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112ª Leva - 06/2016 Destaques Olhares

Olhares

Uma tão viva e espelhada alteridade

Por Fabrício Brandão

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

Um mundo a revelar suas faces. Em cada rosto, a expressão daquilo que está por trás do ritual dos dias. É preciso muito mais do que a mera anunciação da rotina para entendermos que a fotografia transcende a aparência das coisas. Assim, vemos transitar os homens com toda a vastidão de cenários que lhes são peculiares e íntimos.

Já que estamos falando de humanas paisagens, não há como deixar de ressaltar o caráter antropológico do trabalho de um artista como Patrick Arley. É, de fato, o que causa maior impacto num primeiro momento em que nos debruçamos sobre seu ofício.  O homem apresentado nas fotografias de Patrick é o mais puro reflexo do ambiente em que vive, pois traz em si o vigor de suas práticas sociais, seus laços de pertencimento, seus traços culturais, seu lugar no mundo, enfim.

Cada semblante retratado pelo fotógrafo mineiro em questão transpõe nuances de um estratégico contraste entre luz e sombra. É como se diante da natural ambiguidade que o ser apresenta, emanasse simultaneamente tanto o que está para ser visto como também aquilo que carece um sentido de reserva. Então, poderíamos concluir que as faces humanas observadas estão ali impregnadas de um fluxo de expansão e retração. Estão expostas naturalmente porque cumprem um papel material do qual não se pode fugir. Entretanto, mantêm um lado oculto devidamente preservado pela construção da subjetividade.

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

Quando avançamos mais no microuniverso de cada pessoa flagrada pelas lentes de Patrick, sentimos a leve presença de espaços intangíveis. De um lado, a materialidade das coisas; do outro, vastas possibilidades de abstração, as quais tanto podem estar situadas no plano do observador como naqueles vividos pelos reais personagens.

E o fotógrafo vai mais além. Ousa percorrer temáticas envolvidas em mistério, como é o caso da morte. O resultado disso é uma representação cujo trânsito de imagens faz circular elementos como silêncio, vestígios e memória. Ainda dentro dessa atmosfera, uma espécie de contemplação do mistério parece surgir quando a existência física dá lugar a sacralizadas lembranças.

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

Outro ponto de destaque no trabalho de Patrick está no registro de manifestações da cultura popular. Delas, o artista consegue extrair recortes que mesclam crenças e elementos folclóricos. O testemunhar das tradições, sobretudo as de origem afro-brasileira, mostra que a fotografia também pode estar a serviço da preservação das raízes que fundam um país de proporções continentais como o Brasil. Há beleza no modo como as imagens que tratam desse tema retratam um êxtase tanto individual quanto coletivo, principalmente quando seus apelos denotam uma esfera mística de experiências.

Nascido em Belo Horizonte, Patrick Arley formou-se em Ciências Sociais, fez mestrado em Antropologia e atualmente é doutorando (também em Antropologia) pela Universidade Federal de Minas Gerais.

O viés imagético seguido pelo artista em foco demonstra uma valiosa opção por tentar compreender um pouco daquilo que integra os papeis humanos. Movidos por paixões ou pelo ritmo automático de nossas existências, somos seres outros, talvez um pouco melhores do que antes, quando assinalamos posições marcadas pelo captar de gestos simples da vida. A habilidade de olhar verdadeiramente o outro, respeitando seus domínios, implica num entendimento sobre nós mesmos.

Patrick Arley

*As fotos de Patrick Arley fazem parte da galeria e dos textos da 112ª Leva.

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Olhares

Olhares

Uma tênue linha entre dois mundos

Por Fabrício Brandão

Luma Flores
Arte: Luma Flôres

Se nos fosse dada a possibilidade, será que cada um de nós realmente saberia responder qual mundo carrega dentro de si? Antes de arriscarmos algo, percebamos as vias paralelas que podem fluir na epifania particular de duas imediatas dimensões: interna e externa. A interna, portanto intimista, é o indivíduo em si, suas convicções, nuances e filtros. A externa, por sua vez, é o gigantesco mosaico de cenários dispersos no lado exposto da vida, suas complexidades, seu turbilhão.

Há paralelismos plausíveis nas duas dimensões abordadas, mas ocorre também certa dinâmica de oposições na medida em que as percepções individuais atravessam modos difusos de conceber as coisas. O externo seria apenas uma paisagem estática a se contemplar não fossem os arremessos que cada pessoa é capaz de promover.

Experimentar o mundo que cresce ante nossos olhos é saber que nem todos o veem da mesma forma. Isso é benéfico por sugerir que a não uniformidade de visões e pensamentos acaba sendo uma característica valiosa. Então, como poderíamos pensar num outro lado das possibilidades se tudo fosse baseado num imutável consenso?

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

Já que o mundo externo, por natureza, é um colosso de imagens, é de se imaginar quantas surpresas podem estar abrigadas no universo particular de cada pessoa que por ele transita. No caso da artista plástica Luma Flôres, a proporção especial de um mundo íntimo serve de exemplo para tanto entendermos o que passa nos seus domínios, como também aquilo que permeia a relação com o exterior.

Luma contrapõe as duas dimensões de mundo sobre as quais trataram as linhas introdutórias deste texto. Seus desenhos nos dão notícias de territórios marcados tanto pelo real quanto pelo imaginado. Notadamente, são duas vigorosas formas de se lidar simultaneamente com a superfície e a profundidade daquilo que se pretende observar.

Importa dizer que é a porção intimista e subjetiva do olhar da artista quem estabelece uma conexão com o mundo em que vivemos. Assim, surgem camadas de experimentação para cada ser ou lugar apresentado. Passando por aquarelas, gravuras e também colagens, Luma mostra-nos perspectivas da existência marcadas pela fragmentação de sentimentos humanos. Revelando um gestual poético, tanto existe a face contemplativa, sensível e delicada quanto a porção que indaga inquietamente sobre os destinos humanos.

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

Nascida em Vitória da Conquista, na Bahia, Luma Flôres cursa Design na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Em duas oportunidades, nos anos de 2014 e 2015, seus trabalhos foram premiados pela Escola de Belas Artes da UFBA. Além disso, participou de várias exposições em espaços da capital baiana, bem como levou sua arte para cidades como Juazeiro, Vitória da Conquista e Rio de Janeiro.

À medida que penetramos nas dimensões propostas por Luma, compreendemos que algo transcende o mundo físico no qual habitamos.  Miramos o fundo de um imenso espelho e lá encontramos algumas pistas do que somos. O reflexo disso é, para além do reconhecimento, um estranhamento de tudo aquilo que nos tornamos enquanto seres imperfeitos. No espaço intermediário entre os mundos concreto e abstrato, transitam delicadezas, hesitações, poucas certezas, sentimentos sublimes, efusões, tristezas e alguma controvertida verdade pessoal, esta última uma personagem que, ao que parece, jamais conseguirá ser absoluta.

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

*Os desenhos de Luma Flôres fazem parte da galeria e dos textos da 111ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.   

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110ª Leva - 04/2016 Destaques Olhares

Olhares

Por entre os vãos da espera

Por Fabrício Brandão

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

Um caminhar de passos desavisados diante dos cenários espontâneos do mundo. Universo a agregar um só ritual: olhar a tudo e a todos com naturalidade. É preciso maturar o pensamento, deixá-lo orbitar em suspensão no deslocar do tempo. Esperar é maior virtude de quem reverencia silêncios e se deixa tomar pela epifania da vida tal como ela é.

Sim, é preciso falar de esperas. Daquelas que nos permitem respeitar a essência das coisas. É urgente exaltar esperas quando isso implica em testemunharmos exercícios de liberdade. Liberdade que vem do outro, sua mais genuína expressão humana. Liberdade em poder sentir o que a natureza e o fenômeno contido na disposição das coisas encerram com sua vasta linguagem.

Quando uma artista como Suzana Latini evidencia em suas andanças criativas o poder da espera, notamos que captar a vida é deixá-la simplesmente acontecer. O marco de sua atuação como fotógrafa é o desejo puro de se lançar ao mundo e ser surpreendida por ele. Assim, o externo, com toda sua carga de possibilidades e perspectivas múltiplas, é quem assume um papel ativo. Revertendo uma certa lógica tradicional, Suzana é registrada pelo mundo.

Ao aguardar que seres e lugares lhe apontem suas naturais rotas, Suzana fideliza a experiência de perceber as coisas tal qual elas se manifestam. Seja observando pessoas, objetos, lugares ou testemunhando eventos da natureza, a fotógrafa não tenciona roteiros premeditados. Quem aqui opera é o destino, com a força de suas revelações, com a pungência do novo a causar fissuras na rotina dos dias.

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

No ritual de se deixar envolver pelos matizes do destino, Suzana enaltece cores, formas, sombras, paisagens e silêncios. Nalguns momentos, há a presença viva de pessoas a delinear os ambientes flagrados; noutros, irrompem espaços tomados pelo vazio, todos eles prenhes de ausências humanas, porém lugares de possíveis memórias.

Nascida em Belo Horizonte, Suzana Latini formou-se em Artes Plásticas pela Escola Guignard (Universidade do Estado de Minas Gerais). Durante toda a sua trajetória, esteve envolvida com produção, principalmente de vídeos e fotos publicitárias. Confessa que seu olhar procura aquilo que ninguém presta atenção, além de creditar fascinação ao que está por trás de banais instantes da vida.

Para manter a liberdade, esse bem que nos é tão caro nas suas mais variadas acepções, Suzana prefere não se entregar profissionalmente à fotografia. Mesmo assim, seus registros estão disponíveis para aquisição do modo genuíno como foram captados.

Quando o ato de observar o mundo, seus fenômenos e personagens, destina-se ao menor nível possível de interferência, por certo homérica tarefa, há um desejo maior de preservar a essência da existência. Nesse trajeto, existem tanto cenários concretos quanto os que são frutos de nossas abstrações. A espera, essa senhora memorável, vem nos fazer recordar que cada contexto experimentado guarda seus inadvertidos trunfos.

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

*As fotografias de Suzana Latini fazem parte da galeria e dos textos da 110ª Leva

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.  

 

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109ª Leva - 03/2016 Destaques Olhares

Olhares

Paralelismo de sensações

Por Fabrício Brandão      

 

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Arte: Helena Barbagelata

 

Entre os atos, pairam taciturnas outras existências. Viver é esse gesto colossal de colecionar mistérios e avançar por sobre eles sem que saibamos ao certo suas origens mais imediatas. É flertar com o desconhecido que nos apresenta suas investidas cotidianamente. Embora busquemos natural abrigo no algo concreto e visível, somos tomados vez ou outra pelas garras da abstração.

Quando não sabemos lidar com o intangível, muitas vezes sentimos que perdemos a desejada capacidade de controlar as coisas ao nosso redor. É muito mais do que uma mera questão de se ir além da superfície. Um percurso de rotas que nos atraem rumo ao estranhamento de nós mesmos.

Para além das experiências corporais, há trajetos de invenção e sonho. Almejando alguma espécie de libertação, um criador se rende aos atributos desse caminhar por dimensões imateriais. Assim, o que parece ocorrer é que um curioso processo de reconhecimento se opera, tornando a vivência das situações um mirar de faces diante de um espelho.

Para uma artista como a portuguesa Helena Barbagelata, o outro lado do espelho reflete uma esfera de vivências na qual o físico e o abstrato convivem harmoniosamente. É como se um ambiente único de percepções surgisse, mesclando o real e o onírico, o vivido e o imaginado.  Tudo num organismo amalgamado que processa as mais complexas questões do olhar.

 

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Arte: Helena Barbagelata

Helena expõe certas densidades humanas. Mostra-nos um conjunto de gestos, externa rostos carregados de sobriedade, aponta trajetos do corpo. Em lugar de entabular razões, a artista utiliza como principal ferramenta um prisma poético sobre as coisas observadas. É, de fato, uma valiosa escolha na medida em que os recursos da sugestão promovem uma ideia de que as vias estão abertas para captar algo que não habita o território das obviedades.

Nascida em Lisboa e hoje vivendo em Atenas, Helena há muito percorre caminhos em torno das artes plásticas, música e literatura. Na seara literária, colaborou com revistas internacionais, obteve prêmios e publicou a obra Soliloquia (Apenas-Livros, 2013). Em matéria de artes visuais, suas criações transitam entre a pintura e a fotografia.

Considerando a arte como um diálogo entre criador e receptor, a artista lusitana abre fronteiras para a libertação do olhar, ponto no qual quem contempla é capaz de vislumbrar outros significados para a criação. Ainda, segundo Helena, os caminhos percorridos levam a uma alternativa não somente de autoconhecimento, mas também de descoberta do homem em relação a seus pares e ao mundo.

Contemplar a obra de um alguém como Helena Barbagelata é apostar na existência de dimensões ilimitadas e paralelas em convivência. Na intersecção entre o palpável e o inventado, percebemos uma sucessão de camadas de vida. São saberes do ato de existir, noções que apenas são percebidas porque se ousou experimentar a continuação dos passos.

 

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Arte: Helena Barbagelata

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.  

 

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108ª Leva - 02/2016 Destaques Olhares

Olhares

Conjunções urbanas

Por Fabrício Brandão

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

A cidade apresenta seus matizes. E há muito por trás disso. Tudo traduzido num ritual de cores, linhas, formas, luzes, sombras e gestos. Dentro da metrópole, reinam sentidos múltiplos, escondem-se outros tantos segredos. O concreto não existe por si só, enquanto resultado de décadas e décadas de feituras arquitetônicas, mas assume uma nova conformidade na medida em que os habitantes dos seus domínios alimentam o vaivém dos dias com o fluxo das suas ações.

Estar numa cidade é fazer parte de um imenso campo de abstrações. Por mais que se tome as coisas como fruto imediato das observações mais aparentes da vida, um quê de mistério ainda resiste. Quanto sentimento pode caber nos corredores viários, nas ruas, alamedas e avenidas? O que, de fato, define as paisagens urbanas?

São questões razoáveis, plausíveis. Certamente, a resposta está no modo como as intervenções humanas protagonizam seus papeis. Na caótica rotina urbana, pessoas passeiam suas efusões e dores, carregam suas máscaras, consolidando um verdadeiro e difuso espaço de representações.

No trabalho de um fotógrafo como Ricardo Laf, a imagem traz em si um caráter fortemente voltado aos aspectos acima descritos. É como se o artista retivesse instantes e extraísse deles alguma máxima do tempo, espécie de testemunho insone das coisas.

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

Nas fotografias de Ricardo, a perspectiva física dos lugares vem redimensionada pelas marcas que os homens assinalam em suas passagens. Assim, a matéria incorpora os ecos de seus personagens transformadores, assumindo também uma faceta ativa. É como se houvesse uma confluência entre os dois mundos, um de carne, outro de pedra.

Quando incursiona pelas vias citadinas, o olhar desse artista mineiro também sonda vestígios, verdadeiros lugares de ausência que são pressupostos de silenciosos e anteriores ímpetos humanos. O saldo dessas marcas reflete um complexo painel de histórias camufladas pela rotina. Aos poucos, vislumbramos também narrativas de vida dispersas nos vãos da colossal matéria. Mesmo onde impera algum tipo de devastação, uma memória ali se instalou.

Jornalista por formação, Ricardo Laf também estudou Ciências Sociais, Teoria da Literatura e Semiótica. Confessa-se com uma intenção estética de, através da fotografia, dar vazão ao registro visível do mundo. Sua relação com a imagem remonta à mais longínqua infância, despertada por uma pueril curiosidade.

Bem sabemos que muito se perde no torvelinho cotidiano. De tão acostumadas, nossas horas tendem a refletir um ciclo de ações por vezes mecânicas. Com tal comportamento, alteramos as configurações dos espaços em que transitamos sem sequer desconfiarmos que neles alguma porção da vida restou coagulada. E o que mais fascina nesse automático processo de desprezo é saber que de algum modo alguém nos chamará a atenção para as sutis epifanias do esquecimento, seus cenários repletos de histórias possíveis.

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

* As fotografias de Ricardo Laf são parte integrante da galeria e dos textos da 108ª Leva

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Olhares

Olhares

Admirável novo olhar

Por Fabrício Brandão

 

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Desenho: Deborah Dornellas

A descoberta do mundo é um processo lento, dinâmico, complexo e continuado. Mas é necessária uma intervenção ativa do olhar para que isso se torne algo real. Do contrário, a imutabilidade dos gestos diante das horas que nos acometem não tem serventia, pois nada constrói. Nem tudo está posto e temos uma considerável margem de liberdade para traçarmos as interpretações ao nosso modo.

Quando nos deparamos com coisas já estabelecidas, podemos indagar se tudo deve transcorrer da maneira como se apresenta. Sob o manto da aparência pairam as mais diversas possibilidades, cada uma delas carregando em si uma oportunidade de ressignificação. E é preciso ousadia para romper as barreiras tão viciadas pela rotina que nos trai e acomoda.

Pensar a arte de Deborah Dornellas é apreender a sensação de que o mundo no qual vivemos não é o mesmo de sempre. Munida de uma imensa capacidade de abstração, a artista revela-se hábil em revestir seres e lugares com uma múltipla sucessão de camadas. Significa dizer que o objeto de seus desenhos opera num fluxo através do qual o caráter físico das coisas é fragmentado para depois servir de base a uma outra formulação.

A despeito do que foi dito acima, essa nova caracterização da matéria é capaz de desfigurar cenários e corpos para depois reordená-los com outra configuração em forma e conteúdo. Desse modo, Deborah consegue vislumbrar alguma ordem no caos que nos pertence por natureza.

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

No que tange aos traços humanos apresentados por Deborah em seus desenhos, chama atenção uma verdadeira consciência amplificada a cerca dos domínios do corpo. Nessa ótica, a artista prima, sobretudo, pelo recorte sutil das formas, pela indefinição de rostos e identidades. A aura que envolve corpos vem associada a uma espécie de esfera do mistério e, de certa forma, sugere uma conotação etérea.

Carioca criada em Brasília, Deborah hoje mora em São Paulo por escolha própria. Também é escritora, jornalista e professora de criação literária. Desenha e pinta desde 1993 e, depois que descobriu as possibilidades do desenho digital, tal ferramenta se tornou a base de seu trabalho.

A diversidade de cores e texturas é ponto de destaque no trabalho da artista. É a partir delas que o caráter abstrato das suas investidas toma substanciais proporções. Ao mesmo tempo, cabe ressaltar que uma atmosfera intuitiva conduz as ações de modo predominante.

O que pode nos separar de um novo mundo é uma questão de ponto de vista. No entanto, a liberdade para definir como isso se dará é um aspecto crucial.  Mais que um mero exercitar de olhares, dar outros rumos para a existência é resultado de um inevitável flerte com o desconhecido. Se isso realmente mudará o curso das coisas, só os arremessos poderão dizer.

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Desenho: Deborah Dornellas

* Os desenhos de Deborah Dornellas são parte integrante da galeria e dos textos da 107ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.  

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Olhares

Olhares

A sutil continuidade das horas

Por Fabrício Brandão

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 

Num dado momento, os sentidos saem às ruas à cata de dimensões. Lá fora, um sopro vital permeia convívios, retém sons, encerra pensamentos. Todos os dias, em qualquer recanto do planeta, um intercruzar, ora silencioso, ora sonoro, de trajetórias distintas toma conta desse colossal palco que é a vida. Todos os dias tudo segue, apesar de nós.

O que seria desse nosso mundo sem as diferenças? A cada rosto, sua tez. A cada paisagem, seus matizes. A cada gesto, um microuniverso íntimo que, por vezes guardado a sete chaves, eclode nalgum ponto da jornada humana sobre a Terra. Serão os territórios todos nossos? Onde o limite para a visibilidade das coisas?

Na intersecção entre a concretude e a esfera de abstração, somos seres ainda hesitantes. Por assim dizer, a imperfeição dos homens é melhor guia, pois a nossa vida sucumbiria diante da certeza de que tudo está cartesianamente no seu devido lugar.

A observação das epifanias que nos cercam é também uma forma de intervenção. Por isso, evidenciar o caráter que permeia a obra de uma fotógrafa como Sinisia Coni é algo oportuno. Ali, o olhar expõe o fluxo dinâmico das expressões humanas, levando em conta que é extremamente impossível passar incólume pelo que é testemunhado de perto.  Mesmo quando se supõe uma mera contemplação, há muito mais consolidando tal gesto.

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

Em sua arte, Sinisia sonda ambientes urbanos como quem ousa navegar os mares da impessoalidade. O resultado dessa travessia é transmutado em gestos os quais nos soam familiares na medida em que concluímos que, não importa qual demarcação geográfica seja, pessoas são feitas da mesma essência.

Revelando-se uma apaixonada pela fotografia, Sinisia iniciou sua trajetória bem cedo, aos 14 anos de idade. De lá para cá, profissionalizou-se e participou de exposições dentro e fora do país, sendo premiada na Embaixada do Brasil em Oslo, na Noruega. Nascida em Salvador, na Bahia, hoje reside em Lisboa, Portugal.

A fotógrafa baiana confessa que mergulha com a alma quando busca suas imagens. Por tal concepção, é possível notar que ela não se propõe a uma busca leviana de lugares e pessoas. Não há o registro pelo registro, alguma espécie de fotografia acidental, mas sim um desejado envolvimento com o que surge diante dos seus olhos. Percebemos isso quando cores, formas, sombras e faces emanam suas múltiplas e próprias linguagens num ritual o mais natural possível.

Sem artificialismos e arranjos premeditados, Sinisia Coni é uma genuína testemunha do mundo, seus arroubos e sua gente.

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 

* As fotografias de Sinisia Coni são parte integrante da galeria e dos textos da 106ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Destaques Olhares

Olhares

Exílios voluntários

Por Fabrício Brandão

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O mundo pode ser um imenso jardim onde depositamos o tamanho de nossas expectativas. Podemos regá-lo de acordo com conveniências misturando doses reais e fantásticas. E talvez não seja tão relevante procurar saber se apreciamos mais a aparência ou o conteúdo das coisas quando a intenção é a de se ter uma atitude contemplativa diante da vida. Mergulhar mais fundo significa uma escolha a produzir seus próprios resultados.

Eis que há um outro sentido de busca na captura das imagens do mundo. É quando o artista, numa atitude libertadora, deixa-se conduzir pela pulsação própria da existência. Nesse ato, ele sai ao encontro do inesperado sem saber ao certo quais sinais irão se insinuar diante de seus sentidos. Entra em cena o desperto exercício da observação, mola propulsora do trabalho de gente como Juca Oliveira.

Juca não sabe ao certo o que vai encontrar quando permite que o mundo o apresente suas tantas e tamanhas imagens. Não há um roteiro prévio a comandar os impulsos da criação. A orientação primeira de desenhos e ilustrações vem de uma atitude de desapego à conformidade, uma sensível vontade de se deixar surpreender pelas manifestações externas. Assim, há um significativo eixo de posicionamentos, através do qual o artista, seu olhar e os objetos/sujeitos flagrados compõem uma tríade de papéis.

No seu trajeto para ver o mundo, Juca assume o desafio de articular e harmonizar elementos abstratos e concretos. Nesse momento, a intuição configura-se uma ferramenta fundamental, pois possibilita ao artista vislumbrar cenários e engendrar campos de atuação para seus personagens.

Juca Oliveira
Arte: Juca Oliveira

Seres, coisas e lugares dão o tom ao ofício de representação que nos é proposto por Juca. Dialogando com traços da contemporaneidade, o criador lança mão de recursos provocativos, irônicos e também dotados de suavidade. Faz uso de cores e formas que assinalam um modo peculiar de captar o que a vida lhe oferta incessantemente. Se o fluxo de informações é grande, Juca prefere o exílio voluntário, momento em que, num amplo processo de tomada de consciência, rende-se a apelos cotidianamente ignorados.

Outro ponto forte da trajetória desse artista baiano é a elaboração de histórias em quadrinhos. Com certa dose crítica e sarcástica que o gênero demanda, Juca conduz seus imaginados enredos. Suas tirinhas sequenciais apresentam uma robusta capacidade de equilibrar e condensar texto e imagem.

Na sua intenção confessa de se deslocar para um tempo diferenciado, mais lento, no qual desacelerar significa ampliar perspectivas de apreensão das coisas, Juca Oliveira edifica o habitat de sua arte. Alheio ao turbilhão que desconcentra e por vezes desvia, o artista encontra refúgio na percepção detida de um tudo. Com isso, reconecta-se a si mesmo, evidenciando o poder dos silêncios e abrindo canais de entendimento sobre a existência.

Juca Oliveira
Arte: Juca Oliveira

 

* As ilustrações de Juca Oliveira são parte integrante da galeria e dos textos da 105ª Leva.

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

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104ª Leva - 07/2015 Destaques Olhares

Olhares

Entre mundos

Por Fabrício Brandão

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Entre os vãos daquilo que imaginamos ou vivemos, um mundo explode à nossa volta. Dentro dele, desenham-se cenários, epifanias humanas, outras possíveis dimensões. Há que se falar no concreto das coisas e na sua projeção aparente. Há que se falar também em abstrações ou em como estamos diante de esferas intangíveis. E, quando não temos o controle imediato das situações, passamos a meros observadores desse jogo de representações que é a vida.

Quem fotografa lida com um universo de paralelismos. Num arranjo cênico moldado pelo cotidiano, os olhares se entrecruzam. Sujeitos e objetos captados pelas lentes rompem a noção de passividade e ganham um status de protagonismo. Assim, surgem novas maneiras de vislumbrar a existência. O fotógrafo, artesão da luz, é também arrebatado por toda a sorte de elementos que emanam do exterior como se estes últimos o escolhessem. Coexistem, num mesmo plano, as investidas do artista e a representação autônoma com que seres e coisas se apresentam.

Revertendo a tradicional visão das atuações, seria como afirmar que o fotógrafo é quem é eleito pelo seu alvo. Se por um lado tal constatação traz uma carga subjetiva muito forte, por outro, aponta para uma perspectiva através da qual cabe ao artista perceber certos atrativos sinais. Temos essa sensação ao contemplarmos o trabalho de Valéria Simões, sobretudo pelo fato de que as pequenas delicadezas contidas no dia-a-dia ganham destaque aos olhos da artista.

Registrar pessoas é algo que ocupa um lugar especial na trajetória de Valéria. Nesse aspecto, está em foco a habilidade de interferir o mínimo possível no curso natural dos personagens e seus respectivos ambientes. Como ela mesma confessou, numa entrevista concedida à Diversos Afins, o segredo consiste em se misturar da forma mais espontânea possível. E é assim que múltiplas faces são mostradas, tanto nos rostos retratados quanto em lugares nos quais as intervenções humanas deixaram suas marcas mais evidentes.

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Por trás da rotina que envolve a tudo e todos, paira um manto poético com o qual a fotógrafa apresenta o grande palco da vida. São cores, formas, linhas, gestos a compor a dinâmica da existência. Os espaços urbanos revelam sentidos tanto de ocupação quanto de ausência, todos eles denotando uma simbologia própria.

A fotografia está na vida de Valéria Simões desde o início dos anos 1990. Alguns de seus trabalhos foram premiados dentro e fora do país. Participou de diversas exposições, tanto individuais quanto coletivas, no Brasil, Peru, Canadá e França. Em cinema, assina a fotografia de cena de filmes como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (São Paulo – 2002) e “Trampolim do Forte” (Bahia – 2008). Fez de sua casa, em Salvador, uma verdadeira galeria, lugar onde recebe convidados, artistas e pessoas interessadas em adquirir suas obras.

Transitando entre mundos, os olhares de Valéria enaltecem o ritual singelo da vida. Diante da delicadeza e da simplicidade com as quais se depara, a artista não se furta ao ato de nos revelar que nas coisas costumeiramente despercebidas há sabores elevados.

 

Foto: Valéria Simões

 

 

* As fotografias de Valéria Simões fazem parte da galeria e dos textos da 104ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Olhares

Olhares

Outros elos

Por Fabrício Brandão

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

 

As cores e contornos sobre o papel. Diálogo entre dois universos. De um lado, o de quem vislumbra imagens; do outro, uma gigantesca nação de coisas a serem descobertas através do olhar. A arte impulsiona o criador quando este é capaz de compreender que pode fundar mundos no mundo.

Ao perceber que o elemento diferencial está na sua individualidade, o artista introduz seus ingredientes próprios numa mistura de signos e sentidos. Diga-se de passagem, o caráter especial da arte é nos mostrar que tudo, até mesmo as coisas aparentemente mais óbvias, podem ser vistas de uma maneira também inusitada. É então que refletimos que a convergência cartesiana de visões não é útil na representação dos universos artísticos.

E o que nos traz à baila uma artista como Caroline Pires? Quiçá mensagens de um admirável mundo novo. Seus desenhos e ilustrações transitam numa dimensão que harmoniza realidade e fantasia. É como um passeio pelo onírico, buscando sorver da vida um sopro de requintes poéticos. Mesmo no despertar do sonho, a artista constata que a existência revela outras camadas, as quais superam a noção meramente física das coisas.

Um aspecto que chama atenção na obra de Caroline é o fato de estarmos diante de caminhos de libertação. Em tal característica, a artista convida-nos a um percurso pelas alamedas lúdicas de sua consciência. Aqui, o anseio de liberdade está representado pela suavidade dos traços e contornos, sobretudo pela forma como se pretende um caminho feito de desprendimento, ou seja, sem excessos e ruídos do ponto de vista visual.

 

Ilustração: Caroline Pires

 

Andar com reduzidos pertences não significa andar de mãos vazias. No desafio de ilustrar um mundo tradicionalmente repleto de fardos desnecessários, Caroline abraça os rumos da leveza como forma de tentar compreender quem é. Mas o fato é que há ventos soprando em todas as direções e, nessa busca, a criadora depara-se com o estranhamento ante os desafios da existência. As rotas são inexatas, complexas, e por trás dessa verdadeira odisseia de sentidos a recompensa maior é a construção de uma linguagem íntima e consistente, capaz de compartilhar algo com os saberes alheios.

A trajetória artística de Caroline remonta à sua mais tenra idade. Nascida em São Paulo, desde pequena ela preenche espaços em branco com traços, linhas e cores. Atualmente, reside em Vargem Grande Paulista, trabalha como designer e ilustradora freelancer no Estúdio Capima. Dentre outros trabalhos, integra o Estúdio Azulê (parceria com a fotógrafa Diana Freixo), o Portal Mobilize Brasil e o novo blog Entreminas, espaço que aborda principalmente a arte feita por mulheres.

Abandonar o mundo em que se vive não é uma alternativa interessante para quem deseja fazer de sua arte uma expressão de identidade. Por mais voláteis que possam parecer, algumas sensações integram a natureza humana de modo inalienável. E a descoberta de novas dimensões existenciais não significa escape, mas sim transcendência, esse sublime estágio que delineia a obra de pessoas como Caroline Pires.

 

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

 

 

* As ilustrações de Caroline Pires são parte integrante da galeria e dos textos da 103ª Leva.

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.