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71ª Leva - 09/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

LEO GANDELMAN – VIP VOP

 

 

 

Entre aquilo que efetivamente somos e o que pensamos ser, há um hiato por vezes imperceptível. Coisas se agigantam e somem diante de nossas mais firmes certezas e arremates. Cenários se revezam de forma frenética, transpondo o pano de fundo de tantas investidas e revelando que o fio delicado da existência atravessa toda sorte de pretensões. Caminhando um pouco mais por sobre a passagem do tempo, talvez consigamos perceber que o jogo dos extremos flerta a todo instante com nossas hesitações. E assim, sabendo-nos duais por natureza, firmamos o pacto de sermos som e silêncio na medida em que a vida e seus imperativos pedem passagem.

Quando a arte assinala lembranças em torno dessa ciranda de signos em que estamos envoltos, muitos horizontes podem se descortinar. E gente disposta a tecer representações dessa natureza não é algo tão raro. Exemplo vistoso disso é quando nos permitimos ouvir VIP VOP, o mais novo trabalho do saxofonista Leo Gandelman.  A começar pelo título, o músico já deixa clara a sua intenção de provocar nossa atenção rumo a uma jornada que sabe ao instigante e complexo universo das porções humanas.

Enquanto a porção VIP (Very Important Person) remonta a uma espécie de Olimpo do ser/estar, sua correspondente antagônica, VOP (Very Ordinary Person), por sua vez, firma os pés no chão sem aniquilar as asas de Ícaro. Da combinação desses dois termos, prevalece muito mais uma noção de complementaridade do que uma mera oposição de sentimentos. E sermos, ao mesmo tempo, especiais e comuns é condição necessária para que a lucidez não afaste o sonho, ou vice-versa.

O fato é que o norte escolhido por Leo Gandelman aponta veredas sublimes em torno dos contrastes que moldam nosso barro. O disco de então prima por um traço bem digno de um vigor poético, trazendo à tona todo um percurso apoiado em gêneros como a Bossa Nova, o Samba e o Jazz. Nesse ambiente de fusões rítmicas, cada faixa deixa exalar o quanto de pesquisa musical habita a vasta carreira do artista. A condução dos arranjos e a disposição do repertório são pontos precisos do álbum, tecendo um painel de sensações que se apoiam em recortes valiosos de nossa brasilidade.

Do mosaico de imagens sonoras percebido no disco, chama atenção a intensidade de composições como Sinal Vermelho, Nego Tá Sabendo, Vip Vop e Numa Boa. Do mesmo modo, uma aura de delicada beleza toma conta das escutas em torno de Luz Azul, Neshama (Para o Meu Pai) e Alma Cubana. O time de músicos, composto por David Feldman (piano), Alberto Continentino (baixo) e Renato Massa (bateria), é virtuoso e reforça de modo especial o caráter de permanência da obra.

Com 10 discos solo na bagagem e uma trajetória de projeção nacional e internacional, Leo Gandelman consolida em VIP VOP uma maturidade musical deveras importante. O artista visita cenários de nossa rica sonoridade sem apontar para a tão desgastada noção da releitura. O resultado é um mergulho autêntico por sobre aquilo que está entranhado de modo valioso em nossa cultura. Ao penetrar cada espaço materializado na alameda instrumental do álbum, cotejamos o equilíbrio do ser como forma de sabermo-nos parte de um lugar que nunca estará cheio nem tampouco vazio. Bom mesmo é saber que o lado sublime das coisas afugenta excessos.

 

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Destaques Gramofone

Gramofone

 

Por Larissa Mendes

 

O TERNO – 66

 

 

“(…) E hoje faz sucesso quem faz plágio diferente”.
(O Terno, 66) 

 

Terno: grupo de três coisas ou pessoas; vestimenta clássica composta por três peças (paletó, colete e calça); sentimento de doçura ou suavidade. Seja qual for a vertente interpretativa adotada, ela dará pistas sobre as singularidades desta banda paulista formada por Martim Bernardes (voz e guitarra), Guilherme Peixe (baixo) e Victor Chaves (bateria). Fundada em 2006 pelos então colegas de colégio Tim e Peixe (Chaves completou o trio em 2009), 66 é o primeiro registro de estúdio da banda. Com um rock de roupagem retrô, letras inteligentes e bem humoradas, o videoclipe de seu single possui mais de 60 mil visualizações no youtube e a banda foi indicada ao prêmio Aposta VMB 2012, da MTV. Influenciados por Mutantes, Caetano Veloso, Beatles e The Kinks e apadrinhados pelo músico – e pai do vocalista Tim Bernardes – Maurício Pereira (Os Mulheres Negras, duo com André Abujamra), O Terno contou ainda com a presença ilustre do cantor Marcelo Jeneci tocando órgão hammond no álbum.

Como nos antigos vinis, as 10 faixas são divididas em lados A e B. Enquanto o primeiro lado é totalmente autoral, com composições de Tim, o segundo é formado por releituras de canções de Maurício Pereira. O single 66 abre o disco e dá o tom das inevitáveis comparações que qualquer banda nova sofre: ‘Me diz, meu Deus, o que é que eu vou cantar/Se até cantar sobre ‘me diz meu Deus o que é que eu vou cantar’/Já foi cantado por alguém/E além do mais, tudo o que é novo hoje em dia falam mal’. A melancólica Morto tem uma pegada blues, enquanto a divertida (e sádica) Zé, Assassino Compulsivo conta a história de um serial-killer deveras passional. Completam o lado A, Eu Não Preciso de Ninguém e Enterrei Vivo, talvez as mais expressivas canções do álbum. No lado B, pai e filho dividem os vocais e Pereira assume o saxofone. A inspiradíssima Quem é Quem (‘quem é quem pra dizer quem é o quê’) parece advertir os novatos contra eventuais rótulos. A graciosa (e quase sertaneja) Modão de Pinheiros faz um passeio pelas ruas do bairro da zona oeste paulistana e adjacências, enquanto Purquá Mecê, do disco Música e Ciência, d’ Os Mulheres Negras, de 1988, fala de pássaros e ganha arranjos mais melódicos que o original. Se Compromisso carrega nas guitarras para embalar a poesia de ‘um beijo terno/um abraço gravata’ de Pereira, Tudo Por Ti encerra o álbum em ritmo de ska.

Por razões óbvias, é natural a [boa] influência que Maurício Pereira exerça sob Tim Bernardes e O Terno, visto que a parceria entre compositor e banda data de 2009, quando os músicos foram convidados para elaborar novas versões para o padrinho, culminando no show O Terno & Mauricio Pereira. Além disso, sob o codinome “Pereirinha & Pereirão”, Maurício pai e Martim filho também tocam ao lado de convidados como Wander Wildner, Theo Werneck e do próprio Abujamra. Talvez Maurício Pereira tenha até seu terço de parcela no bom resultado final do cd, mas nada que comprometa os méritos musicais desses rapazes de 20 e poucos anos que, com letras elaboradamente irônicas, fazem um rock nostálgico, meso sessentista, meso anos 2000 e trazem um tom sépio às coloridas (porém, desbotadas) sonoridades atuais. Bem estruturado e com a classe que o modelito impõe, O Terno está devidamente repaginado e tem tudo para ser tendência na(s) próxima(s) temporada(s).

 

* 66 pode ser ouvido, na íntegra, aqui

 

(Larissa Mendes não usa tailleur nem black-tie, mas aprecia música de alta-costura)

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

CURUMIN – ARROCHA

 

 

 

Quais sentidos poderíamos atribuir ao termo arrochar? No dicionário, o primeiro teor que se tem à vista é o de apertar algo com força, quiçá comprimir ao máximo para se obter algum efeito premeditado. Em se tratando das escolhas do músico paulista Curumin, batizar seu terceiro disco pela alcunha de Arrocha parece ter soado como uma necessidade de extrair ao máximo uma sensação extrema das coisas. Trata-se do trabalho mais eletronicamente carregado do artista e, segundo o próprio, construído quase que inteiramente de modo doméstico, num estúdio caseiro.

Desde Japan Pop Show (2008), segundo álbum de sua trajetória e talvez o mais emblemático de todos, Curumin deixou marcada uma forma de trilhar caminhos sonoros de modo bastante diferenciado, dialogando com elementos eletrônicos, dub, funk, jazz, samba, reggae, afropop e outras tantas possibilidades. Tudo longe de soar pretensioso, sem a necessidade de emplacar qualquer arremate vanguardista. Esse tipo de comportamento é sempre muito bom, principalmente porque retira o fardo de se esperar do novo algo sensacional sob os mais variados aspectos. Quiçá até este seja um vício perigoso de nossos tempos. E em Arrocha o músico revela-se afinado com esse descompromisso supremo da estética, passeando despercebidamente pelos difusos sentimentos de uma tônica acentuadamente urbana.

O disco pode muito bem apontar para o fato de se estar vivo e respirando a partir de uma metrópole como São Paulo, mas reforça também uma aparição de elementos da natureza. Esse tipo de contraposição de perspectivas aparentemente tão antagônicas parece revelar um desejo de suavizar tensões cotidianas. Quiçá isso prove que não consigamos viver sem mordiscar os lábios sedutores da extremidade das coisas. A sensação que fica é a de que, mesmo sendo mais fácil apostarmos na zona de conforto, a nos entregar tudo quase que falsamente acabado, há sempre um convite tentador de se saborear o limite ou algo além dele.

O caminho eletrônico escolhido por Curumin agora tem momentos especiais. Como exemplo disso, podemos destacar faixas como Afoxoque, Treme Terra, Passarinho, Paris Vila Matilde, Doce e Pra Nunca Mais. Noutro ponto, a regravação de Vestido de Prata, composição de Paulinho Boca de Cantor, caiu feito uma luva no disco, sobretudo pela interpretação.

Mais do que passar uma noção de compressão tida pelo significado imediato do título do álbum, Arrocha equilibra sentimentos, pois traz em si a vontade de atenuar certos deslizes de nossa contemporaneidade. Buscar nos elementos da natureza uma forma de conter o avanço devastador de nossa selva de pedra é uma das mensagens presentes no disco. Tudo feito com leveza, sem repetir velhas fórmulas já tão desgastadas quando o assunto é preservar o todo em que habitamos. Com um fio condutor desse porte, Curumin nos oferta um percurso sonoro agradável, deixando cada vez mais aberta a estrada de suas realizações.

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68ª Leva - 06/2012 Gramofone

Gramofone

 

Por Fabrício Brandão

 

OQUADRO – OQUADRO

 

 

 

Há coisas que maturam no tempo de modo inexplicável. E eis que qualquer ânsia ou desejo imediato de realização poderiam até distorcer um sentido mais puro do que se pretendia transmitir num impulso primeiro. Mas o senhor dos instantes é destemido, ignora barreiras aparentemente intransponíveis e aposta firme na resistência dos bravos e coerentes consigo mesmos.

Quem conhece a história de pessoas como os integrantes da banda OQuadro entende perfeitamente o significado do primeiro parágrafo desse texto. Depois de alguns bons anos de estrada musical, a trupe originária das paisagens litorâneas da baiana Ilhéus reúne num só feito parte valiosa de seus ímpetos criativos. O disco de estreia premia de modo intenso a paciência e a expectativa de se materializar uma obra sonoramente bem arquitetada.

Do início ao fim, as expressões de Rans, Jef, Freeza, Ricô, Victor Santana, Rodrigo Dalua e Jahgga harmonizam-se em torno de um verdadeiro mosaico sonoro. E o motor principal das razões por aqui está no vigor do discurso. A capacidade de verbalizar do rap, gênero predominante no estilo da banda, dá lugar a uma perspectiva diferenciada de representação. Basta ouvir cada uma das faixas com esmerada atenção para perceber que estamos bem longe de qualquer proposta demagógica ou panfletária. Pelo contrário, a verve ideológica que pulsa no trabalho nos toma de assalto pela certeira capacidade de encadear visões de mundo e, com isso, causar efeitos necessários de provocação.

Por todos os cantos do disco, tudo está devidamente em seus lugares. Desde a precisa escolha do repertório, passando pelos arranjos e elementos vocais, é possível perceber que o equilíbrio é ponto forte do álbum. Se o grande desafio de nossa contemporânea idade é o de apostar na originalidade, OQuadro o faz com maturidade e personalidade, sem dar margem a desvios e excessos, tudo apoiado em influências que derivam de elementos como Hip-Hop, Jazz, Reggae, Rock, Samba e Afrobeat.  Ao nos depararmos com a primorosa arte da capa, cartão de visitas inalienável do grupo, a matriz africana, com seus elementos rítmicos e discursivos devidamente encaixados, já é capaz de prenunciar o traço essencial da obra.

Sob a batuta do produtor Buguinha Dub, que traz no currículo gente do quilate da Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Racionais MC’S, Mestre Ambrósio, dentre outros, o disco ainda conta com o auxílio luxuoso de Guilherme Arantes, da rapper Lurdez Da Luz e do Mc Dimak.

Marcado por um tom inteiramente autoral, é difícil eleger destaques no cd. No entanto, não há como ignorar a força que brota de canções como Evolui (Bem Aventurados), Seja Bem Vindo Ao Meu Lar e Valor de X² (Parte 2). A incisiva letra de Tá Amarrado é ponto alto do disco, trazendo à tona toda uma sorte de referências advindas dos signos afro-brasileiros, tudo com uma provocação construída de forma bem inteligente e aguçada. Noutro ponto, chama atenção a belíssima composição e interpretação de Fogos de Artifício para o Precipício À Vista, canção que de modo poético evoca uma prece à esperança no porvir. Como se não bastasse, a qualidade aponta também em cheio para os arremates instrumentais de Sapoca Uma de Cem e O Soco.

Em meio à Babel de nossos tempos, sempre cai bem uma boa dose de lucidez em frente ao espelho de nós mesmos. O que perceberemos do outro lado? Quiçá a coragem das reflexões possa lançar algumas pistas. Enquanto isso, é bom que, exercitando a compreensão das complexidades humanas, permitamo-nos ouvir o que de mais genuíno o outro possa nos ofertar. Evoé, OQuadro!

* O disco está disponível para download gratuito aqui.

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Gramofone Outras Levas

Gramofone

Por Fabrício Brandão

GUI AMABIS – MEMÓRIAS LUSO AFRICANAS

 

 

 

Reúna toda a sorte de sentimentos que possam tecer um mosaico de válidas lembranças. Em seguida, junte boas doses de afetos, algumas fotografias retidas na mente e outros ensinamentos impregnados do sempre útil tempo das escutas. Antes de cerrar o baú de sentidos múltiplos, não se esqueça de colocar, por entre as vestes embaladas do corpo, medidas abundantes de boas sonoridades. Depois que tudo estiver pronto, mire detidamente o tecido estampado e vivaz que envolve o todo organizado. Então, é partir para o universo paralelo, onde cenários abusam de colorir memórias.

Quem lê tamanha alegoria, certamente construirá o ambiente que lhe parecer melhor. E o segredo é não ter receita para perceber as coisas sublimes da vida. Assim nos diz o belíssimo primeiro trabalho solo de Gui Amabis. De início, é imperativo dizer que estamos diante de um disco cênico, no qual as imagens se multiplicam a cada som ou voz expelidos. Com isso em mãos, ou melhor, nos ouvidos, tudo ganha mais vigor e força, principalmente pela forma cuidadosa com a qual o músico compartilha conosco parte substancial de sua história.

Memórias Luso Africanas é um denso e contemplativo percurso pelas veredas familiares de Gui Amabis, tecendo um rico álbum de imagens que derivam das histórias construídas por avós, pais e outros entes queridos do artista. A mescla das tradições de dois povos, como o título sugere, ajuda a consolidar um espaço de sonoridades repleto de signos diferenciados, todos eles movidos pela poesia contida na sucessão dos anos vividos.

A costumeira característica instrumental sempre muito viva de Gui só reforça o caráter imagético do disco, transportando quem ouve para o local exato onde os instantes rememorados acontecem. É pensar numa ópera moderna e depois imaginar que cada faixa encerra um momento que jamais se perderá no turbilhão do tempo. Diante disso, não fica difícil entender por que canções como Dois Inimigos, Orquídea Ruiva, Sal e Amor, Doce Demora, O Deus que Devasta Mas Também Cura e Para Mulatu retratam com precisão e delicadeza um sentimento de gratidão à vida.

O que torna o conjunto da obra mais valioso ainda é ver ali, desfilando suas vozes e energias, artistas do quilate de Céu, Criolo, Tulipa Ruiz, Dengue e Lucas Santtana, todos eles bastante envolvidos numa atmosfera feita de luz e som. E a rica bagagem musical de Gui Amabis, sobretudo na perspectiva da criação instrumental, confere uma dimensão especial ao cd, tendo como norte uma seleção de repertório com traços devidamente aguçados de sensibilidade. Materializar sentimentos e outras tantas percepções derivadas da alma é a virtude maior encontrada por aqui. Em meio ao ato de recordar, saber-se vivo é, antes de tudo, compreender o que está por trás de nossas origens.

 

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66ª Leva - 04/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

MUNDO LIVRE S.A. – NOVAS LENDAS DA ETNIA TOSHI BABAA


 

Depois de alguns anos sem gravar, eis que os pernambucanos do Mundo Livre S.A. atacam de novo e intensamente. Com uma pegada que mistura letras irreverentes e bem dosadas de críticas voltadas aos efeitos míopes de nossos tempos, a trupe comandada por Fred Zeroquatro não se cansa de ser afirmativa naquilo que melhor sabe fazer: construir um caminho próprio e eivado daquilo que acredita ser o fundamental. Diga-se de passagem, o próprio Fred, que assina todas as letras do novo álbum, acaba por consolidar uma estética que vem se desenhando ao longo da trajetória do grupo, verdadeira teia de ideias a torpedear sentidos necessários ao tresloucado mundo que nos cerca.

Sem dúvida alguma, o que mais chama atenção no trabalho da banda são os elementos construtores do discurso. É como se, a cada disco, um capítulo de um extenso livro fosse escrito de forma pungente e continuada. Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa é apenas um pretexto para deixar correr solto um universo paralelo de coisas que explodem aos quatro cantos do mundo. O nome, por si só, encerra um vasto painel pictórico de possibilidades e mexe bem com os brios da famigerada contemporaneidade. Aqui, vale também ressaltar a expressividade da arte de Derlon Almeida exposta na capa do cd.

Despaginando cada trecho dessa história agora contada, uma profusão de temas flutua nas mais variadas dimensões sonoras presentes no álbum. E exemplos dessa miríade de sensações não faltam. Há espaço para um vigoroso sentimento urbano nos apelos de Constelação Carinhoca 7324, faixa que também devota as atenções para a consciência ecológica. Noutro ponto, Se Eu Tivesse Fé – Fucking Shit vai fundo na racionalidade para questionar enlaces religiosos. Em Soneto do Envelhecido sem Pretexto, a sensação maior fica por conta de uma verve poética devidamente entonada sob a forma de um lúcido clamor. Uma controvertida negação à solidão se faz presente em Nenhum Cristão na Via Láctea.

Com 25 anos percorridos, a Mundo Livre S.A. não economiza nos arranjos de seu mais novo rebento e põe sua sonoridade a toda prova. Mesclando com precisão música e conteúdo, a banda mostra que os caminhos permanecem abertos a outros tantos arremates. O apelo lendário encerrado no nome de batismo do disco é valioso propósito para deslocar o foco em torno da escamoteada realidade em que pactuamos viver. Resta-nos a percepção do rumo das coisas, antes que o vento se encarregue de espalhar desavisadamente as páginas que mal sabemos escrever.