta alguns subentendimentos em duas composições, relacionados à sua bissexualidade (ou homossexualidade). “Ritual” traz a frase: “o amor na prática é sempre ao contrário”, e “Culpa de estimação” (caso o título não seja suficiente) fala de um cara (ele) que, por onde anda, tem ao lado a namorada, embora não saiba se o nome dela é Eva ou Adão. “Guarda segredo e diz que não é chantagem”.
“Só se for a dois” não prenuncia o artista aclamado que Cazuza iria ser, justamente por não ter sido a arte o motivo maior de sua busca por temas críticos e versos mais elaborados, de abandonar as areias de Ipanema e cobrar ao Brasil que mostrasse a sua cara. É, desse modo, um disco que guarda uma certa ingenuidade, um trabalho dominado por uma energia que, trinta anos depois, sabemos que estava prestes a se dissipar, tal uma foto despretensiosa batida minutos antes de um acidente.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
Fodido demais é o terceiro e mais recente trabalho do quarteto carioca Do Amor. Gustavo Benjão (guitarra e voz), Gabriel Bubu (guitarra e voz), Ricardo Dias Gomes (baixo e voz) e Marcelo Callado (bateria e voz), nestas dez canções (mais bônus track), seguem firme em sua antropofagia pop globalizada, ao deglutir e transfigurar ritmos variados – do indie rock ao partido alto, passando pelo frevo e pelo free jazz – utilizando guitarras, distorções, sintetizadores e um senso de humor peculiar que são a assinatura da banda.
Quem conhece já está acostumado e até espera essa miscelânea sonora. Em Fodido demais, no entanto, o caldeirão do Do Amor pareceu mais equilibrado e enxuto (apenas 11 faixas, contando com a bônus track, pouco se comparado ao disco anterior, “Piracema”, com 18 canções). A concisão, os arranjos mais redondos e sutis e a seleção e a organização do repertório apontam para uma banda mais madura, sem que isso represente qualquer quebra no que vinha sendo feito até então. Os rapazes estão, claramente, polindo o projeto estético que vêm desenvolvendo.
Se até a faixa sete, Fodido demais apresenta a faceta rock da banda de forma mais evidente, mesmo que em sentido amplo e sem um respeito conservador ao gênero; as quatro últimas atiram-se de forma mais descarada no samba, no frevo e em demais ritmos do país. Mas sempre através de um filtro cosmopolita, como o partido alto com sintetizadores “Minhas vozes”, a bem-humorada “Metaleiro vento”, faixa que começa como um free jazz e logo incorpora ritmos regionais brasileiros, fazendo a cama sonora para versos como “Metaleiro vem/ Pegue nessa viola/ Eu sei que você curte Astor Piazolla/ E isso você nunca pode negar” e “Metaleiro sai/ Saia dessa redoma de fumaça preta/ Caia no reggaeton e abrace o capeta/ Ele brinca com fogo e você de Abadá”. O bloco “não rock” se completa com “Frevo da razão”, um frevo à moda Do Amor que conta com a participação luxuosa – e grave – dos vocais de Arnaldo Antunes.
Do Amor / Foto: divulgação
Mas rock e não rock não são boas formas de dividir o trabalho da banda, já que o apagamento dessas dicotomias e de quaisquer fronteiras sonoras é parte da proposta do quarteto. Assim, o indie rock de guitarras “Peixe voador”, música que abre o álbum, convive harmoniosamente com “Fodido demais”, canção densa cujo peso remete ao grunge e que traz trechos da obra Do Amor, do autor francês Stendhal, recitados pelos quatro integrantes, e com “A lince”, faixa com um quê de rock progressivo, mas com a virtude de não se deixar enfeitiçar pela egotrip virtuosística característica do gênero.
Duas faixas parecem estabelecer conexões mais próximas a músicas de outros trabalhos: o hit pop de Benjão “O aviso diz” é primo-irmão de “Ofusca”, canção de “Piracema”. O parentesco não é à toa, já que “O aviso diz” foi composta na época da pré-produção do disco anterior. Já “Make songs”, de Dias Gomes, remete não só a “I’m a drummer”, de Marcelo Callado, pelo jogo de palavras em inglês que as duas faixas estabelecem, mas, também, por obedecer a uma estrutura de repetições que parece atrair o baixista e que está presente, por exemplo, em “Exploit”, faixa do primeiro disco, “Do Amor”, lançado em 2010.
Fodido demais deve ser ouvido várias vezes, se possível com fones de ouvido, o que permitirá escutar as camadas sonoras e as texturas que se escondem por trás de arranjos que só são simples na superfície. Neste terceiro álbum, a Do Amor sedimentou sua proposta estética e valorizou ainda mais as canções, demonstrando que a maturidade trouxe sutilezas benéficas para a banda e, por que não, para os ouvintes.
Tiago Velasco nasceu em 1980. É doutorando em Letras na PUC-Rio, mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ, jornalista e escritor. Autor dos livros de contos Petaluma (Oito e Meio) e Prazer da carne (Multifoco), além do livro de não ficção Novas dimensões da cultura pop (Multifoco). Em 2015, ficou em quarto lugar no Prêmio Off Flip de Literatura na categoria contos.
Há quem considere o tempo senhor de um tudo. Entre memórias, gestos e ações, a vida vai moldando seus caminhos. E sempre fica a sensação de que jamais teremos o controle absoluto das coisas. Se de um lado está o passado com suas imagens já estabelecidas em nós, do outro surge o presente enquanto possibilidade de renovação. Diga-se de passagem, é neste último que as rotas podem ser alteradas, seja para transformar parcial ou inteiramente o imprevisível palco da existência.
Mudam as estações e chega um momento em que a nossa intensidade e rapidez acabam cedendo lugar a uma necessidade de quietude. Deixamos de lado a verborragia de outrora e passamos a uma condição de estarmos mais abertos à escuta e a uma atitude mais contemplativa das coisas. É então, que amanhece em nós, os tais seres adultos tão embaraçados com questões cotidianas, uma vontade pura de libertação. E falar em pureza implica aliviar as bagagens da caminhada até aqui. Sugere desprendimento e evoca a aparição da porção mais pueril que possa brotar de cada um.
Tudo o que acabo de dizer acima ganha sentido quando escutamos um disco como Círculo, mais novo trabalho do cantor e compositor pernambucano Helton Moura. Ora, vejamos, o artista em questão muda radicalmente seu caminhar para agora nos conduzir por vias através das quais a leveza se faz senhora. Acostumado a intensidades vocais e textuais presentes em sua trajetória, todas elas a representar uma habitual inquietude, Helton agora resolve trilhar um caminho inversamente proporcional ao seu natural desassossego.
Círculo é muito mais do que a continuidade de uma carreira. Assinala, como confessa o próprio artista, uma necessidade de dar vez e voz ao silêncio, algo que numa leitura apressada poderia soar um tanto paradoxal para alguém como Helton. O fato é que o cantor ignora o ritmo frenético e incessante que sempre fez parte de sua vida para buscar abrigo num ambiente musical marcado fundamentalmente pela leveza e serenidade. É nesse novo momento que a matéria-prima das canções aflora suas sublimes possibilidades.
Helton Moura / Foto: arquivo pessoal
Estamos diante de um EP com cinco faixas completamente voltadas para o frescor que a redescoberta da vida foi capaz de proporcionar a um artista como Helton. De todas as composições, Canção parece resumir bem o significado do disco, pois traz a referência maior que perpassa o presente do artista, qual seja calar a voz para ouvir pacientemente o que o silêncio tem a dizer. No fluxo poético da música, os sentimentos privilegiam tudo aquilo que não foi dito ou, quiçá, ficou pelo caminho e por dizer.
Quando escutamos a canção que dá nome ao álbum, percebemos que ela é uma espécie de ode ao desejo de leveza. Algo como seguir em frente sem as amarras que teimosamente nos impomos. Mais adiante, são os apelos de Singela que tomam conta dos ambientes. Nela, um convite à reflexão aponta para o caráter cíclico da existência, este sempre envolto em perguntas e respostas, mas que, ao fim e a cabo, retoma a origem das coisas num movimento inerente à condição humana.
Ao dedicar uma das músicas a sua filha, Pra Juju, Helton enaltece a sua busca pela serenidade. E há muito mais dentro dessa atitude, cujo principal efeito é o que leva o artista a penetrar numa dimensão pueril e dela retirar um novo aprendizado para seguir vivendo. Mas eis que, encerrando o EP, chegamos até ogisnoc oãn ue euq a, faixa que é o inverso de A que eu não consigo, a qual é reproduzida de trás pra frente. O mais curioso é pensar que este último ato do disco soa realmente como uma oração. É, na verdade, um elo com o próximo álbum do cantor, que trará a canção em seu andamento normal e encabeçando o trabalho.
Falar de Helton Moura é apresentar todo um universo que compreende uma vida voltada para diversas frentes da arte. Natural de Arcoverde, o cantor também se dedicou ao teatro, à poesia e ao cinema, além de trazer em si um componente performático em muitas de suas aparições. Seu lirismo peculiar o tornou conhecido como uma espécie de trovador contemporâneo. Círculo instaura uma nova fase nessa múltipla expressividade do artista, tão acostumada a torrentes de manifestação. O que está reservado para o hoje é um misto de superação de barreiras pessoais, revelações e descobertas intimistas e, o mais importante, a afirmação de um desejo de olhar tudo com suavidade.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
Há pontos de partida e chegada nesse imenso território chamado vida. No movimento dos decisivos arremates aos quais ousamos, habita um ponto intermediário que nos permite acessar alguns retornos. Não se trata necessariamente de voltar a determinadas origens, algo que poderia remeter a um sentido de nostalgia. Definitivamente, não é isso. A ideia aqui presente é a de que certos recomeços têm muito mais a ver com superações de cenários pretéritos, assinalando, pois, etapas que inauguram novos estágios da consciência em torno de fatos, lugares e pessoas.
Quiçá a nossa passagem aqui pelas bandas terrenas não seja também um exercício constante de estarmos atentos aos sinais de toda natureza. Tudo isso talvez para entendermos quem ou o quê realmente nos tornamos. E fica a pergunta: ainda dá tempo de modificar certas trajetórias?
Ao que parece, a indagação lançada acima faz parte das novas veredas trilhadas pelo músico Marcelo Yuka. De imediato, o nome de batismo de seu novo disco, Canções para depois do ódio, assemelha-se à ponta de um gigantesco iceberg. É, de fato, um título sugestivo, impactante e provocador a nos situar em meio ao mar bravio das procelas humanas. Numa tradução mais ágil, a constatação do quanto se é possível a qualquer pessoa interferir no seu próprio destino.
Canções para depois do ódio é um verdadeiro enxergar além dos domínios mais acostumados. Aposta num porvir perfeitamente enquadrado numa noção de renascimento das pessoas. Como é de costume, não faltam a Marcelo Yuka as ferramentas discursivas capazes de evocar um caminho para as mudanças de rumo. Em todas as suas faixas, o disco promove deslocamentos de tempos e espaços que se harmonizam com a agudez do verbo de seu criador.
É justamente na potência verbal de suas composições que Yuka confere um caráter orgânico ao seu novo trabalho, pois cada uma das 16 canções do álbum aparece integrada a um complexo painel de observações sobre a contemporaneidade e seus laços. Nesse trajeto musical, há um fluxo através do qual nada se dissocia de um conjunto que carrega em si um vigoroso corpo de significados. De um ponto a outro da obra, tudo se encaixa e cada peça desse vasto mosaico de imagens não sabe viver sem o seu correspondente.
Marcelo Yuka em show no Circo Voador / Foto: Daniela Dacorso
Após percorrermos canções como O dia em que o homem se cansa, Por pouco, Myto, Agora nesse momento, A carga, Memórias artesanais e Algo mais explícito, temos uma noção mais apropriada do movimento vivo que está contido no disco. Em cada parte do álbum, restam claras as razões pelas quais Yuka se consolida como um dos letristas mais significativos de seu tempo. Como poucos, sabe transitar com pungência por matizes políticos, filosóficos e afetivos, pondo em evidência o papel desempenhado pela memória.
Um outro grande aspecto do disco são as escolhas vocais. Contando com as valiosas interpretações de artistas como Céu, Black Alien, Cibelle, Barbara Mendes, Seu Jorge, Vicky Lucato, dentre outros, as canções se apresentam com um vigoroso repertório imagético e sonoro. Em boa parte delas, está presente a voz marcante de Bukassa Kabengele, cantor belga de origem congolesa, que integra A Entidade, banda conduzida pelo próprio Marcelo Yuka (voz, programações e sampler) e em cuja formação também traz artistas como Ricô Bassito (baixo e percussão), Bárbara Ferr (voz), Tedy Santana (bateria e percussão) e Muralha (VJ). Tudo isso posto e devidamente mesclado, há na obra uma forte presença de elementos musicais africanos, além de trazer bases eletrônicas.
É perceptível que Canções para depois do ódio é um trabalho motivado por um estado de perplexidade diante de uma nefasta ordem política, econômica e social que insiste em avançar com seus tentáculos ultraconservadores por sobre o mundo. Frise-se: o Brasil de Marcelo Yuka também é parte integrante desse conturbado estado de coisas.
Por mais que carregue em sua história pessoal as marcas dos equívocos humanos, o artista faz questão de aplacar qualquer possibilidade de ira diante das adversidades. No fundo, o que ele nos diz em seu novo rebento musical é que as tensões, ruídos e conflitos podem ser repensados à luz de alguma lucidez e serenidade. É, por assim dizer, uma maneira diferente de conceber o que ainda pode fazer valer nossa existência.
Vislumbrar para além do ódio uma via movida pelo otimismo não é uma construção nem um pouco fácil de se apreender ou praticar. Tal exercício pode assumir uma ressonância utópica. No Marcelo Yuka de hoje, os caminhos da mente e do coração fluem com mais leveza, evidenciando que o amor, no seu sentido mais largo possível, não é balizado por vãs expectativas de aceitação.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
Cidades são muito mais do que aglomerados de pessoas e espaços demarcados. Nelas, pululam vozes, pensamentos e manifestações conscientes de que há possibilidades diversas de representação em meio ao tecido social multifacetado. Afinal, cada recanto é porta-voz de peculiaridades por vezes ocultas diante de todo o aparato dos centros hegemônicos de poder, os quais insistem em cobrir com um manto de invisibilidade tudo o que contrarie suas agendas controladoras.
Quando as epifanias da periferia resistem, muitas alternativas podem surgir dessa atitude afirmativa. A melhor delas está no fato de que os apelos da cultura popular, tradicionalmente posta à margem por alguns, evidenciam a consolidação de espaços próprios, irradiando para outros centros a genuína pulsão de suas expressões. No eixo que aglutina pensamento, criação e atividade, a periferia das cidades agrega muito mais do que uma retrógrada noção de atraso sócio-econômico.
Sem dúvida, o contexto da arte é uma verdadeira mola propulsora no quesito de superação de certos anacronismos e distorções. O resultado é positivo na medida em que a periferia rejeita o discurso da vitimização e põe à mesa reflexões sobre a sua capacidade de pensar não somente as questões de seu entorno, mas também as de um contexto maior, o mundo. É justamente esse tipo de sentimento que emana de trabalhos como os do BaianaSystem, verdadeiro agrupamento de criadores imbuídos de expressar seus modos de conceber a vida.
Para entender o trabalho dessa junção de músicos baianos é preciso sondar suas origens e influências. O ponto de partida vem da rua, da vivência com o movimento do sound system perpetrado nos bairros afastados de Salvador. Capitaneada pelo coletivo Ministéreo Público, a experiência consistia em levar àquelas localidades toda uma dinâmica de som de rua, com caixas potentes que reproduziam basicamente reggae e disco, ação fortemente derivada da cultura musical jamaicana.
É justamente desse poder sonoro, e também discursivo, o qual emana dos espaços públicos externos, que ganha corpo o projeto do BaianaSystem. Num misto de samba-reggae, salsa, bases eletrônicas, ijexá, Kuduru e pagode, dentre outros elementos, o grupo constrói sua identidade pluralizada tanto no plano musical quanto no plano das letras.
Segundo disco da banda, Duas Cidades foi um álbum que nasceu de um processo inverso de concepção, pois partiu das ruas e shows para o estúdio, num caminho que fugiu do fluxo natural das realizações fonográficas, trazendo dos ecos do público e do cotidiano uma consistente base para sua criação.
BaianaSystem / Foto: divulgação
Transitando por elementos vocais e percussivos, DJ’s, e marcado especialmente por uma virtuosa utilização da guitarra baiana, o disco carrega um sentimento caracterizado pela cartografia urbana das identidades, evocando em suas letras questões que refletem sobre aspectos críticos do modo pelo qual vivemos como sociedade.
Logo na abertura, deparamo-nos com a mensagem clara e direta de Jah Jah Revolta – Parte 2, canção que exalta as consequências naturais das ações semeadas no convívio com nossos iguais. Em Lucro (Descomprimindo), desponta um momento especial do disco, tempo de pensar o espaço urbano como um verdadeiro palco de nossas contradições, principalmente quando os avanços derivados da ferocidade capitalista interferem tanto na paisagem quanto no modo como os habitantes se percebem num contexto sociológico.
É na faixa Duas Cidades que o espírito representativo do disco se traduz com vigor. Diz em que cidade que você se encaixa? Cidade Alta/Cidade Baixa? é a pergunta que flutua por toda a canção carro-chefe do álbum, clamando por uma resposta que signifique o ato de assumir papéis por parte de quem divide os espaços físicos. Quiçá ela possa ser entendida também como um vivo jogo de expor idiossincrasias que ora apresentam diferenças gritantes, ora tendem a se aproximar de algum modo. De qualquer maneira, a luta pessoal dos indivíduos, guardadas as devidas divisões sociais, econômicas e culturais, é capaz de traçar uma cara para a referenciada metrópole.
Enquanto Playsom aposta em todo peso sonoro característico de uma ambiência jamaicana, Panela mostra, por sua vez, a atmosfera típica da gênese do carnaval da Bahia, enaltecendo a condução precisa da guitarra baiana, grande matriz do trio elétrico.
Como se não bastasse a potência vocal e interpretativa de RussoPassapusso, a guitarra baiana de Roberto Barreto, o baixo de SekoBass, a guitarra de Junix, a percussão de Japa System e as atuações dos DJ’s João Meirelles e Mahal Pitta, o novo álbum do BaianaSystem recebeu toda a atenta condução do talentoso Daniel Ganjaman, produtor que traz em sua bagagem trabalhos com artistas do quilate de Sabotage, Criolo, Planet Hemp e Emicida, dentre outros mais.
Duas Cidades é a consolidação de uma trajetória que, partindo das ruas, becos e vielas, amplifica a visibilidade necessária de frentes valiosas da cultura popular. No momento em que impulsiona recortes identitários e bem representativos de mundo, deixando de lado obviedades panfletárias, consegue seu resultado maior: fazer da música um instrumento de percepções que vão além do nosso umbigo. Por certo, ainda ouviremos falar muito dessa força sonora chamada BaianaSystem. É vida que segue, arte dançante que ecoa.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
Era assim: para ser considerado “maneiro”, no tempo do colégio, tinha de cantar “Faroeste caboclo”, do começo ao fim. No intervalo entre as aulas, formavam-se grupinhos aqui e acolá, e logo um puxava “Não tinha medo o tal João de Santo Cristo…”, seguido por uma ou duas vozes desafinadas. À capela, mesmo. Aquele que errasse, era alvo de zoação. Naquela época, saber todos os versos de “Faroeste caboclo” era mais importante que saber qualquer verso do Hino Nacional. Eu sabia (mas nunca fui “maneiro”, de fato). A verdade é que minha mãe trabalhava numa butique de sapatos femininos, dentro de um shopping, e por lá transitava um sujeito que vendia umas fitas cassetes de coletâneas musicais. Ele as mantinha numa maleta, separadas por gênero. Bossa nova, samba, jazz, MPB… Eu ganhei uma de rock nacional, cujo repertório era formado pelas novas bandas estouradas nas rádios. Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Titãs, Capital Inicial e Legião Urbana, com “Faroeste Caboclo”. Tinha também “Eduardo e Mônica”, que eu também sabia cantar inteira, se isso conta como vantagem (?).
“Faroeste caboclo” é a sétima faixa de “Que país é esse?”, álbum de 1987. O terceiro trabalho de estúdio da Legião Urbana, ainda que montado às pressas para surfar na onda do anterior, “Dois”(na qual está “Eduardo e Mônica”), é um disco crucial por fatores externos. Visto hoje, foi o último a ter a formação original (Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Renato Rocha e Marcelo Bonfá); o último a trazer mais letras críticas enroupadas por uma sonoridade crua, influenciada pelo punk rock inglês; aquele cuja turnê encerrou-se com fatídico show em Brasília, no Estádio Mané Garrincha, quando uma confusão generalizada deixou centenas de pessoas feridas.
Todos os fatos e mudanças citados iriam influenciar diretamente na construção do álbum posterior, “As quatro estações”, de 1989. Ainda que o “maneiro”, no meu tempo de colégio, fosse cantar “Faroeste caboclo”, do começo ao fim, sem dúvida “As quatro estações” é o disco da Legião que marcou a minha geração. Um trabalho introspectivo e, em alguns momentos, experimental, com apelo lírico e musicalmente mais maduro. As faixas são compostas por camadas harmônicas e influências de sonoridades diversas ao rock, cujas letras emprestam referências que vão da literatura de Camões a versículos bíblicos, transcendendo os males sociais para os males da alma, do corpo ao espírito.
Em “Memórias de um legionário”, o guitarrista Dado Villa-Lobos explica, assim, a concepção do projeto, nas palavras de Renato Russo: “Gostaria que fosse sobre ciclos, a perda da inocência, você atingir um certo estágio em que perdeu alguma coisa e, ou vai para o lado deles, ou retrabalha e reconquista isso. (…) Mas seria basicamente isso: primavera, verão, chega o outono e caem todas as folhas. E no inverno fica a árvore daquele jeito. É como se a gente estivesse chegando ao inverno. Mas aí vem vindo a primavera de novo. Quero dizer, você pode escolher ter uma nova primavera. A maior parte das pessoas que eu conheço fica no inverno, e eu acho ser esse o maior problema delas”.
“As quatro estações” abre com “Há tempos”, um rockão rasgado, vibrante, que, em contraponto, começa com a frase “Parece cocaína mas é só tristeza, talvez sua cidade”. Renato Russo deixa claro, logo de cara, que está menos preocupado em perguntar “que país é esse?” ou falar da “geração coca-cola”, e sim buscar uma reflexão mais ampla sobre a vida, os conflitos internos e os segredos que lhe afligiam, as emoções e os relacionamentos humanos, a religião e a metafísica. “Disciplina é liberdade/Compaixão é fortaleza/Ter bondade é ter coragem/Lá em casa tem um poço/Mas a água é muito limpa”, são os últimos versos.
Em seguida, o tom baixa com “Pais e filhos”, levada no violão acústico, mas com interferências de uma guitarra blueseira, que, embora tenha virado uma balada de cantar batendo palmas, versa sobre o suicídio de uma garota que se jogou do quinto andar, pois não se entendia com os pais. Por outro lado, como escreve Villa-Lobos, no livro supracitado, a canção era também “uma homenagem às suas famílias, aos seus filhos que chegavam”. Em “Renato Russo – O trovador solitário”, o jornalista Arthur Dapieve complementa que “Renato queria agradecer à sua família, que já sabia do seu homossexualismo havia dez anos”. Além disso, havia o fato de que o próprio compositor, fazia pouco tempo, tinha se tornado pai, “o que a letra também mencionava, cifradamente”: “Meu filho vai ter nome de santo/Quero o nome mais bonito”. “Pais e filhos” encerra-se belamente, de maneira conciliatória, indicando um ciclo que, de fato, estará sempre aberto: “Você me diz que seus pais não entendem/Mas você não entende seus pais./Você culpa seus pais por tudo/E isso é absurdo/São crianças como você./O que você vai ser/Quando você crescer?”.
Renato Russo, Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá / Foto: divulgação
“Feedback song for a dying friend” é a terceira faixa. Cantada em inglês, é a que mais se distancia, esteticamente, das outras composições, contudo a que toca em duas questões que assombravam Renato Russo fazia alguns anos: tornar público sua homossexualidade e falar sobre a Aids. De acordo com Dapieve, a letra, escrita em 1985, “antecipava o pesadelo da Aids e, ao ser lançada naquele momento, estabelecia ligação direta com a morte em público de Cazuza, que decidira transformar a doença numa declaração política”. O encarte do disco traz a tradução feita por Millôr Fernandes (um dos ídolos do Renato), cujos primeiros versos dizem: “Alisa a testa suada do rapaz/Toca o talo nu ali escondido/Protegido nesse ninho farpado sombrio da semente”. O tema é agravado pelo peso das guitarras elétricas e da marcação da bateria que, de forma inesperada, é engolido por uma sonoridade oriental, hinduísta, tramada em acordes maciços de cítara.
As duas canções seguintes são mais leves e mostram uma textura de crônica do cotidiano. “Quando o sol bater na janela do seu quarto”, de melodia simples e compassada, tem uma letra positiva (“A humanidade é desumana/Mas ainda temos chance/O sol nasce pra todos/Só não sabe quem não quer”), ainda que aponte que “Tudo é dor/E toda dor vem do desejo/De não sentirmos dor”. Já “Eu era um lobisomem juvenil” avança de dedilhados suaves de corda para um crescendo de teclado e percussão, até encerrar-se nos mesmos dedilhados suaves de corda. A letra parece constituída de uma colagem de retratos de observação e de certos devaneios poéticos. “O que sinto muitas vezes faz sentido/E outras vezes não descubro o motivo/Que me explica porque é que não consigo ver sentido/No que sinto, o que procuro, o que desejo e o que faz parte do meu mundo”.
“1965 (Duas tribos)” retoma a veia mais agressiva, na sonoridade e nos versos, dos primeiros discos, ao denunciar os crimes do regime militar, instituído nos anos 1960. Renato faz menção à tortura (“Cortaram meus braços/Cortaram minhas mãos/ Cortaram minhas pernas/Num dia de verão”) e às prisões arbitrárias dos estudantes (“Mataram um menino/Tinha arma de verdade/Tinha arma nenhuma/Tinha arma de brinquedo”), entoando, ao fim, escarnecidamente, um dos slogans criados pela ditadura: “O Brasil é o país do futuro”. Como é comum ao álbum, parafraseando Dapieve, a ferocidade elétrica dá lugar outra vez ao plácido clima acústico. “Monte Castelo” tem um tema instrumental bem orgânico aos seus versos, que trazem trechos do “Soneto 11”, do escritor português Luís de Camões, e do capítulo 13 de Coríntios, livro da Bíblia. “Ainda que eu falasse a língua dos homens/e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria”. Os arranjos são construídos em teclados sintetizados e delicada percussão, emulando uma atmosfera etérea.
Chegando às últimas faixas, “Maurício” destaca-se pela presença do bandolim sobre uma base pós-punk, que faz da faixa a mais soturna, sobretudo diante de trechos como “Me sinto tão só/E dizem que a solidão até que me cai bem”. A próxima é “Meninos e meninas”, e sua relevância está mais na mensagem que na própria composição. É a primeira vez que Renato Russo expõe sua homossexualidade (ou, pensando melhor, sua bissexualidade) de maneira clara. “Acho que gosto de São Paulo/E gosto de São João/Gosto de São Francisco e São Sebastião/E eu gosto de meninos e meninas”. Villa-Lobos, em “Memórias de um legionário”, recorda que a canção se tornou um sucesso das FMs, depois de integrar a trilha sonora da novela “Rainha da sucata”, da TV Globo, ainda que falando sobre preferências sexuais. Mais uma prova de como o mundo ficou careta!
“Sete cidades” é uma das composições mais bonitas da Legião. Marcada por uma gaita incidental, tem o tom de uma declaração de amor de alguém separado do contato carnal e, por conta disso, seu “espírito se perde, voa longe”. O disco fecha para cima, de novo versando sobre amores e relacionamentos, com “Se fiquei esperando meu amor passar”, uma levada pop básica, guitarra e bateria, que, nos últimos minutos, vai perdendo força e adquirindo (outra vez) ares sacros, ao incorporar versos inspirados no Evangelho de João, incluído no Novo Testamento (“Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo/Dai-nos a paz”). De fato, uma escolha simbólica (e acertada) para a conjunção de temas que evoca para tratar da finitude, da incursão pelos caminhos materiais e espirituais que constituem a vida.
“As quatro estações” não tem, em seu repertório, uma “Faroeste caboclo”, aquela que os jovens da época ouviam reiteradamente a fim de memorizar palavra por palavra, mas é o trabalho que traz, na concepção a que se propõe, as melhores canções da Legião Urbana. Caso não seja o melhor álbum de rock nacional de todos os tempos, sem dúvida está entre os cinco melhores. Um disco que, completados quase 30 anos, parece dialogar mais com o nosso tempo do que aquele em que foi lançado.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
Aos 21 anos, Liniker – que poderia ser nome artístico, mas é legítimo, em tributo ao ex-jogador de futebol inglês Gary Lineker – é um conceito libertário. Longe dos pré-fabricados que se aproximam da identidade de gêneros para angariar votos ou likes, a autenticidade do seu grave em lábios de batom, bigode e vestes femininas fazem dele um artista único. Talvez Platão identificasse em criador e criatura o denominado [duplo] dualismo psicofísico, dois corpos e duas almas habitando o mesmo ser e os mesmos versos. Mesmo que sua figura estética não usasse qualquer artifício, em algum momento sua voz ligeiramente rouca nos arrebataria. E arrebata, deslumbra, fascina. Tim Maia, do alto do céu do soul, deve dar o aval e liberar o tal ‘dançar homem com homem e mulher com mulher’, de Vale Tudo, à trupe formada em Araraquara (SP) há quase 2 anos.
Nascido em família de músicos, Liniker desabrochou artisticamente após flertar com a cena teatral, o que talvez explique sua grandiloquência no palco. O sucesso do EP Cru(2015) fez o cantor percorrer o Brasil e conquistar o Youtube com mais de 5 milhões de visualizações de suas performances. Remonta, primeiro álbum de sua banda, lançado em setembro e disponível nas principais plataformas digitais, traz arranjos refinados ao universo do soul e da black music. As 13 faixas da obra são resultado de 5 anos de composições e experimentos ao vivo, muitas delas conhecidas do público que o acompanha. Aliás, o disco contou com financiamento coletivo para sua produção e ultrapassou a meta pré-estabelecida. Impossível ficar passivo frente ao fenômeno Liniker de ser/cantar.
Liniker e Os Caramelows / Foto: divulgação
Após uma breve Intro de vinte e poucos segundos que aproxima o clima épico dos shows para o registro de estúdio, a circense Remonta (como se não bastasse a guerra também/de te ver todo dia, meu bem/tem o dissabor dessa ferida, tem/que germina na pele e insiste em ficar) abre o álbum como uma espécie de epílogo do que está por vir. Prendedor de Varal (enquanto você prometer e eu acreditar/serão só manhãs, um dia, um meio tom) – que faz referência à Chocolate, do eterno síndico – também presente nas apresentações ao vivo, deixou de ser bossa para ganhar ares de funk. Se a dualidade de Lina X (a personalidade dela era um tanto dividida/parece Poliana/querendo o que é de Frida/queria a parte outra da metade/o todo, o tudo, a casualidade) vai além letra, a primaveril Sem Nome, Mas Com Endereço – que tem o piano e a sanfona de Marcelo Jeneci – garante um dos momentos mais líricos do álbum. Enquanto o blues Tua (são cinco versos, seis ou mais/que me fazem querer gritar/tiro a roupa com um riso acanhado/meu bem, me chame de tua) envolve mais que os turbantes do músico, o bolero Você Fez Merda (você fez merda ao dizer que não me ama/depois da transa que eu dei pra você) contrasta a letra divertida com a profundidade vocal e sonora, numa espécie de dueto entre Maria Bethânia e Cauby Peixoto.
Das três canções presentes no EP dispostas ao longo do disco, a poética Caeu (dava tanta coisa, dava nó de nós/de nós, de eu) foi a que menos sofreu alterações. Se a carro-chefe de Cru, Zero (a gente fica mordido, não fica?/dente, lábio, teu jeito de olhar) perdeu o romantismo e ganhou intensidade, Louise du Brésil recebeu o saxofone de Thiago França (Metá Metá) e um groove altamente dançante. Funzy, única canção instrumental, reforça que Liniker tem mais que uma banda de apoio e apresenta toda a grandeza dos Caramelows, composta por: Renata Éssis (backing vocal), Márcio Bortoloti (trompete), Rafael Barone (baixo), William Zaharanski (guitarra) e Péricles Zuanon (bateria). Vale lembrar que na metade do ano o grupo sofreu a perda da backing vocal Barbara Rosa, vítima de câncer. A radiofônica BoxOkê – primeiro single liberado –, com introdução que lembra trilha de seriado de ação, tem a participação do grupo Aeromoças e Tenistas Russas e da cantora Tássia Reis, e aborda o “empoderamento das minorias”. A balada cênica Ralador de Pia tem parceria de Tulipa Ruiz e encerra Remonta em ritmo dramático.
Em suma, Liniker – que fisicamente lembra Luiz Melodia na juventude – e sua obra dialogam com dualidades e pluralidades: é o ‘homem feminino’ de Pepeu Gomes que versa sobre o [des]amor e suas vertentes. As influências da sonoridade, definida por ele como MPB (Música Preta Brasileira), mesclam samba-rock, partido-alto, soul e rap e seu discurso aborda a desconstrução do gênero sexual. É música com embalagem, conteúdo e contexto. Se hoje você está na fossa, amanhã você coloca seu melhor vestido e dança até lacrar o dia. E afinal, o que é a vida, senão um constante remontar-se?
Larissa Mendes promete exercitar diariamente a Bênção do Lacre.