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145ª Leva - 05/2021 Destaques Olhares

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Cores e expansões: a vida em Paula de Aguiar

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

Pensar as cores que contornam tudo. Ter as formas como horizonte de perspectivas num campo aberto de observação. Sorver da existência mundana a experiência dos gestos, os idiomas do tempo e as múltiplas faces da condição humana. Vislumbrar rostos embotados de silêncio, expressão e rotina. Percorrer a ciranda dos tons para depois enaltecer a pulsação que anuncia a vida.

Viver pela Arte é um estado de atenção, ver-se desperto para flagrantes e voltar o olhar também para o que parece imperceptível. O artista é esse alguém de espírito inconformado, posto que ousa  perscrutar até mesmo o insondável e trazer dali lampejos e mergulhos. No retorno dessas imersões, o apreciador da obra sabe que os trajetos ofertados lhe causaram toda sorte de revoluções internas. Nós, espectadores ávidos, somos parte da construção almejada pelo criador quando ecoamos por dentro de nosso âmago os impactos saboreados.

E como é bom desfrutar de possibilidades da descoberta ao nos depararmos, por exemplo, com a arte de Paula de Aguiar. Nas ilustrações da artista, as formas regem os caminhos. Suas cores acusam a aurora do humano sobre corpos que transbordam sentimentos dos mais variados. Mas eis que a temática do corpo ganha uma dimensão especial quando o alvo passa a ser o universo feminino.

Em Paula de Aguiar, o ser mulher é tido em amplitude, posto que carrega em si cenários de manifestação que vão desde o recolhimento íntimo até a expressão mais efusiva de suas personagens. No bailado das formas, pairam ante nossos olhos corpos alargados como se tal escolha refletisse uma necessidade de marcar posições contundentes diante da vida que inevitavelmente nos toma de assalto. Trata-se de um verdadeiro trajeto por onde desfila a face plural das emoções, caminho que denota a predileção pelo olhar poético sobre as mulheres ali pensadas. Nesse caldeirão de rostos e gestos, há um misto de delicadezas, silêncios, inquietações e enigmas.

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

Um dos pontos altos das ilustrações de Paula está no uso das cores. Nelas podemos notar um sentido de expansão das sensações gozadas através de uma experiência estética que contempla o diálogo com os mundos interno e externo. O efeito dessa coexistência entre o íntimo e o exterior não opera dissonâncias entre essas duas esferas de percepção do tempo e da vida; pelo contrário, mais parece harmonizar dimensões que naturalmente sugeririam algum tipo de oposição ou confronto.

A pernambucana Paula, que é formada em computação gráfica e atualmente estudante de artes visuais, viu no aprendizado e manejo com as ilustrações digitais uma valiosa estrada a ser trilhada profissionalmente, tanto que vem atuando como freelancer nos últimos tempos.

As veredas percorridas pelo trabalho da ilustradora recifense mostram uma especial relação entre o real e o imaginário. São imagens que sugerem também uma interposição entre os caminhos do sonho e da fantasia com a visão do mundo que não cessa de acontecer debaixo de nossos narizes. O resultado de tudo isso é também a ideia de que um todo orgânico paira sobre a obra da artista, fazendo com que os elementos constituintes se mostrem interligados, seja pelos laços humanos de nossa vivência terrena, seja por projeções que decorrem diretamente duma capacidade de reinvenção sensível da existência.

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

* As ilustrações de Paula de Aguiar são parte integrante da galeria e dos textos da 145ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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143ª Leva - 03/2021 Destaques Olhares

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Do tempo que não coagula

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

O mundo e seus sinais. Gestos por todas as direções apontam um pouco do que somos, esse misto de espanto e estranhamento no terreno desavisado das descobertas. O vento carrega tudo, desacomoda poeiras, certezas e segue seu curso de transformações. Somos esquina quando divisamos um rumo e outro das escolhas a serem sentidas e executadas. Somos substância fluida, tal como águas que apontam sempre para a mudança, ainda que esta se manifeste à revelia de nossos desejos mais profundos.

A ideia de se estar vivo vem como sopro que atravessa bem mais que o organismo que possuímos. O corpo, por si só, é expansão, morada que projeta a liquidez do sonho ante a visibilidade e concretude da matéria. Cada passo dado é sintoma da consciência, muitas vezes submersa em razões imprecisas. E o que pode a arte diante dos nossos lampejos e arroubos existenciais?

Tentar achar respostas parece não ser tarefa que esgote as possibilidades. É olhar para todas as direções e também para o que está em nossos arredores e perceber ali correspondências com o que pulsa dentro de nós. A arte se materializa a partir de um estado de atenção sobre as coisas, o mundo e seus fenômenos. É esse tipo de percepção que atravessa o trabalho de Marjorie Duarte, artista que ressignifica o caos interior a ponto de forjar a partir dele condições de produção.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Falar do caos que assoma alguém é também perceber que um novo sentido é dado às coisas e situações. Um turbilhão, quando não paralisa, conduz à aparição de outros rumos. E foi justamente esse tipo de movimento que norteou a trajetória artística de Marjorie. Sob o ponto de vista das tensões urbanas, o motor da ansiedade foi capaz de fazer com que, por exemplo, a artista desse azo à invenção de uma personagem muito cara em seus trabalhos, a menina-mulher Síndrome.

Um olhar detido em Síndrome parece nos revelar que sua materialização em imagens vem constituída por um conjunto de sensações que transbordam os desdobramentos do real. Ela é, então, a porta-voz de uma existência inquietante e crítica, mas também o reflexo da busca de uma ternura enevoada pelos desafios da vida prática. E a saída para as tensões da personagem é pensada por Marjorie através dos usos poéticos que a autora não abre mão de utilizar.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Em Marjorie Duarte, a imagem é vontade da palavra e vice-versa. Na interface entre desenhos, textos e colagens, a artista remonta a seu modo os fragmentos de um mundo acelerado, prenhe de verbos que saltam aos olhos pela urgência em comunicar. Seja na conjunção de frases ou na solidão das palavras, o imperativo de dizer algo sobre o ato espantado de existir é gênero de primeira necessidade para a ilustradora. E tal gesto se abriga na poesia dispersa da vida, condição de olhar a tudo com a avidez da descoberta.

Professora de Literatura e Artes no ensino fundamental, Marjorie também se dedica a ilustrar livros. Adepta do que chama de pensamento acelerado, que é esse estar perceptível ao instante, ela abraça a tudo com o ímpeto de agarrar o presente e aquilo mais que tal investida pode gerar. E deixar o agora se esvair pelos desvãos da memória parece uma perda incalculável para a criadora. Nessa dinâmica de uma atenção permanente aos sintomas do mundo, verdadeira recusa em dissipar o laço com a vida, o compromisso com a arte é exercício que revela um extremo teor de sensibilidade,  epifania com causa pungente que abriga as paisagens mais íntimas da artista.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

* As ilustrações de Marjorie Duarte são parte integrante da galeria e dos textos da 143ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Destaques Olhares

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No corpo do mundo

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Joice Kreiss

 

Dizer das coisas em imagens: eis uma definição possível para o ofício de um fotógrafo. Representar um universo de seres, objetos e lugares, tendo a luz como norte da criação. Ter a fotografia como o flagrante da vida que se manifesta em cada desavisado instante, propondo a quem contempla o resultado dos registros um mergulho também sobre o indizível.

Talvez o maior desafio para quem se proponha a captar a luz de um tudo seja o de apresentar recortes que mobilizem em nós algo de diferente. E aqui explico melhor para considerar que tal manifestação artística, quando foge da gratuidade e do óbvio, parece repercutir nos apreciadores o gesto da surpresa e de algum arrebatamento. Já que o mundo tem nos oferecido uma enxurrada de possibilidades imagéticas, podemos arriscar que os artistas que costumam sair do lugar comum produzem mais impacto com suas obras, pois se recusam a ter suas expressões diluídas no marasmo uniformizante dos excessos.

 

Foto: Joice Kreiss

 

O que chamo neste texto de corpo do mundo é, na verdade, todo um conjunto de possibilidades a alvejar sentimentos e percepções em torno de pessoas, gestos, coisas, lugares e fenômenos da natureza. E é nestas frentes vastas de observação que se espraia o trabalho de Joice Kreiss, artista sobre a qual ouso me debruçar agora e que evidencia em sua criação o ímpeto poético das representações.

Joice é fotógrafa de temática abrangente, pois perpassa o humano e também tudo o que o constitui interna e externamente. É, como ela mesma nos diz, alguém que tenta contar histórias através de suas lentes. No percurso narrativo proposto pela artista, temos uma profusão de movimentos ligados ao corpo humano, sinais que emanam de formas e gestos, de um ser e estar captado em meio ao turbilhão da rotina.

 

Foto: Joice Kreiss

 

Há também a Joice que vislumbra poesia e encantamento em diferentes paisagens do mundo, sejam elas urbanas ou marcadas por uma noção de bucolismo. Nesse seu trajeto, a fotógrafa parece eleger o silêncio dos lugares como algo que transborda para além das imagens captadas. Nos domínios da abstração, o olhar sobre a fisicalidade das coisas ganha contornos de reflexão sobre aquilo que parecemos enxergar como concreto, mas que nos é devolvido sob a forma do algo intangível.

Vivendo em Montenegro, no Rio Grande do Sul, Joice Kreiss sempre foi marcada pela fotografia e tem colecionado em sua trajetória participações em exposições, bem como premiações por alguns de seus trabalhos. A artista confessa que, nos últimos três anos, o estudo da fotografia se tornou algo mais consolidado em sua vida.

E assim temos a fotografia que enaltece variadas apreensões da luz. Há a luz que baila através dos corpos, outra que atravessa recantos de cidades. Vem à tona a luz que comunica o alvorecer dos dias e o fluxo das águas naturais. Também nos é permitido vislumbrar a luz que contempla as palavras esquecidas num canto qualquer da vida. Cada um destes fragmentos é instrumento da poesia de Joice Kreiss.

 

Foto: Joice Kreiss

 

* As fotografias de Joice Kreiss são parte integrante da galeria e dos textos da 142ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Destaques Olhares

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O legado das linhas de Vinha Oliveira

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Há um universo de coisas que se abrigam na tessitura dos dias. É dizer de formas que compõem mínimas partes de tudo o que pode ser representando pelas mãos de quem se dedica a mostrar o mundo pelas vias da arte. Nesse sentido, cada contorno e traçado se movimentam em favor da aparição de seres e objetos dos mais diversos aspectos, tendo em vista retratarem porções imaginadas da existência.

Na cabeça de uma artista como Vinha Oliveira, podemos supor resgates de memória, flagrantes cotidianos, delicadezas do ser, constelações de afetos e outros tantos sintomas da vida. Seus desenhos anunciam, de modo especial, uma miríade de mergulhos místicos que reverenciam a contemplação de mistérios inerentes à trajetória humana. Sobre este último aspecto, notamos que a criadora entrega seu ofício à sondagem do nosso âmago, trajetos internos que sugerem um diálogo com aquilo que transcende a materialidade das coisas.

Basta um percurso mais detido pelos desenhos da artista em questão e logo percebemos o efeito marcante que se inicia no engenho das linhas. A partir destas, Vinha desenrola os fios de cada gesto, face, objeto ou cenário apresentado. E tudo gira de modo impactante em tal perspectiva, pois é como se uma espiral de manifestações produzisse um resultado perene de possibilidades. Percebe-se, por exemplo, uma roda vida de expressões das personagens mostradas no enleio dos dias, na pulsação de hábitos, crenças e recortes íntimos.

 

Desenho: Geometria da palavra

 

A desenhista, que nasceu no Rio de Janeiro e mora na Bolívia há cinco anos, também é antropóloga e poeta. E foi no que chama de “exílio andino” que Vinha Oliveira, num modo de reencontrar elementos da cultura carioca que mais aprecia e tem saudade, se enveredou por caminhos autônomos do desenho. Estão marcados na memória dela, em especial, o mar, o samba, a música e as festas populares. Como a artista confessa, seus desenhos procuram a essência geométrica das palavras, percorrendo letras de músicas e também os poemas que escreve. Diga-se de passagem, tudo isso foi impulsionado no contexto da pandemia, sendo que o isolamento social levou-a a criar, no Instagram, o perfil Geometria da Palavra, espaço no qual divulga seus trabalhos.

A confissão de Vinha nos põe a pensar também que tudo principia no poder das palavras, pois estas geram a vontade das imagens. Mas é interessante notar que palavra aqui é matéria-prima, alicerce, estrutura sobre a qual se constroem as dimensões da vida representada em linhas, contornos, cores e contrastes. A palavra pensada em sua gênese primeira, que é dentro da mente de quem cria, estimula, projeta, engendra a materialização das formas no produto artístico. Palavra-faísca que dinamiza sensações, observações dos instantes e se constitui também como testemunho dos cenários experimentados na tênue linha entre saberes e sabores.

É de se imaginar porque Vinha Oliveira sustenta que na arte estão todas as respostas. E talvez a artista esteja querendo nos dizer que viver pela Arte é também se lançar num caminho permanente de descobertas, resgates, libertações e outras tantas epifanias íntimas. É renovar o impulso da vida, criar sensações, habitar dimensões outras, ver florescerem os enigmas e emblemas da condição humana. Mais ainda, pode ser forjar um outro indivíduo em nós, aquele que pende mais para as levezas do que para os abismos da realidade.

 

Desenho: Geometria da palavra

 

* Os desenhos de Vinha Oliveira são parte integrante da galeria e dos textos da 141ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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140ª Leva - 07/2020 Destaques Olhares

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A descoberta do mundo segundo Cristiano Xavier

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Em nossas mais remotas e pueris fantasias, a Terra parece ser uma reunião de lugares relativamente infinitos. Sustentamos a vivos olhos que mares, desertos e florestas não encontram limites em ponto algum. Encantados com belas, imponentes e enigmáticas paisagens, nos rendemos à magnitude da natureza, pois somos apenas parte de um colossal cenário de imagens e manifestações que estão acima do nosso controle e compreensão mais imediatos.

Tantos séculos se passaram e continuamos achando que temos o domínio sobre a natureza e os demais seres que nela fazem morada. Nossa tão exortada racionalidade mais parece um permanente estado de soberba quando nos julgamos superiores aos outros reinos que também habitam nosso planeta. Por outro lado, ainda bem que não somos páreo para desafiar muitos fenômenos da natureza. Estes últimos têm o poder de nos mostrar que andamos bem se nos contentarmos em levar a cabo o gesto de não intervenção em mecanismos que jamais poderemos alterar.

Talvez as paisagens e todos os seus seres dispersos pelo globo estejam a pedir de nós mais contemplação e pouca ou nenhuma interferência nos seus destinos. Dito assim, até parece um clamor utópico, mas o fato é que já vilipendiamos por demais esse vasto mundo em que vivemos, quer no aspecto físico, quando fracassamos nas questões ambientais, quer no humano, quando nos comportamos como canibais de nós mesmos.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Quantas vezes precisamos de uma pausa para desacelerar os tropeços de nossa espécie? Penso que todos os dias. E ter a arte como instrumento dessa reflexão é algo revelador e grandioso. É justamente tal sensação que parece permear o trabalho de alguém como o fotógrafo Cristiano Xavier.

As imagens de Cristiano dão conta dum verdadeiro percurso pelo mundo em seus mais distantes rincões. Ao deitar seu olhar para lugares como Madagascar, Namíbia, Irã, Mongólia, Indonésia, Patagônia, entre outros, inclusive conduzindo pessoas através de expedições, o artista nos apresenta uma diversidade de cenários que reforçam uma atenção especial à natureza. Nesse quesito, o fotógrafo tem percorrido o planeta buscando registrar árvores, tendo como foco espécimes raros e isolados. O resultado de tal investida é algo que encanta pelas descobertas inusitadas e também pelo universo de formas e texturas que nos remetem a paisagens exóticas. O próprio fotógrafo confessa que seu objetivo é despertar a atenção das pessoas para a beleza que se abriga nas árvores marcadas pela raridade. Para cobrir esse intento, ele lança mão das técnicas de fotografia noturna e light painting, transitando entre o digital e o analógico.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Mas o mundo em Cristiano Xavier também é aquele que abriga recortes possíveis para o humano. Nesse sentido, o artista retrata pessoas em rituais cotidianos que expressam as particularidades de suas existências. Aonde quer que passe com suas lentes, o fotógrafo se posiciona como alguém que preserva o protagonismo das mais diferentes culturas dispersas pelo mundo. Somem-se a isso ingredientes como a contemplação e o silêncio, os quais tanto marcam as posições de observador e observado.

Com tamanho apuro no olhar e nos recursos técnicos empregados, Cristiano logrou relevantes êxitos em sua trajetória profissional, dentre os quais o primeiro lugar no concurso mundial International Landscape Photographer of the Year 2017 – Abstract Aerial Award e a melhor colocação de um brasileiro no Epson Pano Awards 2017 – Nature/Landscape. Além disso, sua obra está exposta em galerias do Brasil, França e Estados Unidos.

Cristiano Xavier trava o bom combate quando nos conclama a apreciar a beleza que se espraia no mundo. E o faz evidenciando o poder sensível e transformador que emana do silêncio e da contemplação. Estas são duas ferramentas que instrumentalizam a fotografia para que ela adentre um verdadeiro estado de poesia. A predileção por cenários diferentes, inusitados e impactantes é uma acertada provocação para enxergamos além.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

* As fotografias de Cristiano Xavier são parte integrante da galeria e dos textos da 140ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

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139ª Leva - 06/2020 Destaques Olhares

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Do corpo e seus sutis mergulhos

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Eis a vida, palco de universos e sentidos, em seu transcurso tácito. Vê-la desfiar seus instantes, capturando as substâncias dos entreatos, é algo que também nos cabe. Na adição dos tempos, somos os corpos que recepcionam e guardam os sintomas da existência. Corpos que evocam linguagens, sinalizam caminhos e se deslocam no contorno das intermitências mundanas.

Logo se vê que estar no mundo nos impõe o passo adiante, qual seja o de irmos além da fisicalidade das coisas. No roteiro imaterial da jornada, somos escritura viva dos sentimentos e mistérios guarnecidos sob nossas peles. E a arte pode ser o elo entre as dimensões intimistas e o todo circundante, bem sabemos.

Uma obra pode comunicar mais do que apressadamente supomos. Em sua capacidade de canalizar experiências e transpô-las para os mais distintos suportes visuais, o artista é condutor de rotas ante nossos olhares carregados de anseios. Nesse sentido, talvez esperemos dele que nos estimule o gosto pelos atravessamentos, pelos temas que nos tirem da passividade, propondo-nos o caminhar autônomo e desacomodado sobre os cenários apresentados.

A representação do corpo através da arte cruza os tempos e vem eivada de simbolismos dos mais diversos. E há quem traga em seu ofício um olhar marcado pelos apelos sobretudo poéticos, fazendo com que um conjunto de subjetividades se torne protagonista. Aqui chamo a atenção para o trabalho de Fernanda Bienhachewski, que faz de seu enleio artístico também um acesso para a expressão de narrativas humanas.

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Devo ressaltar que há nos desenhos de Fernanda uma construção especial de pontes com o mundo através da exposição do corpo feminino. E este corpo é como um instrumento de diálogos sensíveis entre a natureza, o cosmo e o humano. Nessa confluência de eixos, a mulher é protagonista num cenário que sabe a mistérios, desejos e inquietudes, mas que também leva em conta a profundidade dos sonhos, sejam eles quais forem.

Ligada desde a infância às artes visuais e à literatura, Fernanda Bienhachewski tem seu trabalho também marcado por temas como o cotidiano, relacionamentos e questões existenciais. Estas últimas, diga-se de passagem, conferem à obra da artista certo tom filosófico, momento em que seus desenhos flertam com indagações da ordem do humano, envolvendo processos de consciência e busca pela compreensão do ser/estar nesse nosso vasto mundo que é, por natureza, repleto de dúvidas.

Graduada em Ciências Sociais pela PUC, e também especializada em Gestão Cultural, Fernanda vem atuando como produtora cultural ao passo que trilha a sua carreira nas artes visuais. Concentrando-se especialmente em técnicas a partir do nanquim e da aquarela, a artista vai tecendo múltiplos contextos para as criações. Seu retratar de corpos também revela as projeções de mundos imaginados, ampliando a noção de um limiar tênue entre o vivido e o inventado. E ficamos assim, marcados pela substância intangível das sensações ao mesmo tempo em que aquilo que nominamos como o real bate sorrateiramente à nossa porta.

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

* Os desenhos de Fernanda Bienhachewski são parte integrante da galeria e dos textos da 139ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Destaques Olhares

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A poética da ancestralidade em Ricardo Stuckert

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

O solo que pisamos abriga um verdadeiro inventário de memórias. E cada território contém em si as marcações do humano nas suas mais variadas intervenções. Cada povo impregnou seu lugar com o resultado de suas ações, com o dinamismo de vivências segundo gestos e costumes que lhes são peculiares. Tudo está atravessado pela fonte que emana da história, esta senhora que é modulada pelos mais difusos papeis dos seres viventes, sejam eles racionais ou não.

E eis que pensar a história é, sobremaneira, também perceber os ecos da ancestralidade. No sereno exercício de tentarmos mentalizar quem primeiro andou por nossa terra mãe, talvez vislumbremos muito mais do que formas imaginadas ou habituais e possamos sentir o quanto trajetórias e existências traçaram o espírito fundante dos lugares sobre os quais hoje nos apossamos ou simplesmente transitamos. Diante das profundezas dessa reflexão, será que conseguimos visualizar quem realmente nos antecedeu?

O esforço adequado que devemos aqui fazer não é o de uma mera sucessão genealógica dos nossos antecessores diretos, tendo em vista a constatação de que muito provavelmente isso nos afasta de compreender o quão distantes estamos de reconhecer quem primeiro esteve nesse locus chamado Brasil. Para bons entendedores, não fica difícil desconfiar prontamente que tratamos aqui de refletir a respeito dos povos originários. Sendo assim, o passo seguinte contrasta com qualquer ideia romantizada do tema, impele-nos a nos questionarmos sobre qual é o nosso papel em meio a um secular processo de apagamento de tais figuras humanas.

Quiçá a arte possa, de alguma maneira, não nos fazer perder de vista o elo que nos leva a um passado que condena resultados desprezíveis do processo civilizatório imposto por aqueles que sempre edificaram, a duras penas, a sua exterminadora hegemonia. No bojo da causa genocida, o homem, ao dizimar um expressivo contingente de vidas humanas, é, em grande instância, predador de si próprio. Sim, mas e o que o front artístico é capaz de fazer por causas tão devastadoras quanto esta?

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

A pergunta grita. A resposta, eis que ela pode vir também pelas lentes de alguém como Ricardo Stuckert, fotógrafo que dedica uma porção especial de seu ofício a registrar a viva expressão de povos indígenas brasileiros. Dentro dessa temática, Ricardo abraça a ideia de que tais grupos humanos não são um agrupamento homogêneo de seres humanos tradicionalmente colocados no fosso comum e preguiçoso dos estigmas. Pelo contrário, quer demonstrar imageticamente como existem vários mundos dentro das mais diferentes culturas indígenas.

Engana-se quem possa achar que o artista percorre tais delicados caminhos de nossas humanidades sem que sua vivência esteja profundamente associada a assuntos que nos são deveras caros. Em sua trajetória, ele acumula saberes e sabores no campo social, político e cultural do país, tendo sido fotógrafo oficial da Presidência da República entre os anos de 2003 e 2011, durante os governos do ex-presidente Lula, cuja experiência lhe proporcionou a cobertura de importantes acontecimentos da vida pública do Brasil. Some-se a isso também o fato de que ele assina a direção de fotografia de um dos mais emblemáticos filmes de nossa cinematografia, o premiado documentário “Democracia em Vertigem”, da diretora Petra Costa, aclamado internacionalmente e indicado ao Oscar 2020.

Feito esse pequeno parêntese, o que importa é tentarmos observar modestamente como Ricardo constrói seus olhares em torno de diferentes povos indígenas que habitam nossa continental nação. Desde seu primeiro contato com os índios Yanomami, em 1997, quando trabalhava na revista Veja, muitos outros percursos mais viriam a ser feitos nesse universo de matizes étnicas e culturais. De lá para cá, seu olhar testemunhou parte da rotina dos indígenas em diversos estados brasileiros, tais como Acre, Amazonas, Bahia, Mato Grosso, Goiás, Amapá e Alagoas.

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

O resultado dessa abrangente incursão pela diversidade indígena brasileira assume contornos poéticos, pois é capaz de promover olhares sensíveis e atentos às expressões observadas, vê-las desfilar suas espontâneas aparições. Mais do que rotinas e todo um conjunto de manifestações características de tais povos, Ricardo Stuckert traz até nós a vivacidade dos personagens retratados em seu enleio. Assim, gestos, rostos, atos e ritos abarcam um painel de sensações que nos mostram a principal riqueza que atravessa tais pessoas, sua genuína dignidade. E o artista obtém verdade em seu trabalho quando suas lentes se apartam de qualquer tratamento exótico na relação com esse Outro que se afigura belo, vivo e necessário.

A curiosidade de quem se depara com tais registros também pode estar direcionada à noção de imaginar como é mergulhar nessas culturas seculares e sorver delas o valor dos instantes. Atentar para os seus silêncios e sons, para as suas práticas, ideais coletivos, gestos naturais e narrativas. Ao mesmo tempo, quando pensamos no atual contexto político brasileiro, em que experimentamos um crescente atentado à existência plena dos povos originários, notamos o quão importante é considerarmos que pelas trincheiras da Arte também é possível se falar em resistência, deixando claros os imprescindíveis ímpetos de sobrevivência de toda uma coletividade de sujeitos. E negar o direito à plenitude da existência dos indígenas é, em larga instância, endossar a barbárie.

De fato, sobra experiência para Ricardo com toda a caminhada profissional, sobretudo por sua passagem em grandes veículos jornalísticos. Afinal, são 33 anos dedicados ao labor com as imagens, sendo testemunha de momentos contundentes da história nacional brasileira. Entretanto, arrisco em dizer que depois do seu vigoroso mergulho nas múltiplas faces das gentes indígenas, tanto o fotógrafo como o homem, ainda que abrigados na mesma pessoa, não são mais os mesmos de outrora.

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

* As fotografias de Ricardo Stuckert são parte integrante da galeria e dos textos da 138ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras.

 

 

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137ª Leva - 04/2020 Destaques Olhares

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Rupturas no silêncio

Por Fabrício Brandão

 

“Sem cara”: Claudio Parreira

 

Quem de nós é capaz de juntar os cacos do tal velho mundo? Essa pergunta ecoa há alguns bons anos em minha cabeça desde que escutei pela primeira vez “Pra começar”, canção composta por Marina Lima e seu emblemático parceiro e irmão, o poeta Antonio Cicero. À época, já sabíamos sobre qual contexto aquela música fincava suas bases de inspiração, principalmente a ideia de se pensar o mundo como algo passível de reinvenção a nosso modo. E a energia ali presente apontava para a cíclica dinâmica de um ir e vir, ou seja, desconstruir para reconstruir, respeitadas as devidas maneiras de compreensão pessoal das coisas, repertórios da individualidade.

Passadas algumas décadas, o hoje cada vez mais nos desafia a prestarmos atenção ao fluxo constante de transformações as quais estamos submetidos até mesmo inconscientemente. A própria ideia de não sermos produto acabado põe em xeque a tentativa de se cristalizar convicções. E estar em processo, num incessante devir, pode não ser questão de escolha, mas sim de como a torrente dos fenômenos que nos cercam demonstra nos afetar. Haveria, então, uma linha tênue entre desejar algo e mudar a rota pessoal pela interferência dos fatores externos a nós?

De toda forma, nosso mundo é um imenso mosaico de sentimentos e ruídos. E há de se desconfiar de quem apregoa linearidade absoluta em seu trajeto pela vida. Perpassada por idas e vindas, nossa existência dentro de uma complexa teia social cada vez mais não nos parece permitir uma passagem despretensiosa ou desavisada pelos fatos.

Dentro da lógica que reinventa as paisagens da nossa tenra humanidade, testemunhamos a expressão artística de um alguém como Claudio Parreira. Ao observarmos as colagens digitais feitas pelo artista, não há como o impacto não ser imediato se considerarmos muito do que foi abordado nos trajetos iniciais deste texto. Ora, vejamos: Parreira faz saltar diante de nossos olhos o rearranjo desse fragmentado mundo em que vivemos. E o faz com a habilidade de nos comunicar que os tais cacos de nossas experiências podem ser ajuntados sob outras formas de ser e sentir.

 

“Casal”: Claudio Parreira

 

Volta e meia, o pensamento de que não há nada de novo debaixo do sol insiste em nos rondar. No entanto, falar disso não simplifica e nem reduz as experiências tidas em matéria de criação. Pelo contrário, virtude maior é ressignificar os sintomas mais pungentes da vida. E é isso que Claudio Parreira faz com seu trabalho quando nos apresenta sua própria maneira de configurar as paisagens humanas e seus enleios.

As colagens de Parreira não são uma mera reconfiguração de formas e contornos. Elas nos mostram o rico vocabulário que advém de outros modos de se pensar a experiência dos mortais no planeta cada vez mais esquálido em que vivemos. É patente a verborragia que se abriga na arte dele, sobretudo por trazer à tona o poderoso efeito discursivo de suas imagens. E assim vamos sendo guiados por um imenso cenário no qual as inquietações afloram. Num mix que agrega provocação, crítica, memória, espanto, ironia e indignação, dentre outros atributos também possíveis, a expressão do artista em questão parece em muitos momentos representar um clamor. Diante de tamanhos ímpetos, caberia indagar ao que ou a quem tal demanda estaria direcionada.

Na confissão do próprio Parreira, quiçá uma revelação ou resposta: “gritos ao silêncio que querem nos impor”. Suas colagens digitais flertam com a ideia de manusear o absurdo e o incomum, ele ainda sustenta. Muitos conhecem o Claudio Parreira autor de contos e romances, contribuições literárias que já assinalaram alguns caminhos de reconhecimento pela palavra. Mas o que se agiganta agora, com a perspectiva visual, é saber que outras narrativas assumem seu protagonismo na trajetória do criador, aquelas engendradas a partir do gesto imagético que ousa desafiar apagamentos. A recusa ao silêncio é, em grande medida, um ato de rebeldia diante do avanço obscurantista que insiste em turvar o pensamento e as ações contemporâneas no quesito sócio-político, para não dizer em outros mais.

Na profusão de cores, caracteres e tipos, Parreira lança mão do diálogo entre o velho e o novo, da harmonização do clássico com o moderno, da coexistência entre seriedade e irreverência. E seu êxito maior é nos ofertar outros modos de abordar as nossas humanidades, deixando entrever a pulsação permanente da lucidez, espírito incomodado e atento, mas que não deixa perdidas pelo caminho fatias necessárias de bom humor, leveza e esperança.

 

“Contabilidade”: Claudio Parreira

 

* As colagens digitais de Claudio Parreira são parte integrante da galeria e dos textos da 137ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras.

 

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135ª Leva - 02/2020 Destaques Olhares

Olhares

Esses insondáveis olhos que nos miram

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A Arte não é apenas esse complexo de possibilidades, concretudes e experiências que se prestam ao território de uma já tão costumeira e reduzida noção de entretenimento. E talvez esse discurso visa reduzir o real impacto que o ofício artístico pode representar para quem se digna a produzir seus conteúdos. Ao lado disso, há a necessidade de percebermos que o artista é, para além de seus gestos humanamente transformadores e contemplativos, um alguém que vive do seu labor, um trabalhador que também oferta seus produtos e precisa se manter profissionalmente dentro de uma determinada lógica de sobrevivência.

Essa discussão toda acaba trazendo à tona o próprio valor que atribuímos aos bens culturais. E fica a questão: por qual razão ainda tomamos a Cultura como algo secundário numa sociedade que demanda sempre pautas urgentes? Indo mais além, por que a seara cultural não seria um gênero de primeira necessidade em nossas prateleiras pessoais? Talvez nos falte informação ou, melhor dizendo, educação suficiente para que consolidemos a Cultura num amplo nível de aceitação social.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Mas por que levantar todas essas questões num texto que se dedica a destinar olhares sobre uma artista em especial? A melhor resposta talvez seja considerar que, assim como poderia ocorrer com qualquer outro ramo de atividade profissional, as escolhas e o poder do chamamento pessoal influenciam e mudam rumos. Foi o que aconteceu com Ana Luiza Tavares, que, ao longo de anos consideráveis, viu-se dividida entre as feições de dentista e artista plástica. Ela confessa que, numa certa altura de sua vida, chegou a se afastar da arte por dilemas atinentes à subsistência financeira, chegando a colocar em xeque a própria vocação artística.

Para nossa satisfação e descoberta, o tempo, este senhor que também atenua fardos, foi capaz de apresentar a Ana Luiza caminhos de permanência pelas vias artísticas. Hoje, sua arte coexiste com a ainda trajetória de odontóloga, mas de modo mais firme, decisão que certamente redimensionou sua vida a patamares nítidos de realização pessoal.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A seu modo, os desenhos de Ana Luiza Tavares rendem especiais visitas a um universo feminino que sabe a territórios de delicadeza e força. Nesse ínterim, chama especial atenção o emprego das cores, pois estas representam um verdadeiro termômetro de sensações aplicadas às personagens que nos são apresentadas. Cada tom utilizado traduz a performance feminina diante dos mais distintos cenários mundanos, condição tal que pode refletir tanto serenidades quanto inquietudes.

Flertando com elementos poéticos, dos quais a síntese se destaca, Ana Luiza condensa imageticamente sentimentos que pulsam na intimidade humana. Dessa maneira, percebemos alguns de seus desenhos comunicando e reunindo, a um só tempo, temas como o silêncio e o recolhimento, gestos tão necessários em meio ao turbilhão contemporâneo a que somos submetidos.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A artista, nascida em Salvador, vive no Rio de Janeiro há cinco anos. Desde muito pequena, testemunhou no seio de sua família a presença ativa da arte, pois sua mãe é ceramista e seu pai um geólogo aficionado por artes plásticas, literatura e música. Quando retomou seu ofício artístico, Ana viu as coisas acontecerem numa velocidade que nem supunha pudessem ocorrer. Conseguiu impulsionar sua carreira de ilustradora, passando a divulgar e comercializar suas obras tanto nas bandas virtuais quanto em espaços físicos no Rio.

Há o algo que se destaca na expressão facial das mulheres dispostas nos desenhos da artista. É como se cada gesto, cada olhar em particular, nos despertasse para contextos peculiares de contemplação e reflexão, sugerindo mergulhos ensimesmados e nem sempre leves de assunção. Aliás, dizer do que somos também denota um infindável complexo de narrativas marcadas por tensões de natureza múltipla. Seja na via de um clamor profundo ou na transmissão de um simples encantamento com a vida, as mulheres de Ana Luiza Tavares olham bem dentro nos nossos olhos, ofertando-nos possivelmente um banquete de estranhamentos e espantos.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

* As ilustrações de Ana Luiza Tavares são parte integrante da galeria e dos textos da 135ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Olhares

Olhares

Anseios da luz

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

A roda da vida gira. Há paisagens anunciadas pelos matizes de uma aurora deslocada no tempo. A curiosidade de quem observa os interstícios da existência sonda os mais variados momentos em que tudo transcorre. É preciso que aconteça o gesto natural das coisas, mecanismo de se deixar levar por tudo aquilo que acontece diante dos olhos. Quem contempla a manifestação dos elementos dispersos por entre os dias, sabe que a palavra rotina é somente uma mera tentativa de definir o espetáculo cíclico das coisas.

Ainda que pareça não haver nada de novo sob o sol que nos abraça, o sabor das primeiras visões e descobertas é chama acesa em nossos sentidos. Entre o espanto e o encantamento, podemos ser surpreendidos por aquilo que mobilize e quiçá rasure a nossa maneira de vislumbrar os fenômenos do mundo. E é desse modo que a fotografia é capaz de nos impactar, trazendo a lume registros que bailam entre o traçado da memória e a revelação daquilo que passa despercebido em meio à cronologia de nossa trajetória.

Se o que julgamos como sendo o Belo estiver confinado ao campo de nossas vivências e crenças pessoais, então o despertar da arte em nós parece ser mais o exercício puro de nossa individualidade. No caso da fotografia, talvez seja o misto de constatação imediata e sugestão que nos mobilize rumo ao território vasto das percepções. Por constatação imediata, leia-se aquilo que se corporifica como a concretude que salta aos olhos, enquanto que a sugestão é esse abrigo permanente em torno do mistério, embalada que está pelos dotes da intermitência e da relativa infinitude.

De todo modo, é possível considerar que as linhas iniciais deste texto encontram correspondência direta com a trajetória de certos artistas. Pensando nisso é que vale mencionar aqui a obra de um fotógrafo como Hermes Polycarpo. Do artista em questão, trazemos à tona o esmero das formas, seja na busca por se retratar a figura humana, seja na maneira em se deter sobre objetos e temas afetos à natureza. Nesse trajeto de observações muito peculiares, o fotógrafo evidencia o ritmo dinâmico que está por trás das jornadas pessoais de gente dos mais diferentes estratos sociais. Pode ser um mero transeunte das vias públicas ou quiçá um alguém a mirar o mar de esperanças sem fim. Pode ser o corpo que repousa em luz e sombra ou o olhar inquiridor de um menino. Pode ser a paisagem que redimensiona a natureza ou então a geometria das alamedas.

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

O fato é que em Hermes nada parece fugir aos desígnios da sutileza, essa mão invisível que conduz os temas abordados. Não há dúvida de que a técnica está a serviço de toda uma demanda de subjetividade e poesia que emanam das imagens concebidas. Em meio à solidão que atravessa pessoas e suas sinas, lá está também o olhar do artista capaz de tornar suaves certas missões imperativas da existência. Desse modo, homens, em seus engenhos de labuta e contemplação, aparentam ser muito mais do que meros operários de suas rotinas.

A recorrência do mar no trabalho de Hermes Polycarpo parece metaforizar o sentimento de renovação que o movimento das águas suscita. Ao mesmo tempo, lembra o desembocar de anseios todas as vezes que alguém mira, absorto em pensamentos de silêncio e quietude, o imensurável horizonte oceânico à sua frente.

Natural de Ilhéus, na Bahia, Hermes despertou para a fotografia em 2007, quando residia no Rio de Janeiro. Em seu processo criativo, busca, na confluência entre técnica e sensibilidade, um resultado que faça uso extremamente reduzido de recursos de edição. Mostra-se como um fotógrafo de ímpeto eclético, explorando paisagens e imagens conceituais, e confessa estar sempre em busca de novas incidências de luz.

Lançando mão duma exuberância de cores, Hermes Polycarpo também assinala através delas a marca efusiva do humano e suas intervenções espaciais. À paisagem urbana misturam-se gestos diversos, plenos de uma espontaneidade que só a observação serena do fotógrafo é capaz de preservar. No caminho que exalta a luz como fonte norteadora, a arte instaura suas delicadas faces, vias que nos mostram a pulsação dos tempos e que mobilizam em seu âmago expressões abrigadas em toda sorte de gestos.

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

* As fotografias de Hermes Polycarpo são parte integrante da galeria e dos textos da 134ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.