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87ª Leva - 01/2014 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TONO – AQUÁRIO

 

A possibilidade de ressignificar estados da alma é uma das grandes benesses proporcionadas pela música. No caso da banda carioca Tono, isso parece ganhar um sentido ainda mais amplo. Basta observar a trajetória do grupo para perceber que os caminhos sempre estiveram voltados ao modo sublime de olhar e sentir as coisas da vida. Em Aquário, mais novo trabalho da banda, prova-se não somente do sabor dos temperos do tempo, que só fez bem aos músicos, mas principalmente da afirmação de um jeito muito particular e consistente de se fazer música.

A moçada da Tono chega a seu terceiro rebento sendo fiel a tudo o que fez até aqui.  Ressalte-se, sobretudo, a força autoral de letras e músicas, traço marcante deles. E tudo ali se harmoniza favoravelmente ao conjunto da obra. O que se vê nas onze faixas do disco é uma verdadeira profusão de melodias, arranjos cuidadosamente pensados e um preciso equilíbrio entre vocais e instrumentos. O saldo disso é que cada canção, além de possuir roupagem própria, funda em si um microuniverso de sensações. São mundos num mundo, fazendo do disco um organismo único, porém com onze momentos autônomos.

O jeito suave e delicado da voz de Ana Cláudia Lomelino é uma verdadeira marca da banda. E ela não está sozinha nesse quesito, pois a presença vocal do baterista Rafael Rocha, compositor de boa parte das canções, é outro ponto de destaque. Diga-se de passagem, os dois artistas já são fiéis representantes da proposta sensível e poética da trupe carioca. Só para se ter uma ideia da sintonia musical dessa dupla, prestemos atenção no modo como eles passeiam sublimes pelas vias delicadas da bela Sonho com Som, canção que discorre tanto sobre levezas quanto densidades do amor.

Pelos quatro cantos do disco, fala-se de amor e outros tantos temas que absorvem a natureza humana sem, no entanto, pesar a mão nas questões da alma, o que fatalmente poderia tornar mais labiríntica a tarefa da banda, com sérios riscos de algo essencial se perder no caminho. Para a felicidade de quem aprecia a boa música, os rumos aqui não se desorientam. Ao contrário, observa-se a vida sem deixar que a consciência das coisas se atole num fundo de poço qualquer.

Tono / Foto: divulgação

Por ser um álbum completo em todos os seus arredores, é bem ingrata a ideia de eleger faixas que se destacam em Aquário. Instantes como os de Murmúrios, Como vês, Leve e Do Futuro (Dom) dão uma boa mostra da viagem musical vislumbrada pelo grupo. Diluído pelo jogo sonoro das palavras em Tu Cá, Tu Lá, emerge um caminho feito de ímpetos filosóficos. Merece também atenção a roupagem especial dada à canção Chora Coração, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Aqui, a banda trouxe sua identidade para interpretar e viver a música do maestro soberano. Nesse sentido, a composição ganhou novo ambiente, mantendo a carga lírica que lhe é peculiar.

A flauta de Danilo Caymmi (Sonho com Som e Como Vês), a percussão de Gustavo Di Dalva (Leve e Do Futuro) e a voz e violão de Gilberto Gil (Da Bahia) acrescentam um ingrediente a mais no consistente caldo sonoro de Aquário. Marcado por elementos do rock, jazz, samba e música eletrônica, o álbum conta com a produção do experiente Arto Lindsay.

Pensar o disco é imaginar uma morada onde coabitam versos, sons e imagens dotados de uma estética pura e que prima por um sentido descomplicado para celebrar a existência.  Assim, pegando o gancho da canção A Cada Segundo, tudo pode se condensar num único e fugidio instante, inclusive nossa mais tímida percepção da beleza. Ana Cláudia, Rafael Rocha, Bruno Di Lullo, Bem Gil e Eduardo Manso são valiosos mensageiros dessa ainda espantosa constatação.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Caio Carmacho

 

Ilustração: Vera Lluch

 

livre-me III (ensaio & conclusão)

 

livre-me como um pedido do livro-objeto
um mendigo que dá moedas no semáforo
um slogan de modess

livre-me como passe de mágica
oferenda de réveillon
abolição da autorreferência

livre-me: um mantra
uma proposta
um estratagema

livre-me dos rótulos
dos complexos
olheiras
correntes

literárias ou não

livre-me dessa cruz pesada
leve-me para casa
lave-me com buchinha

and love me
como se não houvesse amanhã

 

 

***

 

 

porção para dois

 

amar
é substância estranha
insuficiente quando não boba
desnorteada

porque
antes de tudo
é palavra avulsa
solta no boçal
da boca louca

vai se metendo em tudo quanto
é brecha – clara e escura

por presságio,
quando damos conta do estrago,
já era

virou coração viajado

e uma romântica porçãozinha
de frango a passarinho

 

 

***

 

 

ESTE LADO PARA CIMA

 

não se deixe enganar caro leitor,

para ler este poema é necessário
CUIDADO
muito cuidado

sua arquitetura branca e
FRÁGIL
pode não impressionar no princípio

afinal, para compreendê-lo a fundo é preciso
familiaridade e um manual prático
para interpretação de tipos

porque nem toda surpresa vem embrulhada
em papel de presente

nem toda surpresa
inclui pilhas

nem toda surpresa
chega lacrada com um
cartão: de: para:

que nem todo entregador não
consiga violá-la

porque o poema, caro leitor,
é um eterno convite

conteúdo que cabe
numa embalagem que se abre

 

 

***

 

 

informe publicitário

 

é necessário dizer
em caráter de urgência
que a vida não é só alarde

que a coisa mais sensacional do universo
está em falta no mercado

que o horário de funcionamento
varia de acordo com o feriado

que o preço da prateleira
não corresponde com o do caixa

que ser eleito o bebê hipoglós amêndoas
é uma vergonha desnecessária

que a promoção relâmpago
do amor-próprio
encerrou semana passada

 

 

Caio Carmacho  nasceu em São Paulo, cresceu em Paraty e mora, atualmente, em Piracicaba. Publicou Livre-me (2013, Editora Patuá). Escreve no blog Noutratez, organiza todo ano o sarau poético Picareta Cultural e é um dos curadores da OFF FLIP de Paraty.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Jorge Mendes

 

Ilustração: Vera Lluch

 

balada da vida ordinária

 

na vida ordinária você varre a sujeira pra debaixo do tapete, faz clareamento dentário e fica limpo e asséptico como os cadáveres da hora sublime. na vida ordinária você usa óculos escuros renascentista, um coração de grife e lê livros que fazem você ser um filhodaputa cada dia melhor. na vida ordinária você sente piedade e compaixão, entra em transe quando vai às compras e é dotado de poderes mágicos tecnológicos. na vida ordinária você compra/vende/aluga/negocia corpos, mentes, cargos públicos, ignomínias. na vida ordinária você se exercita na arte da dissimulação, cita os clássicos e vai virando alma penada. na vida ordinária os amigos que você nunca teve, as mulheres que nunca o amaram, estão todos mortos bebendo chopes na orla da praia. na vida ordinária você consome frutas químicas, amores desidratados, imagens de santos e mártires. na vida ordinária você não sente medo nem torpor, só psicose e rancores frígidos. na vida ordinária tudo tem preço, peso e sabor e é tão artificial com corantes que dá vontade de morder. na vida ordinária você higieniza o desejo, acumula gorduras, segue o comando da voz. na vida ordinária existem dívidas, apólices, banco de dados e catálogos que explicam. na vida ordinária você trapaceia, ilude, ludibria e finge como todos fingem. na vida ordinária você é célula, parafuso, número, uma coisa entre coisas. na vida ordinária todos os sonhos estão em liquidação e você ainda pode pagar no cartão daqui a 30 dias. na vida ordinária você gasta o seu salário em culpas e acessórios, constitui família, constrói muros, patrimônios e agoniza místico e feliz todas as horas do fim.

 

***

 

ânima

 

crie asas, encantamentos, quebre o cimento, beba do meu conhaque. faça adormecer os móveis, leve minha tristeza pra passear. saia do frio com os cabelos molhados, caia morta. quero morder palavras de sal e fundo do mar. apague meu rosto e me deixa fugir pelas galerias. invente um cálculo para o que sofro, corte meus pulsos, morda meu pescoço, lamba meu desejo, perfume meu medo, invente um corpo para o que escrevo, me faça respirar.

 

***

 

manual da trapaça

o truque é ter medo até derreter os ossos. o truque é virar estátua de sal e correr com os cães. o truque é ser de gelo e não evaporar. depois é o lodo corrosivo, o torpor na curva escura, a lógica dos falsários. depois é a solidão comendo pelas bordas, os narcisos do paraíso digital escrevendo líricas sintéticas. depois são só os ratos pedindo perdão. o segredo então é ser ulisses na caverna com os ciclopes e não ser ninguém. o segredo é entrar no invisível com sangue escorrendo pelo nariz. o segredo é viver no agora descartável, indolor, sóbrio como os mortos. o segredo é investir na prótese dentária, no artifício lúdico, no verniz da auto-promoção. depois é o vôo raso sobre os escombros, teatro infanto-juvenil, kardecismo e psicose. depois são os alcoviteiros do bairro, o churrasco, a porção de fritas, o chopps. depois é o tráfico, a corrida de obstáculos e o grande espetáculo diário dos horrores.

 

***

 

hell paraíso

agora assinamos leis que matam crianças, tatuamos o nome do medo e da cobiça em nossas carnes, perdoamos o inimigo e amamos nossas bichinhos de estimação. cientistas políticos, agências publicitárias e poetas irascíveis negociam o céu azul enquanto queimamos índios e fugimos em nossos velozes carros envenenados. agora cultivamos flores cheias de rancor em nossos jardins dos horrores. milhares de nós sentem piedade e psicose, assistem a morte colorida nas tvs e mentem e riem e batem palmas e emitem sons semelhantes aos focas e as hienas. agora os falsários e os corruptos se multiplicam nos corredores das repartições públicas, vampiros almoçam em fast-foods como príncipes das trevas que são. agora o gelo nos dentes, a primavera devastada, os amores minúsculos e o hálito podre das vaidades dos mesquinhos dos bairros. agora é o futuro em ruínas, a ilha dos tubarões, o paraíso dos assassinos.

 

***

 

esfinge

o que você fez? mexeu nos meus papéis? vasculhou meu lixo? fez despacho pra iansã? o que você fez? coou meu café na calcinha, colocou veneno de escorpião na minha bebida, deu um nó nas minhas meias, quebrou meu espelho, escreveu meu nome na pedra de gelo, o que você fez? espetou um alfinete no meu peito? sussurrou em meu ouvido enquanto eu dormia? o que você fez? deu prus meus amigos? emborcou meus sapatos? queimou minhas cartas, meus planos de vôo? roeu minhas unhas, meus ossos, todos meus sonhos? o que você fez? deixou meu nome na encruzilhada? chamou a polícia? jogou minhas cinzas prus ratos? envenenou minha comida? o que você fez? colocou minhas coisas numa mala e jogou no mar? riscou um x vermelho na minha cara no porta-retrato? o que você fez? mastigou minha sombra com os seus caninos? mergulhou meus cabelos no inferno? tocou com a ponta dos dedos em minha testa e enlouqueci? o que você fez?

 

Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Beatriz Bajo

 

Ilustração: Vera Lluch

 

INFINITIVOS

 

e se meu coração estiver na boca?

um beijo para assaltar o tempo perdido
na esquina canalha da navalha
desafiada
da rua sem saída

acordar a flor intacta e sonolenta
simulacro encantado no caule tortuoso
da árvore primitiva no sertão
úmido dos meus lábios sábios

a cor da arma de voo da libélula incrédula
é irresistivelmente a brancura infinita
das rendas tramadas nas fibras líquidas
âmagos imantados pelas intimidades luminares

 

 

***

 

 

TÊMPERA

 

ela roga entre escândalos dos sândalos
que exalam de seu rosário
raízes misericordiosas que se enovelem
por todos os segredos
tato intacto alma nua concreta pra ele
a cintilância que se curva ante o amante
todo despertar é fiança enfiando-se
na agulha do tempo desfeito de amor
aço da têmpera costurada
de esperas

 

 

***

 

 

LUX

 

um homem constrói sua mulher
pela beira de si, pilares
altares de singelezas
arquitetados de aleluias

por milênios dentro
dos momentos
acende colunas e
tonifica músculos
no peito aberto
para o sempre

inventa hélices
alianças
amálgamas

assim
eternamente
apalavrados
– no franco
caminho
de seus corpos –
despertam a linguagem
intraverbal
que os ultrapassa:

“nós
nos
vivemos”

 

Beatriz Bajo (São Paulo/SP, 1980). Poeta, diretora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são domingos em nós (PR), publicado em 2012 pela Rubra Cartoneira Editorial, a face do fogo (SP) e : a palavra é (PR), os dois de 2010. Mantém o blogue Linda Graal e o Esquina Literária, de ensaios, resenhas e divulgações.

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carina Castro

 

Ilustração: Vera Lluch

 

Cartográfica

 

de distâncias traçadas entre sonhos
passos e pousos
redimensiono o interior do meu interior
e a brevidade entre pensamento e pensamento
não acompanha o vagar do corpo
entregue ao manejo da maré
nem o vagar da garrafa ondulando sobre os dias
entre soluços de bêbado e pranto
encontraste a carta, mas não entendeste a letra
e não há legendas, coordenadas, vozes,
mapas para minha memória
dói fundo a longitude de meus garranchos
perdidos no efêmero de um idioma
ilegível entre latentes caligrafias, alfabetos
e não vês no céu
a constelação com meu nome
não podes ler minhas mãos
e latejando minhas letras dizem
teu futuro, te dão leme
leem tuas digitais
no leme, no copo, na garrafa
só não traduz a lancinante latitude
do teu entendimento

envias de volta um papel em branco

 

 

***

 

 

Esfinge

“es el espejo que devora espejos”
(Octavio Paz)

 

esfrego entre minhas mãos a memória,
e ela não se esfarela

avisto o abismo, mas ele não cabe em meus olhos

minúscula perante a esfinge, circundo-a
e me perscruta a sensação de que desmoronará
sobre mim a qualquer momento

erige-se um rosto em meu destino,
um rosto ancestral e desconhecido
tateio de cisma embotada

afunda-se um corpo estranho
em meu pensamento

entra-me pelos olhos signos minerais,
ciscos na alma

por que o vento não te leva?
que raízes invisíveis te prendem ao tempo?

move-se a paisagem frente seus olhos fixos
mas é sempre a mesma a paragem
de onde repousa, reina e observa
não sei o quê

uma boca alada se aproxima

minha boca está muito seca
me dissolvo em sua saliva

 

 

***

 

Miragem

 

podem-se alongar as retinas ao infinito
e ver a estrela que brilha no peito de deus que nem existe há tantos anos luz
ver a poeira cósmica se levantar sob os pés rachados na fenda de uma ilusão
arder nas têmporas o desejo que a vida seja leve e se satisfazer com o silêncio

não notar o peso da bagagem, ter as mãos livres, ter os sonhos pássaros
ter os pés náufragos num mar de bálsamo, afogar as mágoas num mar de rosas, beber a                                                                                                                                                                                                        [sede

cair como pluma, ancorar o corpo às nuvens, e no impacto com a terra abarcar o universo

ir além
ver poesia

 

 

***

 

 

Caravana

 

homens e mulheres
passaram pelo buraco da agulha

e a caravana percorreu os tempos
os solos
as línguas
os olhos

no infrutífero de sombras, quedamos plantados
esperando a queda dos frutos
o repouso dos corpos

esquecemos os pés

pelo túnel  da garganta
perpassavam vozes velhas
memórias amornadas

arrefece-nos as pálpebras

os retalhos estão impecavelmente membrados
e as mãos já esperam por afagos e fuga do trabalho

mas de longe se vê que não se trata de apenas
um tecido

[o sol levou o calor consigo, e a noite
nos impõe cobertos]

e que importa se somos indistintos?
na beleza nos atemos

 

 

Carina Castro (SP, 1988) é poeta e pesquisadora na área de Literatura Comparada. Escreve também Literatura Infantojuvenil, com um conto que recebeu o Prémio Lusofonia de Portugal (2012). Estudante de Língua e Literatura Árabe na USP. Assina a coluna Infante Ingente na Revista Ellenismos. Reminiscências do mar a embalam a estar perto da poesia, do canto, do sopro, orientar-se pelo que diz o desconhecido. Estes poemas integram Caravana (Editora Patuá, 2013), seu livro de estreia. Coleciona e escreve algumas coisas em Tudo é Coisa .

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O caminho musical é como um grande deserto a se cruzar. E encontrar algum oásis parece ser algo cada vez mais raro nos dias de hoje. Em meio aos desafios trazidos pela modernidade, construir uma carreira tornou-se também uma verdadeira luta contra a uniformização, seja ela de comportamento ou simplesmente situada no campo das ideias. Para que uma obra tome algum sentido de permanência entre os mortais, há que se reconhecer a sua capacidade de não ser mais um agente pulverizador na multidão de caras e bocas.

Talvez os novos tempos tenham causado uma sensação de um “salve-se quem puder”, sobretudo para os artistas que ainda almejam um certo lugar ao sol. Diante de cenários múltiplos de expressão, e levando em conta a velha e desgastada discussão sobre juízos de valor, viver da música no Brasil se assemelha a uma missão tortuosa, repleta de incertezas e algumas imposições de desvios. São poucos os que resistem a tais provas de fogo e, ainda assim, conseguem manter sua fibra inicial. Com o tempo, a perspectiva da originalidade acaba sendo um fardo para muitos. Para outros tantos, como é o caso da cantora mineira Selmma Carvalho, ser genuíno é fonte incondicional de seguir adiante.

Com uma carreira que soma quatro discos na bagagem, Selmma se mantém firme no propósito de fazer do seu canto um instrumento de contemplação da vida. Ao longo dos anos, vem conferindo à sua trajetória uma fidelidade significativa, cuja importância maior está no prazer em incorporar a música em plenitude. Como se não bastasse a sua tradicional entrega como intérprete, vivenciando canções de figuras importantes do cenário nacional, a artista revela agora a sua face de compositora. Em seu disco mais recente, “Minha Festa”, a maturidade musical da artista é algo que preenche bem os cenários. E o que vemos agora é uma Selmma bem à vontade com tudo o que o tempo foi capaz de lhe proporcionar. O resultado não poderia ser outro: a afirmação de um sentimento de devoção à arte. Na conversa que agora segue, a cantora fala da construção de seu caminho, especialmente da atitude que a faz trilhar as alamedas dessa majestosa e enigmática senhora chamada música.

 

Selmma Carvalho / Foto: Miguel Aun

 

DA – “Minha Festa” é um disco orgânico, algo que compõe uma unidade viva de sentimentos que se harmonizam em torno de imagens fortes e quiçá íntimas. Há ali uma sensação de leveza a dominar os ambientes todos. A ideia de uma celebração de vida está no centro desse seu novo rebento?

SELMMA CARVALHO – Sim, celebrar sempre, as conquistas, sonhos, desejos íntimos realizados. “Minha festa” foi uma celebração, uma vitória, em todos os sentidos. Me senti amparada por amigos imprescindíveis e construímos juntos essa festa! A cada dia de gravação, sempre uma surpresa, uma ideia bem-vinda, um carinho, um beijo, um abraço, e o mais importante, a sintonia incrível que  tomou conta de todos os envolvidos.

 

DA – Há um sentido de brasilidade muito especial no disco. Prova disso é o modo como os arranjos das canções se delineiam no conjunto, com destaque para os elementos vocais e instrumentais. Como se deu o processo de concepção do álbum?

SELMMA CARVALHO – Mesmo sem ter fechado o repertório, que foi definido ao longo do processo de gravação, eu e o produtor/arranjador Rogério Delayon conversamos muito sobre sonoridades, timbres, músicos que participariam, vocais, participações especiais. Construímos aos poucos, experimentando instrumentos e ouvindo os resultados. Com certeza, a etapa mais demorada de todo o processo.

DA – Diferente dos seus discos anteriores, seu novo trabalho traz algo em especial: a Selmma Carvalho compositora. Essa sua nova feição é algo que já estava sendo maturado? Que desafios ela encerra?

SELMMA CARVALHO – Com certeza, essa é a grande novidade. Desde que lancei meu primeiro cd, venho escrevendo, compondo, mas ainda não me sentia à vontade para divulgar as canções. Cheguei a tocar uma delas em show,  mas nunca quis gravá-la. Sou muito crítica e exigente comigo,  achava prematura essa investida. Mesmo assim, continuei a compor, foi sagrado reservar um tempo do meu dia para isso. Muitas vezes não saía nada; noutras, sentia mais confiança. A perseverança e a minha insistência foram fortes e fundamentais pra quebrar essa insegurança. Enfim, criei coragem, mostrei as canções,   vieram parceiros, incentivos e taí o resultado, quatro canções inéditas com bons retornos.

 

DA – Num futuro próximo, qual seria a real dimensão de você vislumbrar um caminho inteiramente autoral?

SELMMA CARVALHO – Já abri o caminho, creio que vai acontecer se tiver que acontecer. Até porque gosto muito de interpretar novas canções de compositores que admiro, dar novas cores ao nosso cancioneiro popular tão rico. Isso tudo me dá muito prazer. No “Minha Festa”, foram quatro canções. Quem sabe no cd que está por vir aumento esse número para 6 ou 7? O futuro dirá! E que venham mais parceiros!

DA – Os novos tempos forçaram a indústria fonográfica a reajustar seu comportamento. Nesse ínterim, até mesmo artistas consagrados também tiveram que se adequar a certos imperativos do momento. Fazer shows parece ter se tornado mais importante do que apenas vender discos, sobretudo na era dos downloads. Diante desse cenário, como fica o caminho dos artistas independentes?

SELMMA CARVALHO – O mercado musical é particularmente complexo. O artista independente enfrenta dificuldades na gestão, organização, estruturação de projetos e de carreira. Não é nada fácil projetar com credibilidade a identidade e o trabalho, quer junto à mídia, quer junto aos amantes da música e ouvintes.
Ter  consciência dessas dificuldades é importante para não gerar frustrações. Apesar de tudo, é importante insistir. Se o trabalho for bom, dia menos dia ele vai acontecer. Temos muitas ferramentas de trabalho, muitos canais interessantes na Internet, muitas opções. Mas é preciso estar sempre ligado e não desistir.

 

Selmma Carvalho / Foto:Miguel Aun

 

DA – É curioso imaginar que vivemos num país que convive com tamanha diversidade cultural mas não sabe conciliar os contrastes. Na música, isso é bastante revelador. Ao passo que nos orgulhamos pelo grosso caldo que produzimos, temos uma enorme dificuldade em afugentar os preconceitos. O que pensa a respeito disso?

SELMMA CARVALHO – O preconceito é gerado por um problema cultural que engloba, além da música, outros aspectos do Brasil. Num país em que a educação não é tratada como prioridade, o que dirá a cultura?!

 

DA – Além da educação básica, outros caminhos podem surgir quando pensamos nas vias culturais, no quanto um ambiente favorável à democratização do acesso pode fazer a diferença. Guarda em sua lembrança algum projeto em especial que você testemunhou como sendo uma valiosa aposta de mudança de rumos? 

SELMMA CARVALHO – Me lembro sim. O grupo Tambolelê, de Belo Horizonte, criou uma oficina de percussão para crianças carentes usando vários instrumentos. Essa oficina teve sede própria e, além de acontecer em BH, foi levada para cidades mineiras também. Era lindo ver a alegria, o entusiasmo da garotada nas apresentações! Sei que existem muitos outros e torço para que eles se multipliquem, pois faz um bem danado para quem faz e para quem recebe.

DA – Não lhe parece que o mercado da música tem se preocupado muito mais com a imagem do que propriamente o conteúdo? Algum dia, o tempo saberá dividir bem tais porções?

SELMMA CARVALHO – A imagem é importante sim, claro! O conteúdo e boa imagem juntos é bacana demais, é cuidado. O que desanima são imagens apelativas, que infelizmente são muitas. E o pior: vendem!

 

DA – Uma obra é marcada notadamente pelos desafios dos intervalos. Dentro do contexto musical, sempre se espera algo quando um disco novo surge. No seu caso, e falando das expectativas geradas ao longo de toda sua carreira, como foi lidar com tais entreatos?

SELMMA CARVALHO – Quantos desafios! O espaço entre o terceiro e o quarto cd foi muito inquietante para mim. Projetos de leis de incentivo eram aprovados, mas não captados. Aconteceu comigo e com vários companheiros músicos. Foi geral. Essa fase causa muita ansiedade e até descrenças. O artista é muito sensível, ainda bem, e de alguma maneira transformamos todos esses sentimentos que nos atordoam em música, em novas composições, em ideias. Assim se deu comigo. Sempre acontece uma reviravolta quando o querer é forte. Uma força tamanha toma conta, o desejo enorme de concretizar, de fazer acontecer. E para acontecer, o foco e o trabalho são fundamentais. Está aí o novo cd,  feito com muito suor, muito trabalho, amor, união e que me encheu de alegria. O que vai acontecer com ele? Não sei. O mais importante agora é manter o foco para divulgá-lo, mesmo com todas as dificuldades que conheço bem, mas sigo em movimento.

DA – Sem dúvida alguma, sua voz é seu bem mais precioso.  A intérprete Selmma agora consolida seu trajeto não apenas com o verbo de outros compositores, mas também com o seu próprio. Saberia dizer o que a música espera de você?

SELMMA CARVALHO – Eu espero aprimorar esse meu outro lado, o lado mais criativo que é o da composição. Quero dizer mais e ouvir a música me dizer mais ainda.


 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Ana Elisa Ribeiro

 

Ilustração: Vera Lluch

 

 

Peças em pau-marfim

 

A linha dos olhos
faz flechas
da cor de futuros

As mãos formam conchas
de pegar contentamentos

Os pés são grandes
como as telas
holandesas realistas

O corpo inteiro
é um tabuleiro
de jogar jogos de azar

As costas quadriculadas
As coxas quadriculadas
A boca quadriculada

Onde eu me finjo
de dama

 

 

***

 

 

Raso

 

Não me movo
neste espaço
por acaso.

Entre um lado e outro
destes braços
tem um raso.

Ímã, fivela, argola,
nada disso
cola.

 

 

***

 
Desvão

 

desvão esconso
tonto

cérebro torto
corpo oco

seu rosto flagrado
no topo
no cume mais morto

do meu próprio
torso
em fogo

 

 

***

 

 

Crise

 

É sempre por dois trizes
Que desistimos dos passos
Dos dias, das tentativas

Sempre por um triz de perder
E outro de ganhar
e não saber manter

 

 

***

 

 

Foram pingando umas estrelas no céu preto
Pintando umas nuvens no céu breu
Uns desassossegos, entreveros
Você, o abismo e eu

 

 

Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte e faz 39 anos em 2014. Publicou Poesinha (Poesia Orbital, 1997), Perversa (Ciência do Acidente, 2002), Fresta por onde olhar (InterDitado, 2008) e Anzol de pescar infernos (Patuá, 2013), todos livros de poesia. Tem poemas em diversas antologias, no Brasil, em Portugal e no México. Na crônica, publicou Chicletes, Lambidinha & outras crônicas e Meus segredos com Capitu, pela editora Jovens Escribas. É professora do CEFET-MG.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Olhares

Olhares

A virtude das tensões

Por Fabrício Brandão

Ilustração: Vera Lluch

Levar a cabo as inquietudes do mundo. Ainda assim, perceber que a existência não é uma só e que outros cenários convivem paralelos bem diante dos olhos. Quiçá invisíveis, tais lugares serpenteiam sob certezas e outras tantas ilusões cotidianas. Não há nada melhor do que rasgar o manual da objetividade que tanto vicia nossos dias aqui no planeta azul. Ou seria melhor planeta água, no qual as esperanças se liquefazem tanto na dor quanto no prazer?

Em meio a tudo, é sempre bom poder falar na epifania de um artista. De como esse ser incomodado projeta esferas do pensamento, o tal subproduto da alma. No caso específico de Vera Lluch, é bom ter em conta que o caminho trilhado através da arte reflete não apenas um motivo crucial de expressão da vontade e do olhar, mas principalmente uma forma de entender a vida como sendo um corpo orgânico, amalgamado por sentimentos que habitam na morada secular dos contrastes humanos.

De modo hábil, Vera sabe conjugar o verbo de nossas interrogações diante do pathos mundano. De suas ilustrações, explodem certeiros alguns arremates da consciência. Da avalanche fragmentada que atravessa o relógio do tempo, a artista reúne os cacos de um mundo ainda pouco sabedor de suas reais contradições, tomado que está pelo desfoque das ideias.  O resultado disso fica por conta de um delicado jogo de embates entre matéria e espírito, parceiros inalienáveis do ponto de vista da natureza das coisas, mas que, simultaneamente, se atraem e se repelem no fosso monumental da pós-modernidade.

Ilustração: Vera Lluch

Os recortes humanos presentes na obra de Vera Lluch demonstram que a gênese de nossos estados do ser são a consequência mais pura das escolhas intuitivas. Desse modo, o curso interno das coisas, com toda sua necessária carga de abstração, molda o leito do rio da sensibilidade, sem negar fogo ao terreno da provocação e do espanto diante de tudo o que presenciamos no continuum do tempo.

Nascida no Peru, a artista cresceu dividida entre o Brasil e o Chile. Atualmente, vive e trabalha em Burlington, no Canadá. Diante de todo esse seu deslocamento territorial, ela encontrou na arte um motivo valioso para fundar seu próprio universo, transcendendo a mera noção de pertencimento geográfico.

Na mescla de desenhos, pinturas e colagens, Vera repensa o ato de existir. O efeito maior de seu trabalho talvez seja o de experimentar caminhos e deslocá-los a um ponto mais próximo do cume de nossas hesitações. Mesmo nos pontos de tensão, as ilustrações sugerem uma convivência com a porção lúdica das coisas. Revestidos de um olhar lúcido, os personagens da artista mergulham fundo no lago límpido, sedutor, porém imperfeito, da vida.

 

 

Ilustração: Vera Lluch

 

* As ilustrações de Vera Lluch são parte integrante galeria e dos textos da 87ª Leva.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Ela (Her). EUA. 2013.

 

“O passado é só uma história que nos contamos”.

 

No poema Não Deixe, o escritor Charles Bukowski adverte:

‘Não deixe as pessoas serem
seu alicerce.
(…)
Elas são uma aposta ruim,
a pior aposta que você pode fazer.
(…)
Qualquer coisa
comparada às pessoas,
é um alicerce melhor a se procurar.
Qualquer coisa’.

Influenciado ou não pelo conselho do velho safado, o homem tem procurado na tecnologia seu firmamento. São jogos, gadgets, aplicativos. Redes sociais que, ao clonar nossa melhor versão, expõem nossas maiores fragilidades. É da mente fecunda do cineasta Spike Jonze – responsável por obras como Quero Ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002) – que surge um dos mais instigantes filmes sobre a era digital. Com estreia prevista nas salas brasileiras no próximo dia 14 de fevereiro, Ela analisa de maneira bastante peculiar a mecânica das relações humanas estabelecidas a partir dos avanços tecnológicos.

Em uma futurista Los Angeles retrô, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) é um introspectivo escritor que trabalha na agência “cartasescritasamao.com”, redigindo correspondências de pessoas com dificuldade em expressar seus sentimentos. Separado da esposa Catherine (Rooney Mara) há quase um ano, ele ainda se culpa pelo que possa ter minado a relação com seu amor de adolescência. Certo dia, movido por curiosidade e carência, Theodore adquire um revolucionário sistema operacional com inteligência artificial, cuja tecnologia permite que o software evolua e se adapte conforme sua interação com seres humanos. O OS1 apresenta-se como “uma consciência que promete ouvir, entender e conhecer” seu operador.

E assim nasce sua relação com Samantha (Scarlett Johansson), uma entidade intuitiva de voz suave, espirituosa e inteligente (quem mais conseguiria ler um livro ou compor uma canção em frações de segundos?) que se encanta com o mundo e faz com que o autor recupere seu entusiasmo pela vida. Tal encantamento transforma-se no mais legítimo afeto. Porém, estabelecer uma relação amorosa com “alguém” tecnicamente perfeito e ao mesmo tempo limitado pela ausência de um corpo físico, é de fato criar um vínculo real?

 

Theodore (Joaquin Phoenix) em seu contato inicial com o OS1

 

A delicadeza com que o diretor trata o assunto e a sintonia entre “o casal” é tão grande que em nenhum momento Theodore soa bizarro por apaixonar-se por uma máquina. Ao contrário, a impressão é que qualquer um poderia ser cativado pela voz (e é somente este seu recurso cênico) de Scarlett Johansson. Aliás, como diria a vizinha Amy (Amy Adams) em determinado ponto: “qualquer pessoa que se apaixone é uma aberração”. Escrito e dirigido por Spike Jonze e vencedor do Globo de Ouro como Melhor Roteiro, Ela concorre ao Oscar 2014 em cinco categorias: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora (executada pela banda canadense Arcade Fire), Canção Original (The Moon Song, composta por Karen O, do Yeah Yeah Yeahs e interpretada pela própria Scarlett, acompanhada por Joaquin no ukulele) e Direção de Arte.

Apesar da atmosfera científico-ficcional e da crítica ao cativeiro tecnológico do qual o homem se faz refém, Ela foge do lugar-comum para contar uma história genuinamente de amor. O filme apresenta um romance em seu estado mais puro e com toda a complexidade que o sentimento compreende. Sensível até em sua paleta de cores, o longa alia de forma genial passado e futuro, confrontando uma das mais primitivas formas de comunicação – a carta – com o que há de mais avançado em um computador. Certamente Samantha seria a destinatária da mais bela carta de amor já publicada por Theodore. E quanto ao poema de Bukowski, um adendo: Não deixe… de assistir esta pequena obra-prima do século XXI.

 

 

 

 

Larissa Mendes também quer um OS1 para chamá-lo de Him.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

 Mariel Reis

 

Ilustração: Vera Lluch

 

O Peixe


Ele tinha transtornos. Os transtornos impediam que se relacionasse com mulheres. As mulheres evitavam-no a todo custo.

O custo era alto. Alto porque contratávamos prostitutas. As prostitutas tinham que ser louras. Louras e peitudas. Louras, peitudas e altas. Altas, altas, depois de tanta bebida. Bêbadas, elas começavam a olhar para o meu amigo. Ele tinha transtornos. As prostitutas eram fadas.

Ele não notava o desprezo, o nojo, o desconforto. As prostitutas depois de rodadas de bebida esqueciam por um tempo o desprezo, o nojo e o desconforto. Permitiam-lhe tocar nos seus seios.

Ele tocava, agarrava e mordia as prostitutas. Prostitutas lindas, louras, altas. O atlas do mundo dele. Torto, na cadeira de rodas.

O dinheiro comprava toda aquela felicidade. As prostitutas passeavam em sua cadeira de rodas elétrica, dançavam com ele, colavam os ouvidos à sua boca para escutarem a sua voz fraca.

Tudo custava dinheiro, muito dinheiro.

Eu bebia uísque nacional. Uísque falsificado. Ele, lá, na pista de dança, com as prostitutas altas, louras e peitudas. O meu dinheiro escasseava. Toda vez ele me pedia as prostitutas louras, altas e peitudas. Agora queria prostitutas louras, altas, peitudas e de olhos azuis.

Chamei as mesmas da festa anterior. Comprei lentes de contato para todas. Todas tinham agora olhos azuis.

O médico dele deu-lhe mais três meses. Ele repetia O PAI , O FILHO E O ESPIRITO SANTO. Repetia. Repetia. Três meses. Ele se apaixonou pela prostituta alta, peituda, loura e de olhos azuis. Queria casar com ela. Casou bêbada. Era um casamento de mentirinha. Dormiu com ele a primeira noite. Cobrou alto. O meu dinheiro acabando. Fiz um pacote de uma semana.

Ele não queria mais as festas com tantas louras, peitudas, altas e de olhos azuis. Só queria ela. Eu bebia litros de uísque, trabalhava pelo computador, saía pouco de casa. Descansava na piscina. Ele ria. Os cabelos afagados por aquele sonho comprado caro.

Começou a me pedir coisas impossíveis. Viagens a lugares distantes, sagrados ou não. Ele me pediu para morrer em um submarino. Havia aquele parado no velho cais do centro que servia para a visita de estudantes. Ele não sabia quando morreria. Morrer fora de um submarino estava fora de cogitação.

A prostituta–esposa me pedia mais dinheiro, mais bebida. Eu me enojava de tudo aquilo: Por que ele não poderia levar uma vida normal? Por quê? Os médicos não se mostravam satisfeitos. Suspendi os remédios. Quer dizer, ele suspendeu.

Morávamos no velho submarino do cais da cidade. Todo vivente que o visitasse nos encontraria por lá.

As garrafas de uísque vazias boiavam ao redor do casco do submarino, repletas de cartas.

Um dia, acordei tarde, de ressaca. Ele estava vendo o nascer do sol. Levantou-se com esforço da cadeira, a prostituta-esposa molhava os pés delicadamente n’água. Escorregou até o mar. Nadou de costas uns duzentos metros.

Afundou.

Reapareceu, mais à frente.

Ele queria ser um peixe. Despedi a prostituta. Consultei o saldo de minha conta bancária. Deveria comprar um barco. Vendi o que me restava. E me tornei um pescador.

Mariel Reis é escritor, publicará em 2014 o livro de narrativas  “Bordel de Bolso” pela Editora Oitava Rima. Escreveu os livros: “Linha de Recuo” (contos), “John Fante Trabalha no Esquimó” (contos), “Vida Cachorra” (contos), “Cosmorama” (poesia), “Cidade Tomada” (crônicas políticas), “A Arte de Afinar o Silêncio” (contos) e “A Fábrica” (narrativas – inédito).