há tempos
teu nome não
soa em mim
ressumbrando
dores, reabrindo
feridas; o dorso
distante não
abriga mais o
delírio
das mãos que
hoje
apenas
se esquecem no ar
onde tudo me
escapa de ti e
o amor não
forja a lâmina
***
Silêncio
Percorri corredores
observando tumbas
com ossos cariados
vislumbrei súplicas
em faces que não se
moviam; carreguei
os mortos e o aroma
pútrido lambia minha
calma. Limpei os seus
dejetos e os dos que
ainda agonizavam
esperando a sua vez…
***
lou.cu.ra. s. f. 1. ferrete, óleo
pedra. 2. ave-langue-sorriso. 3. a
gengiva dura. 4. fulgor que apenas
conserva o hálito aquecido das orações 5. tua voz calma diluída sobre um
tempo queimante
***
Eu caminhei buscando um coração
Desviando-me de pedras e tentando manter meus olhos abertos em meio à poeira
Entretanto, não compreendia que tudo já havia se corrompido
Meus dedos, minha boca, meu corpo
Nada mais sem o fardo essencial daquele que eternamente procura
As luzes piscaram, prenunciando a minha morte
E eu rezei para que alguém me salvasse nestas noites impuras
Mas o que eu apenas pude ver foi a minha própria imagem
Eu em fragmentos, enquanto meus pés seguiam tortuosamente…
***
O cabelo, a princípio, não revelara nada
Fino e negro rio, escondia o marfim e o fruto
Eram apenas linhas que rutilavam na fraca luz
Silhuetas das dunas do Maranhão, eternas fugidias
Névoas e sódio, o grande mistério de Anticítera
Eram membros, tênues movimentos, o tronco
A delgada geografia de sua terra revestida de neve
Era somente um sussurro branco sob véu de chumbo
O revérbero de um astro distante, lânguida paisagem
Eram mãos pequenas, duas conchas à espera do mar infinito
***
é cedo… e tudo ainda arde
a dor não é física, ainda que física
a angústia, a solidão, não são corpóreas, ainda que corpóreas
o vazio, ainda que vazio, é cheio de algo que não tem nome
Sel é poeta e artista visual. Possui textos publicados nas revistas literárias euOnça e Benfazeja. É autor dos livros: Autopse (ed. Multifoco – 2012) e [Sel]vageria (ed. Urutau – 2016). Ambos de poesia.
73.
Certas tardes de verão (ou seria
daquele tipo de inverno onde o sol
ainda se esmera em grafar na pele
flores rubras com sua luz de agulhas
todas em brasa e imateriais) banidas
agora para um limbo que tantos
nomeiam (pelo mecanismo turvo
dos sentidos) de passado, limbo
que concentra, entre outros, o instante
em que talvez confuso, talvez
indiferente, você percorria a orla
do primeiro verso, que é
um território raso onde tudo
se desfaz, se confunde e nunca
mais retorna (o que lhe deu prazer
ou desespero), mesmo que em
seu mundo imaginário, você
projete o corpo imerso
num rio sem fluxo onde
as águas estanques apodrecem
seu melhor sorriso, seu gesto
mais luminoso, seu maior ardor
e, claro, de todas a mais infundada
(como de resto cabe a qualquer
formulação) fé, cicatriz
da esperança.
***
77.
Outono ardente (tantos anos
depois de outro verão, gelado
até a medula, mas como se
coladas, por um estranho salto
da história, uma estação
na outra), pura sangria, ainda
que não se saiba se haverá
espetáculo todo dia em seu
circo particular de horrores,
os olhos querem desgastar
imagens, repetir, repetir,
no disco arranhado do tempo
em que a lua gira sem eixo
e você pretende, mais uma
vez, desarmar a metafísica
por dentro e expor a carne
à sua natureza e seu destino.
***
81.
Mundo estranho, miragens
em movimento sob o sol
natural, vasto mundo plano
e você deu tantas voltas ao redor
sem perceber qualquer falha, seguindo
sem cosmologias no universo
circunstancial, acidental (“se calhar, se calhar”, alguém disse), restando
amorfo como este século de luzes
intermitentes, ou como quem errou
de endereço indo ao lugar
certo, ou devorando miragens
à margem de todo sentimento,
em larga escala, em alta
rotatividade, ou bancando
um vinho forte para cada alma
que sobrou dentro de sua cabeça
depois da grande
explosão.
***
82.
Estende um infinito entre você e a paisagem, tão perto,
cortinas de vidro se liquefazendo à frente
dos seus olhos e os dias decapando camadas de asfalto: cada uma
contém em seus mapas impressões do absurdo
que teve por destino transportar, surdamente,
na treva ou sob o sol – “um corpo”, ele disse,”e não ouviu as coisas todas gritando à sua passagem, as coisas aturdidas diante da agressão de seus olhos”. Limites, exílios, silêncios,
viagens sem volta, abismos
entre as coisas e as palavras, você
pulou porque quis.
***
84.
Nenhum amor pela cidade, muito
pelo contrário, rancores
cuidadosamente cultivados como
flores, feridas
expostas ao mesmo ar que alisa
a superfície de tudo, contínua,
como se a beijasse, ar
que nunca ampara ainda que envolva
gelado ou turvo, tanto faz, no mundo
estreito – você formula
absurdos como erguer paredes contra o ar
tornado vento quando imagina
ele trazendo mensagens do passado em forma
de lâminas ferozes, mas lembra
que paredes são memória
dura; formula então
torná-las labirinto, emaranhado
onde se possa encapsular
a brisa que lhe arranha
a pele, e pensa mais, grafites
que apontem miragens onde perder
o corpo,
grafites por toda a superfície
alçada contra o ar, pura
vertigem, nenhum
amor pela cidade, nenhuma cidade
possível.
***
85.
O números das casas, dos carros, os números
dos telefones, números
dos anos cifrados sob os poemas,
na imagem das ruas traçar rotas
aleatórias conjugando
os números em camadas de uma pele
sobre a cidade, você
tenta decifrar sem bisturi tudo que não sabe, ou seja,
isso que um dia alguém ousou
chamar de real.
***
86.
Cidades são reais, o pensamento
não se sabe, cidades são
reais, meu chapa, sejam fossas
geladas ou panelas de pressão, chapa quente,
tanto faz, ruas emaranhadas ou largas
avenidas são labirintos (“toneladas de pedras ao alto”, ele disse)
porque espelham o que se forma
por dentro, em precipitação (aqui você
repete o delírio recorrente
de encontrar a explicação
que não existe, de arremessar fora de si
paisagens da imaginação – não, estas
paredes que o pensamento ergueu
por dentro são outra
formulação alucinada
do seu desespero, o mesmo
que arriscou metamorfoses, uma
atrás da outra, até
desembocar no espanto de ser
de novo não mais
que o mesmo
-“agora, agora”-
do começo).
Nuno Rau é carioca, arquiteto e professor de história da arte, mestre em história da arquitetura, e tem poemas publicados em revistas e sites como Cronópios, Germina, Sibila, Zunai, Mallarmargens, Diversos e Afins, RelevO, em diversos blogs e nas antologias Desvio para o vermelho (13 poetas brasileiros contemporâneos), pelo CCSP | Centro Cultural São Paulo, Escriptonita: pop/oesia, mitologia-remix & super-heróis de gibi, que co-organizou, e29 de Abril: o verso da violência, ambas pela Editora Patuá e, em fase de organização, a antologia Poemáquina. Autor do livro Mecânica Aplicada (2017). É um dos editores da revista eletrônica Mallarmargens.
crio gato em
telhado de vidro
na casa que
existe sozinha
à beira da
estrada
jardim de
violeta mistério
fragilidade pura
halo de lua
córrego no
fundo do quintal
***
Sherazade
céu aberto
cáfila silenciosa
cruza o deserto
sete véus
dança do vento
serpente subindo no bastão
olho abre e fecha entre mundos
tapete voador
amor pedra branca
sorte na borra do café
Ali Babá e os sorridentes bufões
***
Bolero
noite alta
cachorro latindo na rua
meu amor foi embora
levou o frio que eu sentia na barriga
levou fotografias
anel pendurado no pescoço
meu amor dente-de-leão soprado
levou dor e alegria
luva e guarda-chuva
jogo de botão
***
Quaresma
guardei a fantasia
lavei a casa
fiz novos canteiros
semeei
papoulas e dálias
cortei os cabelos
lavei a alma
comprei lanternas e lupas
fiquei nua na janela
olhos postos no céu
no fundo de mim
passa um rio
adolescentes de seios duros
bocas ruidosas
banham-se de manhã
***
Do esquecimento
sapatos pisam fundo nos dias
tardes desiguais:
tem as de vento
que fazem carnaval nas saias da gente.
Tem as que escurecem rápido
como coito de alguns animais.
Tardes quentes
banais
cada beduíno em seu pedaço de deserto.
Muna Ahmad nasceu em Porangatu, GO, vive atualmente em Brasília, DF. “Cidadã do mundo, assim se define: Goiás-Ceará-Palestina lugares de nascimento.” Licenciada em Artes Cênicas pela Fundação Brasileira de Teatro, trabalha com educação ambiental na estação Ecológica de Águas Emendadas, Planaltina-DF. Em 1997, participou da antologia Mais uns – Coletivo de poetas, org. pelo poeta Menezes y Morais. Já em 2015, publicou seu primeiro livro de poemas, Muxarabi (Supernova Editora). E-mail: munayousef@gmail.com
ausento-me do teu silêncio
da folhagem áspera
da angústia
forjar enganos
em contraponto ao vazio
sobrepele
descasca
o fulgor na cama
nos lençóis
um pretérito mais que perfeito
ouço tua boca
no murmúrio daquela noite
II
luz decomposta nas lacunas
dedos infligidos
unhas cruas
na boca
me pertenço em palavras
as palavras depõem contra o coração
que cala, assume os verbos inativos
as palmas voltadas para baixo
papéis, tropeços, letras
me desfiz em nada
tudo é único
nos móveis o pó
na amargura o gelo esvazia
em palavras
***
Solarius
entre escolhos
o retumbar de cornetas-buzinas
mármores, bronze e concretos
fundidos no nada
escadaria belas artes
a florescer em você
matronas urbanas recolhem o sol
salgado
as vigas, pilares conduzem
a um remanescente dia
na voragem cotidiana
deslumbram-se rostos cinzentos
***
Azuis
da outra margem do mundo
apaguei a paisagem de dentro
coube um olhar cinza
o arrastar de coisas intempestivas
a vida finge
absoluta no cálice
um tempero de sangue
nuvem coalhada
esquecimento fora do prazo
e os olhos aguardam azuis
segredo
***
Rescisão
Era um livro
Eram páginas movediças
Eram dedos em descaminhos
Eram trechos descosturados
Eram tão jovens
Eram a prova do todo
Eram o início da noite
Eram o fim do dia
Eram o sopro grifado
Eram o resto das cinzas
***
A porta
ouvia a batida cadenciada na porta
cansada de recolher cadáveres na geladeira
alfaces escuras
carnes e frangos podres
cheiro de morte malpassada
persistem nas batidas
alguém reclama do outro lado
tapo os ouvidos do corpo
não aguento o espanar de dúvidas
a família junta-se aos cadáveres amontoados nos quartos
a matriarca morreu
quem sentirá falta do café fresco
do arrastar de chinelos
armazenei as mágoas roxas
o prazo foi embora
não permitem o saque dos links de felicidade
deixo que continuem a bater
e mantenho trancada a in-solidão
“Como titereiro, no silêncio, brinco com as palavras na composição de textos. Estanco na fronteira do real e da ficção, e esvazio de todo eu através da escrita.” Ingrid Morandian publicou: Água Terra Fogo Ar – Crônicas elementais, Ed. Uapê, 2011 – História intima da leitura, Editora Vagamundo, 2012 – Revista Plural 1900 e Revista Plural La barca, 2016, Ed. Scenarium Livros Artesanais, Senhoras Obscenas, 2016, Editora Benfazeja, Revista Mallarmargens.
Um geômetra dos sólidos, vago
gira, embaraçado
à linha, ao diâmetro da carne:
suas figuras vazadas de plano e espaço.
Não vê a mulher, a ruína
a doce espádua nua e coruscante
das que copulam
as sete luas que lhe fulguram o pescoço.
Ela quer o testículo, o seminal
o esfero contíguo e providencial
das Causas Primeiras
transubstanciado.
O colo ungido em ceia mística.
***
brasil
A rã do ar invertido
de teu nome não salta:
coaxa como rãs, anãs
a fêmea muda que não coaxa
a língua longa que não alcança
o acento, o inseto, o insulto.
Teme o enxame, órbita-cócora
de brejo em brasa:
sapo sapa sepo
ipiranga tímida que não asa
itininga fúlgida que não flora.
***
ófris
do aéreo ao mediterrâneo
sibila a orquídea
seu voo de sépalas.
também a palavra
tem formato de moscas
e zune
sibila em sépia poesia tinta
sua escritura rumorosa:
asa-fulva-flor
de céu interior.
***
ceifa
não pinta tanto o lábio
a morte desfaz a boca, a cor
a escarlata do fruto
o rosa encarnado nos sexos
cuida da mortalha, do feno
a vida, bem se vê
não é uma gramínea
de flores nuas
abertas ad infinitum
arranca, do quadril
o colar de absinto
***
outono
arde em folha
seus degredos:
casco fóton salso
ulvas-vulva
céu sargaços
quisera do amor
a mão sobre o sexo
a textura do véu
a blusa florada
o indie folk de sais
renascidos ares, abril
onde a pele propulsa
encardida
e a tudo o sol ilumina
***
tear
meada
entre
meada
o algodão em flor
gosma, do liço
seu amarume
de estames
Iolanda Costa (Itabuna-BA), graduada em Filosofia, é arte-educadora e especialista em História Regional. Editou, artesanalmente, folhetos de poesia “Às Canhas as Palavras Realizam Mil Façanhas” (1990), “A Óleo e Brasa” (19991) e “Antese” (1993). Tem poemas editados em jornais, antologias, revistas eletrônicas e blogs. Participou do Livro da Tribo (2013). É autora de “Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento no Cotidiano Itabunense” (2000), “Poemas Sem Nenhum Cuidado” (2004), “Amarelo Por Dentro” (2009), “Filosofia Líquida” (2012) e “Colar de Absinto”, no prelo. Coordena a Coleção de plaquetes “Pedra Palavra” (2012 -2017).
não sei se sei, serei
no fim, talvez, eu seja
concreta o que não sei
sendo, melhor, o que nunca pensei
sem passado passeio nas paisagens das surpresas
sem futuro flutuo nas justaposições dos agoras
às vésperas d’um acontecer
sou tudo o que não foi.
***
Pele, à flor da carne
o vazio
no torso da poesia, o infértil
rubra vastidão de boca surda
rouco vão de olhos mudos –
a pele
à flor da carne do cerne do
excesso
quente doce inacabada
certeza do nada
quente doce inebriado
certame do tudo
um parto rasgado de vício
viço e delírio.
***
Ontens afins
uma vida curta
para dias longos
sonhos selados
para destino sem rédeas
a realidade me atravessa
num tráfego de segundos
sentidos me atropelam
sem defesas nem definições sigo – às cegas
não mais espero respostas
respondo as perguntas que me interrogam
todo o agora me define
todo o depois me duvida
todo o antes me recorda
todo o futuro me esquece
sou ontens afins de hojes infindos.
***
Já não sinto
já não sei mais
já não sinto quem sou
já não sinto quem soou
sou corpo que chama
suo poros em chama
sou inteiro alma queimando
na pele, em toque, o arrepio
na pele, em frio, o calafrio
na pele o fogo – (a)brasa viva
já não sei mais
já não sinto quem sou
já não sinto quem soou
já não sei dizer
o que sou
o que soou
onde estou
o que sobrou
de mim mesmo acabou
acabou de acabar
foi embora pr’um mundo imenso
o mundo intenso da tua alma
um mundo onde imerso emerso em mim
peno sem tua doçura
peno sem tua ternura
te preciso como cura
te preciso como escudo contra meus eus fantasmas
te pertenço inteiro pra me pertencer em parcelas suaves
sem ti não sou comigo
contigo sou inteiro
sem ti sou metade ignorada de mim
contigo meu sentir não mente
sentimento em suma transborda:
bordando em mim o amor que me salva com glória.
***
Pecados líricos
quero-me
embebecer do não sabido
pecados líricos – benditos
verbos versos vícios
ilícitos líquidos explícitos
quero-me
embebecer do não sabido
pecados líricos – benditos
sedes súbitas
securas sólidas
alma insana
que nunca me nega
um verso santo
: milagre de um peito morto
ateu na santidade – atado no amor sacro
que me salva das misérias interiores.
Nayara Fernandes nasceu em Teresina, PI, em setembro de 1988. Tem poemas publicados nas revistas Germina, Alagunas, Mallarmargens, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times e nos sites LiteraturaBR e Livre Opinião – ideias em debate. Participou da coletânea Quebras – uma viagem literária pelo Brasil, lançada em novembro de 2015.
da mesma matéria
de que são feitos
os domingos
– tédio e vapor em pedra-sabão –
compunha-se a espera
num gesto mais
branco
***
DE UM CALENDÁRIO
as coisas, depois, têm o tamanho da bagagem.
cada um sabe o peso das alças, a medida do que
escorre. e comungam, além do instante e das
coordenadas, a dose de um tédio que rumina e
aprende a doer,
depois.
primeiro, as coisas morrem.
***
BENFICA
das guerras que sempre respiram
em algum lugar do mundo,
pousa aqui este
atrito
contra a tarde pronta para
esmurrar meu abraço
na lembrança de você dizendo caminhar
por uma cidade
desconhecida é tomar a vida
de alguém,
emprestada,
contra a luz (e seu monólogo,
esta milonga), esta
bela infelicidade a jogar
ligue-os-pontos
com cumeeiras, árvores
e sombras do bairro
unidas sem voz
como em uma
língua
de estátuas
***
NADIR
uma vez no terraço do plano mais erguido
(céu e teto justapostos)…. da graça
você desce um degrau
até a próxima nuvem, e sem que perceba …………………..o chão se aproxima
a viagem vertical
….corta o arranha-céu ….atravessa o solo ….no eixo negativo ….do inframundo
sonho abaixo
em
mácula anátema opróbrio vendeta
doença vileza repulsa infâmia
fel ira joio malícia dissenso
flagelo mania engulho falência
e quando não for mais possível
— baque seco —
significa que você chegou.
este é o grau zero da queda.
agora comece a cavar.
***
BABEL
dentro da pós-verdade
rostos geminados
sorriem (saliva e
peçonha
) apontando a culpa da vítima
a culpa pós-
morte
cozida por indicadores em riste
na longa noite
dos amoladores de facas.
dentro da pós-verdade ainda
o pós-trabalho: a rês livre
para os negócios
(as cláusulas e caminhos
do abate).
agora pós-tudo
a legião de pais da velha família
vomita em novilíngua
a redução de um país
ao plural de pó
***
MINHA SOMBRA E EU
1. tropeçamos muito – isso
não é engraçado.
2. gostaríamos de menos luz
ou nenhuma:
ela também precisa dormir.
3. desconfiamos de romances
de formação ou do fim
da História, mas estamos
esgotados
demais para debater.
4. adoramos, sem razão
aparente,
bancas de revistas
padarias
e aeroportos.
5. ouvimos nossa tradução
simultânea
mesmo que entre o
vão das vozes algo
escape para nunca
mais.
6. preferíamos afastar a
intimidade forçada (creio
que a ela incomode
que meus gestos sejam
sempre
spoilers dos seus).
7. continuamos sós.
8. também não sabemos
bem
o que fazer
com os nossos mortos.
Diego Vinhas nasceu em Fortaleza/CE em 1980. Publicou os livros de poemas “Primeiro as Coisas Morrem” (2004) e “Nenhum Nome onde Morar” (2014), ambos pela editora 7 Letras (RJ). Coeditou a revista de poesia GAZUA e organizou a antologia “Meio-dia: alguna poesia de Fortaleza”, publicada em edição bilíngue pela editora VOX, de Bahía Blanca (Argentina). Participou de diversas antologias no Brasil, EUA e Portugal.
Tenho pedido a todos que descansem De tudo o que cansa e mortifica. Mas o homem não cansa.
Hilda Hilst
I
Se me disseres, amor, sou teu sonho.
Dir-te-ei, rema, ardor, entre os olhos.
Pois o canto que cantas é efêmero.
E o que sou é estandarte do sol.
A crescer frágil e rígido.
A rasgar os votos sagrados.
Entre a ruptura dos galhos.
Repara no que te digo.
Se me disseres: voa, sou teu laço.
Fugirei hoje mesmo, desertora.
Pois onde amo, não caibo.
Pois onde vivo, não meço.
Vaga, eu te vago.
Vaso do vazio.
Pureza do perene.
Um adeus inerente.
***
II
São hemisférios os meus olhos.
Ainda que crepitem os séculos.
Ainda que naufraguem no presente.
E não posso adiar o amor que sinto.
O amor suporta o peso corpóreo.
Atravessa a pobreza, o ódio, o abandono.
Abraça o que se renega.
Conduz o que não se mede.
À sombra de uma árvore, resistimos.
O amor e eu. No coração que é vertigem.
Em vias remotas e poeiras estelares.
Tudo é afinal, indiferente.
Porque não posso adiar a vida.
***
III
Divino Nada.
Toca-me o espírito.
Como o fugaz sopro da morte.
Como se o tempo fosse vida.
E o futuro, minha sorte.
Apresenta-me: desfecho.
A inacabada via.
Oferenda terrena.
Inevitável meio.
Divino Nada.
Salva-me o corpo
Em linhas versais.
Sela os segredos
Fluindo silêncios,
Abismos minerais.
Preposições são cantares,
No princípio da imagem.
Tu, fascínio em milagre.
Por campos lacunares.
O vasto total.
Amiúde, o haver nos restará.
O haver em branca transparência.
Construções em pás de silício.
Gravuras que se entrelaçam.
O oco fundo, Divino Nada.
***
IV
Tem sido de manhãs tecida
A minha sombra.
Sutilíssima na luz.
Translúcida nos olhos,
Em meu exíguo espaço.
A vida: plena.
O viver: insuportável.
Ou és carne ou és embaraço.
Sulcando os desvios do sangue.
Uma vida esculpida de sonhos.
Como foi que aprendemos a ser?
O perecível costura o presente.
O imperecível é paisagem da mente.
***
V
Porque o meu universo
É um todo de palavras
Golpeando o estado da fome.
Boca-alaúde de sentimentos.
Fino contraste do instante.
No desgaste do som,
Atemporal intempérie.
Na membrana diária,
Vendaval de mistérios.
Pelas lacunas do céu,
Tessitura da morte.
Minuto-terra em espumas.
Entre salmos: fleuma.
Entre braços: feixe.
Porque o meu universo
São pálpebras em corais.
Desde a língua.
Saltando melismas.
Sou um inteiro.
***
VI
À memória de Allen Ginsberg
O peso do mundo é o peso do sonho.
Sob o fardo do amor,
Sob o feitio da ilusão.
O peso do mundo é um fator irreal.
Sob o feitiço do perverso,
Sob a finura do convexo.
Mas quem de nós poderá negá-lo?
Se a leveza é invenção abstrata.
Se a natureza é limite brutal.
Paraísos movem-se mais adentro.
Peregrinos progressos rarefeitos.
Moléculas de uma frágil história.
Em céus que desabam, petrificados.
Pois nenhuma elucidação, América,
Há de salvar-nos.
Nenhuma religião, Kaddish,
Será poesia.
Nenhuma dor, atemporal.
Mariana Basílio é pedagoga, mestre em Educação e poeta. Atualmente cursa pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura. Autora dos livros Nepente (Giostri Editora, 2015) e Sombras & Luzes (Editora Penalux, 2016), versa no presente os dois próximos livros, Tríptico Vital (3º lugar ProAC 2016) e Megalômana. Tem entrevistas e poemas publicados em revistas do Brasil e de Portugal, como Inefável, Limbo, Raimundo, Garupa, mallarmargens, O Garibaldi, Germina, O Equador das Coisas, InComunidade, Oceânica, Vida Secreta, alagunas, Plural, entre outras.
vi deus pendurado nos ganchos de uma palavra
eu não distingui a palavra em que vi deus pendurado
eu não suspeitei que a palavra fosse uma espécie de deus
prestes a cair, como se fosse
deus.
eu não fiquei cego ao perfurarem-me o olho
eu não percebi o meu olho ao tateá-lo com o outro
eu não suspeitei que esse olho fosse uma espécie de deus
prestes a me pendurar, como se fosse
deus.
***
travessia
se a
câmera
da tua pupila
fosse um braço em direção à água
o olho esquerdo
em intervalos
de colinas
abriria a pálpebra —
………………………..ao meio.
***
poema
o avesso da tua voz não constitui um corpo
a origem da tua voz não reencontra o espírito
a beleza da tua voz não petrifica o músculo
a potência da tua voz não é ainda um sopro
o resíduo da tua voz não acumula rosto
a lacuna da tua voz
***
autorretrato com seio à mostra
o vestido deslizando
pelos ombros
insinua
………pano.
***
jurisdição
depois de cruzada a fronteira,
fuzilem a todos, um a um.
mas antes, meu deus, antes, reajam
praguejem destruam! não permitam, deus,
que morram
em solo estrangeiro.
***
poema metaescrotal
deus
e o diabo
farinhas
do mesmo saco
***
óbito
hoje a boca amanheceu
cheia de formigas
cada qual com um pedaço
de letra por sobre
a cabeça miúda
levavam toda palavra
na ponta da língua
garganta adentro.
***
outra vez tatear a terra
à procura dos óculos
que não mandamos fazer.
Vinícius Mahier é graduando em Letras pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), com ênfase de pesquisa nos estudos de literatura e globalização. Publica seus poemas no blog No passeio íntimo, além de textos em jornais e revistas. E-mail: viniciusmahier@hotmail.com
Ele me invade, árcade selvagem!
E lança suas mãos ávidas sobre
A minha pele de avelã madura,
Sobre a minha casca de aroeira.
Abeira-me de abismos e abis.
Toca a minha pele de tâmara –
Qual trovador em cítara –
Matura o tempo do meu luto
E engravida-me de avencas.
Vejo-o mascar nêsperas de esperas
Para ver a flama do meu Desejo.
Vate do Alentejo!
E eu, que tanto tramara muros,
Furto seu nome que
– de eloquência e loquacidade –
Excitara precipícios de manhãs
Em minhas planuras de Poeta.
Entanto, nada me alenta!
E, ao relento, clamo por seu epíteto,
Eu, bastarda pantera de pântanos!
Contemplo-o aliciar palavras
Que serão doadas ao meu Oratório!
Ao meu templo de dispersões e cordilheiras.
Manifesto a minha Divindade
Em protestos de fúria.
Eu, toda feita de ínsulas e rudezas,
Uma ilhoa sacerdotisa
A cultivar papiros
No Oráculo de Sapho.
Vejo o meu Vate
Assistir ao itinerário da trepidez da Mulher
– toda eu!
Que tremula em sua presença.
Tocada pela arquitetura dos seus gestos
E pelos alicerces e declives
Da palma da sua mão.
A mesma mão que alimenta o gado
E que me alivia a fome,
O estado de viuvez
E de ausência.
Segundo Movimento
– Vem, Adusto!
Consome meu ventre
E adentra meus poros!
Sê justo, derrama teu sêmen
E tua semeadura de Servo
Sobre as minhas alfombras,
Sobre os meus alfarrábios,
Alforrias, o meu tratado de veias,
Tramelas, arcas, eras, heranças e plagas.
– Enterra a tua fidelidade de Sáurion
Em sarcófagos da memória.
Eis-me toda cômoros
E comoção de cavidades,
Toda inumação de abrasamentos,
E de brasas.
Toda inumação de archotes de vontades acesas.
– Grado!
Assim, chamo-te, pois há muitos nomes
Para te ocultar da avidez das mulheres
E da sordidez tirânica dos homens.
Eram tuas, Grado, as candeias,
Os candelabros, os candeeiros
Que arfavam luzes sobre os nossos pelos
E sobre as nossas bocas desmaiadas,
Ante os cânticos de Salomão e a sapiência da Rainha de Sabá!
Naquele campo noturno das avenas,
Fizeste–me revelação de árias e templários.
Desvelaste, em anunciação de mistérios,
Sacros nomes: Baobá, Barriguda, Imbondeiro!
Desses tempos, Adusto, tenho feito minha homilia,
Minha hóstia, minhas oferendas.
Meus sacrifícios de animais, de sangue,
De penas, de mortes e de vidas.
Sulcos rompem meu corpo
E, nauta e louco, o teu olhar
Ainda imprime em mim desígnios
De fome e tormentas!
– Gótico Senhor dos Passos,
Senhor dos meus Vestígios,
Senhor dos meus tormentos de Escriba!
Vem, criva-me de cravos, bromélias, anêmonas!
Vem, criva-me de fados, fandangos, fagotes!
Em Carcassone, Árcade Selvagem,
Quedam-se meus burgos.
Abro minhas defesas para tua epiderme,
Tu, verme gentil que me consumiste a pele,
Entrego-te ânforas onde armazeno
Aromas e câimbras de amores pretéritos.
– Adusto, vem!
Aporta novamente em minha Casa
E anula qualquer nuança de presença alheia
Em meu leito, em minha alcova
Ou no rocio que cerca o meu terreiro.
Pousa teus olhos sobre o meu Universo,
Pois, tudo que o teu olhar toca
É-me sagrado!
E ganha magnitude de Eterno.
– Não vês?
A minha pele fez-se imortal e casta.
Temo levitar sobre as evidências do mundo.
Temo levitar – em observância – sobre o teu cotidiano apaziguado.
Temo realizar milagres de peixe, vinho e pão.
Temo hipnotizar bússolas, ponteiros
E as translações da terra!
Temo tornar-me nociva ao mundo, às marés
E aos ciclos eternos da Lua.
Tamanho é o meu poder de fêmea tocada.
Sinto-me Harpa destinada a te conduzir,
Enfim, de volta, àquele sítio onde só há
Desejo.
Rita Santana é atriz, escritora e professora Língua Portuguesa na Rede Estadual de Educação do Estado da Bahia. Em 2004, foi uma das premiadas no Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos Tramela. Logo depois, o seu livro Tratado das Veias (poesia) foi publicado pelo extinto selo Letras da Bahia, em 2006. A Editus publicaria o seu Alforrias (poesia) em 2012. Participar da antologia Outro Livro da Estante organizada por Herculano Neto e publicada pela Mondrongo em 2015 com o conto Ondas, Trânsitos e Trilhos, além de ter o seu poema Adusto na revista organismo, organizada por Ederval Fernandes e Alex Simões.