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84ª Leva - 10/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Luciano Bonfim

 

Foto: Jussara Almstadter

2 / 6

Vento varre verões
Sol soçobra. Sobra
Céu cinza: chuva!

 

 

***

 

 

3 / 9

Pelo pasto persiste
Renitente relva renhida
Vereda: verdoso verbete

 

 

***

 

 

4 / 12

Pardais pairam paralelos
Flores flagram flerte
Borboletas buscam benesses

 

 

***

 

 

5 / 15

Andorinha: abnegada ave,
Corta céu / certeira
Verão vem vindo

 

 

***

 

 

6 / 18

Você veio voluptuosa
Capciosa canção candente
Instável ideograma: id

 

 

***

 

 

10 / 30

Sentimento: sonolenta sentinela
[Viceja visceral visgo]
Avante, avarento: Amor!

 

 

***

 

 

11 / 33

Amor: aleatório almanaque
Sublime sensação. Surto.
Errática exímia emoção

 

 

***

 

 

12 / 36

Paz: passamos perto?
Guerra: grave grosseria –
Deveras dói demais

 

 

***

 

 

19 / 57

Palavra: préstimo perspicaz
Célebre corsária contumaz
Aquém, além… Acossa

 

 

(Luciano Bonfim nasceu em Crateús (CE) e vive em Sobral (CE). É professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). São de sua autoria os livros: “Dançando com sapatos que incomodam” (2002); “Beber água é tomar banho por dentro” (2006) ; “Móbiles – hestórias e considerações” (2007) e “Aliterar Versos 20/60 + alguns instantâneos” (2013). Integra o Grupo Permanência Provisória de Teatro)




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84ª Leva - 10/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carolina Caetano

 

Foto: Jussara Almstadter

 

Sou um homem vário
embora nem me possa homem chamar
pelas veias tão finas sob a pele que correm
clara, de penugem alguma
e o ventre mole, de um buraco vasto
para a vida

Sou um homem dum bem
amiúde governado, sou um homem casto
de olhos grandes calados assentados
num ponto ameno, sem água, bicas
sou um homem adestrado, pasmado, sadio
de corpo, almas tardias, sede alguma desde a partida
da voz pela boca
que calou-se, cessou, tem preguiça

Sou um gênio bravo
embora assim não me possam dizer
pois mesmo uma parca rolinha, moribunda, arredia
pudesse-me estar ao lugar e chamar-se de homem
de gênio bravo, com as almas tardias
e os olhos salgados, atravessados
do labor prescrito pelo pão, pelo domingo
eterno que espera
o próximo dia

Sou um homem bruto, arrastado, guardado
como os sumos venenosos em perene trancados
sob o corpo da língua
sem hora para isto, sem o dia daquilo
ou ao menos a roupa secando a esperar-me
nos porvires,
nas avenidas, sou um homem cego, esfregando as antenas às paredes da ida
diária, cegamente sabida

Sou um homem salvo, longo, temperado
levado ao brando fogo da feitura abusiva e serena
pelos donos da vida, desta, daquela, dos nomes das ruas
adormecidas
sou um homem chamado de homem sem que assim possa um deus conceber
sem o sangue largo, desde os dias repetidos em que as palavras ainda infantes foram-me os
[homens levando
amiúde e sem anunciada justa piedosa partida
sou um homem  acertado
com as contas das horas, invisíveis e brancas, são os olhos talvez sou um homem
construído e estourado na noite
reavido e adestrado no dia
sou um homem arcado, cercado, dormente
embora não mos possam levar
os bicos vermelhos dos seios, rijos, eriçados
ao roçar qualquer da primeira brisa

 

 

***

 

 

somente vogais são palavras
aproxima-se um lento rebanho
mudos dentes, palato, tratasse
dist’então minh’então desventura,
mas nem tão se carregam sozinhas
quanto em só já pertençam-se suas

levantam-se pororocas
e delas, abluídas,
emergem vogais despidas
a soar como quem se acorda

eis a só sinonímia possível
quando trota o rebanho em plurais
trotem cais, trotem sais, restam ai
nasçam ai, cresçam ai, morram ai
comam ai, corram ai, riam ai
os mares salgados ai,
veleiros atracam ai

não engole – dizem – tua saliva
de vogal não passa tua palavra
aproxima o rebanho baboso
e à boca encharcada se engorda
trotem sais, trotem cais restam ai
os mares salgados ai
veleiros atracam ai.

 

 

***

 

 

coceira no canto da manhã

 

também não é preciso saber se estamos felizes
temos um navio em cada mão
já é um costume o que era prodígio
em tê-los
o fato é que o casco se colide há tanto tempo contra a água (a mesma, dizemos) que um dia a manhã se torna filha de nossas mãos
ou o mar
ou o caminho impossível da linguagem despiu isto, e é tão, meu deus, como é claro, faz-nos pensar
como papai é um brincalhão, e engraçado, olha o que ele fez!
mas papai sempre esteve morto, e o papai a quem chamávamos Docéu nunca teve exatamente um cheiro característico ou masculino sobre o qual jamais precisássemos esforçar para crer
já mamãe cheira demasiadamente onde está.
Daí o caminho impossível do idioma (ainda a voz) despe isto, tão compreensível quanto fora claro e, meu deus, nossos navios se fundem com as mãos e a manhã torna-se filha dum estranho invisível
que despe-se para nós
Então nós cobrimos os nossos olhos com a pele para dormir
precisamente onde oscilam navios, grandes navios ou leves, como é claro
tanto quanto fora compreensível
e talvez apenas o pecado dalgumas palavras tenha nos acometido
subscrito no caminho impossível das carnes e dos ossos
precisamente onde os navios nunca tiveram pronde ir
e ficam salvos.
Para dormir.

 

 

 (Carolina Suriani Caetano, nascida em oito de setembro de mil novecentos e oitenta e nove. Uberaba. Minas Gerais. Serrado)

 


 

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Janela Poética II

Assis Freitas

 

Foto: Jussara Almstadter

 

Sob a fina caligrafia de um blues

 

quem não se sabe dor
é matéria rara
se achegam os espinhos
das rosas do caminho
acodem os açoites
do limo de tanta noite

quem não se sabe dor
é matéria rara
assim se percebem olhos
no avesso das lâminas
como mancha, nódoa
quem vive cego em anelos

 

 

***

 

 

Suíte burlesca para um diálogo com a ausência

 

foste tu nesta distância de muitos quilômetros
a ilha, a quimera, o oásis, pasárgada dos dias
a cotovia desavisada que insinuou a primavera
foste tu que me impuseste silêncio e ausência
nesta seara de corpo que se move em frêmitos
no olho arredio que já se despediu das estrelas
foste tu, este eterno assovio em minhas retinas
a mão que agitou o delicado trovão da espera

 

 

***

 

 

Nenhum silêncio vaza do relâmpago

 

Tudo se perde neste ermo
Neste tecido de linguagem
Nada se fixa nas retinas
Nem o ar soprado do lábio

Espaço sem memória
Flecha solta em extravio
Até teu nome se apagou
Na tez da lâmina, por um fio

Tudo se perde neste ermo
O caminho da nuvem em líquen
A consagração do fogo e do cravo
Este turbilhão que emana do raio

p.s. “Sei que estou vivo
entre dois parênteses”

 

 

***

 

 

Sobre a tessitura do sonho e outros desalinhos

 

havia que tecer a palavra
ainda que fosse a última
e nela contivesse o sumo
a essência que foi estrada

havia que tecer a palavra
mesmo que fosse desatino
e nela contivesse o âmago
frio caos: único e palpável

 

 

***

 

 

Ária para voo de asa breve

 

mergulha o silêncio
em meus olhos
e liberta a alma
do pássaro que
se interroga
em minha mão

 

 

***

 

 

Berceuse de náufrago para refúgio de temporal

 

dos olhos quero a dobradura do pranto
o mar desavisado a banhar-me o canto

do peito perquiro naus e refúgio de vela
o feitiço de cordas rugindo em rebuliço

do coração nada posso intuir em prece
há o desvão de sílabas em passo célere

 

 

***

 

 

Improviso para lâminas, pedras e oboés

 

afio nas pedras minhas retinas
fio por fio a coser melancolias

e o fino tecido a que me alinho
flui na imensidão devagarinho

colho nos olhos rios de algaravia
do aturdido caminho sem utopia

 

 

(José de Assis Freitas Filho é poeta, escritor, sociólogo e mestre em Letras (UFBA), nasceu e mora na cidade de Feira de Santana-Ba). Em 1998, publicou o livro de contos O Mapa da Cidade, pela Coleção Flor de Mandacaru do MAC de Feira de Santana. Em 2009, lançou o livro de contos O Ulisses no supermercado como prêmio do concurso CDL de Literatura de Feira de Santana. Em 2012, publicou O ano que Fidel foi excomungado pela Editora Penalux. Lançou, em janeiro de 2013, o livro Poemas de urgência para súbitos desalinhos pela Editora Multifoco. Edita os blogs: Mil e um poemas e Árvore da poesia)


 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ehre

 

Foto: Jussara Almstadter

 

verbal life

 

no avesso do dia,
lídice aponta o indicador
e desenha sobre a pele
como tatuagem,
um totem para seu libelo:
ama e ao mesmo tempo

disfarça
esquece
esconde-se
divaga
declina
e cala-se

seu archanjo guarda nos olhos
seis âncoras
e lança uma garrafa
com sete linhas ao centro:
disfarce é a neblina do sujeito
……que esquece
……esconde
……divaga
……declina
.e permanece calado

em seu presente imperfeito
amor é  predicado

 

 

***

 

 

flavors

 

I

entre as paredes de vidro da metrópole, ele tem sempre à mão:
um aparelho de telefone móvel regado a 3G,
um tablet empanado com tela fulll HD de 10 polegadas,
um notebook com o recheio de sete contas em redes sociais
e diria um olhar venusiano, desde a janela de uma estrela,
que ele é um sucesso de interação,
mas o ouvido de uma lagarta estacionado em seu quarto no domingo à tarde
concluiria que ele é sinônimo de solidão avançada

 

II

no subúrbio do mundo, no mural de uma caverna
escreveram um beijo com a ponta afiada de uma pedra

 

 

***

 

 

A A.

 

Os sentidos submersos no copo

O corpo
beijando a calçada como se fosse carne,
mas era líquido.

As talhas abarrotadas…

Agora o milagre
é transformar o vinho.

 

 

***

 

 

linha de voo

 

há uma luz que não é janeiro ou manhã
mas chega entre o fim de tarde e seu ocaso

há uma fé que desafia
………..o chão
………..o muro alto
………..o cansaço
………..gente tem por vocação horizonte

amor anda para trás só antes            do salto

 

 

***

 

 

gardênia

 

A flor violentou o muro
da divisa de pedras que a cercava
Já não temia a estrada vertical
Seus pés
brotando
e dizendo:
Crescer não é ter um número a mais
mas um temor a menos

 

 

(Ehre. Nasceu aos onze meses. Aos nove, ainda não sabia que viver era um mergulho para cima. No tempo que tardou para nascer, colecionou espantos. Muitos deles revelados nas janelas dos poemas. A cada dia aprende que escrever é um mergulho para o fundo)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Wilson Torres Nanini

 

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

 

 

boi

 

I

apenas a metafísica
de nossos mitos
explica-nos
– enquanto o boi ergue a cauda
e produz matéria

II

solene,
com mãos transfiguradas,
afago na
(dele) face minha hoje
escassa identidade

III

no meio-dia sem álibi
na meia-noite sem alento
o boi (peso, pelo e poesia
isenta) se indifere pois
intui que plenitude é
– rente ao prazer manufaturado –
deitar-se entre flores
na relva úmida
e lamber apenas
as próprias narinas

 

 

***

 

 

redemunho

                para líria porto

circum-arisco vento célere
– que fico o sigilo do chão de um rio –
em plena empoeirada rua

o sol me cega me sega o sol o sol me seca
o tato e sinto a sede tanta
de um mar interno

e para que meu cerne se reensolare
– poesia não duela afagos
(meço apaziguamentos
peso ausências) –
você me traz alumbrado mar

me relenta me
cataventa

me estende versos em lamparina
adivinhando enfim onde é
mais noite em mim

 

 

***

 

 

anestésico

 

canto andrógino de febre-em-mel
a sereia arisca arpeja
: seu arpão oculto
na vulva

“silêncio me
fronteiriça”
eu esfinge
esquecida da pergunta

beijos
filtrar
com acidentes
as epidemias
até deixá-las
potáveis

enquanto isso
você me
nina

você me
conta
de fadas

 

 

***

 

 

dócil

 

penso gérberas teus
cabelos – cerzir
pudim de leite em pétalas
fotografar o abandono
do olhar de cães caídos da mudança

seios cor e gosto
de arroz-doce
olhos cor de rosa filtram
escurezas – dão de cântaro
relento (ado
cicada febre)

ninar com reza o
precipício sempre prestes –
açude de
assombro e ferrugem

penso paz teu riso
varal com teu vestido
de cambraia ao vento
com um (po)
mar ao fundo

 

 

***

 

 

cor de rosa

 

te dou desdonzelice
o doer que apascenta
algo em ti a um só tempo
noiva e bicho

doer
(pupilas sequestram
o céu o
convertem
em escuridão filtrada)

busco agasalho ou homizio?
vestido querendo
transmutar-se em
pássaros para
adocicar bueiros e óbitos

: a vida de
volvida do
fóssil

 

 

(Wilson Torres Nanini, autor do livro Alcateia (Editora Patuá, 2013), nasceu em 1980, em Poços de Caldas/MG, e vive em Botelhos, Sul de Minas. Participou da Poemantologia da Revista Arraia PajeúBR. Edita o blog Quebrantos, Relances e Abismos ao Relento)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Natacha Santiago

 

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

 

Contraste entre sábanas

 

A un Escorpión

El dulce dolor de tu mordida
– cepo en mi nuca –
compele a la reflexión de los  motivos
Estocadas recibí en el combate
que me enlazan a tu designio
y hacen brotar manantiales de mi sexo
Repliego posiciones
asumo riesgos  necesarios
accedo al parlamento de tu boca   aún sin palabras
cruce de labios o lenguas
Intercambio de fluidos
reclama      sin condiciones
esta víctima feliz
de tus excesos.

 

 

***

 

 

Oda a tus manos

 

Tus manos son braza de contraste heráldico
que preludian el lúbrico camino
arrebato sensorial sin límite en la puesta
traspasando barreras de tiempo y circunstancia.
En fruta jugosa convierten  la alusión
…..con su virtual  beso   al tacto simultáneo
…..en el feroz centro requerido
Tus manos acarician el crepúsculo
sus huellas perduran al albear
y están aquí en las mías       en la fertilidad del ocio
que las suplantan en segundos  de  ardor
………………………………..cuando  tu  figuración
…………………………………mantenida al borde
………………………………………irradia
…………………………..y   colapsa  el  Universo.

 

 

***

 

 

Una tarde     una vida

 

No asombres ni dudes    si ingenua  confieso
vivencias  fabulosas
espíritu y materia del hombre necesario
persistentes      repercuten
…………..sin él saberlo
como eco en lo insondable.

 

 

***

 

 

Natural demente esplendidez

Por la  Magia  marina

Por no enfermar  enfermo
sufro la locura de la no consumación
como si no existieran la hostia y el cádiz
aquí me aculpo         auto-flagelo
me  fustigo
..(Fetichista acaricio el  papel que tuviste entre tus manos)
¿Con que herramientas desentrañar los absurdos del oráculo?
Resulta  incomprensible tu signo de soledad
pende sobre mi cabeza y la colma bajo formas literales
de lo que debiera ser acción
……………………..(te estoy sintiendo dentro)
Por tu influencia magnética
percibí la necesidad de protección
ante  el sello del contagio espiritual
después       fui cediendo sin decirlo
…………………….(te estoy sintiendo dentro)
la inercia conduce hacia tu magia
te debo múltiples caricias
múltiples atrevimientos y hermetismos
la gravitación universal me lleva a ti
inevitable me derramo
por la sobrenatural convergencia que adivino

 

 

(Nascida em Havana (Cuba), Natacha Santiago é poeta, escritora e professora universitária. Atua também como roteirista de tv e rádio, e produtora cultural. Recebeu vários prêmios nacionais e internacionais com sua poesia, além de integrar publicações em países como Argentina, México, Áustria, Espanha, Peru, entre outros. Vários livros seus ainda permanecem inéditos)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

L. Rafael Nolli

 

 

O elefante

 

o tratador com a cabeça
a b e r t a
não pode explicar
a possível dinâmica da………………FUGA

nada sai de sua boca
senão ……………………………………………………./m i a s m   a/
moscas & frag
……………..men
……………………..tos
……………………..dos dentes……………../marfimanchados/

(sangue sobre o chão pisoteado
[a arena no triunfo do touro
……………ou do toureiro])

um milico emerge na cena
pequeno & inútil
o .38 na mão:

o primeiro disparo
põe fim a ladainha dos cães
e ascende das crianças o berreiro

 

 

 

***

 

 

 

Quebra-cabeça

 

1
Com Super Bonder ®
por de pé o esqueleto da ave:
ofício repleto de ócio –
horas sobre ossos ocos
roídos por secreta mágoa

(o ar e o uso)

Silêncio do bico desgastado pelo canto
O formol roubou o brilho das penas
Largo gesto de asas, premeditado
O olho olha a parede e não vê

Mente quem diz: parece vivo

 

2
Palavra por palavra
para por de pé o poema:
bateia roendo o leito do rio

(o anel & o piercing
– de amores extintos –
resgatados para brilharem
again and again
sobre uma luz cada vez mais fraca)

Palavra por palavra
Para por de pé o poema:
broca em busca da cárie

 

3
Nada de novo no front
as palavras de sempre
sobre nova maquiagem

como mulher de revista pornô
: punheta para photoshop

Nada de novo no front
o poeta se gabando por
descobrir terra já cartografada –

habitada por centenas
milhares de babacas

 

 

 

***

 

 

 

Poema # 2

 

Para Rafael Borges Martins

: impossível sem quebrar uns ossos
talvez alguns golpes de navalha na face
……….(como um imprudente zagueiro
……….ou um barbeiro louco)

: improvável sem queimar algumas casas
talvez algumas pessoas em praça pública
……….(como se fazia em nome de Deus
……….ou de homens alçados a)

: fora de cogitação sem pessoas
talvez algumas que não existam
………(como aquelas dos romances antigos
………ou dos sonhos razoáveis)

: impensável sem amor pela vida
talvez por uma mulher ou por um cão
………(como se vê nos bares à noite
………ou na rua aos sábados)

 

(L. Rafael Nolli nasceu em Araxá, MG, no ano de 1980. Publicou “Memórias à Beira de um Estopim” (JAR Editora, 2005) e “Elefante” (Coletivo Anfisbena, 2012)

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Diego Callazans

 

 

Ilustração: Denise Scaramai

Orfeu, não chore mais;
não vê que é inútil?
às moiras nada compadece.

os cantos ao silêncio marcham.
as palavras morrem.
os deuses esquecem.

nas flores o sublime é breve.
a criança encurva.
desafina a lira.
o amor é pó.

a voz mais bela dura só um sopro.

às moiras nada compadece,
Orfeu; não chore.

ainda sopram versos.
a arte é viva para além dos ossos.
os deuses recordam.

há palavras que claudicam,
mas distante é a noite
e o sol, se lhe calhar, não vem depois.

cantemos.
às moiras nada compadece.
não há por que ter pressa de silêncio.

 

 

 

***

 

 

 

jamais te iludas:
a paz é breve.

tolera o verme
somente o quanto
adia a luta.

todo tratado
é uma cilada.

ausculta à lupa
atrás dos sinos.
não dês desculpa
para explodir-nos.

se for preciso,
a mão lhe estende.
force um sorriso.

com vela rente,
indaga o vento.

mantém a adaga,
oculta o intento.
nossa voz curta
assim prescreve.

jamais te iludas:
a paz é breve.

 

 

 

***

 

 

 

não sou senhor sequer
do corpo que me veste

nem minha sombra
me reconhece

o nome a que me ataram
– largo – pesa

meu passo – leve
– nem rastro deixa

meus versos queime
– não há quem tome

ideias… dei-as
– me atrasavam

possuo nem mesmo a ave
que em meu inverno lateja

 

 

 

***

 

 

 

de tênis, botões e jeans devo estar
doravante por questão trabalhista.
as sandálias ficam para as andanças
entre a padaria, a feira e a banca.
todo o resto é área do professor,
montado como uma drag sem glamour.
o professor que faço me comeu
todo o sentido. sou hoje seu hotel.
leitura era prazer, é hora-extra.
a poesia agora é o que me resta.

 

 

(Diego Callazans vive em Aracaju desde a infância. Graduado em Jornalismo, está em vias de concluir doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe. Em sua trajetória, atuou em teatro, dirigiu vídeos e desenhou quadrinhos. “A poesia agora é o que me resta”, lançado recentemente pela Editora Patuá, é seu livro de estreia)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Mariana Ianelli

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

ANDALUZ

 

Vaga pela terra, filho trágico,
Com as tuas duas mãos livres.
Furta o colo das putas,
Escuta o ventre delas exausto.
O retorno sempre admirável de Sarah
Te conduziria àquela velha madrugada de amplidão.
Mas afasta esta necessidade, filho.
Quem uma vez mudou seus sinais correspondentes
Não voltará de pronto.
Nenhuma reparação, não há nada.
No mundo, cotidianamente, andarás sem teu coração.
Por cinco anos andarás, cismando com tuas faltas.
É preciso que seja assim.

 

 

 

***

 

 

 

REMINISCÊNCIA

 

Esquecemos o tema.
Ele fende a madeira, bordando delicado as arestas,
Eu trato a colheita debaixo do cordão da aragem.
Nada nos pertence – últimos mandamentos,
O dever e o tédio dos dias,
Famílias lendárias, ironia.
Estamos de volta à beira dos mundos
E sob o pano se aquieta a razão
Da nossa continuidade secreta.
A geada bate na terra, desatina as séries da fome
E nós não desanimamos.
Todo o tempo pela coragem da maior renúncia,
Todo o tempo de hoje arrancado de falsas glórias.
Ele talha a madeira, aparando com bom jeito as margens,
Eu escolho as raízes, separo a polpa da casca.
Alguma diferença em nós
Surpreende a imprudência da fuga,
Um mistério não comentado,
Uma ambição impedida de voltar ao passado
Que tínhamos matado no tempo por um golpe de sorte.
Não perguntamos pela mãe deixada na ponta da história.
Assim foi resolvido.
Mortos, quebrados ao meio.
Revemos os exércitos calmos,
A conformação de milhares, o vírus temerário.
E nenhum reconhecimento é nosso:
A cela terrível dos anos, o verbo régio da tradição.
Na tarde isolada do terceiro dia,
Nós renascemos do ácido.

 

 

 

***

 

 

 

Ignoro se tu és capaz de voltar.
Quero a novidade de tua ausência
Com uma paixão sem calor que mais aumenta
Quando tento vencer a realidade.
Sou a paz em que acredito inutilmente
E ainda sou a vertigem desta paz.
O desejo de que tu compareças
Não dura em mim do mesmo modo que tua imagem,
Que tua forma irresponsável de mover-se
E se despir e descansar no meu passado.
Tu permaneces aqui sem teu corpo
E, pensando no oculto, eu abandono a existência
Para me deitar no lago das carpas.
Teria sido o final de um verão
E não o tempo em que te foste
Se em vez de amando eu estivesse louco.
Tu vives no propósito de minhas ficções:
Uma terra deserta, estável e mansa.
Nesta hora em que desapareces do meu sonho,
Também eu, predador de tua alma, vou com os mortos.

 

 

 

***

 

 

 

VÉSPERA

 

Há sinais
Que os teus olhos não veem,
Mas neles já se espelha um rio
Desde a outra margem.

Uma náusea das manhãs
De outras manhãs
Começa a distanciar-se
E o que te parecia imenso
Se acantona
Num espaço mal sonhado
Da memória.

Voragem,
O teu nome se descobre
Feito de estranhas vogais
– Um nome
Que jamais conteve
Toda a tua história –
E o que era eterno se ausenta,
Em tudo à espera
De uma nova eternidade.

Esse tremor
Que o teu bom senso não evita
(Não pode evitar a tempo)
Quando roça o teu braço,
Asa de corvo, um certo hábito
Absolutamente livre,
Morto de significado.

 

 

 

***

 

 

 

MIRADA

 

Uma tarde amarela
E dentro a parede rasgada
Já sem as altas janelas
De onde se via lá embaixo
A conversa das estátuas
Com seus olhos de pedra
Infinitamente ausentes
De se haverem voltado ao passado.

Não ficou uma só alma atrás da porta
Nem as portas ficaram.
Os gradis, as lanternas, os pilares,
Foram-se as barricadas.
A vida agora acontece em outra parte –
Era a mensagem, e parecia leve,
Translúcida na tarde amarela
Feito uma casca de cigarra.

 

 (Mariana Ianelli nasceu em São Paulo em 1979. É poeta e mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP). Publicou os livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005), Almádena (2007), Treva alvorada (2010), O amor e depois (2012), todos pela editora Iluminuras. Breves anotações sobre um tigre (Ed. Ardotempo, 2013) é sua mais recente obra. Tem poemas publicados em Portugal, Espanha, Cuba e Argentina. Em 2008, recebeu o Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista) na categoria Juventude. Em 2011, obteve menção honrosa no Prêmio Casa de las Américas (Cuba) pelo livro Treva alvorada)

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Maria Quintans

 

Foto: Milena Palladino

 

 

É neste inferno que se mascara o poema. Um homem nu, duro de barba e porte e o silêncio esta humilhação só suportável pelo medo.

Irei guardar as nossas conversas num balde de luz. Saberemos sempre que a viagem é longa mas que a chamamos a nós. E a passagem ampliará a hora. Todas as horas desesperadas na quebra da negação.

Todos os silêncios são um só. E o leite há-de chegar a escorrer pelo copo cheio onde todos beberemos, indiferentes se gostamos, não gostamos, ou queremos.

E neste inferno a satisfação supõe um instante, um só instante ampliado pela vida encontrada sempre que o sofrimento cai de quatro em genuflexão obrigatória.

Do medo faremos o silêncio e nada responderemos às perguntas feitas à noite, em horas insensatas para os poemas que dormem.

O silêncio será sempre a longa transformação da palavra.

***

há uma sombra enorme na minha cabeça. uma coisa que depois de tudo não é nada mas que quando acontece é hoje. escava doido um alfinete dentro do peito a picar os teus mamilos  que se escondem no armário porque eu sou a minha mão no fundo do teu sofrimento.

há um desenho enorme na minha cabeça que vibra na renúncia da vontade e fala de sereias e de invernos estreitos num corpo a fugir à pressa selvagem, estrangulado numa alegria estúpida, cada vez mais isolada, agarrada à luz que tudo abre se pensarmos que o martírio dos olhos são os próprios olhos, distraídos pelas sombras que andam de um lado para o outro às cegas,

incertas e separadas de placentas-mãos, e pausas na respiração dos homens suaves.

há um caminho deserto na minha cabeça que roda sobre si e nunca compreende a voz que lhe amacia as grades da janela de onde nunca se vê o condenado, por ser ela própria a teia, a máscara – a mão entre a fúria e o amor a comer de pé as bocas enroladas na luxúria dos deuses analfabetos.

lá fora é apenas noite na sombra da minha cabeça.

 

***

os habitantes das árvores transformam-se em peixes
rebolam nas palavras com as antenas de fora e
seguem os gatos.
as flores amar-se-ão sempre
num voluptuoso lago crescido de flamingos-frangos

as formigas nunca poderão descer das árvores com o aquário por baixo.

os flamingos-frangos descansam numa pata e os outros bichos olham-se numa teimosia danada.
é um problema sem solução.

 

 

***

Poema como se fosse tudo

esta é a metafísica saturada do sonho:

não dizer nada

dormir com o cão enrolado à pele

rasgar no desejo o fôlego do poema

 

afundar de ironia a almofada do silêncio.

 

 

(Maria Quintans é escritora em Lisboa, Portugal. Publicou em 2008 o livro de poemas “Apoplexia da Ideia”; em 2010 “Chama-me Constança” e em 2013 “O Silêncio” (Editora Hariemuj).Em 2009 faz parte da criação da Revista Inútil, onde é diretora editorial. Em 2011 cria a Editora Hariemuj, que se dedica especialmente à poesia. Organiza, em 2012, a antologia poética “Meditações sobre o Fim – Os últimos poemas” (Hariemuj Editora))