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73ª Leva - 11/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Cícero Galeno Lopes

Arte: Fao Carreira

 

 

As rosas, Dafne

 

As rosas são belas, Dafne, e como,
A quem por deleite só as cultive,
………Por prazer apenas!
A quem as cultive, que delas viva,
Não serão tão belas: quanto esforço
………Por menores penas!

Sol mesmo ou água de um regato
Não se dão igual a folha e raiz:
………Estão; não estão!
Mata uma por falta, outro por demasia;
O tempo se esvai no só cultivar,
………E a rosa é pão!

De onde tempo, Dafne, quando o tempo
Para admirá-las brotar, colorir,
………Se é mister fazê-las!
O homem, pois, que tem na rosa ofício,
Rosas não vê, senão o que delas tem:
………Regá-las n’é tê-las!

 

 

***

 

 

Apesar de tudo… aqui venho e virei

 

Aqui venho e virei, pobre querida.
Machado de Assis

 

Apesar de tudo ao meu amor levarei flores.
Escondidas entre espinhos levarei as pétalas.
Contra a morte das flores na mágoa do amor,
investirei com a força da esperança crédula.

Aqui venho e virei entristecido e grato,
procurando as vozes que se ouviam ontem.
Aqui voltarei envelhecido e consternado,
acrescentando dias, descontando noites.

De que oco do mundo a vida tira a morte?
De que surpresa a paixão arranca a dor?
Como em tantas dificuldades fomos fortes?

Desmaiam as luzes, mas, pontilhando as cores,
teu olhar renasce e brilha – esperança e sorte –
e ilumina a estrada por onde fores.

 

 

(Cícero Galeno Lopes é natural de Uruguaiana, RS. Vive em Porto Alegre. Tem doutorado em Letras pela UFRGS. É ficcionista, poeta e ensaísta, com livros próprios e coletivos editados nessas áreas. Participou de dicionários temáticos no Brasil, Portugal e Espanha. É autor do conceito de literatura de dissidência. Tem suas atividades registradas na Plataforma Lattes do CNPq)

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Nuno Rau

 

 

Arte: Fao Carreira

 

 

NOTA MARGINAL 2.

 

A linha sinuosa do amor atravessou sua pele
e você,
noite sem luz, todo por dentro um escuro sem tamanho,
não pode perceber em que parte do corpo foi escavado este caminho estreito e suas margens difusas.
Fora, há dia e as manhãs se repetem encadeadas
quando luzem sobre a linha que se afasta e inauguram outros territórios, acolhendo peregrinos  pelo que se segue, curso aberto.
O tempo atrapalhou-se no seu fluxo e lhe ancorou a este entreposto,
presente que nunca se afasta:
os propósitos desencontrados são projéteis contra a pedra à sua frente
e agora sim, agora é o meio do caminho,
você está no meio, mesmo que algo lhe diga,
qualquer coisa lhe diga
que não seja assim.

 

 

***

 

 

NOTA MARGINAL 66.

 

Não há mais rosa ou girassol. Para um outro
jardim deslocado, o aroma da pétala
ainda paira no ar rarefeito.
Seca, a terra – entregue à solidão de uns astros
que nunca respondem – agarra-se ao espinho
e o emoldura: dele é que faz a pena
e risca em si, como se tatuasse auroras na agonia,
uns versos, íntimos
do espanto.

 

 

***

 

 

FALADO

 

não deu pra fazer o retrato falado do mundo, meu amor

retirando as escamas da imaginação (repara o brilho
de prata, fugidio, antes de mergulhar
na sombra, sem a menor possibilidade
de sonho) sobrou esta substância
informe, espessa e sem mágica
que a gente depois pendura em ganchos
nos incêndios sucessivos (onde quem se queima
somos nós) das palavras.

 

 

(Nuno Rau é poeta, letrista, carioca e leitor. Bloga em As Musas Pós-Modernas.  Email: nuno.rau@gmail.com)

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Vera Lúcia de Oliveira

 

 

Arte: Fao Carreira

 

 

 

PARA DENTRO

 

como águas que jorram
para dentro

dei para pisar
o rangido dos ventos

dei para virar
em volta dos passos

dei para lavrar a veia
em que piso

dei para revolver
os ossos

 

 

***

 

 

A CULPA

 

o que é
a culpa?

senão a mão que
não existe mais
aguilhoando
o mesmo cão

senão o olho desse cão
que não existe
abocanhando
a mesma mão

 

 

***

 

SEMPRE

 

fui sempre
de percorrer na carne
..o puído dos vãos
sempre de pôr o pé
na intimidade
das veias
sempre de lavrar
os dias mais
ferozes
……..para que doendo
….amansem a morte

 

 

***

 

 

MEMÓRIA

 

abundância de rastros
que não se cancelam
fascinados pelo assombro
de atravessar as esperas
com seus passos abortos
subindo pelas artérias
em busca de outro corpo

 

 

(Vera Lúcia de Oliveira nasceu em Cândido Mota e cresceu em Assis-SP. Atualmente reside na Itália, onde ensina Literatura Portuguesa e Brasileira na Università degli Studi di Perugia. Entre os livros publicados, estão Geografia d’ombra (poesia), Fonèma Venezia, 1989), No coração da boca (poesia), São Paulo, Escrituras, 2006; A poesia é um estado de transe (poesia), São Paulo, Portal, 2010)

 

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

João Filho

 

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

 

ESTAMPA

 

01

 

Sempre falta alguma coisa
feito saída de viagem,
porém nada foi esquecido,
definitivamente certo:
sempre falta alguma coisa —
no vôo errático da ave
em busca, no acúmulo de
atos, na escolha do vário,
no acatamento do imenso,
na recusa da identidade,
ou disso tudo o contrário, mesmo
que não veja, falta alguma
coisa, que se concretiza em
trajeto ou imobilidade.

E essa falta integrante do
ser que ao Ser aspira ergue com
sua falha uma divisa
onde se apoia, um momento,
e é toda a sua cantiga.

 

02

 

Sei que esperamos, sei.
O sonho que se desata?
Na sala o terror súbito?
O até aonde nos for dado?
A Volta em julgamento?
Quem apressa a data sai
de dentro da esfera; quem
cada momento amarga,
ainda espera: a possibilidade
aberta que deságua em
Atlânticos de sentido,
no sempre espanto ou no
todo apagamento.

A espera e as suas leis,
a sua disciplina
austera e demorada, aqui nesta
brevidade que nos é
dolorosamente doada.

 

 

***

 

 

IMPONDERÁVEL

 

Quando nosso deus envelhecer
virá uma morte maior, de
nada adiantará os colossos
erguidos nas planícies e nos

desertos, nas montanhas sem fim
de nossa alma em sua jornada
agônica pelos séculos;
de nós salmo nenhum ao vento

dirá se fomos loucos ou belos;
porém no espelho insondável e
eterno, além de nossa pobreza
e vaidade, quem há de constatar

que nossa estadia não foi um
capricho? Nós, os imponderáveis.

 

 

(João Filho plana no blogue voo sem pouso e já assentou em várias antologias pelo Brasil adentro e afora. A última foi Geração Zero Zero, fricções em rede, organizada por Nelson de Oliveira. Individualmente pousou três vezes, em 2004 com os contos de Encarniçado, em 2008 com os poemas de Três sibilas, em 2009 com os contos de Ao longo da linha amarela. Espera que o seu pouso definitivo demore muito, até cansar as asas)

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Carolina Caetano

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

Jacim

 

,Sobretudo, quando ouvia
dos boleros, o ‘boneca cobiçada’
e temia ter identidade de música
entidade de cadeira de balanço
tricotava suas rugas no algodão
entidade de ouvir boleros
na idade que tinha. Pensava
que devia todo homem
poder se parecer com barbante.
Dez anos depois do seu pensamento,
porque formavam-se os dez anos de Jacim
o neto mais último, da filha mais nova
e que não mais faria filho pra não ter de diferença
dez anos entre irmãos
Dez anos depois de pensar nas semelhanças
que deveriam os homens poder ter com as coisas
pra que fossem mais sabidos
pois se pudessem se comparar a um garfo
entenderia mais o homem
de ser homem
e o garfo de ser garfo
mesmo podendo um cumprir o outro quando algum
do outro lhe faltasse;
passou a observar com espanto e descobrimento
como se ali houvesse a nascer
uma terra nova e a promessa de conserto dos homens
que dali brotassem
passou a observar com mais descobrimento que espanto
que o neto Jacim, o mais último, parecia poder
se parecer com barbante.

O menino não podendo desfazer
da responsabilidade de poder
se parecer com um barbante, passou a poder
se parecer com o que pudesse ter sido a mais primeira
das coisas que seriam novas dali em diante:
o primeiro homem dos que nasceriam certos depois.

Tendo tal fardo de primogenitura à nova humanidade
e cônscio do que deveria parecer como exemplo
o menino que era filho de tamanha responsabilidade
e o único que havia com feição tão apropriada
pra se chamar Jacim,
não podia deixar de sentar-se ao pé do pé de manga
e esperar que começassem a nascer os de então prometida ninhada.
Ao esperar, sem que nada o pudesse lhe fazer pensamento
e agraciado por nada ao pé do pé de manga
estar pensando, pois não haveria diante da manga
e da circunstância, qualquer utilidade
que pudesse dar a um teimoso pensamento.

Restou que como guardião de certa nova
humanidade
chupasse a manga. E incumbido
de tamanha orientação, determinou-se
gozando-a.
Na carne amarela sumarenta
escondia tão fundo os dentes
que temia não encontrá-los:
como um cão com o osso, o seu osso eram seus dentes.
Nem deixava gota escorrer da fruta
e foi sua primeira experiência sexual.
Agitou sua língua até o caroço da manga
alguns pedaços engolia sem mastigar
e gostou sentir a carícia no pé da língua e no palato.

O menino encarregado de tal orientação
como também gostava de bolero
depois de colocar a manga sobre o acontecimento
de sua primeira ereção
como não queria se atrapalhar entre as coisas
teve um mais primeiro pensamento
de que não queria mais se parecer com barbante
e que devia de se assemelhar era com um peixe
e poder parecer rio.

 

(Carolina Suriani Caetano, nascida em oito de setembro de mil novecentos e oitenta e nove. Uberaba. Minas Gerais. Serrado)

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Silvério Duque

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

 

RAZÃO VERSUS FELICIDADE

 

– Minha vida com Maria? Uma desgraça!
Desconchavo de amor e de tormento.
O espaço que ocupei em sua massa
cinzenta? Grande quão seu “pensamento”.

Que, aliás, bem poderia dá-lo às traças
p’ro seu orgulho e meu contentamento.
(Qual um Kierkegaard carente de chalaças
elas adoram um péssimo argumento…)

Cheinho de razão e de ateísmos
eu (um dia) a contestei com um carinho
digno dos mais sinceros Neomarxismos…

Ela se foi – com uma cara de Tom Berenger –
e aqui fiquei (tão sábio), mas sozinho
e bruto como um clone do Schwarzenegger.

 

 

***

 

 

SONETO CAFAJESTE…

 

De mim não saberás o quanto eu te amo
por não querer do amor a morte exata
nem importa do amor verdade ou engano
“se o mesmo amor que cura é amor que mata”…!?

Piegas, não!? Mais do que isso é amor confesso
tanto mais imbecil se mais se mostra
contido de paixão e tempo egresso
onde tudo, no fim é a mesma bosta.

Mas se me amas no instante em que me vens
amar-te é o que mais sinto e o que mais vejo
pois quanto mais te negas mais me tens

neste amor que é nutrir-se de sobejo…
Num jogo de intenções e de desdém
apenas quero eterno o meu desejo.

 

(Silvério Duque nasceu em Feira de Santana-BA. É licenciado em Letras Vernáculas, pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Além de poeta, é músico, clarinetista. Já coordenou a Escola de Música da Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense. É autor de O crânio dos Peixes (Ed MAC, 2002), Baladas e outros aportes de viagem (Edições Pirapuama, 2006) e A pele de Esaú (Via Litterarum, 2010). Seu mais novo livro, Ciranda de sombras, está no prelo…)

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carla Diacov

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

 

fôrma

 

a quem achar
desse meu agora
uma chaga de sal
a queimar no punho
uma rosa morrida
de sangue eterno
em raízes recentes
profundas, frinchas da rocha
sorções
e um anel de dor
tudo e então
para uma memória
de que meu senhor dorme
dormia do quando
da pedra fui feita
do musgo coberta
e de certa voz, eleita.
agora adormeço e penso em sonhar-me eternamente vulnerável flor.
mas não. mas nunca e não.
minha fôrma rasteja a ampliar desta torsão.

 

 

***

 

 

estêncil

 

no alto da torre
vigiava minha testa
petrificadas árvores
na praça
e dentro das casas.
uma, no entanto
trouxe
até os pés da torre
uma braçada de céu
para que eu visse nuvens parecidas a árvores
árvores altas
parecidas a torres
parecidas a quedas
esquecidas a torres.

 

 

***

 

 

acoimada abnegação

 

abstenho-me
da fumaça nas pontas dos teus dedos
infinitos a mim
abstenho-me
da gentarada no local do crime
estou nua
sou uma esponja ao teu suor perito a mim
abstenho-me da senhora que passa por nós
suspeita em ser
senhora que é
abstenho-me
entretanto
mais ainda, abstenho-me a ser a que traga
algum sentido erótico
a isso que já se resvala a crime de alcunha grossa
fumegante, jantar aberto, sucoso e mudo
como os teus dedos
infinitos e a mim, culpada, execravelmente culpada em,
discretamente, abster-se tão.

 

 

(sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. Babando)

 

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

 Diego Tardivo

 

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 


 

CANÇÃO DOS MANJARES MÍSTICOS

 

Este pão que comes, meu filho,
Subjaz nos lábios da castidade
E nas terrinas úmidas do Amor –
Sem que para tanto necessitem
Os antigos escravos de sua míngua
De caridade e compaixão, tudo
Entrelaçado enquanto os corpos
Ausentam-se nos dias cáusticos.

Esta água que bebes, meu filho,
Refluía ao longo de músculos nus
E gotejava de calhas profanas como
O gorgolejar de luares no puro inferno –
É a insígnia da perfeita bonança
E a paz teria beijado o seio da guerra
Quando da unidade adâmica surgissem
Diamantes – adormecidos e lânguidos.

Esta arma que empunhas, meu filho,
É o brasão vil da mortandade oculta,
Dessas que se escondem em armários
E ainda assim permanecem fiéis à Musa.
Terrível dobre de infinito censurado,
Volvei, ó palidez, que a morte chega
Uivando à miséria hinos de beleza amarga
E barganhas prostradas na lama de fogo.

Este vinho que provas, meu filho,
Já havia embelezado as cabeleiras nuas
De pobres dançarinas cantando absurdos
Enquanto os poetas lamentam a alegria –
E continuará por muito tempo ainda
Sendo o espelho diante do qual figuram
Os sorrisos e as lágrimas que são precárias,
Os deleites e os êxtases que são tacanhos.

 

 

***

 

 

LEMBRANÇAS DO JAZZ

 

In memoriam Allen Ginsberg e Roberto Piva

 

Quantas imagens me acorriam em minhas febres de justiça!
Quantos uniformes pavoneando-se acima das folhas de cristal
& ainda quantos astros nus envolvidos na beberagem da tarde –
Eu não entendia por que a violência dos pederastas era temida,
Contos de Tchekov supurando nos bosques de amianto,
Lendas estraçalhadas na vívida vivissecção da realidade mais crassa,
Abóbora de ferro opinando sobre as dimensões de meu sexo
& eu continuo sendo inesquecível,
& eu continuo sendo imperdoável,
Sim, porque todas as danças me eram devidas a cada cena
& todos os profetas tinham seu sudário empoeirado e magro –
Candeeiro de emoções; lúgubre festa do quarto largo,
Eu me prostro, eu me persigno,
Eu me prosterno, eu me flagelo –
Ainda me cabem os amores que reneguei à custa de símbolos,
As imagens de oxigênio continuam em minha cama molhada,
Os barítonos da aurora jazem derreados nos catres de meus louvores,
A ladainha dos escravocratas morre ao contato das batalhas arredias
& tudo me foi revelado enquanto o dia corria entre minhas mãos –
Jamais saberei se minha alma é pura.
Jamais saberei se minha mente é sã.
Porque sou vil, a maldade se retorce em meus intestinos
& a morte que desconheço não me murmura sofreguidões;
Ah! Como lamento! Como lamento saber só agora
Dos corações que choram & dos cérebros que se enforcam,
Eu lamento, eu lamento ser esta serpente nojenta e traiçoeira
Sibilando e envenenando os acontecimentos do século,
Minhas quimeras são mais pérfidas do que o oceano
& santificados me acorriam os vagalumes néscios da Ventura;
Tudo quanto era meu regressou a meu Espírito
& no interior do enigma luminoso agitei as asas de minha angústia,
Porque todos os meus amigos zombavam de minha juventude
& todas as minhas namorada riam de minha promiscuidade,
Ó lampejos! Lembranças do jazz! –
Não me esqueço das notas que soaram para minha inocência,
Funesta exaltação dos sentidos encontrados no Silêncio
& último conhecimento absorvido pelas mentes embriagadas
…………………………………………………………………..{de minha geração.

 

 

(Diego Tardivo tem vinte e sete anos, nasceu e cresceu em Italva, interior do RJ. Começou a cursar Letras, mas largou no terceiro período. É casado e pai de um menino, Arthur – nome dado em homenagem ao poeta Arthur Rimbaud. É autor de cinco romances e três livros de poesia. Atualmente trabalha em dois livros: uma coleção de ensaios, que apenas começou a escrever, e uma coletânea com duas novelas intitulada “A Filosofia do Espírito”)

 

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Pintura: Sylvana Lobo

 

Impassível

Ian Lucena

 

quando deixei de ser
hipócrita algumas ampulhetas
foram embora
à busca das ampolas da memória

quando deixei de
morrer afora
a clepsidra da mágoa
trouxe tudo de volta
às águas da minha vida inócua

 

 

 

***

 

 

Chuva

 

numa noite movimentada
os fios de prata – tecidos – deslizam
atrapalham as vistas das mentes
pequenas
noutras noites os pingos
grossos metalizam a fina umidade
e se tornam tempestade às mentes
criadoras

apenas num dia árido
muito árido
como aqueles que nem é possível sonhar
a chuva acaba
e a minha visão aguçada
perdura

 

 

(Ian Lucena, natural de Cascavel – PR, é poeta, empresário e universitário do curso de Economia)

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

DANOS

Bruno Gaudêncio

 

quantas
asas
oram
nas covas
gastas?

?quantas
horas
vagas
cavam
nas curvas
postas?

?quantas
flores
mortas
ardem
em voltas
sem chegar
a lugar
algum?

 

 

***

 

 

RETINA

 

O olho do poema
permanece fechado,
fluente em seu acaso,
buscando o caos.

O olho do poema
escreve o seu atraso,
no teatro tenso
das luzes do mau.

O olho do poema
voa falso
(aos monstros da fala).

O olho do poema
come a razão
(com sua fome de nada)…

 

(Bruno Gaudêncio nasceu em Campina Grande, Paraíba. É escritor, jornalista e historiador. Publicou: O Ofício de Engordar as Sombras (Poesia, Sal da Terra, 2009) e Cântico Voraz do Precipício (Contos, Via Litteratum, 2011). Membro fundador dos Núcleos Literários Blecaute e Caixa Baixa na Paraíba. Membro do Conselho Estadual de Cultura do Estado da Paraíba. Possui poemas publicados nas seguintes revistas e sites culturais: Correio das Artes (PB), Revista Blecaute (PB), Verbo 21 (BA), Palavrarte (RJ), Revista Macondo (SP), Germina Literatura e Artes (SP) e Samizdat (POR). Atualmente Coeditor da Revista de Literatura Blecaute. Os poemas fazem parte do seu segundo livro de poesia, intitulado Acaso Caos, a ser publicado no início de 2013)