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84ª Leva - 10/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carolina Caetano

 

Foto: Jussara Almstadter

 

Sou um homem vário
embora nem me possa homem chamar
pelas veias tão finas sob a pele que correm
clara, de penugem alguma
e o ventre mole, de um buraco vasto
para a vida

Sou um homem dum bem
amiúde governado, sou um homem casto
de olhos grandes calados assentados
num ponto ameno, sem água, bicas
sou um homem adestrado, pasmado, sadio
de corpo, almas tardias, sede alguma desde a partida
da voz pela boca
que calou-se, cessou, tem preguiça

Sou um gênio bravo
embora assim não me possam dizer
pois mesmo uma parca rolinha, moribunda, arredia
pudesse-me estar ao lugar e chamar-se de homem
de gênio bravo, com as almas tardias
e os olhos salgados, atravessados
do labor prescrito pelo pão, pelo domingo
eterno que espera
o próximo dia

Sou um homem bruto, arrastado, guardado
como os sumos venenosos em perene trancados
sob o corpo da língua
sem hora para isto, sem o dia daquilo
ou ao menos a roupa secando a esperar-me
nos porvires,
nas avenidas, sou um homem cego, esfregando as antenas às paredes da ida
diária, cegamente sabida

Sou um homem salvo, longo, temperado
levado ao brando fogo da feitura abusiva e serena
pelos donos da vida, desta, daquela, dos nomes das ruas
adormecidas
sou um homem chamado de homem sem que assim possa um deus conceber
sem o sangue largo, desde os dias repetidos em que as palavras ainda infantes foram-me os
[homens levando
amiúde e sem anunciada justa piedosa partida
sou um homem  acertado
com as contas das horas, invisíveis e brancas, são os olhos talvez sou um homem
construído e estourado na noite
reavido e adestrado no dia
sou um homem arcado, cercado, dormente
embora não mos possam levar
os bicos vermelhos dos seios, rijos, eriçados
ao roçar qualquer da primeira brisa

 

 

***

 

 

somente vogais são palavras
aproxima-se um lento rebanho
mudos dentes, palato, tratasse
dist’então minh’então desventura,
mas nem tão se carregam sozinhas
quanto em só já pertençam-se suas

levantam-se pororocas
e delas, abluídas,
emergem vogais despidas
a soar como quem se acorda

eis a só sinonímia possível
quando trota o rebanho em plurais
trotem cais, trotem sais, restam ai
nasçam ai, cresçam ai, morram ai
comam ai, corram ai, riam ai
os mares salgados ai,
veleiros atracam ai

não engole – dizem – tua saliva
de vogal não passa tua palavra
aproxima o rebanho baboso
e à boca encharcada se engorda
trotem sais, trotem cais restam ai
os mares salgados ai
veleiros atracam ai.

 

 

***

 

 

coceira no canto da manhã

 

também não é preciso saber se estamos felizes
temos um navio em cada mão
já é um costume o que era prodígio
em tê-los
o fato é que o casco se colide há tanto tempo contra a água (a mesma, dizemos) que um dia a manhã se torna filha de nossas mãos
ou o mar
ou o caminho impossível da linguagem despiu isto, e é tão, meu deus, como é claro, faz-nos pensar
como papai é um brincalhão, e engraçado, olha o que ele fez!
mas papai sempre esteve morto, e o papai a quem chamávamos Docéu nunca teve exatamente um cheiro característico ou masculino sobre o qual jamais precisássemos esforçar para crer
já mamãe cheira demasiadamente onde está.
Daí o caminho impossível do idioma (ainda a voz) despe isto, tão compreensível quanto fora claro e, meu deus, nossos navios se fundem com as mãos e a manhã torna-se filha dum estranho invisível
que despe-se para nós
Então nós cobrimos os nossos olhos com a pele para dormir
precisamente onde oscilam navios, grandes navios ou leves, como é claro
tanto quanto fora compreensível
e talvez apenas o pecado dalgumas palavras tenha nos acometido
subscrito no caminho impossível das carnes e dos ossos
precisamente onde os navios nunca tiveram pronde ir
e ficam salvos.
Para dormir.

 

 

 (Carolina Suriani Caetano, nascida em oito de setembro de mil novecentos e oitenta e nove. Uberaba. Minas Gerais. Serrado)

 


 

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84ª Leva - 10/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Qual seria o melhor abrigo para um poeta? Refugiar-se no “Olimpo” da criação ou diluir-se por entre o ritual cotidiano dos mortais? Esse tipo de autor é mesmo um ser supremo, ao qual lhe é dada a exclusividade de ver através do escuro do mundo? Talvez passássemos o resto de nossos dias buscando respostas para tais indagações, mas o fato é que há quem se debruce por esses caminhos com um olhar de necessária inquietude. E melhor ainda, ouse atirar seus versos ao vento como forma de marcar sua trajetória de vida. Estes e outros atributos nos servem de guia para entender um pouco do que paira sobre a obra do poeta mineiro L. Rafael Nolli, criador que invariavelmente tem a existência como uma dissonante orquestração de porquês.

Natural de Araxá, Nolli deixa clara em seus versos a pulsão vigorosa e, nalguns momentos, ácida desse desvairado ato que é viver. Não bastasse a marca crítica e irreverente de seus escritos, o autor também sugere um caminho alternativo para o lirismo. Aqui, diga-se de passagem, os dotes da emoção são projetados para um ambiente no qual a contemplação pura e simples vai empunhar outras bandeiras. Nesse ínterim, a inconformidade conduz a voz do poeta e, assim, o texto assume o lugar duma fratura exposta daquilo que representa a miríade sociológica do mundo. O clamor presente em Nolli traz entalada na garganta a espinha dorsal da sociedade de consumo, arregimentando um modo permanentemente insone de conceber tudo aquilo em que nos transformamos. O homem máquina, subproduto duma metafórica e agastada miopia, é personagem predileto da jornada desse autor que, sem fazer concessões de qualquer tipo, não lamenta pelas vias tortuosas da humanidade.

O desejo de poder dialogar com o autor de Memórias à Beira de um Estopim (JAR Editora, 2005) e Elefante (Coletivo Anfisbena, 2012) é algo que há muito permeia o ambiente da Diversos Afins. Assim, ousamos sondar um pouco do que compõe o universo particular de L. Rafael Nolli. O resultado disso implicou na materialização de sentimentos, todos eles bastante coerentes com o que a obra desse incansável poeta contemporâneo sugere.

 

L. Rafael Nolli / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – Sua manifestação poética possui um caráter aguçado diante da vida. Erguem-se imagens e signos diversos em torno duma atitude desperta e crítica. Aceita o atributo de que seus versos são um exercício de resistência?

L. RAFAEL NOLLI – É muito fácil deixar a poesia em segundo plano, esquecê-la em detrimento de todas as atividades banais que movem a nossa vida. É fácil esquecê-la pelo fato de que não há espaço para a poesia na correria do dia a dia, na velocidade em que tudo acontece; é fácil esquecê-la diante do pouco retorno que ela nos dá: são poucos os leitores, escassos os espaços para publicação e praticamente inexistentes os incentivos. Desse modo, escrever é uma forma de resistir, de impedir que eu me torne mais um pobre diabo correndo do trabalho para a casa, da casa para o trabalho, sem tempo para nada que extrapole o óbvio, o superficial.

Em muitos casos, nem é necessário que um poema seja escrito. O fato de ter um poema em processo, sendo elaborado, mesmo que ainda completamente nebuloso, já basta para me sentir vivo. Nesse sentido, acho que o termo “resistir” cai muito bem, pois a poesia é a minha boia de salvação.

O poema do Drummond diz tudo: “gastei uma hora pensando em um verso que a pena não quer escrever. […] Mas a poesia deste momento inunda a minha vida inteira”.

 

DA – Na construção de um discurso que engendra aspectos sociológicos, você consegue afugentar o viés didático e quiçá panfletário atinente a tais reflexões. Percebe isso como um desafio criativo?

L. RAFAEL NOLLI – Tudo relacionado à poesia é um desafio. Com certeza, o didatismo e a poesia panfletária são coisas que quero evitar ao máximo, da mesma forma que o obscurantismo, o hermetismo, o sentimentalismo e o discurso pomposo, ainda que exista certo romantismo em torno da ideia de que a poesia panfletária é menor por não sobreviver ao tempo. E que poema sobrevive ao tempo? Entre os modernistas, centenas de poetas publicavam, buscavam espaço, alguns muito bons. Desapareceram. Tenho um pouco de medo da ideia de que se deve evitar o poema panfletário porque o poeta deve criar algo sublime que irá mudar o rumo das coisas no futuro. Muitos poetas pensam assim, como seres excepcionais que estão criando coisas grandiosas e eternas. Bobagem. Como disse, a poesia é exigente demais. O desafio é enorme, sempre.

DA – Sua resposta anterior lembra muito a questão da chamada angústia da criação, na qual alguns poetas se debruçam num esforço descomunal em torno de um resultado impactante. Há mesmo algum sentido nessa necessidade de se erguer uma obra monumental e que traga em si um status de permanência?

L. RAFAEL NOLLI – Acho difícil uma pessoa criar um projeto de escrita “monumental”, assim como se cria o projeto de uma casa.  Quem dera as coisas fossem assim: bastasse elaborar um plano de escrita genial, colocá-lo em prática e zás, eis mais um Fernando Pessoa! Como disse, a poesia é muito exigente, não existem fórmulas ou métodos para se conseguir um bom poema, não há atalhos. Se um poema permanecerá, pouco podemos fazer para que isso aconteça além de publicá-lo. O resto não cabe a ninguém, é um processo aleatório que independe do poeta. Aí está uma das belezas da poesia, não se pode transformá-la em um fenômeno como se faz com um romance, usando meia dúzia de fórmulas e uma campanha de marketing. O poema corre por fora, como um azarão. Se ele sobrevive, dificilmente isso ocorrerá porque o seu criador o quis assim. A angústia em criar algo duradouro me parece um delírio faraônico. Ela deve ser canalizada para se criar algo honesto, sincero. O tempo faz o resto.

DA – Um poeta, quando “desce da montanha” onde buscava algo supremo, não parece mais coerente com a condição essencialmente humana?

L. RAFAEL NOLLI – Com certeza, é mais coerente. Claro que subir a montanha pode ser importante, assim como foi para o Zaratustra do Nietzsche, que retornou pregando a vontade de viver e o amor à terra. Subir a montanha pode ser também uma defesa, já que o poeta muitas vezes não encontra leitores ou respaldo entre outros escritores. Essa postura de isolamento é muito comum, o poeta se fecha em seu blog ou em um perfil do facebook e faz disso a sua trincheira. Em outros casos, pequenos grupos de poetas constroem uma montanha e lá sobem, impedindo a todos de se aproximarem. O panorama me parece mais ou menos esse: todos sobre montanhas, alguns em grupos, outros sozinhos, cada um falando uma língua, a maioria confortavelmente escondida do mundo. O problema pode mesmo ser a falta de leitores ou de incentivos para aproximar a poesia das pessoas, ou pode ser um problema criado pelos poetas que não querem diálogo nenhum e se sentem confortáveis com a ideia de praticarem uma arte para poucos ou para ninguém. Nesse momento, sinceramente, acho que subir e se esconder não é o melhor caminho. Porém, não estou muito seguro se, ao descer, o poeta não vá conviver com outros senão aqueles que também desceram da montanha.

 

DA – De algum modo, carecemos de desmitificar a poesia rumo a um caminho efetivo de aproximação com os leitores? Se sim, como fazê-lo sem desnaturar o gênero?

L. RAFAEL NOLLI – Não tenho uma teoria digna para esse assunto, apenas especulações. Desmitificar a poesia parece um caminho, mas talvez não resolva o problema. Muitos leitores, de contos, romances, biografias, não possuem livros de poemas em casa. O que alegam? Que a poesia é chata? É difícil, complexa, incomunicável? Como mudar essa visão? Valorizando autores? Está nas aulas de literatura o problema? A impressão que temos é que a poesia está escondida, em sua torre de marfim, e ninguém se arrisca a salvá-la.

Uma ação possível que atraia leitores pode ser retirar a poesia das prateleiras das bibliotecas, ou de obscuros blogs e levá-la à rua. Recentemente, participei de um projeto que unia graffiti e poesia. Após as aulas teóricas, onde se aprendia a fazer moldes, usar as cores, etc, os alunos saíam para a aula prática, espalhando poemas pelos muros da cidade. O retorno foi ótimo. Muitas pessoas paravam – e creio que ainda param – diante dos graffitis e ficavam impressionadas com aquilo. As pessoas se surpreendiam com o que liam e, em geral, tinham dúvidas que foram jogadas por terra pela geração de 22: “mas isso é poesia? Não rima, não fala de amor, tem gírias, palavrões…” etc. Ainda persiste, infelizmente, o conceito de poesia rimada, com palavras difíceis, praticamente incomunicável, distante da vida real. Levar poemas para a rua me parece uma forma de desmitificá-la, aproximá-la das pessoas. Uma parte da poesia produzida hoje é produto laboratorial, feita em salas fechadas, sem uma única janela aberta que dê um vislumbre da rua. Ferreira Gullar diz que “Quando surge uma ideia, vou para a rua. Tenho prazer em conceber o poema no meio das pessoas que passam e nem suspeitam que ali, naquela hora, ele está nascendo”.

Levar o poema até as pessoas, na rua, em fusão, simbiose com outras formas de arte será o caminho? Isso não levaria a uma descaracterização do poema como o conhecemos? Como disse, são especulações apenas.

DA – “Elefante”, seu mais recente livro, vem ao mundo de modo não apenas independente, mas artesanal. Qual o maior significado dessa sua opção editorial?

L. RAFAEL NOLLI – Foi uma opção que fiz e que me agradou muito. Em 2005, publiquei Memórias à Beira de um Estopim. Procurei financiamento em meio a empresas, levantei o dinheiro, e uma gráfica se encarregou do resto. Fiquei com uma pilha enorme de livros em casa, ocupando espaço. Desde então, venho buscando uma alternativa para publicar novamente. É triste depender de empresas privadas para isso. As editoras não estão abertas a poesia, pois essa não vende; os projetos de incentivo, como a Lei Rouanet, por exemplo, são de uma burocracia sem tamanho. Foi nesse contexto desanimador que conheci a cartonaria. A ideia é bem simples e apaixonante, os livros são confeccionados um a um, de forma artesanal, com capa de papelão ou de leite longa vida, sendo que cada exemplar é personalizado, único. Existem muitas editoras fazendo isso, todas são pequenas, sem finalidades comerciais, publicando em pequeníssimas tiragens, muitas vezes com Financiamento Coletivo (Crowdfunding). Assim, resolvi criar uma editora nesses moldes, convidando amigos para ajudar na tarefa. Assim, veio ao mundo meu livro Elefante e uma coletânea, chamada Fórceps, com autores de Araxá. Lentamente, vamos confeccionando os livros, pintando as capas, montando os cadernos, colando, costurando, etc. É um projeto autossuficiente: os lucros, que são mínimos, são investidos em material para se fazer mais livros, criando um ciclo.

 

L. Rafael Nolli / Foto: Arquivo pessoal

DA – No Brasil, como seria possível vislumbrar uma harmonização entre mercado e poesia?

L. RAFAEL NOLLI – Acho cada vez mais que “poesia e mercado” são inconciliáveis. O mercado transforma tudo que toca, formata e modifica para facilitar a venda e ampliar os lucros. Não consigo vislumbrar, nesse sistema em que vivemos, baseado no consumo rápido e desenfreado, um lugar seguro para a poesia. O grande problema mesmo, me parece, é sistêmico: vivemos em um mundo onde tudo é produto de consumo rápido, tudo é descartável. A poesia necessita de reflexão, de tempo. Para piorar, a poesia exige releitura, digestão: quem leu um poema uma única vez não o leu! É um projeto em longo prazo, de compromisso. O mercado exige que a mercadoria se estrague, perca a validade, saia de moda: a obsolescência programada.

A única saída é a formação de leitores. Não há, salvo raras exceções, leitores de poesia que não sejam poetas. O pior em tudo, o mais lastimável? Poetas que sequer são leitores de poesia! Como eu disse, é uma questão problemática, muito complexa. Um exemplo prático: as tiragens de livros de poemas são modestas. Isso ocorre porque não se encontram “compradores” em grande escala. É uma regra simples, o mercado se equilibra em Oferta e Procura e, nesse momento, a palavra poesia mais assusta do que atrai. Vale a pena ressaltar que o problema dos leitores está muito longe da alçada dos poetas. Claro que eles – os poetas – contribuem para aprofundar o problema, mas em geral esses poetas são pequenas peças em um tabuleiro. A falta de incentivos, de editoras especializadas, de espaços para leitura, de debates, de possibilidades de divulgação, a feiras, etc, amplia o problema. Não acredito em poesia como um produto rentável, nem vejo como isso possa acontecer. O que me preocupa é não haver espaço nenhum.

DA – Entre sua porção de educador e a de escritor, quais pontos de convergência considera especiais?

L. RAFAEL NOLLI – São muitos os pontos de convergência. Recentemente, li o livro “Conversas com Elizabeth Bishop”, uma coletânea com as principais entrevistas concedidas pela escritora norte-americana. Nessa obra, ela se orgulha do fato de ser a única poeta estadunidense que vive sem dar aulas. Bishop era uma exceção e nos mostra que a relação escritor e sala de aula não é uma coisa recente. Conheço muitos poetas que ganham a vida como professores. Já que ninguém consegue viver de poesia, é natural que poetas ganhem a vida em sala de aula, como jornalistas, ou algo similar. A sala de aula é um ambiente muito enriquecedor, que possibilita uma troca enorme, não só de informações, mas de comportamento, formas de ver o mundo e interpretá-lo, etc. A sala de aula, como a escrita, exige sensibilidade, percepção apurada, paciência.

 

DA – Há que se combater certos determinismos em matéria literária. Talvez o pior deles seja acreditar que a maioria das pessoas em nosso país é permanentemente desinteressada pela leitura. Em que medida autores também são responsáveis pela manutenção desse discurso?

L. RAFAEL NOLLI – Infelizmente, somos um país de não-leitores. Os números não mentem: temos 8% de analfabetos (algo em torno de 10 milhões de pessoas), apenas metade da população pode ser considerada leitora. A média de anos de estudo é ridícula: 7,4 anos! Ou seja, a maioria dos brasileiros não possui o Ensino Fundamental completo. Por fim, outro número dessa tragédia: nossa média de livros lidos por ano é de apenas 4! Isso sem entrar no mérito referente à qualidade literária dessas obras! Digo isso sem cair no erro do determinismo, que é uma enorme bobagem.

Acho apenas que o desinteresse, que é real, não é permanente, imutável. Trata-se de um momento, já extenso e duradouro, que é fruto de uma série de problemas que têm raízes profundas. Porém, nada impede que essa realidade mude. Falta incentivo, interesse político, boa vontade da mídia e não sei mais o quê. Uma dezena de motivos. Tenho certeza de que se as pessoas tiverem acesso ao livro, o problema será resolvido, pois não conheço nada melhor do que ler. Temo que muitos grandes livros estejam perdidos, esquecidos, aguardando uma geração de leitores.

Sempre ouvi dizer que a leitura nunca vai ser incentivada pois “um povo que lê não pode ser enganado”, “um povo que lê sabe cobrar os seus direitos”, “sabe votar”. Sei que isso é uma ideia romântica, idealizada, bobinha. Mas não creio que seja uma ideia totalmente errônea. Ler pode mesmo fazer a diferença, mudar o rumos das coisas, ainda que não seja uma ação voltada para isso. Conhecimento é poder? Com certeza. Sabemos que temos muitos nos governando que nunca mais seriam eleitos se o povo passasse a buscar mais informações. Parece teoria da conspiração? Pode ser. Mas não vejo outro motivo plausível para tamanho desprezo, por parte do poder político e da mídia, que explique essa situação.

Com todo o exposto, o papel do escritor, nesse caso, me parece muito pequeno, pois ele luta contra uma máquina poderosa, muito maior do que pode imaginar. O papel dos escritores deveria ser apenas o de escrever bons livros. No entanto, isso não basta, é preciso lutar contra essa máquina. Como lutar? Recorro mais uma vez ao Drummond: Posso, sem armas, revoltar-me? Espero que sim.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

L. RAFAEL NOLLI – Essa é uma questão interessante. Em duas ocasiões, estudei, no sentido mais didático da palavra, a pós-modernidade: quando me formei em Letras e, posteriormente, em minha graduação em Geografia. É um assunto interessante, muito enriquecedor, porém, algo complexo, difícil. Não endosso, por exemplo, esse conceito de que as ideologias morreram, que não há espaço para utopias, que o século XX enterrou todas utopias.

Reconheço que o século XX mostrou o fracasso de alguns modelos de socialismo. No entanto, o socialismo, enquanto ideologia, continua vivo, atual, e urgente. Novas tentativas podem ser feitas, já que o arcabouço ideológico é enorme, riquíssimo. O capitalismo nunca deu certo e estamos aí assistindo a tentativas e mais tentativas de mantê-lo de pé. Por que não com o socialismo? A ideia de que não há mais por que se lutar me assusta muito. Quando alguém cita Fukuyama, me dá um arrepio horroroso na espinha. É uma grande idiotice acreditar que a história chegou ao fim. Esse finitismo é um veneno para a sociedade – com reflexos sombrios sobre a arte.

DA – Abraçando a noção de se travar embates pela palavra, em que nível de percepção está a poesia de L. Rafael Nolli?

L. RAFAEL NOLLI – Essa é, com certeza, a pergunta mais difícil de todas. Eu escrevo, mas isso é um processo que não domino ou entendo por completo. De repente, tenho uma ideia na cabeça e sei que essa ideia vai virar um poema (ideia é uma péssima palavra para descrever esse processo, mas não consigo pensar em outra melhor). Ou seja, é um trabalho inconsciente que não está sob as minhas ordens. Lógico que depois de escritos posso juntar esses poemas e tentar entender o que eles abarcam, notar familiaridades que revelam um padrão, que criam um eixo. Agora, em que nível de percepção eles estão? Realmente, não sei. Temo que seja impossível sabê-lo!


*Alguns poemas de L. Rafael Nolli podem ser lidos aqui

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Assis Freitas

 

Foto: Jussara Almstadter

 

Sob a fina caligrafia de um blues

 

quem não se sabe dor
é matéria rara
se achegam os espinhos
das rosas do caminho
acodem os açoites
do limo de tanta noite

quem não se sabe dor
é matéria rara
assim se percebem olhos
no avesso das lâminas
como mancha, nódoa
quem vive cego em anelos

 

 

***

 

 

Suíte burlesca para um diálogo com a ausência

 

foste tu nesta distância de muitos quilômetros
a ilha, a quimera, o oásis, pasárgada dos dias
a cotovia desavisada que insinuou a primavera
foste tu que me impuseste silêncio e ausência
nesta seara de corpo que se move em frêmitos
no olho arredio que já se despediu das estrelas
foste tu, este eterno assovio em minhas retinas
a mão que agitou o delicado trovão da espera

 

 

***

 

 

Nenhum silêncio vaza do relâmpago

 

Tudo se perde neste ermo
Neste tecido de linguagem
Nada se fixa nas retinas
Nem o ar soprado do lábio

Espaço sem memória
Flecha solta em extravio
Até teu nome se apagou
Na tez da lâmina, por um fio

Tudo se perde neste ermo
O caminho da nuvem em líquen
A consagração do fogo e do cravo
Este turbilhão que emana do raio

p.s. “Sei que estou vivo
entre dois parênteses”

 

 

***

 

 

Sobre a tessitura do sonho e outros desalinhos

 

havia que tecer a palavra
ainda que fosse a última
e nela contivesse o sumo
a essência que foi estrada

havia que tecer a palavra
mesmo que fosse desatino
e nela contivesse o âmago
frio caos: único e palpável

 

 

***

 

 

Ária para voo de asa breve

 

mergulha o silêncio
em meus olhos
e liberta a alma
do pássaro que
se interroga
em minha mão

 

 

***

 

 

Berceuse de náufrago para refúgio de temporal

 

dos olhos quero a dobradura do pranto
o mar desavisado a banhar-me o canto

do peito perquiro naus e refúgio de vela
o feitiço de cordas rugindo em rebuliço

do coração nada posso intuir em prece
há o desvão de sílabas em passo célere

 

 

***

 

 

Improviso para lâminas, pedras e oboés

 

afio nas pedras minhas retinas
fio por fio a coser melancolias

e o fino tecido a que me alinho
flui na imensidão devagarinho

colho nos olhos rios de algaravia
do aturdido caminho sem utopia

 

 

(José de Assis Freitas Filho é poeta, escritor, sociólogo e mestre em Letras (UFBA), nasceu e mora na cidade de Feira de Santana-Ba). Em 1998, publicou o livro de contos O Mapa da Cidade, pela Coleção Flor de Mandacaru do MAC de Feira de Santana. Em 2009, lançou o livro de contos O Ulisses no supermercado como prêmio do concurso CDL de Literatura de Feira de Santana. Em 2012, publicou O ano que Fidel foi excomungado pela Editora Penalux. Lançou, em janeiro de 2013, o livro Poemas de urgência para súbitos desalinhos pela Editora Multifoco. Edita os blogs: Mil e um poemas e Árvore da poesia)


 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Destaques Olhares

Olhares

O gosto permanente da redescoberta

Por Fabrício Brandão


Foto: Jussara Almstadter

 

Uma das grandes perspectivas trazidas pela fotografia é o fato de podermos perceber as coisas como se pela primeira vez. Sentimento tal que, diante das horas, esquecer-nos-íamos do turbilhão que nos assola e não mais desprezaríamos aquilo que passa sempre ao largo de nossos olhos. Então, surge o questionamento: como ressignificar uma rotina que se acredita eivada de desbotados tons?

Quiçá a fotógrafa Jussara Almstadter possa nos auxiliar a responder um pouco a indagação deixada acima. Dona de um trabalho que agrega olhares incisivos sobre as coisas, Jussara está mais para o enfrentamento do que para a fuga quando o tema é redimensionar cenários de vida. E como quem busca um sentido original para os lampejos que nos acometem os dias, a artista vai tornando suas imagens verdadeiros instrumentos de contemplação dos mistérios humanos.

Aos poucos, fragmentos do cotidiano vêm marcados por uma forte carga subjetiva nos registros imagéticos da artista. Em vários momentos, paira a sensação de que o universo humano ali caracterizado reflete um desejo de retorno ao ponto sublime das coisas, como se o contrário do tempo pudesse representar uma via serena de renovação.

Foto: Jussara Almstadter

Em Jussara, não são poucas as oportunidades que temos de compartilhar desse mergulho por caminhos que nos chacoalham as certezas. Trabalhos como Cemitério da Saudade (uma evocação à permanência da existência), Gestual Caleidoscópico (cuja virtude maior é vislumbrar uma ordenação poética para nossas expressões) e Umbanda (série que exalta a harmonização entre corpo e alma proporcionada pela fé) possuem uma importância fundamental para a trajetória da fotógrafa.

Com incursões também pelo desenho e pela escultura, Jussara formou-se em Fotografia pela Escola Panamericana de Artes e Design. Sua relação com a imagem vem desde a mais tenra idade, tendo no ambiente familiar uma importante motivação.

Um dos trunfos de se captar da luz seus flagrantes é a possibilidade de conferir uma outra amplitude aos objetos retratados. Nesse processo, tanto pessoas quanto lugares recebem um tratamento que amplia sua individualidade, como se um perene movimento de retorno fosse sempre impulsionado rumo ao universo externo que nos aguarda. Assim, Jussara Almstadter é porta-voz dum sentido circular das coisas, aprimorando sensações e retroalimentando a roda viva do tempo. A partir dela, não há um fim para a viagem, apenas o ato de cruzar o caminho de nossas costumeiras complexidades e retirar disso um valioso proveito.

Foto: Jussara Almstadter

* As fotografias de Jussara Almstadter são parte integrante da galeria e dos textos da 84ª Leva.

 

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ehre

 

Foto: Jussara Almstadter

 

verbal life

 

no avesso do dia,
lídice aponta o indicador
e desenha sobre a pele
como tatuagem,
um totem para seu libelo:
ama e ao mesmo tempo

disfarça
esquece
esconde-se
divaga
declina
e cala-se

seu archanjo guarda nos olhos
seis âncoras
e lança uma garrafa
com sete linhas ao centro:
disfarce é a neblina do sujeito
……que esquece
……esconde
……divaga
……declina
.e permanece calado

em seu presente imperfeito
amor é  predicado

 

 

***

 

 

flavors

 

I

entre as paredes de vidro da metrópole, ele tem sempre à mão:
um aparelho de telefone móvel regado a 3G,
um tablet empanado com tela fulll HD de 10 polegadas,
um notebook com o recheio de sete contas em redes sociais
e diria um olhar venusiano, desde a janela de uma estrela,
que ele é um sucesso de interação,
mas o ouvido de uma lagarta estacionado em seu quarto no domingo à tarde
concluiria que ele é sinônimo de solidão avançada

 

II

no subúrbio do mundo, no mural de uma caverna
escreveram um beijo com a ponta afiada de uma pedra

 

 

***

 

 

A A.

 

Os sentidos submersos no copo

O corpo
beijando a calçada como se fosse carne,
mas era líquido.

As talhas abarrotadas…

Agora o milagre
é transformar o vinho.

 

 

***

 

 

linha de voo

 

há uma luz que não é janeiro ou manhã
mas chega entre o fim de tarde e seu ocaso

há uma fé que desafia
………..o chão
………..o muro alto
………..o cansaço
………..gente tem por vocação horizonte

amor anda para trás só antes            do salto

 

 

***

 

 

gardênia

 

A flor violentou o muro
da divisa de pedras que a cercava
Já não temia a estrada vertical
Seus pés
brotando
e dizendo:
Crescer não é ter um número a mais
mas um temor a menos

 

 

(Ehre. Nasceu aos onze meses. Aos nove, ainda não sabia que viver era um mergulho para cima. No tempo que tardou para nascer, colecionou espantos. Muitos deles revelados nas janelas dos poemas. A cada dia aprende que escrever é um mergulho para o fundo)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Aperitivo da Palavra

Ciceroneando

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

Não há dúvida de que os caminhos da liberdade são os mais caros que possuímos. Diante de possibilidades infindas, dar um norte às escolhas pode representar uma posterior celebração de acertos. Com o tempo, vamos aprendendo que não há respostas para tudo o que supomos essencial em nossa trajetória pela vida. E a arte, de um modo geral, vem nos lembrar isso, tendo em vista que seus personagens frequentemente vestem o manto do insondável. Se o fluxo constante de indagações faz par com a existência, bem sabemos que dessa estreita relação surgem cada vez menos certezas.  Assim, rumamos ao desconhecido, vivenciando um status de deriva que escamoteia alguns vestígios, principalmente se a busca encerra alguma tentativa de retornarmos ao ponto de partida. No conjunto editorial que intenta harmonizar imagens e palavras, recepcionamos vozes de diferentes mundos, todas elas a ecoarem seu canto de vida. A julgar pela proposta contida nos trabalhos da artista plástica Denise Scaramai, temos a sensação de que as virtudes advindas da liberdade conduzem melhor nossos sentidos e percepções.  Tomados por essa atmosfera de cenários ricos em singularidade, testemunhamos os versos de autores como Diego Callazans, Mariana Ianelli, Wilson Nanini, Natacha Santiago e L. Rafael Nolli.  Partilhando de um ritual de mistérios e revelações, o poeta Edson Bueno de Camargo é o entrevistado da vez, conversa que, além de abordar aspectos relevantes de sua obra, nos mostra um autor devidamente engajado com as questões afeitas ao pantanoso terreno da literatura. O escritor Sérgio Tavares mostra sua leitura para o coletivo de contos “82 – Uma Copa l Quinze Histórias”. Larissa Mendes comenta o mais novo filme da diretora Sofia Coppola. No trajeto que redimensiona cenários de vida, nos deparamos com os contos de Mayrant Gallo, Airton Uchoa Neto e José Pedro Carvalho. Na segunda e última parte de seu percurso pela história do Teatro, Fernando Marques arremata suas considerações sobre o livro de Margot Berthold. Também por aqui, toda a leveza presente no segundo disco solo do guitarrista Rodrigo Bezerra. Com a sede por novas vias, uma 83ª Leva nasce primando pelo sentimento de que continuar é algo imperativo.

Os Leveiros

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Wilson Torres Nanini

 

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

 

 

boi

 

I

apenas a metafísica
de nossos mitos
explica-nos
– enquanto o boi ergue a cauda
e produz matéria

II

solene,
com mãos transfiguradas,
afago na
(dele) face minha hoje
escassa identidade

III

no meio-dia sem álibi
na meia-noite sem alento
o boi (peso, pelo e poesia
isenta) se indifere pois
intui que plenitude é
– rente ao prazer manufaturado –
deitar-se entre flores
na relva úmida
e lamber apenas
as próprias narinas

 

 

***

 

 

redemunho

                para líria porto

circum-arisco vento célere
– que fico o sigilo do chão de um rio –
em plena empoeirada rua

o sol me cega me sega o sol o sol me seca
o tato e sinto a sede tanta
de um mar interno

e para que meu cerne se reensolare
– poesia não duela afagos
(meço apaziguamentos
peso ausências) –
você me traz alumbrado mar

me relenta me
cataventa

me estende versos em lamparina
adivinhando enfim onde é
mais noite em mim

 

 

***

 

 

anestésico

 

canto andrógino de febre-em-mel
a sereia arisca arpeja
: seu arpão oculto
na vulva

“silêncio me
fronteiriça”
eu esfinge
esquecida da pergunta

beijos
filtrar
com acidentes
as epidemias
até deixá-las
potáveis

enquanto isso
você me
nina

você me
conta
de fadas

 

 

***

 

 

dócil

 

penso gérberas teus
cabelos – cerzir
pudim de leite em pétalas
fotografar o abandono
do olhar de cães caídos da mudança

seios cor e gosto
de arroz-doce
olhos cor de rosa filtram
escurezas – dão de cântaro
relento (ado
cicada febre)

ninar com reza o
precipício sempre prestes –
açude de
assombro e ferrugem

penso paz teu riso
varal com teu vestido
de cambraia ao vento
com um (po)
mar ao fundo

 

 

***

 

 

cor de rosa

 

te dou desdonzelice
o doer que apascenta
algo em ti a um só tempo
noiva e bicho

doer
(pupilas sequestram
o céu o
convertem
em escuridão filtrada)

busco agasalho ou homizio?
vestido querendo
transmutar-se em
pássaros para
adocicar bueiros e óbitos

: a vida de
volvida do
fóssil

 

 

(Wilson Torres Nanini, autor do livro Alcateia (Editora Patuá, 2013), nasceu em 1980, em Poços de Caldas/MG, e vive em Botelhos, Sul de Minas. Participou da Poemantologia da Revista Arraia PajeúBR. Edita o blog Quebrantos, Relances e Abismos ao Relento)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Bling Ring – A Gangue de Hollywood (The Bling Ring). EUA. 2013.

 

 

Sofia Coppola, mais do que ninguém, gosta de imergir no universo superficial do ser humano, principalmente quando ele vem regado de dinheiro, status e glamour: algo que ela conhece bem e ignora ainda melhor. Guardadas as devidas proporções, a temática foi abordada no drama existencial das irmãs de As Virgens Suicidas (1999), na solidão do ator decadente em solo oriental, em Encontros e Desencontros (2003), no falso poder da princesa Maria Antonieta (2006) e, mais recentemente, na vida fútil do astro às voltas com a filha adolescente em Um Lugar Qualquer (2010). Em seu quinto longa, Bling Ring – A Gangue de Hollywood, a cineasta acompanha a história verídica de um grupo de abastados jovens de Los Angeles que invadiam e roubavam mansões de celebridades (de quem eles admiravam e invejavam o “lifestyle”), enquanto elas estavam viajando ou participando de eventos não menos badalados, e exibiam seus feitos e furtos em festas e fotos compartilhadas com amigos.

A líder da gangue, Rebecca (Katie Chang) e seu melhor amigo Marc (Israel Broussard) localizavam as casas de suas vítimas por meio do Google Street View e seguiam suas agendas pelo canal de fofocas TMZ. Nicki (vivida pela inglesa Emma Watson, mesmo não sendo protagonista, a grande estrela e chamariz do filme), Sam (Taissa Farmiga) e Chloe (Claire Julian) também integravam o grupo, que entre 2008 e 2009 roubou cerca de 3 milhões de dólares em dinheiro, roupas, sapatos, joias, bolsas e demais artigos de luxo, de afortunados como Paris Hilton, Lindsay Lohan, Orlando Bloom e Megan Fox. A propósito, a socialite Paris Hilton faz uma ponta no longa e empresta sua residência-vítima como locação. Outro que tem sua presença subestimada na trama (e passou praticamente anônimo à crítica) é o vocalista do Bush (e marido de Gwen Stefani), Gavin Rossdale, no papel de Ricky.

Bling Ring começa de forma intensa ao som de Crown on the Ground, do Sleigh Bells (aliás, a trilha sonora continua sendo o ponto forte de Sofia, que traz ainda Azealia Banks, Kanye West, Rihanna, MIA e o melhor do gangsta rap) com cenas de câmeras de segurança que registram a movimentação dos jovens numa das mansões para, então, contar o que se passou no ano anterior. O filme mescla os fatos ocorridos com recortes de declarações da quadrilha em estilo de documentário, postagens em redes sociais e cenas do julgamento.

 

Parte da “gangue” em cena de “The Bling Ring” / Foto: Divulgação

 

Baseado na reportagem ‘Os suspeitos usavam Louboutins’, publicada em 2010 na revista Vanity Fair pela jornalista Nancy Jo Sales, que entrevistou todos os envolvidos no denominado ‘Caso de Calabasas’ (em alusão à cidade californiana que fica nos arredores de Los Angeles), Bling Ring foi transformado também em livro e lançado no Brasil pela Editora Intrínseca. Numa tradução livre, bling ring significa “anel de brilhantes” ou “liga da ostentação”. A obra aborda a obsessão pelos holofotes, a alienação da juventude através de álcool e drogas, o fascínio pelo gangsta rap (nosso correspondente ao funk ostentação?), a fragilidade da segurança patrimonial e o culto à exposição. Ainda que pouco denso, mais uma vez Sofia Coppola faz um filme de estética pop, leve e reflexivo. De modo sensível e peculiar, a cineasta assina roteiro, direção e produção do filme. E como de costume, de forma ponderada, porém jocosa, imprime sua crítica sobre a fama e a ostentação. O fato de não se aprofundar nos dramas familiares dos personagens, o que possivelmente enriqueceria o enredo, que, vez ou outra, torna-se previsível por repetir inúmeras sequências de ‘invasão-roubo-fuga’, foi pontualmente uma opção sua em primar pelos rasos e banais sentimentos contemporâneos, dos quais também somos cúmplices, réus e reféns.

Bem-vindos, mais uma vez, ao mundo de Sofia.

 

 

(Larissa Mendes é cinéfila e consumidora voraz da grife Coppola)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Natacha Santiago

 

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

 

Contraste entre sábanas

 

A un Escorpión

El dulce dolor de tu mordida
– cepo en mi nuca –
compele a la reflexión de los  motivos
Estocadas recibí en el combate
que me enlazan a tu designio
y hacen brotar manantiales de mi sexo
Repliego posiciones
asumo riesgos  necesarios
accedo al parlamento de tu boca   aún sin palabras
cruce de labios o lenguas
Intercambio de fluidos
reclama      sin condiciones
esta víctima feliz
de tus excesos.

 

 

***

 

 

Oda a tus manos

 

Tus manos son braza de contraste heráldico
que preludian el lúbrico camino
arrebato sensorial sin límite en la puesta
traspasando barreras de tiempo y circunstancia.
En fruta jugosa convierten  la alusión
…..con su virtual  beso   al tacto simultáneo
…..en el feroz centro requerido
Tus manos acarician el crepúsculo
sus huellas perduran al albear
y están aquí en las mías       en la fertilidad del ocio
que las suplantan en segundos  de  ardor
………………………………..cuando  tu  figuración
…………………………………mantenida al borde
………………………………………irradia
…………………………..y   colapsa  el  Universo.

 

 

***

 

 

Una tarde     una vida

 

No asombres ni dudes    si ingenua  confieso
vivencias  fabulosas
espíritu y materia del hombre necesario
persistentes      repercuten
…………..sin él saberlo
como eco en lo insondable.

 

 

***

 

 

Natural demente esplendidez

Por la  Magia  marina

Por no enfermar  enfermo
sufro la locura de la no consumación
como si no existieran la hostia y el cádiz
aquí me aculpo         auto-flagelo
me  fustigo
..(Fetichista acaricio el  papel que tuviste entre tus manos)
¿Con que herramientas desentrañar los absurdos del oráculo?
Resulta  incomprensible tu signo de soledad
pende sobre mi cabeza y la colma bajo formas literales
de lo que debiera ser acción
……………………..(te estoy sintiendo dentro)
Por tu influencia magnética
percibí la necesidad de protección
ante  el sello del contagio espiritual
después       fui cediendo sin decirlo
…………………….(te estoy sintiendo dentro)
la inercia conduce hacia tu magia
te debo múltiples caricias
múltiples atrevimientos y hermetismos
la gravitación universal me lleva a ti
inevitable me derramo
por la sobrenatural convergencia que adivino

 

 

(Nascida em Havana (Cuba), Natacha Santiago é poeta, escritora e professora universitária. Atua também como roteirista de tv e rádio, e produtora cultural. Recebeu vários prêmios nacionais e internacionais com sua poesia, além de integrar publicações em países como Argentina, México, Áustria, Espanha, Peru, entre outros. Vários livros seus ainda permanecem inéditos)

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Airton Uchoa Neto

 

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

 

ANÔNIMO E SEM DESTINATÁRIO

 

Ele tinha quase dois metros e menos de setenta quilos; longos e antigos dreadloacks em amarelo sujo caíam sobre o seu rosto e escondiam os olhos vazios de cegueira; seu aspecto era mais propriamente desgastado do que envelhecido. Uma forma mumificada de juventude. Ele tocava um grande berimbau grave comprado décadas atrás num litoral ainda mais isolado e inóspito. Talvez tenha comprado quando ainda achava que seria apenas um turista. O chapéu desbeiçado de náilon aos seus pés esperava moedas. Um hippie holandês radicado por aqui que ignorou a passagem do tempo e ganha a vida esmolando de praia em praia, me disseram, e tocando seu berimbau. Um som circular que entrou na minha cabeça e não saiu. Um verme de ouvido que ia me acompanhar até eu conseguir dormir. Essa foi, estranhamente, a primeira imagem que me ficou de Camocim.

Aproveitar o feriado prolongado. Aproveitar o tempo. De tanto os amigos insistirem eu aceitei, sabendo que ia acabar chateado. O desfile dos biquínis coloridos das suas namoradas jovens e falantes só ia me deixar triste. As conversas sobre carros novos, TV a cabo, condomínio, pensão, banda larga de internet, campeonato brasileiro e as piadas de escritório e repartição regadas a álcool só iam me chatear. Não por inveja, mas por deslocamento: permaneci professor, morei com os pais enquanto pude, me viro com uma televisão de doze polegadas em preto e branco made in China com seletor de canais a giro. O seletor quebrou faz tempo; tenho que trocar os canais com um alicate. Moro numa pequena quitinete de poucos móveis no Quintino Cunha. Uma pobreza sóbria de antigos espanhóis do Mediterrâneo, como diria o Camus num ensaio. Do ensaio eu só lembro essa frase, mas talvez me lembre bem o bastante pra tentar viver de acordo com ela.

Me disseram que trariam uma moça solteira. Uma indireta. Uma tentativa deles pra que eu não ficasse deslocado. Não nego que pensei nisso como numa possibilidade, mas sem o desespero adolescente que torna coisas tolas em questão de vida ou morte.

Aproveitar o feriado prolongado. Eu já tinha uma folga natural no dia anterior, e aproveitei pra chegar mais cedo. Aproveitar o tempo um pouco só. Aproveitar o tempo sem que o silêncio e a falta de assunto incomodassem os outros. Quando cheguei vi um homem impossível tocando um berimbau impossível. E o som circular ficou na minha mente até eu conseguir dormir.

Se desculparam, na recepção da pousada, pela falta de energia. Souberam, pelo rádio, que o apagão tinha atingido todos os estados do nordeste, como sói acontecer. Não liguei; eu precisava dormir; a viagem de ônibus é longa. Dormi sem sonhos assim que entrei no quarto; eram ainda cinco e pouco da tarde; o som do berimbau se apagou aos poucos e até embalou o começo do sono. Meio memória sonora meio música ao longe. Dormi sem sonhos como uma pedra que afunda até a parte mais escura da água, onde nenhum som aberto podia me alcançar.

Acordei cedo, livre das lembranças do sono, surpreso por não estar em Fortaleza e porque não ia precisar trabalhar. Um turista repentino. Nem sequer vi os funcionários da pousada, ocupados que deviam estar em outros quartos ou na cozinha, preparando o café da manhã que não precisei agradecer e recusar (estava sem fome). Deixei a chave na recepção e fui sentar nos bancos protegidos do coreto, diante da barra e da ilha do outro lado. O sol ameno. Ainda não havia ninguém. Mesmo os nativos devem ter aproveitado a véspera em nome da embriaguês. Eu estava sóbrio e disposto a ler alguma coisa antes que eles, os meus amigos, chegassem, e levava comigo um livro de bolso que me lembrava o passado. Era um livro dedicado. A letra era feminina e a mensagem se direcionava a mim. “Para a criança que ama mapas e gravuras, todo o universo se assemelha ao seu apetite vasto [para Cário, El Misterioso]”. Eu sei, o autor na verdade é Baudelaire e esses versos se encontram dentro do livro, mas ela escolheu os versos – comodamente do começo de um poema –, traduziu por conta própria e dedicou o livro a mim.

Por causa dela comecei a ler livros e a prestar atenção nas canções, a ouvir músicas instrumentais, a gostar especialmente de Thelonious Monk e a ver filmes em preto e branco falados em línguas distantes. E rapidamente ela me considerou um bom amigo e isso durou muitos anos, mas eu sempre quis outra coisa. Ela se casou com um bruto endinheirado, foi o que eu soube pela última vez, quero dizer, também ouvi falar que ela tinha se separado e há boatos de que ela se envolveu depois com um jovem casado que vivia prometendo se divorciar pra ficar com ela e por causa das crianças o divórcio nunca saía. Não sei o que é verdade e o que é mentira. Faz muito tempo que os caminhos se partiram, desde aquele dia em que ela me abraçou e foi embora sem saber que depois eu ia tomar o maior porre da vida e ia acordar na praça da igreja, quase na esquina da Pasteur, sem nada nos bolsos, com a cabeça martelando e o sol do meio-dia cozinhando as pupilas. Traduzo agora por mim mesmo o Baudelaire. Certa manhã partimos, a mente em chamas, o coração pleno de rancor e de desejos amargos. E poderia ter pensando, se fosse possível pensar, nesses versos naquela manhã da qual ela nunca teve e nunca terá notícias. Não, Zâmia nunca soube disso.

Era esse o seu nome; se chamava Zâmia. E achei que nunca mais nos veríamos.

Não pude acreditar quando, aqui em Camocim, nesse banco de coreto, as mãos dela cobriram os meus olhos na manhã de ressaca alheia e ainda sem ninguém e eu reconheci de imediato que eram as mãos dela. Zâmia, os loucos cabelos de cobre e as roupas frouxas floridas e as atitudes impensadas quando eu tinha tanto medo de tudo e pensava demais e a poesia era um divertimento masoquista do meu cérebro. As mãos estão mais ásperas e ossudas. Vinte anos não passam de graça pra ninguém. Mas eu reconheci seus dedos alongados de extraterrestre, como diria um amigo sobre uma moça que lhe pareceu meio egípcia. Era ela, depois de tanto tempo e por acaso. Tive mesmo o pensamento sem sentido de que os companheiros teriam chegado um pouco antes e que Zâmia, que eles teriam conhecido não através de mim, seria justamente a amiga solteira que eles pretendiam me apresentar.

Mas eu me lembrei do passado. Depois de tantos anos eu ia ter mais uma sessão daquela tortura a fogo brando de conviver de perto com o amor inalcançável. Ela imaginava o que eu sentia, mas não sei até que ponto. Agora ela devia imaginar que já tinha passado pra mim, e eu mesmo achei que sim, que tinha passado. O livro era apenas uma boa lembrança e, antes de tudo, uma leitura densa, das que valem a pena. Les fleurs du mal. Ela mesma me deu e me dedicou, mas ali só o que me interessava era o livro. Até que as mãos dela retornaram do passado e me proibiram a releitura dolorosa. E quando eu menos esperava foi a leitura dessas mãos que me trouxe mais dor ainda. Não passou, mas ela deve achar que sim, e eu vou fingir que passou pra que ela não se sinta mal ou constrangida. E eu desejava a tortura a fogo brando. Queria me iludir, ver nos olhos dela que eu me tornava uma possibilidade depois de tanto tempo. Há mais possibilidades quando a gente se preserva menos, e já éramos velhos demais pra nos preservarmos. Tanto pra nos preservarmos quanto pra nos expormos.

Por que eu não desenhava alguma coisa pra ela ver, como antes? Não sei se ainda sei desenhar e estou sem papel. Ela sacou um pequeno bloco de papel em branco e me arranjou um inusitado lápis F mais ou menos apontado. Ela se lembrou do meu gosto por lápis F e como eles são difíceis de encontrar. Mas ela não podia saber que ia me encontrar. Aquilo também era apenas uma coincidência, mas era quase impossível resistir à tentação de achar que tudo era um sinal, a tentação de me iludir mais uma vez.

Desenhei o balanço desgastado e quase quebrado que ficava na praça escondida perto da Theberge, vizinho a um colégio público que homenageia não me lembro quem. O balanço ficava ao lado do banco onde a gente conversava e bebia composto de uva nas noites de sábado. Bebíamos e conversávamos até tarde. Ela não se preocupava com nada e eu voltava pra casa tonto de álcool ruim e com um furacão no peito. Ela achou o balanço muito parecido não com esse do passado, mas com o que estava ao nosso lado. Eu não tinha reparado. Olhei e lá estava ele, tão velho quanto era no nosso tempo, mas numa praça de Camocim. Aquilo não podia ser. Mas era, foi o que ela disse, sem se preocupar, e se despediu de mim com um beijo casto, tão quente e doloroso quanto aqueles do passado.

Apenas isso de tanta coisa. E nada mais além da suspensão de mim mesmo. A história podia continuar na minha mente e desembocar eternamente no nada desse instante inexplicável. Apenas mais uma espera paciente pelo que não vem, como diria o cancioneiro do Montese. Ela se foi. Só queria me cumprimentar; afagar uma parte do passado divertido e seguir adiante; eu não devia valer mesmo mais que isso e ela já não tinha assuntos comigo. E nem adianta que eu mesmo continue falando sozinho. Repisando como quem precisa ouvir constantemente a mesma música. Zâmia cegou meus olhos, queimou meu rosto e partiu. Essa seria minha canção interminável pro infinito.

Ela dobrou a esquina e a vida local ainda não tinha recomeçado. Olhei pro balanço impossível e ele rangia. O vento, ou o fantasma precoce de crianças infelizes, balançava as cadeirinhas vazias.

Tomei um susto quando um dos colegas me ligou perguntando onde eu estava, que já tinha me procurado na pensão e que ninguém tinha me visto sair. Viram apenas as chaves. Estou nos bancos do coreto, ao lado de um balanço velho. O sol está ameno. Ainda não tem ninguém por aqui. Também estou aqui, ele respondeu, mas deve haver um engano: nunca senti um sol que fortalecesse tanto, as pessoas estão aqui sorrindo e vendendo tudo e comentando o apagão de ontem, e não há um balanço ao lado do coreto.

Tirei o telefone do ouvido e levantei os olhos. Na ilha do outro lado eu podia ver uma pequena mancha humana. O vulto de Zâmia com os cabelos de cobre e o vestido florido escorrendo no vento. Se desfazendo eternamente como uma duna móvel. E gradualmente o som do berimbau recomeçou atrás de mim num crescendo e tive que olhar pra trás. O homem não estava lá, apenas o muro com a pichação.

Estou tão sozinho quanto tu.

(Airton Uchoa Neto é natural de Fortaleza. Mestre em literatura comparada pela Universidade Federal do Ceará. Colaborador da extinta revista Aldeota e da mais recente antologia Arraia PajéurBR. Autor do romance Crônica da Província em Chamas (Projeto Premiado pelo III edital de Concurso Público Prêmio de Literatura, Livro e Leitura na Cidade de Fortaleza 2010)