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68ª Leva - 06/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Foto: Juh Moraes

 

 

 

UMA RESERVA DE SUTILEZAS

Aline Aimée

 

Tenho meus carinhos, meus cuidados.
Levo sempre comigo uma dose reserva de sutilezas.
Quem mergulha em mar de flores,
acaba levando um punhado de cortes,
que cicatrizam em palavras de mistério –
seus segredos, meus segredos.
Sussurros sobre a pele, indícios
que hão de nos surpreender revelados.

Por isso, carrego sempre comigo
uma dose secreta de afagos
que hão de aplainar os ímpetos,
hão de evitar estragos,
mas nunca reterão os arrepios
que segredamos, silenciados.


 

***

 

 

ANSEIOS CINZAS, SUJOS

 

vagabundo errante,
risco por entre o lixo
minhas pegadas pesadas,
a carga de uma sobrevivência
– resiliência toda casca
que se desmonta, mas revigora,
comprimindo a massa túmida,
de ardor, angústia, desespero:
anseios cinzas
suspirando por opressores microporos

e enquanto nessa espessa casca
cresço,
incho-me sangrando
nutrindo a terra de poesia suja,
sorvendo a força das lágrimas diárias…

e me arrasto
avançando, ousado
por sobre as pedras,
contra previsões e planos

/é meu grito rubro que mancha de espanto tua noite funda/

 

(Aline Aimée nasceu no Rio de Janeiro, em 1981. Mestre em Literatura Brasileira, trabalha como funcionária pública federal. Tem textos publicados em sites e revistas virtuais, como a Diversos Afins, a Conexão Maringá e a Garganta da Serpente. Contato: alineaimee@hotmail.com)

 

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67ª Leva - 05/2012 Janelas Poéticas Outras Levas

Janela Poética III

 

Desenho: Felipe Stefani

 

INSONDÁVEL

Ronaldo Cagiano

 

O apito do trem
o atrito do trem
o arbítrio do trem

xxxxxSerpente histérica
xxxxxrasgando os montes,
xxxxxa existência vai c(r)avando
xxxxxxxem nós uma estrada de mistérios

xxxxxNo duelo com a vida
xxxxxa literatura concedeu-me as armas.

xxxxxTriste como um passado
xxxxxvivo como uma ferida:

assim é o tempo (moenda de Chronos)
xxxxxcom sua carpintaria de ferrugens
xxxxxa sagração dos labirintos

 

 

***

 

 

ÁLBUM RECLUSO

        para Sérgio Fantini

 

Um presente póstumo
invade as páginas
desse baú de espantos.

Na parede ou no álbum
as fotografias
desconstroem as palavras.

Há filosofia bastante
no cortejo dessas traças
que sitiam o passado.

Porém,
a refratária infância
perdura
xxxxxxxintangível
no absolutismo de
xxxxxxxtantos silêncios.

 

 

(Ronaldo Cagiano é mineiro de Cataguases, viveu em Brasília, onde formou-se em Direito, e reside em São Paulo. Publicou, dentre outros:  Palavra Engajada (Poesia, 1989),  Dezembro indigesto (contos, 2001 – prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 2001), Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio, 2006)  e O sol nas feridas (poesia, Dobra Editorial, SP, 2011). Organizou as coletâneas Poetas Mineiros em Brasília (Varanda Edições, DF,  2002), Antologia do conto brasiliense (2003, Projecto Editorial, DF) e Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo  (LGE, Brasília, 2006))

 

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67ª Leva - 05/2012 Janelas Poéticas Outras Levas

Janela Poética IV

Desenho: Felipe Stefani

ABREM-SE AS ASAS DOS CABELOS

Mar Becker

 

abrem-se as asas
dos cabelos,

digo-te: rosa

(uma trança a se
desfazer)

-dos-
ventos.

que mãos bordaram-na?,

(o que tu sangras,
sussurro.

digo-te, ave escarlate,

ao pé das pétalas
que encalham

nos meus ombros

como se fossem coágulos
de areia,

conchas: as pérolas
dos brincos).

é outono, meu bem; ouve,
todas as peles

rangem.

 

 

***

 

 

AGOSTO – I

 

respinguei no vidro
da palavra que

fechaste,

da janela que em
tão pouco,

tão perto,

se calou dentro de
ti.

agosto, ainda.
muita chuva,

(mas nenhuma fresta
nos lábios,

um sopro, que
fosse,

nenhum silêncio
entreaberto

para que à noite meu
nome

adormeça no teu).

respinguei no vidro,
no para-

peito,

o coração logo atrás.

 

 

(Marceli Andresa Becker é estudante de filosofia e professora. Publicou poemas nas revistas Zunái, Germina, Pausa e Eutomia, no Portal Cronópios e em diversos blogs. Participou ainda da Miniantologia Poética do Centro Cultural de São Paulo, organizada por Claudio Daniel, da Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel, e do trabalho Canto Ancestral (CD e livro), do cantor nativista Lisandro Amaral. Na área de filosofia, publicou artigos científicos e ensaios em revistas eletrônicas e mídias impressas. Contato: mab_1109@yahoo.com.br)

 


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67ª Leva - 05/2012 Janelas Poéticas Outras Levas

Janela Poética V

Desenho: Felipe Stefani

SOMBRA DE SAL E SILÊNCIO

Wender Montenegro

 

Não dizer palavra…
Deixar o silêncio plantar sua nódoa
na cinza dos olhos.
E uma sombra há de vir,
insustentável,
e despojada de dor e remorso e cansaço
trará numa das mãos linho novo,
alfazema;
na outra, conchas de praia deserta,
frutos da estação,
e ainda sem dizer palavra
acenderá os cílios com o sal das águas
de uma outra concha,
essa mão que rasgará silêncios,
tatuando na pele uma palavra gasta.

 

 

***

 

 

TECIDO DE ESPERAS

 

O olhar colhe asperezas…
Nenhuma alma de regresso às mãos
cansadas de tecer esperas;
nenhuma nau singra a saudade
e a tessitura é desfeita
pela ausência de abraços.

 

(Wender Montenegro, natural de Trairi/CE, é professor de História e poeta. Tem poemas publicados nas revistas TRIPLOV, Blecaute, dEsEnrEdoS e em outros espaços literários. É autor de Arestas, 2008, pela All Print editora/SP, com o qual foi indicado para o Prêmio Codex de Ouro 2011, na categoria Poesia, e espera publicar em 2012 dois livros inéditos, o Casca de nós e o Livro-arbítrio)

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67ª Leva - 05/2012 Destaques Janelas Poéticas Outras Levas

Janela Poética II

Desenho: Felipe Stefani

 

ONDA

Elizabeth Hazin

 

o desejo é como água:
flui
circunda
onda mais alta
(de cor profunda)

o desejo é como água
(de mar ?):
sempre distante do porto
e o que fazer do corpo
apenas invólucro
– breve,
finito –
e, portanto, sequioso
do próprio desejo
em que se afunda ?

sobre o cetim da pele
desliza a veste que escolho
ou nenhuma veste

o desejo é como água:
flui  reflui
escorre   inunda
o corpo
(quem bebe ?)

 

 

***

 

 

DESDE O FOGO

 

Sou triste
desde o fogo impresso na argila:
odeio todos os deuses.

Minha tristeza vem desde o nome
a revelar-me  a sede
a fome
a farsa que me corrói a face
nua.

Não quero essa alma que me queima:
de  barro estava bem.
Arde em meus olhos o desejo dos deuses
(como o dos homens).

Não quero a palavra
acesa
que à minha revelia me incendeia:
de repente
é impossível  restar calada.

Desde o fogo
a tristeza nos consome.

 

(Elizabeth Hazin publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987) e O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e a Editora 7Letras publicou o livro escrito a quatro mãos com Davino Sena: Lêgo & Davinovich. Em 2010, foi re-publicado pela Vieira & Lent o Arco-Íris, poemas para crianças. Já ensinou nas universidades federais de Pernambuco e Bahia. Atualmente, é professora de Literatura Brasileira na UnB – Universidade de Brasília)

 

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Foto: Kenia Vartan

 

 

ANÍMICO ANIMAL

Roberta Tostes Daniel

 

Petrificado pelas sensações.
Um bicho. Transmuta
Dor de si. Calcário,
Prende no rosto da rocha
Um reino de pesar. Pensa
Sob seu magma, sente
A poeira nas formas:
Sedimentária magia.
Requenta um passado
De fome. Um nome
Sublima a meninice do homem.
O anímico animal crava os dentes
No sangue da rosa. O peito
Como o diabo gosta:
Santa candeia de artérias.
Um servo: de querer bem ao corpo;
Um passo: rumo a tudo que varre;
Um sopro: de abismo e de glória.
Poente, um deus que venta o rio.
Senhor de fogo, de frio,
Ferve o eterno.
Verve do querer.

 

***

 

COMO PALAVRA
Palavras, evocações que faço
Beberagens do desconhecido
Sob a areia dos meus pés
Fortuitamente, o delírio.

O jorro profundo o silêncio
Seminal do indizível
A liturgia do poema.

Clivada de oculto, não meço
Que levo uma espécie
De vida dupla, movediça
Transubstancio-me na coisa

Da lida da lira.
Como palavra me abro
Ao rito vertida.

 

(Roberta Tostes Daniel, carioca nascida em 1981. Colaborou recentemente na Miniantologia poética do Centro Cultural São Paulo. Publicará na próxima edição da revista Zunái e no segundo volume da Pequena Cartografia da Poesia Brasileira Contemporânea, organizada por Marcelo Ariel)

 

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

NOTURNO

Felipe Stefani

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Nos estreitos breves
a arte íngreme
de ser,
frente às faces do mundo.

A margens se re-
dobram nas entranhas das luas.

As barcas sonham a distância das flautas.

Fendido ao tempo feito
um canal,
nos orifícios cegos do fôlego,
basta
aquilo que arrefece.

A inocência do mar submerge as cítaras.

 


Desenho: Felipe Stefani

V

Colossal angústia
da muda serpente
que passa rente
à inexistência.

O inefável labirinto absoluto
está em tudo.

A essência é o enigma,

e a morte toca as margens
com dedos surdos.

Somos o estigma do vento
na estiagem do infinito.

 

(Felipe Stefani é poeta e artista plástico. Nasceu em São Paulo em 1975. Tem os desenhos publicados no site Sodesenho. Ilustrador, já ilustrou muitos livros de outros escritores, e também seus dois livros de poemas já lançados: “O Corpo Possível” (2008), pelo coletivo Dulcinéia Catadora e “Verso Para Outro Sentido” (2010), pela Escrituras Editora. Prefere que sua arte fale por si mesma)

 

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Foto: Kenia Vartan

 

 

A PEQUENINA MORTE

Alice Macedo Campos

 

há uma hora em que uma pequenina morte vem até mim,
como uma flor que cresce timidamente no pathos da memória.
dir-se-ia que a pedra inteira do meu corpo
se atira completamente ao mar.
o buraco que o meu peso abre nas ondas é a âncora,
a concha invisível e segura, onde o meu ser mergulha no âmnio,
qual ínfimo peixe à procura de um ovo.
nesses momentos de pura distracção,
o pensamento é um olho autónomo,
fixado em qualquer ponto distante,
não exterior a mim.
onde estás, alice?, perguntam.
e eu não sei responder.
não sei se estou no lugar da lucidez ou da loucura.
gosto de sentir o movimento das ondas e boiar entre elas.
quando eu morrer,
tenho a certeza que esta flor me sai pela boca.
atirem-na ao mar.

 

***

 

a linguagem pára diante da mulher, corpo a corpo
se encaram e se entregam, as melhores palavras, as
que chegam em bandejas de prata, com a escama ainda
exposta, e o sangue, avançam como éguas, ouve-se daqui
o seu galope, deslizam na pele à velocidade dos meus pulsos,
e correm. estavam porém um espelho e a minha voz deste lado,
a luz claramente acesa sobre o medo, pronta a cegar-nos os olhos
e a boca fechada, a gramática impura dos amantes fez do verbo estar
um filme que acontece fora de nós, na paisagem e nos brilhos, onde a
música toca um instrumento tântrico que nos adversa, na hora de cantar.

 

***

 

(passam sobre mim os dias, extenuantes. o que sei é que
existir adquiriu  um peso insuportável. visto-me de manhã,
e observo os meus gestos, como se outra mulher fora de mim,
ainda nua e ensonada, retivesse no seio a vaca da tristeza.
suponho que permanece no quarto, deitada na minha cama,
enquanto finjo, ou procuro a normalidade, até à hora de dormir).

 

 

(A poeta Alice Macedo Campos nasceu em Penafiel, distrito do Porto, Norte de Portugal. É licenciada em Gestão de Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho. Publicou “o ciclo menstrual da noite” (Edium Editores, 2008), “um cão em cada dedo” (Incomunidade, 2010) e “a mulher sus.pensa” (Edita-me, 2011))

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66ª Leva - 04/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Anna Apolinário

 

Foto: Kenia Vartan

 

 

AÇOITES

 

Angústias castigam estrelas
Ruínas laceram papoulas
Lembranças torturam meus sonhos
Poemas mastigam meus dedos

O amor
dói-me nas veias.

 

 

***

 

 

EPIFANIA

 

Grafito em tua alma
Um verso vermelho
Serpe sibilina
Estilhaço de estrela

Tatuo em tua boca
Que mordo com rimas
A flauta de fogo
Da minha poesia

 

(Anna Apolinário é natural de João Pessoa, Paraíba, poetisa e pedagoga. Participou de várias antologias nacionais. Foi premiada com o 4° Lugar no VI Festival de Poesia Encenada do Sesc Paraíba em 2010 com o poema “Dédalo”, no mesmo ano publicou seu primeiro livro, “Solfejo de Eros” pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (Rio de Janeiro -RJ)

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

LÍNGUA PAPIRA OU O QUARTO DO CORPO

Wesley Peres  

 

Foto: Kenia Vartan

A palavra erra o corpo;
mesmo nele inscrita,
o corpo, entanto,  não
é ermo de qualquer voz.

Disso nem se adivinha o quaseabismo
entre, no corpo, o que é e o que não é boca.
Mesmo no beijo, há línguas,
o que faz da boca insular
anomalia no monastério-corpo.

Ainda que pulse toda papira
como na suposta poética cabralina
: a palavra em suspensão minéria
arranjada na lei mosaica
exigindo o não
espraiar-se dos olhos:

alguma papila pronuncia o tempo no corpo;

ainda que, na palavra papira,
o corpo sonhe de si se eximir,
conservar-se em  reino minériumano,

na mônada no sonho-linguagem,
há um silêncio irremediável,
ruidoso palatável, quasilha de carne
inóspita no na língua canavial;

disso se adivinha um estranho quarto,
minimenso e brancareia, no qual
corpo e palavra furtam-se,
mutuamente,
desde o final dos tempos.

 

(Wesley Peres é escritor e psicanalista. Mora em Catalão – GO. Autor do romance Casa Entre Vértebras, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006. São dele os livros: Palimpsestos (poemas), vencedor da Coleção Vertentes cegraf/UFG 2007, Rio Revoando (poemas) USP/COM-ARTE 2003; Água Anônima (poemas), vencedor da Bolsa Cora Coralina 2001, publicado em 2002 pela AGEPEL. No prelo: O corpo de uma voz despedaçada (poesia, a sair pela Casa Editorial Luminara/Porto Alegre); As pequenas mortes (a sair pela Ed. Rocco))