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86ª Leva - 12/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O que se espera de um artista em toda a sua potencialidade? Que cumpra o ritual de seus ímpetos de autenticidade, sem fazer concessões de toda ordem, ou que se alimente de seu tempo com voracidade? Certamente, são duas questões a também rondar as mentes tanto de quem cria quanto de quem consome arte. No caso específico da fotografia, tais eixos de reflexão desempenham um papel de destaque, tendo em vista as múltiplas formas de se mostrar o mundo que nos abriga e repele. Em todo caso, estamos próximos de uma perspectiva mais diferenciada de observações quando tomamos por norte os imperativos da lucidez. E falar nesta última personagem significa muito mais uma forma de perceber densamente o que somos do que qualquer outra coisa. Nesse viés, ler a nós mesmos resulta num percurso por um labirinto através do qual talvez jamais consigamos encontrar a saída.

Diante de todo um exercício crítico do olhar, nos deparamos com a obra de Silvio Crisóstomo. Sob a pele desse fotógrafo, pulsa viva a tez de um homem que ao olhar os espaços circundantes, vislumbra o que está além do óbvio. Detentor de uma aguçada visão sobre a existência, Silvio toma o caos urbano como um elemento impulsionador de seu trabalho, repensando não apenas o ponto de vista espacial, mas principalmente a forma como os homens, quase todos integrantes dum mesmo pacote de irracionalidade, devoram a si próprios. É assim que, por exemplo, suas imagens devotam especial atenção à cidade de São Paulo, lugar que, aos olhos desse inquieto artista, é um estado de coisas sem solução.

Alagoano de nascimento, Silvio confessa ser um alguém que busca um efeito poético para seu trabalho. O resultado disso é patente, pois o modo como pessoas e lugares são captados e trazidos à luz redimensiona sentidos e posiciona o artista como um legítimo porta-voz de seu tempo. Nessa entrevista, o fotógrafo nos conta aspectos marcantes de sua trajetória, ressaltando concepções próprias que o movem dentro de um território imagético fortemente pontuado por uma, digamos assim, condução engajada dos registros. Leia-se engajamento aqui com um sentido especial, qual seja o de um envolvimento consciente e ativo da condição de se estar num mundo deveras complexo e que a todo o momento nos cobre com o manto da provocação.

 

 

 

Sílvio Crisóstomo / Foto: Clo Lainscek

 

DA – É possível observar que você representa o real de uma forma diferenciada, rompendo qualquer noção superficial do olhar primeiro sobre coisas, pessoas e lugares. Há um desafio muito grande quando a questão é afastar as armadilhas do óbvio?

SILVIO CRISÓSTOMO – Eu digo, educadamente, que não tento “representar o real”, e sim “apresentar o real”, visto que sou um artista contemporâneo e essa é a forma mais correta de conceituar o meu trabalho. Eu apresento o real que acredito que exista no momento da captura da imagem. É uma realidade única, pois eu nunca consigo reproduzi-la novamente da mesma maneira devido ao sentimento que é posto e exposto em muitos casos. A “noção superficial…”, a qual você se refere, é o que realmente banaliza a fotografia, e não a facilidade de se fotografar hoje em dia devido à tecnologia. Tenho a opinião de que o “olhar banal” é a morte da fotografia e da arte como um todo. Artista de verdade não se permite ao mais do mesmo, ele se arrisca no novo. Ele, o artista de verdade,  desafia os outros a entendê-lo.

Eu sou um artista plástico que utiliza a fotografia como plataforma de trabalho, atualmente produzo vídeos também, e por isso, acredito, observo sempre o que está acontecendo de relevante na arte pelo mundo, mas nunca uso isso como alguma referência para o meu trabalho, ele é plural: sem regras, sem pertencer a alguma escola artística ou fotográfica. Eu absorvi e absorvo conteúdos vindos do cinema, das artes plásticas, do design, da arquitetura, da música e, por último, da fotografia em si. O meu espectro de interesses e de ação na arte é amplo.  Ao tentar ver sempre o novo no banal da vida, ao tentar apresentar uma realidade que só existe na minha cabeça, eu posso errar como posso acertar no meu propósito de mostrar e comunicar com o meu trabalho, que não me deixa cair nas armadilhas da obviedade.

DA – O excesso de informações de toda ordem parece ter tomado conta da contemporaneidade, contribuindo bastante para a banalização a que você se referiu anteriormente. O grande prejuízo aqui seria a padronização dos pontos de vista. Diante desse quadro, a busca por um sentido poético seria um atributo transformador nas mãos do artista?

SILVIO CRISÓSTOMO – Realmente… Acredito que o excesso de informação desinforma, você vê tudo e realmente não está vendo nada. O que percebo também é uma carência  de originalidade nos trabalhos artísticos fotográficos, e, na minha opinião, deveria ser o contrário, já que temos a capacidade de obter informação do mundo inteiro. Ou seja, o excesso ou a facilidade de ter essa informação não quer dizer que o artista (ou o profissional da imagem) se beneficie com isso. Vejo que muitos ficam cada vez mais maneiristas, para não dizer copiadores, são inseguros artisticamente e ficam reféns de “referências” pelo resto da vida. São poucos os que se arriscam e esses são os que realmente deixam sua marca num mundo cada vez mais diluído cognitivamente. O que hoje se chama “releitura” são cópias muitas vezes mal feitas de grandes trabalhos originais. São terminologias que escondem a falta de conteúdo em muitos casos.

Entre erros e acertos, busco sempre um sentido poético para o meu trabalho e muitas vezes me deparo com trabalhos parecidos com o meu, mas que foram concebidos há mais de 50, 60 anos, e isso me leva a entender o que a arte fez como veículo transformador no inconsciente coletivo do mundo. Entender o que é poética visual é essencial para qualquer futuro artista.

DA – Algo que se destaca em sua trajetória é o olhar sobre os espaços urbanos. E é justamente aqui que retomamos aquela noção de resultado poético, capaz de suavizar o caos “civilizatório” que envolve as cidades. O que pensa a respeito disso?

SILVIO CRISÓSTOMO – Eu penso que não suavizo o caos civilizatório, eu o aceito como é. Tento entender os signos do caos urbano. É por isso que a minha poética visual tem um amplo espectro de temas, porque o caos foi disseminado no cotidiano num grau muito além do retorno.  Eu aceito e trabalho isso. Sem o Caos, o meu trabalho não existiria. O Caos é a inquietação. Além disso, eu cresci numa cidade selvagem. A minha inocência foi arrancada em São Paulo. São Paulo constrói no mesmo ritmo que destrói. É uma cidade sem solução.

DA – A série “Não existe amor em SP: São Paulo Descolorida” é prova viva da sua relação com a colossal metrópole. E é emblemático ouvir de você que a cidade dizimou-lhe a inocência. O que você não endossa nessa perturbadora São Paulo?  

SILVIO CRISÓSTOMO – Eu conheço bem São Paulo. Passei três anos andando por toda a cidade (de 2010 a 2012) e só assim pude entender a dinâmica que movimenta a vida de toda aquela gente. São Paulo tem “ilhas de riqueza e prazeres” diminutas, num mar de pobreza cultural e social, e desorganização. O que São Paulo oferece de serviços a qualquer hora, lhe falta em qualidade de vida. Talvez falte qualidade de vida, pois a grande população nem saiba o que a palavra “qualidade” e “vida” signifiquem realmente e por isso não tem interesse em melhorar nada. São Paulo é uma ilusão, ela não deu certo.

 

 

 

DA – Há um teor significativo na obra de um artista quando ele se debruça sobre as questões de seu tempo. E você se enquadra bem nesse território quiçá pantanoso. Nessa travessia, consegue vislumbrar algum sentimento de libertação?

SILVIO CRISÓSTOMO – Acredito que se o artista não é contemporâneo, é ultrapassado. Se ele não entende a dinâmica do seu tempo, é ultrapassado. Ultrapassado no sentido de datado, “já feito”, cópia da cópia, etc. Veja, estamos falando de um olhar que apresenta um mundo que é uma leitura particular de quem o faz. Portanto, se o artista não consegue “ler o hoje”, com certeza ele parou em algum lugar lá atrás e talvez por isso deixe de ser criativo e vire maneirista em seu estilo.

É difícil falar se liberta ou não. Não sei dizer. Sei que a partir do momento em que você mergulha e se aprofunda na sua temática, mais você sabe e mais você cria. O perigo é ficar preso sempre na mesma temática por não saber acompanhar o mundo ao redor.

DA – A plasticidade de alguns de seus registros deixa marcas densas, sobretudo no que se refere ao olhar sobre pessoas. Como é perceber o outro diante desse pacto silencioso de aproximação?

SILVIO CRISÓSTOMO – O indivíduo que mora nas grandes cidades, ao meu ver, não manda na cidade. A cidade manda nele. O concreto, o carro, os impostos, normas mandam nele. É uma grande ilusão achar que existe uma real liberdade em parte alguma. Nós criamos uma máquina de repetição de fazeres monótonos incríveis e São Paulo é a grande referência. Por isso, eu ainda não fiz realmente uma série de retratos “clássicos”, em pb… aquelas coisas. Eu não encontrei um tema que  me animasse, que fosse original e que não falasse da pobreza, desgraças, pessoas ou mazelas de qualquer tipo. Esse tipo de trabalho já se esgotou e, mesmo assim, ainda é exposto em galerias, publicados em revistas, etc. Por isso, talvez, quando retrato pessoas, na maioria das vezes elas estão desfocadas, borradas, saturadas, nunca “limpas”. O mundo não é assim, e duvido que exista uma vida assim… limpa. Transformar um retrato de uma pessoa comum numa obra de arte não é para qualquer um, mesmo porque quem define isso é o mercado e não o autor, e nesse ponto a banalidade toma conta ao retratar a vida lá fora. Há uma falta de talento gigantesca hoje em dia. As minhas fotos de pessoas, não considero que façam parte de nenhuma série, eu diria que são experiências estéticas em busca de algo original na minha poética.

DA – A sua experiência com o jornalismo assinalou caminhos importantes para seu trabalho?

SILVIO CRISÓSTOMO – Acentuou a crítica, a percepção de que a presumida verdade pode ser mostrada por vários pontos de vista e, ainda assim, não ser a verdade. Estudei jornalismo para aprender a ler o meu mundo. Eu diria que ele está presente no prazer de andar na rua e entender como “ler” o entorno. Está na crítica visual, dentro da poética que trabalho.

 

Sílvio Crisóstomo / Foto: Clo Lainscek

 

DA – Esse caráter poético não lhe afasta também de uma perspectiva documental. O resultado é interessante porque sugere um viés antropológico de observação.  Nesse contexto, a intuição fez a diferença?

SILVIO CRISÓSTOMO – Uma intuição baseada na necessidade de apresentar um mundo já insuportavelmente gasto, usado, desmerecido, me referindo a São Paulo, onde o trabalho foi construído. Trabalho poético visual construído sob um olhar destituído há muito tempo da ingenuidade que muitos profissionais e iniciantes na fotografia tem ao (no caso deles) retratar uma cidade, e, por isso (mais uma vez), a repetição da banalidade visual acontece. No início, eu também era ingênuo visualmente: a linguagem, a poética, a crítica, a leitura arquitetônica e o conhecimento estético não estavam interagindo. Eu estava mais preocupado com os ditames da fotografia e menos com o que realmente sabia e poderia fazer. Escolhi ser “Eu”. Quando se anda muito pelas ruas, e você faz isso durante muito tempo, com o intuito de conhecer (e encontrar) algo que sabe que existe, mas não sabe onde está, você é profundamente afetado pelo meio, reconhecendo seus signos e a repetição inútil e sem sentido na maneira de se viver que a cidade imprime nas pessoas. Somando isso com uma necessidade de criação visual, de  criação de uma linha poética e de criticar o cotidiano pela improvável beleza e total banalidade de certos elementos urbanos, eu mergulhei nesse objetivo, e, a partir dele,  fui me entendendo como pessoa cada vez mais.  São Paulo só passa a ser uma cidade boa para se viver se você conseguir andar de olhos fechados. Nesse sentido é antropológico, sim.

DA – Sobretudo nesse ambiente chamado pós-modernidade, diria que a transgressão é o instrumento mais precioso de um artista?

SILVIO CRISÓSTOMO – Não diria “transgressão”, pois o artista não está fazendo de errado, e sim o que ele acredita que seja o correto no e para o trabalho dele. Eu concordo com uma frase dita por uma grande amiga: hoje a melhor coisa é ser marginal. Se quiser realmente ser artista, tem que ser marginal. Marginal no sentido de não seguir regra alguma, de não fazer o que todos fazem, de não se preocupar com um grupo, com uma escola artística. O mundo está tão diluído, tão fragmentado, que ser autoral, experimental e independente, sem abrir concessões, é uma transgressão inaceitável nos círculos do mercado da arte.

DA – Em meio aos caminhos marcados pela inquietude, quem é hoje Silvio Crisóstomo?

SILVIO CRISÓSTOMO – Enquanto pessoa, estou em constante mutação e se eu me definisse, seria contraditório. Como artista, sou um produtor de poéticas que busca temas universais inquietantes, muitas vezes numa linguagem acessível para o grande público, sem, no entanto, corroborar com os ditames estabelecidos na comunicação em geral. Se a arte está no mundo, ela é de todos para todos. E se a vida não basta, como disse Ferreira Gullar, a arte é essencial para dar sentido a esse mecanismo efêmero. Crio na medida em que certos assuntos ficam insuportáveis para mim. A criação surge dessas emoções. Eu não suporto criar “sem autoria ou título”, tenho a pretensão de corromper… é isso.



 

 

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86ª Leva - 12/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

 

Foto: Bruno Kepper

 

 O  sonho

Anderson Fonseca

 

Quem serás, esta noite, do outro lado
Da parede do sonho indecifrado?
Jorge Luis Borges

 

Tinha por costume, um ilustre cientista, Dr. Andrea Svevo, visitar-me às tardes de domingo para conversar assuntos que a nós dois suscitavam interesse.  Habitualmente às 14h quando chegava, sentava-se – na poltrona que fica à direita da estante de livros – coçava o bigode, acendia o cigarro, e depois de lançar o fumo no ar, dava inicio ao diálogo que se alongava até o fim da tarde. O hábito de sua visita – exata e assídua – tornou-se para mim um rito… Até o dia em que se atrasou. No começo da noite ele apareceu como uma ave de mau agouro, assim, repentinamente; entrou arrebatado, tirando os sapatos às pressas, procurando com o olhar o assento. Estava agitado; a fala trêmula e com espasmos. Entre balbucios repetia que tinha algo a me contar. Sugeri – indicando a poltrona – que se sentasse, Svevo se sentou, acomodou os ombros largos, ajeitou o bigode, acendeu o cigarro para não faltar com o costume e começou a dizer:

– Dr. João Zveiter, o senhor, como sabe, não sou um homem que se impressione por qualquer ideia, ainda que minhas cogitações em torno do misticismo lhe pareçam surrealistas, imagino que não pense a respeito de mim como um insano. Acredito de boa fé, que apenas respeita minhas opiniões. Estou certo?

– Sim – concordei.

– O senhor deve se lembrar de quando comparei o espelho ao sonho e disse-lhe da possibilidade mágica do sonho se comportar como espelho. Certa vez, você mesmo disse, repetindo as palavras de um poeta, que o espelho e o sonho são um mesmo e único ser nos olhos do homem. Baseado no que me disse, retruquei lhe dizendo o quanto acredito que o sonho possa nos revelar o futuro e você concordara comigo. Mas lembro-me de você ter dito, citando Jung, que também é possível que o sonho nos revele o futuro daquele mesmo sonho, ou nos mostre outro sonho que ainda há de aparecer. Em suas palavras, era possível um sonho antever outro sonho dentro de si mesmo.  – Svevo dizia fitando-me os olhos com a convicção de um luterano. – Pois bem, meu amigo, hoje tive a sensação de tais ideias. Hoje sei o que a certa hora da noite hei de ver, quando meus olhos estiverem cerrados. O que vou lhe contar, deve ser dito de uma forma que não possa esquecer, direi a você o que ainda não me aconteceu, e sei como será sem antes ter sonhado. Certamente, Dr. Zveiter, você irá me perguntar como posso saber o que não me aconteceu, se nem sequer mergulhei no vasto sonho para que este me revele o futuro. Sinceramente, não sei como explicar, somente lhe garanto, com fé, que sei o que há de me acontecer no sonho.

– E como o senhor pode me garantir de ter antevisto o sonho sem antes sequer ter sonhado? Quer que eu aceite que sabe apenas porque você tem certeza do que diz, pela fé? Está por acaso debochando de mim?

– Não! – exclamou Svevo como uma criança questionada pelo pai tentando convencê-lo de que não mente. – Eu sei, é isto.

– Ora, hei de aceitar o que me diz, como hei de ouvir o que há de me contar, mas não porque existe lógica no que afirma, pois na verdade, sabemos ambos que não há nenhuma razão no que está dizendo. Poderia interná-lo num hospício, para que recupere, lá, sua sanidade. Mas acredito que ainda que eu fizesse isso, você continuaria a defender sua ideia. Não tenho outra escolha senão ouvi-lo. Diga-me então com suas palavras previamente escolhidas o que tem a contar. Diga-me o que viu.

– Não o que vi Dr. João Zveiter, mas o que hei de ver.

– Fale logo.

– Esta noite sonharei um sonho inevitável. Sonharei que diante de mim, nesta sala, estará outro eu. Ele estará sentado onde estou. Saberei que ele é eu porque o sonho me dirá e não porque reconhecerei seu rosto (no sonho o rosto é uma sombra). Ele estará diante de mim em silêncio aguardando que eu fale, e eu mostrarei a ele minha angústia e meu desejo. Direi a ele que a alma que carrego comigo é maléfica e que dela quero me livrar. Ele então compadecido estenderá sua mão. Quando a toco sinto parte de minha alma ir para com ele e mal ela se vai já me sinto diferente. Ali, naquele instante, percebo que a outra parte agora a ele pertence. Ali, entendo que ele é o limbo e que ela ficará com ele para sempre. Ao despertar já não sou eu quem desperta, mas outro, porque embora saiba que ainda sou, sou um eu com menos de mim. Não posso lamentar. Aceito que é real; eu estarei com o outro eu, e ele levará uma parte de mim consigo, ele é meu limbo, e o que é eu, ao estar com ele, não mais retornará.

– O senhor usa de uma linguagem poética para descrever o indescritível. Acredita que o uso desta linguagem convencerá a mim de que o que diz é verdade? Não obstante creia que a poesia seja a língua do infinito, não a considero suficiente para tornar lógico o que é irracional; é possível tornar aceitável o fantástico aos olhos de um sábio, não significa, entretanto, que valha como verdade. E o que o convence de que a visão do futuro sonho seja real a ponto de perturbá-lo?

– Zveiter, já conversamos a respeito do sonho ser um espelho, se tal conceito for verdadeiro, nada impede que a alma se fixe no sonho como a imagem no espelho, e, se este espelho for o inconsciente, é claro que a alma se fixará nele sem retornar.

– Ainda assim, não disse o que o perturba.

As horas se passavam sem nos aperceber e Svevo a cada minuto dizia com maior convicção o seu sonho e a cada minuto que a convicção evoluía para o indubitável, sua feição transformava-se; a metamorfose de seu rosto me amedrontava, eu temia por algo pior. Pois embora o sonho fosse apenas devaneio de um filósofo, este mesmo sonho teve o poder de mudar a mente de um homem. Não mais se olhava para Svevo e se podia afirmar ser ele. Diante de mim, outro surgia, mas quem?  Eu não sabia, não sabia, até que ele disse:

– Tenho razões para crer que após o sonho cometerei atos terríveis que me levarão a um fim igualmente terrível. A ausência de minha alma, certamente me tornará em alguém incapaz de distinguir o bem do mal. Eu me vi matando Madelaine e você, Zveiter. Eu matarei para santificar o mundo de um mal invisível, e ainda que esta razão seja insana, e também indesculpável, é a única razão que me há de vir sem que eu a questione. Creio imensamente que ao fazer, o farei sem arrependimento. Apesar de agora considerar um ato terrível o que farei, após o sonho me parecerá natural. Eu serei este outro que desperta. Portanto, esqueça o que você vê neste momento, apenas pense em quem hei de ser. Pense em mim, agora, como aquele que surge depois do despertar.  Estou tomado por esta certeza, e isto, me conturba profundamente.

Andrea Svevo estava transformado. Eu o olhava, mas sabia que já não era ele quem estava diante de mim, como se o sonho desde o seu futuro já influenciasse o presente, como se aquele outro eu, já existisse, ali, diante de mim. A hipótese de que o sonho, que ainda nem se realizara, já o tinha tornado em outro, me seduziu a ponto de crer estar certo de que Svevo não era mais o amigo que conheci. Mas seria ele realmente capaz de assassinar sua esposa e amigo? Seria possível que ele abandonasse parte de sua alma num ser extracorpóreo, cuja existência era improvável, e, sobretudo, existindo no interior dele mesmo tornando-o inverificável cientificamente, e ainda sim, real somente para ele? Fantasia ou realidade me perguntava por que Svevo acreditava tanto neste sonho. Convenci-me de que Svevo não mais existia. Apiedei-me dele e a piedade levou-me a fazer o que era necessário.

Antes de Svevo dizer “A…”, com a agilidade de um jovem, saltei da cadeira encravando em sua garganta a caneta que estava em minha mão. Enquanto a caneta deslizava pela carne indo cada vez mais fundo cortando a veia jugular, rasgando o tecido fibroso, a fenda aumentava seu raio de abertura deixando o cálido sangue escorrer grosso com gotejos pesados sobre o chão; a sensação de que era eu que ali morria, crescia em mim alucinadamente, inquietando-me por dentro, e embora lutasse para afastá-la, sabia ser impossível. Tal como a caneta penetrava a garganta de Svevo, a ideia imergia em meu espírito, até – no mesmo instante em que a caneta afundou-se de vez na garganta – afundar-se de vez em mim. Não havia dúvida, Svevo era meu outro eu e eu o havia assassinado. A cada gota de sangue que escorria crescia a certeza de que tudo era um sonho, e agora, ao despertar, quem levantaria era outro, enquanto eu passaria a eternidade no limbo. Como disse Svevo, aquele sonho… Era inevitável.

 

(Anderson Fonseca é autor dos livros Notas de Pensamentos Incomuns (2011) e Sr. Bergier (2013). Vive em Brejo Santo, Ceará)

 

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86ª Leva - 12/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Lou Vilela

 

Foto: Bruno Kepper

 

Enredados

 

Ela traz em sua pele ancestral o teatro, o culto a Dionísio; eu, todas aquelas máscaras amalgamadas. Talvez, tenha sido um guerreiro cantado, recontado, dono de uma desconcertante objetividade. Talvez, nada nobre. Máscaras! Finda que as pendure, demonstre em cena, em cima, quando coros, entoados, formos um só: emoção! Não aquela coisinha insossa, fins de efeito moral – hipócritas! Ser Ilíada e Odisseia, parte umbral! Algo tangível, alternativo, interativo, de cunho social, alcunha desvalida – arte!

 

II

relógio que acorda
que desperta o passado
apesar de avançada a hora
que se nega
que não quer ir embora
: parados ponteiros
d’outrora

 

III

alimentava olhos tristes
dentes brancos
um gráfico senoidal
uma rede
um eco
dentro
entro
ntro…

 

IV

saída de um quadro
de Toulouse-Lautrec
– púrpura!

entre um trago e outro
cruzadas
um cabaré qualquer
Paris.

antes do beijo, do gozo
o ouriçar da pele
algumas chances
partidas
em telas.

 

V

éramos cactos e flores
sem jardineiras anis
nossos ares, distâncias

até tocarmo-nos naquele instante
capital
: crédito, 3 X

quando seguimos, cada qual
cartões, carteiras e nossos vasos
– paisagens

 

VI

desaguar
perder-se inteira
forjar-se
pedra, sabão
recomeços

 

VII

uma xícara trincada
tempo, apego
aquele quadro, esse nada
um eu além
quiçá um mote, sem conserto

 

VIII

tão querida quanto trêmula
não importava!
naquela idade
bom mesmo era poder quebrar
silêncios
foi assim o nosso encontro

 

IX

a moça da saia vermelha
nada me dizia
estava ali, impassível, em sua beleza ácida
queria voar
não havia asas
apenas poesia – ponte aérea
entre vãos
e todas aquelas vozes celulares
ar rarefeito unindo
motivos, vidas, saguão

 

X

as fraturas
e esta sensibilidade exposta, sonar
riem-se dos laços plácidos

 

XI

havia a história das corujas
vovó dizia: ‘rasgam mortalha’
e eu por um tempo acreditei
que não eram humanas

 

XII

ajoelhados em torta calmaria
ruminam, sobretudo, vendavais

 

XIII

como quem posta-se morto
o homem trabalha
volta à casa, come
transa, dorme
não acorda
trabalha…

 

XIV

Imoral é a hipocrisia que impera entre tantos;
são os dedos quebradiços da ética;
um olhar pseudo espanto [o ciclope em jardim panorâmico].

Imoral somos nós
mal fa(r)dados humanos;
são os monstros assíduos que criamos.

Imoral nossos atos impensados
pútridos paridos do descaso
sepulcros do que podia ser.

 

(Lou é pseudônimo; Sandra é marca pessoal, escolha de mãe; Vilela, herança de pai. Nasci em Natal/RN, mas resido em Recife/PE, desde a infância. Administradora, Especialista em Logística. Uma das integrantes do livro Maria Clara – uniVersos Femininos (LivroPronto, 2010). Possuo poemas publicados na agenda da Tribo (2012/2013/2014), e em diversos sítios na internet. Lunática, patética – nos intervalos, dialética. Move-me uma fome de horizontes: à procura da forma singro mares ins.pirando nau.fragios, auroras, crepúsculos, silêncios… – faço-me moinho de ventos: sopro (re)versos)

 

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86ª Leva - 12/2013 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Novas cartas para uma nova história

Por Marcos Pasche

 

 

O século XX foi para a arte ocidental um tempo especialmente marcado pela busca sistematizada de novas formas de expressão, as quais intervieram diretamente nas maneiras de criar e de perceber as obras. A poesia brasileira do período, muito interessada em emancipar-se esteticamente da Europa, enveredou-se pelos caminhos da transgressão de normas e da ruptura com a tradição, tendo como primeiro grande expoente dessa diretriz revolucionária o Modernismo, aparecido com a Semana de Arte Moderna, em 1922, em São Paulo.

No início da segunda metade do século, surgiu, também em São Paulo, um movimento que se consagrou por elevar a patamares maiores a reinvenção do discurso poético: o Concretismo. Idealizada e protagonizada pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e por Décio Pignatari, a poesia concreta ganhou espaços dentro e fora das faculdades de letras, foi saudada por outras vertentes artísticas (como a pintura e a música popular) e ainda hoje se mantém, sobretudo em termos de ideologia literária, como grande força de orientação para muitos poetas. Dentre os feitos proclamados pelos próceres e epígonos do Concretismo, destaca-se a primazia no tocante à produção de um “ismo” verdadeiramente surgido no Brasil, sem tomar de empréstimo alguma forma estrangeira para aplicá-la às letras nacionais.

Mas as vanguardas também cometem seus enganos, e por isso chama muita atenção um livro de 1954, pouco comentado à época de sua publicação (ocorrida três anos depois), e ainda hoje, sessenta anos após sua concepção, permanece algo desconhecido: Novas cartas chilenas, de José Paulo Paes. Numa época em que poetas digladiavam-se por conta dos rumos que a arte do verso deveria tomar, polarizando suas ideias entre vanguarda e tradição, é interessante notar que o livro de Paes afasta-se desse maniqueísmo, dirigindo suas atenções à memória nacional e estabelecendo uma tensão entre história e historiografia digna das melhores páginas das teorias historicistas, como já se percebe em “Ode prévia”, poema de abertura:

 

História, pastora
Dos alfarrábios.
Meretriz do rei,
Matrona do sábio (…).

Histriã do rico,
Madrasta do pobre,
Copo de vinagre,
Moeda de cobre.

Estrela da manhã,
Mapa ainda obscuro.
História, mãe e esposa
De todo o futuro

 

As Novas cartas chilenas foram lançadas em 1957, no sétimo volume da Revista Brasiliense, célebre veículo da intelectualidade da esquerda brasileira (e, recentemente, foi reeditada na Poesia completa, de José Paulo Paes). Seu nome é derivado da filiação a uma importante obra da literatura nacional: Cartas chilenas, livro atribuído a Tomás Antônio Gonzaga, e que em meados de 1789 começou a circular de maneira clandestina em Minas Gerais, denunciando satiricamente os problemas da administração do governador Luís da Cunha Pacheco e Menezes, cognominado na obra como Fanfarrão Minésio. Apesar da íntima relação, os livros possuem peculiaridades marcantes, que na Brasiliense foram apontadas em prefácio de Sérgio Buarque de Holanda: “A diferença aparentemente mais importante à primeira vista é a falta de Fanfarrão ou de algum personagem concreto que faça as suas vezes. Mas não estava já ele morto quando circularam aquelas outras cartas chilenas? Não, o Fanfarrão continua a existir e está presente em todas as páginas deste poema (…), subdividido em mil fanfarrões, sempre cheios de audácia e pompa vã”.

E é a partir disso que o livro de José Paulo Paes alcança seu grande fator de distinção. Enquanto o Concretismo, a estética da moda, aprofundava seus exercícios metadiscursivos, e uma outra linhagem poética – enquadrada na vaga denominação Geração de 45 – abominava as inovações para reivindicar espaço para uma poesia de inspiração clássica, as Novas cartas chilenas fazem da reflexão crítica sobre a vida nacional a sua razão de ser: “Os bandeirantes heris, continuados/ Em capitães de indústria, preterindo/ O sertanismo pela mais-valia”, diz o poema “Por que me ufano”, ácida síntese dos momentos decisivos da história brasileira.

A singularidade do opúsculo de Paes não significa ausência de apuro formal. A leitura atenta do livro deixa perceber um poeta altamente familiarizado com as diversas técnicas da escrita em verso, além de revelar que a obra do autor atingia maturidade ainda não vista em seus dois primeiros livros, O aluno (1947) e Cúmplices (1951). Davi Arrigucci Jr., em “Agora é tudo história” (texto de apresentação aos Melhores poemas de Paes), diz que Novas cartas chilenas caracteriza “a fórmula pessoal que lhe permitia ao mesmo tempo reler a tradição, glosar lições do passado (como ao reassumir o tom satírico das Cartas chilenas para falar do presente), aceitar ou não procedimentos da vanguarda coetânea e inserir-se, com consciência irônica e carga crítica, munido de recusas necessárias e linguagem sob medida, na perspectiva do mundo contemporâneo”.

É o exercício de reler a maneira como fatos importantes da história do Brasil foram inseridos no imaginário nacional que dá ao livro suas páginas mais brilhantes. Seguindo a disposição cronológica convencional, as críticas do poeta recaem inicialmente sobre os fundadores do País, como se vê em “Os navegantes”: “Achar é nossa lida mais constante/ E lucro nosso empenho mais vezeiro:/ Hemos a gula vil do mercador/ Num coração febril de marinheiros”.

Avançando algumas páginas, outros atores do teatro brasileiro entram em cena para também serem desmascarados. Por conta disso, o poeta constrói um discurso com a dicção própria daquele que é desmerecido, criando o seguinte efeito: não há alguém falando sobre os personagens da história nacional, são eles que falam, inserindo em seu próprio discurso a confissão das atrocidades que efetuaram. É o que ocorre em “A mão-de-obra”, rasura da Carta do achamento, de Pero Vaz de Caminha: “São bons de porte e finos de feição/ E logo sabem o que se lhes ensina,/ Mas têm o grave defeito de ser livres”; e também em “Testamento”, este versando sobre a herança dos bandeirantes:

 

Alfim, sob o da morte agro comando,
Terminamos a dada, perdoando
A nossos netos o serem bacharéis
E ao bandeirismo mostrar revéis,
Pois que no latifúndio e na finança
Também se alcança, ao cabo, essa abastança
Que apaga o crime e propicia a glória
Do bronze, onde dormimos, pais da História.

 

Mais à frente, a fase colonial cede espaço ao tempo do Brasil já emancipado. Lúcido, José Paulo Paes percebe que apesar das mudanças políticas, a realidade nacional não se modificou estruturalmente. A exemplo das dicotomias com que a poesia do século XX foi segregada, as soluções para os entraves da política nacional entraram, no século XIX, num enganoso jogo de cara-ou-coroa. Por essa razão o livro contesta a monarquia, – “Sejamos, na cozinha, escravocratas,/ Mas abolicionistas de salão:/A dubiedade é-nos virtude grata” (“Cem anos depois”) –, bem como, no mesmo poema, desnuda hipocrisias republicanas: “Vamos fazer a República,/ Sem barulho, sem litígio,/ Sem nenhuma guilhotina, / Sem qualquer barrete frígio”.

Desviando-se do discurso oficial da história, o livro é solidário àqueles que pagaram um preço maior por se oporem, por razões diversas, ao poder instituído, “Muito antes que vingasse a recente proposta acadêmica de fazer História ‘pela ótica dos oprimidos’”, diz Alfredo Bosi no ensaio “O livro do alquimista”. No lance mais bem realizado do volume – o poema “Os inconfidentes” –, narra-se dramaticamente todo o movimento que levou Tiradentes à morte: “Um minuto de séculos e o corpo/ Tomba no vácuo, fruto decepado./ O calvário cumpriu-se. A luz se apaga/ Nas pupilas imensas do enforcado”. Mas aqui história e poesia unem-se para imprimir no tempo e na memória coletiva o contragolpe às verdades dos que prenderam, torturaram e assassinaram em nome da ordem e da justiça:

 

Mas reparai, cavalheiros
Da Igreja como do Estado,
Que um herói ficou de fora,
Embora fosse enterrado.

Tiradentes se recusa
Ao vosso fácil museu,
Panteon de compromissos,
Olimpo de camafeus.

Prefere a praça plebeia
Ao pó das bibliotecas
Onde, a soldo, vosso escriba
Faz da verdade peteca.

 

Em meio à acidez dos questionamentos, há espaço para uma nota de sóbrio (e irônico) otimismo, não por acaso ao fim do livro: trata-se de “Por que me ufano”: “O sol do grão, a esperança da raiz,/ Sob o signo do Cruzeiro insubornável,/ Tendo em conta passados e futuros,/ Sempre me ufano deste meu país”. As Novas cartas chilenas, que já haviam contrariado as tendências da poesia e da historiografia nacionais, contrariam agora a própria postura cortante do livro que passa em revista o passado da pátria, ao dar pistas de um sorriso à “mãe gentil”. Ao final da leitura, nada garante que outro Brasil será possível. Porém, após a mesma, talvez não seja mais possível vê-lo como antes.

 

Nota: O ensaio “O livro do alquimista”, de Alfredo Bosi, é o prefácio de Um por todos, poesia reunida de José Paulo Paes lançada em 1986. O ensaio foi reproduzido em Céu, Inferno, do referido crítico.

 

(Marcos Pasche nasceu no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1981. Cursa doutorado e leciona Literatura Brasileira na UFRJ. É crítico literário, autor de “De pedra e de carne: artigos sobre autores vivos e outros nem tanto”. Neste momento, pede aos acidentais leitores que não deixem de assistir ao documentário “Garapa”, de José Padilha)

 

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86ª Leva - 12/2013 Destaques Olhares

Olhares

Delicados sopros

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Bruno Kepper

 

Em qualquer recanto de nossa tenra existência, há sempre espaço para o sublime e toda a sua intrincada dose de mistérios. A tenacidade dos dias, longe de representar uma mera contagem temporal, mostra que a dinâmica das coisas abriga a teimosa ciranda das revelações. Assim, nossos estados de alma costumam governar as veredas do olhar, apontando modos de se experienciar essa colossal aventura intitulada vida.

Talvez seja dada a poucos a façanha de percorrer as entrelinhas do mundo e enxergar para além de toda carga aparente.  Conduzido pelos caminhos do fotojornalismo, Bruno Kepper transita à vontade nessa perspectiva de perceber seres e lugares. Muito do olhar desse jovem fotógrafo se alimenta dos traços do cotidiano, arregimentando histórias presentes em universos particulares de vida.

Seja nos recônditos de uma metrópole qualquer ou na captura de aspectos da natureza, Bruno traz em si uma vigorosa via de contemplação das formas. É como se cada lugar, pessoa ou animal ganhassem amplos e novos significados. A possibilidade de apresentar um mundo sob suas mais variadas nuances posiciona os olhares do fotógrafo numa especial condição de observador paciente de um tudo.

Foto: Bruno Kepper

Sem a interferência que agride a naturalidade das coisas retratadas, Bruno prefere trilhar um passeio incólume, compactuando paulatinamente com a fidelidade que emana de tudo aquilo que lhe move a visão. Com tal atributo, o artista nos apresenta algumas séries bastante especiais, como a sua incursão pela vida selvagem das ilhas Galápagos e os registros de pessoas dormindo no berço abissal de São Paulo.

Nascido na capital paulista, Bruno Kepper vivencia outras tantas formas de expressão. Em sua trajetória, desenvolveu trabalhos ligados a eventos, viagens, retratos e vídeo. Formado em jornalismo, ingressou também na Escola Panamericana de Artes, onde estudou fotografia.

Cada temática explorada pelo fotógrafo demonstra que o subjetivismo do olhar é capaz de descortinar outras esferas da percepção. Ao passo que traz à tona seu peculiar modo de vislumbrar a vida, Bruno instaura em nós uma profunda identificação com a simplicidade das coisas, todas elas diluídas nas densas ranhuras do cotidiano.

Foto: Bruno Kepper

* As fotografias de Bruno Kepper são parte integrante da galeria e dos textos da 86ª Leva.

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85ª Leva - 11/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Julia Debasse

O flerte com a inquietude nos toma de tal maneira que tudo parece nela se fundar. Por vezes gentil, noutras tenebrosa, esta senhora se espraia de modo mais intenso do que supomos. E vais mais além, cria ramificações ao ponto de notarmos que, sem ela, muita coisa em matéria de criação não sobreviveria aos mínimos lances do tempo. Basta um simples gesto e logo estamos dependentes de seus comandos, todos eles a ditar o modo como gestar as obras. Ao pensarmos na construção de uma nova Leva da revista, raramente nos vem em mente a presença absoluta e centralizadora de um tema qualquer. Pelo contrário, buscamos aquilo que emana das criações de então, estabelecendo uma via de mão dupla, ciclo constante a retroalimentar nossos ímpetos editoriais. Mas até mesmo esse desejo de sempre impulsionar a aproximação de novos colaboradores e seus feitos deriva dos arremates da inquietude. O termo vem a calhar diante de manifestações criativas como as da artista plástica Julia Debasse que, com seus desenhos e pinturas, opera um efeito de diálogo com o mosaico de textos que ora apresentamos. É possível perceber isso na convergência tida em torno dos poemas de Gustavo Petter, Mar Becker, Fred Matos, Marcantonio e João Filho. No caminho que exala densidades, os contos de Állex Leilla, Sérgio Tavares e Lara Amaral nos falam de coisas entranhadas nos recônditos humanos. O escritor e editor Floriano Martins partilha conosco uma conversa com a cantora Elaine Guedes. Aos olhos de Silvério Duque, o novo livro de poemas de Heitor Brasileiro Filho é verdadeiro convite à leitura. As impressões sobre o filme “Frances Ha” estão registradas nas linhas de Larissa Mendes. Evocando a obra do escritor Whisner Fraga, Anderson Fonseca e Mariel Reis assinalam seus olhares. No girar de nosso Gramofone, as escutas estão voltadas para “Recanto”, trigésimo disco da vigorosa carreira de Gal Costa. Assim, pautamos a construção de mais uma edição, certos de que ao menor esboço de ausência da inquietude, saberemos que algo está fora da ordem natural das coisas. Sendo improvável tal falta, nasce e resiste uma 85ª Leva. Boas leituras a todos!

 

Os Leveiros

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Fred Matos

 

Arte: Julia Debasse

 

 

cangalha

 

jamais me perguntei
porque tenho apascentado esta manada
cujos olhos perfuram meus silêncios.

gostava que não me apertassem o pescoço
nem que me exigissem manter limpos
os meus sapatos de mármore.

mas nunca, jamais, nenhum pio.

caminho ereto e sorridente como um asno
cuja felicidade é a ausência da cangalha.

contudo, tenho intimamente gritado
que todos os meus sonhos se diluem
como a neblina após a alvorada.

mas não.

estão todos surdos
nunca serei ouvido
exceto na opacidade dos meus olhos
cobertos de musgos.

 

 

 ***

 

 

balada para uma advogada

 

imagino-te imersa em códices
e que enquanto o cérebro decodifica
as filigranas de um processo insosso
a alma mergulha em outro vocabulário

as páginas voam
uma mão rascunha o contraditório
a outra, cotovelo sobre a mesa,
apóia a levemente inclinada face

há que verificar jurisprudências
precedentes que se ajustem à tese
e que tudo se cumpra no devido prazo

a alma, contudo, alheia, tece
sonhos, poemas, outras doutrinas
contraponto ao que o cérebro messe.

 

 

 ***

 

 

 entre mim e mim

 

“Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos”.
Cecília Meireles

 

não sei quem destes
tantos sou agora
se o que ri,
se o que chora,
se o que não chora nem ri,

mas pouco importa porque
qualquer deles sou passageiro
tenho neles
a dimensão do mundo inteiro
tendo todas as idades percorrido

 

 

***

 

 

balé

 

tenho um mundo sobre os ombros
e ânsia de navegar
mas rasgaram-se as velas
e sobre pálpebras de pedras
sal sol suor
mas não há mar
mais não há
apenas este peso nas pernas
e ânsia de caminhar
mas quebraram-se meus ossos
e sobre as nossas cabeças
um balé de poréns
senões e todavias
e girando como um pião
na velha arca de vidro
uma constelação de sins
uma nebulosa de nãos.

 

 

***

 

 

o verbo

 

a percepção é farol
devassando mistérios
palavras são silhuetas
luzes bailando nas trevas
o poeta um velho cego
tropeçando substantivos

e o verbo…

ah! o verbo
um tirano sem coroa
sem trono, manto ou cetro
e que, no entanto,
voa.

 

(Fred Matos é baiano, casado, três filhos, dois netos, três livros publicados: “Eu, Meu Outro” (Poemas – Editora Poesia Diária, 1999); “Anomalias” (Editora Kelps, 2002 – Poesia) e “Melhor Que a Encomenda” (FUNCEB, 2006 – Contos), além de outras participações em antologias)

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

GAL COSTA – RECANTO

 

 

 

 

A voz atravessa uma alameda de aparatos eletrônicos. Insere-se no outro lado de um mundo imerso em tantas e tamanhas reflexões. O que está por trás de seu canto revela-se como uma intensa ciranda de perguntas. Mas poucas são as respostas quando sabemos que tudo acontece diante de nossos indomáveis olhares e percepções. Definitivamente, a modernidade é um vão onde alguns poucos se sentem à vontade para desfilar suas convicções. No entanto, Gal Costa, penetrando outras esferas do tempo e da canção, vem nos lembrar de alguma coisa que não sabemos bem onde se abriga. Seja numa porção obscura da memória ou no ato de flagrar o que explode em nossa realidade, o disco Recanto nos lembra que a vida é uma estrada teimosamente sinuosa.

Desde o início do álbum, somos impactados pela densa atmosfera duma abre-alas Recanto Escuro, restando prenunciado que tipo de percurso seremos levados a experimentar daí por diante. Como numa viagem carregada de signos múltiplos, o disco flui pelas vias hesitantes dos sentidos humanos. Um eixo filosófico cruza a obra de norte a sul. Talvez aqui um parêntese seja fundamental: considerar que as letras são todas compostas por um inquieto Caetano Veloso. E o ato de flertar permanentemente com os impulsos da modernidade parecem não apenas fazer parte das acepções do compositor baiano, mas também atraem Gal para um terreno pouco usual em sua carreira.

Esqueçamos, temporariamente, da Gal Costa acostumada a interpretar com os arremates puros da delicadeza para considerar que certas ousadias fazem bem a uma artista de trajetória inquestionável. E por que não dizer que Recanto é um disco ousado, forte e necessário?

Num tempo em que a globalização de nossas virtudes e misérias uniformiza até mesmo modos de pensar, o cenário pode ser um pouco menos desolador. Talvez, nesse aspecto, o disco de Gal chacoalhe ideias e pontos de vista buscando afirmar que, entre mortos e feridos, sempre restará algo por dizer. Munida com a armadura de sua magistral voz, ela cruza os áridos caminhos propostos pelo verbo de Caetano e confere um recorte insone à vida.

Não são poucas as canções que traduzem o espírito indócil presente no álbum. Faixas como Cara do Mundo, Autotune Autoerótico, Madre Deus e Segunda reverberam a constatação de que nosso tempo é um verdadeiro painel de imprecisões. Mas é em Tudo Dói que o todo se desnuda. Nela, um exercício de deslocamentos ganha corpo, demonstrando a unicidade dos momentos que ignoramos com certa frequência.

Não seria possível trilhar as vias da dita pós-modernidade sem cutucar a sociedade de consumo e suas clássicas distorções. É o que fica evidenciado em letras como Neguinho e Sexo e Dinheiro. Para ambas, Gal insinua sua verve afirmativa como quem pontua uma adequada crítica ao colossal modelo impregnado pelo capitalismo. Se nessas duas canções os ânimos estão mais ácidos, o contraponto vem da suavidade inserida em Mansidão, música que festeja o dom do cantar, sem dúvida alguma a ferramenta mais preciosa da artista. Noutro momento, ainda há espaço para o estreitar de laços entre o funk carioca e o maculelê, ritmos que se unem acertadamente em Miami Maculelê.

Recanto, sobretudo por sua proposta inovadora, não é uma obra fácil de se apreender numa primeira escuta. É necessário um mergulho mais aprofundado, algo que faça com que os ouvidos percebam as convergências e nuances entre texto, voz e arranjos. Diga-se de passagem, a atmosfera eletrônica é ponto de destaque no disco, evidenciando a alternância de sentimentos ali misturados. Mesmo saindo dessa viagem musical e poética constatando que “tudo dói”, ainda podemos ser atenuados pela singularidade das coisas que fingimos não ver.

 

 

 

 

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Marcantonio

 

Arte: Julia Debasse

ATIVIDADE INTERNA

Há tanto dentro de ti
que não queres conhecer:
flores semi-enterradas
na tua aridez íntima
que não se dão
à carícia afásica dos teus dedos.

Há também um sol tresnoitando
que bronzeia a película das tuas veias,
e do qual não podes suspeitar
na tez pálida das tuas palavras.

Há um regato de vontades
onde peixes desmedidos nadam
– forçosamente anfíbios.

Há uma garça escura
em pé sobre teus intestinos
que bica o fundo dos teus olhos
tão logo comeces a ignorar a luz.

Há muito trabalho no teu interior,
polias, rolamentos e roldanas incansáveis.

Há sim uma oficina que quer abrir fendas
no sono eterno,
que faz hora-extra enquanto tu engendras
dicionários
sem saber que o que te obceca
é a palavra morte,
esse ramo da noite
que carregas durante o dia.

 

 

***

 

 

PLANAR E POUSAR

 

1 – Pluma

Os dedos trêmulos não conseguem pinçar a pluma,
Mordiscam o vazio, estrangulam a cápsula translúcida
Sem constância.

Nem os olhos conseguem acompanhar os espasmos fugidios
Da ciliada fração de asa, tão branca ocorrência de ignorância
Taxionômica.

Ó pluma randômica, em que esquina de voo poderias escapar
Da ideia de pássaro que te aprisiona?

 

2 – Osso

Em vão os dedos intentam escapes diagonais:
Não haverá força centrífuga
Que sagre as falanges distais
Em pterodátilas.
A qualquer quiromancia verruma a artrose
E o vento arrefece nas vias descencionais.

É para o chão que o osso ruma
A despeito da aérea gnose:
Calcifica-se a pluma.

 

3 – Pouso

O pensamento plumiforme
Não poderá tornar às asas
Do livrepássaro:
Perde impulso,
Pousa palavra,
Falta-lhe espaço.

 

 

***

 

 

MESQUINHEZ

 

Eu amesquinho as tuas asas
Enquanto ejeto os meus temores.
Assim, eu mesmo me torno mesquinho
E verto um vinho que não beberia,
Vinho acre de volume amazônico.

Nas vielas em que me vejo
Comigo mesmo não cruzaria
Se fora antes advertido:
É que estou vindo esse ser soturno
Com as mãos nos bolsos sempre.
Quem me garante que não trago
Neles escondida uma navalha
Para me desfigurar o rosto?

Ao menos sei que me avizinho,
E tenho um átimo de segundo
Para evitar a minha má companhia
Em sua descida aos subterrâneos.

 

 

 

***

 

 

ANGÚSTIA

 

Não há recorte no vazio
que espere pela palavra
como o desdentado espera
a prótese que o faça esquecer
dos dentes naturais;
ou como um sorriso sombrio
de bueiro aguarda uma tampa;
ou como uma tomada fêmea
aguarda os pinos;
ou como uma algema aguarda
os pulsos;
ou como uma sequência aguarda
um número;
ou como a casa do punho da camisa
aguarda o botão;
ou como um rolamento aguarda
uma bilha.

A palavra cai num largo vazio,
como uma pedra num cânion,
como na luz difusa do mundo
um parto.

Ou cai num meio fluido
(continente transparente, já ocupado)
qual um comprimido efervescente
no Atlântico:

não é dela a espuma  que vaza na orla
nem o som das ondas é o seu chiado.

 

 

(Marcantonio, natural do Rio de Janeiro, é artista plástico e poeta (ainda não editado em livro). Reside atualmente em João Pessoa. Escreve nos blogs Diário Extrovertido e O Azul Temporário. Seus trabalhos em artes plásticas podem ser vistos no blog-portfólio Cadernos de Arte)

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Sérgio Tavares


Arte: Julia Debasse

 

 As moscas

1.

Airam caminhou até a mesa, matutando o que poderia fazer. Nua, cortou o ar espesso e febril, os pés em carne escura macerando a terra cozida. As moscas esvoaçavam em torno do seu corpo, atraídas pelo almíscar do sexo e a doçura do leite em placas viscosas à roda dos mamilos rachados. De quando em vez, ela consentia aos insetos seus banquetes. Por que somente a criança e o marido deveriam ter direito a essas partes? Airam se retirava até o catre de palha, onde o casal se recolhia, e se solidarizava ao apetite das moscas. As pernas abertas configuravam o convite ao fartum que atraía as famintas. Era, em si, um estado de sossego para Airam. Uma desaparição em deleite e estupor, que transportava suas ideias para um vale de montanhas escarpadas recobertas por gradações de verde e azul, de frescor e absorvência. Sentindo as moscas sugarem o suco da fenda, as patinhas peludas roçagando seu ventre na escalada rumo aos seios, Airam se intoxicava com magras doses de prazer. Um episódio raro de enlevo capaz de evocar epifanias do céu ou do inferno.

2.

Airam acercou a mesa e socou o tampo com o punho fechado. Um gesto feito de brusquidão para deter o choro desabalado da criança e espantar os saqueadores de provisões que se fartavam daqueles restos vitais. Uma nuvem em vários tons de zumbidos ergueu um voo errático, enquanto dois calangos escaparam por uma rachadura no barro que conformava as paredes começando a esfarelar por conta do calor atroz. Os clandestinos respeitaram Airam, a criança sequer por um triz. Os gritos incontidos percorriam a constituição tosca do casebre de taipa, sem fuga naquela caixa abafada e contundente, irradiada pela fornalha do meio-dia. A criança estrilava e se engasgava com o sopro áspero que extraía dos pulmões. Iové era o seu nome. Cinco meses de vida, cria de Airam e o marido, parida sobre palhas pelos meios naturais dos mamíferos. Dor e fome eram a causa do desalento (a carne recém-nascida sendo cozida), conquanto Airam acreditasse que havia uma mentira naquela algazarra, uma ação dissimulada para ruir de vez com sua sanidade.

Do punho fechado, ela dobrou os dedos, aferrando as unhas no tampo. A mesa avariada, conforme Airam, trazia singularidades daquela vida vulgar. Inanidade era a principal delas. A mesa era indiferente aos castigos da estação, não se importando com o surro que se alojava nos sulcos da madeira, com os insetos escrotos que escalavam seus pés. A mesa não reclamava ou sentia. Não se apegava ao desespero da criança. Airam tampouco. Não conseguia, por outro lado, deter a libido do marido que evoluía mesmo sem complacência. Neste caso, ela simplesmente se colocava de quatro, deitava a testa na palha e se entregava à condução dele. O calor certamente tivera a sua parte nos primeiros coitos, mas, de maneira paulatina, o desejo foi minguando à medida que eles pagavam a consequência nociva do ato: a cópula aumentava a fome e atraía mais moscas.

3.

Havia outra razão para a secura sexual entre Airam e o marido. Alisando o tampo da mesa, ela sentia no contato dos dedos as cicatrizes e lascas na madeira, que era a mesma sensação de acariciar o próprio corpo. Airam nua era uma tábua sem espessura e desidratada. Criatura minguada, tinha pernas na feição de galhos secos. Os seios flácidos pendiam num abdômen desenhado por faixas de costelas, pelos pubianos lhe arvoravam do ventre ao umbigo. A tez era escura e lustrosa do tom da resina que antes cobria a mesa. Rosto encovado, olhos grandes e escuros, cabelos crespos na altura dos ombros. Airam tinha em si a vida insustentável daquele deserto, a própria esterilidade do solo. Sua aparência era algo de dar pena. Um corpo fraco, um útero doente. Por duas ocasiões, antes de Iové, ficou grávida durante alguns meses, antes de abortar naturalmente. No primeiro caso, três meses; no segundo, dois. De modo que, ao constatar o atraso da regra, crescia o temor quanto à possível gravidez e, inevitavelmente, a sua descontinuação. Sendo assim, a gestação de Iové foi o pior período em que Airam passou sozinha, mais que os dias perseguidos pela fome ou pelo exício. Assistir às mutações do seu corpo numa contagem regressiva até o momento em que a primeira nesga de plasma deslizou por entre as suas pernas foi cruel o suficiente para anular qualquer traço da felicidade que acomete a mulher que ganha um filho. Airam pensava nisso, alisando ainda o tampo, depois agarrou uma cumbuca e encheu com a água concentrada no fundo da caçamba. Engoliu o líquido com as larvas. A gravidez foi um erro; ter se completado, uma tragédia. Dando vida ao filho, ela se matava.

4.

Iové trovoava a valentia da tempestade que nunca virá. O gume da voz rasgava o ar em golpes grosseiros, lanhava as paredes do casebre sem compartimentos distintos. Em Airam, penetravam as ideias a ponto de fabricarem pensamentos cruéis. Na companhia das moscas, ela se postou sobre o ninho feito de palhas e panos, fitando o berreiro da criança através da proteção de filó. Iové estava uma bola de sangue. Cinco meses com a compleição de um feto, todo em pele e osso senão pela barriga dilatada, um reprodutório de vermes. Tinha cólera, a causa da pasta lodosa que manchava os panos e os flancos do corpo franzino. Por isso chorava, estava sujo e doente. Subalimentado. O cheiro das fezes deixava as moscas em polvorosa, afastando-se do corpo de Airam, e desabando feito contas escuras à procura de rasgadelas no filó que cobria o ninho.

A falta de amparo transfigurava o rosto macilento num esgar afogueado. Chacoalhava os braços em busca de ar nos finos intervalos entre berros e soluços. Iové bramia, rugia, balia, clamava, esperneava e, quanto mais o fazia, mais recendia o ódio em Airam. Era um embuste, ela conhecia aquele pequeno verme. Sabia que toda a choradeira se valia ao único desejo de sugar seus seios. Mas chupar o quê? Estavam tão secos quanto os poços que circundavam o casebre, as árvores que se retorciam até estalar. Se quisesse extrair dali seu sangue, ela estava à disposição. Ainda que, depois de tantas secas, ela soubesse que o sangue deles se tornara uma massa escuriça que não mais derramava da carne. Airam voltou a pensar no sentido da gravidez. Para que vir a esse fim de mundo? Para berrar contra ele? Por que simplesmente não morre em silêncio, da mesma maneira que fizeram os cachorros, as galinhas e os porcos?

Sem resposta, Airam arrastou-se até um canto da parede, onde repousava um cesto de vime. Ali guardava vestimentas e panos, tecidos conservados à temperatura da fornalha. Catou um pedaço de malha branca e retomou a posição sobre o ninho. Iové chorava aos gritos, no entanto, à menção de desatar o nó que prendia as duas caudas do filó, foi aquietando-se de maneira paulatina, prestes a não emitir um silvo. O rosto recuperava a palidez, olhos vidrados nos movimentos pendulares dos seios da mulher acima. O silêncio tão esperado deu-se então. Sobraram apenas os zumbidos das moscas. Um mal menor, contudo. Os insetos se aglomeravam nos pulsos e dedos dela, ferrenhamente em busca de um acesso ao ninho desfeito. Tomada por um gesto só legitimado pela maternidade, Airam umedecia a malha em toques na ponta da língua, em seguida apagava o desasseio no corpo da criança. Iové assistia ao zelo calado; talvez confuso, talvez se sentindo vitorioso. Certa apenas era a avidez para abocanhar os seios doces como as frutas que não sabia existirem.

5.

Minutos depois, Iové estava limpo o suficiente para não causar asco. Airam então o alçou pelas axilas e o retirou da redoma. A entrada franca foi um convite mais que irrecusável para as moscas, que avançaram a toda sobre a pasta lodosa com suas sedes por imundície. Airam sentia a criança. Tão leve e frágil, que seria fácil demais matá-la com uma queda. Um descuido, juraria ao marido. Simplesmente ela teria de recolher os dedos, um por um, e naturalmente Iové bateria de cabeça na dureza do chão. Quebrar o pescoço, uma saída sedutora. Airam puxou um dedo, depois outro, o terceiro e desceu a criança até o alento do colo, apoiando suas costas no antebraço dobrado, a testa colada na armação ossuda da clavícula. Iové se inquietava com o cheiro do leite ressecado no seio, balançando as pernas no ar. Olhos grandes e escuros semelhantes aos da mãe, ela o encarava. Um rumor de excitação, um agito de súplica. Insânia, Airam entoava à medida que descia o braço até a medida do desejo da criança, antevendo a pressão que lhe cobraria um grito. Iové abocanhou seu seio com gana. Uma mordida de gengivas, dolorida e malograda. Matar é bondade aqui, disse para si mesma. E tomada por um nojo próprio, cuspiu, com toda força, no rosto daquilo que tentava extrair dela a vida, tola criatura.

6.

Sob a ditadura do Sol, eles aprenderam a viver entre perdas e punições. A sobrevivência desvalida dessa condição era não só impossível como inarrável. O Sol não permitia rebeliões. Controlava o tempo, os imperativos do corpo, a textura do cenário e os flagelos diários; um reinado fundamentado em repetições. Na aragem da manhã, o avanço do manto nácar vestindo a terra; ao meio-dia, o fervilhar do ar e a explosão das cores; à tarde, o céu maciço em tela de delírios de fogo e o peso do desencanto; à noite, uma ausência furtiva, sabotada pelo cheiro ferroso e o halo de vapor entre as constelações. Os que viviam sob sua tutela, aprendiam a sobreviver segundo sua permissão. Os cárceres do Sol eram ceifados de livre-arbítrio, criados numa colmeia de dissidência e torpor. E, a quem relutasse, o calor se encarregava de ruir a sanidade, perambulando sem trégua entre as rachaduras do solo até esfarelar. O Sol transformava o espanto da vida em condenação desde o parto, preservando a imutabilidade dos dias a fim de não decifrar passado e presente, tampouco futuro. Semeando a desesperação entre os sobreviventes da seca, revelava que suas existências dependiam restritamente de seguir os mandamentos. A vida que tinham era o barro que pisavam, cuspiam, construíam suas moradas, enterravam os mortos e viravam ossos. O barro eram eles; eles eram o barro cozido pelo Sol. Airam, Iové e o marido, todos feitos à Sua semelhança.

 

 

(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente