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86ª Leva - 12/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Marília Miranda Lopes

 

Foto: Bruno Kepper

 

Posso entornar
raiva
desmesura de medos contidos
sem que me prendas
dentro das tuas sílabas de aço

Posso aliviar
o chumbo dos ombros
nos passeios e becos onde tropeças
embriagado…embriagado.

A dor é uma rua anônima
onde já não mora ninguém

Guardamos tanta inutilidade

Ainda haverá espaço
nos silos da memória?

Posso dizer-te a poesia que faço e desfaço
nas minhas viagens
Sem que me leias
Na distância das tuas margens

Assim estou só e não espero nada
A não ser o espanto…a não ser o espanto.

 

 

***

 

 

Não lhes dês acesso ao teu estado
vigilante ou adormecido, inquieto ou sereno
nenhum sopro de vigilância
onde a pele se queime de píxeis

Não lhes dês réplicas e cerimônias de caixões de vidro
ou a face pálida, diante do melodrama da história

Dá-lhes o cerne desse gosto natural
onde o romper do caminho é o nascer de uma ovelha
e o seu primeiro berro

Esta estrutura de ferro e betão tem-nos mendigos
em tecidos quase rotos

A caligrafia social é uma tragicomédia
Encenam-se códigos de conduta
liberdades adulteradas
escritas com revolta e humor forçados

Tudo está viciado e iminentemente caótico
Terreno fértil e propício
à serpente fascista
subliminarmente esperta

Há um gélido pavor
onde o rastejo espreita.

 

 

***

 

 

Quanta discussão
argamassa
e betão

Nos compartimentos
pesam lajes
Dor
neste cimento

Sem térmica a pele
Sem vigamento
metálico

Quase sufoco no pó
neste resto de dia gris

As plumas azuis bailam alto
Tangem
como acordes
a fluidez do sangue

Há uma paixão inexplicável

Ouço um Bach de prelúdios
e fugas.

 

 

***

 

 

Está frio e rebentam ecos
arquitectados
outonos

As folhas tremem
Os pássaros recolhem-se

O abandono é esta ausência velada

A terra húmida das chuvas
o caminho multiplicado
por gotas inteiras
sobre a curva dos ombros

Está frio e continuo a olhar
Estremeço
Como árvore despida

Abrigo-me: pássaro
Vertigem
em nenhum solo.

 

 

***

 

 

A cidade é um disco compacto
fervilhante
titânico
Os corpos de ipad editam
cada trajecto mínimo

A nave da Web
é uma barca antiga
atracada no precipício do tempo

Cruzam-se chips
entre nós, passantes em catálogo

Nas radiofrequências
um cibercéptico manipulado
um antibiónico em deslumbre
um hologrâmico
poema

Colapso

Já não funcionas
Sozinho

Colapso

Tens entranhas vigiadas
webcams na cama onde imerges
sem gotas de orvalho reais.

 

(Marília Miranda Lopes nasceu no Porto, em Portugal. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas (variante de Estudos Portugueses) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Escreveu, entre outras obras, “Poesis em Oásis” (poesia, 1994), “Framboesas” (Teatro, 1996), “Aqua” (conto, 2012 – incluído na antologia Pegadas com autores portugueses e espanhóis – de A Porta Verde do Sétimo Andar) e “Castas” (Poesia, 2012 – Cadernos Q de Vien de A Porta Verde do Sétimo Andar – Galiza, Espanha). Tem participado, com poesia e prosa, em algumas revistas literárias e antologias (Portugal, Espanha, África e Brasil))

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

leonardo MAthias

 

Foto: Bruno Kepper

manchas mínimas

reter, da travessia instável
sob retinas degeneradas de outro
agora
aquilo qual aflige
e deforma o que some
ignóbil, extirpar o medo
dos braços; estocada
– à frente –
abrir bem os olhos, horizontalmente
fixar o osso na pálida
pele,
dentro do som das sacolas, seus cortes secos,
manchas mínimas desfolham
sob um falso oco, o susto
– o cloro da manhã volta,
cerze tons, todos
os sabores quais não mais
se sente –
leveza esquecer
sobre a branca pelagem das horas, àquilo;
respirar
fundo, tudo o que pouco importa

 

 

***

MASSAS: recline

você fuma
você vai até a esquina
e carrega cigarros entre os dedos:

você tem sono mas
queima:

você vai aos poucos perdendo as qualidades

e em gesto resulta o peso
e o fogo adensa o vago

do que se ocupa em corroer
o que te escapa:

e você reclina

– não se sabe mais
onde encaixam-se
essas massas de coisas
que você vê –

e você perde
se cerca de um ecossistema construído aos poucos
e você parte
e ele permanece sem você:

ele pára em você
ele te arranca

 

 

***

 

 

dentro das gretas
dos sonhos,
presas debaixo
do espelho dos olhos,
as coisas,
ensejam seus ritmos secretos,
descobertos,
num impassível
talvez.

 

 

***

 

 

adaptar é romper:
abre-se a porta.
enfrenta-se a fina brisa.
é esboçada uma coisa ou outra.
a dúvida não aumenta nem diminui, segue num esgar a esmo.
desce-se a rua, odiando os outros transeuntes.
senta-se, vê-se um filme.
o homem é ritmo, vertigem de si mesmo.

como soubesse exatamente do que precisa, repete: “para a eternidade a estática”; continua a caminhar.

 

 

***

 

 

nivelamento:
ainda insiste em restaurar seu ânimo,
talvez isso o canse tanto.

apenas um imã estranho mantém tudo aquilo. delicadamente.
sentado, lendo não-sei-o-quês, teme a pressa dos outros, pela periferia dos olhos.

por vezes já considerou a caminhada, prefere não colidir, destroncar vetores: percebe, de relance, a momentânea mudança na composição de cores.

(leonardo MAthias (São Paulo, SP, 1987) atua em literatura, artes visuais e design. No setor editorial, mantém parceria com a Editora Patuá, pela qual ilustrou e assinou projetos gráficos de mais de cem títulos. Publicou seu livro de poemas “de pé”, em 2011, pela Editora Patuá. Colaborou para veículos como os jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo. Em 2012, realizou sua exposição individual “As Janelas de Rilke”, premiada pelo ProAC Artes Visauis (Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo). Atualmente desenvolve projetos direcionados à pesquisa relacional entre literatura e artes visuais)

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Lou Vilela

 

Foto: Bruno Kepper

 

Enredados

 

Ela traz em sua pele ancestral o teatro, o culto a Dionísio; eu, todas aquelas máscaras amalgamadas. Talvez, tenha sido um guerreiro cantado, recontado, dono de uma desconcertante objetividade. Talvez, nada nobre. Máscaras! Finda que as pendure, demonstre em cena, em cima, quando coros, entoados, formos um só: emoção! Não aquela coisinha insossa, fins de efeito moral – hipócritas! Ser Ilíada e Odisseia, parte umbral! Algo tangível, alternativo, interativo, de cunho social, alcunha desvalida – arte!

 

II

relógio que acorda
que desperta o passado
apesar de avançada a hora
que se nega
que não quer ir embora
: parados ponteiros
d’outrora

 

III

alimentava olhos tristes
dentes brancos
um gráfico senoidal
uma rede
um eco
dentro
entro
ntro…

 

IV

saída de um quadro
de Toulouse-Lautrec
– púrpura!

entre um trago e outro
cruzadas
um cabaré qualquer
Paris.

antes do beijo, do gozo
o ouriçar da pele
algumas chances
partidas
em telas.

 

V

éramos cactos e flores
sem jardineiras anis
nossos ares, distâncias

até tocarmo-nos naquele instante
capital
: crédito, 3 X

quando seguimos, cada qual
cartões, carteiras e nossos vasos
– paisagens

 

VI

desaguar
perder-se inteira
forjar-se
pedra, sabão
recomeços

 

VII

uma xícara trincada
tempo, apego
aquele quadro, esse nada
um eu além
quiçá um mote, sem conserto

 

VIII

tão querida quanto trêmula
não importava!
naquela idade
bom mesmo era poder quebrar
silêncios
foi assim o nosso encontro

 

IX

a moça da saia vermelha
nada me dizia
estava ali, impassível, em sua beleza ácida
queria voar
não havia asas
apenas poesia – ponte aérea
entre vãos
e todas aquelas vozes celulares
ar rarefeito unindo
motivos, vidas, saguão

 

X

as fraturas
e esta sensibilidade exposta, sonar
riem-se dos laços plácidos

 

XI

havia a história das corujas
vovó dizia: ‘rasgam mortalha’
e eu por um tempo acreditei
que não eram humanas

 

XII

ajoelhados em torta calmaria
ruminam, sobretudo, vendavais

 

XIII

como quem posta-se morto
o homem trabalha
volta à casa, come
transa, dorme
não acorda
trabalha…

 

XIV

Imoral é a hipocrisia que impera entre tantos;
são os dedos quebradiços da ética;
um olhar pseudo espanto [o ciclope em jardim panorâmico].

Imoral somos nós
mal fa(r)dados humanos;
são os monstros assíduos que criamos.

Imoral nossos atos impensados
pútridos paridos do descaso
sepulcros do que podia ser.

 

(Lou é pseudônimo; Sandra é marca pessoal, escolha de mãe; Vilela, herança de pai. Nasci em Natal/RN, mas resido em Recife/PE, desde a infância. Administradora, Especialista em Logística. Uma das integrantes do livro Maria Clara – uniVersos Femininos (LivroPronto, 2010). Possuo poemas publicados na agenda da Tribo (2012/2013/2014), e em diversos sítios na internet. Lunática, patética – nos intervalos, dialética. Move-me uma fome de horizontes: à procura da forma singro mares ins.pirando nau.fragios, auroras, crepúsculos, silêncios… – faço-me moinho de ventos: sopro (re)versos)

 

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85ª Leva - 11/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Fred Matos

 

Arte: Julia Debasse

 

 

cangalha

 

jamais me perguntei
porque tenho apascentado esta manada
cujos olhos perfuram meus silêncios.

gostava que não me apertassem o pescoço
nem que me exigissem manter limpos
os meus sapatos de mármore.

mas nunca, jamais, nenhum pio.

caminho ereto e sorridente como um asno
cuja felicidade é a ausência da cangalha.

contudo, tenho intimamente gritado
que todos os meus sonhos se diluem
como a neblina após a alvorada.

mas não.

estão todos surdos
nunca serei ouvido
exceto na opacidade dos meus olhos
cobertos de musgos.

 

 

 ***

 

 

balada para uma advogada

 

imagino-te imersa em códices
e que enquanto o cérebro decodifica
as filigranas de um processo insosso
a alma mergulha em outro vocabulário

as páginas voam
uma mão rascunha o contraditório
a outra, cotovelo sobre a mesa,
apóia a levemente inclinada face

há que verificar jurisprudências
precedentes que se ajustem à tese
e que tudo se cumpra no devido prazo

a alma, contudo, alheia, tece
sonhos, poemas, outras doutrinas
contraponto ao que o cérebro messe.

 

 

 ***

 

 

 entre mim e mim

 

“Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos”.
Cecília Meireles

 

não sei quem destes
tantos sou agora
se o que ri,
se o que chora,
se o que não chora nem ri,

mas pouco importa porque
qualquer deles sou passageiro
tenho neles
a dimensão do mundo inteiro
tendo todas as idades percorrido

 

 

***

 

 

balé

 

tenho um mundo sobre os ombros
e ânsia de navegar
mas rasgaram-se as velas
e sobre pálpebras de pedras
sal sol suor
mas não há mar
mais não há
apenas este peso nas pernas
e ânsia de caminhar
mas quebraram-se meus ossos
e sobre as nossas cabeças
um balé de poréns
senões e todavias
e girando como um pião
na velha arca de vidro
uma constelação de sins
uma nebulosa de nãos.

 

 

***

 

 

o verbo

 

a percepção é farol
devassando mistérios
palavras são silhuetas
luzes bailando nas trevas
o poeta um velho cego
tropeçando substantivos

e o verbo…

ah! o verbo
um tirano sem coroa
sem trono, manto ou cetro
e que, no entanto,
voa.

 

(Fred Matos é baiano, casado, três filhos, dois netos, três livros publicados: “Eu, Meu Outro” (Poemas – Editora Poesia Diária, 1999); “Anomalias” (Editora Kelps, 2002 – Poesia) e “Melhor Que a Encomenda” (FUNCEB, 2006 – Contos), além de outras participações em antologias)

 

 

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Janela Poética IV

Marcantonio

 

Arte: Julia Debasse

ATIVIDADE INTERNA

Há tanto dentro de ti
que não queres conhecer:
flores semi-enterradas
na tua aridez íntima
que não se dão
à carícia afásica dos teus dedos.

Há também um sol tresnoitando
que bronzeia a película das tuas veias,
e do qual não podes suspeitar
na tez pálida das tuas palavras.

Há um regato de vontades
onde peixes desmedidos nadam
– forçosamente anfíbios.

Há uma garça escura
em pé sobre teus intestinos
que bica o fundo dos teus olhos
tão logo comeces a ignorar a luz.

Há muito trabalho no teu interior,
polias, rolamentos e roldanas incansáveis.

Há sim uma oficina que quer abrir fendas
no sono eterno,
que faz hora-extra enquanto tu engendras
dicionários
sem saber que o que te obceca
é a palavra morte,
esse ramo da noite
que carregas durante o dia.

 

 

***

 

 

PLANAR E POUSAR

 

1 – Pluma

Os dedos trêmulos não conseguem pinçar a pluma,
Mordiscam o vazio, estrangulam a cápsula translúcida
Sem constância.

Nem os olhos conseguem acompanhar os espasmos fugidios
Da ciliada fração de asa, tão branca ocorrência de ignorância
Taxionômica.

Ó pluma randômica, em que esquina de voo poderias escapar
Da ideia de pássaro que te aprisiona?

 

2 – Osso

Em vão os dedos intentam escapes diagonais:
Não haverá força centrífuga
Que sagre as falanges distais
Em pterodátilas.
A qualquer quiromancia verruma a artrose
E o vento arrefece nas vias descencionais.

É para o chão que o osso ruma
A despeito da aérea gnose:
Calcifica-se a pluma.

 

3 – Pouso

O pensamento plumiforme
Não poderá tornar às asas
Do livrepássaro:
Perde impulso,
Pousa palavra,
Falta-lhe espaço.

 

 

***

 

 

MESQUINHEZ

 

Eu amesquinho as tuas asas
Enquanto ejeto os meus temores.
Assim, eu mesmo me torno mesquinho
E verto um vinho que não beberia,
Vinho acre de volume amazônico.

Nas vielas em que me vejo
Comigo mesmo não cruzaria
Se fora antes advertido:
É que estou vindo esse ser soturno
Com as mãos nos bolsos sempre.
Quem me garante que não trago
Neles escondida uma navalha
Para me desfigurar o rosto?

Ao menos sei que me avizinho,
E tenho um átimo de segundo
Para evitar a minha má companhia
Em sua descida aos subterrâneos.

 

 

 

***

 

 

ANGÚSTIA

 

Não há recorte no vazio
que espere pela palavra
como o desdentado espera
a prótese que o faça esquecer
dos dentes naturais;
ou como um sorriso sombrio
de bueiro aguarda uma tampa;
ou como uma tomada fêmea
aguarda os pinos;
ou como uma algema aguarda
os pulsos;
ou como uma sequência aguarda
um número;
ou como a casa do punho da camisa
aguarda o botão;
ou como um rolamento aguarda
uma bilha.

A palavra cai num largo vazio,
como uma pedra num cânion,
como na luz difusa do mundo
um parto.

Ou cai num meio fluido
(continente transparente, já ocupado)
qual um comprimido efervescente
no Atlântico:

não é dela a espuma  que vaza na orla
nem o som das ondas é o seu chiado.

 

 

(Marcantonio, natural do Rio de Janeiro, é artista plástico e poeta (ainda não editado em livro). Reside atualmente em João Pessoa. Escreve nos blogs Diário Extrovertido e O Azul Temporário. Seus trabalhos em artes plásticas podem ser vistos no blog-portfólio Cadernos de Arte)

 

 

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Janela Poética V

João Filho

 

Arte: Julia Debasse

 

 

 

NITIDEZ SUBMERSA


Nos sapatos confortáveis
um pouco velhos e gastos
a fuligem das cidades
redesenha o seu mapa.

Não me venham com saudades,
sombras, vultos e fantasmas,
o peso e a profundidade
das coisas não nos sufocam.

Dos caminhos caminhados
— avenidas, becos, praças —
multidões tumultuosas
na fuligem dos sapatos.

Pó do mundo respirado
em seu tédio corrosivo,
não escapam os voos altos
das naves mais arrojadas.

Na verdade, nada escapa.
É preciso a cada istmo
contra essa névoa cegante
renovar o gesto limpo,

porém não lave os sapatos,
não porque registre tantos
itinerários, andanças,
mil labirintos urbanos, a

fuligem aí pousada,
cartografia amorosa,
indica veios, filões
dessa nitidez submersa.

Alargue as tuas pupilas:
paciência ao inspecionar
cada trecho dessas nódoas;
nos interstícios, estrias,

nas grafias do diáfano,
se entrevê pela fuligem
a clara sustentação
dos fios frágeis do mundo.

 

 

***

 

 

SALVADOR, 1996-2013

 

Dos acidentes que a modelam
em luz e sal, essas escarpas
são os desenhos que mais pesam,
a vida em queda dos sem mapa.

Ali do alto, que é abrupto,
a cidade é curva contínua,
sinuosidade negativa,
abre-se em praias e ravinas.

Disseram gorda em seu amplexo,
digo salitre, vento Atlântico:
salga e apodrece em paradoxo.
Aqui se canta um velho cântico:

lá no São Bento, anjos mulatos;
em toda cúpula e pilastra
pesam arcanos e Evangelhos,
da vida menos a mais vasta.

No Santo Antônio Além do Carmo
o casario nada ensina;
sim, a não ser o som amargo
do que ruindo contamina.

Tudo externado? Não o âmago,
por isso engana quem a vê
cidade-entrega, as cores gritam
em cada esquina o seu não ter.

A precisão só vem de cima —
luz em ladeiras, luz marinha,
a luz em flor, a que combina
a dor do nu, o mel da vinha.

 

 

***

 

 

Para José Luís Franco

 

Esteve aqui, durante a tarde e nunca mais…
E lenta, lentamente, sua ausência cresce.

Mais uma. Porém, perdas não são sempre iguais,
e o tempo, irmão, nem tudo amadurece.

Dói e assusta qualquer resquício de presença,
falta é peso e não vácuo e silêncio,

pois arrastamos nossa carga imensa
nesta margem extrema que nos vence, e o

que temos e tocamos é tal solidão,
e mesmo as coisas mais amadas são amargas:

os valores sem níquel perdidos ou não:
dedicatórias, fotos, versos, as recargas

da memória tão vária na mesmice.
A carne arde só e não há lágrima

para dessedentá-la. Luz franca sem lástima.
No travo dos adeuses fica o que eu não disse.

 

 

***

 

 

DIDÁTICA

 

O áspero poema? Não mais quero.
O inviável abismo? Já descri.
Foi com inabalável esmero
que duramente me persegui.

Se tudo é insuficiente, espero.
O instante vence o tédio, senti.
Se a valsa mudou-se em bolero,
o ritmo pouco importa, vivi.

Pelo tropeço suavizei o passo.
Seu corpo é o sentido que devasso
devagar, como quem respira.

Gota que se equilibra suspensa —
a vida. Mínima que é imensa,
quando pensa que é real, delira.

 

 

***

 

 

LUZ PRIMEIRA

 

É possível que tão inquieto quanto este,
menos o acúmulo de desacertos de sua rota,
mais o céu primevo
e o azul bruto.
É provável que já fosse isto,
porém tosco a palmilhar seu sentido
e se assombrasse de estar desperto na disposição geral de tudo;
melhor não, nem mais puro,
não isso,
talvez intactos alguns caminhos,
e a relva e as águas e os bichos
fossem realmente mais livres.
A luz primeira veio com o primeiro grito,
e o invisível foi o medo mais duro,
porque o visto era em sua metade crível;
ao perceber que negar não era resolver,
a morte
foi o mistério mais agudo.

 

 

(João Filho nasceu em 1975, em Bom Jesus da Lapa/BA. Participou de algumas antologias, dentre elas: Contos sobre tela, Editora Pinakotheke, 2005, Brasil; Terriblemente felices. Nueva narrativa brasileña, Emecé Editores, 2007, Argentina; Travessias singulares – Pais e filhos, Casarão do Verbo, 2008, Brasil; Geração Zero Zero, fricções em rede, Língua Geral, 2011, Brasil; Popcorn unterm Zuckerhut, Verlag Klaus Wagenbach, 2013, Alemanha. Publicou Encarniçado, contos, Editora Baleia, 2004; Três sibilas, poesia, Dulcinéia Catadora, 2008, e Ao longo da linha amarela, contos, P55, 2009)

 

 

 

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Janela Poética I

Gustavo Petter

 

Arte: Julia Debasse

 

 

biografia autorizada de um bom garoto:

não fora menino monossilábico
não guardava cigarros no quarto
não fora à feira do livro
de porto alegre com dez
reais mais grana do metrô
e comprou henry miller
castañeda kafka
marquês de sade

não bebeu as lágrimas
da garota  de jeans
& camiseta dos ramones
não permanecia no vagão
para ouvir jazz
e o ritmo dos trilhos
não encenava suicídios
fora o melhor atleta da turma
não contemplava tempestades

imagens como: naufrágio aceso
rumor dos ossos, vestir
as vísceras do primeiro amor
não o excitavam

de fato
o olhar é doce
e estrangeiro nos retratos.

 

 

***

 

Acesa como girassol de van gogh, no princípio. Incidindo sobre mesa e livros. Pétalas em chamas e aroma luminoso. São tantas formas de atear cores quentes à sobriedade do quarto: cortar os pulsos, acender um cigarro, pintar os lábios, descascar uma laranja, adotar um gato amarelo de olhos cintilantes. A mais simples: reatar o ciclo e substituir as flores do vaso. Se cultivasse diários, lembraria o momento exato em que julguei cruel tal rotina. O passado recente ainda recende seu sangue.

 

 

***

 

 

meu delírio pulsa
onde despencam
cadáveres de borboleta

onde poesia
se celebra
com orgia ritual:
homens e palavras
se fecundam.

fera miraculosa
vomita o caminho
desde que enterrei
nos olhos
o mapa de pasárgada.

 

 

***

 

 

Mergulhas
em águas escuras.

Metade oculta
outra flutua
em meus olhos.
Corpo lunar.

Disse que o frio
são agulhas.
Permito ao delírio
raie sol.
Então,
réptil imóvel
te aqueces.

Não há musa
anadiômena.
Tudo é linguagem.
Há Botticelli e Rimbaud.
Há signos e rumor
nas palavras
& frag
me
nta
das
Visões.

 

 

***

 

 

Os dentes de eva
rompem com rumor
o rubro verniz.
Entoam o gozo
compasso ritual.

Sustente o ritmo
famélica eva
tua língua navalha
navega meus olhos
de um lado a outro.

Caninos agudos
transpassam o fruto.
Colha minha órbita
o ovo das Visões
encene os delírios.
Baile com Bataille
o último tango.

À porta do paraíso
uiva um cão andaluz.

 

 

(Sou Gustavo Petter, nasci em 1984. Moro em Araçatuba/SP. Para mim signos eróticos e obscenos, anti-religiosos, meta-poéticos e associações livres coabitam com a materialidade da palavra e uma contemplação oriental no corpo do poema. O poema não admite policiamentos morais, estéticos. A liberdade possível é a linguagem)

 

 

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Janela Poética II

Mar Becker

 

Arte: Julia Debasse

 

PERSÉFONE – I

 

penso na mulher que é inacessível como uma estrela de  sal.   um
cálice, uma chaga em backing vocals  no cair das horas.  penso na
mulher que pensa na palavra, e a palavra então se faz  aos poucos
nas bocas das demais mulheres: e a palavra se faz, com a matéria
das flores sonâmbulas e do marfim.

 

 

PERSÉFONE – II

 

sonho ou assédio
lunar,

meninas que se desgarram de si mesmas,

meninas que flutuam como abajures mortuários em torno das bonecas. depois se abaixam para beijá-las na testa e imantar seus corpinhos de pano com relâmpagos.

*

meninas que não falam, magras,
inacessíveis,

tantas meninas, e são altas, e cheiram a algodão e lágrimas.

nos cabelos um nevoeiro de teias de aranha. na pele os sinais em sete eclipses: lua ilícita, lisérgica. a sombra no púbis, no ânus, nos covis das axilas. uma única e mesma noite atravessa os séculos pela boca das mães até a boca das meninas,

e das meninas às bonecas,

num processo difícil de perpetuação
da fome.

 

 

***

 

 

porque eu te amo

desenho teu rosto como abertura, milagre
qualquer dessas coisas que têm precisamente a ver
com o mar, a noite
o pássaro

porque de fato não caberia desenhar teu rosto como desenho
porque eu te amo

uma abertura
um parapeito de sons de sinos sutis
uma palavra com vista
para o mar, à noite

ou para isto que é precisamente o corpo de aléns
do pássaro

da travessia do sangue

teu rosto em teu rosto, apenas
meu amor

 

 

***

 

 

“para domenico a. coiro”

 

além da pele

a palavra

além da palavra

o poema

assim ela entra em tua respiração

em teus modos de ser prenúncio e desvio

para o fogo

o fim e o início: além

polifônica, viva

mulher-pássaro

pele-palavra-poema

o sangue em tuas noites incendiárias

assim: e sobe, enfim

indefinidamente

 

 

***

 

 

[HÁ PALAVRAS…]

 

há palavras para as quais
não há palavras

não se pode vê-las a olho nu, vivas
não se pode atravessar
turvar
o espelho

são
nenhuma
numa

e tantas

e se perdem de si mesmas

todas as palavras-luas virgens como pele: pálidas
à parte do que digo
do que dizes

refletidas
impelidas pelo desejo

da boca
na boca

 

 

***

 

 

[COMEÇARIA DIZENDO…]

 

começaria dizendo o que não posso

que teus suores formam hieróglifos de sal na pele
e que um rosário misterioso se enrola a teus pulsos quando me amas

começaria dizendo que tua respiração tem vista para o mar
e que à noite me debruço ali, silenciosamente

meus cabelos de água-viva
minha língua de virgem
madrepérola

e que à noite

e que me debruço e morro
em tua respiração

 

(Marceli Andresa Becker é formada em Filosofia pela UPF, cursa Especialização em Epistemologia e Metafísica na UFFS e trabalha como professora. Mantém o blog De Ter de Onde se Ir)

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alexandre Bonafim

 

Foto: Jussara Almstadter

 

I

Estou na iminência do ser.
A existência de tudo calou-se em mim.
No além dos pensamentos,
fecundei-me na nudez dos sonhos.
Agora sou límpido como céu
despido de nuvens. Por isso inicio-me
onde germina o voo dos pássaros.

 

 

***

 

 

II

Calei, em mim, a fúria dos acasos.
Estou predestinado a amanhecer
pássaros em toda palavra.
Por isso há sempre uma quietude
de ninhos sobre o meu abandono.

 

 

***

 

 

III

Um unicórnio de levíssimos acordes
pousou sobre o meu derradeiro sonho.
Sua crina de harpa, suas asas de sopro
acordaram-me no coração de todo fascínio.
Por isso meus olhos percebem o mundo
como uma oração secretamente murmurada.

 

 

***

 

 

IV

A sombra dos pássaros
sabe de cor o gosto do meu nome.

Quando alguém me chama,
nascem, do meu silêncio,
frondosas árvores
e um perfume de inéditos mistérios.

O meu nome tem a calmaria
dos ninhos desabitados.

 

 

***

 

 

V

Com tanta intensidade
latejam, vertiginosos,
os meus pulsos,
que a existência do universo
dissolve-se, inteira, no meu sangue.

Todo o girar da terra,
o crepitar dos astros,
o canto dos pássaros
não vibram com mais
ardor e arroubo
que os meus pulsos abertos
em vivo êxtase e esplendor.

 

 

(Alexandre Bonafim é poeta, contista e ensaísta. Nasceu em Belo Horizonte, mas passou a maior parte da vida pelas terras do estado de São Paulo. É professor de literaturas de língua portuguesa da Universidade Estadual de Goiás. É eternamente mineiro em exílio, mineiro nas raízes da vida. Recentemente, lançou seu mais novo rebento: o livro de poemas “O secreto nome do sol” (Editora Patuá))

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Nuno Rau

 

Foto: Jussara Almstadter

 

NOTA MARGINAL 37.

 

Instantes de maravilha que você captura, vertiginosas
lâminas de tempo em suas mãos, você não sabe o que fazer, seu dia
se perde no lixão que vaza dos calendários, cemitérios
de dejetos, ferros-velhos – mas a História
não acabou, nem a sua, se debatendo contra a pedra
(particular, intransferível) que obtura o peito
opresso sob a chuva fina e ácida do pensamento. Pensar,
pensar com os olhos
frios, enquanto na retina
se inaugura o caminho novo sob os mesmos

 

 

***

 

 

escrito sobre o corpo

 

leia se puder
o que segue escrito na carne dos dias
são signos sobre signos sobre signos
soterrando a possibilidade do sentido
mas leia
se puder arrancar o que lhe diz respeito
se puder arrancar a luz da floresta
de símbolos
se puder arrancar das linhas do fundo
escuro deste labirinto
desenhado nas dobras do corpo

não
você não
pode

 

 

***

 

 

NOTA MARGINAL 51.

 

Difícil acreditar na luz, ela
não é mais que outro lado
da treva: e mais que duvidar, você suborna
o coração com lances baratos, em surdina, até
que a iridescência perca sua autonomia,
em ciclos declinantes, sucessivos, como um prazer
ao contrário, bruto, até o chão. Deserto é tanto
o que sobrou quanto
o que estava antes, coalhado
de abismos escavados na planura. ‘Quem foi
que ergueu esta montanha aqui?’, ele disse quando galgou
ao cume, diante
da miragem do absoluto, o riso
apontando para onde o coração (‘deviam
inventar um nome melhor
pra estas deformações’, ela disse, ‘que se assemelham muito
a florações’) insiste
em construir cenários
imprevisíveis, andando rente,
tentando descobrir porque miragens nunca
reencarnam.

 

 

***

 

 

NOTA MARGINAL 54.

 

Curvar-se até o chão, diante
da inocência, ou mais além do pavimento
duro, se fosse tão gasosa assim
a matéria da alma que num ponto
nunca definido arranca um grito
ao ar quando atravessa os tais
dos campos vastos, triscando as balizas do tempo, lentamente
fingindo obedecer a relógios,
e neste empuxo
despenha-se junto a dias e promessas
só para aumentar os escombros e o monturo
a seus pés.

 

 

***

 

 

Daqui

 

a âncora é o corpo, o fundo
não se sabe Morto pela água
das décadas o Homem
-Aranha considera riscar
na areia fina com a ponta
em riste da última fratura
exposta o seu poema
mais abissal: vês? Ninguém

 

(Nuno Rau é poeta, letrista, carioca e leitor. Também é professor da Escola de Belas Artes da UFRJ. Bloga em As Musas Pós-Modernas.  Email: nuno.rau@gmail.com)