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126ª Leva - 04/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Meire Viana

 

Foto: María Tudela

 

sou a sombra de mim desmedida
enroscada nos remendos alinhavados do tecido gasto
imensurada nos cortes profundos
das fendas deixadas à mostra: carne sã
das brechas acidentais das saliências vãs
enlaçada nos egos que teimo em descosturar
eu,
vestida de outras texturas e outros textos
Nem me reconheço.

 

 

 

***

 

 

 

alago estiagem
inundo seco
transbordo rio
escoo ralo
Pra fora calo
Pra dentro falo

 

 

 

***

 

 

 

entediada
das falácias
falas pelos cotovelos
das tagare-tolices
dos verborrágicos
verbos raivosos
dos disse-me-disse e das blá blá blasfêmias
a palavra pede licença
e vai silenciar
no dicionário

 

 

 

***

 

 

 

diáfana
avoada
evaporada
em partículas
vocálicas:
Eis a palavra
fonemamente livre
das estruturas morfo-sintáticas
sem verbo
escrita e fala.
Sem aspas vírgula ponto
Sem rumo
Desenfreada
leva na mala
somente prefixos de negação
e oposição.

 

 

 

***

 

 

 

caminho curtortuoso
bifurcaçõestreitas
labirintoscos
estradatalho
poça dágua no meio:
atravesso e ando
atravessando
travessa
vereda
viela
vila
via
Paraliso
no piso
escorregadio
da esquina
me curvo à curva
desisto do risco
mantenho desestância
desvio
silencio
sou refém do espaço
refaço o passo.

 

 

 

***

 

 

 

Em tudo
entorno
em torno
contorno
em todo
retorno
em tudo
engodo
em torno
entulho
em todo
embrulho
em tudo
encolho
em torno
me encolho
todo

 

Meire Viana é professora de Português e Literatura, com Mestrado e Doutorado em Letras. É poeta experimental neoconcretista. Dialoga com o Concretismo, o Neoconcretismo e a Poesia Marginal dos anos 70, suas referências. Tem material inédito para publicação em livro, mas por ora é frequentadora de saraus poéticos na cidade. Mora em Fortaleza.

 

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126ª Leva - 04/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Mercedes Roffé*

 

Foto: María Tudela

 

Tradução: Diana Araujo Pereira
Seleção: Clarissa Macedo

 

XI

 

O amor será para o corpo
o que a contemplação é para a alma?
Esse sossego?
Essa intuição
do todo no instante?
Esse relâmpago no qual
o real se revela
consonante com seu eco?
A suspensão fugaz
que pressente tudo,
e tudo compreende?

Será aquele hiato no fluir do tempo
o único lar e pátria verdadeira?
Lar e pátria:
Chamo assim o possuir-se,
o olhar-se e ver-se refletido
em uma água
confiável e serena.
Corpo de luz
Corpo de bem
Hiperbólica pétala remando
entre uma e outra margem.

E se não forem duas as margens?
Se tudo for um?
Se não forem dois nem um
senão um glissando de espelhos
em direção e a partir da luz —ou do lodo?
Cada estação com seu afanoso demiurgo
mais confuso que cruel
ofuscado, mergulhado
no excesso
de um reino que ignora e que o ignora.

Regente, príncipe e menino —tudo ao mesmo tempo,
tudo a destempo.

E se não fosse tudo mais
que uma viagem
pelas idades congeladas desse príncipe
em direção à luz —ou ao lodo?

 

 

XI

 

¿El amor será al cuerpo
lo que la contemplación al alma?
¿Ese sosiego?
¿Esa intuición
del todo en el instante?
¿Ese relámpago en el que
lo real se revela
acorde con su eco?
¿La suspensión fugaz
que presiente todo,
y todo lo comprehende?

¿Será aquel hiato en el fluir del tiempo
el único hogar y patria verdadera?
Hogar y patria:
Llamo así al poseerse,
al mirarse y verse reflejado
en un agua
confiable y serena.
Cuerpo de luz
Cuerpo de bien
Hiperbólico pétalo bogando
entre una y otra ribera.

¿Y si no son dos las riberas?
¿Si todo es uno?
¿Si no son dos ni uno
sino un glisando de espejos
hacia y desde la luz —o el fango?
Cada estación con su afanoso demiurgo
más confundido que cruel
obnubilado, hundido
en el exceso
de un reino que ignora y que lo ignora.

Regente, príncipe y niño —todo a un tiempo,
todo a destiempo.

¿Y si no fuera todo más
que un viaje
por las edades congeladas de ese príncipe
hacia la luz —o el fango?

 

 

 

***

 

 

 

XV

 

O poema é o rosto no espelho
mais verdadeiro que o rosto e que o espelho.
O poema é o fluxo do sangue
para além do corpo,
o ritmo do sangue para além do sangue
—seus leitos rigorosos, seu latejar surdo e unitário.

O poema é o ritmo do outro em mim
para além de mim, sempre, além,
onde meu silêncio topa com teu ritmo
e repercute em mim, que solfejo no poema
um ritmo numinoso,
cifra que faz eco no eco
que é corpo verdadeiro
—o numinoso em ti e em mim—
o ciclo das esferas tocando-se e abandonando-se
—distanciando-se, sim, uma da outra,
mas soltando-se de si também
cada qual
em sua dourada, fecunda negligência.

Em seu ritmo me desdobro.
Em seu metrônomo
caprichoso e fugaz
desdobra o universo suas fantasmagorias
—sua verdade.

Não há tradução possível.
—ou sim, há:
de si próprio a si mesmo,
de si a aquele que tateia e vence
do que sabe de si
—seu pobre império.

O poema, digo,
digo a música, digo o movimento
da dança no corpo, o da pedra esculpida…
E a música no traço e na pedra, digo,
e o movimento sinuoso e firme do poema,
douta cadência, felicíssima queda no cruzamento
de todos os sentidos.

 

 

XV

 

El poema es el rostro en el espejo
más verdadero que el rostro y que el espejo.
El poema es el flujo de la sangre
más allá del cuerpo,
el ritmo de la sangre más allá de la sangre
—sus cauces rigurosos, su latido sordo y unitario.

El poema es el ritmo de lo otro en mí
más allá de mí, siempre, más allá,
donde mi silencio se topa con tu ritmo
y repercute en mí, que solfeo en el poema
un ritmo numinoso,
cifra que hace eco en el eco
que es cuerpo verdadero
—lo numinoso en ti y en mí—
el ciclo de las esferas tocándose y abandonándose
—alejándose, sí, una de la otra,
pero desasiéndose de sí también
cada cual
en su dorada, fecunda negligencia.

En su ritmo me despliego.
En su metrónomo
caprichoso y fugaz
despliega el universo sus fantasmagorías
—su verdad.

No hay traducción posible.
—o sí la hay:
de lo uno a sí mismo,
de lo uno a aquello que tantea y vence
de lo que sabe de sí
—su pobre imperio.

El poema, digo,
digo la música, digo el movimiento
de la danza en el cuerpo, el de la piedra esculpida…
Y la música en el trazo y en la piedra, digo,
y el movimiento sinuoso y firme del poema,
docta cadencia, felicísima caída en el cruce
de todos los sentidos.

 

 

 

***

 

 

 

XX

 

Queda não houve.
O alto está aqui. É aqui.
Dentro.

Queda não houve.
Distrações há. Ventos. Fugas.
Maquinárias. Grandes, grandes.
Jogos de sombra, preocupação e olvido. De si.
Sempre houve.

Cada época. Cada
civilização
retratada em sua própria engrenagem
de humilhações e esquecimento. De si.
Roubar o fogo não é roubar nem é fogo.
Recordar é remontar-se, preservar para si o acesso
ao resplandor custodiado por
—não seus guardiães, mas seus inimigos.
Vertedouro de sombra e sangue.
Quanto maior pobreza, mais esquecimento.
Quanto mais prepotência, menos luz.

Em si e fora de si
—tudo é um—
única morada de pura geometria
e luz regendo
mansa, inexoravelmente, generosa-
mente banhando
tudo de si.

Luz estético-ética.
Esquecida de si —entregue.
Fórmula-Mãe.

E ainda há Algo. Algo, fora
que não se pensa.

Outro tom. Outra
modulação da luz.

Lá na origem.

 

 

XX

 

Caída no hubo.
Lo alto está aquí. Es aquí.
Adentro.

Caída no hubo.
Distracciones hay. Vientos. Fugas.
Maquinarias. Grandes, grandes.
Juegos de sombra, preocupación y olvido. De sí.
Siempre los hubo..

Cada época. Cada
civilización
retratada en su propio engranaje
de humillaciones y olvido. De sí.
Robar el fuego no es robar ni es fuego.
Recordar es remontarse, preservar para sí el acceso
al resplandor custodiado por
—no sus guardianes, sino sus enemigos.
Vertedero de sombra y sangre.
Cuanto mayor pobreza, más olvido.
Cuanta más prepotencia, menos luz.

En sí y fuera de sí
—todo es uno—
sola morada de pura geometría
y luz rigiendo
mansa, inexorablemente, generosa-
mente bañando
todo de sí.

Luz estético-ética.
Olvidada de sí —entregada.
Fórmula-Madre.

Y aún hay Algo. Algo, fuera
que no se piensa.

Otro tono. Otra
modulación de la luz.

Allá en origen.

 

 

 

***

 

 

 

XVII

 

Além dos ventos
rumorosos

além da aurora

transitam
dispersos
retalhos de uma história

—centelhas
resplendores—

arrancada do vazio
(a sua voz
a sua mudez)

enlaça-os
uma mão mestra

ou a história
em si
impõe seu ostinato

 

*

 

De um modo ou de outro

depois da alvorada
ou
dos rumores do vento
amanhece
—diáfano
leve
pertinaz—
um sujeito e seu verbo

 

 

XVII

 

Más allá de los vientos
rumorosos

más allá de la aurora

transitan
dispersos
jirones de una historia

—destellos
resplandores—

arrancada al vacío
(a su voz
a su mudez)

los hila
una mano maestra

o la historia
en sí
impone su ostinato

 

*

 

De un modo u otro

tras el alba
o
los rumores del viento
amanece
—diáfano
leve
pertinaz—
un sujeto y su verbo

 

 

 

***

 

 

 

XVIII

 

vasilhas do nada
somos
—disse—
derramando-se
no escuro

bexigas do nada
derramando
—disse—
urinas, óxidos, rubis

centelhas
—disse—
que na sua queda
(nossa)
encontram
sua hybris
sua obsessão

anil dignificado
somos
—disse—
pelo alado
voo da alma
entre ser e não ser

 

 

XVIII

 

vasijas de la nada
somos
—dijo—
derramándose
en lo oscuro

vejigas de la nada
derramando
—dijo—
orines, óxidos, rubíes

centellas
—dijo—
que en su caída
(nuestra)
encuentran
su hybris
su obsesión

añil dignificado
somos
—dijo—
por el alado
vuelo del alma
entre ser y no ser

 

 

 

***

 

 

 

XIX

 

um fim, uma forma, uma queda
uma espera obediente
uma ferida
a brancura bordada sobre o branco
e a matéria muda
atrapada e derramada
suspensa
na tela
áspera
vibrante opacidade que circunda, cega,
a história cega que ampara
o território
e os nomes enterrados
flamejantes ainda
como archote
projetando sua sombra sobre este
tórpido feroz
certeiro
irrenunciável
aqui e agora

 

 

XIX

 

un fin, una forma, una caída
una espera obsecuente
una herida
la blancura bordada sobre el blanco
y la materia muda
asida y derramada
suspendida
en el lienzo
áspero
vibrante opacidad que ciñe, ciega,
la historia ciega que cobija
el territorio
y los nombres enterrados
llameantes aún
como candelas
proyectando su sombra sobre este
tórpido feroz
certero
irrenunciable
aquí y ahora

 

* Poemas dos livros Las linternas flotantes e Vislumbres (Madrid/México, Vaso Roto, 2014)

 

Mercedes Roffé é uma das vozes mais reconhecidas da poesia latino-americana atual. Alguns de seus livros foram traduzidos e publicados na Itália, Quebec, Romênia, Inglaterra, França e Estados Unidos. Desde 1988, dirige o selo Edições Pen Press. Obteve as bolsas artísticas John Simon Guggenheim (2001) e Civitella Ranieri (2012).

 

Diana Araujo Pereira é Professora de Literatura Latino-Americana da Universidade Federal da Integração Latino-Americana. Doutora em Literaturas Hispânicas (UFRJ). É tradutora e poeta. Foi Presidenta da Associação Brasileira de Hispanistas (2014-2016), Coordenadora do Instituto Mercosul de Estudos Avançados – IMEA-UNILA e Coordenadora do Curso Letras, Artes e Mediação Cultural do Instituto Latino-Americano de Arte, Cultura e História (ILAACH-UNILA). É líder do grupo de pesquisa " Construções socioculturais da Tríplice Fronteira". Entre suas publicações, estão Horizontes Partidos (NY: Artepoética Press, 2016) e La piel de los caminos y otros poemas (Bogotá: Biblioteca Libanense de Cultura, 2017).

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Natasha Lins

 

Foto: María Tudela

 

Aprende novos truques. O ritual do
chá, o ikebana. Pratica o silêncio.
Prepara o ofurô, espalha as pétalas,
veste um quimono. Observa como
a gueixa massageia o mestre. Como
ele rende-se, relaxado, à pressão
dos dedos. É um domínio a entrega.
O guerreiro repousa, e escala o monte Fuji.
Akira nas Alturas. Arqueira das artes do tatame.

 

 

 

***

 

 

 

Jogam sobre ti uma névoa.
Dissuadem, maquiam. Mas são
como marionetes de ambições
e fetiches estranhos. Qualquer
desculpa serve a um tirano.
Porém não sabem dos porões
onde estiveste, e de como fugiste,
condessa-menina, com o íntimo
Intacto e os pés alvíssimos.

 

 

 

***

 

 

 

Para bunny rope não nasci, mas se
quiseres, suspendo-te de bom grado
num shibari. Serei tua rigger. Tenho
prática, minhas cordas são de seda.
Prazer igual nunca tiveste. Tantas
submissas no mundo, e encontras
uma dominante, não é sorte? Pois
hoje eu irei polir meu látex. Visto-me
de ringmaster e conduzo a cerimônia.

 

 

 

***

 

 

 

Fingir não perceber o corte, o talho nas costas, o mesquinho gesto. Há silêncios violentos, mais sinceros que sorrisos falsos. Há adiamentos. Há esquecimentos. Aperta o corpete para proteger-te. Endurece. A era é medieval.

 

 

 

***

 

 

 

Pois espreitava seus escritos para debochá-los, com ar de soberana.
Despudorada, sua íntima armadura camuflava uma cínica solidão.

 

Natasha Lins nasceu em Curitiba, cursou Letras, e vive há muitos anos na Europa. Trabalha com turismo. Vive entre o Algarve e a Sícilia. É inédita em livro.

 

 

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Janela Poética I

Matheus Guménin

 

Foto: María Tudela

 

INÚTIL

 

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
………………….[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
…………………………. [e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

 

 

 

***

 

 

 

o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

 

 

 

***

 

 

 

PRIMEIRO

 

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

 

 

 

***

 

 

 

CANTO DE DISSOLUÇÃO

 

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

 

 

 

***

 

 

 

CANTO APAZIGUADO

 

O que sobra das mãos são as sombras de gestos
que, já feitos, nos jazem nas mãos sepultados.

O que sobra de olhares: o breve relance
que, de breve, se perde entre o feito e o lembrado.

O que resta de risos são luzes de dentes
entrevistos por entre a cortina do lábio.

O que resta da vida é a vida que fica
e ficando é que parte ao eterno adiado.

 

 

 

***

 

 

 

POEMA EXTREMO

 

Pega na mão a pedra
pega na mão a cadeira
pega na mão o pão
mesa escada copo d’água
pega
puxa pro lado
………………………..e descobre ali

a poesia.

 

 

Matheus Guménin Barreto (1992) é um poeta e tradutor brasileiro. Nascido em Cuiabá, é doutorando da USP. Estudou também na Universität Heidelberg. Traduziu Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. É autor dos livros de poemas “A máquina de carregar nadas” (2017, 7Letras) e “Poemas em torno do chão & Primeiros poemas” (2018, Carlini & Caniato, no prelo). Foi publicado no Brasil e em Portugal (Escamandro, plaquete do “Vozes, Versos”, Enfermaria 6, Revista Escriva e Diário de Cuiabá; entre outros). É um dos editores do site cultural mato-grossense Ruído Manifesto e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

 

 

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Janela Poética II

Rita Santana

 

Foto: María Tudela

 

ANDORINHA

 

As andorinhas existem!
Saíram das páginas do livro
E resolveram viver
Nas alvenarias
Do invisível.

Mas a tua ausência dentro de mim é puríssima dor.
Não há voo que dissipe minha esperança.
Nem vento, nem rosa, nem crença
Que suavize a melancolia parasita nos ossos.

Alheios desejos nos levaram
Para ilhas opostas:
Tu foste para Creta.
Eu, para o Crato.
E do anonimato dos dias
Tenho feito poesia secreta
E prosadura.

 

 

 

***

 

 

 

CÂNHAMO

 

O tempo envelhece o telhado
E desola os meus ovários.
Teço cânhamo em São Luís.
Teço o dia inteiro,
Teço a noite inteira,
Teço em todas as horas do meu dia
O tecido que não vestirei.

Invado rios em busca
Das dunas e me acanho diante
Do teu nome de assombros
Diante da tua boca de veleiros
Que não me deixa falar
Diante da tua presença
Que não me deixa existir.

Minha terra tem buritis
E no meu coração
Há um curso de cicios silenciados.
Discursos emudecidos.

Há emaranhados de maranhões em mim.

 

 

 

***

 

 

 

LANGOR

 

Há sol demais na paisagem.
Moinhos de vento
Atormentam meu dia.
O casario recolheu o rutilar
Da minha vontade,
E eu, à sombra, deitei minha vocação
De campesina.

Minha boca pede água,
Somente meus pés pedem língua.
Tenho cansaço nas veias
De tanto deixar tecidos
Soltos no caminho.

Pescoço dança violoncelo,
Cintura requebra em violinos,
O meu vagar já é tão certo
Quanto a infelicidade dos dezembros.

Vem! Rega meu baixo ventre
Com aquilo que, em ti, é abundância.
Mas não venhas com esperas!
Estou mole, mole.
Quero abrir-me as pernas ao vento.

 

 

 

***

 

 

 

RECEPTÁCULO DA BONDADE

 

A minha infelicidade vem da tua casa à beira-mar
Vendo-me correr o meu vagar pela praia.
Sei da tua ausência pelo cheiro,
Pela falta de vida nas ondas.
Eu, cega em antigas saídas da alma,
Não quero meus textos frouxos na tua película
De vinhática virilidade servil.
Tampouco quero o teu francês na minha língua,
Tramando aturdimentos.

Não quero a tua delicadeza fingida
Dedilhando minha vagina expressionista.
Bem certa estou de que tu és
O delator dos meus delitos.

Não quero o teu anel roçando
O meu desejo lírico com promessas,
Nem profecias proféticas
De outra vez amar,
Amar o mar da nossa terra.

Não quero meu livro de versos íntimos
Entre teus dedos,
Imunes à eternidade das ostras negras,
E aos lírios lilases do meu quintal.
Nem quero saber dos teus dias de suntuosidade,
Durante a minha ausência paladina.

Sou a mulher por quem a tua esfinge procura
Nos pesadelos cheios de gozo e fortuna de afeto.
Sou toda brusquidão e rudezas de amor,
E rezo por nós dois à toa, sem estações,
Sem toadas nem eras, nem bolos de carimã.

Quero pousar no teu dia vez ou outra
Para assoprar tua gravata,
E desatar os nós do teu sapato lustroso.

És bárbaro,
Na arrogância dos diamantes
Que escapam do teu palato duro.
Deixa-me dormir em paz!
Sem que interrompas o meu sono
De exaustão operária.
Dez horas depois,
Está a acariciar meu sono de menina eterna,
Ao som da tua desgraça de poeta sem portas,
Sem machados nem cancelas.

Quero ofertar minhas soluções e meus soluços
À face do que em ti é Absoluto e é Eterno.
À face do que em ti é Amatividade e Amavios.
Apesar das derrocadas, das implosões,
E dos mistérios escolásticos da penitência.
Quero, hoje, ter saudade de qualquer vertigem
Que tenha sido nossa,
Qualquer ilusão
Que tenha saído da tua honradez absoluta
De macho curioso por meu mutismo.

O meu pai morreu sem te ter à mesa
Ofertando ao velho a minha condição de ser tua,
E de querer de mim o meu grande ventre
De mulher bem parideira e fazedora de sonhos.

Deixa-me dormir nas calçadas,
Sem teu ódio vencido
De macho traído
Mil vezes por esta fêmea que te adora.
E que por isso busca em teus pares
Relíquias do teu cheiro.
Busca em teus pares a tua pele nobre de rei etíope.
Busca, na verve dos teus discípulos,
Vestígios de tua fome sobre o meu corpo exausto.
Por isso, busco nos teus consanguíneos
Alguma razão para o caos da tua inapetência
Diante dos meus propósitos de mulher.

Eu, este receptáculo da Bondade.

 

 

 

***

 

 

 

BÊNÇÃO

 

Apeio o peito sobre a saudade que arde a carne,
Sem consolo possível no solo das desesperanças.
Herdei de meu pai pujanças, bravezas,
E de minha mãe a fragilidade animal das fêmeas.
Por isso tenho tudo!
Posso despregar o afeto como macho cansado faz,
Posso abandonar as armas, trêmula, porque morro.
Tenho grandes, pequenos e verdes medos,
Sou mulher de agora, de hoje,
Tenho hábitos de galo e caprichos de galinha.
Falta o dicionário farto em suas doações doces de fonemas,
De raízes, arcaicas presenças de verbo.
Doarei o dia à paz, ao abandono das preocupações.
Tratarei da poesia, minha parceira de demolições e alvenarias.
Quem me dera só ser, sem bruscas mutações,
Mas o corpo oscila na regularidade do ciclo.
Endoideço alguns dias porque virá a sangria
E entrarei no templo das penitências,
Fitando meu Deus com acusações humanas.
Sou esse fruto peco das diásporas,
Minha veemência é minha mordaça,
Assim têm sido meus dias de santa, casta, pacata,
Senhora de um Deus-homem.
Desacato porque sorvo substantivos, substâncias,
Essências de nomes, dores, fantasias.
Desacato porque sou poeta.
Tenho língua de fontelas, hildas.
Sou muito brava para donos
E afeita a clamores de desprotegidos.
Tenho tudo sob meu viaduto-castelo.
Sou rata e rainha.

 

 

 

***

 

 

 

LIVRO

 

Lanço-te, marujo!
Urge o arremesso do desbravamento,
O amansar da fúria contida nos dicionários.
Estende o teu olhar pras gentes e vê o que querem.
Vê o paladar apurado do povo,
Agita os braços ante o infante de leituras.
Dou-te todo o meu mar salgado,
Minhas mulheres que choram e riem alto,
Minhas noivas dispostas ao divórcio das prendas,
Arquétipos da minha avó cabocla.
Vai, marujo!
Arrisca teu perfil às tintas, ao incesto das editoras,
Aos naufrágios à beira da porta,
Aos críticos que rasgarão teu ofício de dias.
Vai, portuoso!
Beija na boca todas as mulheres que querem teu beijo,
Todos os homens dispostos ao risco,
Abre teu pórtico de páginas aos servos, aos escravos,
Aos que vivem sob vigências de feudos modernos.
Vai, marujo! Gruda nas casas novo ato de liberdade,
Conspira com os nossos,
E toma da noite sua embriaguez,
Sua inspirada subversão de Musa.
Vai, marujo!
Lança-te ao Mar com tudo que nele há
De Pessoa, de Neruda, de Carlos, de Adélia,
De Cora, de Bandeira, de Clarice, de Lorca.
Vai! E afoga meus navios velhos, viola minhas certezas,
Viola minhas mentiras, meus fingimentos de Poeta,
Viola minha caixa de Pandora,
Meu anonimato, meu suicídio diário,
Minha textura de negra, minha candura de puta.
Vai! Antes que eu me lance sem âncoras,
Pois que deixo velas, remos e medos muitos.

Rita Santana é atriz, escritora e professora de Língua Portuguesa na Rede Estadual de Educação do Estado da Bahia. Em 2004, foi uma das premiadas no Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos Tramela. Logo depois, o seu livro Tratado das Veias (poesia) foi publicado pelo extinto selo Letras da Bahia, em 2006. A Editus publicaria o seu Alforrias (poesia) em 2012.  Participa da antologia Outro Livro da Estante organizada por Herculano Neto e publicada pela Mondrongo em 2015, com o conto Ondas, Trânsitos e Trilhos, além de ter o seu poema Adusto publicado na revista organismo, projeto do Editor Jorge Augusto, organizada por Ederval Fernandes e Alex Simões.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ana Paula Olivier

 

Ilustração: Sadrie

 

Deixou o raio
o quarto
o risco

e se foi com a dança
de apanhar gravetos

Deixou o raio
o quarto
o risco

E esse vício tão sublime
De brincar de abismos.

 

 

 

***

 

 

 

Cordas no grito da chave
que o corpo que nada
sabe do pulso que pulsa
e que passa

Deixa o brilho do canto
que a gente grita
suaviza a corda
que não mata

Belezas não se acalmam.
Verdades são caladas.

 

 

 

***

 

 

 

O amor ri das glórias e dos insones.
Multiplica o tempo,
abre as portas,
brinca de esconder-se
em altas horas.
O amor gargalha,
estanca as mágoas.

 

 

 

***

 

 

 

Quem quer viver faz mágica
Levanta mortos, junta luz
Lambe corpos, lambe escrita
Devora anjos, perdoa lobos.
Nas labaredas do intenso
Nas cadeias do gozo.

 

 

 

***

 

 

 

SOPHIA

 

Ela vai deixar os cabelos brancos, brancos
vai se deixar
estriar, enrugar, desbotar

Vai deixar a pele sinalizar
pontos, peitos, prantos

Vai cansar
vai deitar
vai deixar
Deus falar.

 

 

 

***

 

 

 

ORAÇÃO

 

É vício a palavra
com que falas
de crueldades
delicadezas
É vício a palavra
no meu corpo
minha escrita
que não te rouba
É vício a palavra
com que calas
no meu invento
minhas feridas
É vício que eu volte sempre
De delicadezas
Crueldades
É vício, amor
“Deuses só comem palavras”.

 

 

 

***

 

 

 

PRIMEIRO PASSO

 

Caminhei, caminhei, caminhei
mudei os móveis de lugar
sem pedir conselhos
eu mesma cortei
unhas e cabelos
e as cortinas
eu mesma pintei
a casa de branco
e as unhas de vermelho
tudo para afogar
tuas iniciais
nos meus lençóis tão brancos
tuas iniciais
sibilantes e serpentinas
no meu sacrossanto peito.
E perdoei.

 

Ana Paula Olivier nasceu em Natal (RN) em 1971 e está radicada em São Paulo (SP) há dezesseis anos. É licenciada em Letras pela Universidade Potiguar (UNP-RN) e é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC (SP). Também é atriz e escritora, com diversos prêmios literários e participação em antologias poéticas publicadas no Brasil. Atualmente é professora de ensino superior (Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira, Produção Textual e Formação de Leitores – Letras e Pedagogia) e doutoranda em Ciências Sociais pela PUC (SP).  “Infinito sobre o peito” é o seu primeiro livro de poesia.

 

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125ª Leva - 03/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Ilustração: Sadrie

 

o despertar do ódio

 

o ódio perdeu a mordaça
atrás da tela

ele agora tem voz alta
no meio digital

realidade virtual
que desvirtua
o real
– e que o expõe, também

associal, em rede,
o ódio é mais forte

 

 

 

***

 

 

 

falta

 

antes Niemeyer tivesse projetado a moral de Brasília.
nem em seu maior devaneio faria linhas tão curvas,
nenhum lápis teria grafite mais sujo,
nenhuma tinta seria mais permanente,
nenhum concreto, mais duro.

faltam os traços de Niemeyer nos homens,
faltam o sonho, a dedicação e o outro.

falta sempre alguma coisa,
dinheiro sempre dizem que falta.
ou falta no orçamento,
ou falta no bolso.
e como faz falta.

antes Niemeyer soubesse que projetava uma pocilga,
evitando, eu, falar promiscuidade,
e teria, ele, projetado pastos,
baias mais adequadas,
confinamento, e abatedouro.

 

 

 

***

 

 

 

nas malvinas

 

no peito da feira
lateja uma chaga purulenta

crianças vendem sonhos e infância,
pessoas vagam desalmadas
entre crimes e monturos

a lama – mistura de chuva, chorume e reuma
e salmoura das carnes e peixes –
que banha os pés dos ambulantes absortos
é o icor que escorre daquele lugar

o negócio é tão grave
que o piso tremula de frio e pavor
e da cobertura vazam suor e lágrima

 

 

 

***

 

 

 

dobraduras

 

barcos de papel viajam
nos rios intermitentes das sarjetas
com sonhos escritos nos costados

ágeis, no talvegue,
entre ondas do curso irregular de raso álveo,
ignoram que a esquina encerra
o sumidouro de tudo que navega
– barco, sonho, água e terra

 

 

 

***

 

 

 

o preço fora do mercado

 

30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.

ela, que foi boa, levou-me por aí,
pedalou bicicleta e fez tantos gols

ela, que saltou a poça naquele dia chuvoso,
esforçou-se pela minha saúde
e bailou com a pessoa
por quem eu me apaixonaria

ela, que foi má, provocou pênalti no futebol,
dilacerou o bicho e machucou outras pessoas.

30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.

ela, que me faltou no dia da audiência
para vencer os obstáculos do fórum,
e continua me faltando na hora do banho,
do café e do trabalho…

30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.

ainda tenho esperança de ter perna de novo.
não sou um louco que espera que ela cresça como rabo de
[lagartixa.
tenho esperança de um dia ter dinheiro para comprar uma
[perna mecânica, isso sim.

e, se o desenvolvimento da medicina seguir bem,
ainda verei pernas naturais serem implantadas com
[sucesso.
nesse dia, perguntarei ao juiz se ele me vende a dele.

 

Geraldo Lavigne de Lemos é graduado em Direito (UESC), especialista em Direito Notarial e Registral (Anhaguera/Uniderp) e em Gestão Pública (UESC) e mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (UESC). Membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos livros À Espera do Verão (2011), amenidades (2014), alguma sinceridade (2014) e Massapê: Solo de Poesia (2016), todos de poesia e pela Editora Mondrongo. Tem no prelo o livro Poemas furta-cores, pela Editus – Editora da UESC. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus.

 

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Janela Poética V

Renata Ferreira

 

Ilustração: Sadrie

 

forma de vida

 

o animal em mim
morto
fede
mas não abandona o corpo
que segue
ereto
na medida do orgulho
os pés
cansados
fingem
uma humanidade
desmedida
enquanto
a cabeça
molde perfeito
sorri
do inferno
que a sustenta

 

 

 

***

 

 

 

desassossego

 

se desperto, ânsia
clarão desassossego
luz que entra
devora-me/ devoro-a
anseio o fim
canção diária chamada desejo
martelando os dias
um turbilhão
arrasta-me para longe
ainda estou dentro de mim

 

 

 

***

 

 

 

construção

 

demoliram a casa:
desenho tristezas nos escombros memorialísticos,
[minha obra humana]
pés cansados percorrem o terreno,
já não são os mesmos,
incharam.
os sapatos apertam,
estão vivos,
caminham sem mim,
bailam com o passado,
[enquanto me enchem de calos perversos]
não poderei usá-los no futuro…

 

 

 

***

 

 

 

tempo

 

a velha cicatriz ainda coça
compete com a novíssima
[duas semanas de vida]
uma,
nas mãos [infância]
outra,
no joelho [adulta]
um corpo
qual coçar primeiro?

 

 

 

***

 

 

 

moinho

 

verto poemas esquizofrênicos
enquanto vomito saudade
tenho medo da perda
lambo o chão
já não sou eu
não sei quem sou
[ele disse: “um dia de cada vez”]
um enorme espaço de tempo
separou o abraço
solidão a dois é mais latente
tritura
tudo

 

 

 

***

 

 

 

leitura

 

não encontro no teu rosto o que preciso,
teus olhos incolores filtram o brilho dos meus,
teu cansaço diário pesa em mim,
a força que destina ao tédio me abala.

não encontro em tua atenção um espaço,
espaço confortável com móveis audíveis,
a negritude dos teus cômodos tira minha visão.

abro as janelas, a luz do sol se afasta,
num movimento de estar sem estar,
brinca de esconde-esconde.

a procura é infinita,
perdi-me em tua vida.
isto não é poético,
apenas uma prisão em forma de poema,
prisão-lar.

 

Renata Ferreira nasceu e vive em Duque de Caxias(RJ). Formou-se em Letras pela UERJ— onde cursa jornalismo—, e é mestranda em Estudos de literatura pela UFF. Prepara seu primeiro livro, “Clarão Desassossego”.

 

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Janela Poética I

Carolina Spyer

 

Ilustração: Sadrie

 

Nota sobre uma curva

 

Meus olhos já tão miúdos quanto os seus
imersos nessa cidade de gestos
tão
inusitados

Eu desenhei olhos de ar no papel
extasiada

O ar nu como eu
tão exposto
tão
alterado

Eles picotaram o ar pelo papel dos olhos
deixaram-me o vácuo
deitado minúsculo sobre meu colo
insistente
tão desfeito quanto eu

 

 

 

***

 

 

 

Terroso o seu corpo

 

insistente matéria atravessada no estômago
prepotente que revolve seu cabelo
branco como que autorizado a triturar
seus fios para impor seus vinte mil hectares
de canaviais ou mais fazendo seguir a gentileza
da proposta para que seja uma entre seus quinhentos
funcionários ou mais a esquecer seu pé de jabuticaba
farto como se não houvesse as vozes incrustadas
as vozes do saco barreiro cantando no barro
tóxico alastrando seu tronco no chão

 

 

 

***

 

 

 

Enquanto falávamos de ritmo

 

Éramos três músicas
à trinta minutos de distância
das mesas eu e você
três constrangidas
por linhas e figuras
ignorando as buzinas as mesas eu e você
éramos três músicas mortas
pouco displicentes
porque fenecidas
éramos três dobradas
no tanto de corpo que se tinha
descartadas sem que notássemos
três coisas
pairando
sobre o chão

 

 

 

***

 

 

 

O banho era diário

 

Minhas pernas se encolhem logo de manhã
eram talvez 7 tons de xixi e variadas combinações de cor coágulo e mais
eu apurei 37 graus morre de frio moradora de rua na zona leste

são quem sabe 2 de minhas saídas
quem sabe todas elas ideais
desde tão cedo acordada Fernanda

levou um tiro no peito enquanto dormia sob uma marquise na zona sul
ninguém cuidou da cor e da temperatura dos dias sob o teto infiltrado
de registros e pedaços de pele

e coágulos em fluxos variados logo antes da manhã começar
na zona norte enquanto moradora de rua de 22 anos é atacada
a golpes de gargalo de garrafa toda cheia de mucosa ureia

e água que não cessam de esguichar
enquanto apoio meus pés na parede do banheiro
enquanto cuido de tentar manter meus pés apoiados

os nervos e músculos intrauterinos comprimidos
chorando pelos rins bato na minha barriga
de fluidos na zona oeste

 

 

 

***

 

 

 

O encontro

 

Nós dois um cardápio tímido e a mesa
dispondo nossos cotovelos as sombras
as perspectivas o ritmo da conversa
a abrangência da nossa visão a estética
do tempo cruzando a mesa parada
toda parada enquanto organiza
discretamente
nossa noite que passa

 

 

 

***

 

 

 

Solos cobertos de giros

 

I

Perde a cabeça no ombro
A mão na testa
O umbigo no dedo
O chão na goela
Faz caminho cruzado
Coloca pé com pé
Mede tamanho de tempo
Lambe intervalo do peito
Tosse em silêncio
Abre de mão dada
Bunda com bunda
Enquanto ficaram os olhos alagados

 

II

Corre dedo na rua pra conhecer o maciço do chão
Atravessa pedra, ponte, peito
Hoje é quinta feira
Percorre túneis sondando seus círculos intermináveis
Olha curto, curso
Hoje é quinta feira
Rastreia linhas topográficas
Toca
Finge rosto desforme curvando pescoço
Se lambe imensa
Lado, lastro
Lapso
Ela nunca pensou em atravessar essa via à noite
Hoje ainda é quinta feira

 

III

Roda céu: então chora (então escapa)
Tanto se pôs à superfície que agora é quase toda língua
Quase toda anel viscoso dela mesma
Rasteja à revelia do corpo
Com seu corpo

 

IV

Sensível às vibrações exteriores
Reajo entre expansões e contrações
Escavo galerias e canais
Me alimento de detritos de diversas origens
Enquanto constantemente excreto terra
Já não tenho pulmão
E me regenero

 

Carolina Spyer nasceu e vive em Belo Horizonte, Brasil. Possui graduação em Direito pela PUCMINAS e mestrado em Filosofia do Direito pela UFMG. É poeta, publicou “vrás” pelo Selo Leme (Editora Impressões de Minas, 2016) e tem poemas publicados em revistas virtuais.

 

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Janela Poética II

Leonardo Bachiega

 

Ilustração: Sadrie

 

construção geométrica

 

resistência
garante o povo
o que a imaginação entrega
ao ventre
depois de atirarem
a pedra
não é a dor
que se vê
mas os círculos
se
ampliarem
no meio
do
riacho

 

 

 

***

 

 

a poeira fragmenta a água

 

o primeiro desafio inclinar a cidade
uma chaminé perfura a casa como a consoante
de um coração que sabe os homens bons
são feitos de pólens
e as bordas ficam mais lentas com
as passarelas de mão
algum limbo decifrou o canto do sol
e as tristezas de uma cesta de cordão
que guarda os ossos da fala
dizendo é mais difícil desfiar
as relações dos homens

 

 

 

***

 

 

você ainda não leu os ossos

 

o chão é sério
formigas rasuram de tanto trabalhar
a cortina parece um fole
se o ar tem uma caixa harmônica
e um tórax
se você desalinhar a métrica
você diminuirá a saudade

 

 

 

***

 

 

 

o primeiro poeta disse não

 

não é de causar estranhamento
ou erosão nos olhos
ou febre no caviar das mãos
a oscilação das calçadas
desde sempre
a poesia foi apenas parte
de uma linguagem cotidiana
mas ela sabe de cor tudo
que existe dentro
isso porque ela diz uma coisa
e faz outra

 

 

 

***

 

 

 

auto relevo

 

entortei um dialeto engenhosamente
de muito inventar máquinas de fazer
planícies e calmarias
entulho suplicando entulho
conduz a água
esfarinhei tantos dedos
e os rochedos são as cartas do tempo
injetei desespero na veia
de uma sujeira cavando uma vala
que uma quase infância
descia a uma depressão

 

 

 

***

 

 

 

as lições das margens

 

não é fácil compreender a pedra
só os rios o fazem e quando
nasce de uma cidade
esquecer músicas quase
nas cidades areias
onde amar é uma pesquisa
arqueológica

 

Leonardo Bachiega é poeta, arquiteto e urbanista, pós – graduado em Barcelona. Nasceu em 1980 na cidade de São Paulo – Brasil, onde mora hoje, é autor de “Poema Número Um” (Chiado Ed. 2016), seu livro de estreia, também publicado em Portugal. O seu segundo livro “A cidade desabotoada”, está previsto para 2018. Tem poemas publicados nas revistas InComunidade e Literatura e Fechadura.