Categorias
95ª Leva - 09/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Lourença Bella

 

Ilustração: Rebeca Prado

 

emanações do ser

 

não presto
nunca prestei para ser em série

tentaram me colocar numa forma
o máximo que conseguiram
foi me ver flertando com a morte

assustaram
e me reacordaram de um sono de gilete
e me aumentaram o tamanho dos dias

não presto
não sei se algum dia vou prestar

tentei óculos escuros nas minhas perdas
queria ter coração mesmo que rude
só consegui lacrimejar meus sapatos

tenho fomes
e só presto para o uso geral e irrestrito
do anormal dos anos que ainda me gritam

 

 

***

 

 

o frágil correr dos dias

 

ainda que saibamos
que os heróis não cunham suas moedas
nem as esfinges devoram seus enigmas
falta-nos entender
esta lâmina que vem com a ausência
e que nos corta onde nunca há costura

mas há o tempo
este que se apresenta em fatias
que é capaz de nos mostrar à nossa cólera
e nos leva a reconhecer-nos sobreviventes
dos nossos circos e das nossas próprias guerras

é quando descobrimos:
imperioso é reconhecer-nos em nossos afetos
e seguir carregando as nossas marcas
indelevelmente

 

 

***

 

 

rios da fala

 

gosto de frases tontas
doentes do gosto
que se soltem
na garganta

frases que despertem
sonos e rumos
em caminhos
que já perdi

gosto de frases bêbadas
que sejam o prumo
do coletivo
em mim

e que rolem as necessárias pedras
nos rios da minha fala

 

 

***

 

 

em dias mortos

 

não encare
sem dor
a tela vazia

nem se acostume
à arritmia
da falta de versos

não se cale
não se sele
não se apague

nas esquinas
dos desfavores
é no poema que se acende
o sexto sentido

 

 

***

 

 

à maneira dos sonhos lúcidos

 

triste como quem carrega pedras
alimentava silêncios
caminhava devagar

e me queria

eu não sabia
em que compartimento de mim
ele cabia

eu sorria
só sorria

um dia
ele sorveu meu riso
deixou-o enrodilhando-se
na língua
como se nunca tivesse provado
o gosto da alegria

tornou-se parte de mim
mesmo não tendo sido meu

 

 

***

 

 

em redefinição

 

para Ser
preciso aceitar
impotências e calmarias
tempestades e girassóis
promessas e muralhas

para Ser
preciso enxergar
ratos e miragens
entranhas e oitavas
camélias e adagas

para Ser
preciso antes
me perder
e em novos
espelhos
me reconhecer

 

Lourença Bella é mineira das terras vermelhas de Drummond, passou pela academia de onde saiu professora. Foi só o inicio. Pisciana que é, descobriu-se muito mais aprendiz. Abandonou a sala de aula, passando a trocar conhecimentos fora dela. Depois de anos trabalhando com Educação, virou a mesa. Foi aprender as regras do mundo empresarial onde se equilibra até hoje. Da academia guarda ainda a fome de conhecimento. Especialmente de si mesma. Por isso escreve.

 

 

Categorias
95ª Leva - 09/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Jorge Augusto da Maya

 

Ilustração Rebeca Prado

 

 

Postal

 

O
sol eletriza
o corpo
da negra-cidade

recarregando
baterias solares

que a gente daqui
porta:
orgânica e uterina

(africarnada
na alma da cidade)

qual
pilhas de energia
intestina

assim: se
a engrenagem do
dia arde
sua fisionomia

o sol
acende o
cio da cidade

– Em simetria: solamaresia

 

 

***

 

 

Em casa

 

cada dia se dizia menos
o silêncio foi comendo toda palavra
até que não sobrou mais nada
mesa vazia, afeto desfeito
sem tato, sob o mesmo teto
alegria desbotando no porta retratos
estante escorada na parede
tv dizendo o que ninguém mais escutava
aquela ferida aberta no meio da casa
como um buraco negro
uma vala q aberta no meio da sala
cabia qualquer palavra
– boa noite pai.
não havia mais nada

 

 

***

 

 

Open

 

Exit. Êxito. Exílio.
quanto mais digo
me afasto
do que persigo.

palavra por palavra
armo
poemas que hesito

por todas as portas
de entrada saiu
do lugar q não existo.

melhor calar agora,
que ficar
falando em círculos.

o que busco é algo
algum alguém
pra além deste q digo
depois do exit

 

 

***

 

 

Os verões do corpo

 

A madrugada côa,
em seus escuros, ecos de luzes
restos do dia.
…………….. dejetos do dia.

no breu minguante da madrugada,
vagalumiava clarões no pensamento:

A imagem dela se acendendo

Faz a febre,
de um sol aceso dentro do corpo,
com seus todos fogos

a noite escoando seu escuro
surrealiza tuas  pernas abertas na
neblina do sono

a noite, toda consumida
em seus infernos,

me enterra nas cinzas do sono.

 

Jorge Augusto da Maya publicou poemas no livro “Antilogia” e na antologia “Poesia quebrada de quebradas”. Tem poemas e textos publicados em jornais e revistas, entre eles, Germina Literatura, Revista Cronópios, Revista Diversos Afins, Jornal Bahia Notícias. Atualmente, é docente na Universidade Estadual da Bahia e editor na Organismo editora.

 

Categorias
95ª Leva - 09/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Cleberton Santos

 

Ilustração: Rebeca Prado

 

Insolubilidade

para Mário Quintana

Da insolubilidade das coisas
nasce uma canção petrificada.

Enquanto a violeta da tarde
agoniza sob meus olhos
fincados no horizonte chumbo.

 

 

***

 

 

Escombros

 

Em cada passo destas horas
a imbecilidade do amor
aguda dor sobre meus ombros.

Em cada escombro desta noite
a terneza do esquecimento
silêncio marítimo que me devora.

 

 

***

 

 

Minotauro

 

Na casa de Asterion
mitos e belas donzelas tramam
contra o Amor.

Esfaqueado, Teseu perambula entre
as muralhas,
inutilmente lúcido.

 

 

***

 

 

Poema Sexagenário

a Antonio Brasileiro, com chapéu

Um poeta caminha sob teu chapéu. É ríspido.
Em passos largos de ternura e demência
caminha sem mapas sem deuses.

Em teu peito ardem solidões esquecidas.
Um poeta é mais que horizontes. É poesia.

Teu canto fere a surdez dos loucos
e embriaga a lucidez dos pássaros.

A poesia renasce na aba do teu chapéu.

 

 

***

 

 

Concerto para ninar calangos

 

Silêncio tecido de dor e violinos
crava em meu peito
concerto estapafúrdio
para ninar calangos opalinos.

 

Cleberton Santos é poeta, crítico literário e professor do IFBA campus Santo Amaro. Foi vencedor do Prêmio Escritor Universitário Alceu Amoroso Lima, da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, em 2002. São de sua autoria os livros de poesia Ópera Urbana (2000), Lucidez Silenciosa (2005), Cantares de Roda (2011) e Aromas de Fêmea (2013). Em 2007, recebeu o Prêmio WALY SALOMÃO da Academia de Letras de Jequié/BA. Tem poemas e artigos publicados em antologias, jornais e revistas literárias. Publicou ainda o livro Estante Viva: crítica literária (2013).

 

 

Categorias
95ª Leva - 09/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Patrícia Porto

 

Ilustração: Rebeca Prado

 

 Animatopia

 

Porque era um corpo de imagens,
uma ciência fugaz, como a vida,
carregava sonhos e sopros que não cabiam fora de si.
Do si mesmo inventou a solidão,
Do si mesmo deu para falar
e entender uma nova linguagem,
a dos corpos não-domesticáveis
no corpo nu da poesia, uma cicatriz propositada.
Um corpo que se dobra à curvatura do espaço e tempo
que deu para saltar com os pés
as dobras do tempo, um labirinto.
Deu para ser o tempo dobrado sobre seu corpo.
Na solidão fabricada de novas memórias, seu desafio:
conhecer a anatomia desse novo animal
curvando-se ao espaço.
Amar esse animal
e deixar-se avistar por Ele.

 

 

***

 

 

Nessas horas pequenas

 

espiava por dentro
à minúcia
na imagem da imagem
na imagem: a mise
flores de árvores pequenas
flores adultas delicadas
istmo de partitura
sombras da melhor cama de deitar um nu

Com sua lente macroscópica de verdades
ampliava ao máximo as dúvidas sobre se eu era mesmo
a flor a rocha o poeta o vaso

e sempre me angulava em lupa
a incerteza do olhar
É você aqui nesta dobrinha de hora?

Nessas horas pequenas sutilezas me fogem.

 

 

***

 

 

Devaneio

 

O verso úmido de devaneio
Nenhum salto sobre a língua
nenhum sobressalto
e os dias são de frieza
e o sentido cego
em suspenso

Eu de vaneio
traindo o verso,
amolando a rima
na pedra

 

 

***

 

 

Entrei!

 

Essa porta eu inventei
Eu abri com minhas próprias mãos,
às vezes com os punhos cerrados
Não me arrependo do caminho,
eu também estava perdida
Fui violenta. Fui mártir. Mas, sobre tudo, fui doida
A doida que inventa portas onde nada mesmo
foi construído pra ela

 

 

***

 

 

Grande desafio

 

Manter-se vivo
Manter-se com os olhos abertos
e ser ao mesmo tempo comunicável
Cada homem carrega a sua cela
Cada mulher, o seu útero
Cada cidade, o seu beco
E o Rato, cada rato carrega a liberdade
do incomunicável

Cada rato carrega o susto
do incomunicável

 

Patricia Porto é professora Universitária e Poeta, especialista em Alfabetização e com Doutorado pela Universidade Federal Fluminense. Publicou o livro acadêmico indicado pela UFF ao prêmio Capes: “Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da Literatura”, o livro coletivo “Professora-pesquisadora: uma Práxis em Construção”, os livros de poesia “Sobre Pétalas e Preces” e “Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos”.

 

Categorias
95ª Leva - 09/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Willian Delarte

 ADORE AS ALMAS

 

tape os olhos e verá
que o mundo é um mar
de pontos de vistas

torne-se surdo e ouvirá
o que tanto
e tanto
as plantas falam

tente tocar
sem usar os dedos

ouse falar
com mais silêncios

e sentirá o fino sabor
de um deus redescoberto
na fôrma ou na forma
de ingredientes

(secretos)

 

 

***

 

 

SEU NOME

 

os amigos passaram, passou o amor,
a hora de morrer passou. a cadeira de balanço.
a palavra que não veio. a chuva lá fora.
o vento e seu nome.

passou a hora do lamento, a hora da chegada,
o momento de partir.

os olhos se voltam contra si.
há sombras por trás da retina.
há fantasmas corroendo os escombros.
há eco nos escombros. espectros desidratados.
a cadeira de balanço assovia seu nome.
a palavra que não veio.

no piscar dos olhos
passou o tempo de chorar. o sorriso que passou.
seu cadáver maquiado no meio da praça.
a palavra que não veio.

os pombos e a dança dos mortos.
seu nome na boca dos pombos.

 

 

***

 

 

INCENSÁRIO

    “à Fabiana Cozza”

sobe das frestas
das tumbas funestas
dos faraós

mira o ocidente
ó mirra, oriente
as cinzas, o pó

arruda
na porta, espada:
cada muda uma rajada
na lâmina da fé

de queimar, romper, rasgar
a redoma densa do ar –
fumaça imensa da guiné

se debilitado me sinto,
o escudo do absinto
no amor tece uma âncora

tal raio ou faísca
que no amuleto de almíscar
abrasa acácia, anis e cânfora

rosa branca, rosa amarela
erva doce, cedro e canela
defumam quarto e terreiro

irrompem portas do mundo inteiro

queima a dor
– incensa, defuma, queima
cheira a flor
– incensa, defuma, queima

o universo que arde o fim
dilata o cosmos dentro de mim
expande sândalo, cravo e jasmim

(sob as frestas de tumbas funestas
o amor é filho do pó de alecrim,
alfazema, benjoim –

e cheira a flor de laranjeira)

 

 

***

 

 

PAKU-PAKU

 

o santo come
o que é do homem
o homem come
o que foi deus

o céu come
canja
de verme

anjos na terra
quem come é ateu

a morte come
todos os planos

a morte come os anos

come os meus
come os seus

come< come< come< come<

 

Willian Delarte é autor dos livros “Sentimento do Fim do Mundo” (poesia, 2011) e “Cravos da Noite” (contos, 2014), ambos pela Editora Patuá (SP). Premiado no II e III Festival de Literatura da Faculdade de Letras (FFLCH) e finalista da 15ª edição do “Projeto Nascente”, todos da USP. Tem publicações em diversas revistas e antologias. Foi co-editor da revista Rebosteio Digital.

Categorias
94ª Leva - 08/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Alessandra Cantero

 

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

argamassa

 

pedra
sobre
lado a lado
pedra

entalhe desigual
atrito
ruído

encaixe à força
de conflito

sobre, sob
lado a lado
frente a frente
pedras

queda livre
noit solta
castelo construído

pedras firmes
frágeis como vidro

 

 

***

 

 

sob o peito
sombra
um som
ínfimo
fissurando ao
infinito gelo
dum azul distante
e marinho

depois de um tempo de mar
anzol é âncora

 

 

***

 

 

tento
desvínculo
do vício

mais
me separo

mais precipício

 

 

***

 

 

não foi nada!
essa dor é só jeito q a vida se dá por inteiro
não é nada
esse nulo é o todo despejo na pele
palavra que emperra completo complexo
esse pó na faringe poema
não esquenta e esquece de novo

 

 

***

 

 

o tempo esgota
com garras de ferro

rasga esganado
tecidos da pele

coa língua da gente
lambe e geme
cravando os dentes
nas dobras fecundas
dos nossos desejos
efêmeros

 

Alessandra Cantero. Poeta, licenciada em Letras pela Universidade Paulista con Máster em Filologia Hispânica pela Universidade de Sevilha, Espanha. Publicou o livro de poesia Deslocamentos Líricos (São Paulo: Patuá, 2012).

 

Categorias
94ª Leva - 08/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Marina Tadeu

 

Foto Marina Tadeu em Honor Oak Park, Londres
Foto: Marina Tadeu / Honor Oak Park, Londres

 

Todos os poemas escritos na cama
como todos os poemas escritos na cama
até este depois de turno nocturno
de limpeza sem credibilidade teatralizada
pela encenação de um underground
de bom gosto declamatório e lençol revolto familiar
de sangue, não afectam a raposa
correndo ao lado da rata em Camden Town
ou a ave sobrevoando fífias ao piano
ou o basalto de Sir Richard trauteando
“I Am A Rock”, nem extravasam para a carne
todos os poemas de bruços na cama
sem vossos braços dormentes ao longo
de costas vergadas por tantos poemas de lado
como devem ser todos postos instáveis
à superfície, respirando biologicamente ausentes
pelo vento
todos os poemas escritos na cama
aguardam correcção
até se ficarem dispensando
ornamento referencial, diálogo com os que lemos
nossos mortos e vivos sem despedida,
denúncia, homenagem
à dor exclusiva que não nos pertence
a pedir correcção, sim todos os poemas, talvez muitos
meses, anos, o resto da vida a pedir correcção
na máquina que nivela
todos os poemas de beleza e crueldade
incomparáveis como…

 

 

***

 

 

… Peixes vislumbram cores
incapazes de processamento
nas cabeças quadradas
que virão. Milhares
de cores sem nome por debaixo
a que nos cegamos
mais altivos que um polegar à boleia
em isco apanhado pela mão de Noé.

Se ao menos tivéssemos chegado atrasados como o unicórnio, o
ciclope, o centauro, pegasus, hidra, esfinge e tantos outros. Se ao
menos a barca se tivesse afundado e nós mais impressionantes.

Já por cima a luz difere
dobrando tempo em quartos
com idades de massas,
ordeiras evoluções
hierarquias
preponderâncias sobre outras
de modo a que o tempo tenha até o seu tempo
metido no lugar.

A responsabilidade de habitar
a caixa de buracos é a ventilação
mas sempre que pedimos ar
explicam-nos tudo com a
convicção de uma auréola
de iluminura atmosférica.

Mas o brilho também vem dos nossos olhos
molhados como peixes sem leme
num aquário com espaço
delimitado, fácil de governar
como quem está mais à vista
que o lugar que habita
e onde mesmo impressões
de vossos dedos nos vidros
circulam, digitalizadas
embaciando visões.

Por ora, é científico.
Estamos mais dependentes
de regras e sentidos
do que o orfanato da espécie.

 

 

***

 

 

Querem ganhar ignorando
os sublevados os rebaixados as moscas
e provam nas normativas bocas
os mesmos gostos mastigados
em círculos omnívoros
a rebentar por todos os lados
e para disfarçar sempre rezam
a mesma cantiga de escrúpulos
no terreno empapado
fedendo a músculos
azedados ajoelhados
querem ganhar querem sumo
sem retorno à fruta descartada
para a frente se acotovelam
à porta de Maggot’s
clube subterrâneo
para agradar encantar
com evidência selectiva
uma raça bichosa aparte
querem ganhar defendendo os úteis
que os desdizem e os mordem
como pulgas em vertebrados
amestrados na clausura da arena
querem ganhar com o ganho
com os restos com os trocos
a sair-lhes pelos poros
perdoando e derramando
de olhos baixos lágrimas
que não lhes salguem as feridas
e sobre palavras em chama
metem a mão que afoga
enquanto brilham
e já nem respondem
os querem tanto ganhar a vida
como quem não ama
uma causa perdida

E são de uma certeza espantosa

 

 

***

 

 

Fado consolado

 

Muito tempo a tempo perdido
mas ainda o mesmo ar respiramos
esse milagre digamos amigo
já não é mau.
Nesta moleza de tudo o frio é limpo
nos dedos voltados para dentro
amigo
o toque com que afinamos o tempo
já não é mão.
Em breve sabes visitarei nossa cama
em terra violada a querer mais violão
acordando esta lágrima que em chama
já não é mar.
Só me sobra perdição
pois sabes
meu tempo é mau
não tenho mão
não sei nadar.

 

 

***

 

 

Imóvel

 

estupor como te quero escorrendo
miudinho pelos telhados à luz
para a cabeça debaixo da pedra
arrefecida mas voando
inabalável pelos pássaros
que nela estanque pousam
fugindo à bola passada por
pés pequenos entre ruínas

pelo ar fora imobilizada
cabeça rompe a pedra
sem um grito

e passada a atmosfera
não dói
no cristal gelada

a mão aberta
ao aranhiço

a estrela

 

Muito prazer, sou Marina Tadeu dizendo coisas como você.

 

Categorias
94ª Leva - 08/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Simone Teodoro

 

Foto: Luciana Bignardi

 

Dança lunar

 

O vento lambia
O mar em nós.

Eu singrava o mar em ti,
Dilatando os sais
De tuas paredes aquosas.

Cristais de areia
Feneciam
Sob as fibrosas esquinas dos joelhos,
Os meus,
Onde mora, inexpugnável,
Das quedas, a memória.

Sofrer de ausência tua
Em plena noite
De dança
De luas
Recém-descobertas!

Depois que choro
Troco de pele.

 

 

***

 

 

Jardinagem II

 

O jardim era belo
Visto por qualquer passante.
Visto de qualquer ângulo,
era incrivelmente belo.

Tulipas
Gérberas
Miosótis
E cravos.

De qualquer ângulo,
Não havia dúvida.

Mas não para quem
ousasse se deitar
Entre os canteiros.

Não para quem
atraído pelo pulsar das cores
enxergasse o jardim pelo avesso

ao se aproximar demasiado
deixando o olhar escorrer
por um caule
até encontrar
sob a umidade da terra
fixadas
monstruosas raízes.

 

 

***

 

 

Pedra

 

Súbito
um pedaço antigo de tempo
irrompe em meu peito
E transforma
em ruína de ti
meu coração contrafeito

 

 

***

 

 

Profanação na teia

 

Tirar a roupa dela
enquanto vermelha lua arde.

Romper cascas, desfiar casulos.

Contrair-me em
aracnídeo  inseto

Patas e pelos, perfurar
a pele profanada

E ela se contorce toda
presa em minha teia:
Era pétala amputada
tornou-se flor inteira.

 

***    

 

 

Distraídas astronautas

 

O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando  dentro

(segundo as narrativas da mãe
quando eu ainda era o inchaço em seu ventre
e captava sussurros
pelas viscosidades da placenta).

Um deus de barba branca
no trono, ela dizia.
Trovejante voz paterna
ordenando o alternar dos dias
e das estações e dos tons de azul
do céu
que sempre me pareceu tão masculino
Porque lá tinha um trono.
Porque lá tinha uma ordem.
Porque lá tinha um grito.

Mas então vem a lua
e um império inteiro desaba.

Odores de fêmea
umedecem os ares.

A lua, inchada
como a barriga da mãe
quando me contava mentiras

A lua, pálida ou vermelha
ou quando uma sombra ameaça
sua estranha claridade.

E de perto (bem de perto)
-Por dentro-
Uma profusão de chagas escancaradas
Crateras
sobre as quais
distraídas astronautas
de tempos em tempos
vêm pisar
alargando feridas
fincando bandeiras
enlouquecendo
Para, em seguida,
desaparecerem para sempre.

 

Simone Teodoro nasceu em Belo Horizonte em 1981. É leitora compulsiva de poesia. Distraídas Astronautas (Patuá, 2014) é seu livro de estreia.

 

Categorias
94ª Leva - 08/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Myriam de Carvalho

 

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

POETRY

 

Though the rainbow is richly-coloured,
It will soon fade away.
Milarepa

1.

“Quem boa cama fizer, nela se deitará”
– Provérbio português

 

Hoje é dia 10 18
Data que me traz à rija têmpera
das palavras,
das mais doces às mais duras,

As minhas palavras são temperadas
como o ouro, como
o aço,

As minhas palavras são deusas consagradas,
da linhagem dos sentimentos os mais puros, mais
profundos, mais complexos, mais
sentidos,

Que as palavras são para ser amadas!
Entrego-me ao poder das palavras
como àquele único amante que me eleva
às âncoras onde se fundem corpo e alma.

As palavras são para ser amadas!
Com as palavras se salva ou se condena,
com as palavras se escraviza, ou se liberta,
com as palavras se louva, ou se despreza,

ou se ama,
Com as palavras se escolhe o destino –
a vida – ou a morte –
como quem faz a cama

 

 

2.

 

“Tão pobres somos
que as mesmas palavras nos servem
para exprimir a mentira e a verdade”
Florbela Espanca

 

A minha guarda não me larga.
Fétida, pútrida, maninha.
Algemada, a coragem que se apaga…
– Amanhã – dizem a mãe e a madrinha

– é outro dia; dorme agora,
descansa em paz, na brasa dos
grelhados. Deixa lá, que se tiveres a
tua hora, ela virá buscar-te a casa.

– Mas vem, Tu, vem de mansinho
como quem venha de longe… E
com jeito e com carinho,

de facto, vem me acordar!
Que urge o tempo que lá vai,
e eu nasci para Te cantar!

 

 

3.

 

 

A Mão escreve; e tendo escrito,
Vai embora; e nem tua piedade nem teu espírito
Lhe farão apagar nem uma linha
Nem lavar uma palavra, esses teus gritos.
Omar Khayyam

 

Preciso de palavras.
Para cumprir
os versos que me faltam.

Cadela esfaimada – acossada pela ramona –
a farejar migalhas,
cada rio, cada onda, árvore, ou nuvem – um oásis,

Cada momento
a sós contigo,
uma visão

 

 

4.

 

“É só com sangue que se escrevem versos”
Saúl Dias

 

Versos,
minutos,
momentos dispersos.
E a mulher-poema ambulatório,
eterno –
a comoção nos olhos –
caixeira-viajante, estrela
cadente,
clériga-vagante,
garimpeira de esmeraldas,

A carne
à procura de um ninho,
E só o Poema
abre o caminho

 

 

5.

 

Han Shan poems were written on bamboo, wood, stones, and cliffs.

Escrevemos nas rochas antiquíssimas da montanha gelada, nos troncos doridos das
velhas sequóias, dos embondeiros, testemunhas das dores da Terra,

Escrevemos na areia da praia, na espuma das ondas, que nos moldam as mãos, na
frescura das ervas, que nos moldam os dedos, nas nuvens que passam e nos moldam
os sonhos,
Escrevemos nas corolas humildes das flores silvestres, nos ramos dolentes dos
salgueiros, nas bordas das canoas, na água das ribeiras, nos juncos das margens.

Escrevemos na chuva, no vento, no verão, no inverno, na luz e no drama, em qualquer
momento,

Escrevemos na pele dos tambores, nos silvos dos comboios, nos sinos dos
campanários, nas sirenes das fábricas, nas marchas forçadas, nas fugas e retiradas, nos
campos minados,

Escrevemos porque dói a pele mirrada das crianças a quem roubaram o pão,
Escrevemos porque dói a mão ensanguentada das feridas das guerras,
Escrevemos porque dói os refugiados, condenados sem causa.

Escrevemos porque olhamos os ponteiros do relógio, atentos à declinação do sol.

Escrevemos porque amamos.
A Escrita é a comunhão dos xamans
– fundidos todos no fluir do Tempo

 

Myriam Jubilot de Carvalho, 1944, portuguesa. Foi professora. Representada em várias antologias e revistas. Divulgadora da cultura e poesia do período do Al-Andalus. Colaboradora no jornal “O Autarca”, de Moçambique. Publica no site brasileiro “Recanto das Letras”. Dois livros de poesia publicados.

 

 

Categorias
94ª Leva - 08/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Charles Marlon

 

Foto: Luciana Bignardi

 

“Conversaciones nocturnas”(*)

 

O poema ao
pôr-se na
página está
a perder-se
a desperdiçar-
se

e é como se
houvesse – agora –
amor de menos
para com a tua
voz belicosa. E
sei

que em tempos
de guerra, o
coração – desejoso –
de bater cansa
e – de cansaço –
pede

mais.

 

 

   
***

 

 

Não há sombra de alegria neste regresso

 

Sai-se à rua
para buscar fugir-
sem o obter –
ao itinerário
repetitivo
do calendário. Mas

há – ainda –
a espessura do ar
a preencher as
ruas vazias: ruas
de res-
sentimento, desejo
e desengano. Ou

a correspondência
de uma sobra de sombra
a correr a cortina
na contramão do
aceno que por força
do frio não chego a
ceder. Sob o fino

fio da iluminação
em led, arrumo
arrimo num muro
acendo um cigarro
e pre-
vejo ao longe o ruído
do trem que passa – quiçá –

em retorno.

 

 

***

 

 

O calvário

 

As folhas – sempre – em queda livre
e o calendário é como um homem calvo

quando chega o verão; pois
outro ano, transplantado,
há de sobrevir.

Os dias, o costume e as noites,
sim, principalmente, as noites,
não fazem mais que encher de

verdades vencidas, uma caixa
de mentiras. O próprio coração
é – agora – outra mera

f(r)icção.

 

 

***

 

 

Biografia não autorizada

 

Esta vida,
quem foi que autorizou?

Depois da primeira manhã,
tudo é atraso do fim que

não se vê, e já se sabe, a se
arrastar atado ao calcanhar.

Trocando minhas mãos pelas
tuas, o que? Viver é dividir

um engano, a vida:

outra coisa.

 

 

***

 

 

O pêndulo

 

As ruas não
indicam qual-

quer direção, e
não, é certo, darão

no mesmo lugar.

E, no entanto, só
sei ser o que me

ensinaram, estar sem-
pre a meio caminho:

Não dar um passo.

 

(*) Título retirado de “Cien años de soledad” de Gabriel García Márquez. Referência: García Márquez, Gabriel. Cien años de soledad. 1ª ed. Buenos Aires: Sudamericana, 2007. Pg.104

 

Charles Marlon Porfirio de Sousa é poeta e mestrando em Literatura Portuguesa – poesia contemporânea – pela Universidade de São Paulo- USP. Em julho de 2012, publicou seu livro de estreia, Poesia Ltda., pela editora Patuá e em junho de 2014 seu segundo livro, Sub-verso, também pela Patuá.