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99ª Leva - 02/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

sentimentos gravados

 
meu coração é de pedra
porque o que nele se escreve
não se apaga
………………ou, para tanto,
precisa de muita água
…………….muita água da rara
da fonte dos olhos
que mine, escorra e lave,
………lave,
…………….lave
até que gaste
………………..o escrito
e reste menos uma camada
………………….volte a ser liso
…………..como em meu primeiro dia
e possa ser reescrito
………………………..em pedra
com esperança de ser definitivo
pois a cada vez que é polido
meu coração fica menor
…………………..e
……….inscreve
….diminutas
..palavras

 

 
***

 

 
o mesmo

 
eu quis renascer.
deitei em posição de feto,
mas não adiantou.

já não caibo mais
no ventre

já não tenho mais
a permissão
da inocência

não consigo
sequer
prolongar o sono

estou cheio de dentes
e de fantasmas

 

 
***

 

 

chronos e kairós

 
a segunda estrofe
lê-se como se vive:
em um segundo

breque
capô
……para-brisa
………asfalto

a quarta estrofe
vive-se como se crê:
o tempo de Deus

Nenhum dos seres
está esquecido
diante de Deus.
E até os cabelos
das nossas cabeças
Estão todos contados.

 

 

***

 

 

matéria e antimatéria

 
eu sou assim
porque o mundo ingrato me cuspiu assim
seco, direto,
………….irônico quando preciso
sarcástico ou perscrutador

se foi a conjuntura cósmica
………..eu não sei
o fio de prata, o espírito,
a fumaça lânguida baforada

mas tenho a impressão
de ter trazido comigo
esses sentimentos extremados
essa angústia inafastável
e algumas coisas mais
………..que não compreendo

 

 
***

 

 

primeira impressão

 
as ditaduras se nutrem
da hegemonia

entre as mais cruéis
……..a da cultura

ervas daninhas
………………….trepadeiras
enramam
…………..sobre nossas cabeças

tirania maior:
…….a sombra
…….do conhecimento

aplicam:
quem pouco lê,
ao ler o primeiro livro que o impressiona,
toma-o como dogma

 

Geraldo Lavigne de Lemos é natural de Itabuna-Ba e radicado em Ilhéus-Ba, bacharel em Direito e escritor, membro da Academia de Letras de Ilhéus. Em 2011, publicou o livro “À Espera do Verão” (Mondrongo), inserido na série Diálogos. Os poemas aqui selecionados fazem parte dos seus novos livros, “Alguma Sinceridade” e “Amenidades”, ambos lançados pela Editora Mondrongo em 2014.

 

 

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Janela Poética IV

Márcia Barbieri

 

Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

O desencaixe do Sol

 

Há milênios a pedra descansava embaixo do seu nariz
sem desgaste, sem musgo, sem vinco,
uma memória esquecediça
Mas Estela estava ocupada demais
desacoplando seus membros
Desencaixava pacientemente peça por peça
Levantava e abaixava as pernas
Escutava atenta os ruídos da rótula
Escondia os olhos das luzes da tarde

Eu a observava da janela verde e seu corpo não passava
de uma carcaça adormecida pelo tempo
Ela repetia esse ritual todo domingo
O crânio era deixado em cima do ventre vazio
As bifurcações do cérebro eram confundidas
com os pensamentos
Ela continuava lindamente viva

Tentei alcançar sua mão, no entanto, eu era só um velho
Pelancas despencavam das minhas extremidades
E a carne de Estela não possuía nem riscos
nem linhas nem ranhuras
Sobre a cabeça de Estela repousavam nuvens,
Sobre a minha, pássaros moribundos de origami

Há milênios a pedra descansava embaixo do seu nariz,
Sem desgaste, sem musgo, sem vinco,
uma memória esquecediça
Estela sussurrava para seu crânio
Haverá um tempo em que a pedra será irmã do homem
E toda substância disputará um sol sobre a mesma pele

E eu gaguejo para Ninguém:
Não creio na onipotência da pedra
não creio em neutrinos
não creio em quarks
não creio no bóson de Higgs
não creio na nanomemória das coisas
E ainda assim a existência enferruja
igual a um parafuso espanado.

 

 

 

***

 

 

 

Não sou homem
sou uma matilha
dividindo-destroçando o mesmo fêmur

Não sou nem esse lobo
que crava os dentes no osso
nem esse osso perfurado
estou entre um e outro
sou essa membrana, essa baba branca, esse órgão acoplado,
essa partitura de mandíbulas desencaixadas
– caótica e ruidosa.

 

 

 

***

 

 

 

Escamas

Ressoa a pele verde e incrustada de mágoas – clave de sol –
um verme se espreme entre as circunvoluções do meu cérebro
Respiro aliviada porque meus pelos têm a cor dos cachorros magros
Respiro aliviada porque minha alma tem a candura das tardes longas de solstício
Respiro aliviada porque minha boca perdeu o fel de antigamente.

A língua salivante de lagarto passeia abstrata nas minhas gretas
Geme meu quadril curva desalinhada
Quero desentristecer
mas olho de soslaio as venezianas
e vejo-me encarando seu sorriso entre muralhas.

 

***

 

Manhãs em migalhas

Só por hoje
Rasgarei meu peito
E arrancarei flores de vidro,
pássaros de origami e velhas mágoas

Picaretas dançam entre minhas vértebras
E eu toco calma a flauta de MAIAKÓVSKI
Nunca acreditei que gangrenas devorariam meu corpo
Pedaços de sorrisos caem desconexos da minha boca
E eu que imaginei morrer um dia de cada vez – Morte Súbita.Sair

Caminho sobre os muros e observo pipas
Losangos e ilusões em perfeita sintonia
O sol explode amarelo em minha mente
E eu penso: deixa-me tocar os lírios – Só por hoje…

 

Márcia Barbieri é paulista, mestranda em Filosofia (Unifesp) e formada em Letras (Unesp). Publicou os livros de contos Anéis de Saturno, As mãos mirradas de Deus, e os romances Mosaico de rancores (no Brasil pela editora Terracota, e na Alemanha pela editora Clandestino Publikationen) e A Puta. Participou de várias antologias e tem textos publicados nas principais revistas literárias.

 

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Janela Poética V

Marcelo Benini

 

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

 

Fazenda de cacos (o tempo)

Andemos perdidos por esses campos de flores
Onde a pele roça as pétalas no caminho estreito
O semeador de cacos fez um bom trabalho aqui
Nós, os desfigurados, corremos livres pelas plantações
Pisamos as pontas lavradas pela chuva
A mulher velha se abaixa para colher um souvenir
Em cada casa há um jarro com uma flor da fazenda
Belo mesmo é quando as gotas represam nas arestas
Onde o sol faz seu trabalho de secagem
E a plantação extensa ofusca os olhos
Miríades de pontas verdes, vermelhas, amarelas e azuis
Mar de coisas que já foram obra e adorno
Mas que na próspera fazenda agora semeadas
Aguardam a colheita diária dos cacos.

 

 

***

 

Fazenda de cacos (o trabalho)

Nas primeiras horas da manhã
Chegam para trabalhar os colhedores de cacos

Vão aos poucos silenciando

Enquanto trabalham
Permanecem com os olhos no chão

As rudes mãos escarafuncham a terra
Colhendo flores hialinas azuis, verdes e róseas

Sob o sol a pino se vê um mar de cacos
E alguns homens curvados com os olhos no chão.

 

 

 

***

 

Funcionária pública

Ninguém entendeu quando a moça da seção
Começou o concerto para piano número 3, de Prokofiev
No meio da tarde só ela ouvia clarinetes e violinos
Batia os dedos violentamente no teclado
Tremulando a melodia nos lábios
E jogando os cabelos no ar
As cortinas esvoaçavam na janela
Não houve pausa para o café
No dia seguinte os processos publicados no D.O.U.
Estavam todos em russo
E a moça digitava feliz uma carta de amor.

 

***

 

A caminho da luz

Arrancaram tua roupa de carne
E já não tinhas mais corpo

Eras apenas um olor de jasmim
Perambulando sem pressa

Foste visto no bar de sempre
Mas para espanto de todos
Pediste apenas que te deixassem em paz.

 

***

 

A vida dos obscuros

Os obscuros entram em casa pela fresta da porta
Instalam-se perto dos livros
E só saem às três da manhã
Os obscuros estão sempre atrás das portas entreabertas

Ao moverem-se pela casa
Sabemos que o fazem, pois ouvimos o ruído dos tacos
E muitas vezes sentimo-lhes a respiração
Sobre nossas costas

O tempo todo parecem observar-nos do escuro
Diverte-os que pensemos em coisas como
Vidas passadas

Os obscuros têm a respiração lenta e profunda
Adquirida em incontáveis noites nas bibliotecas públicas

Os obscuros podem ser vistos apenas durante o dia
Sentam-se normalmente na parte de trás dos ônibus.

 

***

 

Quadros em exposição

É sempre noite neste quarto
Onde se cometem crimes de adultério
Mas se da mesma insegura certeza somos feitos
Quem de nós fechará primeiro os punhos?
Se já sabíamos das paredes de caliça
E dos pesados retratos em exibição
Pranteemos não as ruínas
Pois como as tintas derramadas sobre o cômodo secreto
Os laivos também perdem força
Lamentemos apenas a exaustão.

 

Marcelo Benini nasceu em 1970 na cidade de Cataguases, Minas Gerais, e hoje vive em Brasília. Lançou seu primeiro livro em 2010: O Capim Sobre o Coleiro (poesia / edição do autor). Em 2012 lançou O Homem Interdito (crônica / editora Intermeios – SP). Foi publicado na Alemanha pela fundação Lettrétage, na antologia Wir sind bereit. Tem poemas e crônicas publicados em diversos sites de literatura do Brasil, América Latina, Portugal e Espanha. Em 2014 lançou Fazenda de Cacos (poesia / editora Intermeios–SP).

 

 

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99ª Leva - 02/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Ana Farrah Baunilha

 

Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

falta

 

quase morro (e não vejo tudo) tenho uma síncope uma febre delirante culpa dessa fome uma fome maior que a do jejum uma secura desértica que é sede de gente um oco buraco negro que ultrapassa a borda desse corpo o meu tão incompleto e aleijado sobra de vazios e partes faltantes (o corpo do outro) pra tapar o sol das minhas carências todas com uma peneira mais que furada.
Eu não me basto.

 

 

 

***

 

 

 

odisséia para diacov

 

Ela diz ser ela mesma. Ninguém acredita mais.
Acordou, se olhou no espelho e percebeu-se de ser ela, sem surpresas.
Mas aconteceu de ninguém mais lhe acreditar.
E já nem os documentos lhe creditam identidade. Perdeu-se.
Sabe de si. Sabe bem quem é, de onde veio, de quê se alimenta.
Os outros é que duvidam…
Em crise de identidade, questionou
as próprias
digitais.

 

 

 

***

 

 

 

Eu me mostro assim, um tanto,
por ser tão
fratura exposta
a me sangrar toda
é a minha verve
assim, de se esvair
tenho pressa, sou urgente
derrame sem estanque.
Agradeço a ti, pela coragem de ter
andado por aqui
sem se cortar.

 

 

 

***

 

 

 

praga

 

eu vou estar na costura do teu bolso,
na barra daquela calça
no desfiado da bermuda que nunca arrumei
dentro dos teus potes de becker
na ferrugem da furadeira de mesa
no furo aberto da acetona
na composição do nootrópico
na semente da Argyreia
no rasgo da orelha do gato
no estrago da mesa de plástico
na unha torta do teu pé.

 

 

 

***

 

 

 

a vida arranha,
esfola a gente
esfrega nossa cara
no asfalto e depois
abraça, limpa, cura

 

 

 

***

 

 

 

um abuso
a minha gargalhada
o meu escracho
a minha indiscrição no falar
um escândalo
a minha roupa, o meu batom
meu jeito de andar

acham tudo muito chocante
[eu dançar sozinha sem música chega a ser um ultraje!]
a falta do sutiã, minha fome de dragar
o esquecimento das unhas
a exagerada alegria

me querem como zumbi, igual a tudo
ao meu redor
morto, tristemente morto
irremediavelmente

sem graça.

 

Ana Farrah Baunilha é gaúcha da leva de 81, ano do Galo. Leu muita bula de remédio, vê poesia onde não tem e escreve desde sempre. Escorpiana caverninha, tem um autismo brando. E isto avança.

 

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99ª Leva - 02/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Luciane Lopes

 

Arte: Alessandra Bufe Baruque

 

esquizografia

 

saia por escrito
como se nada
valesse mais
do que a língua
sem concordância
verbal – entre as partes –
se a arte arrebenta feito
um pássaro suicida
sem medo do escuro
sem medo das mulheres
sem medo dos pássaros
saia por escrito
como se nada
valesse mais

 

 

 

***

 

 

 

ora

na verdade
sou um caramujo
eu já fui outras coisas
interessantes:
calcinha, genuflexório
mancebo, guardanapo
todos os apelos passaram
– pelo meu corpo –
ainda guardo marcas
joelhos, bocas, sexos
perdi meu olho direito
numa passagem bíblica
mas o escândalo maior foi
me tornar caramujo

 

 

 

***

 

 

 

sumo

todos os meus
acertos foram aflitos
até o último gole
(até quando morri
em agosto)
todos os meus
sotaques doeram
defeitos
e todos os meus
seios – numa boca só –
sacana é a vida que
te espreme num canto
e te come
miúda

 

 

 

***

 

 

 

dócil

eu brinquei no
labirinto do teu corpo
fui fiel em todas as
entranhas
errei – ao desdenhar –
o passado é um cão
valente, sem coleira

 

 

 

***

 

 

 

o que ela imaginava

ela nunca viu
amores de perto
– vendo um filme
comendo pipoca
e se beijando na boca –
ela imaginava que o
beijo engolia a alma
e que no meio das
pernas das mulheres
havia uma passagem
– secreta –
ela achava que era
coração aquilo
que latejava

 

 

 

***

 

 

 

taurina do primeiro decanato

ela nunca vai
embora
– parece vigia
noturno –
senta na soleira
do mundo
e observa:
saturno
amansar
o touro

 

Luciane Lopes é poeta e letrista, nascida em Mirassol, interior de São Paulo. Seu primeiro livro, “A casa dos sentimentos” aguarda oportunidade de publicação. Escreve diariamente nas redes sociais. Suas poesias já foram publicadas pela revista eletrônica Mallarmargens e também no The São Paulo Times (coluna Poesias para Sexta- Feira) Poética Urbana.

 

 

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98ª Leva - 01/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Neuzamaria  Kerner

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

Contenda

 
Eu remo.
Em algum canto hei de chegar.
Meu remo
……….chicote que espanca o mar.

Remo e navio navegam
Sobre um mar que é sem fim.
Remo e navio disputam
………..quem navega mais em mim.

 

 

***

 

 

Movimentos

 
Minhas tempestades
não são cerebrais
– são na alma…
chego a sentir
o meu corpo estremecer
todos os dias
a cada disparo do céu!

 

 

***

 

 

Como Tantos…

 
Como tantos
luto para aceitar a carne
que recobre o meu espírito.

Como tantos
canto mantras para a Lua
que de longe, silente, me escuta.

Como tantos
vivo entre eus e eu…
e como dói viver
num mundo que não considero meu!…

 

 

***

 

 

Eva

 

“Não é bom que o homem esteja só;
far-lhe-ei uma auxiliar igual a ele.”
Genesis 2,18.22-24

Disse a Ti um dia o sim.
Disseste a mim: tu és mulher!
Bênçãos me deste
e em todo o teste a mim imposto
saí vitoriosa.
Até reinei num paraíso…
Pueril, a todo tempo mostrei riso
e nesse riso me fiz rosa.
Explorei o chão que me foi dado
vi tudo o que ali havia
provei até do que não podia
– não me fora permitido provar.
Tu
Temendo o desabrochar que me possuía
disseste: “pecadora, vai embora,
não serás mais a senhora
do jardim que preparei!”

Aquele momento de queda
eu nomino salvação para as minhas
descendentes, insubmissas, conscientes,
sacerdotisas guardiãs da fábrica da vida
– presente sem medida para o mundo do
amor.

Tua cria – Te louvei
Tua alma habitando em mim.
Me deste o conhecimento
da bondade, da malícia, da perícia em parir.

Não carrego culpa ou dor
dentro ou fora do jardim,
posto que onisciente
me soubeste pura e sã,
e eu Te sei meu conivente
no episódio da maçã.

 

 

***

 

 

Jogo

 
Jogo com palavras
e elas comigo
no eterno dos espaços.

Opção:
jogar xadrez
no tabuleiro dos textos.

Quando sonolentas e frágeis
eu nelas
…………….– xeque-mate!

Quando tomam vestes guerreiras
me aprisionam
me checam e matam!

 

Nasci no século passado com fome de palavras e até hoje vivo desse alimento que ainda me sobra para adornar o espírito de quem tem o peito aberto. O teto que me foi dado para viver é dividido com 7 bilhões de pessoas de todas as cores, de todas as falas, de todas as caras, de todos os credos; com todos os que vivem na carne e os que vivem em forma de fluido cósmico universal. Sou feita à imagem e semelhança da humanidade porque dentro de mim cabe a mais doce ou a mais vil das criaturas. Troquei, doei e recebi saberes com estudantes de vida assim com eu. De certa forma ainda vivo assim porque trocar e doar são atributos da generosidade, menos que da justiça. Dentro desse esquema (trocas, doações, recebimentos) escrevo porque na medida em que faço isso me somo e me divido neste mundo que é nosso.

 

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98ª Leva - 01/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alexandre Guarnieri

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

o átomo de carbono (i)

 
toda a vida contida numa exígua partícula,
– desdobrável de si própria –, equilibrada
sobre a mesma progressão desenfreada;
deuses ferveram-na numa caldeira aquecida
ante o clarão do big bang / cozendo-a por milênios,
lenta, nas tripas da mais velha estrela / e lá, aprisionada,
como o maior espetáculo da via láctea, além do limbo
centígrado dos organismos bioquímicos,
replicou-se a enzima de sua fina
(e elástica) matematicidade
// até que […]

 

 

***

 

 

|( os órgãos internos )|

 
\ ( persegue as vértebras a massa
dos sangues coligidos / ( dentre os quais
há indício, de que alguns ( mais ou menos
líquidos ) \ cada qual a seu tempo, distintos,
consolidem sacos do caldo biológico,
coagulados \ ( carnes que existem da diferença
entre si de seus tecidos / ( se especializaram
as células, em aparelhos e sistemas ) /
delas monta-se um puzzle cujas lacunas
se completam ) \ o corpo expande,
tanto quanto se destrói ( por escasso o cálcio )
no rígido osso que esfacela / ( conforme
a vida lhe habita, o conjunto luta
sob o mesmo pulso \ ( o mesmo insumo bruto
lhe insufla a labuta / ( plantada já
na samambaia dos nervos \ ( enclausura-lhe
a elástica amarra dos músculos / ( a obstrução
sob medida de uma única fornalha viva
) \ trocam fluidos entre si tantas partes
aparentemente separadas \ ( interno
o mar hemorrágico, apenas visitável numa
viagem fantástica / ( mas quando lhe autopsiam
a frio \ ( sangria & bisturis / ( se mostra,
um monstro sob as próprias ataduras \ (
o frankenstein exposto, que, apenas por medo
do escuro, só morto poderiam demonstrá-lo ) \

 

 

***

 

 

(| o crânio humano |)

 
compósito ósseo por sobre cujos orifícios inteiramente
desobstruídos, encaixam-se os módulos dos olhos,
narinas, da boca, e ouvidos; a tampa de louça calcinada
pelo couro (marfim fissurado sob cabelo) um trono
ocupa o topo desta cúpula; uma armadura de juntas,
parcialmente recoberta por ranhuras em cruz, pelas quais,
de sua furna interna (o antro intracraniano), escapam-lhe
tantos juízos – são pássaros em fuga deste recep
táculo craquelado; lacrado sob a caixa manchada do
crânio humano, jaz, moldado aos miolos, à forma de uma
noz que alucina e racionaliza, o gerador unigênito – razão
pela qual congelam o cérebro de um gênio –, de cada
inédita eureka, e de todas as idéias velhas, de séculos,
de décadas, guardadas em antiquíssimas bibliotecas; sob
o palato, escondida, esteve a língua quase retilínea (um
único músculo infatigável para modular todos os dialetos),
a dentição se encaixava, cobrindo-a, esta fila de lanças
fincadas, abaixo das maxilas, e na base da mandíbula.

 

 

***

 

 

[| a pele |]

 
homem-bomba vestindo roupa de escafandrista, seu
neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pêlos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat (algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras);
seus sensores de calor vigiados de uma
torre de comando, enquanto é mantida viva, (hidratado
adequadamente cada intrincado recanto)
como a máxima peça, de uma alfaiataria das mais
complexas: seria tão errado reduzi-la ao tato costurando
ao tecido apenas um, dos cinco sentidos?

 

 

***

 

 

mecânica dos fluidos

/ o suor

 

c a d a   p o r o
u m       e s c o a d o u r o
p e l o   q u a l
c a d a     g l â n d u l a
s u d o   r í p a r a
………….r e s p i r a

s e    r e   p e l e
s e u      l í q u i d o
s e    r e     m o v e
s e u           v i s g o

é     o   q u e
…….p e r         m i t e
q u e      a
……..e p i d e r m e
s e     l i m        p e
e       t r a n s p i r e

 

 

Alexandre Guarnieri (carioca de 1974) é poeta e historiador da arte. Atualmente pertence ao corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens e integra (desde 2012), com o artista plástico, músico, ator e poeta, Alexandre Dacosta, o espetáculo mutante [versos alexandrinos]. Casa das Máquinas (Editora da Palavra, 2011) é seu livro de estreia e está disponível online (no issuu.com). Publicou poemas em revistas e jornais. Em 2014, participou das antologias “Essas águas” (Org. Vagner Muniz, 2014 [ebook]) e “Hiperconexões: realidade expandida, volume 2” (poemas sobre o pós-humano; Org. Luiz Bras, Patuá). Seu mais recente livro, “Corpo de Festim” (Confraria do Vento) será lançado em breve. Email: alex.guarni@gmail.com.

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98ª Leva - 01/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Mariana Fernandes

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

Colheita

 

Aquieta-te,
ainda é tempo de molhar a terra
Das raízes ascender
para desafogar-te
em mar de espera
De pastorar os lobos
que correm em teu peito
Inundar-te do sabor afável
que é esvair-se
De amar-te
como se outra fosse
Apressa-te,
enquanto a água não seca.

 

 
***

 

Percurso

 
Premido pela falsa couraça do corpo
inutilmente domável
entre labirintos singelos

Prepara incessantemente,
em que pesem os festejos da carne,
o sumo que conduz em fragilidade
o fio da vida

Escorrem-te pelas frestas,
ávidas pelo encontro tardio,
lágrimas tingidas em vermelho ocre

Pois divido contigo o grande fardo
que me trazes a cada ausência vivida
A longa espera do silêncio absoluto
em que te firmas e consome o todo.

 

 

***

 
Sobreviventes

 

Espesso,
grita o vento a galope
envoltos de orvalho
talvez cinzas
deitamos sobre a terra
nossos sonhos

Noite densa, pungente
corta a carne, estanca a fala
no olho do silêncio
dividimos a escassez
de nós mesmos

O riso, a cólera
e o estatelar dos ossos
contra o mundo

Fomos tanto de nós

Somos outros
Somos os muros
e queremos ser água.

 

 

***

 

 

Recorte

 
Como um sopro frio
que se prolonga por tempo demais
Da tua companhia
ficaram os copos vazios, lírios
Os punhos suaves cerrados em prata
estendendo-se timidamente
à noite branda que se inicia
Adivinhamo-nos invisíveis
e cedemos em vertigem
às estrelas
do caos a complacência
da língua a mudez
dos pés o cansaço
da lucidez o desatino
dos olhos caleidoscópios
no canto da memória
giram.

 

 
***

 

 

Outra e Nada

 

Debruçada sobre
as águas de vidro,
vejo-me turva
Borrões não
decifrados em traços

Ilusionista, o corpo
Dentro do vazio constrói
a tua casa para desmoroná-la
sem alarde

Restam dezenas de mim,
mas nenhum pedaço
me veste com agrado

Não sou aquela de quem falas,
Não vejo o que vês
Fui lapidada na tua mente

Pluma sobre a água
ou pedra lançada

Que se faça esquecer
a memória de mim.

 

Meu nome é Mariana Fernandes, tenho 27 anos, nascida em 22/01/1987, na cidade do Rio de Janeiro, onde vivo até hoje. Sou estudante de Direito, graduada em Letras – Português/Inglês, funcionária pública, tradutora e ex-professora de língua inglesa. Escrevo para preencher silêncios, vazios, abafar vozes e enfeitar a realidade.

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98ª Leva - 01/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carla Carbatti

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

tremulações do azul

 
os carros e os pensamentos passam
tão ilógicos
agora demoro o corpo numa canção do Miles
all blues
bebo água viva
………………………………para fluir
………sua presença
escorre pelos órgãos
pelas avenidas
os carros e os pensamentos passam
na contramão
dobrar a esquina exige uma força extraordinária
sentir o tempo, fibra por fibra, muscular a solidão
mas eu pertenço a uma geografia frágil
às modulações de calor dos seus braços
às nuvens, aos orgasmos,
………………………………………….ao húmus, aos ismos
a todas as viscosidades e inconsistências da carne
não defino, não explico,
compartilho
o outro não é meu objeto
aquilo que digo e domino
ao contrário
o outro é o que me expande
que faz outros mundos possíveis
kind of blues
têm tons que só existem nos seus olhos:
love: agitation: tremulações do azul

 

 

***

 

 

bailarina

 

antes que eu ponha meu exército intelectual
para invadir e sitiar um texto
antes mesmo de capturar e enclausurar o sentido
o próprio texto me envolve
num exercício respiratório e rítmico
como se soltasse pássaros nas minhas artérias
como se elas
as palavras
fossem música

 

 

***

 

 

diário do silêncio: a palavra

 
[ ]: penso na primeira vez que alguém disse: palavra. o silêncio seco do seu sopro sussurrando a solidão. o cheiro vermelho do nascimento. havia um abismo pintado sobre um mapa. um espaço infinito aberto pela curva. aos poucos, os pássaros e as crianças ocuparam as praças, as esquinas e uma mulher montada num cavalo negro estilhaçou a vidraça: ¡palavra!:
inventa-me este lugar, esta distância. cria-me o mundo a partir deste vazio: [ ]

 

 

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diário do silêncio: a jardinheira

 

… então o rio. a solidão fluindo no mês de junho, em tudo. eu sei, escrever é isso, este infinito diálogo íntimo. talvez, entre uma sílaba e um desconforto, pudesse sentir suas mãos narrando o silêncio no meu corpo. as digitais desenhando nuvens no mapa da existência. o amor é uma tênue penumbra presente na película da palavra. inventou o rio e noite que molham meus olhos. por onde andávamos antes das margens e o medo indicarem o caminho? agora passam aves e frases no descampado do pensamento. dilatam o tempo, os objetos, os lugares. eu construo janela para estender o olhar e as viagens. é verdade que somos só uma tremura na entranha de deus? noite alta, vejo o vento esvoaçar a saia da madrugada. um relâmpago fugaz fulminar o verso. cato as fuligens vermelhas e deixo as azuis para os vermes. as águas da chuva iniciam seu percurso pela memória do rio.
eu remo rimo regresso, rego as raízes das plantas

 

 

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unreal letter

 

escrever a palavra cansada
o amor em cartas registradas
nos abismos da pele

trago na boca
borboletas e vermes – selados em saliva
numa caligrafia de haver reticências
cartão-postal
rascunho de poesia
viagem pro Nepal
disco do Pixinguinha

tome nota: [nasce um pedaço de eternidade]:

é preciso catar parafusos em noites de chuva
e nem me venha com sombrinha!

 

sou qualquer, carla, como tantas Carlas que há, filhas de Marias. nasci onde brilham as estrelas de Três Pontas e jorram luz até BH. disse amor e atravessei o Atlântico.  hoje habito um Campus Stellae. amo, amo demais duas menininhas de olhos acastanhados, mais brilhantes que o sol. nos feriados solto pipas e escrevo com todos os átomos. nos dias de feira faço um mapa losing steps das heterotopias de Clarice, pra isso que chamam de tese, mas eu chamo mesmo é de saltar no abismo com um verbo infinitivo nos lábios …

 

 

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98ª Leva - 01/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Roberto Dutra Jr.

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

Acaso ao horizonte
as linhas se perdem
nos homens.

Linhas
e horizonte de homens.
Homens:
linhas e horizontes
do tear.

Ao acaso as linhas cruzam-se.

A velha fiava ao sereno
linhas, horizontes e homens.
Ao cerrar-se o fio
quiséramos todos, ser
carretel.

 

 

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QUANDO FIZER UM POEMA:

 
desfiar pedras
alimentar tigres
ordenhar deles
o medo
e constelar
ar
……….a
……………….ar
o frêmito febril
em alumbramento

 

 

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JANELA

 
Preso no horizonte
eu mesmo
Não sei se te vejo
ou às próprias grades
da cegueira.

O sol se pôs
Vivi na sombra
do não ser-me.

 

 

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POEMA ÁRIDO

 
Persigo as palavras
fundo, na memória das pedras,
ruído dos pássaros.
A pele descarnada das botinas
traduzindo-se em deserto.

Quando há um poema
o deserto sou eu.

 

 

 

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NUDEZ

 
A cada minuto
perder o fio
diáfano da manhã
contemplando
sua
lânguida luz

 

 

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O PEIXE

 
não tem nome

………………………………..[o peixe]

assim o chamo
contrário à sua vontade
escorrega das mãos
a verdade de escamas metálicas
um salto apenas

………………………………..[o peixe]

pura profundidade
tudo mais é engano
infenso drama
mergulha além do olhar
longe demais – fria chama
sem voz
nada diz

………………………………..[o peixe]

flutua
essencial e inominável.

 

Roberto Dutra Jr. é um neurótico social como todo brasileiro de cidade grande. Adora literatura, mas as palavras não fazem mais sentido. Mestre em Letras, tem um livro publicado e diversos artigos de caráter acadêmico e crítico publicados. Foi editor de revista acadêmica, contribuiu para jornais e revistas literárias no Rio de Janeiro e tem um seríssimo flerte com a música. Adora gatos e poemas, que movem-se na penumbra e nunca revelam-se inteiramente.