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133ª Leva - 05/2019 Destaques Olhares

Olhares

A reinvenção do humano em Canato

Por Fabrício Brandão

 

Pintura: Canato

 

Revisito os arquivos do tempo e chego até o ano de 2008. Na ocasião, pude me deparar, pela primeira vez, com as pinturas de Cláudio Canato, artista plástico paulista. Mas esse seria apenas um mero relato de uma descoberta não fosse o impacto que as obras do artista causaram em mim àquela época. Chamava atenção naquele momento o modo como o artista reproduzia as formas humanas, deixando entrever a naturalidade de gestos e expressões das figuras retratadas.

Foi, então, que promovemos na Leva 21 uma pequena exposição com alguns trabalhos de Canato. Era possível perceber ali que havia toda uma peculiar forma de se lidar com as construções figurativas do humano. E como o próprio artista sustenta, ele desenvolveu uma maneira própria de pensar a representação humana em suas pinturas, engendrando um modo de conceber pessoas como resultado direto de sua imaginação, ou seja, sem o uso de modelos como ponto de partida para a criação. O especial nessa atmosfera criativa é pensar que a obra de arte eclode a partir do âmago de quem a cria, dinamismo de epifanias interiores.

Canato não nega o mundo. Ainda que seus corpos e rostos sejam marcados pelo traço inaugural da descoberta, há uma comunhão com signos universais de nossa existência. Por não negligenciar aquilo que também somos enquanto espécie, o artista em questão ressignifica as experiências humanas a seu modo.

 

Pintura: Canato

 

A anatomia do corpo tem seu idioma específico no conjunto da obra desse paulistano. São contornos e formas que exalam tensões da natureza humana, revelando também contrastes entre a celebração do gozo das vivências e os embates questionadores da nossa jornada. Mas eis que o corpo, em sutis jogos de luz e sombra, é pensado pelo artista como algo sacralizado não por constituir matéria de perfeição idealizada dos homens, mas como o próprio retrato da dualidade e das oposições entre o físico e a aspiração espiritual. A despeito disso, estão os murais pintados por ele, bem como as obras que compõem tetos de algumas capelas em São Paulo.

Há uma diversidade de possibilidades nas frentes que o artista atua. São exemplo disso não apenas os murais e capelas já mencionados, mas também retratos, desenhos, séries e um olhar voltado para a literatura infantil, na qual Canato ilustra e redige textos de alguns livros. No que tange aos murais, há um em específico que vem se destacando como um dos trabalhos mais significativos do artista na atualidade. Trata-se de “El Quijote”, que foi pintado no Colégio Miguel de Cervantes, em São Paulo. A importância dessa obra certamente está no modo como, num ambiente escolar, a arte se insere de maneira natural na construção do saber, instigando a curiosidade dos alunos não apenas em torno do processo criativo, mas da temática abordada.

Mesmo tendo sido influenciado por componentes estéticos advindos, por exemplo, de movimentos como o Renascimento e o Barroco, Canato não abre mão de pavimentar seu próprio caminho no quesito criação. Para tanto, promove seus mergulhos pessoais nos temas pensados, retirando deles construções que advogam pelo exercício de sua individualidade artística. É de se considerar que rupturas com o passado não são obsessões do artista, tampouco constituem alguma espécie de peso. Com leveza e percebendo seus chamamentos interiores, Canato ressignifica o humano com aquilo que tem de melhor, sua assinatura.

 

Pintura: Canato

 

* As pinturas de Canato são parte integrante da galeria e dos textos da 133ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.

 

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132ª Leva - 04/2019 Destaques Olhares

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A permanência da poesia

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Luiz Bhering

 

Quem somos nós em meio a tudo? Quantas vidas cabem no registro da paisagem, no olhar preciso e poético do mais atento observador? São perguntas que surgem quando pensamos no ofício do fotógrafo, este sujeito que, nalguns momentos, mais parece habitar uma dimensão da existência paralela ao que vivemos. Desse tipo de artista é esperado que capte o instante e suas frestas, sensações que por vezes deixamos passar em meio ao imediatismo dos dias.

Entre minúcias, recantos e gestos humanos, paira contínuo o desfilar da vida, palco que sabe a descobertas, embates, contemplações e denúncias. Ao mesmo tempo em que nos deparamos com o Belo, também somos confrontados com as mazelas que engendramos em nós e na relação com o Outro. Assim, a existência vai se configurando entre os limites do materializado e do intangível. No entanto, os olhos sempre podem mais, posto que transcendem a fisicalidade das coisas e apontam para direções outras, percepções ligadas aos sentimentos que carregamos dentro e fora de nós.

No transitar de experiências que permeiam o traçado cotidiano, estamos diante do trabalho de um artista como Luiz Bhering, alguém que traz em seu engenho variados modos de acepção da realidade. Suas imagens demarcam um amplo território de possibilidades cujo potencial narrativo encerra a trajetória de pessoas e lugares. Mas abordar gente em seu enleio diário requer muito mais do que apenas registrar gestos rotineiros, ou seja, exige do fotógrafo que este permaneça o tempo todo atento ao que pode suplantar o gesto banal da vida. Tal resultado de rasurar as margens do óbvio faz da arte de Luiz Bhering algo que provoca nossas percepções mais sublimes, pois eleva a dureza dos dias ao patamar de delicadeza e sensibilidade, atributos por demais caros diante do turbilhão coletivo de vivências que nem sempre se conciliam.

 

Foto: Luiz Bhering

 

Luiz observa os homens e seus incessantes rituais, vê-los interagir com seus iguais nos mais difusos espaços de convivência, retira dos gestos daqueles seres o substrato simbólico de muitas imagens. Desse modo, eis que o fotógrafo testemunha o quanto a intervenção humana foi capaz de marcar decisivamente a paisagem urbana, com a explosão de grafismos, arquiteturas, cores, todos eles assemelhados a uma coletânea de vestígios que sugere a genuína expressão duma vontade de permanência. Do mesmo modo, nos é dado também pensar que os homens inscrevem seus papéis no mundo pelo legado do silêncio e da ausência. Tal sentimento as imagens de Luiz não se furtam a representar, tendo em vista que lugares hoje esvaziados de ocupação foram, outrora, palco de substantivas ações dos homens. Diante da emergência do presente, podemos vislumbrar que esses ambientes ocultam em si narrativas de eras pretéritas, enredos agora clandestinos.

Natural do Rio de Janeiro, Luiz Bhering confessa que toda a sua vida está devotada ao envolvimento com a fotografia, reconhecendo nela não somente seu ofício e sustento, mas a fonte fundamental de sua expressão, espécie de idioma próprio. Segundo o artista, ela é seu passaporte para a vida, pois permite que até mesmo um simples transitar pela rua signifique uma experiência repleta de descobertas. Formado em Fotografia pela City Polytechnic School of Arts and Designer de Londres, Luiz traz em seu vasto currículo vivências artísticas e exposições dentro e fora do Brasil.

A partir do olhar que não negligencia possibilidades de descoberta, por mais singelas e inusitadas que estas possam lhe parecer, Luiz engendra seus caminhos de artista. É, como podemos pensar, um estado permanente de atenção, mas sem a ideia de que tal disposição represente o peso de se viver sôfrega e insistentemente alerta. E quando um artista revela interesse em estar desnudo e atento à simplicidade da existência, posto não temer o que surge sem aviso, é ele mesmo um alguém em estado permanente de poesia.

 

Foto: Luiz Bhering

 

* As fotografias de Luiz Bhering são parte integrante da galeria e dos textos da 132ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Destaques Olhares

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O corpo, o cosmo e o caos

 Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Felipe Stefani

 

São linhas que transpassam a existência. Contornos que anunciam o alvorecer de gestos e movimentos como se tudo coubesse num universo de beleza e mistério. É preferível assumir que a vida é ela mesma a assunção de mistérios, desses que se embotam na trama dos destinos. Imaginemos, pois, tudo como consequência de um permanente entrelaçar de ações na medida em que o que somos espelha os reflexos das investidas de outrem, nossos semelhantes e suas difusas trajetórias e repertórios. Assim, reconhecemos nossa humanidade a pulsar imperiosa no turbilhão de corpos e mentes que nos atravessam a visão dos dias que carregamos conosco. Sim, somos um amalgamado e complexo organismo que é fruto das trocas e intervenções do Outro em nossa caminhada.

Ah, o corpo, esse receptáculo de intenções! O corpo enquanto a expressão mais pura da nossa sina terrestre. O corpo como essa estrutura física a compor o bailado dos dias, posto que tentamos nos equilibrar diante das demandas racionais e afetivas tão nossas. Pensando a arte de Felipe Stefani, os trajetos corporais são os mais autênticos representantes das nossas condições de ser e estar num mundo em que habitamos de forma errante. Ao mesmo tempo em que nos incita ao mergulho denso, Felipe relembra certo caos que nos acomete em matéria de experiência humana. Vale considerar que a cartografia caótica sugerida pelo artista em questão não é um banal engenho de desordens, mas, antes de tudo, a síntese orquestrada de nossos espantos e estranhamentos. Na confusão entre desejos e equívocos de nossa natureza, as imagens se expandem compondo um complexo painel de desassossegos.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Felipe Stefani deixa entrever um sentimento de cosmovisão em muitos de seus desenhos, algo abrigado na noção de que múltiplos saberes e cenários da existência humana aparecem profundamente associados entre si. Tal percepção é, ao mesmo tempo, a constatação de que os homens e suas investidas encontram terreno favorável para a expansão no solo comum e enigmático das expectativas. Desse modo, o artista observa as partes que, ao fim e ao cabo, integram um todo em incessante construção, organicamente engendrado pelo flerte com a dúvida.

O corpo em Felipe Stefani também é casa que acolhe delicadezas. É nesse momento que a bagagem de poeta empresta seus atributos ao artista, movendo seu traçado sob a imagética de um lirismo que se pretende intenso. Dentro desse caminhar, seus desenhos harmonizam desejos, crenças e epifanias humanas com uma indelével  marca emotiva, fazendo-nos refletir sobre temas como a solidão, os afetos e o amor.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Paulista que vive em bandas cariocas, Felipe também se dedica aos versos e à fotografia. Seus primeiros contatos com o desenho derivam da infância, principalmente por intermédio da mãe, a também artista plástica Sandra Lagua. Confessa que suas principais influências vêm de gêneros da cultura de massa, tais como o cinema e o rock. Desde 2002, vem atuando como ilustrador, com trabalhos voltados para o cinema e literatura. Como poeta, possui dois livros publicados: O Corpo Possível (Dulcineia Catadora, 2008) e Verso Para Outro Sentido (Escrituras, 2010).

Essencialmente, a arte de Felipe Stefani é um convite ao sublime. E tomemos aqui tal atributo não com um sentido de exaltação estética de perfeição. Mais vale considerar o potencial de representação humana de sua obra como sendo aquele que expõe a carne viva de nossos atos, anseios e projeções, misto de coisas que refletem um estado permanente de poesia, essa dimensão de abismos íntimos e compartilháveis.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

* Os desenhos de Felipe Stefani são parte integrante da galeria e dos textos da 131ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

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130ª Leva - 02/2019 Destaques Olhares

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Sob o signo da espontaneidade

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Uma nesga de sol invade a paisagem enquanto meninos brincam desfilando sua liberdade. Noutro ponto, uma canoa vermelha repousa suas memórias na calmaria da noite que adentra. Do alto de alguma porção litorânea, um pequeno grupo de pessoas é silenciosamente observado enquanto ensaia sua entrada no mar. Um aglomerado de bovinos revolve a poeira de seu confinamento. O menino atravessa a água com seu gesto pueril descortinando dimensões do sabor de viver. As cores e formas passeiam em meio à rotina de indivíduos que transitam por ambientes urbanos diversos.

Tudo o que foi descrito acima é apenas uma pequena parte daquilo que compõe a arte do fotógrafo Almir Bindilatti. E apresentar tal recorte de imagens captadas pelas lentes de seu autor significa prestar atenção para o trabalho de um alguém que, de forma marcantemente poética, consegue fazer da captura do cotidiano algo diferenciado. Por vezes, deixamos escapar inúmeras possibilidades de apreensão do real em razão de que nosso olhar acomoda-se pelas zonas de conforto do óbvio. No entanto, a experiência ganha outro fôlego quando vislumbramos sentidos alternativos para as imagens com as quais nos deparamos.

O grande desafio de Almir Bindilatti com seu ofício de registrar a luz é nos apresentar a pulsação da vida tal como ela é. Haveria, então, algum artifício mágico para obter tal resultado? A resposta é negativa. Daí que o fotógrafo em questão confessa não ser adepto da manipulação das imagens, ou seja, de qualquer tratamento que seja capaz de alterar tudo aquilo que foi capturado com naturalidade. Assim sendo, o artista vai mais além, buscando em seu trabalho um resultado que se pretende orgânico, evidenciando, como ele mesmo nos diz, um elo entre câmera e figuras humanas que atenta para o respeito com as culturas urbanas, principalmente à luz de aspectos étnicos.

Na busca pelo flagrante natural dos gestos humanos, Almir intenta a plenitude abrigada nas manifestações de seus personagens. Tal percepção aponta a todo instante para uma noção de alteridade que implica no respeito e na preservação dos domínios íntimos do Outro, então mostrado pelas lentes. Penetrar na esfera alheia requer também certo tempo de maturação, permitindo com que as pessoas continuem vivendo suas sinas com o crivo da espontaneidade. É um hiato preciosamente marcado pela espera e pelo silêncio, no qual o trunfo do fotógrafo é colocar em evidência o momento que melhor retrate a existência humana.

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Sem dúvida alguma, o viés antropológico permeia o ofício de Almir, qual seja o que denota o respeito a culturas e modos de articulação do ser e estar distintos na complexa paisagem urbana observada. Cruza-se a linha do Outro primando pela sutileza das investidas, sem que se pretenda a desconfiguração das vivências e práticas imersas na trajetória dos mais variados atores sociais. O saldo das escolhas do artista é deveras significativo na medida em que os diferentes cenários e seus respectivos protagonistas contemplados reproduzem a fluidez ininterrupta da existência.

Nascido no interior de São Paulo, mais precisamente em Tupã, Almir Bindilatti mudou-se para Salvador e lá viveu por bastante tempo, inclusive executando projetos editoriais sobre história, cultura e arte. Desde o começo de 2018 reside em Lisboa, inaugurando uma nova fase em sua vida, o que significou a possibilidade de se dedicar completamente ao seu ofício autoral. Seu trabalho lhe rendeu o Prêmio Leica de Fotografia no Brasil em 2010. É autor dos livros fotográficos Photo Bahia (2008), Mosteiro de São Bento da Bahia (2011), Um Sertão entre tantos outros (2015), tendo participado também de obras coletivas. No ano de 2013, ainda integrou uma exposição coletiva de artistas brasileiros em Xangai, como parte das ações do “Ano do Brasil na China”.

No exercício de captar a vida do modo como ela se mostra, o fotógrafo é testemunha não apenas de um conjunto de rituais e práticas sucessivas ou aleatórias, mas também de revelações associadas ao campo do inusitado. Diante de suas lentes, um pacto constante resta estabelecido: o da coexistência harmoniosa entre a presença do artista e seu objeto. Esse silencioso contrato representa o esforço de não se alterar as rotas contempladas pelo olhar de quem as mira de fora. É com a pungência da poesia que habita os arremessos cotidianos que Almir consolida tal relação.

 

Foto: Almir Bindilatti

 

* As fotografias de Almir Bindilatti são parte integrante da galeria e dos textos da 130ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

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129ª Leva - 01/2019 Destaques Olhares

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O fluxo natural de uma leveza

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Joana Velozo

 

Certamente, muitas existências estão abrigadas em nosso íntimo. Há aquelas que se expandem rumo ao contato com o mundo exterior; outras, como num movimento de retração, voltam-se para o confinamento interior dos mistérios pessoais que carregamos conosco. Temos o poder de decidir qual das nossas esferas de vivência deve vir à tona sob o olhar alheio. No território da alteridade, carecemos da troca que advém do Outro, este alguém que, mesmo não estando próximo, contribui para que tudo o que expomos seja compreendido também como sendo o resultado dos encontros humanos.

Talvez a melhor experiência que possamos adquirir com a Arte seja aquela que aponta para o entendimento sobre quem somos. Por óbvio, esse não é um mecanismo tão simples de se apreender e quiçá exija até mesmo certo engajamento filosófico para sua compreensão. Num misto de contemplação e lucidez, o universo artístico é capaz de desacomodar estruturas e promover também observações mais críticas sobre a realidade. O artista, reconhecendo-se parte integrante do mundo que registra, passa a ser alguém envolvido com as tramas do seu tempo.

Pelos delicados traços da arte de Joana Velozo, o ato de existir pode ser tido como um lampejo poético diante do mundo que nos apresenta incessantemente suas complexidades. Por entre as frestas do cotidiano, surgem vívidas as imagens construídas pela artista, processo criativo a engendrar facetas humanas.

Brasileira radicada em Barcelona, Joana nos apresenta em seu trabalho todo um painel de cores e formas devotadas ao sublime exercício das constatações. E quais seriam elas? Todas aquelas que simbolizam gestos pertencentes a certas andanças humanas. Nesse contexto, impera vigorosa a representação do universo feminino, especialmente alicerçado em contornos que expressam o lado orgânico e substancial do ser mulher. Tais incursões nos remetem a uma conexão que estabelece laços telúricos com a condição feminina disposta numa permanente transformação. Ser mulher aqui dialoga com a ideia de que emergem subjetividades no seio cotidiano das libertações individuais.

 

Ilustração: Joana Velozo

 

Nas ilustrações de Joana Velozo, vislumbramos também interfaces da natureza. Da confluência entre fauna e flora, emanam representações de vidas que correm paralelas ou até mesmo harmonizadas com a interferência dos homens. Assim, animais e vegetais contribuem para a construção de todo um imaginário que, divisando as fronteiras do real e do fantástico, proporcionam uma viagem amplamente sensorial a partir das imagens da artista. Nesse trajeto de percepções, homens e natureza surgem intimamente conectados.

A utilização das cores é outro ponto de destaque nos trabalhos de Joana. Os variados tons e intensidades ali dispostos revelam camadas distintas de apreensão, todos eles a tratar a passagem humana pela Terra como algo essencialmente marcado pela leveza. As cores sugerem um contrabalançar de sentimentos que marcam a expressão dos personagens e ambientes simbolizados. Mesmo diante de certas intempéries, os seres que protagonizam as ilustrações da artista têm suas tensões atenuadas pelos contrastes cromáticos escolhidos. Desse modo, tons de diferentes escalas não se prestam a um mero jogo de oposições; pelo contrário, advogam por papéis específicos dentro da narrativa visual proposta.

Mesmo sabendo que o mundo em que vivemos não nos permite mergulhar em estados de encantamento permanente, talvez a mensagem mais significativa do trabalho de alguém como Joana Velozo se apoie na ideia de que o lado sereno das coisas precisa emergir com mais frequência diante de nossas práticas usuais. É possível suportar a realidade com requintes necessários de quietude e reflexão.

 

Ilustração: Joana Velozo

 

* As ilustrações de Joana Velozo são parte integrante da galeria e dos textos da 129ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

 

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128ª Leva - 06/2018 Destaques Olhares

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Nas dobras do cotidiano

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Adelmo Santos

 

Num recanto qualquer do mundo, a vida acontece e se expande em seus microuniversos. São possibilidades de existência que emanam das faces múltiplas do cotidiano. Enquanto estas linhas são escritas, o aqui e o agora são delineados pelo olhar de alguém e revestidos com a propriedade de observação diferenciada que cada artista carrega consigo. Diante da oportunidade de se mirar potenciais cenários, o ofício de fotógrafo engendra muito mais do que percepções flagrantes. Ousa além: oferta-nos revelações.

Mas por qual razão nos embalamos às multidões do dia a dia e deixamos de ver muita coisa? Há um sentimento perene de dissipação quando vemos as imagens de nossa real existência no mundo se confundirem com pontos perdidos e quiçá genéricos de observação. É como olhar para tudo e nada ao mesmo tempo. Na tentativa talvez de absorvermos freneticamente o rumo acelerado das coisas que nos são apresentadas, a sensação de se esvair numa torrente informe parece não passar.

A arte é capaz de fazer frente à ideia de que somos uma turba desorientada e, portanto, avessa aos pormenores mundanos. E falar aqui de detalhes significa remontar à perspectiva de se poder olhar e sentir a dinâmica da vida sem perder experiências relevantes de serem vivenciadas. Mesmo que não haja interferências por parte do artista que está a mirar os cenários, ainda assim ele se fez personagem do que acaba de testemunhar e reproduzir em sua obra.

No trabalho de um fotógrafo como Adelmo Santos, temos a percepção de que as revelações dispostas nos ambientes retratados emergem em meio ao caos urbano que, teimosamente, tenta desviar nossa atenção. Apartado da noção de um mero flagrante, o empenho artístico de Adelmo é no sentido de atenuar o efeito de dispersão do olhar que nos alça a obviedades. É marcante em muitas das imagens do artista o captar de um sentimento poético que se esconde por trás da rotina de homens e lugares. Mergulha-se, por escolha, no âmago das coisas.

 

Foto: Adelmo Santos

 

O fato é que Adelmo privilegia registros de dimensões da vida que passam despercebidas por muita gente. Evidencia delicadamente o canto quase que inaudível do povo de algum lugar, a rica simplicidade das pessoas, seus gestos e ritos. Nas suas fotografias, vemos uma clara tentativa de enaltecer o protagonismo às avessas que gente ocultada pela rotina exerce em seus espaços de sobrevivência. Na contramão dum complexo processo de invisibilidade, há vez e voz para os representados diante de imagens que potencializam uma possibilidade renovada de afirmação social e cultural. Nesse ínterim, todo um painel de feições populares deixa impregnadas as suas peculiares marcas.

Outro traço marcante do trabalho desse fotógrafo baiano está no modo como a dinâmica urbana é pensada e reproduzida. Fazendo transitar o seu olhar por lugares de passagem e pelas mais distintas vias de acesso, Adelmo testemunha e nos apresenta indícios humanos de transformação dos espaços. Alveja a configuração arquitetônica das cidades e nos põe a refletir sobre as variadas formas de intervenção espacial propostas pelos sujeitos que se movem e se deslocam através dos mais difusos ambientes.

Quando se utiliza da técnica de superexposição de imagens, Adelmo traz à tona uma curiosa coexistência entre mundos. Nesse aspecto, é como se uma interação entre o vivido e o imaginado pude se estabelecer de tal maneira que um efeito de realidade se fizesse determinante.

Impera na arte de Adelmo Santos a procura um tanto visceral pela construção de seus temas. No início do texto, falou-se em revelações, palavra que pode até mesmo abrigar uma infinidade de alternativas. Mas importa destacar que dar vazão a faces e cenários marcados por certa clandestinidade é também rasurar a imagem limitada que se tem sobre pessoas e seus entornos. Por entre vestígios do labor humano captados em luz e sombra, resistem vigorosos modos de existir.

 

Foto: Adelmo Santos

 

* As fotografias de Adelmo Santos são parte integrante da galeria e dos textos da 128ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

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127ª Leva - 05/2018 Destaques Olhares

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Cadernos de leveza

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

No compasso do tempo, as formas brincam e teimam em ser muito mais do que aparentam. São capturas retiradas dos marcos cotidianos, representações de vidas que perpassam as tramas da rotina. O ser pode significar muito mais do que um mero elemento a cumprir o ritual dos dias. Pode se insurgir contra as repetições, contra a banalização da própria existência para desaguar num oceano de vivências outras.

A realidade emite seus alertas mesmo que não queiramos considerá-los como tais. No entanto, há em nós a possibilidade de reinvenção dos instantes, a perspectiva latente de que, a todo momento, uma nova dimensão espaço-temporal pode ser experimentada. Mas eis que tal viés surge também como produto direto da capacidade de abstração com a qual deitamos nosso olhar sobre as coisas. Nos intervalos e lugares despercebidos, muitos cenários se deixam revelar.

Na trama de rostos, corpos e movimentos, a arte de Ana Matsusaki aponta para os recortes poéticos da vida. Convida corpos e seus gestos a se harmonizarem com o bailado da existência. No lado exposto da rotina, pairam percepções de um mundo fragmentado por emoções das mais diversas. Nesse ínterim, somos levados a entender que a artista nos atrai tanto para a contemplação quanto para lugares mais ásperos de questionamento sobre a nossa condição humana.

Pelas ilustrações de Ana Matsusaki, entrevemos certa inquietação contemporânea quando o intuito é tomar o sujeito em sua perspectiva de assumir uma bagagem identitária nada estável ou fixa. Os seres que a artista nos apresenta parecem prenhes de algo que os faça mudar as rotas acostumadas. Desse modo, Ana mescla os ímpetos humanos à paisagem que os abriga, fazendo com que seus protagonistas aconteçam e sejam ativos em decorrência de certa integração com os ambientes nos quais estão mergulhados. Pessoas e seus lugares de expressão não surgem aqui dissociados de uma composição que lhes dê algum sentido de unidade.

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

Mas Ana flerta também com a delicadeza dos traços que denotam a puerilidade da vida. Em alguns de seus trabalhos, há o diálogo com o público infanto-juvenil, aqui contemplado por ilustrações que refletem leveza, colorido e um ideal de liberdade e sonho bem típicos das crianças. São contornos suaves a representar uma fase da vida que poderia muito bem disseminar modos serenos de nós, os tais adultos ditos maduros, sermos criaturas menos beligerantes diante do convívio com nossos iguais.

Paulistana de nascimento, Ana Matsusaki é formada pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo. Sua experiência no trabalho com direção de arte voltada para obras infanto-juvenis fez com que o interesse pela ilustração de livros se tornasse algo marcante em sua vida. Depois de algum tempo, ela abriu seu próprio estúdio e hoje tem como clientes diversas editoras de renome, além também de ministrar oficinas de ilustração de modo eventual.

Com certo tom de irreverência e requintes de reflexão, Ana também faz da sua arte um lugar de crítica dos nossos tempos. As paisagens humanas as quais a ilustradora visita com certa habitualidade vêm nos falar de como pessoas fazem dos seus espaços verdadeiros pontos de comunicação com um mundo que se mostra cada vez mais plural e multifacetado, tudo isso sem ignorar o potencial sublime dos gestos.

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

* As ilustrações de Ana Matsusaki são parte integrante da galeria e dos textos da 127ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura. 

 

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125ª Leva - 03/2018 Destaques Olhares

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Delicados percursos de uma paisagem humana

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Sadrie

 

Cada vez que um artista descortina um véu de coisas ante nossos olhos, é como se outros tantos mundos surgissem com toda sua intraduzível aparência. Mas de onde partem essas novas esferas da existência em meio a uma carga pungente de invenção? A busca pela palavra certa e que melhor define as sensações pode apontar para alguma espécie de reinvenção, ainda mais se considerarmos que a novidade, debaixo do sol que nos guarnece e acalenta, pode não passar de uma quimera.

Eis que duas porções que mais parecem antagônicas teimam em habitar o mesmo espaço abstrato. De um lado, a visão onírica da vida a pulsar desejos e projeções íntimos; do outro, a concretude abraçada ao olhar que considera a porção racional uma ferramenta de constante inquietação. Parece ser possível ter em conta a coexistência de tais dualidades quando observamos detidamente o trabalho artístico de um alguém como Sadrie. Pelo modo como a artista apreende as epifanias mundanas, vemos brotar certo equilíbrio entre o intangível e o corpóreo.

Nas ilustrações de Sadrie, delineiam-se contornos de uma complexa paisagem humana, toda ela entrevendo rituais do corpo e da mente. A essa altura, convém ressaltar o modo como os desdobramentos do feminino assumem uma condição de destaque. A partir desse enquadramento, a artista direciona nossos olhares para o modo como a representação da mulher serve de guia para se perceber a pulsação de um mundo feito tanto de traços sublimes quanto de revelações incômodas. Seja sob a forma da contemplação do belo ou na disposição de um viés crítico, as nuances femininas prenunciam aqui um universo no qual podemos também vislumbrar uma noção de unidade a achar abrigo ideal no reino da poesia.  Assim sendo, à figura da mulher, guardiã das dimensões que nos são mostradas nesse tipo de arte, é confiada a missão de unificar todo e qualquer sentimento, independente de quaisquer denominações que insistam em classificar pessoas.

 

Ilustração: Sadrie

 

Sadrie é, na verdade, a persona artística de Sarah Adriaenssens, uma brasileira que atualmente mora em Antuérpia, na Bélgica. Segundo ela nos confessa, um dos intuitos maiores de sua arte é poder contar histórias através das imagens criadas. Além de se dedicar a ilustrações, a artista também trabalha com quadrinhos e animações. Sua arte também está associada a uma busca pelas raízes que remontam a um resgate pessoal da identidade brasileira. Algumas de suas influências derivam de nomes do quilate de Carybé, Lygia Clark, Louise Bourgeois e Ana Mendieta.

Sadrie evidencia a presença marcante das cores como se estas provocassem um efeito de ressignificar objetos, corpos e lugares. Diante da constatação de que o mundo oferta narrativas nem sempre tão carregadas de leveza, a artista parece subverter tamanha sensação que algum desalento pode nos causar quando engendra temas pueris em alguns de seus trabalhos. Em lugar de considerar como fuga, podemos conferir a tal atitude uma tentativa de mostrar que a serenidade é uma válida maneira de se conceber as coisas que nos cercam. De resto, agigantam-se visões em torno da vida, esta mesma que pode ser tomada em plenitude por marcar em nós a valiosa imprevisibilidade das pequenas coisas e gestos.

 

Ilustração: Sadrie

 

* As ilustrações de Sadrie são parte integrante da galeria e dos textos da 125ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Olhares

Olhares

A sinfonia discreta da existência

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Tati Motta

 

O que são os dias senão uma soma incontável de detalhes? Somos a sucessão de uma vida constituída por recantos, sejam eles físicos ou algum produto direto de nossas construções afetivas. O mundo parece não nos revelar tão diretamente seus avisos e alertas. Carecemos de uma perspectiva que nos dê a noção dos átimos, daquilo que se abriga em recônditos diluídos nos instantes embaraçados do cotidiano.

Mas perceber aquilo que não está tão aparente requer um exercício constante de desaceleração. Alijados da pressa, aquela cruel companhia que teima em assolar nossos tempos, muito provavelmente conseguiremos compreender que a aparição de um lado sublime da vida requer alguma opção de serenidade diante do olhar que podemos lançar sobre as coisas. E é, de fato, um movimento poético o de reter da existência elementos que nos passam despercebidos curiosamente por representarem a porção humana que nos convoca para dentro de nós mesmos.

Não há dúvida de que um ritual de contemplações e minúcias faz parte do trabalho de gente como a fotógrafa mineira Tati Motta. Mais do que direcionar suas lentes para uma riqueza íntima de gestos e para a apreensão de semblantes e objetos, Tati traz à tona uma expressão da arte que dialoga com camadas muito peculiares do ser/estar num mundo que nos golpeia incessantemente com os ardis da uniformização dos sentidos. Eis um ponto fundamental: o fazer artístico utilizado como ferramenta de ressignificação e pluralidade.

 

Foto: Tati Motta

 

Quando pensamos em negar a uniformização das coisas, devemos entender que cada pessoa ou objeto retratado tem um potencial de nos revelar particularidades que só são vistas graças ao ponto de vista de quem se permite alguma paciente imersão. Com certa frequência, o ato de enxergar no turbilhão alguns requintes de leveza é atribuído aos poetas. E é com tal postura, diga-se de passagem, uma de suas feições, tendo em vista também se dedicar nalguma medida à escrita de poemas, que Tati Motta penetra com delicadeza nos detalhes que envolvem pessoas, lugares e objetos.

No que se refere a captar nossas humanas idades, Tati flagra pessoas em seu natural bailado habitual, redimensionando suas manifestações para um renovado sentido: o de mostrar quão rica é a profusão de gestos que se camuflam na paisagem rotineira dos dias. O resultado expõe o quanto determinados corpos carregam em si uma amplitude de linguagens, todas elas sinalizando alguma rota de afirmação, entrega, efusão ou até mesmo silêncio.

Certa cartografia dos lugares urbanos também atrai os mergulhos da fotógrafa. É com eles que ela repensa os vestígios deixados pelas investidas audaciosas do progresso material civilizatório. Também não menos importantes são os olhares dedicados às manifestações que irrompem do ato de quietude e paciência emanado pela observação dos eventos da natureza.

 

Foto: Tati Motta

 

Formada em Comunicação pela PUC de Minas Gerais, pós-graduada em Artes Plásticas e Contemporaneidade pela UEMG, e especializada em Fotografia pela Escola da Imagem, Tati Motta confessa que sua inquietude foi quem lhe permitiu experimentar e desbravar as mais variadas formas de arte. Tem na fotografia conceitual uma grande impulsionadora de seu trabalho. Esta última, como a própria artista sustenta, é a principal responsável pela construção de imagens, expressão de ideias, manifestação do seu imaginário e dos seus devaneios.

A vida sabe como nos ofertar seus instantes ruidosos. Com eles, podemos simplesmente perdermo-nos na paisagem, sufocados pela padronização das rotinas, ou optarmos por apreendermos algum caminho que nos revele uma conexão de singularidade com nossas existências. Nas entrelinhas do mundo, algum novo sentido pode estar à nossa espreita.

 

Foto: Tati Motta

 

* As fotografias de Tati Motta são parte integrante da galeria e dos textos da 124ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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123ª Leva - 01/2018 Destaques Olhares

Olhares

Sutilezas da irreverência

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Raquel Piantino

 

A vida dilui-se em formas. Seus contornos nos falam de mundos próximos ou quiçá distantes. Universos que abrigam seres e suas narrativas, sinas a revelarem sintomas do ato de existir. Se existir é domar o sopro vital, talvez sejamos tidos como criaturas a repetir a mecânica das coisas. Se existir for algo além, estaremos, pois, diluídos na paisagem dos instantes.

Atravessar o tempo é uma das inúmeras possibilidades de se olhar a tudo como se fosse a primeira vez. Aí reside a permanente chance da surpresa, do encontro não marcado. O maior desafio humano parece ser o de não se repetir diante da colossal jornada da existência. Quando perdemos de vista a curiosidade da descoberta, algo em nós talvez nos coloque mais próximos do fim. E o término das expectativas e buscas pode representar a própria finitude do indivíduo.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Mas o que fazer diante de um mundo multifacetado? O que aproveitar do banquete imagético que ele nos fornece? Talvez uma pessoa como a artista plástica Raquel Piantino tenha algo a nos dizer a respeito. Sua arte está muito próxima de um mergulho ampliado das percepções da vida. As figuras humanas por ela apresentadas em seus desenhos são parte integrante dessa tentativa incessante que empreendemos de domar os ímpetos do viver.

Ao nos debruçarmos sobre os desenhos de Raquel, podemos notar a urgência que habita a linguagem das formas. Mesmo nos contornos mais silentes, algo quer falar, invocar ao mundo a veemência de um verbo plantado desde sempre na tessitura humana. Assim, corpos e ambientes se integram e harmonizam, convocando os apreciadores da arte a uma detida incursão pelos gestos simples e ao mesmo tempo relevantes em nossa tão controvertida matéria cotidiana.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Para abordar as nuances complexas da realidade que nos acomete, Raquel passeia pelas rotinas dos homens como a demonstrar que ali também está o espírito irreverente das coisas. O real emerge com uma ajustada dose de humor e criticidade, fazendo-nos crer que a experiência dos dias sobre o nosso planeta equilibra efusões e precipícios. Com tamanha empresa nas mãos, a artista desvia-se de um mero jogo de oposições das forças contrastantes e não adota engenhos maniqueístas. Afinal, a nossa natureza de seres imperfeitos é um organismo através do qual as dualidades se mostram amalgamadas.

Diante do incorrigível espírito humano, é inútil o encargo de separarmos o bem do mal. Acertadamente, este não é o interesse de Raquel Piantino. No entanto, engana-se também quem possa considerar que a artista, ao navegar pelas águas de alguma fantasia ou abstração, estaria promovendo um mergulho frouxo pelas alamedas da arte. Pelo contrário, seus recortes plenos de serenidade e contemplação trazem à tona, sobretudo, um inquietante ato de provocar nossos lugares de acomodação.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

Raquel nasceu, vive e trabalha em Brasília. Com uma formação marcantemente influenciada pelo cinema de animação, além de vertentes como quadrinhos e design, a artista já trabalhou em curtas-metragens, projetos experimentais e também comerciais. Também desenvolve animações ópticas com brinquedos mecânicos e, como ela mesma confessa, sua busca está voltada para a simplicidade do traço e o potencial simbolismo encerrado nas imagens.

Quando a arte não se furta à perspectiva de perceber a dinâmica das coisas, abre-se um valioso precedente, qual seja o de enxergar nos fenômenos mundanos uma fonte possível e inesgotável de apreensão dos sentidos. Os desenhos de Raquel Piantino são como lembretes de que estamos vivos. Mais que isso, vivos e passíveis de uma transformação que nem sempre envia seus presságios.

 

Desenho: Raquel Piantino

 

* Os desenhos de Raquel Piantino são parte integrante da galeria e dos textos da 123ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.