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120ª Leva - 05/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Jorge Elias Neto

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Manual para estilhaçar vidraças

 

Da raiz do nome
esses dedos cravados
no beiral da fenestra
extrair a resina impura.

Forjar as velas,
acender o arrebol
na cela escura.

Sugar o ar,
queimando os segredos
da memória das frestas.

Comemorar o vácuo
estendido no vazio
entre as unhas
e paredes.

Tornar insuportável
o convívio com a fumaça
do tempo
…...̶ desfazer-se da saudade.

Alardear a fuga
inútil da cama,
o suicídio das fotografias.

Com a cor das tintas
…………………………na pele,
se esfregar nas quinas
para sufocar seu cheiro.

Cuspir nas plantas secas,
urinar nas portas,
misturar-se ao cheiro das cinzas.

Soltar o grito
e descobrir-se eco.

Serrar os pés da cadeira
……..─ espalhar no piso
a última réstia da certeza.

Arregalar os olhos
─ sustentar as pálpebras
e sua obtusa fuga.

Não contornar os segredos
─ sacrificá-los.

(Perceber que o fora
é um longe,
e o dentro,
……………barreira intransponível..)

Sentir o arrepio das cortinas,
………….o crepitar dos tacos,
………….o suor da vidraça.

Sujar de sangue
a moldura sem espelho.

Reparar na janela
e sua mirada sem luz.

No breu da não-paisagem
misturar um circulo negro
…………….─ alvo no escuro.

Pressentir o estalo
da grade.

Dispensar o portal
da crença.

Aceitar o flagelo do ícone,
…………..a lascívia dos místicos.

Ao que ofusca,
o aceno,

……….ao que enrosca,
……….o degredo.

Reter o passo,
recolher no ócio
o espanto.

Ouvir o canto
da primeira trinca
……..o pio agudo
……..nas rachaduras.

……………..Estampido,
estilhaços sem rumo,
restos de tudo.

Lançar-se aos cacos
…..─ fôlego dos dias.

Recolher a sombra,
a imagem bipartida.

Perseguir a identidade,
levantando as pedras
das vias túrbidas.

 

 

 

***

 

 

 

Sob a pele

 

O corte,
a pele
– precipício.

Nem todo o fim
se desfaz em noite.

(. A noite decide o nome
de seus filhos..)

O abraço,
a espiral
– o Mundo.

Um recado do desastre
ao pé do ouvido.

( .O traço sob a pele
– cabedal de vícios ..)

 

 

 

***

 

 

 

Livro negro

 

(. Do canto obscuro
a beira do mito,
percorre-se o possível..)

Medusa,
Sangre minha língua,
Recubra de vida a hóstia
– alento do passado.

Musa,
surpreenda o que no sossego
dos dias tingidos,
simplesmente – ignora.

Ruína,
desabe com
as casas mortas.

Sertão,
rege a cisma no terço
e aboio dos de minha carne.

Cedro,
desfaça a nave fenícia
e entorne o vinho sobre as águas.

Poesia,
transforme em ruído
o som da espera.

Palavra,
seja o orvalho
de minha passagem.

Madrugada,
resgata o aceno
do tempo em meio a névoa .

Eternidade,
Estende sobre as asas
a poeira das estrelas.

Solidão,
não ignore a oferta do corpo
que a procura de ti, salta.

 

 

 

***

 

 

 

Campo de batalha

 

A manhã se dissipava
em tons de normalidade

 

:Trincheiras
cobriam a distância
do silêncio

:Encostas
não se prestavam aos ecos

:Os sonhos
fluiam das valas
ao mar

( .Não se comemora a febre
onde inexiste vida..)

Na rede de intrigas
refringia o orvalho.

Nomes brotavam
florindo o charco

E o perfume
ignorava o olfato
da ausência.

(. O mais é um vazio
onde inexiste vida..)

A brisa revolvia
as cartas

………..letras alimentavam
………..os musgos

e os metais
entoavam louvores.

( .Pode-se falar de paz
onde inexiste vida..)

 

 

 

***

 

 

 

Noturno

 

O impulso carrega
uma promessa dos pés

Andava
─ confortavelmente ─
no escuro
.( .sentia o calor
das coisas mortas)

(..Quem o pariu foi o vento nordeste
…………………assustado
………………..com o apito do navio..)

Nas mãos
a lista dos homens tristes
e linhas tortas
─ desencontradas

A seu lado
uma inútil sombra
─ essa mundaneidade

Tinha a noite
e a paz das sarjetas abandonadas

O Mundo
acontecia dentro dos olhos

Deus
era imagem ausente
à margem da fábula

O corpo
─ acaso assombroso ─
rompia a escuridão
da Ilha morta.

 

 

 

 

***

 

 

 

Cabotino

 

Me gusta esta costumbre de la rubrica por lo inútil
Miguel de Unamuno

 

O sal curtiu
a corda exangue

Amarras e terços
costuraram os dias
a esta terra
ao cais do porto
e ao apito dos navios que conhecia pelo nome

Ir e voltar:
sonho de uma sombra

Até o dia
em que o Não a reconheça
e vibre a corda
lançando-a de volta
à sinfonia do esquecimento.

 

Jorge Elias Neto é médico, ensaísta, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória/ES. São de sua autoria os livros: “Verdes Versos” (Flor&cultura ed. – 2007), “Rascunhos do absurdo” (Flor&cultura ed. – 2010), “Os ossos da baleia” (prêmio SECULT-2013), “Glacial” (Patuá – 2014), “Breve dicionário poético do boxe” (Patuá – 2015) e “Cabotagem” (Mondrongo – 2016). Publica regularmente nas revistas eletrônicas: Portal Cronópios de Literatura, Diversos Afins, Mallarmargens e Estação Capixaba. Membro da Academia espírito-santense de letras.

 

 

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Janela Poética IV

Dheyne de Souza

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Às vezes caminha em mim uma saudade que é um pouco arredia, um pouco insolente.
Ela vem com esses passos de noite como quem acorda um escuro.
Ela toma a mão dos meus sonhos e começa a cerzir metragens curtas.
Como se minha vida fosse uma fita me fita, essa memória meio insalubre, com os seus olhos de carpir montanhas. Com esses olhos de um tema curvo. Com essa displicência do momentâneo. Paisagem que dorme sem leito.
Mas não é sempre que me toca a pele esse vestido leve de sentir o peso.
Muitas vezes querendo que me perca me bato me espanco me ergo me enleio sentindo saudade desse modo específico de sentir falta.
É que ela me espinha o passado.
É que ela me aborta o presente.
É que me faz esquecer de ser para lembrar o que podia se fosse.
É que ela me ensina a ser forte, a ser grosso, a ser firme com seu meio ríspido de me tirar daqui. Com o seu gesto insípido de me lembrar que o instante é tudo o que tenho e deixo. Com o seu freio de desapego. Com o seu jeito, enfim, me devolve praticamente ileso.
Assim. Tem dias, confesso, que me pega bem preparado e eu lhe chamo de nomes bem feios – da forma que eu consigo dizer, que nunca fui muito afeito a maltratos. Mas digo mil coisas vis. Minto que esqueci de todo o berço. Grito que tenho costas limpas. Urro que no meu olho há cílios secos. Corro tanto a lembrar o quanto sou que tropeço e quando me aqueço azulejo já nem ri.
O que eu dizia mesmo?
Que às vezes ela não pisa nos meus medos.
E eu fico assim em vigília.
Eu fico assim dia a dia.
Sabe?
Eu vou ao supermercado e compro uma bala azeda.
Eu corto o cabelo em outra.
Eu rio uma piada negra.
Mudo de endereço. Danço. Corro.
Vou à academia louco a levantar esses pesos.
Bebo.
Mas ela me assiste em uma poltrona macia. Porque sabe que quando sento, quando meu olho esbarra na janela, que pena.
É uma ressaca pelada, sabe?
É quando falo com meu cigarro.
Quando me abro com um café, me banho um blues.
Quando tenho alma feito desmaio.
Olhando buracos.
Catando sílaba.
Medindo o vácuo.
Sentindo uma saudade oca de senti-la.

 

 

 

***

 

 

 

é feito de versos livres meus buracos
é leito de rasgos amargos, bordôs, quinas de alma quitada, muito bem riscadas, rasuras ranhuras alturas vesgas
são feitos de esquinas meus verbos
lânguidos. profanos. paralelepípedos logrados
deitados à rua como deitados à lua como deitados à alma sem tráfego sem traqueia

é feita de poros a língua
à míngua de tatos

 

 

 

***

 

 

 

das frestas

 

tem uma guelra na minha janela
movendo o olhar da paisagem
qual uma folha quando desperta
qual um transeunte quando erra
qual quimera, verbo na língua
quando bate no asfalto um sol a nado
tem uma morada
insone
nas minhas guelras

 

 

 

***

 

 

 

Poiesis

 

enquanto os risos escorriam nos pés
na grama
nos galhos
nos céus
dos outros no tempo
em que sempre voltamos
jamais estaremos

uma criança, longe, muda, exangue, sentada
num canto daquele muro
(como no canto dos outros muros que agora a
derrubam
feito um sino mudo)

nesse canto lhe deram uma rosa
era uma rosa comum, cor-de-rosa, jovem, justa, virgem
não soube o que fazer com tanta verdade
embora sequer soubesse disso
de que agora a memória sabe
do jeito que a memória sabe saber reticente

poderia ter passado a tarde toda
aquela criança
talvez eras
com a rosa nas mãos

poderia dizer do cheiro daquela pétala uma obra aberta
do tônus firme do seu corpo frágil
das inverossimilhanças do contorno
na sua cor silenciosa
dos rosas da rosa

se fosse dizível

mas quando o sol se punha
naquela época

pés sujos
risos suados
cabelos ventados
fôlegos rotos

mas a rosa
intacta
naquelas mãos tão pequenas meu deus e que já sustinham o medo
de ser túmulo

qual teria sido o erro
que cometeram aqueles dedos
incapazes ainda de todo mal que agora teciam tão displicentemente

tomaram-lhe a rosa sem
não foi sequer capaz de

despedaçaram todas as pétalas e sépalas
ouviam-se ranger suas veias
enquanto ensinavam que era assim
que se brincava com as flores

foi a primeira vez para ela
que a poesia
colheu o seu silêncio
humano

 

 

 

***

 

 

 

domingo, 17 de abril de 2016

 

do ódio que derrama dos dentes, independentemente da cor das gengivas, das camisas, das vias
da dor dos direitos lesados
do medo que descama nas mentes, dependentemente de vozes
que não vociferam virtudes
que não zelam
da história adquirida a suores a sangue a pancadas a vidas
ratos em vaginas
leis em latrinas
do absurdo de hastear a morte o golpe o cuspe o lustre
de deus da família dos nomes
instituições todas falidas
enquanto pisam repetidamente nos olhos nos ovos nos seios
do humano
ameaçado de mote
ameaçado de mote
Ameaçado de mote.

 

Dheyne de Souza é poeta. Mora em Goiânia. É membro do grupo de vocalização de poesia Corpo de Voz. Tem, em parceria com Helô Sanvoy, um canal no YouTube de leitura de poemas prosas prosemas, Pequenos Mundos.

 

 

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Janela Poética V

Ana Pérola

 

Foto: Angelik Kasalia

 

EL CAMINO

Para ler ao som de Chango Spasiuk

 

I

Esse caminho infinito
Que rodeia ausências
E só me traz uma saudade do que não

 

II

Mal amanheci
Nem me avistei hoje
E já te penso

 

III

O espelho vazio
E na banheira do meu peito
Inundação

 

IV

Percorre no meu corpo
Adentra a intimidade
É só a água do chuveiro, Querida

 

V

A memória, mais tarde
É uma cabeça encostada
Na janela do ônibus

 

VI

Enquanto a vida passa lá fora
O amor em estagnação:
O meu melhor fado.

 

 

 

***

 

 

 

CONFISSÃO

 

Um barulho na cozinha
A desconfiança de uma descendência italiana
Meus pais, um caos
Quebrantes
Eu, caquinhos.

 

 

 

***

 

 

 

A CASA

 

Esse fantasma
Que me atormenta
E desmorona no meu sobrenome.

 

 

 

***

 

 

 

CATARSE

 

Aquele copo cheio de veneno
O gesto mal intencionado
O corpo tomado por crença.

O espinho liberta.

 

 

 

***

 

 

 

ARMAÇÃO

 

Essas espumas que explodem
As rochas cobertas pelo desejo
De tanto (a)mar.

Sem nenhuma dúvida
Se deixar molhar.
Depois secar, desconheço.

 

Ana Pérola (RJ – 1988) mora em Florianópolis, é poeta, fotógrafa, tem ensaios publicados na Revista Ellenismos, exposição fotográfica e conto na Revista Cruviana. Além de escrever em redes sociais e em seu blog Sentidos, é colaboradora no Poesia: Falsidade Ideológica  e no projeto infantil Para Qualquer faz de Conta e atua também na área de Recursos Humanos na qual é graduada.

 

 

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Janela Poética I

Lilian Aquino

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Último andar

 

Eu te encontrava no
elevador
tinha um espelho
daqueles que todo
mundo fotografa mas
a intimidade agora era
a distância subindo
desconhecendo nossos
reflexos esmaecidos
esquecidos das tantas
vezes que te chamei pelo
apelido diminutivo e
sem ter o que falar
– que não sou de gritos –
silenciava andar por
andar e eu repetia
a capacidade
máxima, o peso
a placa schindler
sem adivinhar o
quanto de carga
puxava no pensamento
aquele quadrado
suspenso por aço
correntes que prendiam
a respiração
porque eu te
tanto.

 

 

 

***

 

 

 

Uma janela sobre a cidade

 

Não devemos proteger
com panos quentes
cortinas cerradas
esta cidade
espreitada aqui do alto
porque este é um lugar
onde ainda se pode estar nu
Aqui os corpos
se movimentam
diante da varanda
exibidos
nesta sala erguida
acima de outras duas
salas como esta.

Uma cidade vista daqui de cima
três andares
onde podemos
ser o que somos
– corpos

 

 

 

***

 

 

 

Juízo

 

Ande,
me dê sua mão
No bolso você
só encontra a mesma
nota dissonante.
Venha aqui
e tire a mão do bolso
O asfalto que cobre
esta estrada
é a coisa mais certa
a cumprir
Ande,
agora você
se equilibra
e a mão está
na cabeça

bem onde deve estar

 

 

 

***

 

 

 

Indigesto

 

Como um comprimido
engulo este dia.
De oito em oito horas
me lembro
não há remédio
a não ser comer
esta demora que a vida leva
pra curar uma dor
Meus dentes estão moles
como balas de goma
impossível mastigar
estes segundos

 

 

 

***

 

 

 

Ladrilhos

 

Que andasse
a procurar objetos de louça
e os levasse
no bolso do casaco
polidos
era coisa sabida

E que no opaco
armário de cozinha
depositasse
essas preciosidades
não podia evitar.

seus objetos de louça
seu cuidar que luzia com
o brilho seu
seus achados de cerâmica
sem importar
o formato

Que recolhesse
e juntasse
as partes de modo imperfeito
era o que fazia:

o fragmento de louça.

 

 

 

***

 

 

 

Urbanismo

 

Lá onde morava
não tinha margem
nem esquinas:
era inteiro.

E se à noite pensava
via estradas, cruzamentos
canteiros
e flutuava sobre
a cidade aberta
traçando com giz
(um a um) seus limites

delineava
zonas de silêncio.

 

Lilian Aquino nasceu em São Paulo em 1979. Publicou ”Pequenos afazeres domésticos”  (Patuá, 2011) e “Daqui” (Patuá, 2017), contemplado pela Bolsa ProAc de Criação Literária em 2015. Tem ainda poemas em diversas revistas impressas e virtuais e em antologias.

 

 

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Janela Poética II

Leandro Rodrigues

 

Foto: Angelik Kasalia

 

4 CENAS DO CÃO ANDALUZ

 

I

por que um cão sangrento
atravessa-nos à noite
e reduz a lua com
seu brilho no esgoto
numa parca brancura
disforme moldada
ou uivo do mal agouro
encarcerado/ sombra des-
fragmentada num osso
de nossa própria (in) existência
as vísceras repugnantes
à mostra para consumo
da matilha e suas fartas mandíbulas.

 

II

O ventre exaurido do parir eterno
constante:
………………….palavras, palavras, versos
desarticulados/ disformes
………………….e tão orgânicos.

III

costumeiramente rasgados
no cordão arrancado
com navalha fria, afiada
…………………bem trabalhada.

 

IV

no rescaldo de tudo
o cão – o grito
se deita – carne viva
………………..restos da pelagem
moldura mórbida estática
da sala de jantar imponente
com seus móveis discretamente apoiados
em calços vermelhos e
nas sombras tortas desfocadas
de todos aqueles animais mortos
da família – empalhados
o sangue que ainda respinga
pisado.

 

 

 

***

 

 

 

AFIAÇÕES DA LÂMINA

 

I

É rápido o golpe
O fracasso
A simetria fria
da dor
O novelo desfeito
O relógio que ousa
girar seus ponteiros
ao contrário
A nuvem que paira
cinza cor de chumbo
e encobre a paisagem
………….bucólica – anônima

É solitária a agonia
a chuva, a ausência da palavra
…………… …………………….. [ precisa
a intraduzível morbidez
do todo
……………..um jardim e seus canteiros
……………..em cores vivas.

 

 

II

É solitário o golpe
a imprecisão
da dor fria
cinza – do todo
O relógio desfeito
O novelo que ousa
desfiar-se ao contrário
– intraduzível morbidez
………………………………….[ que paira

palavra de chumbo,
paisagem precisa
que encobre um jardim
………………….anônimo – bucólico

É rápido o fracasso
em cores vivas,
a ausência da simetria
fria – chuva e agonia
…………………como a girar
…………………seus ponteiros
…………………de nuvem.

 

 

 

***

 

 

 

ARESTAS

 

a noite pontuou
seus versos certeiros
pontiagudas arestas
farpas afiadas
no peito.

 

 

 

***

 

 

 

FARPAS

 

uivo de sangue
a matilha estanca
a lua corada.

entre cortes e recortes
no farpado arame
dos dias
costuravas noites
com palavras despidas.

 

Leandro Rodrigues nasceu em Osasco–SP. Graduado em Letras, Pós-Graduado em Literatura Contemporânea, é Professor de Literatura e Língua Portuguesa. Lançou em 2016 o seu 1º livro: Aprendizagem Cinza pela Editora Patuá. Em 2017, participou do Jornal de Literatura  O Casulo Nº 11 e 12 e do livro Hiperconexões, organizado por Luiz Braz para a Patuá com 5 poemas. É um dos autores da Revista Zona Da Palavra. Já esteve em Incomunidade com alguns poemas em Abril de 2016.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Morgana Adis

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

[indizível]

 

Como contar o que devo?
Da sordidez dos beijos.
Da miséria, da fraqueza.
Das línguas que espalham espaços- espasmos-líquidos
por onde podem escorrer as paredes
viscosas e róseas, ignorando tudo,
em órbita desgovernada,
e com o peso na linha tênue?

 

 

 

***

 

 

 

[juro]

 

Continua a vontade
de saber: sem
machucar os peitos do pé.
Na convicção ínfima de
imediato é extinta,
a mente.

Sentir o estalar pelos
ecos pintados nos ossos.
Triste em sensação,
persiste pelos séculos…
em sobras de tinta.
Amém!

 

 

 

***

 

 

 

[imaginário]

 

Atas meu cavalo alado
às nuvens secas e parcas.
Rendo a parte mais fraca
ao difuso, e no movimento
me junto às patas.

Patas que, em repente estranho,
cavalgam plenas e fartas
o desejo escuso do uso da faca,
cravada no exato momento
para que de mim partas.

 

 

 

***

 

 

 

[tatear]

 

Proponho sentir às cegas,
palpitar: sem desfecho!
De súbito, o arrebato
da silenciosa vigília-terna,
ecoa em repousos arredios
– na caligrafia que
se fez soar.

Miúdas cintilâncias
recortam a ausência
que se impõe sem dor;
aos corpos-folha: flores
e aromas presentes:
sob crianças noturnas
só-risos ecoados em fé.

Da seta cravada na espinha
lateja um unicórnio insólito.
Mergulha em sombras
transparentes ao fazer
da teia o orvalho
que quebra o espanto:
com acalanto nervoso.

Em piscadas bem abertas
recobramos a vigência
dos tempos retorcidos.
São constelações de letras
explícitas: transbordadas
pelo nado tateado, do vagar
ensandecido-errante.

Retido o encontro: sanar
em falares notívagos
delirantes, ínfimos percorridos,
enraizados no raro:
em pleno pulso
do absurdo-mágico:
quimeras do inerente-errático.

Presságio estático
caiu entre as nuvens: que
fitam angústias desde o véu
da caverna confidente.
No centro dos sempres
estamos libertos da
instância, mas não da infância.

Por dentro – o inequívoco:
convicção primal e surda
que impõe ritmo e cor
ao ser-sentir. Estampa
nas veias o cósmico grito de duas
esferas feitas do mesmo pó e
das constelações dos medos.

 

 

 

***

 

 

 

[quero ser]

 

De súbito, uma mui
pequena falta de atenção,
provoca o toque inestimável
entre elementos então
transmutados em respiro
sem piedade.
Quem disse? Meu corpo…
em resposta à língua
que bem preciso entender.
Como se pensa algo que
nem corpo é? Onde o
nunca é matéria! Tem enfim
uma centenária no jardim e veste
as sandálias da compaixão, pois
só assim consegue pisar o chão.
Compaixão por quem?
De mim é que não.

 

Clamo por concentrar
nas mãos o bem que desejo.
Seria como tocar o nada. Olhar
fixamente as lambidas de luz que
emanam o pulso intermitente e intuir
a força que emerge de todas as veias
conjuradas nas artérias,
num latejar mínimo,
que passaria incógnito se não fossem
as arteiras meninas dos olhos que,
pensativas, seguem de perto
o movimento da carne
que envolve o vulto oculto
e sem pele. Inconveniente
momento de perceber que
basta oferecer o intento para
escorregar pelos sistemas de
sóis e luas invertidos,
reconfigurados e ativos, recuperados
pela calma do respirar inteiro e… ser
ar para tocar as claves do íntegro
sabor e do suave brincar
das pontas.

Morgana Adis é a assinatura de Claudia Aguiyrre com as letras. Leitora antes de nada. Deixou de ser jornalista e professora de cinema, por uma vida mais integrada aos quatro elementos. Mantém-se documentarista e editora. Em ambos ofícios,  sente que o importante é ouvir. Orientada a escrever com mais regularidade pelo poeta Leopoldo Comitti o faz entendendo cada vez menos de tudo: desta vez com mais propósito. Nasceu em Santiago do Chile e vive o Brasil há quase quarenta anos. É uma das idealizadoras do Epigrama Coletivo Editorial e do Koletivo Artístico Nukanal.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Helena Zelic

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

meninas

 

faz tempo
um poema que expresse
amor
só o amor, sem tempos duros
sem pratos quebrados na parede
e a angústia das lâmpadas

pensei
que estivesse o corpo intacto
que já não sentisse nada mas
o amor, esse escafandro
escancarado
crescendo as plantas marinhas

a gente deu as mãos
pensei de brincadeira
não consigo escrever esses versos
sem pensar em seu rosto
e seus cabelos
alguma coisa aconteceu
no meu organismo
não consigo imaginar alguém
que leia este poema
e não veja nele
o seu rosto e seus cabelos
meu rosto
meus cabelos.

 

 

 

***

 

 

 

cidades perdidas

 

existe são paulo e as multidões
a garoa e a chuva ácida
sobre os capôs, chapéus e cabelos.
aquela são paulo que,
dizem,
não existe mais
existe em santos
nas praças do centro
e nos tijolos das velhas indústrias
em meio ao fogo
dos despreocupados.

não tenho conhecimentos
químicos ou de vida
para saber se o tijolo,
no fogo,
derrete
ou vive.

minha tia anda pelas ruas
de santos
e se entende nas calles cubanas.
as vielas de salvador
têm as formas de Cuba,
para ela
todo lugar é a saudade de La Habana
e das casas de andares altos
que o tempo cortou no meio
para caber mais habitantes.
por fora, as portas são altas,
ainda são.

nenhuma cidade deixa de existir
quando se torna exemplo
dos postais, das réguas
da arquitetura
das utopias.
a memória nunca pode ser
armadilha das mudanças.

 

 

 

***

 

 

 

os clássicos

 

quem sabe quais seriam
as palavras de Safo
censuradas pelo tempo
[pela igreja católica]
abarcadas como ilhas mudas
pelos colchetes e chaves da história?

quantos beijos na boca
quantas bocas
[quantas? como?]
a despeito de menandro e apolo?

o que sussurravam as mulheres
nos ouvidos?
um mundo em festa.

os fragmentos das letras
são lacunas do encontro
entre uns corpos e outros.

há amores como há embarcações
e somem no mediterrâneo,
enormes e invisíveis.
[um mundo em festa!]
mais que ilhados,
subaquáticos.

 

 

 

***

 

 

 

um narrador que grita

 

nunca, nesta vida ou nas próximas
poderei escrever como uma poeta portuguesa.
posso imitar os versos grandiosos
de uma poeta portuguesa
posso copiar os sentimentos precisos
de uma poeta portuguesa
posso falsificar documentos
como faz a decadência das fronteiras
sem pátria e sem trabalho
duas casas e nenhuma.

posso dizer que sou
e assim chegar ao limite
convencer alguns católicos
não-praticantes do ofício da fé
andar nas ruas como uma poeta portuguesa
erguer talheres como uma poeta portuguesa
falar dos mares e do amor infinito e súbito
como o faria uma poeta portuguesa;
como se sozinha o detivesse
no centro do corpo
contra os monstros marítimos.

posso fingir que compreendo e que me espanto;
posso escrever como uma subdesenvolvida
a fingir que conhece a solidão do hemisfério norte
e os cânones das bibliotecas
que nomeiam ruas, escolas e tentativas.

posso esculpir um pássaro e narrar seu voo
como se voasse.
como se existisse para tal fim.

posso contar as pérolas
dos pecados da ave maria
(em segredo sepulcral).
mas nunca, sob hipótese alguma,
poderei escrever como uma poeta portuguesa.

são outros os meus heróis.

 

 

 

***

 

 

 

um lugar no mundo

 

que aquele rasgo na noite
seja um astro satélite
parece impossível

a distância tamanha
aproxima água e minério
a perder perspectiva

no meio do caminho
um abismo de sombras
pedágios, cavaleiros e dragões

o medo de altura
da humanidade visível
nas pedras que cortam a China.

 

 

 

***

 

 

 

mitos

 

como um país que não se esquece de seus mortos e seus vivos
como um povo que resguarda a língua anterior às fronteiras
porque são eles mesmos a língua,
a língua é eles
como tua capacidade de amar novas pessoas
e reconhecer perfumes antigos
e querê-los, porque assim respira mais.

como a dura revolta de nossos ossos,
como as multidões que se levantam,
tu tem direito à tua história.

 

Helena Zelic tem 21 anos, é estudante de Letras, comunicadora, militante da Marcha Mundial das Mulheres, coordenadora de literatura da revista Capitolina, poeta e autora de “Constelações”, publicado em 2016.

 

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119ª Leva - 04/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Luís Perdiz

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

MIGALHAS

 

os monumentos são zoológicos do medo
violentas cortinas rasgam a noite

preciso de distinção nos dentes
instantâneos que não mordem

………..o jardim de apuros
onde nossas garras desaprendem o espaço

 

 

 

***

 

 

 

TEMPLO

 

nunca intacto
repouso nesta superfície de cascalhos
sonhos aprendidos ao hálito da terra
lágrima primata incrustada na labareda
planície viva do princípio
tarde marmórea por onde encontro

suas coxas quentes
secretamente solares

 

 

 

***

 

 

 

A HORA DA PANTERA

 

I

……………o meu amor meu bêbado amor que ruge
na órbita tenaz de cabelos e orquídeas
no subterrâneo vicejante da floresta do tesão
a argyreia dos olhos trespassa a senha dos ciclones
……………desarma o fogo e o laser dos saguões cinéticos
e com seu batom negro devora o próximo planeta

 

 

II

………….o meu amor meu vertiginoso amor que salta
pelos viadutos abismos arvoredos farpas
dilacera o aro do tempo com patas atômicas
arranha verbos vorazes na espinha das almas
……………ressurge ofegante no sofá-cama escarlate
luzente entre gozo e caos

 

 

 

***

 

 

 

BANQUETE

 

estirados sobre uvas e fogueiras
oferendados aos olhos do dragão
adormecidos em tambores e maços
devorados na miragem nupcial da ordem

as fábricas nas unhas crescem

 

 

 

***

 

 

 

UMA PRESA FÁCIL

 

o mínimo possível
estancado com zelo
ruidoso fêmur

pesar o pesadelo
de tantos ossos
a feroz visão
em limiares doces

nervo e seiva
laborioso istmo
maravilha consternada
porém viva

uma presa fácil
habita aquela antiga e frágil cama
onde os livros doem mais

 

 

 

***

 

 

 

INSTANTE ESTRANGEIRO

 

a tradução nuvem diamante em língua
uiva ausente sobre o telhado escandaloso

convites dispersos ressonância incógnita
gestos indecifráveis de rubi tráfego

tração fútil aos volts de neurônio
retrógrado na distância

trilhos devoradores
despedida de maquiagens áridas

navego nu em mim
estrangeiro náufrago

 

 

 

***

 

 

 

NOS CORRIMÕES DO SILÊNCIO

 

enxágua esta espera
desespera frenética
aranha indeferida

do impresso
chovem granadas

 

Luís Perdiz é poeta, compositor e editor do portal de literatura “Poesia Primata, voltado para a degustação e difusão da poesia brasileira contemporânea. Faz parte do projeto musical autoral “Estranhos no Ninho, do coletivo Ocupecompoesia e colabora regularmente em revistas de literatura e antologias. Com poemas de Saudade mestiça (Patuá, 2016), seu livro de estreia, foi agraciado com  menção honrosa no Programa Nascente USP. Atualmente vive em São Paulo.

 

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119ª Leva - 04/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Sara Síntique

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Seio

 

meus seios estão agora
devorados por tigres
que os engolem
com fome e lascívia

esses pequenos órgãos
não serviriam ao leite
ou à valsa de teus dedos
ou à tua língua
veneno aos mamilos

tampouco seriam acampamento
às guerrilhas da morte

esses tigres estraçalham
as carnes miúdas
e sem pressa
e fervorosos de abundância
se encaminham para o ventre.

 

 

 

***

 

 

 

Revoada

 

amanhã ou hoje
voar ao sol
para sentir o calor
sobre os ossos
esse que eu não encontro
em parte alguma
e que a ausência não consola.

 

 

 

***

 

 

 

Andarilho

 

somente as pernas sentem o gozo
e quando muito
os pés – as pontas dos dedos
adormecem e flamejam.

mas se o cheiro do líquido
chegar à língua
e nela se fizer um gosto:
tua estrada proclamou-se sem fim.

 

 

 

***

 

 

 

Tontura

 

eu queria a insônia de Mekas
e ser com ele
aquele verde
e aquele sol
e alongar o corpo ao chão
dissolver o corpo ao chão
mas a minha insônia
ela só me agarra ao cigarro
e tua companhia não existe mais
há solidão e bagunça
canção alguma a ouvir
a não ser a voz
de um homem
embriagado
na televisão
eu não consigo estar nesse corpo
depois dessa imagem:
a voz dele como reza
e os copos vazios.

Mekas não me dirá mais nada.

eu já entendi o pausar do desejo
já me deitei sobre a náusea
e sobre o vômito
e sobre o som do acordeão
teimo em escrever isso que vai sendo pedido
mas eu me quero sono, me quero silêncio
os membros são pedaços de fúria
e não há controle
todo o meu vibrar em contradição
e ainda existe o teu ciúme
e meus olhos sobre teu dorso inteiro
e um pensar até doer a cabeça
e um desistir de parar ou tentar.

não, Mekas, eu não rezarei ao além.

 

 

 

***

 

 

 

Coração ou fragmento

 

guardo em silêncio feérico
teu corpo viçoso
ligeiro e pesado
no meu corpo em pedaços

guardaria assim mesmo
se fora de leveza e ternura

queria poder fingir inteirezas.

 

 

 

***

 

 

 

Útero ou dissolução

 

escorrega desse sangue
o eco de teu choro.

escorre entre as pernas
a insensatez das palavras –
enquanto escavam o colo
tuas dez garras miúdes,
suficientes e exatas
para bem-aventurar a loucura.

e o útero,
berço nunca plácido,
da rasura,
da sobra,
da secura dos galhos,
dissolve o corpo inteiro,
tua morada.

 

 

 

***

 

 

 

Além da memória

 

A Sidney Souto
in memorian

 

o corpo não zera depois da morte
não estão nulos, os órgãos
eles se arranjam pelo espaço
os processos químicos prosseguem
e ele se entremeia na terra
e dança com ela, em silêncio.

também não zera depois do amor
mas visita um espaço
quase vazio, quase inteiro
e nele é quase místico, quase cético
quase terra, quase céu

depois do amor, o corpo é quase
um entre,
a não caber em escala alguma
como se fora poesia, mas ainda não o é

o corpo, talvez, zere aqui
nas palavras,
nesse dizer, um desdigo
aqui,
no buraco invisível,
imagem e só,
aqui, na palavra,
zero e infinito.

 

Sara Síntique é graduada em Letras Português-Francês e mestranda em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Nasceu em Iguatu (CE), em 1990, e reside em Fortaleza desde 2001. Autora do livro de poesia “Corpo Nulo” (2015, Editora Substânsia), também é atriz e performer.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Hugo Lima

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

a linha pensa

 

para edith derdyk
traço a linha
além da página
o que exceder é horizonte

 

 

I.

-meu corpo
atravessa o espaço
com suas linhas-

-na fluidez da passagem
a linguagem retém
o gesto-

-entre cortes e costuras
tecidos e ranhuras
o traço
revela seu avesso-

-no ritmo
i-n-i-n-t-e-r-r-u-p-t-o
do ir e vir
sobre o papel-

-de-se-nho-

-de dentro pra fora
de fora pra dentro-

-remendos
e tessituras
 

 

II.

-a linha
do horizonte
é fronteira-

-ao mesmo tempo
aproxima
& afasta-

-agrupa
e separa
minha língua
da sua
meu corpo
do seu-

-a linha
do horizonte
ultrapassa
aquilo que fica
daquilo que
escapa-

-a rasura
no mapa-

-a comunhão
exata-
-entre
meu gesto
e o seu-

 

 

III.

-a linha
intermitente
da leitura-

-a leitura
intermitente
do poema-

-o poema
intermitente
da vida-

-a vida
intermitente-

 

 

IV.

que constelações
desenharão
estas linhas?

que caminhos
revelarão
nos mapas?

que tecidos
formarão
suas camadas?

que estórias
traçarão
sobre as páginas?

que riscos
correrão
sob o nada?

que marcas
deixarão
no papel?

 

 

V.

-a linha
quer adentrar
a memória
habitar
o instante
estruturar a
narrativa-

-a linha
quer inventar
paisagens
desviar
caminhos
conectar
linguagens-

-a linha
quer ser
um pedaço–

–do espaço-

-transformar-se
em estrela
constelar seu
rastro-

-a linha
pensa
o momento exato:

-um
emaranhado-
-de ponto-s-
em nós-

 

 

VI.

——sob a pele tatuada
o corpo tece sua gramática
alinhavando o pensamento
à sintaxe dos versos
fixando-se no desejo
de adentrar a sala
ampliar o horizonte
ser uma e ser mil
tornar-se trama
enredo
fazer arte
tecer o texto
alinhar os livros na estante
os quadros nas paredes
amarrar
uma a uma
as orelhas de cada página
a grande onda dos dias
a geografia das formas
o entorno e suas bordas
s u a s ó r b i t a s
pespontar o destino
pelos fios de Ariadne——

 

 

Hugo Lima é poeta, performer e educador. Tem poemas publicados em diversas revistas e jornais literários, como Dezfaces, Gueto, Mallarmargens, dentre outros. É autor dos livros Nus, Florais & Ping-Pong (2014), Corpo dos Afetos: para Herberto Helder (2015) e Dois Quartos, com Tida Carvalho (2017), pela Crivo Editorial, e Repeats & Bonus Tracks, que integra a terceira temporada da coleção Leve 1 livro (jun/2017). Mora em Belo Horizonte.