Categorias
82ª Leva - 08/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Estar entre os mortais e perceber nisso um trunfo é algo, no mínimo, instigante. E pensar que deixamos, muitas vezes, o filme da vida passar, desavisadamente e sem maiores considerações, diante de nossos olhos é mais curioso ainda. Caberia, então, somente a um escritor repisar as corriqueiras epifanias restritas, em sua maioria esmagadora, ao cenário das individualidades? Quem mais se habilitaria a expelir a seiva de nossas verdades esquecidas?

Na música Peter Gast, Caetano Veloso, por exemplo, entoa o canto de um homem comum, enganando entre a dor e o prazer. E vai mais longe, confessando-nos a sina de atravessar uma existência sob o manto da insignificância, encontrando alento num coração de poeta que, mesmo condicionado à solidão, ainda seria capaz de algum voo. Guardadas as devidas proporções, talvez seja mesmo esta a trajetória de um escritor, sobretudo quando a luta maior seja fazer ecoar sua voz num universo de múltiplas representações do ser.

Adentrar os becos e vias difusas das letras de Rodrigo Melo pode nos ajudar a perceber porque divagamos outrora sobre a necessidade de perceber as coisas que nos cercam. Oriundo das paragens marítimas de Ilhéus, na Bahia, Rodrigo é um daqueles artífices da palavra que têm predileção por dissecar a alma humana. Com um tom lúcido e sagaz, seus contos põem em xeque algumas costumeiras zonas de conforto, muitas vezes propondo arremates decisivos a algumas situações. Utilizando-se de uma linguagem despojada de elaborações mais formais, é hábil em fazer de sua obra um elo de aproximação com os leitores. Suas narrativas privilegiam aspectos tão vivos e intensos de nosso tempo, embalando revelações e propondo olhares especiais sobre o mosaico de complexidades que reveste as pessoas. Autor de O sangue que corre nas veias (Ed. Mondrongo – 2013) e, mais recentemente, integrando a coletânea de contos 82 – Uma Copa – Quinze Histórias (Ed. Casarão do Verbo), Rodrigo Melo nos recebe para uma entrevista. Fala um pouco de seu caminhar literário e expõe algumas opiniões sobre o meio. De todo o dito, fica a impressão de que estamos próximos a um alguém que valoriza a arte do encontro, vislumbrando no leitor um sujeito ativo na condução das histórias.

 

Rodrigo Melo / Foto: Thalita Leite

 

DA – O livro é o “82 – Uma Copa – Quinze Histórias” e, com o conto “A culpa foi minha”, você demarca seus territórios naquela coletânea de difusas vozes literárias. Sua escolha narrativa passa ao largo de ter uma partida futebolística como o centro das atenções. Qual a real dimensão da aposta nesse, digamos assim, deslocamento temático?

RODRIGO MELO – Não sei bem se foi uma aposta. Parece clichê, mas acho, na verdade, que não tive escolha, porque não recordava o bastante daquele jogo. Ao buscar alguma lembrança, o que vinha era a infância e, consequentemente, a casa de minha avó. Aqueles três gols de Paolo Rossi feriram o Brasil, mas, antes disso, a minha família, porque era essa a minha referência – e foi assim:   minha tristeza não existindo por conta do jogo, mas pela dor que os outros sentiam. Lembro que, por uma semana ou mais, depois que tudo acabou, todos, voluntariamente, abdicaram da felicidade. Para um moleque de onze anos, vivenciar aquilo era como ficar um tanto mais maduro antes da hora. Calculo, então, que ligar aquela copa de 82 à minha família foi, de todo modo, inevitável.

DA – A maneira como você articula o mote da culpa por entre os personagens é algo que chama atenção. Nós, míopes mortais, estamos acostumados a esse jogo de transferências quando buscamos respostas para as coisas. Seriam as armadilhas dum incorrigível espírito humano?

RODRIGO MELO – Imagino que somos todos uns sofistas, afinal. Porque, como você mesmo cita, a alma tem as suas armadilhas. Já devem ter dito que entendê-la assemelha-se a desvendar um labirinto, e é o que também me parece. Esse labirinto tende a crescer ou diminuir. Calculo que tudo vai de acordo com o dia, a fase, ou, quem sabe, a evolução. O mais provável, e comum, é que cresça, e, embora pareça antagônico, enxergo um encanto nisso. Encanto e esperança. Mesmo falível e sem saber verdadeiramente qual o combustível que o move a sair e fazer as coisas, mesmo sem entender muito bem o que é e qual a finalidade de existir, vivendo numa espécie de superfície, ou miopia, evitando qualquer mergulho que o molhe um pouco mais, o ser humano segue contínua e insistentemente em busca da redenção. Chega a ser bonito: a eterna luta para alcançar a luz, luz essa que nem sempre é divina.

Por conta disso, creio que somos todos corrigíveis, embora também acredite que a humanidade ainda recenda a uma multidão correndo em direção à saída de emergência, ou a um bêbado, no escuro, tateando pelo interruptor.

DA – Depois de algum tempo de lida com as palavras,  você lançou seu primeiro livro, “O sangue que corre nas veias”. A obra veio no momento certo?

RODRIGO MELO – Tenho certeza que sim. Quando Gustavo Felicíssimo (poeta e editor da Mondrongo) me convidou a lançar, me senti honrado, quiçá vaidoso, ao mesmo tempo em que surgiu a dúvida. O material que tinha eram os contos antigos, escritos, quase todos, há mais de dez anos, e eles necessitavam de bastante atenção. Além disso, eu vinha de um longo período sem contato com a literatura – não escrevia, sequer lia algo. De alguma forma, abaixara a guarda, ou, como se diz, colocara a sujeira debaixo do tapete, e estacionara.  A possibilidade de ser editado trouxe de volta a vontade de pegar o mundo todo num ouvido só. Passei dois meses revisando e, se pudesse voltar no tempo, passaria mais dois. No entanto, o resultado me agrada, me satisfez. Acho que “O sangue que corre nas veias” dá seu recado.

DA – As paisagens que você visita no livro refletem um universo onde os personagens, com certa frequência, vivenciam situações de limite extremo. Entre hesitações e impulsos, desfechos se operam arrematando com um golpe certeiro os destinos entrelaçados. O que dizer de tais escolhas?

RODRIGO MELO – Situações limite, e creio nisso cada vez mais, não precisam necessariamente estar envolvidas em violência ou trauma. Elas podem ser a expectativa de que algo aconteça ou a frustração daquilo não ter acontecido: um tiro que será disparado, um beijo que ficou pra depois. Acho que foi o Raymond Chandler quem disse que quando uma história vai mal, o certo é matar alguém. Eu, embora goste dele, protelo mortes. Busco, hoje, no cotidiano, nos acontecimentos ditos banais, comuns, que pra mim têm força, beleza e significância, o mote para escrever. E não há nada mais doido e grandioso que existir – os sonhos, os medos, a vida de cada um. Acho que tento pegar esses pequenos pedaços, eles sempre em andamento, posto que nada para.

DA – E é interessante perceber que a linguagem através da qual você engendra suas histórias, dotada de clareza e simplicidade, sustenta com propriedade as narrativas. A que você atribui essa sua aproximação com o coloquial?

RODRIGO MELO – Muito provável que pelo desejo de ser entendido. Admiro a técnica, ao mesmo tempo em que alimento um distanciamento do virtuosismo. Penso que pode ser uma armadilha. Talvez pense assim por comodismo, não sei bem. A questão é que, embora valorize a forma de dizer as coisas, acredito que vale mais o que se diz. E é essa a busca: ser, dentro do possível, simples, sem ser simplório. Claro que é difícil e, quase sempre, o tiro acerta o pé. A tentativa, no entanto, já conta.

DA – Dois aspectos presentes em seus contos e que merecem destaque são a fluidez e um ágil ritmo narrativos, traços bem típicos do cinema. Some-se a isso, também, o viés imagético. Diria que sua literatura mergulha conscientemente nas influências da sétima arte?

RODRIGO MELO – Gosto dos cortes, da velocidade que os filmes têm, e penso que aplico, ou tento aplicar, muito desse “dinamismo” no que escrevo. Aliás, bem antes de Rubem Braga, Carlo Mossy já era um herói. Ele e tantos outros. Crescemos vendo tv. Lembro de “Agarre-me se Puderes”, um dos filmes que marcaram, e todas as vezes eu ficava com aquela espécie de encantamento, satisfação. A mesma coisa com os filmes dos Trapalhões. Depois vieram os outros. Hoje, e não digo por desdém, mas porque, imagino, a forma de contar as histórias se ampliou, ou quem sabe por já saber o final, não assistiria novamente “Agarre-me se Puderes”, nem mesmo pelas perseguições. O mundo mudou e eu, provavelmente, também. De qualquer maneira, o filme cumpriu o seu papel. Assim como “As Minas do Rei Salomão”. Porque somos todos uma esponja, carregando algo de tudo o que experimentamos, cada vivência nos transformando, a operação de uma tia ou o último lançamento dos Coen,  juntos e misturados num recipiente só.

Acho, então, que tanto a tentativa de fluidez quanto essa questão da imagem, em grande parte, vêm, sim, dos filmes que assisti. Mas acontece também, por outro lado, que há certas pessoas, e elas podem escrever, filmar, pintar, cantar, tirar fotos ou fazer malabares, tanto faz, essas pessoas às vezes mandam muito bem, e isso te força a pensar que também dá pra conseguir. A mais forte influência, acredito, é sempre essa. 

 

Rodrigo Melo / Foto: Thalita Leite

DA – Em matéria veiculada recentemente pelo site Estadão, apontou-se um outro panorama no que se refere à aparição dos novos escritores. Muitos deles estão preferindo submeter seus primeiros escritos na via dos concursos literários, almejando prêmios e, com isso, suporte para publicação, em lugar de buscarem diretamente editoras. O que pensa a respeito disso?

RODRIGO MELO – Os prêmios dão visibilidade, e, com a verba, imagino que uma tranquilidade maior. Escrever é por vezes recompensante, mas quase nunca pelo lado financeiro. Isso raramente acontece. O sujeito tem que ser professor, fiscal de trânsito, corretor ou leão de chácara antes de ser escritor. Escrever soa até como uma contravenção. Pode-se também conseguir um mecenas, mas parece que os mecenas, historicamente, sempre se amarraram mais aos pintores e escultores. Penso então em alguns caras que lançaram excelentes livros, e, afora algum evento, só fazem sucesso com uma pequena turma, e a grana que juntam, quando conseguem, não vem desses livros. Porque ao sentar-se no sofá e ligar a tv, ou o som, depois de uma hora e meia, no máximo duas, a pessoa se levanta com, pode-se dizer assim, a missão cumprida. Com um livro, entretanto, ela terá muito mais trabalho pela frente. Isso causa, em muita gente, uma aversão à leitura. E há outros fatores que fazem com que os livros fiquem nas estantes (de casa ou das livrarias). Se existe, então, esse tipo de subsídio, que, a meu ver, vem por merecimento, deve ser levado em conta.

Por meu lado, só participei de um concurso. Foi em Recife, anos atrás, e eu estava em lua de mel. Escrevi um conto num bangalô de frente pro mar. O bangalô era uma porcaria, o conto também, mas eu não sabia – estava envolvido pelo clima do mar, do por do sol e da lua de mel. Acabei não me classificando.

DA – A necessidade de reconhecimento é a maior inimiga de um escritor?

RODRIGO MELO – Penso que a pressa é a maior inimiga do escritor. A busca pelo reconhecimento me parece algo natural, humano, e independe da área em que se atue. Quem não quer vencer, afinal? Mas o talento se faz na prática. De alguma forma, todos precisamos de maturação.

 

DA – Para alguns, a única faceta do conto é a de se contar uma história. Pensar dessa forma não implicaria numa limitação dos desdobramentos possíveis de um texto, sobretudo na sua perspectiva de transcendência?

RODRIGO MELO – Não acredito que o gênero defina a qualidade ou importância da escrita. Ou, como diz, a transcendência. Talvez se imagine que, pelo tamanho reduzido que tem, um conto seria mais fácil de se construir. Por esse prisma, os poemas também seriam. E não são. Tampouco mais profundos ou necessários. Tudo vai de quem escreve. Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, excelentes prosadores, encontraram-se no conto, e não os vejo simplesmente contando histórias. Há sempre algo entranhado ali. Portanto, não acho que o tamanho ou o gênero do que se escreve tem a ver com sua força ou precisão.

DA – Vivemos num tempo em que muita gente se atira à criação literária. No entanto, parecem ser poucos os que ainda o fazem com propriedade. Separando o joio do trigo, não precisaríamos mais de leitores do que escritores?

RODRIGO MELO – Tudo indica que a diferença entre o joio e o trigo esteja na relação com a leitura. Parafraseando meu camarada Heitor Brasileiro Filho, “Melhor ser um bom leitor a um mau escritor”. Antes de esvaziar o tanque, é preciso ter algo dentro. Imagino agora um sujeito: ele tem uma história original, uma história que fala sobre as coisas que ele viveu e sentiu – ele está nas ruas, ele conhece a vida, ele sabe o que dizer -, vai na internet, faz um blogue e a coloca, ou então a publica em um livro. Anos depois, descobre que tanto Voltaire quanto Patativa do Assaré já tinham falado sobre aquilo, de uma forma mais sincera, melhor.   Claro que não dá pra ler tudo, tampouco considero obrigatório o eruditismo. Todavia, sobretudo para quem escreve, a leitura é necessária. Ela te situa. E é com ela, imagino, que se enche o tanque.

DA – O que impele Rodrigo Melo a continuar escrevendo?

RODRIGO MELO – A vontade de criar boas histórias. E conseguir tirar alguém do seu ramerrão diário, cheio de desassossegos ou garantias, com qualquer coisa que escrevi.

 

 

 

 

Categorias
82ª Leva - 08/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Leonardo Chioda


Foto: Milena Palladino

 

 

O AUGÚRIO ÁUREO

 

do Tríptico a Sergei Parajanov

 

I

 

apostas sobre
o seio coral

o poeta é lenda
ícone
confessa que é
tua assombração

a suspender
o cobre, os jarros
sobre a tapeçaria | de arranjos

o fogo e os cristais
legendam
o véu – ler o véu, rente
aos olhos alados. Atentamente.

a divindade
emaranhada no fio
das tuas vestes
o cálice
dos livros a terra
o elmo

a papoula do umbráculo
o criptogâmico
a prudência serpentina do espório
feito um gato
próximo às velas

o seio coral
pavão sobre os globos
tua longa barba
suspende o palácio
o reinado é febre. gorjeio

ópera | fluido

sepulta as romãs
nas cinzas

o poema
é um manto

coração
de gládios atravessando
o gárrulo.

 

 

***

 

 

TÚMULO DO POETA

 

há de se ler as pedras.
os dedos na relva, sentindo o mármore — as capas
dos livros. sentir o assombro aberto em tempo.
a circunferência da memória – a árvore está, pois,
sempre na semente. ainda o ninho cujo segredo, minha dívida,
é escutar a flor.

há de se ler as imagens
às pontas. nariz rente ao epitáfio,
quase chuva
escrita a lápide
na contingência das rosas
arredor adubo.

.
não se tem esperança
não se tem medo de nada
é livre
.

a erva do sonho
nos romances repletos de cálices. os cantos.
as magias.

há uma alça de rumor
clamando arranjo às medalhas – sete palmos
alfabetizando as raias do olhar. a voz
se ocupa de artemísias, nos dentes.
as terras. a condição das peles. égide sem expectativas
na superfície o sol. ofício cretense
de mudas.

 

 

***

 

 

POÉTICA DO DESTINO

 

o destino não tem rosto
só um cristal negro de sete pontas perpétuas

sob um casaco tom de sangue
coagulado. rosas antigas nas patas

o destino tem a boca de florilégio  — um mosaico.
La Alhambra em technicolor. e não fala. sibila
feito oráculo. advento de
vagar suspenso na retina.

[o destino
é uma menina

ou

um monstro
ao dobrar a esquina]

destino caminha feito tigre
couraça de cerâmica. carne cobalto.

seduz os velhos e aflitos com suas pernas de agilidade
penas de transitório. é certo. como o percurso da pele,

o destino deveria ter cheiro, mas é poesia.
fragrância de ventre em polpa.

nenhum de nós,
o destino. veste-se no plasma da ardósia

segue senhor dos rastros de futuro.
o todo em jogo: camufla-se em colagens

……………queima de perfume
……………as peças florais.

 

 

***

 

 

O SEXO DE HERBERTO HELDER

 

Dar de beber às rosas. Café perto do sol.
O livro incandesce. A presença de espírito nos felicita.
Há o vento vário quando silêncio é rei.

Perscruta as sementes com o olhar. Os santos sorguem a paisagem na crista. São as imaginações.

Mas o mundo são as patentes. Há de quebrar as patentes
E meter ao fundo dos castelos, entre as vontades.
E ainda assim
Dar de beber às rosas. Fac-símile, a condição de foda e perda a nos continuar. Lavam as soleiras e continua-se.

Na sombra me dispo. E na sombra o que me venta
É o que me define. Taras entre tantas folhagens.

As horas são nossas.
As horas são nossas.
As horas são nossas.

As heras nos transpassam.

 

 

(Leonardo Chioda nasceu em Jaboticabal. É autor do livro ‘Tempestardes’, premiado pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura e integrante da Coleção Patuscada (São Paulo: Editora Patuá, 2013). Escritor e leitor de imagens, é graduado em Letras pela UNESP. Mantém o blog de poemas Víscera da Musa e Café Tarot, de ensaios iconográficos)

 

 

 

Categorias
82ª Leva - 08/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

José Geraldo Neres

 

Foto: Milena Palladino

 

 

AS PEDRAS SÃO RAMOS DE ÁGUA

 

Mergulho na sombra úmida. O rosto da vida que busca por onde começar. Sua distância ― uma tempestade que nos visita ―, seu olhar não se apresenta em forma d’água. Mergulho o rosto. A vida abre os dentes.

Os retratos tomam as cores de nossa memória. Reconhecem as feridas. Nos negam a origem. O silêncio é a porta da qual não temos a chave. A parede por cair. A olhar o tempo. Não encontro o seu rosto entre suas raízes. Sombras saltam comigo.

O relógio está quebrado, mesmo assim, o tempo joga suas cartas. Existe um fio quebrado no labirinto ― ele não se preocupa com as armadilhas ―, nos seus dentes um aviso.

A parede por cair nos estende as mãos. Ela não acredita na ressurreição. Na poesia os fantasmas se reconhecem, e a morte se pesa à parte. Avessa às festas, não se recorda da mãe ou do pai. Não consegue unir essas duas margens. Não se banha na mesma água. Corre no seu sangue uma música desconhecida. As mãos limpam a poeira dos ossos, desenham caminhos, e penetram a pele dos nomes.

Um menino de riso fácil junta gravetos para construir um esconderijo. Não me aproximo das paredes de olhos líquidos nem das igrejas. Deixo o corpo sepultado no seu colo. O silêncio guardado no espelho. Dentro do silêncio, espero o dia nascer, e sempre permanece escuro. Poucas palavras revelam meu nascimento.

Entre a parede e o espelho, observo suas unhas varrerem uma tempestade para detrás da porta. O menino pergunta: quem vazou seus olhos? Respondo: o voo dos cordeiros não termina em mim, e os fantasmas fazem fila atrás do seu sorriso. Afaste-me desta parede!

Como levantar essa parede sobre mim? Quero um pouco de veneno para novamente sonhar. Se precisa de uma igreja, engana-se: é lá que se despede a vida. No meu corpo carrego as preces antigas, as escamas dos pecadores.

A igreja entrevista os novos candidatos a santos. Um corte profundo nas veias ― observo a cena ―, não existe trapézio nos aquários. Os santos se imaginam peixes voadores. À minha volta mulheres cortam seus sexos com asas de arame farpado. Recolhem milagres.

A infância: pássaro embalsamado. O choro de mãe se faz terço invertido. Estamos perdidos, retiraram as estrelas de nossas pupilas. Os meninos não caminham na chuva.


 

 ***

 

A CABEÇA DA SERPENTE

Saí de casa mais cedo. A lua começa a cantar e cai dentro de um copo. Vermelho. A cor me faz ficar parado. A rua não tem nome. Orientaram-me não ficar parado, mas o corpo não responde ― tem o ritmo de uma fotografia ― Devagar. Dizem: o passado é um colecionador de luzes. Ninguém me espera.

Vermelho. Sinto a noite afundar no silêncio do semáforo. Olho pelo vidro. Uma sombra vem em minha direção, tento decifrá-la O passado é Outro a caminhar ao meu lado, se instala nas paredes do meu corpo. A parede não tem janelas. Uma tempestade com flores entre os dentes. Não sei das pétalas nem da boca que as carrega. Deve ser minha infância, ou apenas o medo: o ninho de punhos fechados.

Espere.

Ainda vermelho. Deve ser algum defeito mecânico. ― Estou aqui. Devagar. Olhe para mim. Não durma. ― Não consigo decifrar sombras.

Um menino bate na janela. Quer me mostrar ou vender algo. Faz pequenos movimentos com as mãos. Sorri.

― Construí um deus, quer ver? Fiz em sete dias.

Está tudo vermelho. Agora já aparece um verde, um amarelo. Preciso de descanso.

― Quer um pedaço da minha sombra? É para manter a pele dele aquecida. Isso, um pouco de vermelho, um pouco de barro.

― Não tem mais?

― Esqueci de terminar os olhos.

Ninguém me espera.

(José Geraldo Neres é poeta, ficcionista, roteirista, dramaturgo (com formação em oficinas e cursos de criação textual), produtor e gestor cultural paulista. Publicou os livros de poesia: Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, 2007) e Outros silêncios (Escrituras Editora, 2009). O livro de contos “Olhos de Barro” (Editora Patuá, 2012) é sua mais recente obra. Tem publicações em suplementos e revistas literárias do Brasil e do exterior. É curador do Quinta Poética, projeto que promove encontros poéticos no espaço Haroldo de Campos, em São Paulo)

 

 

 

 

Categorias
82ª Leva - 08/2013 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Antes da Meia-Noite (Before Midnigth). EUA. 2013.

 

“Ninguém é nada mais que si mesmo”.

 

Um sábio amigo costuma dizer que o amor deveria vir com prazo de validade. É como se algumas relações estivessem fadadas a existir por apenas uma noite ou determinado período de tempo e qualquer tentativa de prolongá-las só trouxesse estragos e dor. Até porque – como é pontuado em determinado momento de Antes da Meia-Noite – estamos todos de passagem e talvez seja pretensioso almejar um amor eterno. Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) são uma espécie de Romeu e Julieta (de carne e osso) de nossa geração. Conheceram-se em um trem, em Viena, em Antes do Amanhecer (1995), reencontraram-se quase uma década depois, em Paris, em Antes do Pôr-do-Sol (2004) e desde então estamos na expectativa em saber se Jesse perdeu ou não seu avião.

A tomada inicial – que funciona como uma espécie de elo com o filme anterior – traz Jesse no aeroporto despedindo-se do filho Hank (Seamus Davey-Fitzpatrick), fruto de seu primeiro casamento, depois de passar o “melhor verão de sua vida” com o pai, a madrasta Celine e as irmãs gêmeas, no Peloponeso. Não por acaso, a locação europeia da vez sugere a ambiguidade das ensolaradas ruínas gregas; e o título do filme, o lado sombrio que está por se anunciar. O americano e a francesa estão na casa dos 40 anos e vivem em Paris com as filhas Ella e Nina (Jennifer e Charlotte Prior). Por conta da distância de Hank e do mau relacionamento com a ex-mulher, que moram em Chicago, Jesse sente-se um pai ausente. Celine assume o papel triplo de toda mulher moderna (e como tal, ressente-se por isso). Está travado o embate de mais um casal que precisa lidar com o amor, o cotidiano e o fatídico passar dos anos. Um amor que resistiu à ausência durante tanto tempo pode sobreviver à convivência e burlar qualquer prazo expirado?

 

 

Jesse e Celine em cena de Antes da Meia-Noite / Foto: Divulgação

Antes da Meia-Noite mantém o formato clássico, com diálogos longos e inteligentes e planos-sequência, marca registrada da série. Porém, inova (e acerta) ao introduzir outros personagens que se relacionam com os protagonistas, representados pelos casais de amigos do anfitrião – o renomado escritor Patrick (Walter Lassally), onde discutem o amor e todas suas vertentes, incluindo o afeto em tempos de Skype e Facebook, tecnologia ignorada (e inexistente) pelo par em seu primeiro encontro. Justamente pela maturidade de agora, o longa dispensa a pureza dos filmes anteriores. É nítido que há amor, cumplicidade e química entre o casal, mas algo se modificou. Jesse continua o mesmo escritor romântico que transformou sua noite de amor em livro e o fez reencontrar sua amada no segundo filme (reencontro que também virou literatura). Celine, porém, perdeu seu idealismo juvenil e é a primeira a perceber que eles não apontam mais para a mesma direção. Tal condição faz de Antes da Meia-Noite um filme pós-conto de fadas, franco e um tanto quanto amargo: algo próximo de um casamento de verdade. A sequência no quarto de hotel, onde Jesse e Celine travam uma honesta DR é de fazer inveja ao casal formado por Michelle Williams e Ryan Gosling, em Blue Valentine (2010).

Ainda que encarada como uma trilogia, e com mais um final em suspenso, a ideia inicial do diretor Richard Linklater e de seus co-roteiristas Ethan Hawke e Julie Delpy, é acompanhar a dupla até a velhice, com um reencontro há cada 9 anos. Antes da Meia-Noite até funciona de forma independente, porém não há sentido assisti-lo de forma isolada. Os dois filmes anteriores aumentam gradativamente nossa intimidade com os protagonistas e sutis detalhes podem se perder, como o tal avermelhado que Celine dizia observar na barba de Jesse sob o sol, o mesmo tom que vê no cabelo das gêmeas. Será que 2022 nos reserva mais algum momento do dia?

 

 

 

 

(Larissa Mendes ainda é uma coadjuvante à procura de seu “antes”)

 

 

 

Categorias
82ª Leva - 08/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Carina Carvalho

 

Foto: Milena Palladino

 

maritacas

 

desisti dos pêssegos
por medo aos ferimentos.
pesam muito à natureza as dores que os homens carregam em sacolas abafadas.

às outras frutas fiz buracos na casca,
e me movi branca pela polpa.
pela manhã descobri que cantava com coragem:
há no sumo quando desce a goela um quê de amor pelos que viajam.

este dia quis sumir-se sonoro-suculento nas montanhas antes que lhe viesse o podre pelos maus-tratos.
ou que maltratasse a si: o bico descendo forte no tórax, arrancando as penas desde o cálamo.

 

 

***

 

 

eu lírico

 

concluí, olhos apertados:
dói é nos canais suspensos

o cão da casa (por exemplo)
junta as patas na cabeça
e geme
os quatorze anos que lhe entram pelo ouvido

um pacto dormente meu arquejar
porque, durante o sono,
o corpo não tem certezas. pudera:
horas de bruços e do peito, lembrei,
fiz corredeira

tais as olheiras

diabo de choro, sim, rosto disforme até
a reconhecer-se de minuto
só no que é profundo

no mais, depois dos olhos abertos
tanto quanto podiam num dégradé
de poros escurecidos,
lamenta-se

.o preço dos tomates-cereja
.a pintura da casa (uma cor tão feia! cor de gaitista sonolento em garoa
fria. calcule quão antiquada é essa imagem)
.as plantas que secam
.a carne tão fraca, os restos do pouco

e a minha falta de etiqueta:
oh, desculpe o não comparecimento!
nestes copos há menos que um dedo de coragem
e a má postura faz que me doam as costas
por dias inteiros

cotovelos na mesa, mirei o sol com lupa;
meus olhos sumiram
numa ardência de verbo lenta
e assim articulamos ambos:

de.ti um poema do dia
de mim
a ti

 

 

***

 

 

que permeia um casulo

 

a casa é que estala
tardes longas de azul pálido
na mudez do corpo

estendidas – as tardes –
num varal que zumbe, por exemplo,
o som vago da carne,
desse pouco

que é o corpo.
que é o corpo?

.

outro dia uma movimentação tão fluida escorria
(não estalava nem estendia),
escorria uma movimentação tão fluida outro dia,
que, meu amor, o sentido de tanta moradia não escapou
por pouco

 

 

***

 

 

o poro a pele

 

antigo afeto que lhe ofereça
toques moles,
comedimento nas conversas,
um afago cru

.

mas não,
jamais quis morar em peito tão vago e sem janelas abertas

fazer barulho raspando o fundo
levar do doce o que lhe é mais íntimo;
degustá-lo nu

(Carina Carvalho é paulistana. Estudou Letras e trabalha na área editorial. Seus textos estão em algumas revistas digitais de literatura e na 3ª edição impressa da Revista Celuzlose. Tem se arriscado em balé e fotografia, mas com pouca convicção; já a literatura a atrai tanto quanto a luz das cozinhas pela manhã. Acaba de publicar seu primeiro rebento, Marambaia, pela Editora Patuá)

 

 

Categorias
81ª Leva - 07/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Mario Baratta

 

Passadas as celebrações de 7 anos da revista, um questionamento se faz presente: quais expectativas nutrimos em relação ao que está por vir? Por mais que projetemos o futuro de nossas ações da forma mais positiva possível, nada terá mais sentido do que valorarmos o que nos acontece por agora. Mesmo sabendo que uma boa espera governa os objetivos dum amanhã, estamos certos de que a poética dos bons encontros e descobertas atua a cada instante. É, por exemplo, o que vislumbramos quando organizamos uma nova edição em meio às perspectivas criadas pela exposição dos trabalhos de Mario Baratta, artista que nos cativa pela singularidade e simplicidade de seus registros. Suas ilustrações, por sua vez, estruturam pontes de diálogo com os versos de Iolanda Costa, Elizabeth Hazin, Alberto Lins Caldas, Mônica Mello e João Urubu. Noutro ponto dessa jornada, há também a interação das imagens com as prosas de Lizziane Negromonte Azevedo, Rosa Pena e Tere Tavares. Para falar um pouco sobre outras especiais e poéticas dimensões propiciadas pela fotografia, entrevistamos Peterson Azevedo. Sob os olhares atentos de Guilherme Preger, testemunhamos as complexas reflexões do filme francês “Augustine”. O livro de poemas “Memórias de um hiperbóreo”, de Oleg Almeida, é objeto das sensíveis observações de Rejane Machado. Dentro do novo panorama da música brasileira, Larissa Mendes destaca os predicados de Vazio Tropical, mais recente disco do cantor e compositor Wado. A resenha de Luciana Oliveira percorre as vias obscuras de “Os encantos do sol”, segundo romance de Mayrant Gallo. E assim surge a 81ª Leva, marcada pelo ritual das esperas que se fazem algo concreto e palpável quando você, caro leitor, deitar olhos sobre tudo e conduzir as leituras a partir de seu lugar no mundo, condição esta que nos impulsiona adiante, rumo a uma saborosa sensação de misterioso devir. Evoé!

 

Os Leveiros

 

 

Categorias
81ª Leva - 07/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Alberto Lins Caldas

 

Ilustração: Mario Baratta

 

assim a dor o sofrimento

 

assim a dor o sofrimento
sob a língua é só deserto
entre os dentes o q sobra

se perguntasse – o vazio
se negasse – só o vazio
se dissesse – não sabia

todos esses tão perfeitos
não sentem fome – a fome
essa satisfeita com osso

todos esses são felizes
?os q sofrem são de carne
então por q não se devoram

todos na mesma sombra
todos na mesma crença
uns na brasa outros rindo

só vivemos nessa dança
só bebemos esse cálice
sal q tempera a morte

 

 

***

 

 

é preciso

 

é preciso
muito mais superfície
pra dizer o essencial

mais ondas
e em todas essas ondas
o mar

não o ruído
mas todos os ruídos
enfim o tecido e o rato

jamais o silêncio
mas todos os silêncios
só assim o não

é preciso esquecer
tão completamente
q  nem sei

depois estarrecido
tocar a máscara nua
assim o corpo sabe

não apenas o entre nós
o jorrar dentro e além
mas a ferida e a hora

agora é sempre
por isso não se afaste
não há tempo a perder

 

 

***

 

 

não sabemos eu e o imperador

 

não sabemos eu e o imperador
como tudo isso começou
como brasas pegam fogo

como nossa paz nosso bem
nossos servos se transtornaram
e tudo quer nos destruir e apagar

não sabemos qual a hora o lugar
o momento preciso em q a onda
a onda se tornou esse mar

não sabemos eu e o imperador
se haverá futuro ou bem querer
pros nossos os nossos bem amados

temos medo dos metais afiados
enquanto escondemos os pesados
bem longe desse mundo q aderna

não dormimos há tanto tempo
q o sono nos domina e prende
enquanto eles devoram tudo

 

 

***

 

 

correr pela treva

 

correr pela treva
chamando o q passou
é fogo morto é fogo fátuo

chamar os vivos os homens
por um desejo q não é deles
é fogo morto é fogo fátuo

querer a clara chama
quando tudo é escuridão
é fogo morto é fogo fátuo

admirar essas coisas
o q se dispõe como gente
é fogo morto é fogo fátuo

gritar assim tão infeliz
quando ninguém pode ouvir
é fogo morto é fogo fátuo

o q não jorra da violência
essa bruta potência entre nós
é fogo morto é fogo fátuo

 

(Alberto Lins Caldas publicou os livros de contos “Babel” (Revan, Rio de Janeiro, 2001) e “Gorgonas” (Cepe, Recife, 2008); o romance “Senhor Krauze” (Revan, Rio de Janeiro, 2009), o livro de poemas “Minos” (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2011) e colabora em várias revistas literárias e blogs de literatura e arte)

 

 

Categorias
81ª Leva - 07/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Augustine. França. 2012.

 

 

Seria por coincidência ou por um estranho “Zeitgeist”, mas vários filmes recentes voltam a uma questão que parecia ultrapassada clínica e historicamente: a histeria. Depois de Um Método Perigoso, de David Cronenberg, sobre a relação entre Jung e uma de suas clientes, Sabina Spielrien, e da comédia Hysteria, de Tania Wexler, sobre a invenção do aparelho vibrador, chega agora aos cinemas Augustine, de Alice Winocour, sobre a relação entre um dos fundadores da neurologia enquanto ciência, o médico Jean-Martin Charcot, e uma de suas principais clientes. Em comum, esses três filmes abordam a desordem mental ambiguamente epidêmica que mexeu com os corpos femininos de meados do século XIX e interrogou como um mistério indecifrável e oracular as cabeças dos médicos da época. Ou teria sido bem o contrário?

Os três filmes mostram o surgimento, ou melhor dizendo, o reconhecimento de uma estranha desordem chamada de “Histeria” (de Hysteros, ou útero em grego), que teria  abalado e desorientado os corpos de milhares de mulheres das sociedades europeias do século retrasado, como um verdadeiro enigma a questionar não apenas os fundamentos dos médicos oitocentistas, em sua quase totalidade homens, bem como do próprio estatuto científico da medicina mental reclamado por muitos e o poder alcançado por essa disciplina sobre os corpos e mentes das pessoas, sobretudo mulheres.

Entre os três, é a comédia da britânica Wexler, o roteiro menos sisudo e que, dentro de uma linha que poderíamos chamar de “pragmatismo anglo-saxão”, vincula a histeria à invenção histórica do apetrecho sexual feminino. Mas é esse filme que mais claramente demonstra o caráter social e classista da desordem a incidir majoritariamente não apenas em mulheres casadas insatisfeitas sexualmente, mas sobretudo mulheres ociosas, na posição de dependência econômica de seus maridos provedores e da subalternidade moral derivada desta dependência.

Em Um Método Perigoso, Cronenberg apresenta o diálogo tenso entre as duas figuras mais proeminentes da psicanálise, Freud e Jung, mas o mérito maior do filme está em introduzir ao grande público a figura de Sabina Spielrien, uma cliente histérica de Jung que se tornou ela mesma psicanalista. O filme demonstra como o desenvolvimento da psicanálise deveu muito a uma paciente mulher histérica que teria dado a chave a Freud para formular seu conceito de Pulsão de Morte. Assim, o filme defende que a psicanálise não surgiu como um saber específico sobre a histeria, mas num sentido inverso, como a própria – ou imprópria – histeria forneceu os subsídios teóricos para a sua evolução, como se a psicanálise tivesse surgido do interior desse transtorno.

Em Augustine, voltamos ainda mais no tempo para conhecer a figura polêmica de Jean-Martin Charcot, um dos fundadores da neurologia. Charcot foi professor de Freud e é conhecido historicamente por ter descrito um grande número de doenças ou transtornos mentais, muitos deles levando seu nome, entre as quais a esclerose múltipla, uma doença auto-imune cujos sintomas são muito parecidos com os sintomas histéricos misteriosos que acometiam muitas de suas pacientes. Uma delas, de quem se sabe pouco, se chamava justamente Augustine.

Iliterada, Augustine era uma serviçal de uma rica casa burguesa, uma personagem praticamente invisível e insignificante. É durante o serviço de um grande jantar burguês que ela, logo após ser observada pelo olhar insinuante de um rapaz, sofre seu primeiro ataque histérico com fortes convulsões corporais que acabam por deixar um lado de seu corpo paralisado e um olho fechado. Augustine é então levada para o famoso hospital-escola Salpetrière, na época dirigido por Charcot e dedicado ao estudo psiquiátrico, sobretudo de mulheres. Lá a moça se tornará não apenas uma cliente à procura da cura de seus males, mas um caso clínico, um objeto de estudo e uma cobaia para novas formas de tratamento mental cujo diagnóstico era tão difícil como um verdadeiro mistério.

A histeria era um nome genérico dado a um transtorno que apresentava uma série de “sintomas”, males corporais, sem que, no entanto, qualquer anormalidade orgânica se apresentasse. Assim, Augustine, aparentemente uma mulher sadia de 19 anos, não apresentara até então sinais de menstruação (no caso real, no entanto, Augustine tinha apenas 15 anos). A personagem se torna um caso exemplar de histeria, para ser apresentada em conferências médicas, submetendo-se a procedimentos terapêuticos tão dúbios quanto a hipnose, muito utilizada por Charcot numa época pré-psicanalítica.

 

Soko e Vicent Lindon em cena de Augustine / Foto: divulgação

 

Marcada por sintomas de assimetrias corporais, um olho fechado, um lado paralisado e insensível à dor, ou uma das mãos fechada em gancho, Augustine é, sobretudo, uma mulher que se recusa a ser um “objeto de estudo” numa posição de passividade, uma mera serviçal de mais um mestre ou um “doutor” clínico. Ela quer ser antes um sujeito que possui um corpo. E esse corpo-sujeito está também sujeito a uma série de relações de assimetria que se estabelecem: médico e paciente, homem e mulher, burguesia e proletariado.

A diretora Alice Winocour estrutura essas relações de assimetria como relações de poder e também de desejo. Um dos alunos de Charcot censura seu professor por ele negligenciar a evidência de que os sintomas histéricos aparecem quase sempre associados à questão da sexualidade. As cenas de exames clínicos, supostamente frias e neutras, tornam-se no filme cenas eróticas: a cliente é colocada nua para os olhares voyeurísticos de jovens estudantes, um tratamento com objetos compressores lembra uma cena de sado-masoquismo.

O desejo é aquilo que faz com que um corpo se recuse a ser um objeto para ser um sujeito e é também o que cria polos de tensão numa relação de poder. O que acontece entre Charcot e Augustine é algo que se passa entre doutor e paciente, entre aquele que supostamente “sabe” e aquela que supostamente “ignora”, entre a consciência do professor e a inconsciência de seu “objeto-sujeito” e, finalmente, entre o homem e a mulher. Ou, em outras palavras, o que acontece é uma transferência, num sentido psicanalítico.

Mas estamos numa era pré-psicanalítica e Charcot, por mais importante médico e estudioso da mente que tenha sido, dessa vez é aquele que “ignora” e se “perde” nessa relação de transferência. A histeria é justamente o fenômeno social que produz uma clivagem no interior da neurologia, como estudo da mente, que abre uma brecha num campo social dominado pela ideologia da medicina enquanto ciência. Em um momento do filme, Augustine censura seu médico porque este não a escuta. É exatamente essa “escuta” que a psicanálise através de Freud introduz no estudo da histeria.

Médico neurologista, “Napoleão das neuroses” como foi chamado, porém incapaz de dominar os conceitos básicos psicanalíticos da transferência e da escuta, Charcot se deixa seduzir por sua cliente mulher mais do que é seduzido por ela. Numa das cenas mais interessantes do filme, a diretora nos mostra um Charcot nu e fragilizado diante do espelho. Por outro lado, Augustine, uma moça virgem, é também um corpo de desejo. A todo momento questionando o renomado médico se ele trará sua cura, ela também será aquela que seduz e é seduzida como mulher. Ela é paciente e também sua parceira: suas convulsões histéricas motivadas por regressões de hipnose em conferências estão na fronteira entre um processo inconsciente e uma atuação performática sob medida para os olhos dos alunos e pares de Jean-Martin Charcot, que está afinal em busca de um reconhecimento social.

Mas essa performance histérica do corpo feminino através de seus sintomas é menos uma exibição de sinais corporais passíveis de diagnóstico clínico do que expressão de uma linguagem em busca de decifração. Não são sinais, mas signos. No filme, a diretora Alice Winocour interrompe a narrativa para exibir mulheres com problemas mentais vestidas em trajes de época narrando suas visões, alucinações ou devaneios. Tal como a famosa e igualmente polêmica síndrome do déficit de atenção que supostamente acomete milhares de crianças nos dias de hoje, a histeria foi uma grande mensagem no final do século XIX a uma possível interpretação histórica. Em seguida, viria Freud com sua “Traumdeutung”, sua interpretação dos sonhos traumáticos. Presas em seus sintomas, as histéricas buscavam as escutas e interpretações para poderem tomar posse de seus corpos e escapar rumo ao desconhecido.  Como descobriu Augustine, o trauma é tanto aquilo que adoece, mas também o que liberta.

 

 

(Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e organizador do Clube de Leitura da Baratos da Ribeiro)

 

Categorias
81ª Leva - 07/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Rosa Pena

 

 

(Tempus) 


Produto genérico.

 

Apresentação

Tempo é a sucessão dos anos, dos dias, das horas. Permite ao homem ter noção do presente, passado e futuro. É irreversível.

Dar um tempo é a nova droga do momento. Vou dar um tempo. Estou dando um tempo.

Indicação deste produto para pacientes que durante uma relação amorosa passaram a sofrer de: choro súbito, olhar perdido, dor no peito, estresse com o vizinho que não tem culpa de nada, ódio da prima que mora a mil quilômetros de distância e nem lembra de sua existência, vontade de comer dúzias de bombons depois de um churrasco, secura na boca, aumento do consumo de bebidas de teor alcoólico, overdose de cigarro, cantar Yesterday em pagode, ímpetos de matar o açougueiro que substituiu a alcatra por chã de dentro, mandar pra puta que pariu o porteiro que não lavou seu carro, desejar a maldição de Montezuma para todos os vendedores de telemarketing, gritar pro filho que o som está alto, rever novela no Vale a Pena Ver de Novo, sentir raiva dos bonzinhos e uma vontade imensa de ser mau, muito mau. E bota maldade nisso.

Informações

No século XX, resolveram que dar um tempo nas relações afetivas é eficaz. Desde a antiguidade o tempo é considerado o melhor remédio para tudo. Há relatos de que com o tempo a verdade aparece. Foi comprovada essa tese em alguns detentos que passaram a juventude inteira presos injustamente, mas na velhice tiveram a inocência declarada. Morreram livres e hoje usufruem lápides com escritos lindíssimos!

Efeitos colaterais mais comuns (que não melhoram com o tempo)

Saudades, ódio, esquecimento e morte.

Advertências

A saudade costuma causar depressão. Se você sentir vontade de ver fotos e cartas antigas, fechar os olhos e reviver momentos passados, cantar Matriz e Filial no banho, suspenda imediatamente o tempo e tome Prozac, concomitantemente.

O ódio pode levar a desejos estranhos, como querer a ditadura de volta, sonhar que a cunhada caiu na rua, comer o fígado do ex.

O efeito esquecimento é extremamente perigoso, costuma causar o adeus com cinco letras que não choram.

Se estes sintomas ocorrerem, consulte imediatamente seu coração. Caso você morra antes, dane-se. Acreditou que o tempo cura, porque quis. Este medicamento é contra-indicado na faixa etária superior aos sessenta. Pode não dar tempo de retomar à antiga posição.

Dados complementares

Vovó e vovô fizeram bodas de ouro antes dessa solução afetiva que muitos afirmam revigorar a saúde da relação! Só não fizeram de diamante, pois apesar da penicilina ter sido descoberta antes desse recurso, vovô pegou pneumonia por conta de um vento e faleceu.
Não houve tempo para o efeito do medicamento.

Dar um tempo é a grande saída para se chifrar parceiros sem o perigo de ser malvisto por terceiros. Quem pede um tempo, quer se livrar da relação. Eficaz apenas para amor de ocasião, daquele que começa num verão e não chega a outono nenhum.

 

 

 ***

 

Art. 214*


Tinha apenas uma hora para chegar ao aeroporto. Seu corpo parecia uma bomba-relógio. No táxi, começou a rever o que estava levando e o que havia deixado. Tinha certeza de que havia colocado todos os seus vestidos de alça, não abria mão deles nunca; todos os remédios, não se acostumava com similares, muito menos genéricos, tinha grilo deles, já estava acostumada com a cara da embalagem tradicional, em remédios a gente tem que confiar, só fazem efeito se forem antigos amigos; documentos (trouxe todos ou lá é sem lenço e sem eles?); a sandália preta; aquele ratinho de pelúcia; o travesseiro rasgado; o CD dos Beatles; as fotos companheiras da night.

Não queria revirar o armário da memória, as gavetas das lembranças, a estante das reminiscências e mandou o taxista acelerar ao máximo. Não queria mais tempo para se revirar, não pretendia ficar novamente enfurecida com a constatação de que o atual coração é genérico, daqueles em que ela não confia. O antigo, aquele que adorava os vestidos de alcinhas, a sandália preta, o ratinho de pelúcia, o travesseiro rasgado, os Beatles, que botava o seu sorriso nas fotos, foi roubado por um traficante de heart.

Foi presa por atentado violento ao pudor, quando saltou do táxi, literalmente nua, sorrindo pra dedéu. O motorista afirma que ela se estressou no engarrafamento e saiu jogando tudo pela janela.

 

*Atentado violento ao pudor (Código Penal Brasileiro)

 

(Natural do Rio de Janeiro, Rosa Pena é escritora, professora especialista em recursos audiovisuais e artes cênicas, administradora de empresas. Trabalhou na Divisão de Multimeios da Educação, na secretaria de Educação e Cultura do Rio de Janeiro com projetos ligados a cinema, teatro, música, literatura. Compulsiva em ler e escrever, considera a Internet a grande biblioteca contemporânea. Possui inúmeros e-books, compartilhou com outros escritores de oito antologias, tem participações em livros da Tribo e três livros de crônicas e contos editados: PreTextos (2004), UI! (2007) e Tarja Branca (2010))

 

 

Categorias
81ª Leva - 07/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Mônica Mello

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

METAMORFOSEANDO PEDRA

 

Aqui
o sonho virou água
sombras e dia.

Uma sombra devora uma outra sombra
metamorfoseando pedra.

E um desejo mergulha
suas verdes mãos
na correnteza do sol.

 

 

***

 

 

O HOMEM QUE MORA NO MENOR QUARTO DA CASA

 

Ele é o homem que mora no menor quarto da casa.
Suas mãos contorcem os fios e
soldam as memórias dos computadores que conserta.
Mas não conectam seus elos com o passado.

O homem que mora no menor quarto da casa
lava roupa suja dentro do armário e
não se olha no espelho. A água derrama
a sujeira da roupa dentro do armário,
que a esconde.

O homem que mora no menor quarto da casa
faz arroz na leiteira e não toca na louça suja.
Ele pensa que não vai ficar livre.

O homem que mora no menor quarto da casa,
não está sozinho.
Ele é o mais inteligente entre cinco irmãos.
Ele é diversos pedaços entre o parto e a maturidade.
E conserta computadores.

O homem que mora no menor quarto da casa
desenha estórias em quadrinhos.
Adora futebol.
E vê a bola, e sonha bola nos pés
dos super-heróis que consertam computadores.

O homem que mora no menor quarto da casa
tranca a porta.

 

 

***

 

 

ÓDIO OCULTO

 

Danem-se os conceitos do mundo!
Vou para a Amazônia, lá onde meu coração está,
traduzir a água na poeira das horas,
ouvir o uirapuru de Vila-Lobos
e qual esta lâmina que me corta os pulsos,
arrancar o ódio nos dentes
e repousar na terra úmida que cheira à vida oculta.

E tocar o ódio,
………………………e saborerar o ódio,
……………………………………………………e transmutar o ódio
em fina seda que, bordada pelas mãos de muitas mulheres,
reveste a alma gloriosa.

 

 

***

 

 

MEMÓRIAS

 

Em brasa, o véu de seda
………………………………….revela
imagens vermelhas que eriçam
………………………………….Memórias
Surpresa da selva no limiar da
…………………………………….noite.
Será dia?

Seca a escuridão na fogueira
queimando estórias. Fragmentos
de mata atlântica replicam:
acabará em cinzas?

A imaginação se arvora
no sonho rubro da noite.
O tempo lapida a alma
…………………………..inquieta.

 

 

***

 

 

ADEUS

 

O tempo se afoga nas pedras
moendo grãos da memória
Adeus
…………um deus
……………………….se desgoverna.

Teço seu nome no barro
por onde escorrem
…………………………meus olhos.

 

Mônica Mello é formada em Letras pela Universidade Gama Filho- UGF e Especialista em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Participou da exposição de pintura do Centro Cultural da UERJ – Coart, em 2014.