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133ª Leva - 05/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Clarissa Macedo

 

Pintura: Canato

 

Desconhecida

 

As utopias acabaram
em nome da televisão,
um erro feito
pelo preço do petróleo

Eu te amo, tu me amas
e o verbo já não pode mar

Em nome de Cristo
muitas guerras foram dadas
em nome da dívida
uma tristeza no tronco do país.

Todos os mestres morreram
e na tua carne se desenha
traços que inauguram um título
baralho aberto no avesso da palavra,
asa feita de corpo e de coragem

O mundo agora
cruza um lago sem memória
e em alguns anos
estaremos mais pobres
mais burros
mais tristes
na alma e no prato (    )

Cresce um rasgo
em massa e sem história
na palavra-passe chamada pátria –
essa nódoa, essa traça
esse vazio imenso do nome
no mito de um tempo chamado aflição.

 

 

 

***

 

 

 

Faísca 

 

Ontem havia esperança
toda a esperança do mundo.
Hoje sou um estilhaço
um catálogo de dúvidas
e desejo.

Os pássaros não voam mais
e o dia que nasce
é o luto ordinário, grave,
posto sobre a mesa.

A boca diz o que o coração fala
e a dor é antiga:
chega, se instala
abre ocos na aorta, devagar,
para o aprendizado –
………………………………………do enigma

……………………………………….. da sutura
……………………………………………………..da ferida
……………………………………………………………………..da beleza.

Os fracassos… saúdam uns aos outros;
o que fica é o peso
a humilhação calcada nos olhos.

Digam que perdi:
que faltei às classes de empreendedorismo
e visitei às de angústia e miséria;
que não vou ao shopping
que rasguei os papéis e os comi.

Digam que perdi tudo:
a fé, o sonho, o dinheiro que não sobra

mas amo como se fosse eu o país
essa cavidade aberta
exposta, sangrando até a morte.

 

 

 

***

 

 

 

Versículo

 

1º Evangelho do Capital, 1, 1º. não derramarás coca-cola
em vão: / tomarás todo o néctar da garrafa não-reciclável;
/ não catarás os meninos e suas tampilhas, / ao risco de
ser apedrejado / ante a primeira vitrine; / patrocínio do
produto cuja etiqueta cobre o líquido do tiro perfurado.

 

 

 

***

 

 

 

Carnê

 

logo cedo a caminho do trabalho
olho a lista de coisas pregada na geladeira de 10 prestações
……………………………………………………………………………..[que não foram pagas
a mesma que congela ovos e óvulos da casa
a mesma que assiste na tv a cidadã que reza,
corta e mata em nome da moral etc. e tal
e que aparece no outdoor da cidade – esse espelho de
………………………………………………………………………….[simulacros;
geladeira que congela, escorre,
que não refresca a água da casa onde vive quem uiva sem
[presas a lista de coisas e a violência no coração seco do mundo

 

 

 

***

 

 

 

Arado

 

Nesta contrição feita de nuvem
o seixo que a conforma
é um sortilégio de canções
um sem fim que aflora
e deita à fera
um fio de água
que dos olhos brota

; assim entra no limbo
deixando fora as contas,
o salário baixo, a feira pobre
e até mesmo a nação
– esta que dói
por sangrar o cofre
deixando a nu os que plantam
e não colhem.

 

 

 

***

 

 

 

Rito

 

Sou uma tripa de pedras
que se escoam na ciclovia
das aves a morder o tempo
e seu desvão de tic-tacs

uma esfinge que choraminga
sem oráculo e sem os cactos
que não dormem;

tudo o que vive
é esta parede sem reboco
que observa, vigilante,
a goteira da sala
e se confunde com meu choro
a tomar as unhas, os canos
o cimento da massa;

quatro cantos
e os signos do calvário.

 

 

 

***

 

 

 

Certidão

 

Se pudesse
arrancaria meus nomes
um a um
para desbaratar
a lápide que me cobriu
na vida.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), licenciada em Letras Vernáculas, mestra em Literatura e doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. É autora da plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra – 2014) e do livro Na pata do cavalo há sete abismos (7Letras – Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia – 2014, em segunda edição pela Penalux, 2017 – 3ª reimpressão, 2019), ambos de poesia. Entende a literatura como ferramenta para um mundo melhor.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Stefano Calgaro

 

Foto: Luiz Bhering

 

Ouça, rosto ungido pelo vento
as menores cascas estão secando a umidade dos canais
não era mentira quando disseram que a barreira iria mudar a rota e a construção de nossas casas de areia
mas mesmo assim o hibisco preso atrás da sua orelha representa a sua ordem imperativa de paz
combina suas marcas vermelhas com o dourado cerrando suas pálpebras de ferro
e não se deixe fugir
ouça,
não se deixe fugir como uma forma de medo pela aniquilação
não deixe de ouvir o vento empurrando sua franja para os montes
não deixe de bater os dias com um pé e com as mãos que recolhem as farpas
não deixe fugir sua vantagem

 

 

 

***

 

 

 

roo e agradeço às pequenas coisas
por expulsar os estertores da memória
que deixam num facho os dias congelados
como que de púrpura
e a memória aberta
não estanque……………………ao sol aberto
vendo com olhos semicerrados que uma pessoa é sempre a minha melhor ferida
e por isso tenho vivido sempre entre os seres inanimados e os animais domésticos para ver amar de novo
ver outra cor espraiar do terceiro hemisfério
ver outra cor espraiar dos horizontes
quase sempre semicerrados
mas ainda abertos

 

 

 

***

 

 

 

É chegada a hora que você se espanta com o osso que sai do meu peito
eu confiro a profundidade do seu umbigo com meu dedo fura bolos
por baixo do lençol a história de suas estrias de quando você cresceu rápido demais
por baixo dos meus pelos a história de minhas estrias de quando emagreci rápido demais
a altitude dos meus calos faz novas linhas na tua mão como brancas tatuagens de hena
suas cicatrizes que se encontram nas mesmas partes que as minhas cicatrizes se encontram
a sua mancha de limão na barriga formando um mapa da américa latina
Você vê agora até que ponto aguentam meus cabelos
corpo a corpo
medindo as travessias e até que ponto aguentamos as distancias a nado à ausência e à euforia
enquanto cambiamos entre a primeira a segunda a terceira pessoa
como alguém que é e foi e já não é
e vemos que parte é inteiramente nossa
irreproduzível
em todos os corpos que achamos ao longo de nossa curta vida até aqui
o meu arrepio o teu arrepio se encontram
seremos os desconhecidos mais íntimos que já pousaram os olhos nesta terra
serei muito em breve a tua sombra indômita

 

 

 

***

 

 

 

Aos que herdaram essas terras
deixaremos buracos e sustos
ensurdecendo seus talhos em nós
lasseia agora o amor esquecido
pelos sismos diários e uma jornada
mal posso acreditar que sobrevivi ao domingo
mal posso acreditar no ruído acoplado à candura
deixaremos um dilúvio
para o planalto
e um alívio
para as moscas
e com nosso peito exposto
saberemos que este amor
fabrica nossas armas
e o nosso grito plana nas ruas
avisando

 

 

 

***

 

 

Sinto que quando falamos medo
Tem sempre alguma outra coisa em que estamos esquecendo

 

 

 

***

 

 

 

acha-se em farpas como um dom que não sabe por onde irá romper
quando os obeliscos nos apontam feridas as estradas virgens
não é nenhuma má intenção perguntar dos quatro compassos que já não são
rompo as levadiças para ver se acham nessa cidade o que buscam em outra
só para então forçá-los para fora do meu sistema e do meu canal
aqui nenhuma peça está faltando
o mais difícil mesmo será correr olhando os anúncios
achar o pulso pensando se há sangue pelo lado de dentro e de fora
e se já não é mais o mesmo do que corre por dentro
já é um sistema externo um passado
já não tem um ritmo
eu deveria me preocupar com a minha dieta e comparar com a dieta de alguns mamíferos em particular …………..da baleia e do morcego
por que cantam e fluem
por que espremem a espinha dorsal às cores
por que precisam de um meio.……………e de um som

 

Stefano Calgaro (1991) nasceu em Porto Alegre e vive em São Paulo. “Pequena volta” (Pátua, 2019) é seu primeiro livro.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

André Merez

 

Foto: Luiz Bhering

 

cromatografia da dor

 

Tudo isto é dor:
o que falta,
a miséria do mundo,
a miséria do homem.

As horas longas entre as luas,
uma luz absurda que absorve
a calma dos meus olhos vivos
e fia com uma agulha essa dor.

Sim, tudo isso é dor.
Toda essa cor de faltas
e de vazios, cor nada, cor nunca,
a cor incompreendida das horas.

Nenhuma cor em meus olhos
nenhuns olhos nesse rosto,
só uma dor perene sem cor,
só uma figura distorcida pela dor.

Próxima, inteira, latente e fixa.
Dor por ser dor em estado real,
aquilo que é acumulado aqui
onde não sei bem se o acaso
ou se a vida tratou de manter.

Porque a carne dói,
dói viver em silêncio,
dói a vida cotidiana,
quando escorre dos olhos a dor
e sua solubilidade
resulta em analito,
sem medida exata.

 

 

 

***

 

 

 

um dia vai alto

 

O dia vai alto
vai alta a rua,
ladeira longa que se vai
marcada no sem tempo,
memórias antigas,
varanda encerada
de chão vermelho.

Um homem sobe a rua,
um homem anda lento,
todo o seu corpo é sombra e alumbramento.

Casas olham indiferentes,
indiferente o calçamento
de pedra resiste ao vento,
nada é mais justo que o dia alto sobre a rua alta,
na ladeira alta em que um homem caminha lento.

Casas e pessoas se misturam,
vozes vindas de lá de dentro
anunciam um futuro estranho e cheio de dúvidas.

Fosse a vida só contentamento,
fosse tudo o que fosse esse pó
que vai cobrindo casas e pessoas na lida do tempo.

O homem ainda vai lento,
não há pressa. Todos os homens anunciam o dia alto.
É realmente um dia alto, dia pleno de acontecimento.
Sim, é um homem e suas pernas e braços e ventre
estão deslizando sobre as pedras desse calçamento.

Há silêncios e vozes no vento, misturados à rua alta,
misturados ao que um dia foi a rua
agora coberta de pó no sem tempo.

 

 

 

***

 

 

 

na última sessão do dia

 

Dorme,
dorme tudo o que se retira,
a fatia do dia, a faca, a fala
e o que é da vertigem real.

Dorme,
dorme o que queria, alçava,
a morte esquecida na tarde,
a triste tarde de sonolências.

Dorme,
Morfeu versado em Tânato,
esquece o dia, abraça a noite,
a sua mãe desesperada e fria
também dorme e, ao dormir,
alcança a eternidade desejada.

Como jamais se dormiu,
dorme todo, dorme inteiro,
fecha esses olhos definitivos,
encerra o mundo e seus ares,
encerra a fome de vida, a lida
e vai descansar de si mesmo.

Procura no sono absoluto
a absoluta ausência de si,
habita o longe, o longo e
vive esse mistério póstumo.

Medita, monge transfigurado,
na última sessão do seu dia e
no lótus perdido já reclamado,
dorme
………e morre
……………….e descansa
……………………………e mais nada.

 

 

 

***

 

 

 

do que é perdido

 

Mas fica esse silêncio,
o desdito, a ausência.

Fica o que não ficou
jamais entre as horas,
essas horas absurdas,
horas passadas a fio.

Fica o que nunca foi,
o suposto, imaginado.
Aquilo que seria mais
se não fosse passado.

Mas não foi, não era.
Ora ora, minha bela,
que dizer do perdido?

Que o jamais havido,
depois não se perde,
não há o que perder.

Nunca houve, não foi,
nem resto me restou,
nem o acabar acabou.

Nada,
ou quase nada,
só esse silêncio
ficou.

 

 

 

***

 

 

 

a fonte de Orides

 

para Orides Fontela

 

A fonte de Orides
seca
coberta de folhas
secas.

Resto do respiro
a um passo
do pássaro:
Orides resseca.

Deixa a tua mão
bater dura a tecla
-num tec tec tec-
de tudo um tanto.

Deixa, Orides,
que eu te engulo
como se engole
outra verdade.

 

 

 

***

 

 

 

Valor

 

Vazo de mim
e espalho-me
no chão seco.

Escolho olhares,
seleciono vozes,
avalio as dores.

Violentamo-nos
e tristes vamos
ao ato insensato.

Apenas o valor
esse ditador, e
sempre a injustiça,
essa triste puta,

seguem protegidos
à sombra do gigante
morto que putrefaz
na Avenida Paulista.

 

André Merez cursou Letras e fez pós-graduação em Língua Portuguesa na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Leciona Teoria da Literatura e Gramática há mais de 18 anos e desenvolve pesquisas sobre música, artes plásticas e poesia.  Autor dos livros Vez do Inverso (Editora Patuá, 2017) e Perfeição Acidental (inédito). Também teve seus poemas publicados nas revistas Mallarmargens, Poesia Primata, Gueto, Germina e Poesia Avulsa.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Mell Renault

 

Foto: Luiz Bhering

 

Sólido

 

Saber da pedra
sua inscrição
sua saliência.
Da pedra saber
sua ranhura
sua mística.
Saber da pedra
sua crueza,
sua concretude.
Da pedra saber
sua manifestação
rocha
moinho
lama.
Saber da pedra
destino
sua sina rupestre
marcando
o tempo
do caminho.

 

 

 

***

 

 

 

Rosacor

 

Para Carlos Figueiredo

 

A rosa
existirá
além
da lira
além
do nome
de sua cor.
A rosa
carnessência
da pétala
viverá
na consciência
antes do rito
num místico canto perfumado
/ oásis da criação /.

 

 

 

***

 

 

 

Calar

 

No meu silêncio
há um repouso
de mil folhas
que
não descansa.
No meu silêncio
há um milagre
que faz
brotar
girassol.
No meu silêncio
há uma distância
que aproxima
léguas.
No meu silêncio
mora
borboleta
ninho de passarinho
chuvas.
No meu silêncio
há uma luz
que
de tão profunda
escura
revela
/ o silêncio /
mil pétalas
que abrem
flores
no jardim.

 

 

 

***

 

 

 

Nascente

 

É preciso
chover.
Deixar-se
banhar
da água-sal
que é feita
a lágrima.
É preciso
chover.
Deixar-se
molhar
por esse filete
de rio
que escorre
o mar.
É preciso
chover
e deixar-se
lavar
pela unção
do seu
próprio choro.
É preciso
chover
para se abençoar.

 

 

 

***

 

 

 

Marinho

 

Entre
a rosa
e
o sal
se insinua
uma
fogueira
que
trepida
lágrima.
Entre
a rosa
e
o sal
se esconde
uma
ternura
que
invade
tudo.
Entre
o sal
e
a rosa
se instaura
um coração
que
sangrando
faz nascer
o deserto.

 

 

 

***

 

 

 

Habitante

 

Inquilina
da terra,
pátria
de
flores
e
frutos.
Nasci
madura
numa casca
ainda
verde.
Inquilina
de mim
caule
sangrando
seiva
brotei
ao avesso
na fissura
da pétala.

 

Mell Renault é escritora e dramaturga. Mineira de Belo Horizonte, tem 34 anos, quatro filhos e é casada com o fotógrafo e escritor Carlos Figueiredo – que mantém e organiza sua obra artística. Manteve, dos 15 aos 25 anos, o blogue Pensamento Polaroid – que deixou de ser blogue para se tornar um fanzine de incentivo à leitura. Publica nas seguintes revistas: Alagunas, Mallarmargens e InComunidade (Portugal). Lançou em 2019, pela Editora Coralina, seu livro de poemas “Patuá”.

 

 

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Janela Poética I

Alberto Bresciani

 

Foto: Luiz Bhering

 

ECLOSÃO

 

Perdíamos o ar, para ganhar mais, logo depois,
e saíamos rápido, procurando lugares claros,
onde a cidade oferecesse melhores condições
atmosféricas, para esquecimento e respiração
E seguíamos pensando em uma hora,
duas, quase afogados, sem perceber riscos,
bichos fugidos, animais selvagens, as palavras
presas na garganta, os corpos iscas dos corpos,
como se o melhor dos segredos estivesse
por ser revelado, uma espécie de início,
cio, jogo, a escolha do dia para nascer, lá,
afinal, a eclosão, o resto das nossas vidas.

 

 

 

***

 

 

 

SILÊNCIO

 

Às vezes é melhor não dizer nada, ou quase
O que se diz ganha corpo, membros,
senta-se à mesa e se esgarça
toda a chance de esquecer
E esse corpo assume espaços, crava o ferrão
em um único lugar na respiração, na linfa,
corpo estranho que nenhum glóbulo branco desfaz
E talvez seja esta a forma de desistir ao contrário,
para sobreviver à dor generalizada,
sem anestesia, antidepressivos, alucinógenos
É este silêncio liso, longo e coagulado
de bicho-preguiça, imóvel, crédulo, na árvore,
enquanto espera
E não sabe, não vai saber
do sobrevoo da harpia.

 

 

 

 

***

 

 

 

CARDUME

 

É preciso calar,
porque em silêncio respiramos melhor,
o diafragma está livre e ondula,
brânquias secas por fora,
mas que engoliram o mar

A respiração assim não amarra veias,
não arruína enredos,
não condena desfechos,
garante mais uma cena,
outras centenas delas,
e, dependendo do ritmo,
abafa o terror da trincheira

A mudez deixa todos os golpes
abaixo das bordas do cardume,
da pontaria dos bicos,
mandíbulas, dos dentes

Não ditos, o baque, a ruptura, o tapa
são nossos, só nossos, não ferem
– armadas se esquecem na rocha.

 

 

 

***

 

 

 

PEGAR OU LARGAR

 

Nas avenidas de Amsterdã,
naquelas manhãs de setembro,

aprendemos que as lágrimas
têm sempre a mesma substância

O tempo não as torna mais doces,
o tempo não as estanca

Vimos o castigo por entre
árvores de falsa inocência

Não é nenhum segredo
Isso lateja em cada palavra

Sim, o nunca estava ali, conosco
Ainda está

As tardes terminavam
e nenhum farol nos distinguia

Melhor secar as lágrimas
Talvez o esquecimento

venha à cama,
outro dia chegue,

devolva um pouco de tempo,
bom nome às coisas

Os dados estão lançados,
as apostas, abertas

Basta girar
a roleta.

 

 

 

***

 

 

 

HABITAT II

 

I

Insistem os medos por dentro da pele,
escondendo os órgãos, o sangue, em todos
E nem sabemos o que nos falta,
do que fomos apartados algum dia,
porque nunca estivemos presentes sequer em nós
E então escavamos o que já está muito seco,
em busca de água, como toupeiras, javalis
Ou mergulhamos, invisíveis baleias azuis,
para gritar até que o silêncio enfim respire

II

Procuramos sempre a ilusão
no que é o inverso de tudo, com ansiedade,
o ar preso, a resposta esperada
em bolhas de vidro que repetem
a neve, cenas impossíveis
de um idílio sem calor, líquidos, pulso
E se pensarmos bem, sim, jamais tivemos
um lugar só nosso, onde morar,
defesas psicológicas, miméticas, abrigo

III

Amanhã, talvez, nem nos lembremos de quem somos
ou quem são os outros, porque não conseguimos
nos entender ou ao nosso século,
a nenhum deles, o que dizem e o que dizemos
E somos só isto mesmo: animais solitários,
tentando a sorte, insistindo no tempo
Até que alguma palavra caia, por azar,
castigo ou revelação,
e, enfim, possamos
aceitar.

 

 

 

***

 

 

 

CORVOS

 

Não via os corvos,
mas eram corvos,
prendendo o tempo
E eu criava pombos

Quando você saiu,
as sombras
tinham penas negras
e ficaram pela casa,
pela garganta,
as suas penas

Ontem entendi
e acendi a luz.

 

Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. É autor de “Incompleto movimento” (José Olympio Editora, 2011), de “Sem passagem para Barcelona” (José Olympio Editora, 2015, finalista do prêmio APCA de Literatura – Poesia de 2015) e de “Fundamentos de ventilação e apneia” (Editora Patuá, 2019). Integra, entre outras, as antologias Outras ruminações (Dobra editorial, 2014) e Escriptonita (Editora Patuá, 2016). Tem poemas publicados em portais, blogs e sítios da internet e em revistas e jornais impressos.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Bruna Mitrano

 

Foto: Luiz Bhering

 

sentei perto dos urubus
o homem que passava disse
eu tenho nojo de você
expliquei a ele que os urubus
procuram na carcaça
as partes moles e quentes
ele deu as costas xingando
e sacudindo as mãos
olhei pros urubus
eles também me olharam
complacentes com aqueles
olhos sem branco
o homem o seu corpo inquieto
era como o animal que
esperneia antes de morrer
sabíamos no entanto que ele
não morreria que ele estava
mais vivo que nós que não
temos mãos nem pedras
nas mãos pra atirar em quem
nos causa repulsa apenas
alguma intuição de encontrar
partes moles e quentes.

 

 

 

***

 

 

 

nasci com dentes podres
coisa de família
minha avó ficou banguela aos 26
os tios todos têm dentadura
criança diziam tão bonita mas assim
não vai arrumar namorado
eu não queria arrumar namorado
arrumei nove ossos quebrados
ossos fracos coisa de família
disseram bruna você parece que pode
partir ao meio a qualquer momento
eu quebrei muitas vezes
mas ninguém quis ver
que não quero namorados
e que meu mau hábito de
não escovar os dentes é por
que nunca paro de comer
porque o que sinto não é fome
é o sentimento da fome que talvez seja
coisa de família nunca entendi
o que é essa coisa de família.

 

 

 

***

 

 

 

vila kennedy, 2 de julho de 2019

 

*pra érica magni

 

na noite passada eu vi
um homem sem cabeça
não um ser mitológico
nem um desses zumbis de seriado
um homem que sangra
decapitado na vila kennedy
um homem de peito aberto
sem metáfora ou outra figura de linguagem
que emprestasse beleza (ainda que dessas
belezas terríveis) à imagem
do homem de coração arrancado
e enfiado na boca – a cabeça um ser
independente de
nervos
músculos
vértebras
apoiada sobre a barriga
como um porco à pururuca de desenho animado
a maçã perfeitamente encaixada
a maçã exageradamente vermelha
colhida no próprio corpo
estirado no asfalto
na noite passada eu vi
e ver pode ser pra sempre
o homem morto
com a cabeça solta
o peito aberto
e o coração entre dentes
as partes todas
remontadas
como numa instalação artística
na noite passada eu vi
e senti (o coração na boca)
uma dificuldade de respirar
que ignorei em respeito à mãe do morto
(ao coração arrancado da mãe do morto)
e a todos que conhecemos o terror
por dentro –
não foi na noite passada
que ela disse: olhando de longe
a favela parece até uma árvore de natal.

 

 

 

***

 

 

*com nick Drake

 

toda noite deus puxa meu cabelo
única parte não imersa
até arrancar a pele do rosto

não tenho mais espelhos

please give me a second face
a voz engasgada de nick

toda noite ouço a louca fugiu
e agarrou desconhecidos dizendo
olha minha garganta está fechada
e meus dentes foram colados

eu que não tenho mais dentes
como a minha avó
chupando ossos de galinha

please play me your second game

toda noite a menina grita o pai
lambeu o lóbulo da minha orelha

e a mãe lembra que é preciso
esquecer que a louca que o pai que
a mãe nunca lembrou
de acordar a menina pra escola

please tell me your second name

toda noite vem o homem
vestido de branco e
conto a ele do pintor
que disse não gosto de aquarela
é impossível domar a água

que foi o pintor com quem vivi
que foi o pintor que me bateu
num hotelzinho na angélica

please give me a second grace

toda noite vem o homem
vestido de branco e
digo a ele
é impossível domar a água

I just sit on the ground in your way

o homem vestido de branco
anota a minha doença num papel.

 

 

 

***

 

 

 

lembra quando eu subi na janela
fiquei de pé e chovia
eu quis que você tivesse medo
e me pegasse por trás como fazem os policiais com os suicidas da golden gate
mas você fez o santo de rabo de olho
a boca caiu o cabelo cobriu a testa
eu não entendo eu quis entender
o pau duro na minha bunda criança o que era aquilo
se era de eu ser diaba ou se eu acidentei
os pelos grossos e o hálito pesado do trabalho sujo
agora é a fila do mercado e o celular despertando
a parte que escapa
à rotina:
café com leite arroz tipo 1 sexo com o vizinho
segredos cimentados nas calçadas dos subúrbios –
o homem ainda estava com o rosto deitado nas minhas pernas
feto de pele velha ossos largos pelos brancos
quando eu disse eu não mais darei nomes aos meus filhos
e eles não mais serão escravos.

 

 

 

***

 

 

 

hoje limpei a casa
tirei traças das paredes e asas
de insetos do chão do quarto

R. não conseguiu dormir aqui
não foi por causa da sujeira
foi por causa do cachorro
e porque não tinha queijo
R. não vive sem queijo – anotar

a dona Neia disse que
pra conseguir dormir
é preciso pensar pra dentro
e pensar nas coisas do dia

como a mulher que vende café na estação
penso na mulher vendendo café
na chuva ela tem uma capa azul

penso nos restaurantes baratos
nos velhos tomando sopa
com a cara perto do prato

e nos homens na calçada
mastigando as sobras com uma lentidão que
nem parece fome parece elegância

penso que os homens mastigando lentamente
as sobras sabem
que amanhã os restaurantes estarão fechados
que a mulher venderá café na estação
e que é impossível viver sem queijo.

 

Bruna Mitrano (1985) nasceu e vive na periferia do Rio de Janeiro. Filha de camelô e neta de lavadeira, é mestre em Literatura pela UERJ, poeta, desenhista e articuladora cultural. Tem textos publicados da Revista Pessoa, na revista Cult, na revista Palavra, no jornal Plástico Bolha, dentre outros. Participou de 17 antologias. Teve textos traduzidos para o inglês e o espanhol.  É autora do livro Não (Ed. Patuá, 2016).

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Isabela Sancho

 

Desenho: Felipe Stefani

 

 

No sétimo subsolo
há um pequeno alçapão
para o inferno.

A luz que o transpassa
se parece com esta.
Para abri-lo
basta

empurrar com um pé.

 

 

 

***

 

 

 

Essas coisas parecidas
consigo,

eu me pareço
cada vez mais comigo

e me saturo.

A essa altura,
meu corpo em rusga
já me tem

como corpo estranho.

 

 

 

***

 

 

 

Autoimune, o nome
daquilo que tenho,

tão mágico, tão certeiro
quanto a leitura
de um velho horóscopo.

 

 

 

***

 

 

 

Se eu puder arrancar
de mim o que me faz mal,

o que sobrará?
Uma centelha de teimosia
em meio

a uma ventania

sobre o campo seco
de meus gotejos.

 

 

 

***

 

 

 

Venta
com a força de uma pergunta
prestes ao paraquedas

Tens certeza?
Ouça,

eu não vou me jogar fora.
Vou apenas me desfazer
da sacola.
Troco-a
por uma bobagem qualquer.

Eu a doo,

quero nada em troca.

 

 

 

 

***

 

 

 

Os dedos em pinça
de um asco

que não ignoro.

Eu não consigo abater
a sacola.
Tem o valor
e o nojo de dez relíquias.

Com suas unhas crescendo

depois de mortas.

 

 

 

***

 

 

 

As dobras afinadas pelo tempo
se destacam sozinhas

e o papel me vincula
a estes pertences.

Que espécie de documento
não tem nem mesmo
uma data?

Vinco-o com minhas dúvidas,
eu procuro

pelo meu nascimento.

 

Isabela Sancho nasceu em Campinas, em 1989. Integra o corpo de poetas do portal Fazia Poesia e segue o Curso Livre de Preparação do Escritor na Casa das Rosas. É autora e ilustradora dos livros de poemas “As flores se recusam” (Editora Patuá, 2018 – finalista no Prêmio Literário Glória de Sant’Anna 2019, Portugal) e “A depressão tem sete andares e um elevador” (Editora Penalux, 2019). Ainda em 2019, terá sua primeira plaquete publicada pela Editora Primata e seu terceiro livro pela Editora Urutau.

 

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131ª Leva - 03/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Pedro Moreira

 

Desenho: Felipe Stefani

 

 

somente aquele que desavisadamente
dançou sozinho pode sentir na pele
um ameaço de explicação do mundo,
no corpo,
uma repentina liberdade.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

desencantamento
é o ato de engolir
de uma só vez
todo canto que foi cantado
desdizer toda palavra de amor,
refazer os passos,
desmanchar as lágrimas,
é um ato de retomar
a terra distante de todo coração partido
nenhum pássaro é capaz
de desencantar
porque sua vida depende disso:
ele é voz que voa
que ecoa pelo planeta
e ele não pode comer
de volta o mundo inteiro
que ele cuspiu
o amor é um atentado contra si
e os pássaros não são capazes de se suicidarem
a gente é que mata
e mata tanto que até de amor
a gente morre.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

no tempo em que eu quisera
uma paisagem outra – eu desconhecia
o significado da palavra deslumbrante:
um canavial esverdeado, árvores empoeiradas,
crianças debaixo do sol, vendaval de brincadeira,
uma tempestade, uma água tão açude, uma terra
vermelha – eu desatento, mal percebo que o
instante é o que temos, só o que temos
e logo ele vira algo que se passou – uma memória bela de algo
subestimado.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

O meu silêncio é, antes,
um atentado contra mim mesmo.
Uma comunicação que sendo para mim óbvia,
para os outros, mistério. Não um segredo.
Uma rocha que deitei em cima da minha fala.
Cerrada minha língua num nó de desajuste,
caminho e sigo com a boca entreaberta
– sempre há um ameaço de palavra.
Contudo, o silêncio pede que exista, que exista.
O silêncio não quer ser rasgado por uma língua calejada,
por uma boca envenenada, de alma danada.
Ele clama que exista, que exista. Deixe-o viver.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

tem coisas que continuam
sendo segredo mesmo depois de ditas
porque em sua natureza guardam
uma característica
nada verbal,

uma coisa que se sente na pele ou não,
não é transmissível,
não pode ser, são partes de nós

que quando alguém tenta compartilhar arranca de si
talvez uma parte vital que mantivera tudo em pé

cometi por você um suicídio parcial
quase tudo veio abaixo

rachaduras enormes surgiram
no meu rosto envergonhado
de repente goteiras escorrem
por elas, ou era infiltração.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

atravesso o inferno que há em mim
com a coragem que me falta, com a luz que me falta,
com a virtude que não tenho, faço do que me ausenta
a minha força pouco elaborada

a maldade é mais evidente

quando no núcleo dos infernos, todos os cinco
que há em mim, trago nas mãos um copo
de bebida 70 por cento de álcool,
deixo, por um descuido mal-intencionado,
todo o copo cair na pequena chama de meu inferno interior
uma chama azulada, um fogo triste

quero-me um inferno inteiro
não me aceito pela metade.

 

Pedro Moreira nasceu em Itaí no dia 18 de abril de 1995. Desde pequeno se interessou pelos livros e antes de escrever já fabulava. Aos 14 escreveu suas primeiras crônicas, depois passando aos poemas. Reuniu alguns contos em um livro que editou em 2014 chamado “Embora o mundo tivesse cor”, pela Multifoco. Em 2016 saiu um volume de poemas, “Oitenta e três idades”, pelo Clube de Autores.

 

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131ª Leva - 03/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Sofia Ferrés

 

Desenho: Felipe Stefani

 

REPOUSO

 

nos deitamos
e o silêncio repousa.

tua voz molda no ar
o cheiro que a noite
trará em você.

abandonamos roupas
os ossos, as reflexões,
abstraindo tudo o mais.

então as sílabas tropeçam,
desabitadas.
o amor enfreia as palavras.
este quarto há de nos enterrar:
a luz vai se fechando sobre nós
como um abraço e finda.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

PRECE

 

meu querido
esta é a noite da saudade.

pura intolerável, no jardim
das coisas ocas, sob a lua
lume do cheiro deixado na pele
da camisa branca – tão branca
que paira no ar da respiração.

ladeio a vela baixa e
testemunho o corpo
que não veio mas está
tão perto
emanando qualquer coisa
entre a mão e o peito
na chama dourada,
no contorno da noite

então caminho pela rua de preces
que quebra aos passos da espera.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

NOVO

 

neste novo Tempo
todas as figuras
como que são
outras coisas:
muito mais belas
que o imaginado
– à imagem dos deuses.
a relva é mais verde
aberta
o rio aceso
livre livre livre
em seu caudal
correndo
pelas mãos do vento
ao rumor de pedras
fasto
de antiga cal alcalina
onde constrói morada
o Coração da água

no interior de cada coisa
húmido ainda
também habita
o primeiro Sol

 

 

 

 

***

 

 

 

 

EM BRANCO

 

se as noites parecem iguais
cada dia é uma construção.
celebro a cada esquina
o que se antecipa:
alguns encontros
rostos arqueados
mãos prateadas
frases eventuais.

um mundo página em branco.
amo os dias de antemão
e escrevo-os,
palavra por palavra.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

recebi teu livro
do pacote ao abri-lo saiu um cheiro de éter
deve ser da tinta impressa
presa
ou das palavras
hospitalizadas

senti tontura o dia inteiro

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Ignoro despreparada as notícias do mês.
O funcionamento da opinião pública não me convence
(esboços de sociedade).
Nem a utilidade de uma revelia
contra o sentido inverso destes dias

Pudicamente,
examino as fases da lua sobre meu signo
(forças primordiais de reinos mais sutis)
Aprecio o brilho difuso do metal manchado
A rachadura da argila enquanto seca
A ordem cósmica de uma mandala hindu
, ou do teto de uma catedral europeia.

A cor e a metamorfose da sua existência
me faz pensar que toda árvore é uma igreja

 

Sofia Ferrés é natural de Montevideo (Uruguai), tem poemas publicados nas páginas literárias Palavra Comum, A BacanaVoz da Literatura, Ruído ManifestoLivre OpiniãoOficina Irritada, na Eufeme Magazine de Poesia nº12 (Portugal), e na Revista Laranja Original (Brasil). Possui formação na área de Artes (Politécnica de València), Exatas (Unicamp) e Sociais (Boston University), lançou “O Pequeno Livreto de Haicais” pela Oficina Tipográfica de São Paulo (2017) e “En_vuelta” pela Editora Laranja Original (2018), relançado em Porto na livraria Flâneur. O livro foi finalista no Prêmio literário Glória de Sant’Anna 2019.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Raquel  Almeida

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Agoniza

 

Corta essa sua carne dura e sangre
Se for o único jeito de descobrir suas estradas
Ferida aberta
Corta
Corta essa
Falsa promessa
Essa falsa fortaleza
Corta essas certezas
Deixa jorrar esse sangue
Nesse peito aberto
Enfia no oco seu ego
Faze o presente ser eterno
Cava suas memórias
E reviva.

 

 

 

***

 

 

 

Da terra que renasço

 

Solo que me fez
Me refaça!
Como a mãe preta que amacia a argila
Remolde!
Na moldagem
Revista meu coração com paredes de aço
Pra que nenhum abraço me cegue
Os retoques
Que sejam nas águas sagradas
Me banha, me rega,
Me rege
Terra firme que me regenera
Transforma minha fúria em fuligem
Enterra por aí minhas sentenças
Solo
Não me isola na mais árdua trilha
E blinda, blinda todinha a minha vida.

 

 

 

***

 

 

 

Tendo

 

O gosto do grito entalado amarga
Estraga as noites sufocadas em insônias
Estala vontades
Desejos que não desejo
E o peito aperta
Se aperta é dor
Dói!
Não ter dito que sou franca
Que tendo a beirar abismos
E a afagar leões
Tendo a mordiscar pimentas malaguetas
A pisar em pregos que beiram solidões
Já que o peito acelera
Aponta pra mim essa seta pontiaguda
De medo.

 

 

 

***

 

 

 

Sou

 

Tenho certeza de uma coisa
Sou vento e vento é livre
Sou água e água corre
Sou terra e terra é fértil
Sou intensamente regida
Pela vida
Meu amor me agride
Preenche e sufoca
Sou amor sou amar
D’mar
Sou fúria e calmaria
Sou ninho
E nos meus caminhos
Me perco.

 

 

 

***

 

 

 

É só
Toda loucura gerada
Todo pensamento de saltar
Toda invisibilidade
É só
Sorrateira
Vem e derruba
Pesa a cabeça e não existe fuga
Corre pelas estradas
Mas tudo isso no silêncio da sua alma
Porque no topo é um vulcão potente a explodir
Não chega a desejar a morte, mas a monotonia pra si já é morrer
Chega e vai só
Só é o seu caminho
E fica dali e acolá tentando se encaixar e sente que não faz diferença
Seu riso, seu choro…
Não acostumou a ser só
Por isso ainda solfeja suas angústias nos ouvidos do mundo
Só na imersão da confusão bagunçada e silenciosa
Só, e sem paradeiro
Abraça o mundo.

 

 

 

***

 

 

 

Estou jorrando sangue
arrastada pelas ruas
Exposta em praça pública
Massacrada por um rolo que comprime, oprime
Arranca a última gota de sangue-suor dito igual perante deus
Estou jorrando sangue
na porta da minha casa
Desguarnecida
com uma bala cravada na nuca
Desfalecida
levando porrada, largada no asfalto
Jorro sangue num mundo que diz que preciso sorrir
sendo torturada coletivamente
Jorro sangue a cada onze segundos
Me afogo nesse rio de traumas
Me sufoco em meio a papéis que não dão suporte em nada
Leis do cão que não funcionam para minha pele
Para o meu cep
Jorro sangue quando me fazem acreditar
Que viver ensanguentada é natural de gente minha
E mesmo cerrando os punhos
criando escapes
acredito que minha voz ainda não ecoa
Estou no meu rio de sangue
planejando revides sem sucessos
Todo meu sangue vira comércio
e as feridas continuam expostas
Estou aqui, jorrando esse sangue
dito igual perante deus
Entoando um BASTA
me agrupando com vozes que se assemelham a minha
Empurrando os dias
e abrigando o desespero que bate à minha porta
Estou jorrando sangue
lutando para que um dia venha estancar.

 

 

Raquel Almeida é poeta, escritora, arte – educadora e produtora cultural, estudou musica na Faculdade Carlos Gomes(Grupo Educacional UNIESP). Co-fundadora do Coletivo literário Elo da Corrente, grupo que atua no bairro de Pirituba, desde 2007, no movimento de literatura periférica/negra, realizando um sarau semanal e mantendo uma biblioteca comunitária nessa comunidade. Co-fundadora do Coletivo Cultural “Esperança Garcia”, o grupo promove discussões que refletem o papel da mulher negra e periférica na literatura e outras vertentes artísticas. Escreveu “Sagrado Sopro” (Poesias), 2014 ;  Elo da Corrente Edições  e “Duas Gerações Sobrevivendo no Gueto” (contos, poesias e crônicas), 2008, co-autora Soninha MAZO – Elo da Corrente Edições.