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91ª Leva - 05/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

NAÇÃO ZUMBI – NAÇÃO ZUMBI

 

 

Veias, coração, desejos, legado. O trecho de Cuidado, faixa do oitavo álbum da Nação Zumbi parece sintetizar a capa e o sentimento presente no mais recente trabalho da banda. Vinte anos depois do icônico Da Lama Ao Caos (1994), o sexteto pernambucano afaga as cicatrizes deixadas pela prematura morte de seu idealizador Chico Science, em 1997, e lança um disco calcado nos primórdios do manguebeat. Com uma roupagem solar e dançante, Nação Zumbi (2014) traz 11 faixas inéditas, depois de um intervalo de 7 anos desde Fome de Tudo (2007) – hiato este marcado por projetos paralelos de seus integrantes, pelo lançamento do DVD Ao Vivo no Recife (2012) e do duelo Mundo Livre vs. Nação Zumbi (2013), no qual a trupe comandada por Fred 04 canta músicas do grupo de DuPeixe e vice-versa.

Produzido por Kassin e Berna Ceppas, o conceito do novo álbum parece inspirado na passionalidade narrativa de Nelson Rodrigues. Isso talvez explique a visceralidade que permeia toda a obra. A matriz manguebeat eternizada por Science é mantida, porém, vez ou outra, pop e rock se fundem de maneira exótica, o que pode causar certa estranheza aos fãs mais radicais, ávidos pelo compasso dos tambores. Como frisou o vocalista em uma entrevista, ‘é um caminho diferente para a mesma casa’. Distribuído pelo selo Natura Musical/SLAP (Som Livre), o trabalho está disponível em diversas plataformas digitais, incluindo o canal oficial da banda no YouTube. Todas as composições são assinadas por Jorge DuPeixe (vocais), Lúcio Maia (guitarra), Dengue (baixo), Pupillo (bateria) e pelos percussionistas Gilmar Bola 8 e Toca Ogan.

 

Nação Zumbi / Foto: Divulgação

 

Cicatriz, faixa de abertura e primeiro single do disco, fala das marcas estampadas na derme da nossa vida (fica bem desenhado só pra ser bem lembrado/risco do erro malvisto, malquisto e mau-olhado). Os versos crus de Bala Perdida relatam a fração de segundo que separa a vítima do sobrevivente (vi quando você passou/pra se esconder em outro alguém/senhora bala, me deixe passar/logo eu que sou pacífico/senhora bala, me dê licença/eu não sirvo pro seu destino não). Defeito Perfeito tem uma levada funk e os sempre potentes riffs das guitarras de Lúcio Maia. O Que Te Faz Rir ensina, entre outras coisas, a manter ‘a leveza num dia de cão’ e conta com os backing-vocals de Laya Lopes (cantora da banda cearense O Jardim das Horas) e de Lula Lira, filha de Science.

As três canções seguintes compõem o momento mais suave do álbum. A primeira delas é a ‘ciranda que não para’, A Melhor Hora da Praia, balada com arranjos de cordas e participação de uma onipresente Marisa Monte. A cereja do bolo (ou o caranguejo do mangue) fica a cargo da onírica Um Sonho (estão comendo o mundo/ pelas beiradas/roendo tudo/quase não sobra nada), onde DuPeixe empresta toda sua verve melódica, até então pouco explorada, para cantarolar sobre um doce devaneio. Os versos de Novas Auroras (feliz pelo que ainda não veio/saudades do que nem foi/esperando o melhor dos agoras/nem temos o antes e já queremos o depois) encerram o bloco analisando nossa insatisfação com o tempo, ou com o ‘Hoje, Amanhã e Depois’, parafraseando a canção de Futura (2005).

Se Nunca Te Vi (vivo na promessa de encontrar você/me perco na incerteza disso acontecer) aborda a busca por alguém idealizado, a intensa e belíssima Foi de Amor – já presente em shows da banda antes do lançamento do álbum, inclusive em sua apresentação na edição brasileira do Lollapalooza deste ano –, compara o amor a ‘uma droga mais que letal/quando não mata, aleija/faz esse temporal/não tem nem contraindicação/dependendo da dose/acelera e racha o coração’. As sirenes de Cuidado (quando você não ouve seus passos/você perde o chão) anunciam uma espécie de indie-rock preventivo que deságua na explosiva Pegando Fogo, encerrando o álbum com todo o amor e fúria dos mangue-boys.

É bonito de ver que, duas décadas depois, como profetiza Mateus Enter, faixa que abre Afrociberdelia (1996), o coletivo permanece ‘com Pernambuco embaixo dos pés e a mente na imensidão’, fazendo um som vibrante, renovado e sem síndrome de underground. E se ‘você dá um passo à frente e não está mais no mesmo lugar’, nada mais justo que todos os caminhos levem à Nação Zumbi.

 

 

Larissa Mendes é uma mangue-girl do oeste catarinense.

 

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90ª Leva - 04/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

SILVA – VISTA PRO MAR

 

 

‘(…) Basicamente é isso. “Vista pro Mar” surgiu numa tarde ensolarada em uma piscina – como se fosse um caso de amor adolescente, daqueles que nos rende um ano de dor de cabeça criativa… E terminar um disco é como reencontrar aquele amor adolescente anos depois, mais velha, mais madura e bonita e pensar: “Acho que vou chamá-la pra sair”’. (SILVA)

 

Se depois da tempestade vem a bonança, podemos dizer que depois de Claridão, vem Vista Pro Mar. O denso e minimalista álbum de estreia do cantor e compositor Lúcio Silva Souza – ou simplesmente SILVA – tem como sucessor um conjunto de canções otimistas e ensolaradas. O músico capixaba de formação erudita continua mesclando MPB com bases eletrônicas e versando sobre o amor e suas vertentes, de maneira que se confirmam todas as expectativas em si depositadas como o novo nome da música nacional. O artista continua também dividindo a parceria das canções com o irmão Lucas Silva, seu letrista predileto. Gravado em Portugal, as onze faixas de Vista Pro Mar possuem 48 minutos de duração e soam muito mais orgânicas do que as canções de Claridão (2012), disco gravado praticamente de modo artesanal e solitário.

Produzido pelo próprio músico (e com uma bela arte gráfica), o álbum foi revelado aos poucos, antes do lançamento oficial, através de quatro singles: Janeiro, É Preciso Dizer (que ganhou clipe rodado entre França e Portugal), Universo e Okinawa, parceria com Fernanda Takai. Mais melódico, coeso e com menos manipulação eletrônica, Vista Pro Mar reafirma o processo de amadurecimento do artista e propõe certa reinvenção precoce: SILVA poderia repetir o óbvio experimentalismo para burlar a síndrome do segundo disco, mas não, a densidade do álbum de estreia agora dá vazão a momentos elaboradamente despretensiosos. Disponível no iTunes, o registro físico foi lançado em abril pelo selo SLAP, braço independente da Som Livre. No mesmo mês, SILVA apresentou-se no Palco Ônix, na 3ª edição do Lollapalooza Brasil e prepara-se para tocar no Rock in Rio Lisboa, em maio.

 

Show de SILVA no Lollapalooza Brasil 2014 / Foto: Eduardo Magalhães

 

Um trio de metais em Vista Pro Mar, canção-título, abre o álbum com otimismo e valentia, anunciando que ‘não há mais maré baixa em mim’ e que ‘eu sou de remar/sou de insistir/mesmo que sozinho’, para em seguida declarar (-se), na melódica new age de É Preciso Dizer, que ‘esse mar já deu ’ (é preciso dizer/quando olhas assim/uma coisa me atropela/dentro o peito). A irresistível Janeiro e seus instrumentos de sopro mantêm uma cadência festiva numa típica história de amigo que gosta da amiga, tem medo de perder a amizade, mas não aguenta mais calar o sentimento (justamente no mês em que é sempre tempo de [re]começar). Entardecer possui um clima praiano de pôr-do-sol, com o barulho das ondas e um pseudo-reggae no final, que informa que ‘pra nós/não é questão de sorte’ e ‘o que há de ser/sim, será’. Okinawa, dueto com Fernanda Takai, apresenta um tom acústico-oitentista e o refrão adverte sobre a fragilidade das relações (faz chuva, esconde o horizonte/a cada vez que você não vem/não vale se amar tão de longe/é de perto que a gente se faz um bem).

A segunda metade do álbum destaca o pop dançante de Disco Novo (já amei, amei/também já desanimei/insisti em não lembrar/depois lembrei), candidata a hit e talvez a melhor canção do álbum. Se Universo aborda um mundo particular entre duas pessoas que não precisam ‘fazer tipo’ (o que eu quero/é sua companhia/o restante a noite faz), Volta (quem é de mim não se esconde/nem recusa o meu olhar), e seu quase assobio eletrônico-oriental, fala de um provável regresso. Na sequência, a romântica Ainda – bossinha com canto de pássaros – contrasta com a malemolência de Capuba. Maré encerra o disco com a mesma satisfação que um belo dia se despede nas areias, com os aplausos dos súditos ao astro-rei. Em dias nublados de verão ou ensolarados de inverno, definitivamente SILVA é som de todas as estações. É amor que sobe a serra.

 

 

Larissa Mendes gosta mesmo é de sombra e água fresca.

 

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89ª Leva - 03/2014 Gramofone

Gramofone

Por Rogério Coutinho

 

ARNALDO BAPTISTA – SHINING ALONE  (AO VIVO  1981)

 

 

Em 1981, o ex-Mutante Arnaldo Baptista realmente andava só, mas não se pode dizer que ele brilhava tanto assim para os olhos do grande público, que ignorava suas andanças e incursões musicais por aí. Após gravar o seminal Lóki em 1974 (disco que passou em branco na época e que a partir dos anos 90 viraria objeto de culto) e montar a banda Patrulha do Espaço, que bateria ponto no underground paulistano durante os anos 80 mesmo sem seu fundador, Arnaldo tentou uma reciclagem pessoal e profissional no Rio de Janeiro. Durante sua temporada carioca, tocou com os então iniciantes – e desconhecidos – Lulu Santos e Lobão, e gravou com gente como Walter Franco e Guilherme Arantes.

Essas experiências não trouxeram para Arnaldo seu reencontro com as plateias que lotavam ginásios na fase áurea dos Mutantes, mas ajudaram a gestar parte de seu mito e culminaram no seu retorno a São Paulo, onde foi registrada uma de suas apresentações solitárias no Teatro da (Pontifícia) Universidade Católica de São Paulo, o TUCA, que finalmente vieram a público – oficialmente – no final de 2013, no álbum digital Shining Alone.

Munido apenas de um piano elétrico, de um simulacro de órgão Hammond (“coisa de americano”) e de um violão (“o que rima com violão? Tesão…”), é um Arnaldo em estado bruto, despido de qualquer produção ou dos experimentalismos da sua época mutante ou mesmo do hard rock da Patrulha do Espaço. Surge aqui o Arnaldo motociclista (Ai Garupa, que seria regravada no álbum Let It Bed, mais de vinte anos depois), remanescente de sua viagem até o Panamá, a bordo de uma BMW 1951, e o caronista na Europa (Sentado ao Lado da Estrada). Voltando mais ainda no tempo, há o garoto que teve aulas de piano clássico com a mãe, concertista, que não tem o menor constrangimento de tocar a Marcha Turca de Mozart ou um movimento dos Concertos de Brandeburgo de Bach em um suposto show de rock.

 

Arnaldo Baptista / Foto: Grace Lagoa

 

Vai de Mozart e Bach a Bob Dylan (Don’t Think Twice, It’s Allright – onde comete a molecagem de responder o trecho da letra que diz “it ain’t no use in callin’ out my name” com um “Arnaldo!”) e Rolling Stones (Honky Tonk Women), passando por standards norte-americanos como Cry Me A River, curiosamente gravado por sua ex-parceira Rita Lee em seu Bossa’n‘roll de 1991. Rita, aliás, também é lembrada numa versão comovente de Ovelha Negra, como se não bastasse ela ter sido a destinatária de canções como Te Amo Podes Crer. Todo esse caleidoscópio musical estranhamente nada tem do repertório dos Mutantes, exceto a engavetada O A e o Z (“uma marcha guerreira”), aqui em versão instrumental e abreviada, que só viria a público nos anos 90.

Em que pese seu notório sofrimento e a insalubridade do ambiente musical que Arnaldo vivia naquele final dos anos 70 e começo dos 80, pré-explosão do rock brasileiro, fica aqui um registro imprescindível da melhor fase artística do mutante, fundamental para conhecer não só o artista, mas o homem. No caso de Arnaldo Baptista, essa distinção praticamente não existe, sendo alguém que fundiu sua história com sua arte até as últimas consequências (e pagando um preço alto por isso), como raras vezes se vê.

 

 

Rogério Coutinho é malandro velho e não se mete no enguiço.

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

GRAVEOLA E O LIXO POLIFÔNICO – 2 e ½ – VOZES INVISÍVEIS

 

 

Inventariar fragmentos da memória, esta ciranda de lembranças que recende a pó da estrada. No meio do trajeto, também não se deve esquecer de cultivar raízes e frutos duma cumplicidade. Se a vida é feita de momentos compartilhados, os sentidos da amizade revelam muito mais do que meras marcas do tempo. É o gosto primevo das coisas quem deixa a face de coadjuvante e atua com destaque no palco duma existência que pode ser mais leve do que se supõe. Mas por que carregar mais fardos do que suportamos quando nada na vida pode ser mais urgente do que apenas respirar os instantes?

Talvez o parágrafo acima ouse definir uma pequena parte do ambiente de sensações que pairam pelo mais novo disco do grupo Graveola e O Lixo Polifônico. Tal como a vida nem sempre nos dá a chance de reescrevermos através das suas vacilantes linhas, assim o é quando vivemos saboreando o gosto incerto dos esboços. E esse sentimento de permanente incerteza parece reinar nos arremates poéticos do álbum 2 e ½ – Vozes Invisíveis. Certo mesmo é que em seu quarto disco, os mineiros da Graveola depositam suas impressões sutis sobre o tecido inexplicável dos dias sem buscar razões que se dignem a qualquer tipo de exatidão.

Se a própria vida jamais será uma equação matemática, é porque os caminhos não formam desenhos lógicos. E como saber disso nos serve de alento para continuarmos respirando sem os achaques científicos. Definitivamente e em matéria de sentimentos, a orientação meramente cartesiana das coisas é algo pronto a ser repelido. Assim, ao ouvirmos as composições musicadas da Graveola, temos a mínima noção de que estar no mundo é, acima de tudo, reverberar os acordes dissonantes dos devaneios que nos acometem por todos os cantos da mente. Para cada ouvido, uma experiência de percepções próprias se instala. E é justamente isso que faz de 2 e ½ um disco incompatível com bulas e manuais de instrução.

 

Graveola e o Lixo Polifônico / Foto: Flávia Mafra

 

A julgar pela escolha do título, o álbum já nos traz certa atmosfera de provocação e algum questionamento, pois as ações humanas, travestidas que estão pelo jogo das emoções e das ínfimas certezas, cabem num espaço de incompletude absurdamente colossal. É nesse momento que o novo trabalho da Graveola ganha proporções que flertam com traçados existencialistas.

As vozes invisíveis da banda evocam uma poesia que se situa no plano das ruas, dos becos errantes ou em sinas mergulhadas na rotina do tempo. Ao passo que revisitam afetos compartilhados, cantam a saudade, a transformação dos caminhos, as escolhas, o lado sublime das coisas e o gosto incessante pelo mistério. Numa tentativa de autodefinição, o próprio grupo se considera uma comunidade em movimento, repleta de investidas não necessariamente finalizadas. Pelo somatório de cenários, conduzidos pelos laços das afinidades em vida, fica a impressão de que ouvimos a expressão moderna de um outro clube da esquina.

Da escuta de faixas como Vozes Invisíveis, Cafeína, Canina Intuição, Escadaria, Maquinário e Da Janela, percebe-se que os caminhos percorridos não são nada uniformes. Refletem elementos rítmicos e melódicos bem típicos duma brasilidade carregada de pluralidade sonora. Assim, vocais e instrumentos estão a serviço de um verdadeiro mosaico de intenções puramente comprometidas com um certo ímpeto de acolher a porção sublime e indescritível da vida. Noutros momentos, há referências explícitas ao legado da MPB, como é o caso da canção Envelhecer, que entoa um “preciso aprender a ser só”, frase presente na composição dos bossanovistas Marcos e Sérgio Valle.  Em a Lenda do Homem Pássaro, há um pungente sentido de reflexão sobrevoando resultados de algumas escolhas nossas.

Quando o Graveola resume seu novo rebento como sendo fruto de andanças entre amigos, é porque o melhor significado é resultado direto e inexplicável da arte do encontro. A despeito de se levar em conta a capacidade que temos de alimentar o jogo das complementaridades, reconhecemos que a inteireza do ser não passa de uma quimera. Entramos e saímos dos inefáveis cenários da existência sem ocuparmos todos os espaços eterna e teimosamente vazios. A vida não passa de uma obra em construção.

 

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87ª Leva - 01/2014 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TONO – AQUÁRIO

 

A possibilidade de ressignificar estados da alma é uma das grandes benesses proporcionadas pela música. No caso da banda carioca Tono, isso parece ganhar um sentido ainda mais amplo. Basta observar a trajetória do grupo para perceber que os caminhos sempre estiveram voltados ao modo sublime de olhar e sentir as coisas da vida. Em Aquário, mais novo trabalho da banda, prova-se não somente do sabor dos temperos do tempo, que só fez bem aos músicos, mas principalmente da afirmação de um jeito muito particular e consistente de se fazer música.

A moçada da Tono chega a seu terceiro rebento sendo fiel a tudo o que fez até aqui.  Ressalte-se, sobretudo, a força autoral de letras e músicas, traço marcante deles. E tudo ali se harmoniza favoravelmente ao conjunto da obra. O que se vê nas onze faixas do disco é uma verdadeira profusão de melodias, arranjos cuidadosamente pensados e um preciso equilíbrio entre vocais e instrumentos. O saldo disso é que cada canção, além de possuir roupagem própria, funda em si um microuniverso de sensações. São mundos num mundo, fazendo do disco um organismo único, porém com onze momentos autônomos.

O jeito suave e delicado da voz de Ana Cláudia Lomelino é uma verdadeira marca da banda. E ela não está sozinha nesse quesito, pois a presença vocal do baterista Rafael Rocha, compositor de boa parte das canções, é outro ponto de destaque. Diga-se de passagem, os dois artistas já são fiéis representantes da proposta sensível e poética da trupe carioca. Só para se ter uma ideia da sintonia musical dessa dupla, prestemos atenção no modo como eles passeiam sublimes pelas vias delicadas da bela Sonho com Som, canção que discorre tanto sobre levezas quanto densidades do amor.

Pelos quatro cantos do disco, fala-se de amor e outros tantos temas que absorvem a natureza humana sem, no entanto, pesar a mão nas questões da alma, o que fatalmente poderia tornar mais labiríntica a tarefa da banda, com sérios riscos de algo essencial se perder no caminho. Para a felicidade de quem aprecia a boa música, os rumos aqui não se desorientam. Ao contrário, observa-se a vida sem deixar que a consciência das coisas se atole num fundo de poço qualquer.

Tono / Foto: divulgação

Por ser um álbum completo em todos os seus arredores, é bem ingrata a ideia de eleger faixas que se destacam em Aquário. Instantes como os de Murmúrios, Como vês, Leve e Do Futuro (Dom) dão uma boa mostra da viagem musical vislumbrada pelo grupo. Diluído pelo jogo sonoro das palavras em Tu Cá, Tu Lá, emerge um caminho feito de ímpetos filosóficos. Merece também atenção a roupagem especial dada à canção Chora Coração, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Aqui, a banda trouxe sua identidade para interpretar e viver a música do maestro soberano. Nesse sentido, a composição ganhou novo ambiente, mantendo a carga lírica que lhe é peculiar.

A flauta de Danilo Caymmi (Sonho com Som e Como Vês), a percussão de Gustavo Di Dalva (Leve e Do Futuro) e a voz e violão de Gilberto Gil (Da Bahia) acrescentam um ingrediente a mais no consistente caldo sonoro de Aquário. Marcado por elementos do rock, jazz, samba e música eletrônica, o álbum conta com a produção do experiente Arto Lindsay.

Pensar o disco é imaginar uma morada onde coabitam versos, sons e imagens dotados de uma estética pura e que prima por um sentido descomplicado para celebrar a existência.  Assim, pegando o gancho da canção A Cada Segundo, tudo pode se condensar num único e fugidio instante, inclusive nossa mais tímida percepção da beleza. Ana Cláudia, Rafael Rocha, Bruno Di Lullo, Bem Gil e Eduardo Manso são valiosos mensageiros dessa ainda espantosa constatação.

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Gramofone

Gramofone

Por Rogério Coutinho

SÁ, RODRIX E GUARABYRA – PASSADO, PRESENTE E FUTURO

 

 

Numa encruzilhada formada pela junção de três caminhos, surge uma estrada ao mesmo tempo empoeirada e pavimentada, com um pé no Brasil interiorano e outro na contemporaneidade dos anos 70. Essa é a viagem de Sá, Rodrix e Guarabyra na sua estreia em Passado, Presente e Futuro, usando o expediente, relativamente comum à época, de assinar o nome de um grupo como se fosse um escritório de advocacia. Qualquer semelhança com Crosby, Stills, Nash & Young não teria sido mera coincidência (“Só faltou achar nosso Neil Young”, disse Rodrix certa vez). Mas não há meandros jurídicos na música de SR&G, apenas o fluir de uma longa rodovia, com seus percalços típicos da nossa malha rodoviária. Ainda que tenha sido uma viagem breve, foi bastante proveitosa para a música brasileira.

Como boa parte dos compositores daquela geração, Luiz Carlos Sá, José Rodrigues Trindade – o Zé Rodrix – e Gutemberg Guarabyra militaram no circuito de festivais de música da década de 60, televisionados ou não. Rodrix, que chegou a fazer parte de grupos como Momento Quatro e Som Imaginário, ganhou o Festival de Juiz de Fora de 1971 com a canção Casa no Campo (dele e de Tavito), que posteriormente viraria clássico na interpretação de Elis Regina. Guarabyra, um baiano radicado no Rio de Janeiro, chegou a ser diretor musical da TV Tupi e do Festival Internacional da canção. Sá, por sua vez, além dos festivais, já atuava no meio publicitário como compositor e produtor de jingles. A estética musical do trio logo recebeu a alcunha de “rock rural”, pegando carona num trecho da letra de Casa no Campo.

 

Sá, Rodrix e Guarabyra / Foto: Reprodução

 

O resultado concreto dessa “sociedade” culminou em Passado, Presente e Futuro, lançado em 1971. O resgate de uma vida interiorana para o urbanóide dos anos 70 se faz presente em faixas como Cumpadre Meu, onde Guarabyra faz questão de ressaltar o vernáculo do sertão brasileiro: cumpádi, sôdade. Se em Cumpadre Meu a preocupação é com a nova geração “respirando o que a cidade envenenou”, em Crianças Perdidas há o retorno à própria infância idílica. As intervenções orquestrais ora soam georgemartinianas como em Zepelim, quase uma fantasia beatle de Sá, ora soam delicadas o suficiente para prover o folk-barroco de Ouvi contar e a cantiga de ninar Boa Noite. Me Faça um Favor de certa forma antevê o trabalho que a dupla Sá & Guarabyra faria após a saída de Zé Rodrix. E é exatamente Rodrix quem fornece o lado “rock” da equação “rock rural” em Ama Teu Vizinho Como a Ti Mesmo, com um belo trabalho de bateria e percussão, e Hoje Ainda é Dia de Rock, praticamente uma carta de intenções: “Eu descobri olhando o milho verde / Mãe e pai, que hoje ainda é dia de rock”. Nos anos 80, quando Zé Rodrix fez uma campanha publicitária para a Chevrolet, o jingle foi jocosamente apelidado de “última canção da estrada”, uma referência ao conto de liberdade adolescente Primeira Canção da Estrada.

A parceria ainda renderia um segundo disco, Terra, de 1972, até a dissolução do trio. Sá & Guarabyra seguiram com sucesso como dupla nos anos 70 e 80, compondo até trilhas para telenovelas e Zé Rodrix seguiu em carreira solo, emplacando o hit Soy Latino Americano e participando do grupo de rock-deboche Joelho de Porco, além de se lançar como escritor. Em 2001, o trio se reuniu e lançou o ao vivo Outra Vez na Estrada e ainda deixou o derradeiro Amanhã, lançado após a morte de Rodrix em 2009. Mas as canções, essas continuam com o pé na estrada, mesmo que seja de carona até a cidade mais próxima.

 

 

(Rogério Coutinho não sabe se é capixaba de Brasília ou candango do Espírito Santo. De bancário a estudante de literatura, de pesquisador do IBGE (mas não recenseador) a publicitário, de estagiário de rádio a gestor cultural, tem sua casa na cidade onde planta alguns amigos, discos, livros e nada mais)

 

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

GAL COSTA – RECANTO

 

 

 

 

A voz atravessa uma alameda de aparatos eletrônicos. Insere-se no outro lado de um mundo imerso em tantas e tamanhas reflexões. O que está por trás de seu canto revela-se como uma intensa ciranda de perguntas. Mas poucas são as respostas quando sabemos que tudo acontece diante de nossos indomáveis olhares e percepções. Definitivamente, a modernidade é um vão onde alguns poucos se sentem à vontade para desfilar suas convicções. No entanto, Gal Costa, penetrando outras esferas do tempo e da canção, vem nos lembrar de alguma coisa que não sabemos bem onde se abriga. Seja numa porção obscura da memória ou no ato de flagrar o que explode em nossa realidade, o disco Recanto nos lembra que a vida é uma estrada teimosamente sinuosa.

Desde o início do álbum, somos impactados pela densa atmosfera duma abre-alas Recanto Escuro, restando prenunciado que tipo de percurso seremos levados a experimentar daí por diante. Como numa viagem carregada de signos múltiplos, o disco flui pelas vias hesitantes dos sentidos humanos. Um eixo filosófico cruza a obra de norte a sul. Talvez aqui um parêntese seja fundamental: considerar que as letras são todas compostas por um inquieto Caetano Veloso. E o ato de flertar permanentemente com os impulsos da modernidade parecem não apenas fazer parte das acepções do compositor baiano, mas também atraem Gal para um terreno pouco usual em sua carreira.

Esqueçamos, temporariamente, da Gal Costa acostumada a interpretar com os arremates puros da delicadeza para considerar que certas ousadias fazem bem a uma artista de trajetória inquestionável. E por que não dizer que Recanto é um disco ousado, forte e necessário?

Num tempo em que a globalização de nossas virtudes e misérias uniformiza até mesmo modos de pensar, o cenário pode ser um pouco menos desolador. Talvez, nesse aspecto, o disco de Gal chacoalhe ideias e pontos de vista buscando afirmar que, entre mortos e feridos, sempre restará algo por dizer. Munida com a armadura de sua magistral voz, ela cruza os áridos caminhos propostos pelo verbo de Caetano e confere um recorte insone à vida.

Não são poucas as canções que traduzem o espírito indócil presente no álbum. Faixas como Cara do Mundo, Autotune Autoerótico, Madre Deus e Segunda reverberam a constatação de que nosso tempo é um verdadeiro painel de imprecisões. Mas é em Tudo Dói que o todo se desnuda. Nela, um exercício de deslocamentos ganha corpo, demonstrando a unicidade dos momentos que ignoramos com certa frequência.

Não seria possível trilhar as vias da dita pós-modernidade sem cutucar a sociedade de consumo e suas clássicas distorções. É o que fica evidenciado em letras como Neguinho e Sexo e Dinheiro. Para ambas, Gal insinua sua verve afirmativa como quem pontua uma adequada crítica ao colossal modelo impregnado pelo capitalismo. Se nessas duas canções os ânimos estão mais ácidos, o contraponto vem da suavidade inserida em Mansidão, música que festeja o dom do cantar, sem dúvida alguma a ferramenta mais preciosa da artista. Noutro momento, ainda há espaço para o estreitar de laços entre o funk carioca e o maculelê, ritmos que se unem acertadamente em Miami Maculelê.

Recanto, sobretudo por sua proposta inovadora, não é uma obra fácil de se apreender numa primeira escuta. É necessário um mergulho mais aprofundado, algo que faça com que os ouvidos percebam as convergências e nuances entre texto, voz e arranjos. Diga-se de passagem, a atmosfera eletrônica é ponto de destaque no disco, evidenciando a alternância de sentimentos ali misturados. Mesmo saindo dessa viagem musical e poética constatando que “tudo dói”, ainda podemos ser atenuados pela singularidade das coisas que fingimos não ver.

 

 

 

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

JENECI – DE GRAÇA

 

 

“De Graça é um espelho.
De um lado ele reflete você, de outro, o universo.
Que é como a gente, sem fim.
O De Graça aconteceu.
Como o sol, que não é meu, nem seu.
É nosso”.
(Marcelo Jeneci)

O melhor da vida é de graça. Sob essa tônica de ‘celebração 0800’ o multiinstrumentista Marcelo Jeneci acaba de lançar o sempre mítico segundo trabalho na carreira de um artista. E o herdeiro do bem sucedido Feito Pra Acabar (2010) apresenta-se como um álbum tropical, dinâmico e autobiográfico. Na contramão do hermetismo dos lançamentos nacionais de compositores da nova geração, como Rodrigo Amarante e seu Cavalo (aliás, se depender do visual atual, Jeneci seria facilmente confundido com um barbudo dos Hermanos), a verdade é que o paulistano nunca temeu parecer popular. E é assim que ele soa: leve e pop (jamais simplista) em pelo menos metade das 13 faixas inéditas que compõem De Graça (2013). Nas canções restantes, Jeneci mantém certa aura épica-intimista-melódica consagrada em seu disco de estreia, porém sem perder o tom esperançoso que envolve todo o repertório.

Curioso é o fato de o álbum manter esse astral mesmo sendo concebido após o fim de seu casamento. Por vezes, a temática e a própria sonoridade expõem certo sentimento de ruptura, mas tudo sem dramas ou pesares. É como se Jeneci tivesse profetizado que amores têm prazo de validade pré-determinado (a gente não é feito pra acabar?), mas colocasse em prática toda a filosofia de auto-ajuda de Felicidade, carro-chefe de seu primeiro disco. Assessorado por velhos (Arnaldo Antunes e Kassin, que produziu Feito Pra Acabar e dessa vez assina a produção junto com Adriano Cintra) e novos parceiros (Eumir Deodato e Isabel Lenza, atual namorada, com quem divide as composições em 6 faixas), De Graça foi contemplado pelo Programa Natura Musical e está disponível em streaming no site do artista. Já o álbum físico será lançado em novembro pelo selo Slap (Som Livre).

 

Marcelo Jeneci / Foto: Divulgação

 

A deliciosa e radiofônica Alento e seus versos de consolo (se alguém se for, não tente entender/o que se passou segue com você) abrem o álbum apontando o lado bom de todo revés e avisa que ‘tudo se desestrutura pra você se estruturar’. Espécie de baião eletrônico, De Graça, primeiro single e canção que dá título ao trabalho, mantém o ritmo frenético e indaga: ‘sentir o sol te acordar, bem de manhã, quem acha pra comprar?/viver na pele um grande amor e o seu calor, quem acha pra vender?’. Ironicamente, Temporal fecha o primeiro bloco de canções mais ensolaradas, não sem antes anunciar seu arco-íris otimista (o que tem começo, tem meio e fim/deixa passar o dia ruim/que a tempestade resolve com Deus).

Nas melódicas Tudo Bem, Tanto Faz (letra de Arnaldo Antunes) e Pra Gente Desprender, quem assume completamente os vocais é a doce Laura Lavieri, cantora que já acompanha Jeneci desde o primeiro álbum. O cantor reassume os microfones no pop-rock de Nada a Ver, que fala de um amor que já não se pode disfarçar, e de Sorriso Madeira, onde afirma estar em extinção e propõe plantar no quintal ‘um pé de nós dois’. A psicodelia de A Vida é Bélica (tire a distância entre você e eu/sejamos um/sejamos Deus) lembra Os Mutantes, enquanto a despretensiosa Julieta (você não sabe ler/uma carta de amor/muito menos contar/quantas silabas têm/uma desilusão), balada sessentista, poderia tocar no bailinho pré-trocadilho de Genival Lacerda.

Os versos de O Melhor da Vida reiteram a intensidade de nossa existência (sinto que o melhor da vida sempre vem de graça/sinto que o melhor momento é aquele que não quer passar/e que dura toda a eternidade/e isso é só pra começar). A majestosa Um De Nós (um de nós/vai sentir a falta/de um de nós) fala do caráter insubstituível de um grande amor e têm os mais belos arranjos do pianista Eumir Deodato, que assina também a orquestração de outras quatro canções. Composta para a trilha de Vila Sésamo, a graciosa Só Eu Sou Eu (tem muita gente tão bonita nessa terra/nas minhas contas são 7 bilhões/mais eu) é praticamente uma cantiga de roda com direito a burburinhos e gargalhadas infantis. O lirismo e a introspecção ficam a cargo de 9 Luas, faixa soturna que encerra o registro e remete a um comportado Ney Matogrosso.

Nestes três anos que separam primeiro e segundo álbum, definitivamente Marcelo Jeneci amadureceu (e emagreceu). A feição de bom moço agora dá lugar a certo ar de mistério e de um charme desleixado. A temática sentimental/existencial está presente nos dois registros de estúdio e, de forma discreta ou não, a sanfona continua assumindo sua importância. No entanto, agora, a sonoridade jeneciana assume um novo groove e suas composições estão ainda mais seguras. Se Feito Pra Acabar era considerado brega, De Graça virou indie e está um barato. E ache graça quem quiser achar.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é sua graça. E, escrevendo, tenta levar a vida em estado de)

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

RODRIGO BEZERRA – TEMPO ILUSÃO

 

 

 

Cultivar os arremates do tempo como se eles fossem fiéis companhias. Se cada instante encerra uma surpresa, o que seria de nós sem o sabor de certas revelações trazidas com o vento que circula entre nossos devaneios? Há um sentido avarandado na porção serena da vida. Isso traz calma, cor e luz para o sopro que alimenta nosso caminhar de mortais.

Como materializar um pouco toda esta sensação? Talvez abrindo as escutas para o disco de Rodrigo Bezerra. Apegando-nos de imediato ao nome de batismo do álbum, ficamos imaginando qual signo melhor acolhe o teor cronológico da existência. E não se está a falar aqui duma mera feição concreta das coisas, algo que busque elementos sequenciais de uma trajetória de vida qualquer. Pelo contrário, a ideia de Tempo Ilusão sugere uma perspectiva a mais imaterial possível, sobretudo pelo fato de o que presenciamos no fluxo cotidiano poder ser tão fugaz quanto uma lembrança perdida.

Deixando de lado as divagações, o ponto é que o ambiente sonoro criado por Rodrigo não deixa dúvidas quanto ao caráter sublime de suas canções. Para perceber isso, basta se deixar levar pela letra e música de Mais é menos, cujo jogo de oposições dos sentimentos acaba por flertar com o equilíbrio entre certas tensões que suportamos. Ao ouvirmos Circular, fica a impressão de que o dinamismo que conduz a existência torna tudo passível de renovação. Mesmo se insistirmos em revisitar começos, ainda assim somos impelidos a avançar rumo ao desconhecido e vislumbramos nisso algum sentido de libertação.

Na canção Esperar, reforçamos o ato impreciso de sempre aguardarmos que o intangível afague nossos ombros e retire a sobrecarga deles. Para quando o tempo com seus ardis nos oferte respostas, estaremos sempre a apostar que tudo se explica de algum modo. Se a jornada parece angustiante, o cenário pueril de A criança vem nos sussurrar que a liberdade é um recurso para quem não se deixa levar por questionamentos excessivos e inúteis.

 

Rodrigo Bezerra / Foto: Diego Bressani

 

Tempo Ilusão é um disco que enaltece a formação musical de Rodrigo Bezerra, principalmente no que se refere aos arranjos regados a violão e guitarra, instrumentos bem íntimos do artista. Além disso, a conjugação de outros aparatos como bateria, saxofone, trompete, flauta e flugenhorn traz uma pegada jazzística bastante interessante. Aliada à concepção do jazz, a brasilidade do álbum ganha corpo com elementos que derivam do samba.

Afora o time de músicos que emprestam vigor ao trabalho, reunindo nomes como Felipe Viegas, Renato Galvão, Bruno Patrício e Westonny Rodrigues, não há como ignorar também a bela participação vocal de Ana Reis na faixa Além de acordes, composição que enaltece o espírito do jazz presente ali.

Segundo trabalho solo de Rodrigo Bezerra, que foi o primeiro aluno formado pelo departamento de guitarra Elétrica da Escola de Música de Brasília, Tempo Ilusão apresenta uma proposta bem definida, que é a de harmonizar sentimentos que nos atingem indistintamente a todos rumo a um caminho sonoro marcado pela simplicidade. Sem pretensões e arroubos vazios, o artista deixa a impressão de que a estrada da música pode ser trilhada sem o tradicional peso da espetacularização das coisas. Na leveza das ações, um grande trabalho funda seu próprio território.

 


 

 

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82ª Leva - 08/2013 Gramofone

Gramofone

Por Rodrigo Melo

 

JAIR NAVES – E VOCÊ SE SENTE NUMA CELA ESCURA, PLANEJANDO A SUA FUGA, CAVANDO O CHÃO COM AS PRÓPRIAS UNHAS

 

 

 

Jair Naves é um sujeito magro, de nariz grande e olhar perdido que, ao vê-lo na rua, você provavelmente ficará a imaginar que é mais um órfão de Ian Curtis ou Kurt Cobain, um desses rockers que perderam o bonde, mas mantém a pose, o jeito um tanto tímido e enigmático no caminhar. Há uma porção por aí, e eles passam as tardes zanzando de um lugar para o outro, fumando cigarros, olhando as coisas, criando teorias sobre como tudo poderia ter sido se seus ídolos não tivessem morrido. Jair, entretanto, embora pareça, não é um desses órfãos, tampouco perdeu o bonde para algum lugar. Circulando há um bom tempo pela dita cena alternativa nacional, a primeira vez que soube dele foi através da banda Ludovic. Lançaram dois discos muito bons, cultuados hoje, com um hardcore de primeira linha, sem frescuras, por alguns alcunhado de hardcore pé de cana – em cima do palco, e ele era o frontman, o seu jeito retraído desaparecia, como se assumisse outra personalidade ali. Antes da Ludovic, participou, ainda, como baixista no último disco da Okotô, outra banda de destaque.

As bandas, no entanto, acabaram, e Jair sumiu.

Em 2010, ouvi falar dele outra vez. Ensaiava uma carreia solo. O nome do ep era Araguari, e há toda uma história sobre a escolha desse nome. Araguari é, na verdade, a cidade mineira em que Jair nasceu. Em 1967, Luís Sérgio Person dirigiu o filme “O Caso dos Irmãos Naves”, que contava a história de Sebastião e Joaquim Naves, parentes distantes do nosso rocker, acusados, presos, e torturados por um crime que não cometeram. O filme foi premiado, a história ganhou destaque e um dia, muitos anos depois, chegou às mãos de Jair. Identificando-se com o filme, ele viveu um tipo de resgate, usando a história e lembranças que tinha da cidade como alimento para voltar a criar. Numa das músicas, Araguari I(Meus Amores Perdidos), ele diz: “As lembranças que guardo de Araguari/ Resumem-se ao dia em que fugi/ Caçado de perto por uma multidão/ Decidida a fazer justiça com as próprias mãos”. Entre uma faixa e outra do ep, trechos de áudio do filme de Person.

Um ano depois, ele lançou o single “Um Passo por Vez”.

 

Jair Naves / Foto: Divulgação

 

Mas vamos a 2012, é por isso que estou aqui. Foi neste ano que saiu o disco E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas. Quase ninguém mais consegue, ou pelo menos tenta, títulos assim. Pensei que era ousado, sobretudo por flertar, perigosamente, com o lugar comum. Um monte de gente já sucumbiu a esse ardil. Mas devo dizer que, quando se é honesto e o sujeito gosta do que faz, os riscos diminuem. E o disco de Jair é bastante verdadeiro, dá para saber logo nos primeiros minutos de audição. Com uma pegada mais leve, mas ainda assim densa, o disco é cheio de melancolia e de um tipo de desespero contido, as músicas iniciando-se e acabando como se estivessem de mãos dadas, uma ligada à outra, por vezes transparecendo influências (de Wander Wildner, ao folk, pós-punk e algumas bandas dos anos oitenta), só que com uma atmosfera contemporânea e por demais particular, sem, justamente por isso, soar datado ou como se fosse alguma repetição. Sem perceber, você aos poucos se acostuma àquela toada de trovador perdido que Jair tem.

Outro fator que diferencia o disco são as letras. Mesmo quando fala de assuntos comuns, como amor e desilusão, seu jeito de tratar o tema chega a ser em alguns momentos literário, não se contentando em apenas rimar ou agradar. Um exemplo disso é a letra da música A Meu Ver: “Então me recebe/ Como eu te receberia/ No melhor dos momentos/ Ou no pior dos seus dias/ Estou tão esgotado/ Tudo é frágil demais/ Posso não estar aqui/ Quando olhar para trás/ Então hoje me abraça/ Como eu te abraçaria/ No pior dos seus dias”.

Ian Curtis, tudo faz crer, gostaria disso aí.

E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas é um disco que vale ser conferido. Talvez não te encante logo de cara, ou do jeito que me encantou. Meu conselho é este: escute algumas vezes mais, depois a gente conversa novamente.

No mesmo ano, 2012, Jair Naves ganhou o prêmio Revelação da Associação de Críticos de Arte de São Paulo, e foi considerado um dos mais talentosos e promissores compositores de sua geração.

Ele é aquele sujeito do início: tímido e narigudo, de jeito meio enigmático ou estranho, que, ao passar por você na rua, talvez olhe para o chão.

 

 

(Rodrigo Melo é ilheense, nascido em 1971, ano do javali, da marcha contra a guerra do Vietnan, ano em que Neruda vingou. De 71 pra cá, escreveu contos, alguns editados em revistas e jornais, e poemas nunca lidos ou mostrados. “O sangue que corre nas veias” (Editora Mondrongo – Ilhéus – BA – 2013) é seu primeiro livro. Se pudesse, começaria com o segundo. Recentemente, integrou a coletânea de contos 82 – Uma Copa l Quinze Histórias (Ed. Casarão do Verbo)