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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

 

Boana 

José Carlos Souza

 

existe uma cor
que desambienta a paixão.

na varanda
o sol se desdobra
arranhando os vãos das telhas
despencando em lanças de luz.

mofo e fuligem
no interior
das veias.

amanhã
a vida
terá outro nome.

 

 

***

 

 

sonhando manhãs

 

nos varais da sorte
há um riso
que amarro entre os dentes.
palavras não deixam rastros
entre a voz e o soluço.
passarinhos no ar
arquitetando ninhos
sequestram o luar.

permaneço sentado no vazio
sonhando manhãs.

 

(Algumas pistas: Sou baiano de Santo Antonio de Jesus, vivo entre a poesia e a música e teimo em acreditar no valor da amizade. Contato: aldebara743@gmail.com)


 

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71ª Leva - 09/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

CASULANIMUS

Floriano Martins e Viviane de Santana Paulo

 

descortinamos a sombra avulsa que mastiga o sol     faminta por entre os monturos
da tarde     surge nas vértebras do tempo uma nuvem de abismos
estática da agonia que não se comunica com seus vultos abandonados
feixe de evasivas     o pavor diante da pilha de cenários vazios     a cidade
regurgitando a própria memória como último recurso para evitar a asfixia     mas
o cansaço reveste os corpos de desamparo     e as esculturas perambulam pelas
galerias sem ninguém
no chão o ruído de madeira reclama as tiras das frestas que atam as cenas
germinando lentas     diáfanas     tendo que relutar
contra o espaço desabitado dos cenários      recolhem o movimento imperceptível
dos sentimentos
nos fios das travessias     emaranhados como um casulo na curva da clavícula
tecemos nossa ausência com as fibras das garoas finas
caída nas costas do crepúsculo     são corpos que mudam de lugar    cruzam as
artérias de um mundo desolado
enlutam os cabides gastos pela melancolia     escrevem os nomes trocados para
confundir a dor
há muito que reúnem as estações para pequenos tragos na madrugada     quando
revivem as imagens desfeitas     e destacam passagens incongruentes da
narrativa de suas vidas incomuns
sedimentando desvios nos fósseis da ressonância urbana
as pernas sonâmbulas dos sonhos no branco do teto deixam marcas longas e
frágeis de nervos de folha desgastada de verão    devoram as cicatrizes
rudimentares de umas poucas utopias que rastejam por monturos     cartazes
aniquilados     detritos surpresos     orquestração de misérias
fomos descortinando a pele dos desgastes     tateavas um palimpsesto aqui     eu
mascava uma imagem putrefata ali     a memória não alcançava o dia seguinte
perdemos a história
já não sabemos em que tempo conjugar os verbos

 

 

***

 

MASCARALVO

 

a noite e o problema confinado     jogo de despistar o solitário
noite de sexo sem a coroa de estrelas     não te conhecem as cigarras     o bafo quente
…..das sombras macias
somente as silhuetas dirimidas no breu     dissolvidas as cores do dia na saliva da boca

para dizer que tudo se esvai     mas permanece este delírio
arrancar a ilusão do duro das paredes
buscar as amarras     o equilíbrio das gotas de chuva no limiar do arame     na ponta
…..dos espinhos
minto carnavais e feriados     noite de sexo sem a purpurina vermelha     sem a pérola
…..branca
o estranho gosto do amor na boca amanhecida com atraso
lençóis rachados como os lábios do deserto de teu olhar   contrariar a roupa ao vesti-
…..la
gemidos entranhados entre a meia e o sapato     não te vás     não me sigas
o sol se retrai indeciso sobre o disfarce que usará
a janela se espreguiça com um gato decalcado em suas vértebras
o mundo não vai a parte alguma     nem sei ao certo quem és
rumino as penumbras dos gestos e algo quebra a casca fina da manhã gelada     onde
…..as primeiras luzes surgem indiferentes     inventam o cotidiano no gargalo dos
…..recintos
imperturbável na hora do despertar
nascem os corredores de reflexos     matizes promissoras e lembranças viajantes que
…..vagueiam no vasto do dia que vem sem ti
e precisamente onde não estás recupero o que houve de melhor entre nós
e o faço entornando a jarra de felicidade com que sei que nada voltará a se dar

 

(Floriano Martins (Brasil, 1957) é poeta, editor e ensaísta. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Entre os livros mais recentes, se encontram Autobiografia de um truque” (2010) e Susana Wald – La vastedad simbólica” (2012))

(Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

 

Pintura: Sylvana Lobo

O ENCONTRO

Mariana Ianelli

 

Dá-me um acontecimento
E eu nada direi sobre isso.

O crime perfeito
Será meu segredo
Fechado por dentro
Em silêncio
Como um vício.

Face à justiça dos homens
Há de me salvar
A vida rotineira
Entre mil outras tão parecidas.

Irei mansamente,
Azul sobre azul,
Sem que desconfiem.

(Quase diurna, eu diria,
Não me turvasse o delírio.)

E no passeio dos lobos,
Teu sangue meu sangue,
Para o chão
Águas e limites.

Repleta do terceiro corpo,
Em asa de luz
Nada direi sobre isso.

De línguas mortas
E um tempo morto
Farei caixa de guardar
Minha fé ilícita.

 

 

***

 

 

O AMOR E DEPOIS

 

Era esperado que aos poucos
Definhasse, fosse desaparecendo
Naturalmente levado pelo sono.
Era suposto que por abandono
Morresse –

E não teria o vento nenhum sentido
De ventura, seria apenas
A passagem de uma hora branca,
Entre outras tantas,
Para um coração manso
Que já nada espera nem recorda –

Como se o tempo não devorasse
Também o desconsolo,
E dele fizesse exsudar um leve perfume,
Como se não arrastasse
Cada corpo uma penumbra,
Como se fosse possível
Em vida a paz dos mortos.

 

 

(Mariana Ianelli nasceu em São Paulo em 1979. É poeta e mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP). Publicou os livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005), Almádena (2007) e Treva alvorada (2010), todos pela editora Iluminuras. Participou dos livros Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Ed. Casa da Palavra, 2009), Roteiro da Poesia Brasileira – anos 90 (Ed. Global, 2011), Caminhos da Mística (Ed. Paulinas, 2012), entre outros. Tem poemas publicados em Portugal, Espanha, Cuba e Argentina. Em 2008 recebeu o Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista) na categoria Juventude. Em 2011 obteve menção honrosa no Prêmio Casa de las Américas (Cuba) pelo livro Treva alvorada)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

 

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

 

Insignificância

 

Em que pese os malefícios para o corpo,
devemos arrastar a consciência de nossa insignificância
Jorge Elias Neto

 

 

O azul se dissipa
em tons de desespero.

Os segundos corrompem
nossos sonhos,
e a eternidade –
consome toda inocência.

O céu conspira
dentro de mim,
ponto
sujo no útero
da neve.

 

 

***

 

 

Um resto de sol no desalento

 

Ocupo-me de uma febre
sem propósito.
Modos existem
de forjar os dias,
principiar universos,
rir-se do descomunal
segredo da vida …
Mas não nessa noite gelada
em que persisto centelha.
Eis a última pele – a palavra –
que se desgarra inapta
a prosseguir
afirmando
o esplendor da verdade.

 

 

(Jorge Elias Neto é médico, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Integrou as publicações Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010))

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

Poema # 5

L. Rafael Nolli

 

Que se desabroche como flor
em um vaso sobre a mesa –
alimentada por lâmpada fluorescente
………& água de cloro da torneira

(ou
às margens de uma estrada
que segue o curso do rio: onde
o sol faísca nos olhos dos cavalos)

Que se desabroche como as flores
no canto escuro da casa –
regada pelo encanamento rompido
…..& o árduo trabalho intestinal

(ou
no peito do homem
que entre tantos outros caminha
para libertar a cidade sitiada)

 

 

***

 

 

Inventário de um rio # 2

 

1
Aquele havia sido o meu Eufrates.
Ainda que inexpressivo
– sequer constava no mapa –
não teria havido nada sem ele

(a água era tão pouca
e de tão má qualidade
– pombos sedentos agonizavam
……………… às suas margens –
que nada sobrevivia em seu bojo
[além de vermes aquáticos
e caramujos da esquistossomose])

Aquele havia sido o meu Aqueronte.
Quando corria –
quase sempre estava engasgado
……..com o cadáver de um cão –
conduzia a inframundos
………………sobre o domínio de Hades

(pouca era a sua água
………e de tão má qualidade –
espessa como a baba de um enforcado –
que ela se mostrava incapaz de refletir o céu
[senão simulá-lo
………com um azul de olho vazado])

2
Aquele que havia sido o meu rio
se arrasta por galerias de concreto
– como um fantasma do Lete –
roendo pacientemente os pilares da cidade

 

(L. Rafael Nolli nasceu na cidade de Araxá, MG, no ano de 1980.  Publicou Memórias à Beira de um Estopim (2005). Pode ser lido semanalmente no blog Stalingrado. Contatos: nolli@bol.com.br.Twitter: @nollirafael)

 

 

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Janela Poética IV

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

alter et idem

Davi Araújo

eis que a ave volátil declama o peixe solúvel
e de repente a geografia de uma rasura
conta a história d’alguma literatura

e são os ininteligentes elegíveis
na universalidade intraduzível
ismismos mesmo preferíveis
à grande banalidade indigerível

que a biblioteca me preserva a ignorância
porque o pior labirinto é uma linha reta
se nas leituras solitárias desde a infância
tornar-me um outro e o mesmo é a meta

contemplo o duplo na reflexão volúvel
altero-me só um pouco e no reflexo
outro é um eu de mim desconexo

***

Eus em Pessoa

Sou essas mil e uma almas que encarno & osso
Desde aquelas calmas às mais carne de pescoço

É uma infinidade de outros estranhos reunidos
Que há nos nós mesmos dos meus conhecidos

Em triz teço uma teia de nojo & metamorfoses
Do coral que me encanta com as minhas vozes

Uma corja de caráteres que trago personificados
Camaleões de fragmentos & tons resignificados

Iluminações de espelhos refletem o que emano
Contra a sombra que me usa de escudo humano

Nunca subo ao palco do qual sempre despenco
Engendro pequeno monólogo & grande elenco

 

(Davi Araújo é poeta, ficcionista, tradutor, ghostwriter e conselheiro editorial. Autor do blog Não Fique São, atualmente finaliza dois grandes livros de poemas, continuações da trilogia iniciada com Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal. Contato: davis.eu@gmail.com)

 

 

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Janela Poética V

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

cinegrafias

Gabriel Resende Santos

 

Na poltrona, desperto. Os ruídos
soprando grandes triângulos.
Pirâmides. Cilindros. Em
filas de cinema vislumbrei os pesados volumes
da terra sem lei. No Odeon as mímicas automáticas
de luminosas tesouras de titânio, cortando os tíckets
amarelos. As musas sob a pesada lona
exaltavam Wagner e as danças de mãos juntas.
As musas não se entendiam. Forçavam a trilha-sonora
nos narizes. Nas testas. Onde assinavam as cifras
e o roteiro da obra-prima.  Na poltrona, sabia ser Gigante
e subtrair espíritos em pequenos grunhidos. Era permitido
obter a glória na cabeça do vilão. As palavras flexíveis
viriam das bocas das ninfetas e bem antes das letrinhas.
Porque as musas são de bronze. Porque o céu é de couro.
E depois, porque o depois é fim, na última nota do violino e
no último crédito de figurante, todas as películas do sonho
se tornam uma una e imensa gota corporal
fugindo de olhos entreabertos.

 

 

***

 

da arte de versar cimento

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxao João

 

Hoje o dia de louvar o Mestre
que me confessou o criar
……………………….a partir do partir do criar.

Hoje o dia de lembrar do Arquiteto
sua cal antiga sua pedra antirocha
o comprimido      e       o      comprimento
…………………..mili-métricos.

Hoje o hoje do Canônico
as rosas inomináveis
..a desrazão lógica
os retalhos sem berço

…………………………..Ontem Neto
…………………………..Hoje Primogênito
………………………….. …do Poema.

explicar

Borboletas furiosas
invadem minha privacidade: extrair segredos
que souberam das folhas.

Peço que saiam. Com delicadeza.
Mas elas me fuzilam: o que significa essa di  agr  ama  ção
essa TIPOGRAFIA
essa questão metalinguística:
explica o poema fora do poema
explica a lagartixa o tigre o grifo
explica os segredos do fracasso.

Atiro uma receita de remédio
para os problemas de fibra
e acerto o coração lepidóptero. Ela pousa
meio trêmula

azulada

não pela morte
mas por uma fria ignorância.

Os segredos eu não conto
para nenhuma fúria.
No máximo aponto – sem autocalúnia –
o que me redescrevo.

 

(Gabriel Resende Santos nasceu no Rio de Janeiro, na última década do século passado.  Tem alguns textos publicados em revistas eletrônicas. Atualmente trabalha no que pode se tornar seu primeiro livro. Mantém os blogues Occam, big bangs e outras explosões e Os Escritores Invisíveis)

 


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Janela Poética VI

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

 

ENCANTAMENTO

Luiz Otávio Oliani

 

no balde de juçaras
o homem busca
a água de que precisa

no terreno seco
procura o vento

encontra Deus
disfarçado de sabiá

 

***

 

O POETA E O OPERÁRIO
xxxxxxxxxxxxxxA Maiakóvski

 

o que difere
o poeta do operário?

na maquinaria
o trabalho braçal
dá lugar à escolha
de substantivos
verbos
metáforas

se um carrega cimento
terra areia
o outro esculpe o ser
talha a essência

se um usa espaçador de piso
espátula roldana
o outro opera em silêncio
na construção do poema

 

(Luiz Otávio Oliani nasceu no Rio de Janeiro. É graduado em Letras e Direito. Em maio de 2000, foi homenageado com a medalha “Só para Lembrar” no recital “Versos Noturnos” organizado pela SPOC. É detentor de mais de 50 prêmios literários. Publicou dois livros pela Editora da Palavra: “Fora de órbita”, 2007 e “Espiral”, 2009; e “A Eternidade dos Dias” pela Editora Multifoco, 2012)

 

 

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Janela Poética I

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

Daniel Gonçalves

 

O amor quando se afasta da tua luz deixa tudo desarrumado.
Caminhas de olhos vendados, tropeçando nas palavras que ficaram por dizer.
Na verdade o que ficou por dizer não foram palavras.
Foi uma casa caiada de fresco, um jardim com tulipas todo o ano.
A cancela vedando os gatos.
Por isso esta cadeira vazia.
De um lado para o outro, carregando e esvaziando o silêncio.
Sempre o silêncio.
Não podia ser outra coisa que outra coisa não sobra quando estás sozinho.
É a balança com que medes os teus pensamentos.
Sai-te do bolso como quem perde moedas e não se importa com o tilintar da miséria.

 

***

 

o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor
saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão
inútil como uma palavra à roda de um poema que não se alumiou

o vestido que trazes arruinou a sua bainha e desfiou-se a chorar
parece um jornal amarrotado uma película translúcida de silêncio
deixando ver as feridas nos joelhos o coração resistindo ao vento

passou de moda porque deixaste de te despir com a luz acesa
e o espelho já não alcança a parede onde havia um outro retrato

já não te serve porque esqueceste de mudar a água aos girassóis
e agora há uma escuridão que se enovela à volta da tua tristeza
pesando sobre os teus olhos como uma pedra tirada a um poço
ou uma música de embalar de onde se perdeu a letra e o sonhar

o vestido que trazes está perfumado de pérolas que se partiram
num excesso das sombras que musicam a vaivência da solidão

e como uma vinha a quem se arrancou o chão antes da vindima
pareces-me abreviada despida exangue impossível descosturada

 

 

(Daniel Gonçalves nasceu na Suíça e é filho de emigrantes portugueses. Em 1983, a sua família regressa a Portugal e fixa residência em Santo Tirso. Estuda em Ermesinde e Braga, onde completa a Licenciatura em Ensino de Português. Desde 1999 que leciona em Santa Maria. A sua obra mereceu vários destaques e edições. Entre os principais prêmios, conta-se o Prêmio de Revelação de Poesia da APL 1997, o Prêmio de Poesia Cesário Verde 2003 e, mais recentemente, o Prêmio de Poesia Manuel Alegre 2010. Os últimos livros publicados foram “a tua luz costurou-me uma bainha no coração” (Editora Labirinto) e “um coração simples” (Instituto Politécnico de Leiria, ambos em 2012)

 

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

XIII

Adriana Zapparoli

 

Com o nome prisioneiro no silêncio
aniquila o anacrônico em sua língua-lavanda
e acúleo
além da estação.
O escorpião.
Uma fruição bélica entre a lírica essência
de fruta cítrica (Nárandja)
e o perfume em lençol vestido
pelo sol vespertino.

 

***

 

XIV

 

no código da memória
o deserto da sala de atacama
em ágata – eldorado
são estômago, músculo e vaso
na sombra a projetar a mucama
despida pela paisagem escondida
em tara de bisão
que em carne de pescoço, comunga a intenção
aramada sobre o crânio seus ascos
em botão.
há fissuras que cortam a retina
em boca-de-leão (Antirrhinum majus)
em cultivo o florífero, estio em dia tinto
pela flor-de-maria, um cacho-lírico,
de uva em gotícula.

em vilarejo tântrico
habita-se,  entre véu e o espanto,
o amor-víneo de ensejo
na centelha de um seio-
castonhola, um alçapão de olhos
em crucifixo de desejo.

 

(Adriana Zapparoli é escritora, poeta e tradutora. Seus trabalhos foram editados em revistas impressas e eletrônicas. Publicou as plaquetes de poesia A Flor da Abissínia (2007) Cocatriz (2008), Violeta de Sofia (2009), Tílias e Tulipas (2010), o livro O Leão de Neméia (2011) pela Coleção Caixa Preta, Flor de Lírio (2012) todos pela Lumme Editor. Prevista para agosto de 2012 a publicação da plaquete Lontra Corola Libido, pela Coleção Poesia Viva, Centro Cultural São Paulo)