Categorias
80ª Leva - 06/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Maria da Conceição Paranhos

Foto: Peterson Azevedo

 

 

1. SANCTUS

 

¡Ay, qué larga es esta vida!
¡Qué duros estos destierros,
esta cárcel, estos hierros
en que el alma está metida!
Sólo esperar la salida
me causa dolor tan fiero,
que muero porque no muero.
“Vivo sin vivir en mí”. Santa Tereza D’Ávila.

 

É o planger desse som e o breviário,
odor de incenso percorrendo o ar:
joelhos macerados no calvário
e a visão dos mistérios no olhar.

Que segredo se esconde entre essas linhas?
Falo? Quem ouve? Para quem falar?
Ó Deus, se escutais, por que tão longe?
Por que estais ocluso nesse altar?

Procuro Vossa face na cidade,
Vossa voz nesse canto (ouço cantores),
mas outros, que não eu, têm santidade,
isentos de pecados – e eu, Senhor?

E nós? De que matéria somos feitos,
nosso corpo é errado, esse errador?
O que fazer do corpo, então, Senhor,
tão dúbio na vertigem e desespero?

Mas os santos, tão puros, que segredos?
Pureza é que convive com Amor –
então, Senhor, um corpo para quê,
casa de tanto erro e tanta dor?

O amor, rito de vestes e metais,
entrevisto ao sopé desses altares,
na bela e poderosa liturgia,
nos proíbe do Santo e nos exila!

Nosso espírito se abre à voz dos monges,
e nós, neste desterro, neste adro.
O canto que sabemos vem do corpo,
mas, esta alma de carne e dor e sangue?

E tangem os sinos e sinos só tangem,
e ver, então, que nada nos desdoura,
pois tudo é Cristo em corpo, amen, amen,
é o Corpo de Jesus em nosso corpo.

(Anima Christi, sanctifica me.
Corpus Christi, salva me.
Sanguis Christi, inebria me.
Aqua lateris Christi, lava me.
Passio Christi, conforta me.. )

…que estamos a naufragar,
que soçobra nossa nave
nas profundezas do mar!

Todos silentes, todos tão ordeiros,
dentro das igrejas, e esta capela
e esta roupagem então? É esta, a que tenho,
joelhos tenros postados no lenho,

expiar. Mas o quê? Que mal fizemos?
Nascemos já marcados para o nada:
nada sabemos, nada consentimos –
ébrios de Deus, mas prestes a pecar.

Sangue de Cristo, vinde e revertei-nos
a Vós. Sem Vossa mão, não há salvar-se
do pecado insensato – não saber
das dores da Paixão de Vosso amar.

Sanctus, Sanctus, Sanctus,
Dominus Deus Sabaoth.
Pleni sunt caeli et terra gloria tua.
Hosanna in excelsis.
Benedictus qui venit in nomine Domini.
Hosanna in excelsis.

 

 

***

 

 
2. REMEMORARI

 

¡O lámparas de fuego,
en cuyos resplandores
las profundas cabernas del sentido
que estava obscuro y ciego
calor y luz dan junto a su querido!
San Juan de la Cruz.

 

Da rua vinham vozes e segredos,
as aulas matutinas, mas o medo –
as grades e essas ruas, deslumbrando,
a visão de vitrines – quê comprar?

Passam freiras no pátio dos canteiros
(os da infância, tão bons nos seus sossegos,
mas, estes, de formosos e esmerados,
confrangem a alma, tão desacordada).

As mãos cheias de terra, já me lembro
daquele cheiro denso e do vapor
das horas tênues no fragor do tempo,
ah, se me lembro, e quanto é o pensamento

da terra, terra, terra – tu es pó,
e ao pó reverterás em dia a vir,
tão próximo, a pulsar nesta carótida –
e estes ventos lunares, ventanias,

as mortes antevistas nas gravuras
nas paredes da casa, nas fissuras
do tempo consumido, ah, ainda ontem
olhávamos os rostos das pessoas!

Sem despedidas partiam a mirar-nos
perenes, altas, mãos de tochas frias,
e das ruas revinham vozes fartas:
manhã a pino, ouviam-se cantigas.

A morte assim não se assemelha à outra,
na Paixão vislumbrada, luz de fogo,
porque o Filho do Homem abriu a porta,
a porta estreita e a dor por nos salvar.

Soluçam e gemem no verão de tons
flavos no amanhecer de resplendores
e o tempo trota tonto em seu tropel
de sibilos e sustos, seus ginetes.

Visitando os filósofos, tão cedo,
ingressando nos templos, a buscar
os nexos em suas rimas, rumas, remas
de sons provocativos, solfejar.

Os ouvidos se apuram, e o verbo ausente,
dos dicionários. Uns mínimos verbetes
permitiriam o humano soletrar
e sempre mais e mais, sempre cantar

aos ouvidos cerrados dos incrédulos,
a tudo o que se ouvisse e se quisesse
em folha de papel, essa hora branca
(soluça essa memória, agora estanca).

Ouviu-se um som fulgente, e ledos versos
que se escreviam e iam, sem parar,
beleza movediça – levantando
dilatados espaços – nas procelas.

Desejo de partir, entrar na esfera
de um mapa-múndi ileso. Os oceanos
plenos de água mortal, gelo e punhal
atravessando o ser que freme e geme.

Em momentos assim, por que poesia?
Rumor aceso, sempre, recorrente –
esta lâmpada, em fogo, alumiando
as profundas cavernas do sentido.

Anima mea, e esta voz em surtos
desde a primeira ação – tirar do caos
um outro mundo, e deste, mais e mais,
descortinando vidas, tão ocultas,

com o poder que me destes de plasmar
com estes barros e lamas esquecidos,
escondidos, mas fartos no pulsar
de uma artéria recôndita. Ó vida,

que estás a nos chamar, doces esquinas
de onde se vê o coração sangrando
de um ser imaculado, a nos pedir
para darmos à luz coros de anjos.

A limpeza dos dias, os mais puros,
qualquer que seja a força desses luas,
que podem nos lançar em noite obscura,
pedra e limo na boca de recursos

muito cedo entrevistos, mas atados
a esta escassez humana. Ah, que voos
privados de umas asas, em alar-se
para abrigo ou canção, um nosso porto,

que estava obscuro e cego o meu farol.
E os estranhos primores descerraram-se,
no calor e na luz dos meus amores
a face rutilante como sol.

Mas existem as âncoras suicidas
e mergulho pesado para o orco,
ralentando o fadário de uma vida
sem tempo e espaço – é hibernal tesouro.

Ó barca, vida desmemoriada,
ilhas do Amor, além do navegar!

 

 

***

 

 

3. AS VOZES

 

Amago de la humana arquitectura,
ejemplo de la vana gentileza,
en cuyo ser unió naturaleza
la cuna alegre y triste sepultura.
Sor Juana Inés de la Cruz

 

Cidade, teu recorte sem postais,
repele os estrangeiros da baía
de fulgores azuis – e nossos ais,
e a serpente nos pés, Santa Maria!

A emoção no rosto, a criatura mira:
ali contempla os céus, o seu segredo,
brancas mãos de aleluias invadidas,
e palavras na boca, redizendo.

Que já doem os caninos, a tez sangra
neste ranger tenaz, a ouvir as vozes,
e o ditado abismado nunca estanca
nos ouvidos antigos dos consortes

na dor, na dor da luz, e é só silêncio,
e solidão, silêncio, quem me ouve?
Os sóis se esparramam nesta ausência.
nesta falta de haveres, só os sons

são destino e guarida, desertores,
se se os deixa sem boca, sem contorno.
Ah, que quero outros mares, mais azuis,
que a traição se faz além da Cruz –

na qual o vulto imenso se abateu
em Gólgota. Te vejo, e ali estou
ao teu lado direito, aonde vou
após vasto mergulho – mar Egeu,

além destas iradas geografias,
num tempo de titãs, aonde Atlântida
há muito foi tragada. Geofagia
de terracota ingente no meu cântaro,

todavia partido. E há viagens
no tempo amarroadas e sem espaço,
de onde já descortino essas imagens
de mártires e heróis, daqueles santos.

Oh, miragem suprema, estar ali,
despedida do corpo penitente,
tão castigado e só e tão doente,
fitando largos céus vistos daqui,

dessa pequena greta de angustura.

 

 

***

 

 

4. AS AULAS

 

Ultima hominis felicitas est in contemplatione veritatis.
Summa Contra Gentiles, III, 37.
Santo Tomás de Aquino

 

– Por que me procuráveis, pai e mãe?
O meu destino, então, não pressentistes?
Não pertenço a família, terra ou raça,
concerne ao Pai a estrada do meu fado.

– Mas nos afadigamos e choramos,
ó Filho que sois nosso aqui na terra,
não será crueldade nos deixares
pranteando e buscando nessa esfera

em que nos foi legado o dom de ter-Vos
no calor de um abrigo, nosso lar,
seu pai, na sua oficina, a abastecer-nos,
trocando dia e noite em Vosso amar?

Mas que amor é esse amor, que só retira
o fruto de meu ventre, a mim entregado
pelo Deus de Moisés e de Davi,
nossa casa em palácio transformada,

com o filho de Javé? Assim soubemos,
e assim os nossos passos Vos seguiram..
O Arcanjo me exortou fosse serena
em laborar na fé dos já ungidos

por palavra de nosso Pai eterno.
Ó filho meu, tamanho que sejais,
sede pequeno. Aonde, a humildade
que nos disseste ser das propriedades
gratas a Vós, a Vós, Filho de Deus?
– Reflete, amada mãe, pois não sabeis
das coisas de que devo me ocupar?
Por que me procuravas? Vai-se o dia,

e há uma Cruz já talhada para mim.
Naquele alto aonde irei morrer
padecerei na dor em morte humana,
sê forte, Mãe, meu espaço é o infinito.

 

 

***

 

 

É a pregação da Lei, da lei do Amor,
proclamada no espaço em que vivemos.
Três dias se passaram e os doutores,
ali refletem, atônitos, e só ouvem

o ensinamento sábio do Menino.
Eis o modelo grato, esse tesouro,
e o Senhor, ressurreto, neste altar –
feito carne o seu verbo, e este verso.

Contemplar a verdade é ser feliz,
mesmo se a vida é acre no conforto
num mundo sagitário e que não diz
dos olhos que se voltam para o outro.

Antevê-se, na fé, a recompensa
das horas amargadas em exíguo tempo.
A visão do antevisto banha os dias
em dissabor do sal dessa alegria.

 

 

(Maria da Conceição Paranhos Pedreira Brandão nasceu em Salvador, Bahia. Poeta com vários livros publicados. Exercita outros gêneros, nos quais também tem livros publicados (ficção, crítica de literatura e outras linguagens, teatro, vídeo, tradução, outros). Doutorada em Literatura Comparada pela Universidade da Califórnia, Berkeley. Professora aposentada da Universidade Federal da Bahia. Seu mais recente livro publicado de poesia é “Delírio do Ver” (Rio; Salvador: Imago Editora, 2002). A maioria de sua obra é inédita (nove livros prontos e três em elaboração). Promotora cultural, fundou a Divisão de Produção Literária da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Os poemas aqui publicados fazem parte do, ainda inédito, “Poemas Místicos”)

 

 

 

Categorias
80ª Leva - 06/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Neuzamaria Kerner

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

LILITH

 

Mostro-me para sair do exílio
onde me colocaram
e tiraram minha voz:
eu feria os princípios do recato,
assim foi o relato dos escribas
que me condenaram
a ser poeira no livro oficial.

Fui tida feiticeira
de energia visceral
que consumia a paz do meu companheiro.

Queixoso, dizia-se prisioneiro
dos meus afagos.
É certo que o envolvia, não nego!
mas o que ele não admitia
era estar sob o meu comando
ou ter-me como par.
Rebelei-me, afinal fui feita livre
e queria iguais direitos.

Vingou-se e cobriu-me de defeitos
diante do Pai.

Excluída
fui mandada para a treva do mar profundo.
De lá,
gerei desejos
e os enviei para queimar
o corpo de Adão.
Sua carne reclamava e desesperado gritava
por clemência.

O Criador cientista
rápido como a  urgência de um raio
trabalhou à luz de vela,
da criatura tirou uma costela
e fez o primeiro teste de clonagem.

 

 

***

 

 

PASSAGEIRO (NAS CATEDRAIS)

 

Tenho viajado de catedral em catedral
vezes silencioso
outras barulhando sinos
para dizer da minha presença;
vezes pagando dívidas
outras contraindo-as
mas sempre honrando palavras
para dever menos.

Tenho viajado de catedral em catedral
e quando estou no centro de suas naves
vejo como funcionam engrenagens humanas
que mesmo solitárias não funcionam sós:
……..peças por peças movem-se dependentes
……..e independentes das minhas próprias.

Quando iluminadas as catedrais
……..uno fios
……..reparo molas
e tiro seus rangeres com óleos das lamparinas
que mesmo quando sem chamas
é o bálsamo que encontro – somente nas catedrais –
para os consertos precisos.

Os talentos para o sustento de cada hora
são extraídos das catedrais invisíveis
mas vistas apenas em presenças sentidas no interior:
…………………tão poucos talentos!…
…………………tão tantos haveres!…

Sou viajeiro
passageiro nas catedrais
que permanecerão nas lembranças
……..nas ruínas
……..nas reformas
dos tempos que me levam para a próxima catedral
até quando for mudado
o meu estado de matéria

……..não sei quando
……..porque velho
……..porque manco
……..porque falho
……..quase cego
……..canso fácil…

Mas sei que a distância entre as catedrais e meu destino
se encurta e me alonga por igual…
afinal é para isso que tenho viajado
de catedral em catedral.

 

 

***

 

 

TEREZA D’ÁVILA

 

No quadradinho de tua cela
vi teu êxtase tanto pedido
também a seta partida
do peito do anjo divino.

Da minha própria cela, Tereza,
volto os olhos para ti
e digo com toda certeza:

também fui alvo, Tereza,
também fui alvo, Tereza!…

pois que tenho a seta inda presa
preenchendo meus dentros vazios.

De tu
– não sei bem o que querias –
mas meu coração, Tereza,
não pode ser só de Jesus
e nem quero por alegria
as dores da Santa Cruz.

Sei que me sabes, Tereza,
pois que me vistes mergulhar
em olhos de mar nascidos
nos claros da luz solar.

De um outro anjo lanceiro
– qual teu poeta João –
recebi o que poucos entendem:
o prazer de ficar na prisão.

Tu que estiveste comigo, Tereza,
quando a espada do destino
pendeu para a minha cabeça
a tua estendida palma
desviou-a  suavemente
para o centro da minha alma.

O teu destino, Tereza,
no teu dia foi consumado,
mas o meu ainda não sei…
só sei que me foi ofertada
num copo do anjo a bebida
aquela água, Tereza,
que mata todas as sedes
e dá vida a quem quer vida.

Tim-tim!

 

 

(Nasci no século passado com fome de palavras e até hoje vivo desse alimento que ainda me sobra para adornar o espírito de quem tem o peito aberto. O teto que me foi dado para viver é dividido com 7 bilhões de pessoas de todas as cores, de todas as falas, de todas as caras, de todos os credos; com todos os que vivem na carne e os que vivem em forma de fluido cósmico universal. Sou feita à imagem e semelhança da humanidade porque dentro de mim cabe a mais doce ou a mais vil das criaturas. Troquei, doei e recebi saberes com estudantes de vida assim com eu. De certa forma ainda vivo assim porque trocar e doar são atributos da generosidade, menos que da justiça. Dentro desse esquema (trocas, doações, recebimentos) escrevo porque na medida em que faço isso me somo e me divido neste mundo que é nosso)

 

 

 

Categorias
80ª Leva - 06/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Leonardo B.

 

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

Du Coeur (incompleto)

 

Disseste ou escreveste milhões ou muitos milhares de palavras.
E deve haver nessa nebulosa uma estrela que seja a tua. Não a saberás nunca.
Vergilio Ferreira

 

Vai e diz
do quanto sopro morno dito em vão
[e de acordo com a ciência houve
por breve sopro no peito astro!],
da parte, da cor
dos quantos quatro cantos do dia
que não te inventam já
não combinam,
como à dor do dente sem raiz
como à ilha que te represa
ao sol posto sobre a mesa, envenenado
sem país, sem sul norte, vai
antes que seja interminável a manhã,
vai, parte
parte a parte que te condena
já veneno do sabor
da cor do coração,
já tremor
da terra que te atrapalha, e parte
o passo onde o pé te tropeça,
antes que seja dia de mais, a mais.
Deixa para trás
o dia, voa, cai
vai e diz, e

faz do traço do giz o tronco
da voz, a quase fronteira
quase pressentimento
dum eu inteiro, corpo presente
estranho equinócio de ninguém,
vai, vem, diz ou

como quem diz,
parte!

 

 

***

 

 

Já fui astro sem abrigo

 

Para Helena Terra

 

Sabem-me a mar as mãos que em mim derramam
o traço de giz, o fecho do circulo que me abriga
repousado na terra, o corpo do corpo recolhido no chão

[e que não se faça dia, ainda não!]
que cuidam-me da luz que se adentra em astro que já fui
pela porta no sol alinhada, bordada raiz onde também se envelhece o coração.
Sabem-me a manto, as emendas provisórias na linha da vida
essas rugas mãos de tecido frágil e fugaz,
que apesar do silêncio, quase murmúrio, quase espinho
do eu que em desalinho, não finjo, não sou capaz.

Já silêncio, ao primeiro canto da terra, às raízes do chão em giz derramado
no círculo que me adormece,
[talvez luz, talvez dia o dia que acontece]
sabem-me a mar essas mãos, eu não.

 

 

***

 

 

Instante

 

Ainda há tempo,
ainda há barro e pedra,
grão da negra terra feita chuva,
para construir,
a tão urgente, a grande nuvem
de papel vegetal,
agora
que ainda há vento
e aprendizagem do caminho
que invento, devagar.

Ainda há tempo,
ainda há por cosmo um lugar
um peito adivinho e teimoso
na pegada do primeiro chão
que invento
devagar,
nas formas do céu em linho
o corpo da ave, o movimento
do rio que na nascente se demora
em água anis,
e também
o que no mundo se faz ventre,
a nuvem dum céu que não erra,
que havemos ainda
por tábua, por vidro, por pedra,
aqui e todo o lugar, o mais além
onde ainda há tempo

para construir, a tão urgente
a pedra mole
que bate dentro,
desigual
e para tal, haja a vontade
porque ainda há tempo.

 

 

***

 

 

Um Anjo Nasce

 

Para André Mehmari, com admiração

 

Em certas manhãs que na medula
dum espinho
na água e no sal,
no linho
remendado no sopro das cinzas

revolvo do chão
como se fosse corpo,
o canto da terra
e então um anjo nasce.

Em certas manhãs
e apesar das águas abruptas, tão calmas
como palavras
da palavra, da raiz o saliente silêncio
primeira comunhão

antes que se faça azul
o dia coração
branco ou negro, cinza rosa velho baço,
devolvo insignificante, o corpo
ao nome que me já não sei

e ao mundo, e no mundo
quer eu queira, quer não
um anjo nasce.

 

 

***

 

 

Como quem diz um homem, por vezes poeira frágil

 

Em cada homem
há uma viagem para um planeta longínquo…
(Para os pobres é a Terra.)
Em cada homem, José Gomes Ferreira

 

 

o que haverá de prender o homem ao chão que pisa, quase nada
ou como quem diz um passo de passo, já da brisa vento breve sobre a terra, quase

fronteira, quase fronteira, quase nada
ou como quem diz da viagem, a poeira frágil quase pegada

do astro que no homem se teima, chão momento, vão finito
como quem diz corpo urgente, corpo do dia madrugada, quase

tinta clara na página breve do mundo, diria, esboço primeiro
ou como quem diz, um homem por vezes poeira frágil
guardador de infinitos, margens e ventos, como quem diz
se há outro eu, eu sou a viagem.

 

 

(Aquele que se assina como Leonardo B., nasceu em Lisboa. Sem “linhas mestras” bem definidas, construiu parte da obra poética sob o apelido de Ricardo S. Desse período constam colaborações irregulares com o DN Jovem. Mais tarde colaborou no das artes e das letras, suplemento cultural de O Primeiro de Janeiro, até à reformulação daquele suplemento. Só em 2009, com a criação do seu primeiro blog, Na Linha das Fronteiras, e mais tarde a Barca dos Amantes, chega a uma mais ampla divulgação, e por opção, não editou até esta data em formato de livro… o que crê que possa acontecer no próximo ano)

 

 

 

 

Categorias
80ª Leva - 06/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Edson Bueno de Camargo

 

Foto: Peterson Azevedo

 

 

as pálpebras

as pálpebras
alquebram
em sono senil

as sombras
são pedras duras
de quebrar
em sonhos

o pão
não alimenta
a mão
que morde
os dentes da fome

a palavra vai
para além
destas fronteiras agudas
repousam na língua

ali se cristalizam
em gotas calcárias
e músculos

 

 

***

 

 

todas ausências

 

1

o menino
seus olhos de pires
emulando uma coruja
e o brilho de pios agourentos

facilmente se assusta
e o tempo todo
foge do dia

dentro de seus sonhos
todas as noites
cobras engolindo pedras
digeridas
carcomidas
defecadas
em limpos diamantes

tudo sob um céu azul cristal
dia eterno
e os olhos bem abertos

2

a menina tímida desengonçada
tem os olhos
rasgados no rosto
trabalho de arado cirúrgico

o útero
sempre à luz do dia
a luz do mundo
à vista de todos
aos que quiserem ver
e aos que não

não se admira
ter tido cria tão cedo
a crianças semitransparentes
que nunca tiveram
solidão ou escuridão

sonha com serpentes
vagando em desertos vermelhos
o cheiro de sangue nas ventas
e o rosto materno nunca visto

3

à noite
menina com lágrimas e espigas
senta-se sob a grande árvore
sob a sombra da noite

chora por todas ausências
os filhos
sempre alçam voo
assim que nascidos

 

 

***

 

 

a fome

 

recobrou o olho
e este tinha fome
a fome insaciável dos olhos

e o olho cobrou a fome
desde os tempos imemoriais da fome

o quanto dar de comer ao olho
se este não se sacia

quanto de velhas fotografias
tanto de livros amarelos
jornais dobrados até se tornarem quebradiços
cartas de amor não correspondido
e flores e frutos secos guardados em gavetas

quanto de moedas antigas
de quinquilharias

a fome voraz de papéis velhos
e dedos envelhecidos
óculos para miopia

de tantos e todos tempos e temperos
que calaram em renascimentos

e aí se destilou o dia
com a luz coada
de olhares furtivos pela janela
e seus vidros ensebados e turvos
………………………………………………..cor que se esmaecia

 

 

***

 

 

a parte que te cabe

 

para o amigo Celso de Alencar

 
Circe
amarrou a Ulisses
não com correntes
usou os músculos de sua vagina

mesmo estando em êxtase
a saudade de seu chão
e do cheiro do esterco das ovelhas
o chamavam para casa
e se libertou

Circe disse fica
mas Ítaca clamou mais alto

o esperava em casa
uma vagina mais mansa
e doméstica
sem grandes bailados
e malabarismos
mas que demonstrou um furor selvagem
ao se fechar aos machos
que não eram para ela

e na vingança e na morte
se abriu em sorriso
enquanto seu homem
trespassava seus adversários com flechas

nas noites que se seguiram
Ulisses não sentiu saudades
da insaciável bruxa deusa

Penélope
cansada de tecer
exigiu a parte do homem
que lhe cabia

 

 

(Edson Bueno de Camargo foi operário da indústria, dentro de uma realidade suburbana. Muitos de seus primeiros poemas foram escritos no “chão da fábrica” com cheiro de máquinas. Escreve desde muito jovem, sempre muito prolixo. Na maturidade, passou a ter uma relação com a poesia que vai para além da literatura, a poesia é sua experimentação do sagrado. Escrever poesia é seu tempo do sonho. Os poemas aqui presentes fazem parte de seu mais novo livro, “a fome insaciável dos olhos”, recentemente lançado pela Editora Patuá)

 

 

 

 

Categorias
79ª Leva - 05/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Stefanni Marion

 

Desenho: Bárbara Damas

 

 

consolidação

 

o balouçar dos tempos está rangendo
o escárnio surgindo frio pela manhã
dentre vogais que se misturam
nasce a doçura rasgando ingênua.
armadura ginasial nunca polida
dentre dissipados olhares se abrilhantam
sem rumo levando ao descobrimento
degelando essas sensações estupefatas
numa consolidação platônica dominante.

se eu tivesse um sonho
ele seria o pesadelo.
moeda em cobre fundido
no fundo da bolsa
nunca trouxe sorte.
se eu tivesse um pesadelo
um dia seria sonho.

 

 

***

 

 

entre minhas frestas

 

um tanto irritante
deitou-se no tapete da sala
sorvendo o cheiro da geladeira
precisando de limpeza.

um tanto amável
acendeu as velas
iluminando os poros
em meu corpo ácido.

um tanto irritante
reclamou das manchas
negras e antigas
no fundo da banheira.

sol nascente
um oriente
plantado feito arroz desnudo,
ficou irritando e doendo por dias,
guardado entre meus dentes
feito massinhas mastigadas
de bolachas japonesas.

 

 

***

 

 

flamejante

 

o início perde o rumo
quando lanço chamas
nesse abismo inflamado
em devaneios bucólicos
flamejantes feito ritos
sarcásticos esmorecendo
gota a gota no quintal.

o nariz?
o que é o nariz?
– sentença em riste
buscando amadurecimento.

 

 

***

 

 

temporário

 

os trilhos da cidade esperam
minha cheia sangria.
às sete da manhã
vem o primeiro trem
e sua sonora carga amarela
invade as ruas do arpoador.
desaparece nos trilhos,
evade meu pranto sem crenças
e volto pra vida com cheiro de morte
temporário.

 

 

***

 

 

sóbrio

 

arfar e sentir o drama inveterado
gota a gota retratando as lágrimas
sóbrias nessa madrugada mnemônica.
não nasci ou amadureci neste nevoeiro
entre discos e canções dos bandoleiros,
odeias tudo em mim e não sentes nada?
sem sol, lua ou cartolinas recortadas
para meus primeiros trabalhos escolares.
nessas madrugadas apenas vício e chamas
me afastam e não sou parte dos seus sonhos.
desconexo nessas pequenas noções de vida
sôfrega voltando a destruir tudo outra vez.
pai, não há mais lamparinas nos cômodos:
sou seu sexo violento sem revide,
a placenta que caiu e não alimentou
em seu nome e do filho que se fez.

 

 

(Stefanni Marion nasceu em 1981, no dia do aniversário de sua mãe e no meio do caminho entre cidades do litoral sul de São Paulo. Já se envolveu com teatro, cinema, curadoria artística, mas acabou rendendo-se ao encantamento pelos livros e graduando-se em Biblioteconomia. “Temporário” (Editora Patuá) é seu primeiro livro de poemas)

 

 

 

Categorias
79ª Leva - 05/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Fabiana Turci

 

Desenho: Bárbara Damas

 

QUEDA

 

I.

te sonhei Dionísio
em teu abandono.
e te esperei,
lasciva,
por três ciclos lunares.
é a inteirez da tua presença,
quando me tomas,
que guarda o corpo
nos enquantos.
é esse estar
inteiramente
em mim mesma
e ainda assim alheada
que faz com que eu construa,
do meu corpo,
tua morada.

 

II.

e por te querer Dionísio
fiz-me templo
de chorar e louvar
loucura e grandeza.
os olhos, arrebatados,
não inventam:
é o peso de quem se fez
máscara e Deus
o que, ao corpo-casa,
retorna, refazendo-se.
por ti mesmo ocupas
desde o pequeno eu
ao universo meu ampliado,
entoando cantos de recusa
enquanto invades,
com tuas palavras,
o que as mãos do deus
já não tocam.

 

III.

te exigi Dionísio
em teu rigor.
meu ventre suplicando
fluxo, a por em curso
vento e águas.
da minha lucidez
fingi voo cego
abrindo campo para o mergulho,
de um outro azul, mais intestino.
fechava os olhos para os teus escuros
fazendo-me noite e esquecimento.
da tua dor, fui o gesto mesmo,
suspenso em teus extremos.
e dormi sobre a tua vergonha,
mesmo me querendo
sol e grito.
pensava-te assim,
inteiro,
descortinando o teu pior
entre a cama
e o ocultamento.

 

IV.

te percebia Dionísio
em cadências.
tu devolvias o olhar,
sendo.
e porque não te quis fixo,
modulavas existência,
passeavas sentimento,
em melodia densa e vivaz.
conheci fugas em
fragmentos escalares.
nos instantes, fomos
tempo
e contratempo.
do teu corpo, toquei
desníveis, falésias, falhas abertas
como se o próprio som
do terrível anjo.
do labirinto,
veio à tona
a tensão latente
e me percebi
versão pulsante
do teu tema.
queria ter sido uma nota
menor
entre a tônica e a dominante.
quem sabe o corte nas incumbências.

 

 

***

 

 

NOTURNO

 

o chão da casa range
os dentes da noite.
tábuas, esquadrias,
abrem frestas vagueando
vozes melancólicas: uma
composição. o vento
por trás das estantes
a folhear palavras
imprecisas ditas na mudez
dos toques. A noite
e suas bocas enormes.

o prédio respira o mesmo sono
dos bichos adormecidos
de humanidade. o céu caído
sobre o mundo, sem promessa.
e o mar distante ainda farfalha
o tempo, que progride como o som,
entre o que não se vê, até
amanhecermos.

 

(Fabiana Turci é formada em Filosofia e mestranda em Educação, Arte e História da Cultura. Presa entre a palavra e o silêncio, escreve para incomunicar. Publicou o livro de poemas Desobjetos (Ibis Libris, 2009) e organiza a coletânea História íntima da Leitura)

 

Categorias
79ª Leva - 05/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Ronaldo Cagiano

 

Desenho: Bárbara Damas

 

MEMÓRIA

 

desço as escadas do velho porão
onde hibernam infâncias amputadas

não vejo destino para os aniversários
diante da nauseante mendicância
de afetos
que ainda decora
as paredes mofadas,
albergue de fantasmas.

entrincheirado no passado
extraviado do futuro
há um presente alienígena
que sussurra no mato que engoliu o jardim.

tempo de corrosão
e abstinências.

lá fora
o mundo invadido
pelo lodaçal de supérfluos
está perdido, arcaico e desigual
diante da estupidez inflamada
de pastores que vendem gato por lebre
nas praças esterilizadas pela cegueira
da fé demencial dos evangélicos.

a casa desabitada
não revela o mistério
de tanta distância construída

umidade e fungo
batizam cada percurso
de minha descompassada lembrança

mas a memória, abrigo de punhais na mente,
não cede à cortês diligência da morte
que tão cedo impregnou de silêncios
os cômodos, os lençóis, os brinquedos
a cerca de arame farpado
o varal sem rumor
de panos

entre tantos desencontros
desencantos
descaminhos
o bisturi de Freud
duelando com o criminoso silêncio de Deus
responde às minhas dúvidas

 

 

***

 

 

ESCRUTÍNIO

 

no fundo da alma
a memória não sossega:
rio invisível e insondável
mas sublevado
……………………..e dissidente

febre que arde
e ressuscita
nas carcaças do passado

feito um saci,
salta
da floresta opaca e fria
……………….da noite

A Iniludível me acena
sem cordialidade nem música
com a inflexível veemência da morte,
que derrota a fé ensimesmada dos homens
e não camufla a inércia imperdoável de deus

na epiderme do oceano de dúvidas
uns olhos cavalgam sem sair do lugar

é noite alta e fria

não sei se é você ou é o luar
que exuma meus fantasmas
e exorciza a babel de mentiras

sei apenas que
quando agoniza a madrugada
e migra a população de vagalumes
o sol irrompe feito um furúnculo
e tudo pulsa em meu olhar

é a urgência da vida
a me desatinar

é a certeza do amor
vencendo a retórica imperial
…………………………………………do tempo

 

 

***

 

CICLO

 

Enquanto o cortejo seguia
alheio aos gestos automáticos
das mãos que cerravam as portas

……..outros continuavam a vida
……..imunes à que passava,
……..despojada de sua última chama.

A cidade não seria diferente
porque amanhã
outras notícias viriam

e o rio no qual navegamos,

……..Tejo a repetir a lógica de Heráclito,

seguiria rotineiro
como o sangue em nossas veias,
entre urgências e desatinos metabólicos.

Entre o solene despedir dos mortos
e a maquinal dor dos vivos

………..a criança se demorava
………..num olhar pensativo e inquiridor
………..rumo ao insondável.

E percebia,
ainda na antevéspera de sua existência,
que viver é um lento aprendizado de extinção.

 

(Ronaldo Cagiano é mineiro de Cataguases, viveu em Brasília, onde formou-se em Direito, e reside em São Paulo. Publicou, dentre outros:  Palavra Engajada (Poesia, 1989),  Dezembro indigesto (contos, 2001 – prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 2001), Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio, 2006)  e O sol nas feridas (poesia, Dobra Editorial, SP, 2011). Organizou as coletâneas Poetas Mineiros em Brasília (Varanda Edições, DF,  2002), Antologia do conto brasiliense (2003, Projecto Editorial, DF) e Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo  (LGE, Brasília, 2006))

 

 

Categorias
79ª Leva - 05/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Virgínia do Carmo

 

Desenho: Bárbara Damas

 

 

No avesso dos voos

 

Há pássaros que me doem no avesso
dos voos. Como se engolisse a vertigem
de um caos de penas e perdas. Acentos
graves em desassiso na queda invertida das
lágrimas

………do fundo de mim para a superfície dos teus
…………. olhos.

E sei que não há outra pele que me salve
da solidão. Porque tu corres-me por dentro
do corpo. Qual seiva espessa do ar que me
atravessa. Um abismo de sopros a romper-me
o peito. Tempestade de reversos. O oposto do
teu toque.

Há pássaros que me doem no avesso
das asas, sabes. Como se a vida fosse este caminho
de pernas para o ar. Um horizonte desenhado
ao contrário. Um céu que piso sob o peso da terra.

Há pássaros que me doem, meu amor.
No avesso dos voos.

 

 

***

 

Decomponho-me

 

Sitiada na hora da torção da luz, decomponho-me.

Em excertos de estrada húmida. Em filamentos
de solidão.

Entorno o meu corpo nos intervalos das tuas mãos
recorrentes, e contemplo a agonia amplificada dos
ruídos na crosta arfante da terra.

…………[Consubstanciação do impacto da memória.]

Como as gotas de ti no vidro sujo.Como aquele
cheiro a interior prescrito.

…………. [Como se não pudesses
habitar-me mais.]

E no movimento perplexo dos olhos golpeados
de horizontes intermitentes, respira-me o lamento.

O meu grito lentificado,

…….. [pedestal do teu aceno]

a sangrar visões de nós. Um uivo grave, desnorteado,
a ser-me eco mortificante na pele.

E sitiada, ainda, na hora da torção da luz,

……………decomponho-me.

 

 

***

 

 

O silêncio das pedras

 

Apetece-me o silêncio das pedras
A quietude das areias primitivas de um chão
sem dono
A lonjura sem fundo
nem pele
que me doa

Apetece-me a nudez das escarpas
salgadas
A liquidez inabraçável
do mar

O alívio de não ter peito
O descanso das mãos

Apetece-me o silêncio das pedras

 

 

***

 

 

Um rosário de dias sem nome

 

Sobre a mesa do meu jardim de pó e ar,
um rosário de dias sem nome. Dias
(in)seguros na compressão de dedos partidos.
Dias memoriados em cacos de porcelana azul.
Contas de um céu por limpar.

É um rosário de dias sem rosas nem chão. Dias
desfiados em mistérios de um tempo menor, a tremer
por dentro das coisas, a doer nas dobras dos dedos
partidos.  Atravessado de vestígios da salvação
por encontrar.

É um cordão de pedras e nós a engolirem silêncios
irrespiráveis.
Estranha cadência de uma procura qualquer.
Três terços de um todo por acabar.

 

 

***

 

 

Cansada

 

Cansada de me ser um relevo abstracto na textura das coisas que piso.
Cansada de percorrer esta cordilheira insular de abraços possíveis.
Aprendi a respirar vazios estranhos ao meu corpo e dói-me já o peito
de tanto me salvar dos espaços contaminados.

Cansada de calcar a ternura em gavetas que já não fecham e depois
partir para um mundo onde não cabe todo o tempo que ainda falta.

cansada.

Cansada de tudo o que me sobra do chão.

 

 

(Virgínia do Carmo nasceu em Champagnole, França, mas foi em Trás-os-Montes (Portugal) que cresceu e aprendeu a escrever. Licenciada em Comunicação Social, o seu percurso profissional passou pelo jornalismo, mas foi no mundo livreiro que encontrou a sua verdadeira vocação. Atualmente leva adiante um projeto (Poética – Livros, arte e eventos)  que, mais do que uma livraria, pretende ser um espaço de verdadeiro e profundo encontro de livros e pessoas. É autora das seguintes obras: “Tempos Cruzados” (poesia), Pé de Página Editores, Coimbra, 2004,“Sou, e Sinto” (poesia), Temas Originais, Coimbra, 2010,“Uma luz que nos nasce por dentro”, Lua de Marfim Editora, Lisboa, 2011)

 

 

 

 

Categorias
79ª Leva - 05/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Demetrios Galvão

 

Desenho: Bárbara Damas

 

alguém comeu minhas mortes

 

minha boca suja de sono no teu sonho sujo desata novelos e subtrai gengivas: gosto de deserto em prato de cerâmica, língua escorregando pela geometria defasada. arapuca armada: impossível resistir ao ato de se abismar. a janela cega revela nódoas, sequelas atrás dos tijolos. o silêncio costurado com barbante faz lembrar que as raízes cortadas fazem falta: – onde furtaram meu quase nada há um incêndio infinito e asas longe do tronco.

 

 

***

 

 

no quintal de nossos umbigos

 

o teu riso desata um solstício – ( suprimimos os travessões, os dois pontos, as vírgulas, atropelamos a semântica com beijos salgados. retiramos do relento os balões desgarrados, retiramos também do guarda-roupa os sonhos velhos e os refizemos para o uso diário. nos encontramos quando erramos os caminhos, quando na interseção dos itinerários brincamos de nos perder e de nos achar e de trocar de pele.) – a cada gesto… um poema de amor, um samba, uma brincadeira no quintal de nossos umbigos.

 

 

 

 ***

 

 

 perdi muito mais que uma orelha

 

e tudo vaza pela ferida do pé: as árvores sorumbáticas, os peixes dopados de barbitúrico em mazeladas coreografias. a paisagem cabe em garrafas, enfio os fantasmas em um cordão e os penduro no pescoço. os dentes estão sujos, o corpo livre, os ossos antes oxidados sentem a velocidade retomar seu lugar, os espinhos nascem fortes novamente, devo a alguém o que me foi de vazio. o telefone está mudo e o colchão acolhedor em sua extensão longitudinal, província dos sonhos que arrebenta o nervo dos álbuns de fotografias, capitania tremembé guardada na memória das pedras. – e tudo vaza pela ferida do pé.

 

 

***

 

 

a espinha de março

 

i
a espinha de março atravessa a garganta do abismo.
um relâmpago indigente cai no deserto de presságios
perpendicular às asas verdes inoxidáveis que me pertenciam.

mordida pela nevralgia do cão andaluz
a menina conseguiu apanhar a mão no vazio da rua,
………………………………………………….antes que as formigas
………………………………………..chegassem.
quando no entardecer chovia no sol-laranja
os últimos demônios que ainda esperneavam se iam,
deslizando lentamente pelo orifício do horizonte
acompanhando o movimento do astro sumindo.

 

 

ii

21 gramas é o peso da alma dentro da anatomia rígida do caroço,
…………………………………….do hermetismo flácido da certeza
……………………………………..quando os pássaros caem feito folhas
……………………………………………..no chão abjeto,
……………………………………………..um quase-som do violinista verde.

 

impossível saber que código contém aqueles rostos:
………………………………………..quase poço sem fundo.
………………………………………..não importa.
fazendo a barba dos olhos com navalha
eu deixava a assonância dos acordes criar sons de cor,
……………………………………..jardins sinestésicos
………………………………………pra alimentar camaleões.

 

iii
março passa a conta-gotas em pingos diacrônicos,
um gole no líquido baldio da xícara
e um gosto suave insiste em permanecer,
………………………………imitando os dias teimosos.

as alpercatas do tempo acariciam degraus,
………………………a tangente dos cílios,
……………..o astigmatismo do olho d’água:
a diáspora das figuras-carcomidas que moravam nos armários,
……………………………………………………………gavetas,
…………………………………………….estantes da lembrança.

 

iv
– os insetos digerem o mundo na sua enzimática-paciência-atemporal,
tal como as ostras em seu silêncio-de-calcário-inacessível
guardam os pecados do mar num cofre impermeável.

 

(Demetrios Galvão é Historiador e poeta. Nasceu em Teresina-PI, cidade onde reside. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (FUNDAC/PI, 2005), Insólito (ed. Corsário, 2011) e o cd Um Pandemônio Léxico no Arquipélago Parabólico (2005). Foi membro do coletivo poético Academia Onírica e um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011), além de ter participado da produção do cd Veículo q.s.p – Quantidade Suficiente Para (2010). Atualmente edita a revista Acrobata)

 

 

Categorias
78ª Leva - 04/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Tatiana Druck

 

Foto: Rosa De Luca

 

 

BICHO GEOGRÁFICO

 

Entrou no corpo do outro como larva
portando a bandeira da colonização

tomou o corpo
de refém
e andou

em chão batido
vias planas
vazias de ocupação

tateou
sem mãos nem tentáculos
arma ou carinho

escavou
levantando pele, entranhas
procurando planos

vasculhou
roupas, veias, papéis,
revirou enganos

em busca de explicação
para sua falta de caminho

 

 

 

***

 

 

 

MALDIÇÃO

 

Atreva-se a comandar o ritmo de um coração –
por maldição, entreva-se para sempre no corpo
uma batida simbólica espasmódica nostálgica
disforme sistólica atávica
e descompassada

 

 

 

***

 

 

 

MANDINGA

 

Depois de maldizer os santos
racionalizar os fatos
desfazer quebrantos
recolher as flores, apagar as velas
demolir o altar e o querubim

Segurei com firmeza meu próprio pulso
sem batimento
e com a fé que dispunha
rompi em prantos e sem testemunhas
a fitinha do senhor do bom-fim

A partir de agora, não creio nem em mim.

 

 

 

***

 

 

 

CÚMPLICE REFLEXO

 

O espelho atesta o que não dá para mudar:
o tempo, o prazo vencido,
o tônus que se foi
ônus da trajetória.

Sem julgamento,
o espelho mostra
a melhor versão da história
que Deus nos deu:

avisa o que está faltando,
arrola o que dá pro gasto,
ensina truques e esquemas
e anima antes da festa
com um ângulo de visão belo
ou uma viável distorção.

O espelho não faz trapaça
mas admite pactos:
como fiel escudeiro
esconde em segredo alguns traços

Assobia, disfarça, esfumaça,
mas não conta –
nem que o quebrem em cacos.

 

 

***

 

 

 

PARTILHA

 

Parto
em dois o que era nosso:
o pudim do almoço
os jornais da cesta
o cobertor de lã sobre o sofá
alguns cristais
Deixo
as contas decimais:
o calendário asteca da geladeira
uns quantos sermões
segredos viscerais
Pedaços inteiros de lembranças
não fracionais.

 

 

(Tatiana Druck é autora do livro de poesia “Par e Impar” (Ed. Mecenas, POA, 2010). Tem textos publicados em diversas antologias. Conquistou prêmios literários nacionais, entre eles, o 1º lugar em crônica no VIII Concurso Mário Quintana (2012) e o 1º lugar em poesia no XXVI Concurso Brasil dos Reis/RJ (2011). É advogada, mestre em Direito Privado pela UFRGS, tem 42 anos, vive em Porto Alegre)