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148ª Leva - 03/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Patricia Porto

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Retrato

 

O corpo é uma promessa
Um passaporte para o estrangeiro.
Carrega luz e outro tanto de oculto.
Nem todas as camadas podem ser escavadas.
O rosto esconde poços. Com e sem água.
E há mais da sede que poço.
Todas os símbolos são expressões do encontro
entre o deserto e a passagem de mar.
No rosto daquela mulher há uma constelação,
uma onça que nada,
uma casa sempre assombrada.
Um bebê derramando choro no escuro
é quem ela embala em fantasia.
O Cão morde seu calcanhar
e ela ainda Monalisa.

 

 

 

***

 

 

 

Fênix

 

Apesar dos grandes abalos
Sísifo encontrou a luz
Era uma luz pequena.
Uma luzinha de nada.
Um pedacinho claro na fria escuridão.
Apesar dos outros muitos lugares de medo,
na saída foi que Sísifo encontrou o tempo de mastigar
– com dentes afiados na pedra –
os desgostos do pássaro morto.
Apesar do imenso infortúnio da noite,
Sísifo feliz saiu dos escombros
da casa incendiada,
não nas asas de um ser vivo,
mas com as asas de sua ave morta.

 

 

 

***

 

 

 

A mulher de Safo

 

Uma mulher inteira é uma mulher intensa
é uma mulher na cabeça
nos desvios
vãos
abismos
entranhas
vulva e falo
uma mulher inteira é inteira na palavra
é inteira ao acordar com seus humores
seus cheiros
axilas
pelos
suores noturnos
uma mulher inteira é um bicho de si mesma
é concreta e abstrata
é múltipla e una
é uma mulher na cabeça
uma mulher inteira não passa por um ângulo ou agulha
uma mulher inteira é um círculo de ciclos
é uma mulher descalça em seus pés
é uma mulher que ri, gargalha, não teme
e chora e grita se for preciso
diante do soco
diante da merda que corrói o amor
diante da rigidez, do autoritarismo
é uma mulher que se atravessa
se alimenta de seivas
se reconstrói
se reinicia
se regenera
se liberta
se emancipa
para dizer todos os adeuses
para colocar fim nas histórias mortas
é uma mulher que se levanta dela mesma
e anda com sua cabeça

 

 

 

***

 

 

 

Casa do mar

 

o amor como esse vinho que cai sobre a toalha branca
o amor como esse sangue derramado no sofá branco
o dia feito sangue e vinho
as aves dos dias em que tudo escoa
tudo molha
tudo mofa

o amor como esse vento frio dos homens
o amor na geladeira
com as frutas

no tempo das castanhas
das folhas jogadas ao chão

o amor dos inacabados
para onde caminhamos sem saber
se ainda somos crianças ou não
se somos velhos ou figos

o amor na porta de entrada
um gato quieto, parado
estranhado de sua natureza

vive e respira
profusamente

 

 

 

***

 

 

 

Às cegas

 

O amor é uma dança de espelhos
Uma dança de corpos
Uma aliança entre elementos químicos
Quem dera eu tivesse um cão guia
para me ajudar nos teus passos

 

 

 

***

 

 

 

Casulo

 

A noite caiu como fiapo de tempo
Guardei as histórias de chorar
Para depois
Depois de nós, de um amontoado de fantasmas
Desfilando sonoros
Em nossos países de dormir, matar ou morrer

Seremos um dia os mesmos de ontem?
Guardei minhas esperanças na caixa de sonhos
alucinações, um casulo de doídos,
uma Pandora decidida

e estou mais velha que meu espanto
branqueio na paisagem

 

Patricia Porto é poeta maranhense, Doutora e Mestre em Políticas Públicas Educação, formada em Letras, publicou vários artigos, a obra acadêmica “Narrativas memorialísticas: por uma arte docente na escolarização da literatura” e os livros de poesia “Sobre pétalas e preces”, “Diário de viagem para espantalhos e andarilhos”, “Cabeça de Antígona” e “Casa de boneca para elefantes”. Participou, ainda, de coletâneas literárias no Brasil e no exterior.

 

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148ª Leva - 03/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Julia Sereno

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Barro

 

O céu laranja empoeirado
traz o deserto que meus pés
ainda não conhecem
para meu inverno particular

A areia do Saara paira
e move
deixando uma cor diferente
na minha pele península

 

 

 

***

 

 

 

Mulher locomotiva enlouquece
e esquece e repete e comete
um crime sem arma ou morte
apenas um ato ou seria
um pacto
de sanidade
com a própria
liberdade

Ela escreve
a mulher

 

 

 

***

 

 

 

Palavras puras
não existem
só com as híbridas
escrevo
e recito
os segredos
que desencontro
no caminho

 

 

 

***

 

 

 

Despertar

 

vento frio na pele
respiro sem deixar
o medo amanhecer
junto ao meu
despertar repentino

não sei se este dia
será como um dia
qualquer ou como
o outro que deixei
sem terminar

aquele que passou
horas a fio
desencapado
doendo pela
ponta que esqueci
de cortar

 

 

 

***

 

 

 

Um mapa

 

Fui nascida em dezembro, abaixo daquela
linha imaginária que corta o mapa
desenhado nos livros
por quem?
Fui ensinada a reconhecer as fronteiras,
mas depois aprendi que as bordas
desaparecem e se desviam do rumo
para onde?
Fui crescendo no território sem limites
dos meus medos e sonhos
misturados na geografia
de qual país?
Ainda não sei.

 

 

 

***

 

 

 

A minha revolução
acontece em silêncio
dentro do coração

e meu texto
busca derreter
os gritos congelados

que se forem ouvidos…

sinfonia

 

 

 

***

 

 

 

Aqui moram…
uma verdade que arruma a casa
e nunca recebe visitas
um desejo que deixo escondido
e esqueço de vigiar
umas dores de criança pequena
uns sorrisos de mulher adulta
e alguns livros que nunca li

 

Julia Sereno nasceu em 1978, no Rio de Janeiro, mas atualmente mora em Lisboa. Mestre e doutoranda em Estudos de Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ, é professora e tradutora. Em 2022, publicou seu primeiro livro, “As Outras em Mim”. 

 

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Janela Poética V

Drika Prates

 

Foto: Gilucci Augusto

 

 

culpei-me
como se fosse meu o controle do tempo
culpei-me até por não morrer
culpei-me pelas dores do mundo
e pelas minhas próprias
desculpei-me por ser maria
e também quando não fui
como quem entende que não existe tempo, nem controle
desculpei-me da desculpa por envelhecer
desculpei-me pela vida e por amar o mundo, ainda que cheio de dores
desculpei-me, arranquei a culpa do amor-próprio
e ele próprio me desculpou

 

 

 

***

 

 

 

Sujeito é verbo

 

Não soube não ser anônima
É homônima

Homófona

Não sabe ser hegemônica
Quem é de escola antropofágica

 

 

 

***

 

 

 

note minha natureza morta
esqueci de abrir a porta
e de nós surge a revolta
impedindo aquele sim

veja a muralha que nos cerca
é o medo da poeta
ainda há viga entreaberta
concreto que esgota em mim

se já não entendo o que me importa
e desconheço minha resposta
natureza viva ou morta
com visão um pouco torta
percebo o mundo à minha volta

mas se me prende ou se me solta
se me sente ou se desloca
se me vende ou subloca
se me entende ou acha louca
se me quer ou me conhece
se me mente ou se me esquece
se projeta o meu alcance
não sou boa nesse lance…

a linguagem que me livra
de confusão desmedida
incompleta a minha obra
e o que é que de mim sobra?

a reforma que me cobra
quem sou eu para mim?

note a minha natureza torta
nossa vida em minha porta
o que não sei não me solta
o que sei sempre se esgota
quem me salva da revolta?

me interessa aquele sim.

 

 

 

***

 

 

 

sou produto do hoje (com memória)
precedida a história
sou produto do hoje (com medo)
precedido o enredo
sou processo lento (contento)
resultado do tempo
procuro o presente
-no limiar do sentimento-
precedidas posturas
procuro não procurar futuro …
ai.

 

 

 

***

 

 

 

a real tem idade
e são anos luz
sem tempos de agora
(nem depois)
nem olho que vê
nem cheiro que sente
nem tato que esbarra
um tropeço no real, para,
do chão passar
rejeição é doença que sara
ao lembrar de olhar pra frente

 

 

 

***

 

 

 

Kafka

 

eu aspirei esse ar pirado
fiquei asfixiado
e aficcionado
por qualquer tipo de enredo e qualquer tipo de estado
passei pela rua e sorri
fui filmado
passei da linha e recebi
importante papel timbrado
no documento li “fichado”
caí nas lentes, fui logrado

 

Drika Prates trabalha como ilustradora, designer gráfica e, de vez em quando, pinta murais. Seu trabalho com as imagens é retroalimentado por sua escrita, que vai das crônicas aos poemas. Vive em Portugal desde 2018, quando resolveu fazer um mestrado em História da Arte Contemporânea e participou de residências artísticas locais, como o Festival A Salto e a Bienal de Coruche. Nos últimos anos, ilustrou dois livros de poesia: “Exposta”, de Marina Vergueiro e “Aorta”, de Rani Ghazzaoui. Acredita que um dia vai ilustrar um livro próprio, integrando suas palavras e imagens. Sua escrita reflete cartografias que vão do micro ao macro, do corpo(natureza) à cidade, além de transitar por inquietações feministas.

 

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Janela Poética I

Laura Assis

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Chão

 

O silêncio
não é o melhor meio
de conter acidentes.

corpo escolha luz sorte
detalhe perda relógio tudo
existe além da linguagem

(seu nome:
serial de rumores
que nada diz
sobre seus gestos)

Talvez ler
o livro do mundo
seja também
saber perdê-lo.

Antes do ruído
a vida é.

 

 

 

***

 

 

 

Passo

 

Ainda que isso seja
inversamente proporcional
(pode ser que eu me perca
no meio do passo
e tudo acabe
antes de você chegar)
quem não dança,
esmaece:
gira
mais devagar.

 

 

 

***

 

 

 

Oberkampf

 

Nossos pais morreram
no mesmo acidente estúpido:
vimos o sangue,
vimos os corpos.
E você me fez prometer
que jamais
te deixaria

Morávamos
no mesmo
prédio,
no mesmo
andar.
Sua porta era colada
à minha porta e
entrar no seu quarto
ou no meu
era igual,
mas ao contrário.

O metrô passava a cada
três ou quatro
minutos
a estação era a cozinha
da sua casa,
parecia Oberkampf
mas com menos
azulejos amarelos.

Sua voz ainda era
uma força da natureza
que me alcançava
na sinestesia
dos sonhos.

E dos sonhos
acordei
e nunca mais
escrevi sobre cadernos
folhas
em branco
desertos

palavras escondidas
atrás de
palavras escondidas

E as coisas passaram
a ser como antes eram:
as coisas,
só as coisas
pouco importa a ênfase
pouco importa a verdade
o que importa é a vida
(e a vida
não cabe).

 

 

 

***

 

 

 

O desamparo é um labirinto perverso.
Onde nunca se imagina a saída,
é justamente o lugar em que ela está:

…………………………………………………………na entrada.

O princípio é isso:
duvidar de tudo sem saber
de nada.
Não alcançar o interruptor,
um vislumbre de móveis
e mágoas.

Crianças crescendo no escuro.
Perséfone
descendo
escadas.

(mas só bem mais tarde elas entenderiam essa metáfora)

 

 

 

***

 

 

 

Uma década com os olhos
cheios de névoa
e as mãos

tomadas por livros
errando

por corredores
onde as mulheres que se pareciam comigo
falavam baixo pediam
desculpas

…………………………………………………………………..sumiam

 

 

 

***

 

 

 

I
Nunca estou sozinha nos corredores
de lojas e supermercados;
isso poderia ser uma história de amor,
mas é exatamente o contrário.

 

 

 

***

 

 

 

II
Existem várias maneiras
de se livrar de um corpo:
obrigue o corpo
a esconder
seu corpo;
olhe pro corpo
como quem vê
outra coisa
no lugar
do corpo;
ensine ao corpo
que tudo bem
ser ferido e morto
por outro corpo;
convença o corpo
de que ele é
apenas um corpo
e nada mais.

 

Laura Assis (Juiz de Fora, 1985) é poeta, tradutora, editora e professora, com doutorado em Literatura pela PUC-Rio. É autora dos livros “Depois de rasgar os mapas” (Aquela Editora, 2014) e “Parkour” (Edições Macondo, 2022). Integra o coletivo editorial Capiranhas do Parahybuna, edita a revista ADobra e dá aulas de Língua Portuguesa e Literatura no CAp. João XXIII/UFJF.

 

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Janela Poética II

Lucio Carvalho

 

Foto
Foto: Gilucci Augusto

 

Mergulho

 

Tão poucas chances de entender
como os animais escolhem aonde ir
– mas é tão bom não saber
o que o vento é e senti-lo –
nem como a água molha e banhar-se
num silencioso e profundo mergulho
de onde não houvesse retorno
e ser peixe como num sonho
em que fosse apenas questão de escolher
entre o retorno e o borbulho.

 

 

 

***

 

 

 

Chuvisco de inverno (kanakana shigure)

 

Por muito pouco tempo,
tudo faz sentido.

É quase impossível saber
que tudo se dissolve

qual um arco íris
que não se alcança,

num jardim pleno
onde nada grita, nada urge

e nada é maior
que estar ali.

E logo somos tão velhos
até para erguer as patas…

Será bom que outros animais
possam levar-nos

e ainda é melhor
que nos acordem mais cedo.

Sou movido por um livro
cujas palavras estão soltas.

Se me pegarem pelo alto
então posso rir à toa,

mas mesmo isso dura pouco
e nem faz tanto sentido.

O acorde no piano me acorda
ou é esse chuvisco eterno?

Não devo mostrar meu rosto
até que termine o inverno.

 

 

 

***

 

 

 

Não importa o que leve dentro,
quanto mais toco em meu centro

o sal entra em mim e determina
o que sou, me contamina

de sódio, como ao mar,
até matar.

Ser afogado até era melhor,
mas a isso não poderia chamar: amor.

 

 

 

***

 

 

 

Zazen

 

Se a queda não
continua nas
folhas
e tanto a nitidez
absoluta
da noite
quanto o rumor
perpétuo
da água
jamais
sobrevivem
ao instante,
para o que
é que
olhas?

 

 

 

***

 

 

 

Revoada

 

Lendo assim,
desde a primeira letra
o poema é relâmpago
sem trovoada.
Voz absurda
e dissonante,
pássaro avulso
na revoada.

 

 

 

***

 

 

 

O sul

 

Deste braço até a Ásia,
são dois oceanos
de monstros decepados.

Da cabeça até o norte,
há um palhaço
de pernas para o alto.

Do lado em que o sol se põe
até o fim (anoiteceu),
não há ninguém.

E aqui, até você (Vésper insone)
já esqueceu
meu nome.

 

Lucio Carvalho nasceu em Bagé (RS), em 1971, e reside atualmente em Porto Alegre (RS). Foi por uma década (2008 – 2018) redator e editor do portal e revista Inclusive, premiada em 2010 com o Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos, pela OEI/SPR. É autor do livro de contos “A aposta” (Ed. Movimento, 2015), do livro de artigos e ensaios “Inclusão em Pauta” (Valentine, 2017), do romance Trapézio” (Valentine, 2019) e outros. Em 2019, cursou a especialização em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e publicou “A crise da representação rural na literatura rio-grandense” (Editora Fi, 2021). É editor no selo Valentine e edita a revista literária Sepé.

 

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147ª Leva - 02/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Elton Uliana

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

ausência

 

o corpo

imperceptível
em sua
palpável
totalidade

ali

esparramado

entre
o que a tela
faz
presente

e

o que
deixa
………………….de lado

 

 

 

***

 

 

 

vazio

 

no som insistente
dos pés

o desejo

delinear
a física solidez
de uma figura
fantasmagórica

andando
sem rumo
para cima
e para baixo

nunca sucedendo
em produzir
um ser de sentido pleno

um ser todo

pendurado
…………….pelas
…………………próprias
…………………….palavras

 

 

 

***

 

 

 

razão insatisfatória

 

…………………….a questão

sobre
o que está envolvido
na leitura
de um poema

conecta-se

com
…………………a questão

…………………………………….central

sobre a qual
este poema
medita

nomeadamente

……………….a questão

 

 

 

***

 

 

 

uma sensação de abismo

 

entre a altura aérea
da torre
e
o pesadelo inconstante do poço

a mesmice incessante dos aeroportos

 

 

 

***

 

 

 

contínuo

 

a narrativa
é o impedimento da morte

tomando refúgio
na fantasia de uma ilha
como uma curva fabular
dentro do tempo comum
da extinção

a narrativa
do fim
da narrativa
é ela própria
fechada
dentro
de uma narrativa

adicional

o fato da aniquilação
mantido no futuro da narração

ou

consignado
ao passado
da sobrevivência

 

 

 

***

 

 

 

realidade bruta

 

esfregando os narizes
no fato de que
aconteça o que acontecer
no poema
acontece
em termos da linguagem

mas
linguagem
assim
carece
de espessura
de textura

separações tempestuosas
colapsos trágicos
conjunto de marcas pretas

palavras enviadas
em uma farra

estendendo-se por meia página

com

becos labirínticos
e
alamedas sintáticas
impulsionando o significado
da passagem
por meio
de cantos gramaticais apertados e
curvas fechadas

 

 

 

***

 

 

 

uma sentença

 

 

uma sentença
de estilo fraturado em sua itinerante tipografia no espaço branco serpenteando em uma névoa de metáforas evitando o verbo com as ferramentas da gramática e do léxico suas consoladoras repetições de som e palavra refletindo sobre a força de produzir imagens e sua frágil linguagem figurativa adulterando os esforços da prosa denotando com suas descrições elusivas e seu tom portentoso e seu registro petulante e suas arritmias sintáticas e seus digressivos complementos permanentemente deslocando-se protelando-se oscilando eternamente entre domínio e acidente até que de repente uma virgula um pivô
um ponto

 

Elton Uliana é escritor, tradutor e crítico literário brasileiro radicado em Londres. Ele é o coeditor do Brazilian Translation Club da University College London (UCL), um projeto criado para a disseminação de escritores brasileiros no mercado literário anglófono. Atualmente trabalha com o Laboratório de Antropologia Multimídia da UCL, desenvolvendo um Museu de Patrimônio Cultural em Realidade Virtual para e junto com os povos Guarani e Kaiowá do Brasil, uma parceria entre a UCL e o Museu Britânico.

 

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147ª Leva - 02/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Manuella Bezerra de Melo

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

A pele, uma vez que habita o sal
assume posição protocolar de felicidade

Os povos dos trópicos são luminosos,
tem o coração cortado pela linha do Equador

Uma flecha acerta-lhes como alvo
e assim despejam-se nas águas mornas

O corpo em feridas que sangra se cura
se levanta em sal pra render a vida vindoura

Os povos dos trópicos são mumificados para que
durem milênios, tornam-se pais e mães de todos os povos

A pele, uma vez que habita o sal
assume o estatuto da eternidade

Espera o seu retorno
Esperam a chegada do seu reinado

 

 

 

***

 

 

 

Envenenei o céu pra que você
não visse morrer a segunda filha
o socialismo é um programa
é uma fenda no meu umbigo
é uma pasta de grão de bico
sob uma torrada com azeite
cancelei o café diário
que equivale ao suicídio sem extremismos
quantos estômagos são necessários
pra digerir a graxa que você passou¿
quantos fígados precisas
pra filtrar todo álcool necessário
de seguir viva?
Perguntam-me como estou?
efetivamente viva
por vezes, nem tanto
quase sempre
esta parte, omito
omissão é a caverna eficiente dos ineficientes
não se compartilha maledicências
dores amargores brotoejas
feridas abertas são constrangedoras
e já não há mais ninguém em condições
tenha selfies sorridentes e esbeltas
braços abertos, rei do mundo
as minorias se adequam
ou desaparecem

antagonismos a parte
o socialismo é um programa

 

 

 

***

 

 

 

soou-me o alarme às seis
soa tal o uivo de uma cadela
guindasteei-me na força de uma mãe
servi melão pão café leite
ele partiu porque filhos partem
e levou a matéria orgânica dos dias
esvaziei-me e vazia dei a mim
trinta convalescentes minutos
curei-me da morte numa pilha de pratos
uma típica manhã: caríbdis no inox

 

 

 

***

 

 

 

enxergo através dos muros
embebida em sangue vermelho
me afundo em sede espessa
enquanto passeiam gabirus
em fuga dos cozinheiros e serventes
com suas vassouras sujas
não interfi ro: observo acompanho
e
pra que não adentrem meus sonhos
cerro as janelas

 

 

 

***

 

 

 

Tereza olhou-me
meteu medo até em xangô
como um rio e seu poder
adentrou em mim
aventurou-se de mim

Nos olhos lustrados de Tereza
centelhas podem ferir

seu flanco não é mais o mesmo
não é mais do mesmo
seu flanco é todo ele meu flanco
meu flanco nunca será o mesmo
depois de suar sob o teu

pelo cabelo aproximei-me
ajoelhei, pedi uma benção

Tereza, isto é uma carta:
– Quero beijar-te agora.
Salva-me!

 

 

 

***

 

 

 

sobre janelas
e casas grandes
[coloniais]

desconforto é aquilo que se sente
quando cortam sua língua

desconforto é aquilo que se sente
quando te arrancam de uma zona
que você não planejou sair

território
ocupação
produção
distribuição

Liberdade é campo de batalha

todo corpo é uma
metáfora bélica

 

Manuella Bezerra de Melo é uma jornalista, investigadora e escritora brasileira residente em Portugal. Autora de “Pés Pequenos pra tanto corpo” (Urutau) e “Pra que roam os cães nessa hecatombe” (Macabéa), “Um fado atlântico” (Urutau) e “A Fissura” (no prelo pela editora Zouk), é organizadora e curadora da coleção de antologias VOLTA para tua terra de escritores estrangeiros. Pós-graduada em Literatura brasileira e interculturalidade (Unicap), é mestre em Teoria da Literatura e Literaturas Lusófonas (Uminho) e bolseira no Programa Doutoral em Modernidades Comparadas; Literaturas, artes e culturas da Universidade do Minho.

 

 

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147ª Leva - 02/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Priscila Branco

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

nunca controlei meu suor
minhas fezes, minha urina
o sangue menstrual
os surtos psicóticos
a raiva ao capitalismo
a pulsão da morte
os pelos desgovernados
as unhas rapideiras
a respiração acelerada
o odor do trabalho

já não suporto
o grito controlado
a lágrima domada
o soco parindo
um livro inteiro

 

 

 

***

 

 

 

é preciso falar com portas
imaginando o outro
lado um mundo inteiro
submerso em labirintos
pontes entre portas
guardando carros
carroças e andarilhos

é preciso bater em portas
aceitar o silêncio
como resposta
aguardar bocejando
uma vigília
sem pressa e sem prece

é preciso derrubar portas
chutar até cair
abrir estradas
descosturar suturas
inventar saídas
para vencer os abismos

 

 

 

***

 

 

 

só mais um dia de fracasso
o acaso me diz
és uma máquina de fazer ossos

como meu grande ofício,
reparo no verbo antepassado
gosto de carne queimada
churrasco mal feito
respondo teimando:

não sou nada disso
tu que é chato.

 

 

 

***

 

 

 

…sempre à beira
o poema é um salto
quebrado

por outro lado,
ler poesia é voar
num barco

depois de alguns anos, está tudo no lixo.

 

 

 

***

 

 

 

eu bem gostaria de uma surpresa
às três da tarde de uma segunda
terceira opção
no meio do ano
quando o frio parece feio
porque acontecido
e a saudade não suporta mais
o real.

 

 

 

***

 

 

 

basílica à noite

 

no corpo, um corte profundo
como uma cena de filme bem feita
como um take da sua câmera quebrada
um corte religioso
que nem o cabelo de maria
madalena
ou judas
quem sabe a gente reescreve a história
beijando na boca.

 

Priscila Branco é poeta, mestre e doutoranda em literatura brasileira, pesquisadora da poesia contemporânea escrita por mulheres brasileiras fora do cânone, editora da Revista Toró e da Macabéa Edições, além de ser colunista da Revista Cassandra. Também faz parte do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura (NIELM-UFRJ) e do grupo de pesquisa Mulheres na Edição (CEFET-MG). “Açúcar” (2021) é seu livro de estreia, acompanhado pela plaquete “Pitada de prosa”.

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Kleber Lima

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Os cavalos começam a correr.
Balançam minha cabeça.
Sacodem meu coração.
Em seus fortes lombos,
a doce bagagem extraviada,
segue terrestre e profundamente,
despachada na corrente sanguínea
até para fora da realidade.
– caem sobre dois olhos que brilham –
brilham como duas velinhas obstinadas
acesas por dentro da mais ampla escuridão.

 

 

 

***

 

 

 

agora me sento e penso em você.
penso sobre teus pés e tuas mãos.
no teu sorriso milésimos de segundos antes
de atravessar a linha de chegada até o meu.
nesta pequena dosagem de teus dedos angulares
que por onde passam
deixam um legado de lírios
como se iniciassem pássaros
a caligrafia dos teus cílios.

– me aquieto
afixado entre teus olhos
organizado como horóscopo
na estante do teu olhar –
aberto como livro em suas mãos,
páginas à tona num deserto,
hóspede da direção incerta
do ascendente do teu beijo,
que por detrás da cortina,
à espreita,
arranha meu peito.

 

 

 

***

 

 

 

Lá está você
uma janela por onde se vê os próprios olhos
um mar cujas águas mais fundas desembocam em si mesmas
uma flor que tanto mais desabrocha quanto mais entranhada do próprio perfume
um sol que por dentro irradia outros sóis
uma casa que é o único caminho para o próprio lar
um livro de páginas tais lidas com a língua embrulhada pelo silêncio
um alimento que cultiva a fome assim como a luz talha a sombra
uma oração que religa, dedo a dedo, as próprias mãos.

 

 

 

***

 

 

 

Veja
são todos leões
soltos na savana do sangue –
pesadas pedras que se carrega até ao mais alto.
Parecem com relâmpagos
arqueados pelos parapeitos do céu
prestes a eletrocutarem o ar que já não existe no peito.
Muito semelhante a trens desgovernados
cujos trilhos dependem de pedaços dos nossos corpos para não envergar.
Não se engane
são todos templos dinamitados
cujas crenças permanecem por séculos vivas
trabalhando em segredo por esse vínculo inquebrantável.
Eu havia falado: são leões, todos leões
rugem mais alto ou mais baixo –
depende da dose.
eu acabei de dizer:
são antídoto e veneno.

 

 

 

***

 

 

 

Meu deserto é um animal selvagem –
ao encontrar uma sombra
desiste da caça
e move-se contra si mesmo –
da própria carne tira os nacos
que endurecem o movediço terreno
fincado debaixo de si.

por onde quer que se olhe –
areia areia areia.
nada sobrevive nada
à fome de se devorar
dentro
o lugar de onde veio
esse coração dependurado
que rasga como um olho
a escuridão que teima em acender.

 

 

 

***

 

 

 

Depois que você devorou a si mesmo
mastigou sua orelha
a ponta dos seus dedos
folheou seu coração
encheu de tufos de cílios
páginas com os melhores trechos –
inaugurou uma plateia com suas vísceras
pôs cadeiras cativas para
sua inadequação
suas conjunções malignas
seus monstros
sua má companhia –
depois que seus dentes molares
começaram a balançar
do tanto de violentas mordidas
nos maciços tijolos da lida –
enfim aprendeu que a vida
com seu adubo de feridas
é que nos engraça.

 

Kleber Lima. Bibliotecário. Teresina (PI). 1984. Publicou “Poemas I” pela Ed. Penalux em 2016.

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Clarissa Macedo

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Rejeição

 

Teu olhar ginecológico
habita o meu aquário
de usuras e medos.

Profissional, asséptico e vidrado
o deslocar dos teus olhos
ofende o meu útero,
cansado da espera.

Enquanto me curo da tua ausência
da tua face clínica e distante,
que jamais arranca o chamado do meu apelo,
bordo a falsa flor,
laureada de armadilha,
clandestina
como a agulha que não soube usar
e que espetei na casa mais alta do teu coração.

 

 

 

***

 

 

 

Surpresa

 

Não fui a garota que todos esperavam
[porque a mim nada foi creditado]
— “Será igual ao pai”, diziam
[aquele que me foi(-se) tirado].
Não fui a boa menina,
mas uma paisagem caricaturada:
por fora, o avesso, a penúria, uma linguagem muda
por dentro, um cacto de selênio e violência.

(Uma poesia autoafirmativa como esta não pode valer a pena).

Uma menina, inesperada;
uma mulher, horizonte irrecuperável.

 

 

 

***

 

 

 

Endereço

 

Minha casa é uma ilha
Um mar que secou há tanto
Onde os pássaros bebem a bile dos meus sonhos.

 

 

 

***

 

 

 

Cenáculo

 

para Lílian Almeida

 

Ao pé das Oliveiras,
um alaúde queimava
e ele via as cordas.

Sob a árvore do deserto,
uma lágrima de pudor
e a fuga ao coração do incerto.

Judas, o mais amado,
sem prata, um sopro,
um engano à mercê
do medo –
do Senhor, um olho.

 

 

 

***

 

 

 

Perpétuo

 

Uma encosta
um leme de celas
que sobrevive
à interrupção do tempo.

Um salário de medos
veste a carapaça,
tigre de oito metros.

No infinito,
um relógio esquivo permanece.
Na intermitência,
o cortejo dos solos que deixaram
dos deuses que temeram.

 

 

 

***

 

 

 

Espículo

 

Onde eu estava?
Quem era quando, desavisada,
olhava de longe o percurso dos anos?

Todos sabem da morte,
e dizem dela com intimidade.

Hoje eu a topo de frente,
como um cão olha a tarde
como um pássaro que, sísmico,
pousa nas remotas asas.

 

 

 

***

 

 

 

Do abrupto

 

Molhar as plantas
Comprar sabão
Depenar as frutas
Saudar os óculos
Amarrar sapatos
Limpar os poros
Minha mãe é morta.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, agente cultural, pesquisadora e professora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e exterior. Integra coletâneas, revistas, blogs e sites. Publicou “O trem vermelho que partiu das cinzas”, “Na pata do cavalo há sete abismos” (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia; traduzido ao espanhol), “O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição” e “A casa mais alta do teu coração” (Prêmio Biblioteca Digital do Paraná). É a idealizadora do “Encontro de Autoras Baianas” e do “Sarau Cartografias”.