Obituário
(ano da peste, 3 de abril de dois mil e vinte e um)
1
Em algum momento
(o nome certo é passado)
Reclamávamos das correntes infindáveis
Das mensagens – tão automáticas – de bom dia
Ignorávamos, dávamos deslike
Protestávamos com efusivos textões
(os tempos eram outros
havia tempo para isso)
Em algum momento
(o nome certo é passado)
Reclamávamos das fotos bonitinhas
– de peixes, de pássaros, de flores, de jardins –
Emolduradas com frases bíblicas
Ou enfeitadas com poemas de péssima qualidade
(os tempos eram outros
havia tempo para isso)
Hoje – não há como chamar de presente –
As fotos postadas vão mudando de cor
(um inverno terrível se alastrando)
As imagens coloridas – antiga regra –
Vão dando lugar a outras tonalidades
Os registros sorridentes – nas fotos de perfil –
Sendo trocadas pela bandeira negra da dor
E só a palavra LUTO prospera entre as postagens
2
“o sofrimento maior
na maioria dos casos
é não poder fazer nada”
– alguém postou hoje, de manhã
E tudo que nos cerca
– em qualquer uma das redes sociais –
É um imenso obituário
3
Riscar a palavra futuro dos dicionários
Como se apaga uma ilha do mapa
(a bomba derradeira, armada ali
em uma de suas mais belas praias)
O que se divisa no horizonte
– daqui de onde falo
até onde a vista alcança –
Tem o cheiro sombrio da morte
E os maus ventos
– que nunca foram tantos –
Não se furtam em propagá-lo
4
Não há casa que ela não tenha sondado
Não há família em que ela não tenha rondado
Não há perfil em que ela não tenha visitado
(mesmo que distante, só de passagem)
Incansável a sua mão, incansável a sua pena
Infinitas as florestas (sombrias) de onde vem o seu papel
Infinitas as usinas (sombrias) de onde vem a sua tinta
Infinitas as fábricas (sombrias) de onde vem os seus livros
Que as pessoas – memento mori –
Que tiveram o nome escrito nessas páginas
Descansem em paz
5
Os aliados da morte
Sorrindo, enchem os pulmões de ar
E cada uma de suas palavras
É uma nova vala que se escava
Os entusiastas da peste
Sorrindo, enchem os pulmões de ar
E cada uma de suas palavras
É uma nova vala que se escava
Os capitães do mato do caos
Sorrindo, enchem os pulmões de ar
E cada uma de suas palavras
É uma nova vala que se escava
(dizer que falam, obviamente
É um erro crasso, um exagero:
Urram, mugem, guincham, relincham)
E cada uma de suas palavras
É uma nova vala que se escava
6
Có có có corvos grasnam
(os aliados da morte)
E cada grasnar có có có corvos
É uma nova cova que se abre
Có có có corvos grasnam
(os entusiastas da peste)
E cada grasnar có có có corvos
É uma nova cova que se abre
Có có có corvos grasnam
(os capitães do mato da morte)
E cada grasnar có có có corvos
É uma nova cova que se abre
7
À sombra circular dos abutres
Descansam, exaustos, os coveiros
Rafael Nolli é natural de Araxá, MG. Professor, formado em Letras e Geografia. Publicou livros de prosa e poesia, com destaque para “Isca” (poemas, lançado em 2020) e “Gertrude Sabe Tudo” (obra infanto-juvenil de 2016).
Panteras em transe
Dançam sob minha pele
Cerro meus olhos e sinto
A furiosa partitura nas artérias
E a sinfonia dos caninos acesos
Lacerando a carne
A febre cresce e decifro
A fábula canibalesca
***
A Carne Flamante das Metáforas
Irmã fronteiriça
Alia bestial delícia
Ao seu léxico luxurioso
Colhe especiarias na mata
Tece um amuleto de enigmas
Sangria de grafemas e signos
Rumorosa raptora
Transita e transborda
Salta entre as páginas
***
A Doçura Peçonhenta dos Feitiços
Meus seios sussurram preces em tuas mãos
Rosários lambem teu espírito enfurecido
Os meus feitiços roçam os céus de tua fome
Sílaba a sílaba, sacrílega
Tempero um apocalipse
Com a tempestade dos nossos nomes
***
As Mil Portas do Poema Ardem
Cinco voltas
Ferozes
À fechadura
***
Códex
Uma canção toma de assalto a minha boca
e estilhaça a paz que não queremos.
Dentro da casa que erguemos,
não há mordaça que baste:
o sonho cresce selvagem no sangue.
Um verso acende molotovs na língua,
verve virulenta inventa a rebelião.
Um gatilho para o tumulto,
entre corpos pacatos e obedientes,
um acorde eriça a revolução.
***
Teia
Francesca Woodman desliza
por dentro das fotografias.
Com olhos aranhiços,
a face sublime suicida.
Francesca dança
nua
levita e tece.
Penélope suspensa
espreita,
espera.
De súbito, o rapto
Francesca nos dilacera.
***
O balanço do fim do mundo
Um céu deliciosamente louco nos convida
ao beijo vertiginoso do abismo.
Ardilosos feiticeiros, driblamos a morte
e nos encontramos como dois pássaros infinitos
em cósmico voo.
***
Talismã
Nas mãos de um anjo
o mineral mistério
onde o desejo se enraíza
e diabólico, floresce
cruel e escura ferida
no coração de Deus.
Anna Apolinário (João Pessoa – PB, 1986). Bruxa, poeta, produtora cultural independente, organizadora do “Sarau Selváticas”, co-fundadora da “Cia Quimera” – Teatro & Poesia, colaboradora da Revista Acrobata – Literatura e Artes Visuais. Autora dos livros “Solfejo de Eros” (CBJE, 2010), “Mistrais” (Prêmio Literário Augusto dos Anjos – Funesc, 2014), “Zarabatana” (Patuá, 2016), “Magmáticas Medusas” (Cintra/ARC Edições, 2018), “Las Máscaras del Aire” (Poema Colectivo – Cintra/Arc Edições, 2020), “A Chave Selvagem do Sonho” ( Triluna, 2020), “Furor de Máscaras” – Poemas automáticos em coautoria (Cintra/ARC Edições, 2021).
Uma trilha de formigas
sobe a parede
parecendo um ponteiro.
Sai de trás de um relógio
e cada uma
parece um segundo
em direção ao poço do prédio
onde só há o esquecimento.
Vão fugindo tão devagar
que é possível fechar a janela
para que o tempo
não escape do quarto
Para que as formigas deem voltas
e mais voltas ao redor da gente
como se o tempo parasse.
Ou para que retornem ao relógio
como se o tempo retrocedesse.
Voltasse ao ponto
em que instantes antes
uma formiga andava pelo chão
e você, numa cena linda
com um copo de plástico
retirou-a dali
colocando-a nas plantas
para que aquele pequeno segundo
jamais
se perdesse
***
Cena
Ver você através da janela
como se os limpadores de para-brisa
fossem os pincéis numa cena
que vai virando passado
à medida em que o ônibus
se aproxima.
Como uma pintura que vemos na sala
e imaginamos apenas
os movimentos do pincel
atrás das cores.
Ou uma música em que imaginamos
o que fazíamos e onde estávamos
ao ouvi-la da primeira vez.
Como se no ônibus eu estivesse
com fones de ouvido
e assim que chegasse,
a cena do encontro já estivesse
em um dos seus desenhos.
E tudo que parecia acontecer
pela primeira vez
os sons, as cores, as lembranças que teria
quando chegasse
fosse algo que eu apenas recordasse
pois você já teria me mostrado
no caminho
há muito tempo
***
Viagem dentro de um quadro
Ela olhava pra fora
do carro como se houvesse uma pintura
que ia se fazendo aos poucos.
Então passava os dedos no vidro
como se fosse ela
que pintasse a paisagem.
Primeiro pintava as árvores, contornando-as,
ou as rosas, cujas pétalas
pareciam sair da tintura vermelha das unhas,
e um lago aparecia conforme a respiração
embaçava o vidro e ela murmurava o barulho das águas.
Depois, era a paisagem que entrava pelo vidro aberto,
na luz que coloria a pele,
no vento que trazia os cheiros das flores
e desenhava seus cabelos
como se fosse ela que estivesse dentro do quadro.
Ela parecia dormir encostada no vidro,
sonhar com a paisagem
que aos poucos se formava.
Por isso, ao atravessar um longo túnel,
a lua aparecia como um olho brilhante que investigava
tudo. E quando uma montanha na forma de
menina enrolava toda a pintura,
parecia ser ela se preparando para dormir
do outro
lado
***
Caixa de sapatos
Ela guardava suas fotos
numa velha caixa de sapatos.
Mas o olhar que a câmera
capturava era o olhar que
eu via todos os dias.
Aquela doçura já lhe servia
quando criança.
E as olheiras lhe serviam
à medida em que o corpo crescia.
O olhar mais lindo que eu
vi era como uma roupa
que sempre a acompanhava
e através dele eu podia imaginá-la
ao meu lado mas também
no corpo de antigamente e nos vestidos
que usava naqueles dias.
Era como um tênis
cujo número nunca mudava.
Que ela guardava numa caixa
como se aquele tênis fosse também
uma espécie de fotografia
Rafael de Oliveira Fernandes nasceu em São Paulo, em 1981, é autor dos livros de poesia ”Menino no Telhado” e “Cadernos de Espiral” (ed. 7letras), e dos romances “Vista Parcial do Tejo” e “Baseado em Fantasmas Reais” (ed. Patuá).
milena esconda essas vergonhas
limpe dos olhos dos pios a presença na casa
escórias
o sujo
paredes molhadas
de cheiro vivo
guarde no armário a presença na casa milena
guarde nas gavetas
debaixo das roupas proibidas
que roçam na umidade
sobras à beira do canal
dobras
na ponta dos dedos
é suja a presença na casa
a terra sob os peitos qual serpente
e outros castigos pelos feitos de eva
maçã vermelho-sangue salivando gênesis
***
terra sob as unhas,
sob as solas,
sob o ventre.
eu rastejo.
e o frescor do solo
contra a pele
conhece apenas
quem tem a minha sede.
tantos milhões de anos dedicados
a levantar a criatura humana
em duas pernas
e eu prefiro ver o mundo
desde o chão,
de fora, de frente.
contrariando o igual dos dias.
aqui, desse lado da lida,
todo e cada corpo
é um querubim rebelado
ainda acometido
pela dor da queda.
aprendendo passos senoidais.
aqui, desse lado da lida,
os ciclos se fecham
qual mandíbula nas caudas.
passamos bem, provando o proibido,
que não é tão saboroso quanto pregam uns
tampouco põe as malas na porta.
passamos bem, mas nos botaram
a cabeça a prêmio
num livro famoso
e agora estão querendo nos queimar.
não se vê piedade
para as que preferiram
abandonar pelo caminho
braço e pena,
rito sagrado e doutrina
em nome de um ângulo primevo
que nenhum ser
jamais verá
na vertical.
***
tenho uma dobra vermelha na pele do rosto
como um corte
entranha
……..você viu
a marca vermelha da cama no meu corpo
branco
onde dói o sol
……..você viu
os meus sinais em coleção
imitando a pose ereta de órion
ombro em rigel pé em betelgeuse
as partes proibidas à mostra
faz calor
e eu tenho sede
todos os tabus desnudados
……..constelações
e eu ariadne corpo celeste
vindo jantar nos escombros
as pontas dos seus dedos mastigando os meus contornos
entranha
todos os lábios
mordendo
a fraqueza da carne
***
suas mãos em expectativa
vinham me manter acordada
era hora do sol …….isso tem que ser visto
o primeiro é o raio das promessas
que se fazem por medo
o segundo é o raio das mentiras
que se contam por amor
os que vêm depois são para aquecer a culpa nos ossos …….isso tem que ser visto
a manhã é a hora de uma verdade
que não desce com água
nem harmoniza com vinho
hora do lugar da língua que ocupa o sabor do erro
salgado demais para o sangue] …….em gota …….em gota
vem ver
já vai nascer
vamos ter certezas
e as janelas ainda mostravam a cidade alagada
***
o reles ato
de atar
os cadarços ……..o inacabado
e a boca continua aberta em suspenso ……..eu respiro
o reles ato
de pés e mãos ……..atarefados
feito o sapato em tropeços ……..desatado
e eu sou inábil em usar as mãos
servem-me à inutilidade
de não arrematar o rosto ……..o inacabado
do ano de quem morreu
dos planos de quem surtou
dos meus dentes que eram tortos
e continuaram tortos
dentro apenas do limite do ignorável
o final da chuva em que eu dancei pequena
tomei bronca
mas não gripei
mamãe estava errada ……..você não é todo mundo
e quem não é todo mundo
é ninguém
e eu ainda tropeço nos pés
e sujo a blusa da escola de sangue ……..eu respiro
e o calor de madureira lateja as minhas veias de infância
o mundo passando
na telefunken
1984
que já estava ali quando eu nasci
***
comecei no mundo com um grito de dor ……..o primeiro ar
comburente universal ……..fogo no peito
a minha história
que nasceu do grito
sucessão de notas descolocadas
em sol maior
fogo grave ……..queimadura
a minha história
escrava no fogo da forja
molda o passo torto
com que tento dançar ……..na ponta ……..do lápis
nanquim luz e sombra
todos os fados padecendo ao sol
o meu deposto aos pés do fogo
gota de sal na pele nos pelos
……..cai o pano
eu seco os olhos com o desfecho inesperado
eu seco o corpo da impureza nos poros
Milena Martins Moura é mestre em literatura brasileira e tradutora. É autora dos livros “Promessa Vazia” (2011), “Os Oráculos dos meus Óculos” (2014) e “A Orquestra dos Inocentes Condenados” (Primata, 2021, no prelo). Integra a equipe de poetas do portal Fazia Poesia e de colunistas da revista Tamarina Literária. Publica suas produções em diversas esferas artísticas no Instagram @oraculos_dos_oculos. Contato: milenamartinstradutora@gmail.com.
x
sobreviventes deitados trocam
figurinhas repetidas
experiências amorosas repetidas
de bruços trocam
feito meninos que tocam trocar
sorrisos enigmáticos repetidos
trocam até cascalhos repetidos
balançam os calcanhares no ar repetido e trocam
viram as barriguinhas para o céu
trocam o curso das nuvens repetidas
trocam andorinhas repetidas
repetem TROCO NÃO TROCO TROCO
trocam as pernas de lugar
trocam o lugar de estado
os joelhos com os joelhos dos joelhos mais jovens
o de joelhos tortos repetidos
trocam hálitos repetidos
trocam ar
sobreviventes trocam tudo
apontam calor nós nos cabelos
trocam fluidos inevitáveis repetidos
furos de guerras ecoadas
trocam repetida a terra de lugar
dormem com raízes parecidas a joelhos
sobreviventes dormem repetidos
de repetidas mãos dadas a sonhar
incertas repetições mais
exatos epílogos mais
***
:
não me sinto tão
bem nunca me senti tão capada
não tenho a memória de estar
vibrante “As they say on my own Cape Cod”
sinto que deveria ter me dedicado ao
arco e flecha como dediquei o pescoço
à leitura de teorias UFO
acordo com essa pança cheia de melancolia
olho minha mãe me olhando
minha cachorrinha me olha olhando minha mãe triste
já fui pega olhando uma lata
de molho de tomates no lugar errado
o rapaz me pegou pela mão perguntou meu nome
perdida mora por perto está sozinha
entre ervilhas eu disse
o molho entre ervilhas
comprei caqui mole e bistecas de porco
comprei a serralheria dos ouvidos açougueiros
nunca me senti tão amputada
o caminho me levou até minha mãe
minha cachorrinha olhando minha mãe triste me olhando morta
acho que seu pai tinha isso que você tem
e isso veio da conversa com a psiquiatra
isso não tinha CID e eu tenho pensamentos mágicos
trocamos a cidade a psiquiatra
me sinto bem pior
agora que sei ser vibrante com a não compreensão
do tigre CONVIVER
sei e posso e alcanço falar sobre minhas deficiências
sobre meus distúrbios
e isso assusta muito quem não me vê babando
errando as pernas letras assusta não conhecer
devo ser mesmo esse caqui mole olhando
a lata errada nos mercados
carla
ninguém fala moléstia no poema
carla é só uma lata fora do lugar
carla “As they say on my own Cape Cod”
a vida é bonita e cheia de coelhos com trevos entre os dentes
o rapaz mais famoso da minha estante
me puxa pelos cabelos
perdida mora por perto está sozinha
uma lata errada
“a loucura é portátil”
é claro que a lata não é errada
carla e a lata “As they say on my own Cape Cod… partners in prosperity.”
***
x
o sobrevivente estende as mãos à estátua
o ritmo dos joelhos
o pão ainda cru
obscenidades
algumas razões
quinas duns pensamentos
mas chora
o sobrevivente estende as mãos à estátua
mas chora
o sobrevivente teme o caminho da lágrima na mão embrutecida
chora toda a sede da goela
mas estende as mãos
mas contorna
um ponto além do contorno duro
contorna
imita
estende a biografia do nariz
o sobrevivente afia a moela e cisca o assoalho
ESTOU PERTO ESTOU BEM PERTO
o sobrevivente e algumas razões
o pão ainda cru
mas pão
***
:
estender a asa norte e
sair feito uma garça rodada
eriçar a última pluma e sair
feito uma pavoa mentecapta
esticar as unhas e sair feito
um galo tarado espichar o sal
e sair feito um flamingo excessivo
arrepiar o bigode e sair
da moita em espasmos apaixonantes
o pescoço é o pêndulo da coisa penada
abraça um queixo meu peito pombo
bica uma pena que me coça a chaga da coisa penada
mania ave
de quantos bigodes precisa uma mulher para sair?
***
:
tenho uma memória inquieta
tenho um pescoço de criança
conforto em lã com cheiro de avô
lavanda
canela com leite morno
nada mau
diriam
para uma casa abandonada
nada mau
dizem
nada nada mau
comenta quem acabará por morder meu pescocinho mofo
***
:
no inverno
vou jogar meu pescoço para trás
largar um pensamento horrível no cúmulo
de uma pedra sob o sol
faço por você
mostro um pedacinho da minha arquitetura
por você
para que você não fique com a impressão
e sim com a certeza:
não sei lidar com meu próprio sumiço
com a destruição
palmo a palmo
daquilo que em nós dois
soma estações tectônicas com
flores daninhas entre os desencaixes
Carla Diacov [@diacovcarla] nasceu em São Bernardo do Campo em 1975. Lançou os livros “Amanhã alguém morre no samba” (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), “A metáfora mais gentil do mundo gentil” (Edições Macondo, 2016), “Ninguém vai poder dizer que eu não disse” (Douda Correria, 2016), bater bater no yuri (livro online pela Enfermaria 6, 2017), “A menstruação de Valter Hugo Mãe” (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017) e “A munição compro depois” (Cozinha Experimental, 2018). Os poemas aqui apresentados estão no próximo livro de Carla Diacov, : “pescoço x sobreviventes”, que sairá pela Garupa.
o mar
vindo desmaiar aos nossos pés
o sangue do sol se dissolvendo
nos beijos salgados d’água na areia
onde um olhar mais cuidadoso
desvendaria pegadas
apagadas
porém ainda minhas
procuro inutilmente
na fotografia recém tirada
um pedaço de felicidade
sobrevivente
***
atenciosamente
antes que os caminhos
desapareçam sob a chuva,
olha-me de perto
à luz das pedras, sou outra
olha-me mais uma vez:
ignora as lamparinas falsas
sou medusa vitoriosa
se não te pareço monstro,
olha-me de novo
mais sóbrio
***
qual o foco exato
do sismo definitivo?
qual a linha entre imensos
tectônicos?
qual a linha da vida
na palma das placas?
qual sua parte e
qual a minha?
seremos nós
a ameaça ao mapa?
***
a mulher sem mãos conta os dias
em comprimidos
e no crescimento dos fios de cabelo
diligentemente arrancados antes
do colapso dos sistemas de saúde
bonito é quando cicatriza — ela repisa
e se contenta: não sabe mais do passar das semanas
bonito é quando cicatriza — reprisa
e mede as horas nas unhas que se refazem
após os cortes programados
os minutos na tampa do dedo arrancada
durante o preparo do jantar
os segundos nas gotas do ansiolítico
e sobretudo nos mantras mentalmente entoados
enquanto a mulher sem mãos ensaboa
cotovelos
antebraços
punhos
palmas
parabéns-pra-você
enquanto isso
ossos expostos
sob a água pandêmica da torneira
inauguram
novo calendário
***
142ª
que cor tem o tempo ido?
salpicos que cirandam no fundo branco
retratos mortos de olhos postos
nas paredes à espera de retornos
na noite enorme do porto
cargueiros e transatlânticos
lançam preces aos práticos
amanhã
a certeza do sol
ao leste da orla
amanhã
não haveria chave
que abrisse a mesma porta
***
o olhar amansado
por pedras
as pedras
antes dos poemas
os passos
antes do caminho
eu ainda penso
eu ainda penso
eu ainda penso
penso nas pedras
e levanto o olhar com ânsia
para me certificar de que as pedras
ainda são pedras
já não tropeço
uma mulher entre pedras
vestia a camiseta:
“e agora
que você sabe?”
Anna Clara de Vitto (Santos/SP, 1986), é poeta e autora de “Água indócil” (Urutau, 2019) e MEADA (ed. da autora, 2019). Desde 2017, integra coordenação do Clube da Escrita para Mulheres, fundado pela escritora, cordelista e poeta Jarid Arraes. Possui poemas publicados nas revistas Ruído Manifesto, Mallarmagens, Germina Literatura, Plural, Fazia Poesia, Literatura e Fechadura, Escrita Droide, entre outras. Além das publicações esparsas, ministra oficinas de poesia e participa de saraus, performances poéticas, podcasts, leituras e mesas de debate.
Meus ouvidos são copos de vidro
bacias onde escorre pra dentro
água salgada
– ao passo do conta gotas
da gravidade –
nascida do lençol freático
que me corta.
Dentro da noite
há pontilhados
no teto, que me fogem
dançando o ronco das motos
O eterno ruído da boca
do estômago
arranca.
Dentro da noite
há algo que me escapa
ou me consome. Dentro
da fronha do travesseiro
Dentro
do café que tomei mais cedo
Dentro
não.
[ de vidro ]
***
Percebi que nós pode significar nós como os nós de uma corda de uma corrente
nós podem(os) barrar a fluidez de um movimento de um peso
obstruir a entrada de certas coisas
nós de uma armadilha nós de dedos apertados e nós juntos nós
não necessariamente somos bons mesmo quando pensar em nós é bom
nós somos ruins atados ou quando um dos nós se prende
nós sugerem uma ligação feita à força e não se questiona
à quem ela pertence à quem interessa estes nós tão presos e dados
nós talvez se desfaçam com paciência e com jeito
mas para tanto nos deixam machucados, tanto que desistimos dele
não como quem se conforma mas como quem se cansa e larga
com as mãos ocupadas
***
Esquecer tem uma manha, uma regra,
consiste numa fórmula que todo mundo conhece,
da qual por algum motivo fui alienada?
Esquecer tem textura de pele,
ou gosto de cigarro,
seu cheiro fica impregnado nos dedos?
A língua amarga e inchada dentro da boca,
os olhos vermelhos e apertados,
tentando enxergar na claridade branca do mormaço?
O som da espuma iluminada e efervescente
que interrompe o ensurdecer calmo do mar,
a onda que atinge sem aviso?
E que te puxa para onde quiser,
em uma dança descoordenada
que te engole por inteiro
e você não sabe mais se faz algumas horas, um final de semana,
ou uma vida toda em que a ardência do sal na garganta
se esgueirou em direção ao peito
se expandindo até explodir em um rasgo,
num ciclo onde as histórias se repetem
sem platéia e sem voz.
Seria o suor escorrendo pelas costas,
a tatuagem desbotada,
o calor abafado, a voz que grita e ri,
um cinema abandonado na República?
Seria o amigo que te beija a bochecha,
afundar em um abismo de almofadas,
a dor que vem tirar o sono?
Ou seria cantar baixo acompanhando as curvas da estrada?
Quantos copos de café tomar até esquecer?
Quantos goles, quantos dias, quantas manhãs em silêncio,
quantas vezes chegar em casa, o tilintar indiscreto das chaves no escuro,
caminhar às cegas pelo corredor memorizado,
fechar a janela do quarto como um ritual de encerramento
que se repete toda noite e finda absolutamente nada.
Penso tanto nessas 8 letras, uma de cada vez,
uma memória por vez,
separo em sílabas à medida em que também divido as horas,
três sílabas, três horas, três meses,
a semântica não me parece inteligível
pois só me vem à cabeça o antônimo que é lembrar a todo segundo
e quase implorar para alguém me ensinar
como se faz para esquecer o que é gostar de você.
***
sombras teu contorno cobre páginas as palavras falam sobre ele
ou sobre nós é difícil ter certeza sobre mim e sobre o que são apenas
sombras observo tudo o que há em nós sob uma camada de sombras
sombras na esquina da loja me assusto com algumas sombras
e de volta para casa corro sozinha pois me vejo envolta por sombras
no frio do apartamento não te enxergo em meio às sombras e pela janela
o gato branco se perde sorrateiro entre sombras sua bicicleta me corta
jogada em sombras num emaranhado de cacos e roupas e lixo e tantas
outras sombras mentiras e sombras a corda despejada me amarra
e me revela minhas próprias sombras o escuro e o som da chuva
me confundem pois seu rosto está repleto de sombras sombras
quando caminho pelas ruas vejo apenas sombras sombras e na mente
de cada pessoa sombras sombras no metrô prevejo abismos onde
potencialmente existem sombras sombras ou apenas sombras
até que ponto há sombras há profundidade nas sombras e as sombras
e os planos são apenas sombras se os pensamentos tão escuros
estão apenas no meio das sombras sombras quanto mais a sombra
é difícil de entender nas sombras que caminham ao meu lado
e se são sombras ou apenas sombras.
***
Nessas férias comi bem.
Estive ocupada, te garanto,
por isso não respondi nenhuma das suas mensagens.
Perambulei por lombadas diversas que me chamaram,
sem rotina, sem dever. Li o que meu professor
escreveu sobre sexo e mais um tanto
de introduções e coisas incompletas.
O noticiário estava difícil, as noites às vezes
mais, o vinho intragável embora delicioso.
Matei a curiosidade ao quase me afogar
entre ondas que, ao se partirem ao meio,
acariciaram minha bochecha esquerda.
Encontrei no céu um laranja tão aberto
que não podia ser verdade; na mata,
o sopro da noite; na água, a divisão do mundo;
vi ao longe (não tão longe) uma mulher
de maiô branco e me vi de maiô preto.
Lembrei de você e de você e de você,
meus pés às vezes emergiam e avistei
até um caranguejo sendo levado pela maré.
O pêssego estragou, mas comi alguns,
o maracujá que ia virar bolo também.
Tudo bem; tenho o corpo abastecido,
minha barriga se dobra em conforto,
meu coração saciado
pois nessas férias comi bem,
embora você não tenha me comido.
***
Hoje em dia é com o coiote que transo,
embora haja ainda um resquício
a memória de canto de olho
das chaves lubrificadas pelo frio
escorregando no bolso do peito
da respiração que pintava o escuro
dos pelos eriçados
e meus passos que lambiam gelo.
De noite
o olho do coiote brilha
milhares de vezes em cada folha úmida
estrelas negras flutuantes
na rua que tentava ser uma velha amiga
onde uma mulher emergia dos arbustos
onde um homem deslizava de bicicleta
onde eu caminhava sem querer ser vista.
Hoje em dia estou na mesma rua
hoje em dia o corredor não se esquece
hoje em dia a casa não chega
as chaves estão perdidas
no pega-pega infinito de uma caçada
e meus passos doem
e meus olhos ardem.
Naquela rua não havia um coiote
Ele não se escondia
Ele não me enganava.
Helena Aranha (1991) é designer, nascida em São Paulo, onde reside atualmente. Em seu estúdio na capital paulista, desenvolve experimentos artísticos com poesia e artes visuais, além de projetos de design gráfico e ilustração.
O silêncio da poesia ecoa
pelos muros da cidade
Seu silêncio ensurdecedor
Gritou em meus tímpanos dormentes
e calou…
Mesmo calada, reticente,
posso sentir sua respiração em minha respiração
e o seu pulsar em minhas veias
Os versos insistem em viver
no deserto da minha sobrevivência…
Fatigada pela indiferença dos homens
e sufocada pelo concreto
a poesia reclina-se em meu peito.
Mesmo reclusa, ela continua a bradar
com sua costumeira altivez!
***
Certezas utópicas
Ilusão pensar que se vê
Engano pensar que se sabe
Porque vemos apenas a sombra
Sabemos do todo uma parte
Apenas a parte que nos cabe!
***
Raízes profundas
Fincada em meu chão
e injetada de ânimo,
sobrevivo à aridez das minhas perdas!
Em meio ao cinza da paisagem dos dias
insisto, verdejante, renascendo
tal como a flor do mandacaru
que desfila sua beleza em cores!
Espero, serena e forte,
que a paisagem que me cerca se renove.
E ela sempre se renova…
A vida é mesmo feita de paradoxos
e há um tempo pra cada coisa:
tempo de acinzentar e tempo de verdejar!
***
Avesso das coisas
O universo quer voltar ao princípio
porque tudo está demasiadamente duro
demasiadamente perverso
A borboleta deseja voltar ao casulo
porque, lá, ela se sente protegida
da excessiva dureza da vida
da descomedida perversidade dos homens
A criança chora com saudade
do ventre materno
onde ela era livre
onde o cordão umbilical
era laço que unia…
Aqui fora, a criança chora
e reclama a ausência
infligida pela pressa das horas
do tempo que nunca sobra…
É preciso colocar, de novo,
as coisas no prumo!
Vai, criança!
Não dá mais pra voltar pr’o ventre
Então, segue em frente
e desavessa o mundo!
***
Parto
Para Clarissa Macedo
Não quero ter
de escrever este poema
porque ele dói em mim
e não quero que doa
também em você
Não quero
escrever este poema
porque seus versos
diluem minhas certezas que
mesmo aleijadas
me sustentam
e
como não posso
viver sem elas
imagino que você
também não possa viver
Já disse!
Não quero
escrever este poema!
Só de gestá-lo
em meus pensamentos
sinto que me falta
o ar nos pulmões
Suas metáforas amoladas
cutucam minhas feridas que
pensava
já estariam saradas
mas elas sangram
novamente
Teimoso poema!
Mesmo contra a minha vontade
teima em nascer
teima em vir ao mundo
a este mundo que não o quer
Pois bem!
Nasce logo de uma vez
bendito poema
e me livra das dores deste parto! ……(
…………………………. …………………………..)
Já posso senti-lo
saindo de minhas entranhas
consigo vê-lo
esborrachando-se no papel,
sujo de sangue,
do meu sangue, ………………e
ainda dói
agora
uma dor mitigada
por tê-lo parido
por vê-lo nascido ……………….[finalmente
Entorpecida
ouço seus primeiros gemidos
e antes mesmo de respirar ………………[ele chora
Pobre poema…
parece já saber
que viver neste mundo
não será nada fácil
E a dor que doía em mim
agora dói nele ………………..[mais uma dor parida em versos…]
Ilza Carla Reis, escritora, mãe, professora, é natural de Euclides da Cunha (Cumbe), Bahia, Brasil, onde trabalha e reside. Professora do curso de Letras do campus XXII da UNEB. Autora do livro de poesias “Poemeadura” (Mondrongo, 2018) e coorganizadora, ao lado de Luís Felippe Serpa, da coletânea em prosa “Histórias pra quem gosta de aprender” (Darda, 2019). Integra os coletivos “Confraria Poética Feminina”, pelo qual participa de diversos projetos e coletâneas, “Mulherio das Letras” e “Coverso19”. Considera-se, ousadamente, uma mulher que faz “peraltagens com as palavras”.
E não há tempo
Para as coisas fúteis
Para as discussões inúteis
Já foi-se letra pra pouco argumento.
Não há mais sentimento
Só se formulam lamentos
Sanidade espalhada no chão em um manicômio urbano
Poesias pisadas até saírem sangue. Esse é o movimento.
E de praxe, eu estendo a bandeira da minha própria sanidade e des-rimo os versos proferidos
Queimo parte por parte
Depois me jogo nas cinzas e rolo
E rio
E choro.
Pois é a vida, não é mesmo?
Após disso morro lentamente nos braços da cidade
E soluçando, clamo à vida, a perda, as perdas.
E apago, acordo e não me encontro.
Vou pra onde não vou e ando por onde não ando.
Morro de novo aos pés da poesia.
E está consumado.
***
Limite
a cadência dos clarões fantasmas
os monstros geométricos
a quimera gigante no céu
árvores em negativo fosforescente
um pedaço de sorriso morto uivando no mar.
um trem fantasma só de ida sem nem mais voltar
o sugador de almas com fome
o canibal demoníaco poliquântico
o terror sanguinário de barba e dentes
e os pedaços do espelho que espalharam-se no chão ao atravessar
e as paredes que te fecham pra te esmagar
e o seu corpo que te prende e tenta te devorar
até desmaterializar
prendendo o limite das coisas que trancamos pra não mais lembrar.
***
Barulhos
quando se escreve um artifício
o peso das palavras fura o leve do ofício
há quem diga que o poema é feito de ar
eu digo que o poema é feito de alma
de uma alma pra outra alma.
há quem diga que o que há no poema é barulho.
eu digo que o que há no poema é erupção mental.
seja corrosivo, colorido, carnal
matéria visível, palpável e espiritual.
***
Cortejo Fúnebre
enquanto todos dormem
nas ruas, fantasmas caminham calados
em pares, braços juntos ao corpo
no meio panorâmico, caixões levados pelos ombros.
os borrões seguem cabisbaixos.
e vão aumentando.
o cortejo assombra a cidade
e vira um carnaval de sombras.
***
Brisas Continentais
Mais uma vez não cumpri as coisas que jurei prometer
Tanta coisa na minha lista e eu não sei o que fazer
Tô tentando seguir reto para não enlouquecer
Não gritar de madrugada pra ninguém me ver morrer
Pois até no meu último suspiro só me vem você.
Sua voz no meu lado chamando pra ao seu lado permancer
O sonho é tão real que até posso tocar o céu
De mel são as minhas asas e tão alto eu sei q vou alcançar
Minhas brisas tão inertes me levando de volta para o mar.
E do alto dessa vista, meu impulso me faz voar
No meio da fumaça do cigarro que tenta me cegar
Imerso nas brisas continentais que me deslocam de lugar.
***
Pedaço de Corpo
dos olhos da felicidade
nada vaza, nada escapa
pelos vãos, os sonhos vis
as pontes deixadas pela nossa imaginação.
talvez o amor fosse apenas uma invenção
uma história, um peso, um erro, uma superação
nunca escolhemos o que cegos, nós vivemos
apenas temos mudas noções.
e se cegos vivemos, nada faz tão sentido em nossas direções
perdidos estamos, vencidos ficamos ultrapassando nossas próprias invenções.
JP Schwenck é um artista multimídia carioca nascido no ano N⁰ II do século XXI. Proveniente de uma geração hiperativa e explosiva, ele escreve desde os 12 e produz conteúdo independente e efusivamente. Em 2020, publicou “Opus”, seu primeiro livro por si próprio e lançou seu podcast experimental “Alma Mastigada”. Inspirado na arte contemporânea e no seu cotidiano, sua missão é expor a sua visão do mundo que lhe absorve e transpor sua liberdade artística.
Do conceito
nasce a palavra
perdida, indefinida,
sintaticamente
inexistente.
Em vozes vertida
ganha uso, ganha vida,
desfaz e refaz
a sua morfologia.
Variável em geografia
mal atribuída
confundida
semanticamente
dependente.
Evocada por mestres,
Drummonds e Severinas,
enuncia e anuncia
a sua polissemia.
***
Endotérmica
Permita-me ser,
na discrição de meu canto,
este pequeno espanto
em velado e tímido pranto.
Aceita-me
na minha inteira delicadeza
no meu balançar modesto
na minha insonora leveza.
Deixa-me
embrenhar-me em meus versos
misturar-me às rimas
metrificar-me
até que eu lhes seja ímã.
Exponha-me
somente em palavras
quando eu não mais houver;
quando as sobras
de mim
forem brasas.
***
Corpo-linguagem
Ao mundo abstrato renuncio
para concretizar-me
em palavras.
A todos os deuses renego
para cultuar-me
entre linhas.
Costurei-me poesia
– sou inteira cicatriz.
Eu só existo
por escrito.
Sobrevivo
à flor do lápis.
***
Não quero cantar o medo, não quero cantar a morte. Não quero ser autora deste tempo e espaço. Não quero ser um retrato da época, a cair pelo mesmo buraco.
Quero um corpo transcendental, que exista e escreva d’outro lugar. Quero simular vidas de outrora. Quero narrar memórias de outrem. Quero apartar o tempo vigente da minha palavra inocente.
Quero ser a poeta dissimulada – e não esta (ao chão acorrentada).
***
Meu grito é gravado. Minha luz é elétrica. Planto flores de plástico. Tenho olhos envidraçados.
Meu cérebro tem radares, mas não sente, não reage. Fui cultivada in vitro.
Protótipo da humanidade, sou projeto aplaudido.
***
Às vezes penso que a vida acontecia antes.
Comecei tomando diariamente algumas doses de tempo passado, de forma a anestesiar o presente. Notei que, à medida que as engolia, os membros do corpo lentamente adormeciam. Fui perdendo minha habilidade tátil. Meu olhar passou a beirar pelas laterais, as pálpebras semicerradas. As memórias resistiam e se derramavam, paralisando cada órgão. Um minuto a mais e eu me desacontecia.
Hoje, inebriada de passado, sou apenas uma lembrança ambulante, sonâmbula. Não há mais um corpo presente para morrer. A vida já aconteceu.
Bruna Salgado Baldez nasceu em 1992, é natural do Rio de Janeiro (RJ) e reside em São Paulo (SP) desde 2019. É graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduada em Língua Portuguesa pelo Liceu Literário Português, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atua como preparadora e revisora de textos na Universidade Paulista (Unip). É autora do livro de poemas “Armadura lírica”, recém-publicado pela Editora Patuá (2021). Participou da Antologia “Ruínas” (Ed. Patuá, 2020), foi selecionada no Prêmio Poesia Agora Outono (Ed. Trevo, 2019) e premiada no 1º Concurso Literário AMCGuedes de Poesias e Contos (Ed. AMCGuedes, 2015).