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102ª Leva - 05/2015 Destaques Olhares

Olhares

Indeléveis dimensões

Por Fabrício Brandão

 

Ana Pérola

 

A cada passo dado, as sandálias do caminhante desgastam-se num ciclo irreversível. É o tempo com suas investidas e artimanhas. No mesmo instante em que se olha para trás, os rastros deixados já não são mais os mesmos. Inexplicavelmente, nossa capacidade de perceber o exíguo prazo de duração de um estar no mundo é inversamente proporcional ao que podemos reter de fato. Assim, anda-se muito. Assim, fala-se em demasia. Assim, perde-se o essencial da viagem.

É possível a fuga do mundo quando ele nos apresenta a sua face mais cruel? Nem sempre. Muitos dirão haver saída nos incontáveis manuseios da abstração. Outros verão a tudo com certa resignação e tentarão ressignificar viciadas paisagens. Alguns mais darão um beijo de língua nessa divindade chamada caos. Seja qual for a alternativa elegida, em tudo haverá um pacto, o qual, silencioso ou não, adentrará dias e noites convidando corpos e almas a refastelarem-se no grosso caldo da incerteza.

De toda sorte, há combates entoando seus cantos por todas as frentes. Se guerreamos, consentimos em deixar partes nossas nos vãos devastados e tentamos conviver com o saldo dos vestígios. Se nos omitimos, duras revoluções implodem nosso ilustrado castelo de cartas falivelmente projetadas. Por tudo isso, a desordenação das coisas até pode assustar hordas de desavisados, mas haverá quem vislumbre nela a oportunidade de olhar a tudo como uma outra dimensão da existência.

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

O que dizer, então, quando nos deparamos com as fotografias de Ana Pérola Pacheco? Arriscar na resposta uma ideia de que o caos nosso de cada dia é um lugar de aproximações. Se o mundo afugenta por suas complexas questões indecifráveis, a artista estreita os laços com o seu tempo, seu espaço e, sobretudo, sua gente. É uma predileção que não ressalta escolhidos, mas sim alça os seres a um patamar de igualdade entre si.

Numa dinâmica de comunhão entre pessoas, lugares e esferas intangíveis, Ana desfila seus olhos ante o girar da vida. O resultado é uma delicada apresentação do real segundo uma ótica que não negligencia as hesitantes intervenções humanas. Afinal, somos um barro cujos moldes apontam para sabidas imperfeições.

Quando a constatação das visões da vida nos revela a pungência das adversidades, aí então notamos o caráter essencial da expressão de Ana Pérola: poder observar as tensões mundanas e retirar delas saídas poeticamente imagéticas. Tal perspectiva não vem acometida por uma necessidade de redenção ou purificação diante de um mundo declaradamente conturbado. O viés adotado pela fotógrafa também intenta uma leveza que seja capaz de minimizar a solidão dos homens, propondo-lhes caminhos de aproximação.

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

Nascida no Rio de Janeiro e vivendo atualmente em Florianópolis, Ana também se dedica à literatura, tendo publicado poemas e ensaios. Mantém o blog Sentidos e é colaboradora do site Poesia: Falsidade Ideológica.

De mãos dadas com a poesia, a fotógrafa promove suas imersões num mundo que, por vezes, todos julgamos conhecer. Mas será que o sabemos de fato em sua inteireza? Melhor confessar que não, pois a pretensão é superior à concretude de nossas constatações. Assim sendo, Ana crê num caminho que constrói perspectivas, valorizando um ambiente no qual nossas humanas idades representem menos turbilhão e mais serenidade. E no âmago dessa busca, ela mesma nos diz:

 

Há quentura na sombra
E há também frieza no vazio.
Os pés que te levam
É o meu retorno para o lado contrário
Nossa estação de passagem
Transborda fantasia
Aguça a alegria do sonho
Esquenta
E danço, como o fogo quando queima a lenha
Voo pr’um mundo que não sei, que não vi
Desafio-me no olho do desconhecido, vibro
Talvez eu ame algum dia. Talvez.
E até dê flores aos Amigos
Talvez eu me encoraje e abra a porta
Dê descarga, deixo ir a sobrecarga
Me banho na água do rio e vou
Correnteza. Ser oceano.

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

* As fotografias de Ana Pérola Pacheco fazem parte da galeria e dos textos da 102ª Leva

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101ª Leva - 04/2015 Destaques Olhares

Olhares

Um estrangeiro e íntimo caos

Por Fabrício Brandão

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Se o mundo é tal como o vemos, então muito ou quase tudo pode ser reinventado com os ingredientes de cada olhar. Definir, com precisão, se uma quantidade infindável de coisas pode ser relativizada frente aos repertórios que as atravessam é humanamente impossível. Melhor mesmo é deixar que cada artista exponha sua marca nesse ambiente vasto e tresloucado ao qual chamamos de realidade.

Diante das possibilidades de se representar o mundo no qual habitamos por empréstimo, a concretude das coisas pode curiosamente estar bem harmonizada com a múltipla capacidade de abstração. É como se o caráter físico e, portanto, palpável da vida fosse apenas uma camada a revestir o intangível. Então, vem a pergunta: quantas fronteiras existem entre o vivido e o inventado?

A resposta fica por conta de cada um, se é que ela existe. No entanto, parece plenamente possível a um criador modelar a realidade de forma a obter dela entradas e saídas. Em se tratando dos desenhos de Victor Hugo de Azevedo Macêdo, ou simplesmente Victor H. Azevedo, os acessos lembram-nos que vislumbrar o real é fazer um pacto constante com a transformação.

Metamorfoseando a realidade em distintos recortes, Victor vai saciar sua sede na fonte do caos que simultaneamente ordena e embaralha o mundo. Abraçado a uma perspectiva de manipulação das formas, o artista consegue fazer da sua existência uma reprodução da inquietude. Nesse ínterim, a vida que o circunda mostra suas faces dispersas pelo nonsense, certa dose de ironia e por alguma acidez dos dias.

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

No plano do discurso, a arte do jovem potiguar também comunica pelo inconformismo, o que significa dizer que nem tudo o que o mundo oferece a Victor ele está disposto a aceitar sem que haja, no mínimo, algum filtro. Prova disso está no modo como ele posiciona a condição humana diante de temas como a solidão e os efeitos advindos da modernidade.

Quando os sentimentos que reproduzem seu tempo não são capazes de minar as barreiras aparentes, Victor flerta com o realismo fantástico. Entretanto, essa atitude não implica em fuga, mas numa constatação de que ao mundo ainda é possível a criação de outros tantos sentidos.

Nascido em Natal, Rio Grande do Norte, Victor H. Azevedo publicou vários zines, dentre os quais doze canções, fábrica de flores e O amor é simples. Além disso, também se dedica à poesia e aos quadrinhos.

Victor é porta-voz de uma manifestação que busca no externo a sua razão de ser. Com todas as nuances intrínsecas que se possa conceber, aquilo que está fora revela-se o elemento maior da criação, instância esta que só se materializa porque há olhos que se interessam por perscrutar o mundo, jamais negligenciá-lo. E, assim, contido em seu afluxo imensurável, o artista confessa: “cada traço e contorno é como uma braçada num lago”.

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

*Os desenhos de Victor H. Azevedo fazem parte da galeria e dos textos da 101ª Leva

 

 

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100ª Leva - 03/2015 Destaques Olhares

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As sutis inscrições do vazio

Por Fabrício Brandão

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

Há uma voz que, em meio ao tempo, pretende ocupar espaços. Essa voz transmuta-se no olhar daquele que cruza insones paisagens urbanas. E não há necessidade de que sua expressão maior seja percebida pelo verbo sonoro. Apenas o silêncio desafiador ousa permanecer e atravessar as zonas mais inusitadas da observação.

Quando o olhar revela-se um personagem dos cenários retratados, o ritual dos estranhamentos renova seu foco. Sem deixar passar o traço genuíno que cada ser ou lugar denotam, um fotógrafo vai além da dimensão externa das coisas quando experimenta tempos e espaços num mergulho físico ou intangível.

Gabriel Rastelli Quintão é um desses desbravadores de territórios. Máquina em punho, seus registros fotográficos perscrutam cenários em busca de vislumbrar o que está além dos vestígios. Atraído por uma espécie de decadência humana, o fotógrafo intenta o belo em meios aos escombros, quiçá alguma pista que possa renovar a crença num porvir.

Diante dos fragmentos deixados pelos homens, Gabriel parece se defrontar com a poética do vazio. Nesse ínterim, há um curioso processo de ocupação imaterial dos espaços, fazendo com que tais lugares representem pontos de recordações e alguma contemplação. Assim, a perspectiva do ambiente urbano deixa de ser meramente uma aglutinação de concreto e passa a algo indissolúvel na medida em que o tempo costura seu imprevisível fluxo.

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

O que Gabriel vê para além do vazio aparente é também um inventário de silêncios. Tanto na via das ações quanto na das hesitações, homens alteraram o curso de suas trajetórias e, mesmo que o artista tenha chegado após os fatos, os cenários denunciam seu farto enredo.

Nascido em Araraquara, São Paulo, Gabriel Quintão estudou fotografia na Escola Panamericana de Artes e hoje atua nas áreas de fine art, fotojornalismo, retratos e publicidade. Seu primeiro projeto autoral publicado, batizado de “Linha de Frente”, mostra as reações de fãs de rock que se comprimem nas primeiras fileiras de shows do gênero. Noutro momento, o fotógrafo exalta a série “Cinzas de Quarta”, cujas imagens refletem o abandono das alegorias carnavalescas que, outrora ostentavam a magia de um desfile, agora são relegadas ao esquecimento pós-momesco.

Apesar do trabalho de Gabriel denotar uma forte relação com as lacunas humanas visíveis ou não, outros pontos de observação são elegidos pelo artista. Composições de luz e sombra, flagrantes da natureza e epifanias urbanas também fazem da arte do fotógrafo paulista um caleidoscópio de sensações pulsantes.

Entremeando a tênue cortina que divisa o ser do não-ser, os olhares aqui apontados configuram uma estética que conjuga perenidade com volatilidade. E o interessante é perceber que há modos de se testemunhar presenças e marcas, mesmo que agora subsista algum vazio. Aquilo que o tempo ocultou ou até mesmo dissipou resiste, permanece intacto na maneira como lidamos com as artimanhas da memória.

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

* As fotografias de Gabriel Rastelli Quintão são parte integrante da galeria e dos textos da 100ª Leva

 

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99ª Leva - 02/2015 Destaques Olhares

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O destino das linhas

Por Fabrício Brandão

 

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

Pensar a vida como uma rota imprecisa, longe de perfeições ou viciosos determinismos. Seres, recantos, o concreto e o abstrato, tudo amalgamado por um sentido essencial. O substrato de uma existência flerta com um estrangeiro desejo de eternidade. O tempo estanca boa parte dos equívocos tão nossos. A arte liberta na medida em que expande nossa consciência, nossa apreensão do pertencimento a um universo de coisas passíveis de imersão e, porque não dizer, catarse.

Ante os mergulhos, a conclusão: a vida é verdadeiro labirinto. E a obra de gente como Alessandra Bufe Baruque nos comprova isso. É como se um gigantesco novelo, sem começo e fim, desenrolasse suas tramas e nos envolvesse sorrateiramente. É necessário tomarmos cada ponto desse tecido como parte de uma trajetória que pode muito bem representar a de qualquer mortal. Quais pistas, então, a artista nos propõe?

Tal qual o mitológico fio libertador de Ariadne, a arte de Alessandra Bufe vai construindo um caminho criativo cuja expressão maior reside na perspectiva de sugerir vias alternativas de apreensão dos sentimentos. Sua intenção não é a indicação de rotas de fuga, tampouco determinar soluções para dilemas ou enigmas, mas desfilar diante de nós as múltiplas e possíveis representações das epifanias humanas. À medida que avançamos nesse território, identificações podem surgir.

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

O novelo de Alessandra transborda por todas as frentes de sua obra. E é no uso especial das linhas que ele encontra morada, seja para introduzir acessos ou simplesmente continuá-los. Essa característica se expande através de gravuras em metal, desenhos a lápis, monotipia, pintura a dedo, xilogravuras, esculturas e, especialmente, na linóleogravura.

Conforme confessa a própria artista, há um claro encantamento seu pela forma das coisas. De nuvens a megaconstruções, tudo pode ser motivo de registro e concepção. Formada em Artes Plásticas e Desenho Industrial, ela desenvolve um trabalho que prima fundamentalmente pela liberdade de expressão. Assim, sem amarras predeterminadas, o resultado aponta para um convergente fluxo de intuição e observação.

No universo de perspectivas abrigadas em sua obra, Alessandra firmou a ponta do seu longevo fio num lugar inimaginável. Entre investidas e vislumbres, cada um de nós pode intentar algum caminho de volta.

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

* A arte de Alessandra Bufe é parte integrante da galeria e dos textos da 99ª Leva

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98ª Leva - 01/2015 Destaques Olhares

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As humanas idades de Pedro Alles

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Pedro Alles

 

São os tais percursos deixados pelo homem. As frontes expostas diante da sinceridade dos dias. As marcas do tempo, os semblantes abrigados num recanto qualquer. Travestidas de rotina, as figuras humanas trapaceiam os efeitos do óbvio, negando-lhe a condição de seres aborrecidos por uma suposta falta de novidade ou pelas marcas da repetição. Mas eis que há, sim, a descoberta do novo ante os fragmentos da realidade. Sentir-se vivo é, antes de mais nada, constatar que a poesia dos instantes não é sufocada por uma espécie de ceticismo universal.

Assim o faz Pedro Alles, quando deixa brotar de suas imagens elementos exaltadores da condição humana. Uma pluralidade de rostos, corpos e lugares encontra abrigo no atento registro do artista. Miramos os caminhos propostos e, na maior brevidade possível, sentimo-nos testemunhas dos cenários.  Ao passo que cada captar da luz instaura em nós alguma identificação, percebemos que somos cúmplices ativos de uma realidade abrangente.

As fotografias de Pedro não esperam pela hora mágica. Chamam atenção pelo vigor da simplicidade que permeia nossa trajetória de mortais. As coisas acontecem diante dos nossos olhos sem que para tanto sejam profetizadas de modo apoteótico ou apocalíptico. Não há início, meio e fim. Apenas o puro transcurso do olhar que deseja apresentar epifanias da existência.

 

Foto: Pedro Alles

 

Seja uma ponta de mar, uma expressão facial ou o gestual encerrado na rotina dos nossos iguais, tudo carrega em si o emblema dos difusos percursos de vida. Diferentes mundos se intercruzam, compondo histórias de um complexo tecido social. Aí reside a riqueza dos flagrantes do fotógrafo, seu trunfo por trazer à tona o coletivo enquanto agregado de células subjetivas. Nesse fluido de individualidades, estão misturados sonhos, gozos, gestos e algumas poucas certezas.

Pedro Alles fala de suas origens como alguém que sempre buscou aventurar-se pelos caminhos sem pretender verdades universais. Nasceu em Salvador e morou no Rio Grande do Sul, Maranhão e Rio de Janeiro. Fez de tudo um pouco. Foi restaurador de museu, roteirista de quadrinhos, trabalhou com fotografia de moda, publicidade, além de também ter sido editor jornalístico. Escreveu dois livros: um de poemas (Micrices Adestradas, 1993); outro de aforismos (As Mínimas do Marquês do Herval, 1997). Depois de muitas andanças, deixou para trás um mestrado em filosofia para se dedicar a sua pousada no litoral de João Pessoa, na Paraíba.

Por visar a conjunção entre contemplação e reflexão, a arte de Pedro não ignora os desvãos do mundo. Do mesmo modo como sua estética propõe uma abordagem sutilmente crítica das coisas, uma menção à beleza faz alusão a uma tão necessária manutenção da esperança. Mesmo que sejamos reconhecidamente imperfeitos e repetitivos.

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

* As fotografias de Pedro Alles são parte integrante da galeria e dos textos da 98ª Leva

 

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97ª Leva - 11/2014 Destaques Olhares

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Sob tramas da alma

Por Fabrício Brandão

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Dizer do manto que recobre o universo feminino significa mergulhar em profundezas de mistério. Na medida em que tentamos desvendar sua complexidade, o sabor crescente do indecifrável acaba tomando corpo vigoroso diante de nossas percepções. E não funciona ter em conta a visão simplista e limitada de que tudo é acometido apenas por sinais de delicadeza e sensibilidade.

Definitivamente, a desgastada noção de que o feminino navega águas de fragilidade vem perdendo sua razão de ser entre nós. E não se trata também de ressaltarmos aspectos que apontam para uma mera afirmação de gênero. Pelo contrário. Significa levarmos em conta a genuína expressão que brota dos olhares particulares de mundo. Assim o faz Cristina Arruda quando nos propõe pungentes observações sobre as epifanias que brotam das mulheres.

Fazendo uso de curvas, traçados, contrastes entre o preto e o branco, além duma profusão de cores, Cristina nos convida a viajar por uma espiral dotada de contornos poéticos. E mencionamos poesia aqui pelo caráter sintético da apreensão dos sentimentos humanos. Trata-se de uma condução sem afetações ou contaminações imediatas e apressadas, ou seja, sem viciar o olhar em torno duma acalorada visão restrita de mundo. Segue-se um fluxo natural e deveras intuitivo de recortes existenciais sem que isso possa resultar num arroubo apoteótico.

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Quiçá seja a simplicidade o que buscam os poetas em seu engenhoso ofício. Quiçá seja também essa condição a melhor forma de significar o trabalho de Cristina. E, como a própria artista nos confessa, há uma imersão diária nos cenários que compõem seus domínios, principalmente quando se trata de vislumbrar a mulher em sua interação com o ambiente externo.

Seja nos desenhos, munidos a giz, lápis de cor e nanquim, seja nas pinturas em aquarela e acrílica, essa mineira de Belo Horizonte ressignifica os espaços e os personagens do seu entorno físico e imaterial, dando margem também a uma apreensão mística da vida. Perfazendo mais de 15 anos de trajetória autodidata, Cristina Arruda apresenta em seu currículo as exposições individuais “Universo Feminino” e “Rebento”, além de outras de cunho coletivo.

Na edificação dos cenários e seus habitantes, a artista apropria-se de um tenro fio que sutilmente costura a vida. É como se tudo estivesse mesmo sustentado por um sentido de leveza. Caminhos de ida podem ser levados aos da volta com natural facilidade, ou o contrário também pode acontecer. Para a essência que nos abraça, as linhas e curvas de Cristina são um lembrete de que somos feitos pela substância inexata da alma.

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

 

* Os desenhos e pinturas de Cristina Arruda são parte integrante da galeria e dos textos da 97ª Leva

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96ª Leva - 10/2014 Destaques Olhares

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Nas tessituras do etéreo

Por Fabrício Brandão

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

 

Por entre as arestas dos dias, há este senhor que apazigua e exalta ânimos. Como num carrossel de cores vivas, são muitas as faces possíveis do misterioso ser que rege as entrelinhas do mundo. Os homens, por vezes, tentam arregimentar ciclos e detê-los nalgum canto da memória esparsa. Há que se reconhecer que a humanidade ainda desconhece tudo que o correr das horas inaugura. Com toda a sua imperiosa fidalguia, é o tempo o senhor daquilo que nos escapa entre os dedos.

O mundo, tal como o vemos, bem que poderia ser subserviente aos nossos caprichos e instintos mais primitivos. Mas não o é. Revela-se mesmo um aglomerado de dissonâncias tão típicas de um organismo que não mais sabe distinguir quais corpos estranhos invadiram-lhe as entranhas. E é bem assim que, mirando paisagens inventadas pelos sentidos, flertamos sobretudo com fantasias, delírios e algumas desejadas doses de amenidades.

Diante das observações postas acima, é possível perceber que encontramos artistas cujo trabalho revela um acentuado gosto por uma zona de intersecção entre o real e outras searas intangíveis aos olhos. Muito dessa sensação está presente na obra do fotógrafo argentino Tomás Casares. Nela, pulsa forte muito mais do que um desejo de apresentar os homens e seus lugares, mas principalmente a ideia de que a arte é capaz de servir como um instrumento de transcendência, através da qual o visível é tido como uma extensão do espírito humano.

É interessante notar como o efeito pretendido pelo criador torna seu trabalho dotado de uma singularidade tamanha. É dessa forma que Tomás nos apresenta o mundo através de suas imagens, fazendo-nos suspeitar que o cotidiano abriga uma viva poesia em seus interstícios. E tal conclusão não é tão simples de elaborar. Há que percebermos que, acima de tudo, estamos a contemplar uma densa e intricada poética dos mistérios, como se a nós fosse dada sempre a perspectiva de questionar convicções.

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

Pelos registros de Tomás Casares, a matéria das coisas e pessoas não é um mero objeto a ocupar lugar no espaço e no tempo. Dela, emanam sentimentos difusos, capazes de vislumbrar uma noção pretendida de unidade. A partir daí, o que o fotógrafo chama de expressão da verdade resulta da harmonização entre o visível e o invisível, todo um ambiente de sensações fortemente marcado por um caráter místico.

Há, por parte de Tomás, um interesse em conceber o homem como um agente ativo de um entendimento deveras sublime: a viagem ao seu interior. Segundo o artista, isso será possível quando tomarmos consciência de nosso processo de liberdade, algo fundamentalmente precedido por uma libertação espiritual. Agindo dessa forma, compreenderíamos melhor a relação entre as coisas, sobretudo as que estão situadas no hiato entre o visível e o invisível.

Quando a arte nos sugere seguir mistérios, suas epifanias não valerão a pena se tentarmos olhar tudo como um incansável fluxo de apreensões exclusivamente racionais. Há que captarmos a distinção crucial entre conhecer e compreender. Há que nos deixemos levar por um delicado e sensível caminho no qual a afirmação das certezas é o que menos importa.

 

 

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

 

 

* As fotografias de Tomás Casares são parte integrante da galeria e dos textos da 96ª Leva

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95ª Leva - 09/2014 Destaques Olhares

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O idioma das sutilezas

 Por Fabrício Brandão

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

São mãos a percorrer rostos e gestos. Pequenos universos a abrigar também a intensidade natural das cores escolhidas. O resultado aponta para o surgimento de um traçado irreverente na observação da vida. Dada a multiplicidade de tons, a arte da mineira Rebeca Prado revela-se um misto de doçura e inquietude, quiçá um contraponto dentro de um jogo necessário de equilíbrios.

Eis que não nos basta mencionar a convergência entre sentimentos supostamente opostos. De fato, não. E o que Rebeca propõe reside num plano simultaneamente concreto e intangível. Palpável na medida em que nos incita a sermos personagens de suas representações de mundo. Imponderável quando os ambientes sugeridos fazem parte de uma ampla dimensão na qual a abstração pretende-se inteiramente livre.

Há sutileza nos temas propostos. No entanto, o convite da artista é para que façamos um uso muito mais reflexivo sobre tudo. Num rico painel que agrega níveis complexos de delicadeza, Rebeca incita-nos à provocação. Assim, pequenos fragmentos cotidianos e seus cenários perfazem arremates certeiros em nós. Seja pela pungência do elemento crítico, seja pela evocação de alguma serenidade, ilustrações e desenhos servem a um ideal vigoroso: não passamos impunes diante da beleza e do espanto da vida.

E como, por natureza, somos seres recorrentemente míopes, a acidez do tempo vem quebrantar os laços confortáveis. Ainda assim, os incômodos não conseguem superar os dotes de uma ternura reinante, verdadeira arma do olhar. Tanto nos postais quanto em boa parte de seus desenhos e ilustrações, Rebeca não abre mão de suas lúcidas leituras de mundo. Se a atitude crítica permanece vigilante, os recursos poéticos também assumem seu lugar. Nesse movimento, as tensões internas harmonizam-se a favor de um conceito orgânico em matéria de arte.

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

 Apesar de sempre ter gostado de desenhar, já passou pela cabeça de Rebeca a vontade de ser astronauta e bióloga. Hoje, sobretudo como ilustradora, quadrinista e professora de desenho, ela revela-se ávida por tudo o que o mundo é capaz de lhe proporcionar em termos de imagem. E verter isso em criações também deriva de influências das mais variadas possíveis, como o design gráfico, quadrinhos, arte urbana, animação e ilustração infantil.

O momento atual da artista contempla a feitura de tirinhas, divididas em duas séries, “Navio Dragão” e “Sutil ao Contrário”, ambas publicadas semanalmente em sua página. Vale ressaltar que, nesse território, o humor aguçado e inteligente pontua marcantemente as criações. Rebeca também confecciona diversos materiais gráficos para venda, como pôsteres, postais e quadrinhos, além de integrar o “Selo Maritaca”, de quadrinhos independentes.

A arte tem uma propriedade bastante especial de romper estruturas embrutecidas. Quando se afirma isso, podemos considerar que uma das facetas dela é a de viabilizar uma apreensão menos pesada de tudo que nos acomete. Sem perder a porção inquieta e incomodada da existência, carregamos conosco os dotes inalienáveis da fantasia. No curso dos mares da abstração, ir além é um imperativo. Expondo sua rota, Rebeca Prado nos empresta sua bússola.

 

Rebeca Prado

 

* Os desenhos, ilustrações, tirinhas e postais de Rebeca Prado são parte integrante da galeria e dos textos da 95ª Leva

 

 

 

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94ª Leva - 08/2014 Destaques Olhares

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Sinfonia do invisível

Por Fabrício Brandão

 

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

A menina adentra as veredas da adolescência, perfazendo as primeiras noções de olhar o mundo com necessário cuidado. Seu método de observação é, no mínimo, curioso. Deita-se sobre um beiral do terraço do prédio em que morava na maior cidade brasileira e faz com que o corpo, capitaneado pela visão de quem procura detalhes, incline-se a noventa graus. Com isso, intenta ver o oceano urbano explodindo seus signos lá embaixo, além de experimentar o horizonte recortado. Seu mundo idealizado era em preto e branco.

O tempo passa e a menina, hoje mulher, fez questão de levar adiante a sua particular maneira de apreender a luz. Seu nome, Luciana Bignardi. Sua nova morada, Portugal. De lá para cá, pouco mais de duas décadas se passaram e a chama continuou acesa. Com o desenvolvimento do olhar, especialmente marcado por nomes como os de Sebastião Salgado e Cartier Bresson, a escolha da moça pelo ofício de fotógrafa cada vez mais ganhava corpo e certeza.

É o olhar que perscruta a vida quem comanda as ações na trajetória de Luciana. Interessada em transpor as barreiras mais aparentes, ela vislumbra como desafio maior a perspectiva de captar a alma humana da forma menos invasiva possível. Nesse aspecto, o que fica em boa medida é o entrelaçar silencioso de mundos, estreitando distâncias entre observador e observado. Assim, uma pergunta sempre se faz presente: terá a fotógrafa a capacidade de praticar o taciturno pacto do registro sem alterar as esferas íntimas de seus personagens prediletos?

A resposta parece ser positiva, embora saibamos que os olhares que lançamos ao universo de coisas que nos rodeia não são impunes. E não se trata aqui de levar em conta a possibilidade de alteramos o sentido daquilo que vemos a partir de nossas convicções, mas pelo modo como também nos sentimos parte viva do que é apresentado via lentes. Então, ao refletirmos sobre o trabalho de Luciana Bignardi, entendemos também que ela nos mostra um ponto essencial de convergência, no qual criador e criatura são cúmplices duma mesma e complexa existência.

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

Afora as especiais abordagens humanas, as fotografias de Luciana conferem um lugar de destaque para a, digamos assim, geometria dos espaços retratados. Isso fica mais claro quando notamos a maneira através da qual a artista evidencia o caráter urbano de suas observações. Nesse ínterim, flutuam linhas, retas, curvas, sombras e diversos contornos a promover uma verdadeira sugestão de espaços. Mas o que seria tal propósito? Quiçá o de apresentar aos nossos olhos que, para além do concreto embrutecido das cidades, outras dimensões espaciais se operam, podendo estas serem tanto físicas quanto abstratas. O resultado é todo um caminho feito de aspectos também simétricos e dotados de uma significativa sensação de profundidade de campo.

E eis que a natureza também é tida em boa conta no ofício de Luciana. Basta ver o modo como ela nos traz à baila folhas de árvores, que, conforme a própria artista confessa, também fazem parte de um processo de se perceber o que extrapola o meramente visível, entrevendo desenhos nos lapsos deixados por ramos e galhos.

A predileção pelos detalhes é, sem dúvida, um fio condutor da trajetória criativa de Luciana Bignardi. Basta lembrarmos da criança curiosa, mencionada no início do texto, e a deslocarmos para o momento atual. Os ímpetos fundamentais continuam os mesmos: tentar apreender nos interstícios da existência o idioma secreto que abriga simultaneamente pessoas, lugares, coisas e outros seres. Enquanto o olhar avulta o tempo, a sonoridade discreta da vida rege os instantes embalados pela indispensável descoberta do mundo.

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

 

* As fotografias de Luciana Bignardi integram a galeria e os textos da 94ª Leva

 

 

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93ª Leva - 07/2014 Destaques Olhares

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Lastros imaginativos

Por Fabrício Brandão

 

Neuza Ladeira
Pintura: Neuza Ladeira

 

Toda vez que nos deparamos com alguma espécie de observação, decidimos primeiro entre desvendar as formas aparentes do visto ou dissecar seus labirintos internos. De súbito, a alternativa inicial nos parece cômoda por sugerir algum deslocamento pelas fronteiras da superficialidade, quiçá um caminho apartado de considerações mais voltadas para uma lapidação. No outro polo, agarrar as entranhas da coisa apreciada pode demonstrar um interesse ancestral pela sondagem dos mistérios que nos acometem.

Mesmo para aqueles que optam pela primeira perspectiva de contemplação, a via interna e que pulsa densa jamais se qualifica como um bem alienável. Pelo contrário, estará ali a rondar os territórios de quem desbrava o mundo e seus correspondentes paralelos percebendo a matéria em estado bruto. Nesse sentido último, o componente diferencial que aponta para a consolidação dos caminhos vai encontrar abrigo ideal no aporte imaginativo de quem cria. E exemplificamos tal ponto de vista com o trabalho de pessoas como Neuza Ladeira, artista que funda o primado de suas acepções visuais no sedutor universo da liberdade conceitual.

Não são poucos os aspectos que podemos enfatizar como sendo cruciais na abordagem de Neuza. E talvez o maior deles seja baseado na capacidade que ela tem de exprimir a atmosfera emotiva que povoa intensamente seus traços de pintora. De posse dum olhar genuíno sobre o mundo, a artista se nega a uma representação orientada e previamente definida das coisas. Suas pinturas evocam uma visão sintética da natureza em seu estágio mais puro, cuja deformação da realidade sugere o modo como percebemos a tudo sem vãs interferências.

Fazendo uso intensivo das cores, Neuza não nos furta um ritual de exaltação à vitalidade e à espontaneidade do gesto. E é justamente isso que delineia a expressividade dos tipos humanos que compõem suas telas. Nesse ínterim, a artista concebe um dinamismo que flui desde a matriz intrínseca e pessoal até o diálogo mais próximo aos fenômenos mundanos.

 

Neuza Ladeira
Pintura: Neuza Ladeira

 

Num ponto de transição entre referências fauvistas e derivadas da arte bruta, Neuza Ladeira sedimenta três estruturas fundamentais à sua obra: as séries Personas, Natureza e Abstratus. Em todas elas, estão os componentes imprescindíveis para a compreensão dos universos de elaboração da artista. Sem se prender a determinantes canônicos, a criadora confere um especial poder aos componentes intuitivos que permeiam o seu olhar sobre a existência.

Nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais, Neuza também se move pelos territórios da poesia, tendo participado de recitais e publicado os livros “Opúsculos” (Anome Livros), “Quarto de Dormir Quarto de Pensar” (Editora Urbana), “Poética Caderno 1” (Editora Catitu). Em sua trajetória, lutou ferrenhamente em prol da democracia no período da ditadura militar brasileira, tendo sido prisioneira política nos anos de 1970 a 1972.

Quando a arte nos incita a penetrar seus domínios, temos razões de sobra para não declinarmos ao chamado. Certamente, uma delas é a larga possibilidade que possuímos de ver o mundo com os múltiplos matizes da imaginação. No caminho, cruzando com as epifanias de alguém como Neuza Ladeira, nos é dado entender também que carregamos em nosso íntimo valiosas ferramentas de apreensão do concreto e abstrato. Cabe-nos apenas eleger o modo como faremos a travessia.

 

Neuza Ladeira
Pintura: Neuza Ladeira

 

As telas de Neuza Ladeira são parte integrante da galeria e dos textos da 93ª Leva