Me acostumei a dormir sozinho no escuro
mas o silêncio é excruciante.
# …..Teu silêncio sem matéria ………..é excruciante
………..(Teu silêncio sem corpo)
# …..Sem corpo teu silêncio possui órbita …………………………..em torno de mim.
***
O mundo regira infinito
enquanto eu canto refrigérios pra acalmar
minha alma
eu desmonto desse potro-tempo
dessa comiseração que são as lembranças
são esmolas
e me deixo acomodar no aconchego
me deixo definhar esperando
a gente cansa de esperar, (mas tá demorando pra isso acontecer comigo)
Então saio,
pra me esconder
***
Movimento Dialético
Faço-te bruscas lembranças,
aquelas de nascentes,
antes de desembocar
no teu sentido.
E tinham estradas de terra
que cortavam o fundo da casa.
Nessa hora nem te sei,
Mas é fato que as formigas ensinavam minúcias
e mapeávamos juntos as árvores.
Demorei-me com coisas digitais,
Quando voltei-me ao manual
já haviam asfaltado as imaginações.
Procurei-te
Sem mapas
Pra facilitar
O caminhar.
Tu estavas repleta,
Despi-me de tudo que carregava
e te envolvi,
Então, o mundo se reconstrói
protuberâncias divisadas.
Tu és sequoia
e de ti surgem cataclismos em vermelho.
***
Epifania 3
…tudo que carregava era pouco. desse pouco, tudo era poroso. e essas frases em branco continuam a aparecer. próprias, conscientes de si e de sua abrangência descontextualizada. …me vejo andar. ando e me vejo andar. a consciência é mais forte que o fazer. …não é momento, nem passagem. não é um mito. nem um ritual. não é porra alguma. …as fendas se abrem. …eu caio, despenco: aceito. …te submeto. te encaminho. te mando pelos correios. por sedex. com aviso de recebimento e tudo mais. me despeço, despedaço. extravio. …desmantelo, e nem mesmo sei onde se encaixam as lacunas, os nós, os conchaves. nem mesmo sei o que é desmantelar. …entendo bem de inutilidades, desmoronamentos, laços, maquinações, permanências e substantivações. …o centro de tudo é consequência, por isso generalizações se formam na minha continuidade e as pausas necessárias remontam céus azuis de dias regulares. tudo isso para que o fio da meada não me perca como perco a mim em botões de repetitivas funções padronizadas e opções limitadas. …a gente é cópia. transmutação; sei a prática. nossa teoria é sombra embaixo dos pés.
Victor Prado tem 19 anos, é do interior de São Paulo. Reside em Franca (SP) e cursa Relações Internacionais na UNESP. Tem poemas publicados pelo Canal SubVersa, Revista Grito, Portal Guata e Jornal RelevO, além de uma menção honrosa no XV Concurso Nacional de Poesias – Edição Álvares de Azevedo realizado pelo CBE. Em outubro de 2014, lançou para leitura e download gratuitos o e-book de poesia Mamute (edição independente).
Ecos del ayer
golpean desafiantes las nuevas huellas.
Su presencia pendular en el aquí y en el allá
– en el allá y en este aquí sin ti-
acalla todo intento de palabra naciente,
desdibuja con pincelados recuerdos
bocas que quieren ser una.
Siempre así, oscilante,
tu ausencia se derrama como lágrima contenida
sobre inexploradas formas que quisiera besar…
pero nunca puedo.
Impiden tus sombras
…siempre así, oscilantes,
mi tránsito por caminos luminosos.
Seguiré entonces permaneciendo a tu lado sin ti
hasta que el mismo sol, compasivo,
baje y queme sin herirme
la oscura presencia de tu ser en mi ser.
COMPANHIA REMOTA
Sombras que sem ti
caminham comigo.
Ecos de ontem
golpeiam desafiantes as novas marcas.
Sua presença pendular aqui e ali
– ali e neste aqui sem ti –
desfaz com pinceladas lembranças
bocas que querem ser uma.
Sempre assim, oscilante,
tua ausência se derrama como lágrima contida
sobre inexploradas formas que quisera beijar…
porém nunca posso.
Seguirei então permanecendo a teu lado sem ti
até que o próprio sol, compassivo,
desça e queime sem ferir-me
a escura presença de teu ser em meu ser.
***
LEJANÍA
Tras la remota contemplación
de tu sonrisa en el firmamento,
sólo me resta
reordenar las estrellas
y seguir viviendo.
DISTÂNCIA
Após a remota contemplação
de teu sorriso no firmamento,
apenas me resta
reordenar as estrelas
e seguir vivendo.
***
AUTORRETRATO SIN MÍ
Tal es la ausencia
de mí esta noche,
que me conformo
con lo que
éstos versos
puedan decir
de lo que soy.
Punto.
AUTO-RETRATO SEM MIM
Tal é a ausência
de mim esta noite,
que me conformo
com o que
estes versos
possam dizer
do que sou.
Ponto.
***
PUNTO MUERTO
Este ir sin mi,
este recorrido pendular
entre el suspiro y el silencio
¿Acaso es por repentinos tropiezos
con el polvo enrarecido del ayer?
¿Acaso envejecí antes de tiempo
y fueron inútiles los intentos
de borrar las líneas de mis manos?
No lo sé.
Sólo miro por la ventanilla del bus
las calles, semáforos, casas
y todo me es ajeno.
Recorremos sin sentido los caminos
sin nosotros
sin los otros,
siempre son miradas pasajeras
las que se posan sobre quien duerme en el asfalto.
PONTO MORTO
Este ir sem mim,
este percurso pendular
entre o suspiro e o silêncio
acaso é por repentinos tropeços
com o pó raríssimo de ontem?
Acaso envelheci antes do tempo
e foram inúteis as tentativas
de apagar as linhas de minhas mãos?
Não sei.
Apenas vejo pela janelinha do ônibus
as ruas, semáforos, casas
e tudo me é alheio.
Percorremos sem sentido os caminhos
sem nós,
sem os outros,
sempre são olhares passageiros
os que pousam sobre quem dorme no asfalto.
***
LLUVIA
Estos objetos que no escapan del dilatado suspiro
observan sigilosamente mis movimientos,
ante ellos
llovió esta tarde
No fue una lluvia simple. No.
Del ayer vino.
Azotó mi rostro con una danza
que aturdió mi alma
e inmovilizó mis pasos
sobre la cabeza de las piedras.
Socavó mi piel
con sus finos hilos contundentes
y abrazó mis huesos con ansías de calor.
Quise también abrazarla toda
curar su tristeza
bajo un manto de palabras
resistentes al agua de lluvia triste.
Pero las vocales necias
se ahogaron en su grito,
mis manos abrazaron mi espalda
y las piedras abrieron su coraza
para calentar mi cuerpo
con un calor escondido.
Allí comprendí
que era yo
la lluvia triste
y que son estos observadores
mi eterno invierno de diciembre.
CHUVA
Estes objetos que não escapam do dilatado suspiro
observam sigilosamente meus movimentos,
diante deles
choveu esta tarde.
Não foi uma chuva simples. Não.
Veio de ontem.
Açoitou meu rosto com uma dança
que aturdiu minha alma
e imobilizou meus passos
sobre a cabeça das pedras.
Escavou minha pele
com seus finos fios contundentes
e abraçou meus ossos com ânsias de calor.
Quis também abraçá-la toda
curar sua tristeza
sob um manto de palavras
resistentes à água de chuva triste.
Porém as vogais imprudentes
se afogaram em seu grito,
minhas mãos abraçaram meu dorso
e as pedras abriram sua couraça
para esquentar-me o corpo
com um calor oculto.
Ali compreendi
que a chuva triste
era eu
e que estes observadores são
meu eterno inverno de dezembro.
***
SIN ALCOHOL
Mala elección
pedir coctel de estrellas muertas
en esta noche sin luz
El hielo de mi vaso no se derrite
y la vela de la mesa se extingue
sin que sacie mi sed
Silente,
observas desde la otra orilla
la fría levedad del trozo transparente, sólido,
flota como tus pasos
sobre ruinas de papel.
SEM ÁLCOOL
Péssima escolha
pedir coquetel de estrelas mortas
nesta noite sem luz
O gelo de meu copo não derrete
e a vela da mesa se extingue
sem saciar minha sede
Silencioso,
observas da outra margem
a fria leveza do pedaço transparente, sólido,
flutua como teus passos
sobre ruínas de papel.
***
ECO
Grité olvido al eco
para que retornara
el sonido de paz perdida…
para que regresara sin Él.
Y nítido oí tu nombre.
ECO
Gritei esquecimento ao eco
para que retornasse
o som de paz perdida…
para que regressasse sem Ele.
E nítido escutei teu nome.
***
CLAVANDO CLAVOS
Sigo allí en esa pared
esperando que un clavo para retrato nuevo
perfore mi frente,
sangre tu nombre por la herida
y despierte pensando
que sólo fue un inquietante dolor de cabeza.
Sin embargo,
la casa se cae a pedazos.
Por misión,
orificios en cada muro
buscan inútilmente aquel lugar
dónde sonámbulas levitan tus palabras.
Ojalá no sea otro clavo
el que despoje a mis poemas
de tu sombra,
no quiero barrer
las ruinas perforadas de mi poesía
CRAVANDO CRAVOS
Sigo ali nessa parede
esperando que um cravo para retrato novo
perfure minha fronte,
sangre teu nome pela ferida
e desperte pensando
que foi apenas uma inquietante dor de cabeça.
No entanto,
a casa cai aos pedaços.
Por missão,
orifícios em cada muro
buscam inutilmente aquele lugar
onde sonâmbulas levitam as tuas palavras.
Quisera não fosse outro cravo
a despojar meus poemas
de tua sombra,
não quero varrer
as ruínas perfuradas de minha poesia.
***
CÁRCEL
Turbia es la mañana, ……………….. la tarde, …………………………..la noche.
Veladas siempre las horas mientras duermes
y no me dejas escapar de tu sueño.
Despierta ya,
¡Qué se acabe la pesadilla!
CÁRCERE
Turva é a manhã, …………….a tarde, …………………….a noite.
Veladas sempre as horas enquanto dormes
e não me deixas escapar de teu sonho.
Desperta já,
que tenha fim o pesadelo!
Carolina Calvo-Pérez (Bogotá, Colômbia, 1988). Poeta, inédita em livro. Integra a oficina de criação poética da Universidade Pedagógica Nacional, coletivo que dirige o jornal Aldabón, publicação com destaque para as novas vozes da poesia colombiana, incluindo a poesia étnica de diferentes nações indígenas. Participou do Festival Internacional de Poesia de Bogotá e do Festival Internacional da Cultura, em Tunja. Neste último evento acompanhou o poeta brasileiro Floriano Martins em uma leitura de poemas incluindo vídeo, música e fotografia. Participa ainda do grupo de pesquisa Merawi, cuja linha de trabalho é a interculturalidade e seu reconhecimento em espaços educativos.
Amar sozinha
No meu espelho
As rugas de um
Silencioso desespero
Andar parindo
Os meus vermelhos
Calar ouvidos
A cada voz do vento
Carpir lembranças
De uns pensamentos
Mãos na cabeça
Enlouquecer de dentro
Colher as rosas
Manchar as mãos
De apertar caules
Para gozar o amor.
***
Que até dói
Eis que seu rosto
É imagem de um sonho obsessivo
Eis que
Sua pele gruda-me em memória
De células
Eis
Que não durmo
A menos que tivesse alguma
Certeza de encontrá-lo
Oniricamente
Eis que
É loucura apegar-me
Assim
À loucura
De amá-lo assim
Eis que
Tem-me
À flor
Dos ossos.
***
Se
Se você tivesse sido amado
Na hora improvável
Se apenas naquele momento
Estéril
Da crença de que só se poderia
Ver com os olhos
Tivesse havido o meu sopro
Na curvilínea do seu pescoço
E se pequenos pelos tão
Imperceptíveis
Tivessem se eriçado à
Luz da minha boca
Você seria outro homem
Eu seria outra mulher.
***
Privacidade
Antigamente eu mexia
Na tua carteira
Na tua mochila
Nos teus bolsos
Na gola da tua camisa
No teu celular
Eu lia os teus perfis
Os teus murais
Hoje, jamais
Ninguém vai
Invadir-me desse jeito.
***
Clave de sol
Esperei você de silêncios
E durezas
Enganada, eu nem ouvia
Que o amor vinha
Devagar
Com música.
***
Antes do ponto final
Ame-me logo
Ame-me agora
Ame-me antes
Que
Adriane Garcia, nascida em Belo Horizonte/MG, em 1973. Historiadora, funcionária pública, arte-educadora, atriz. Escreve poesia, infanto-juvenis, contos e dramaturgia. Venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Paraná, Helena Kolody, com o livro de poesia Fábulas para adulto perder o sono.
jogamos tudo pro alto
tudo o que equilibrávamos
com o dedos
todos os nossos dias
todas as nossas coisas
nosso pinguim de geladeira
o despertador dourado
as nossas músicas do caetano
nossos livros trocados
arremessados ao alto
tudo
até que atingissem a velocidade de zero
quilômetro por hora
e começassem a cair
um a um
página a página
pelo chão.
***
não posso escrever como uma pessoa de 52 anos
não posso escrever como uma pessoa de 52 anos
não quebrei pratos o suficiente
não fui ao cinema depois de matar alguém
não regurgitei metáforas depois de muito mascá-las
não aprendi a dizer amor em suaíli
não fiz amor na tanzânia
não enxerguei as dálias que ressurgem depois da morte
não superei o transa, o borges, a pedra, o matisse
não me dei por satisfeita com as redlights
não mistifiquei palavras tão cretinas como bliss
não marchei querendo dançar
não amanheci feito pão, mais murcha
não posso escrever como escreve uma pessoa de 52 anos.
***
quarta de cinzas
queria escrever um poema pra falar sobre o amor que senti ao varrer a casa, hoje. no meio da poeira e dos confetes e restos de serpentina encontrei os seus pelos pretos. muitos pelos pretos pelo meu branco lençol e pelo taco de madeira e no felpudo da toalha de banho branca e incrustados no sabonete cor-de-rosa pálido. varri tudo, como que juntando você aos poucos, como se pudesse te reconstituir por pedaços e te fazer aparecer de novo no meio da madrugada.
***
assim
isso de lavar lençóis
com amaciante
lilás
preparar a brancura
sabão pedra
pra te receber em casa
em cama passada
a limpo
ainda vai me quarar
os olhos.
***
ismália II
te ver dormir assim
tão consistente
e sólido
me faz querer
escrever,
por exemplo,
sobre despenhadeiros
sobre acácias
sobre aviões de caça
sobre quedas d’água
sobre crostas de corais do mediterrâneo
sobre as pupilas pretas que dormem
debaixo de pálpebras.
***
ossos
não triturei
ainda
estão em blocos
minerais
os versos
que acabo de morder.
***
café
estou pondo em risco
o meu estômago
a alvura
dos meus dentes
a pressão das artérias
o meu próprio
metabolismo
por estes versos.
meu café é meu cigarro
bebo pra escrever
estes versos
depois de trabalhar o dia
todo na firma
dentro de uma baia
de uma planilha
simétrica
um espelho de ponto.
coo o café
de noite
analogicamente
enquanto
a mortadela frita
ruidosa, eu
meto no pão francês
pondo em risco
a minha própria
vida
pra escrever
estes versos.
Ana Estaregui (1987) nasceu em Sorocaba, mas vive em São Paulo desde 2005. Formou-se em artes visuais pela FAAP e pós graduou-se em design editorial. Publicou alguns livros independentes de poesia e fotografia com baixas tiragens, e outros como “Eu me livro” e “Porta Poema” (antologia) pela Publicações Iara. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Mallarmagens e Ellenismos. Seu livro mais recente, Chá de Jasmim, foi contemplado pelo ProAC Poesia de 2013 e publicado pela Editora Patuá.
Um corpo arrastado
pelo rio
Ainda vivo
esbarrando nas pedras
atravessando a trama
de raízes das margens
Ainda vivo
como se tivesse
guelras
Toca o fundo
Corta os pés o sexo
os joelhos os lábios
Aceita quase o fim
Ouve o chamado
pra voltar
– “entra
tá na hora
já vêm te buscar” –
Vê outra vez
os livros no chão
descrença
brinquedos quebrados
o preto e o branco
Cruz
em cada perda
Então sobe
engole ar arranca ar
Aceita exércitos
invisíveis
palavras de gente distante
curativos nas datas
velhas
Sobe sai da água
tem asas tem forma
tem chave uma porta
E pode
abrir
***
FANTASMA
Dobrar o lençol
acalma
mas não mata
o fantasma
O abstrato
de seu corpo
é composto
de lembranças
Como líquido
infiltrado nas trincas
paredes
Descendo
pelas torneiras
É rio
É mar
: não se apaga
a memória
da água
***
PAZ
Atados
à aridez
de fendas rochosas
cactos respiram
sem receio
seus espinhos
sua flor
***
AVENTURA
Esta é a história
Sim o traçado é sempre
irregular
sobe e cai sem aviso
tudo entre lacunas emboscadas
ou a sorte de um desvio bom
As vozes muitas vezes
são de anjos
(não estranhe desalinho
cabelos revoltos)
Já as unhas outras tantas
de demônios
(atenção a relógios de marca
um certo ingênuo rubor)
Estão todos juntos
sem crachás
na mesma calçada
Assim
muito cuidado
ao escolher o botão
do elevador
O inferno não está mais
só no primeiro
andar
***
DEUS DISFARÇADO
I
Não seremos
os nomes na árvore
Nem as palavras a lápis
na página do livro
O gosto que sobra
é o silêncio
rasgando a garganta
II
É preciso contar
da fuga imensa
pra dentro do corpo
III
Esperamos
Quem nos dê um poema
crença alguma alegria
Como um filho
que nasce
Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro e vive em Brasília. Poeta e ficcionista, tem trabalhos publicados em jornais e revistas impressas ou virtuais, em portais e blogues da internet. Publicou “Incompleto movimento”, poesia (José Olympio Editora, 2011). Integra a antologia “Hiperconexões – realidade expandida”, poesia (Editora Patuá, 2014). Escreve em Nóstres e em Zonadapalavra.
não consigo ficar livre
do gosto dos outros
o meu e o teu rosto,
superpostos são um ? sol impostor
ou vestígio de algum sentido
pedaços indefinidos
do todo invisível
***
metamorfose
sob a casca
a lagarta da seda
arredonda a redoma
e sonha asas.
a sombra do luto
anuncia:
breve aqui
mais um fruto
a metamorfose
***
imensidão
escalar montanhas
que só o silêncio influencia
reencontrar nas primeiras cavernas
vestígios de eternidades antigas
descobrir novos sentido e limite
além de sombras conhecidas
buscar sonhos que foram
mais que vento um dia:
alimento que a boca queria
***
acordar, susto único
súbito sol subindo o peito
no púlpito de agosto
sob estandartes de luto.
eliminar a dor
do pensamento, um minuto,
o isopor do silêncio,
branco absoluto.
a alma, mesmo fora
desse sol, estala
a um toque de luz. e agora,
acesa por dentro, exala.
***
folha a folha
destruir o vestígio
do gafanhoto
na rosa verdejante
que sóis salvam
e a palavra mata.
Marilia Kubota é escritora e jornalista, é mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, em 2012. É autora dos livros de poesia Esperando as bárbaras (2012) e Selva de Sentidos (2008) e organizadora da antologia Retratos Japoneses no Brasil (2010). É editora do MEMAI – Revista de Artes Japonesas e colaboradora do siteInterrogação.
me ame ou me enforque
sou o seu bluegrass boy
e esse disco você já tocou
quando cantarolou aquela
triste canção com seu banjo.
com você eu sinto o ritmo
do tilintar do drink no copo,
ouço rifles, vejo a sangria
escorrendo no centro
de minha testa ferida.
me ame ou me enforque
sou seu fracasso favorito
um escombro, um tropeço.
oh baby, não seja tolo
amarre as pernas
de sua calça jeans
em meu pescoço
e tente tente tente.
querido rei, querido réu
os anos fatalmente passarão
feito mariposas no verão
e eu não estarei mais aqui
para amar você tão denso.
querido rei, querido réu
fique no canto da sala vazia
e pela última vez eu peço
cante suas tristes versões
do peter, paul and mary.
sou um cubo de gelo
em seu copo de whisky
vou derreter
e você sabe que será fatídico.
voltarei para casa,
mas não vou contar para deus
que você é meu assassino.
me ame ou me enforque.
me enforque e me ame
frio.
***
lana, ele não virá para jantar
um dia você cantou
e éramos nós três
em uma king size.
ele foi embora tempos depois,
você tranquei no armário
e eu fiquei só, vagabundeando
com os filmes do john waters.
dia desses li que seu sonho
era ser poeta, seguir a estrada.
uma transmutação lúcida
que tanto me sobrecarrega
da escuridão dos dias.
hoje fiz o jantar em silêncio
tem vodka de cannabis
talvez você goste.
fiz uns quibes,
talvez você os rejeite.
quando libertá-la
talvez eu não suporte a dor
e a jogue pela janela suja
para calar sua voz impudica
nesse intenso verão abatido.
quando libertá-la
verá que eu fiz um ritual
mas a dor ainda rasga
e a casa está triste triste triste.
sua vagina tem gosto de pepsi cola
desande a cantar sufocando
me faça esquecer
vamos soltar
os prisioneiros
às vezes vale a pena
deixar morrer para não voltar.
lana, agora somos só nós dois
ele não virá para jantar.
***
beautiful fucker man
o amante foi embora
o chuveiro pinga solidão
seus cigarros apagados
ainda ocupam a falta de palavras.
ele deixou mentiras pirotécnicas
espalhadas junto ao jardim
e não quero mais adubá-las.
a chaleira apita três vezes
meu nariz é rabdomante
fareja desafetos um a um
meu desejo é peregrino
onze andares acima
onde meus abismos
não são tão atrativos.
o amante foi embora
e me deixou lamentando
no canto da fétida sala suja
e ele sabe que isso terá seu preço.
meu belo homem filho da puta,
um fodedor, em breve irei enterrá-lo.
meu coração é um arquivo
de cenas perigosas.
***
luver, drunk, lover
pigalle 303, pernoite
num torpor envelhecido
do motel o desconhecido se foi,
mas dentro de mim mora um outro.
paguei a conta, devolveram meu rg
voltei para casa, tudo de volta
fora do lugar, valkiria 42.
e nesse jogo, quem eu acho que sou
andando por aí ganhando cicatrizes?
coloquei gelo num copo
despejei vodca negra
e escrevi uma linda canção rock ‘n’ roll
respirei fundo, outra vez, outra vez.
se nem deus ou o amor
salvaram e lavaram
minha alma impura,
então não tenho nada a perder.
***
dor
ingredientes:
01 escroto cozido
01 coração partido
01 escroto cru
01 pitada de ira
02 colheres de solidão
220 gramas de agonia
¼ de silêncio
½ xícara de saudade
modo de preparo: nunca saberemos como temperar a dor. então leve ao forno e deixe queimar queimar queimar…
Stefanni Marion é autor dos livros “Temporário”(Patuá, 2012) e “Inventário”(Patuá, 2014). Participou de antologias, teve poema em italiano musicado e poemas em catalão publicados na Espanha. No projeto “Arte na Balada”, expôs seus escritos com batom vermelho nos vidros do banheiro de uma casa noturna paulistana. É um dos organizadores e editores da antologia “É que os hussardos chegam hoje”(Patuá, 2014), entre diversos outros pormenores planetários do universo literário.
não dá pra chamar de plúmbeo este céu, tampouco
argênteo, que um
afunda a sua dor num espectro
engalanado e o outro
aspira a um brilho que
não tem e assim
disfarça o céu que é por tudo cinza,
apenas cinza em sua solidez e lixa
em nossos olhos o que a superfície opaca e rarefeita
aflora de áspero: resíduo, pó, rescaldo
de um incêndio, também chamado, às vezes,
vida.
***
o que é a poesia?
depois que os pais morreram
voltou à sua cidade
para vender a casa antiga
onde passou parte da infância
cambiou a quantia obtida na venda
por euros
e transferiu o montante para sua conta
em Bruxelas
onde vivia num pequeno estúdio
alugado, 3 peças dando para os fundos
o que tornava muito silencioso
estar ali, exceto
nos dias de chuva quando as gotas
tamborilavam nas folhas
de zinco sobre a varanda
no ano passado foi encontrado
morto, um assassinato sem pistas que
deixou a polícia aturdida
mas a chuva
nas tardes em que chove
ainda reverbera no telhado
de zinco, a sua música
apenas abafada pelos
relâmpagos, quando isso
acontece.
***
loopingsufi
o ponto onde você dança é um ponto cego, na roda
do seu rodopio você lança um sorriso
para o mundo e ele devolve
um esgar, o mundo
tem a carne impressa com grafismos
ardentes que incineram
todos os planos quando os tocam, no ponto
onde você dança sua coreografia é a mesma
acupunturamasô em que você
dissimula imóvel as espirais
de seus pés cada vez
mais fundo na lama-glitter
do mundo.
***
prosa completa
se, como quem não quer
nada, sobre os lençóis (neste momento
os dedos se perderiam na maranha
reluzente e tão negra como o artifício
de um céu noturno um átimo
depois da explosão
dos fogos) fossem mencionadas ruínas
sob o azul, tão brancas
em sua opacidade
aflitiva sem dar
conta do sol
que as ilumina, e explodir (quando os mesmos
dedos se perceberem
úmidos e quentes) a lembrança
do púrpura e do carmim
que as revestia, o que está no centro é a vertigem
do corpo, e isso quer dizer
labirinto, ou a cara do anjo que agora
fecha os olhos, e se uma palavra
comoamorvier à tona
foi por apuro ou mera
distração – não se fala mais
nisso, e agora isto quer dizer clímax,
anticlímax, refluxo das horas,
espera, segredo,
surdina.
***
aquelas flores que sangram, se abrindo por dentro da sua carne
para helena n.
foi numa primavera hostil que deixei de entender você
e semeando ausências nos seus calendários
não vi as flores mortas nos jardins
onde depositei os simulacros de outros dramas
em que anjos distraídos se dissimulavam em pedra
ou no cedro dourado pelos crepúsculos dos adros
em naves escuras e vazias
já não me importa mais que as células sãs enlouqueçam
ou teçam abismos pelo corpo
sangrando névoa e nuvem
e descompassem a música das esferas
nem que o silêncio venha carregado
das palavras
esquecidas num tempo tão antigo
que ainda amanhecia:
foi no mesmo lugar que deixei o mapa
que ia nos levar de volta a um presente que não mais termina
agora
com todas as pontes arruinadas
vi pelo espelho dos metais que forjei um rosto
que representa a ilha
num mar transbordando cinza bruma e gelo
nesta outra primavera
nos acalenta o fio
que abre feridas sem resposta
aquelas em que (lançando imprecisões
nas cartas do destino)
definitivamente não
sei mais
Nuno Rau é poeta, letrista, carioca e leitor. Também é professor da Escola de Belas Artes da UFRJ.
vieram de onde o tempo é aragem funda nos olhos.
trouxeram o despenhadeiro ao fim dos pés.
a luz os percorreu e pôs, em suas bocas,
rios afundados em vozes, amuletos.
a terra sangrou os confins de seus corpos,
suas mãos peregrinas dos sargaços de um vento.
***
linha do tiro
ela caminha na linha do tiro.
sete anos de pesadelos escoados pelo corpo.
ata o ar, com arame, aos fossos de seu vestido.
martelo de pele e cartilagem,
o tempo a trai quando não a envelhece.
ao largo do sorvedouro,
ela resta antiga.
***
matéria bruta
no fundo das mãos há o ponto cego
em que ninguém pode tocar.
por onde passa a corda usada pelos presos
para a fuga.
posso começar pelo fosso.
pela sombra em que éramos a vertigem do pai.
a luz golpeada nos pés ao nascer.
ao nascer
e não estar na vida.
a água toma o fôlego restante dos dias.
***
uma só terra
desce-me como uma sede
a réstia do que sou, amortecida, fundida em pedra.
dálias ladeiam os vergões do corpo,
as frestas da casa na abertura dos olhos.
há uma voz que não pronuncia o dia seguinte.
água de minhas mãos
despenhadeiro rodeando
meu pescoço.
***
houvera
o tempo não se lembra de nós
nem os girassóis nos conhecem mais.
a nossa mão é uma lenda para o fogo
a água
o ar
a terra que não mais nos habita.
desde que as asas morreram no pulmão dos homens,
a esperança migrou para a placenta dos rios
onde seres se curvam às suas fontes
de calcário, erva, peixe, nuvem.
Luciana Marinho nasceu em Recife, onde atua como professora universitária e psicóloga clínica. Participou da antologia “Desvio para o vermelho: treze poetas brasileiros contemporâneos” (2012), organizada por Marceli Andresa Becker, em uma produção do Centro Cultural São Paulo.
…– despétala a vi ………….olência flo ..rindo sem nome – ……entre cercas .do asfalto violáceo
***
CADA SINAL cada passeio
por onde o carro
inadvertidamente …………………passa
cada ferida na forma
fractabilizável
de um sorriso ………………..passa
ainda que no beijo
– rasgo de carne corpo ………..entrementes –
alienado a preços módicos
nos dedos sem assunto
duma datilógrafa
desempregada
nos pés aquáticos
da tua presença fabulada
ou nos sesquipedais contornos
deste último desejo ……….passa
***
NOITE DE NEVE (mentira) …………….no fundo
do olho ……….(nada se encontra ……….nada resta
pra além de uma palavra feito …………………undo
noutra língua ……….noutrora que não esta)
noite de neve paira sobre o mundo
(mentira cadavérica ………………….não presta
não desfaz a miséria deste mundo
nas brancuras do gelo ………………….(mera esta-
fa …..– feitio de metáfora – mera
imagem do silêncio mera estátua
calcinada ………..nos olhos do futuro)
mentira gorda mentira …………………fátua
mero cabresto sobre besta-fera)
noite de neve (noite de monturo)
***
SE CANTAR FOSSE O CANTO
da cotovia do
bem-
te-vi do rouxinol
se os ruídos da codorna
do jacu………..das águas
que murmuram de tédio
por entre as árvores
se o próprio som sentido
das árvores……do ninho
que nas árvores
se aninha
se o canto que ali se encontra
fosse caso concreto …………………de imitação
de tudo quanto cerca
um canto além do canto
engloba o através
da mata que deixou
aquela moto o ronco comburente
do caminhão de transportes ………..& por fim
o canto elétrico
que anulou seu ninho
o próprio canto-serra
sem conto sem pranto
da inaudita …………………motosserra
que encontrasse ninho
na voz deste pássaro-lira
Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984) é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Latina na UFPR. Lançou traduções de “As janelas”, seguidas de poemas em prosa franceses, de Rainer Maria Rilke (2009, Ed. Crisálida, em parceria com Bruno D’Abruzzo),” A anatomia da melancolia”, de Robert Burton (2011-2013, 4 vols, Ed. UFPR, ganhador do prêmio APCA e finalista do prêmio Jabuti), entre outros. Publicou os poemas de “brasa enganosa” (2013, Ed. Patuá, finalista do prêmio Portugal Telecom) e do poema-site Tróiades. É editor do blog coletivo e revista impressa escamandro.