Em seu Teses sobre o conto, o escritor Ricardo Piglia definiu o conto como a arte de contar pelo menos duas histórias. Há uma principal, narrada em primeiro plano, mas haveria sempre também uma segunda, narrada nos interstícios da primeira, qual uma história secreta. A arte do conto, para o escritor argentino, é a de narrar uma história enquanto se contar outra.
Esta estratégia narrativa de duas histórias funciona igualmente para a arte cinematográfica. Foi o mestre Hitchcock quem formulou o efeito McGuffin: o McGuffin é o argumento central em torno de qual gira a narrativa cinematográfica e pelo qual os personagens perseguem, mas que no final não representa nenhuma importância fundamental. O McGuffin não passa de um pretexto para que a ação cênica se desencadeie. Praticamente todos os filmes de Hitchcock seguem esta lógica, mas o caso mais exemplar é o de 39 Degraus: um segredo sussurrado ao protagonista no início do filme permanece obscuro durante toda a narrativa, composta das mais vertiginosas peripécias persecutórias, sem que ao final tal segredo seja revelado. Na verdade, ele foi esquecido devido à sua desimportância para o desenlace: era apenas um mero pretexto para que a ação acontecesse e o mocinho pudesse encontrar a mocinha…
Não foi Hitchcock quem inventou o efeito McGuffin, ele faz parte da própria técnica cinematográfica. Não é este o caso do recente filme A Caça (Jagten), de Thomas Vinterberg? Lucas, um professor de escola primária, é acusado injustamente de assédio sexual da menina Klara, de 5 anos, filha de seu melhor amigo e aluna da escola de uma pequena cidade no interior da Dinamarca. Com esta acusação, toda sua vida pessoal e carreira desabam tragicamente.
Aqui o fundamental é mostrar como a acusação é evidenciada pelo diretor como injusta, inequivocamente: a menina Klara desenvolve por seu professor um forte afeto. Num tempo livre de suas aulas, ela recorta um pequeno coração e o embrulha num envelope em forma de presente e, num gesto muito sutil, coloca-o no bolso do paletó de Lucas enquanto rapidamente o beija afetuosamente. Percebendo a situação, o professor lhe devolve o presente dizendo que ela deveria destiná-lo a um de seus coleguinhas de classe. Nessa mesma noite, decepcionada, a menina conta à Mestre da escola uma história ambígua na qual ela menciona que o professor teria lhe mostrado a sua “vara”, expressão que a menina aprendeu de seu irmão mais velho quando este estava assistindo pornografia na internet. O desenlace é inevitável: entre a palavra do professor e a palavra da menina, toda a escola, os colegas, a namorada e a cidade inteira dão crédito à história de Klara e, então, a vida de Lucas (vivido pelo ator Mads Mikkelsen, cujo desempenho extraordinário lhe valeu o prêmio de melhor ator em Cannes, 2012) torna-se um inferno. E este inferno assume a forma de um abismo descendente, por mais que a menina, posteriormente, desminta sua história como uma “bobagem”.
O lugar onde se desenvolve a trama é crucial nesse filme: uma pequena comunidade dinamarquesa cuja principal atividade de lazer é a caça de grandes animais como cervos e alces. No início do filme, homens tomam banhos nus num lago gelado e depois saem cantando para beberem juntos. Vinterberg nos mostra a caça, prática de onde tira o título do filme, como a atividade que dá sentido à vida da comunidade: a caça de grandes animais é a prática que irmana os habitantes e os une socialmente, incluindo o protagonista professor.
Aparentemente, A Caça é mais um filme que discute a questão contemporânea da histeria social da pedofilia: mais de 100 anos após a psicanálise defender que cada criança tem sexualidade própria, nada parece tão grave quanto o assédio ou o abuso sexual de crianças, que aos olhos sociais são portadores de uma imagem idealizada de ingenuidade, e tanto mais idealizada quanto maior a sensação de perda de inocência contraposta ao cinismo vivenciado pelos adultos da sociedade capitalista contemporânea. Nesse aspecto, a caracterização da pequena personagem Klara é extremamente pertinente: com seus 5 anos, ela vive a experiência precoce da descoberta do erotismo ao se apaixonar platonicamente por seu professor. Sua mentira, causada por uma precisa “decepção amorosa”, é um expediente que prefigura a mulher que ela se tornará. E nisso, não devemos incluir também sua capacidade de reconhecer seu erro, como uma maturidade essencialmente adulta que se antecipa a de seu pai (mas não a de sua mãe…)?
Mas talvez a histeria social causada pelo possível caso de pedofilia seja o McGuffin do filme: na avançada Dinamarca, num vilarejo onde os problemas sociais parecem resolvidos, a prática anacrônica, mas legalizada, da caça de grandes animais permanece como uma espécie de “inconsciente” coletivo. Toda a estrutura do roteiro organiza-se na transformação do predador em presa. Tal como seus amigos, Lucas é um bom caçador, mas encontra-se numa situação de fragilidade: recém-separado, disputa a guarda do filho adolescente com sua ex-mulher, e perdeu também seu posto de professor do secundário, tendo que se contentar com um trabalho numa escola primária. Assim, ele é um alvo fácil e a frágil acusação de que é vítima torna-se a chave para sua rápida mudança de status, de viril caçador para o de uma vítima indefesa e passiva (sua incapacidade de reagir ao receber as acusações está no limite entre a civilidade e a apatia). Por sua vez, com absoluta facilidade, todo o vilarejo muda de atitude em relação a um de seus estimados cidadãos e a perseguição com agressividade crescente a Lucas torna-se uma verdadeira caçada humana…
É como se aqui tivéssemos uma versão dinamarquesa de um dos temas caros ao mestre Hitchcock: o do “Homem errado”. O Homem errado é a versão existencialista do McGuffin: não importa o crime concreto de que ele é acusado, mas sim o fato de que na visão católica do pecado original, partilhada pelo mestre britânico, todos já são culpados “a priori” na sociedade, bastando um fato menor e casual para que um inocente seja eleito e a culpa social possa ser expiada. Assim, no filme dinamarquês, a má consciência em relação à caça expia-se numa reação de histeria anti-pedófila. Algumas passagens do filme reforçam essa ideia: o pequeno cão de estimação do protagonista é morto tal como um animal de caça e o próprio personagem é vítima de violência física desmedida. E o final do filme, que prossegue após o clímax e a pacificação do vilarejo, parece indicar justamente tal propósito, ao mostrar o ritual onde um adolescente de 16 anos recebe finalmente sua permissão de caça e ganha um rifle de presente: crianças podem ser indefesas e puras, mas sabem matar grandes animais…
Thomas Vinterberg é um dos fundadores do movimento Dogma junto com Lars Von Trier e A Caça é seu oitavo longa. Estão presentes nessa sua última obra algumas das características técnicas que marcaram o movimento: a presença da câmera digital levada à mão, acompanhando de perto a presença corpórea dos atores, com sua inconstância visual, e o uso predominante de luz natural. Tudo conduzido com uma grande mestria, como se tais recursos, outrora vanguardistas, tivessem se incorporado a uma linguagem comum cinematográfica contemporânea e o que era maneirismo estético pode ser visto agora em sua destreza quase clássica, emprestando notável realismo e verdade à narrativa.
O diretor dinamarquês acerta ao recusar fazer uma análise moralista do tema, seja em relação à pedofilia, seja em seu julgamento sobre a validade da legalização da caça de grandes animais. Interessa-se, antes, em mostrar as tensões e contradições de uma sociedade avançada, no alto de sua condição liberal de primeiro mundo, mas que ao mesmo tempo parece conviver com uma atividade que exige insensibilidade e isenção em relação à covardia. A tese das duas histórias de Piglia, ou do McGuffin do velho Hitchie, pode funcionar afinal como um desmascaro das relações hipócritas subliminares sociais que se justificam em torno de meros pretextos ideológicos. Ao sair do cinema, após assistir este filme, um casal comenta um com o outro: “ficamos sem saber se ele [o protagonista] era realmente culpado. O diretor não deixa isso claro”. Ou, em outras palavras, é preciso sempre encontrar uma boa presa para arcar com as nossas culpas…
(Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de Capoeiragem (ed.7Letras) e organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro)
Penso que desde muito menina hei de ter tido um coração vermelho e até que faceiro, como as penas do tiê. Mas se pena é para o passarinho como realeza, comigo há de ser sempre em sinal de tristeza, de resto como para o resto das gentes em geral.
Beleza assim, de se ver, Deus não me deu. Um cabelo meio que ruim, cor de mijo em lençol de cambraia; um porte até que de esteio avantajado, porém cortado sem prumo nas linhas de brando e cumeeira — de modo que não combinou: nem gordura com gostosura, nem magreza com esbelteza. Mas hei de ter agradado alguns homens, assim mais por brincadeira do que por bem-querer de noiva, companheira. Tenho cá minhas prendas, que é saber um forró como quê, moquecar badejo com dendê, coser colcha de retalhos e bordado de qualquer ponto.
Mas, no fim, eu me pergunto do que é mesmo que adianta, quando não se tem para quem? Parece um ouro que nunca hei de gastar, por me faltar assim uma pessoa a quem fazer agrado. Riqueza sem porquê desgraça mais que miséria.
Mas choradeira é coisa que não presta, afora em hora certa, como no frio da morte, ou em avesso de grande alegria. No mais, xô égua.
Para tudo nesse mundo há de haver uma compensação, como por exemplo a de eu ser Madrinha de tanto menino-homem e menina-mulher nessa terra de Deus. Se não de batismo, que conto sessenta, ao menos e mais tenho um tanto de afilhados de sal, o que é também de tanta importância quanto os santos óleos lá do santo padre lá da santa igreja: dia desses, um franzino vai lá em casa, pede um copo d’água e eu, sem que ele veja, entrouxo uma pitada de sal. O bichinho bebe, diz:
– Vôte!
Eu me rio de entortar a cabeça de lado, ele um pouco se amofina e desata a rir também. Pronto que virei madrinha, Madrinha de Sal; o menino pede bênção e eu: Deus te abençoe. Mais um. Mais um moleque para eu confeitar bolo, ensinar conta das quatro operações, acudir na hora da precisão, dar pancada – levinha – quando na malcriadez e, no caso de pai e mãe faltar, virar cria minha, que eu gosto de criança, demais.
A bem dizer, eu andei sendo uma virgem muito velhinha nessa minha vila, até que um dia retei: se cada gente mulher foi feita com fechadura, é pois porque cada homem nasceu com uma chave, que só serve mesmo numa portinha. Que Deus fez assim, eu acho, mas é um modo de falar, só para o meu entender.
Eu assuntava e desassuntava, sentada numa cadeira, espiando a janela, que devia de existir um amor meu andando por esse mundão, com uma chave que só havia mesmo de servir no meu segredo. Porque todo mundo é um e para um existe o outro.
E onde estava esse homem? — eu matutava comigo, fazendo caraminhola… Agora ele há de estar armando um mundéu, mor de pegar os bichos desavisados que passam na trilha. Ou o diacho será pescador e haverá de estar em alto mar, com esse Vento Sul, meu Deus?
Ou será um mestre carpina de boa lavragem, um viajante mascate, até quem sabe um gringo? Um gringo estrangeiro que haverá de chegar nesse veranico mesmo, da Suíça mais francesa, como tantos que aqui aportam, sempre.
Onde haverá de ficar a Suíça mais francesa?
Longe, lá longe, no avesso desse mundo.
Um homem louro, lourinho, de cabelo afogueado e olhos d’água, até quem sabe gateados?
Um índio moreno, moreninho, de cabeleira escorrida e mais preta que o assum.
Ou baiano aqui das terras da Bahia, cor de jambo, cabra de prumo, risonho, valente.
Um qualquer, que beleza não é o que vale primeiro.
Beleza a gente inventa no olhar o outro, quando se aprecia e se gosta, gosta tanto que vira amor e luz maior. E até que o outro seja um papa-capim a gente enxerga nele um tiê-sangue, o passarinho mais caprichado de Deus.
Um qualquer pode vir a ser meu bem-querer, porque depois que eu me tiver nele, aí sim, eu acho que ainda dá tempo de desabrochar e até fazer menino.
Mangabeira boa não é torta e põe fruto temporão? Assim, que eu possa ser uma desse tipo, quem sabe lá de minha sorte cigana, dos desalinhos da minha mão?
Enquanto ele não vem, meu Deus, eu vou por aqui tenteando, armengando um que outro namorico, só assim para ir mascando um pouco esse vazio que chega a doer no meio das pernas do mês, quando entro nos dias da fertilidade de terra roxa, roxa terra morena-morená.
Entra ano, vai des-ano, ninguém me vem aqui plantar, de modo que acabo aceitando uma que outra semente que o vento toca ou o passarinho solta, só para não ficar assim, sem função.
Falando sem zás-trás, eu aceito um convite no depois do baile, um perfume e um abraço roliço, chamegos… No mais das vezes de gente de fora, que a gente aqui de dentro chamamos por nome de Turista, Branquelo, Gringo, Biribando… Dependendo do ar de cada um.
Pois eu numa noite que outra me vou com um desses aí, por que não hei de ir? Dá assim uma alegriazinha curta e depois uma tristeza mais fundada, mas e daí, ouri-curi? Tu pões coco pra ninguém. E vai, e vem, na hora do momento a gente só quer mesmo se alegrar. É menos pior se arrepender no depois que arrenegar no antes.
Mas toda vez, no instantinho mesmo em que vou, digo para mim, na minha fonte, que aquele ali é o meu amor. Então, que a bem pensar, eu nunca deixei de bem-querer-amar esse um que tem minha chave.
Enquanto ele não vem, eu fico brincando com o boneco dele; abraço um e digo: é ele. Beijo uma carne e falo: é a dele.
Quem sabe um dia eu acerto? Quem sabe se minha natureza não é assim a de um licor de jenipapo que precisa de muito, mas muito reforço de tempo até chegar ao ponto de adoçar um homem?
Agora: eu também penso aqui comigo que um licor não tem serventia se ninguém bebe e só formiga bole, na falta de alguém que o guarde num armário de carinho. Eu acho.
E do que adianta eu achar, meu Deus? Ô vida de dura travessia de ponte caída, vida boa não fosse a morte, que eu por hoje ando arretada e falando sozinha que nem criança de colo e velho caduco que volta a menino, porque mocidade sem aquele quê é o mesmo que um fruto verdinho que se perde sem amadurecer, e nem passarinho quer comer, nem o tempo faz moldar.
Mas meu coração não foi arrepanhado de vez, nasceu assim encarnado como as penas do tiê, voa, voa tiê-sangue, por esse mundo sem fim, vá dizer a meu amor que nunca se esqueça de mim.
(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)
Difícil encontrar alguém que não reconheça Nelson Rodrigues como influente. E polêmico. Não seria diferente, pois ele é certamente o mais destacado autor brasileiro no que diz respeito ao Teatro, à dramaturgia em geral. Com certeza, é o mais visto, considerando suas inúmeras adaptações, e que será lembrado pelo público em uma enquete, por exemplo.
Não sem mérito, sua rica dramaturgia da vivência nas ambientações burguesas, mitos e ritos intrínsecos à sociedade, situações enfrentadas na realidade dos costumes das famílias, a modernização e introdução do Trágico Épico ao cotidiano, histórias da burguesia beirando as vicissitudes da classe média, a sua virtude literária, a vibração do popular, tudo teve foco certo de provocação e crítica social.
Pai que tem desejo pela filha, irmã que jura no velório não concretizar a paixão pelo cunhado, viúvo que se casa com prostituta e vê o filho com tendências homossexuais se apaixonar pela esposa, irmãos que se entregam loucamente à paixão, essa mistura de desejos e reparos, vontade e ódio, são alguns exemplos de enredo da obra dele. O autor escreveu dezessete peças.
Logo, a necessidade do jornalista desvencilhou o autor do cronista que o permearia na maturidade, para além do palco, por boa parte da sétima arte, pois o cinema também bebeu na fonte Rodriguiana, e o que foi produzido por meio da obra dele resultou em mais de vinte filmes.
Da metade do século passado ao início deste, suas obras dominaram o cenário da vez, nas telas e nos palcos. Vestido de Noiva, Engraçadinha e as crônicas de A Vida como Ela É figuram facilmente no imaginário da população de todas as classes. A televisão foi grande viés para mantê-lo no topo da lista dessa época. Não sem mérito.
Nelson também pode ser aclamado por suas frases polêmicas e, ao mesmo tempo, brilhantes, ainda mais para alguém que não deveria imaginar o poder que o minimalismo dramático abrangeria na época do micro-blog. Em suas tiradas, muitas vezes ácidas e certeiras, ele é capaz de nos arrebatar com um mero desdém aos costumes vigentes da época, o que nos leva ao riso, ao ódio, ao palco, em uma pílula mínima da palavra.
Foi um observador sagaz das nuances intrínsecas da sociedade. Um realista com alma de menino, menino que vê o amor e o erotismo inerente ao real do ato de fazê-lo amar todos e tudo analisados através de um buraco de fechadura, na descrição dele sobre si mesmo: anjo pornográfico.
Falta-nos atualmente quem o faça tão bem, com tamanha discrição ao sórdido e verdadeiro, o ambíguo, esse anjo pornográfico, como observador que marca um gol no ato da fala.
Por essas e outras, Nelson está seguramente ao lado dos renomados dramaturgos do século XX, como um grande em tudo o que fez. Foi jornalista, cronista, contista, romancista e sempre um crítico fervoroso da vida cotidiana, dos desejos não revelados pela hipocrisia e, ao longo de sessenta e oito anos de vida, uma existência atribulada e dedicada ao relato da vida como ela foi, para ele, para os seus, sem meias palavras.
Talvez fosse muito cobrar dos dramaturgos contemporâneos uma visão tão marcante da perspectiva do humano como tinha Nelson Rodrigues. Como todos os mestres, será imbatível, pois é único. Não se pode formar a idiossincrasia estruturada de um estudante num ver sagaz de autor de gênio. Querer outro autor que não este formado pelo destino, o ícone de seu tempo, o detalhista da mise-en-scene da realidade. Escola nenhuma do mundo o conseguiria.
Da formação como redator, vendo e aprendendo o fazer jornalístico, aquilo que formou seu entender da raça estava nos romances clássicos, contudo permeados nas páginas policiais da realidade de seus tempos primevos na redação.
Já com treze anos, escrevia para jornal, observando com critério o real daquela existência por demais dramática, culminada com o trágico assassinato do irmão ilustrador, provavelmente bem próximo ao mesmo, na redação onde se convergiu a arbitrariedade do ser humano.
Histórias contrastadas com uma segunda paixão: o Fluminense e o futebol. Foi excelente e único também nas crônicas esportivas.
Nelson nasceu em Recife, em 23 de agosto de 1912, o quinto de quatorze irmãos. Mudou-se, ainda criança, para o Rio de Janeiro e foi na Zona Norte carioca que formou, na infância, a arguta capacidade de entender o redor como palco. Formou-se redator no jornal do pai e depois passou por diversas redações em sua vida. Apoiou a Ditadura Militar. Escreveu, com trinta e um anos de idade, Vestido de Noiva e, com trinta e oito, as crônicas de A Vida como Ela É. Faleceu em 21 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.
Nelson Rodrigues / Foto: Divulgação
Vestido de Noiva
Encenada pela primeira vez em 1943, Vestido de Noiva é um marco na dramaturgia brasileira. Segunda peça escrita por Nelson, que procurava, na época, uma renda complementar à função de jornalista. Sua primeira peça, A Mulher sem Pecado, estreada em 1942, fora um fracasso de público.
Podemos perceber, em Vestido de Noiva, todo o drama psicológico e a critica à hipocrisia social vigoradas pelo autor em sua obra.
É uma peça de teor psicológico cuja montagem é feita em três planos que se intercalam. Formam, ao todo, o plano da alucinação, da realidade e o da memória.
O enredo conta a história de Alaíde, personagem que representa a burguesia carioca. Ela morre vitimada por um atropelamento e, enquanto os médicos tentam salvá-la, entra em uma viagem interior através da qual vai rememorando e encontrando-se com pessoas do seu passado.
A peça tem como exemplo de liberdade e quebra ao regimento social a Madame Clessi, antiga prostituta do Rio de Janeiro.
Alaíde conquista e se casa com Pedro, namorado de sua irmã Lucia. Pedro e Lucia cometem o adultério, e, quando Alaíde morre, os dois se casam.
O inusitado da peça está em apresentar-nos esse argumento em uma estrutura não linear e aparentemente caótica. É, sem dúvida, um retrato do lado desumano da sociedade carioca do século XX.
Visto por um buraco de fechadura
Seria interessante ter a possibilidade de sentarmos à mesa e conversar com essa efeméride literária. Tentar perceber nos detalhes, entre um copo e outro, de onde brotavam as situações complexas criadas por ele. Não podemos descrever se o anjo deixaria mostrar-se. Num retrato, ele seria o ser que observa calado, um rosto marcado pela sabedoria, sem preconceitos expostos. Contudo, a função de arrebatar a alma do expectador do conformismo foi detalhadamente talhada em suas dezessete peças. E é com a visão vasta, dessas mesmas criaturas surgidas desse palco, que, cremos, ele gostaria de ser visto. E nós só temos que agradecer e aplaudir.
(Augusto Cavalcanti é poeta, escritor e dramaturgo. Formado em Cinema e Filosofia pela UFSCar, tem contos e poemas publicados na revista Olhar, no site Cronópios e em outros diversos websites de Literatura e Artes. Bloga em O Poeta e o Barco. Contato: acantizza@gmail.com)
desço as escadas do velho porão
onde hibernam infâncias amputadas
não vejo destino para os aniversários
diante da nauseante mendicância
de afetos
que ainda decora
as paredes mofadas,
albergue de fantasmas.
entrincheirado no passado
extraviado do futuro
há um presente alienígena
que sussurra no mato que engoliu o jardim.
tempo de corrosão
e abstinências.
lá fora
o mundo invadido
pelo lodaçal de supérfluos
está perdido, arcaico e desigual
diante da estupidez inflamada
de pastores que vendem gato por lebre
nas praças esterilizadas pela cegueira
da fé demencial dos evangélicos.
a casa desabitada
não revela o mistério
de tanta distância construída
umidade e fungo
batizam cada percurso
de minha descompassada lembrança
mas a memória, abrigo de punhais na mente,
não cede à cortês diligência da morte
que tão cedo impregnou de silêncios
os cômodos, os lençóis, os brinquedos
a cerca de arame farpado
o varal sem rumor
de panos
entre tantos desencontros
desencantos
descaminhos
o bisturi de Freud
duelando com o criminoso silêncio de Deus
responde às minhas dúvidas
***
ESCRUTÍNIO
no fundo da alma
a memória não sossega:
rio invisível e insondável
mas sublevado ……………………..e dissidente
febre que arde
e ressuscita
nas carcaças do passado
feito um saci,
salta
da floresta opaca e fria ……………….da noite
A Iniludível me acena
sem cordialidade nem música
com a inflexível veemência da morte,
que derrota a fé ensimesmada dos homens
e não camufla a inércia imperdoável de deus
na epiderme do oceano de dúvidas
uns olhos cavalgam sem sair do lugar
é noite alta e fria
não sei se é você ou é o luar
que exuma meus fantasmas
e exorciza a babel de mentiras
sei apenas que
quando agoniza a madrugada
e migra a população de vagalumes
o sol irrompe feito um furúnculo
e tudo pulsa em meu olhar
é a urgência da vida
a me desatinar
é a certeza do amor
vencendo a retórica imperial …………………………………………do tempo
***
CICLO
Enquanto o cortejo seguia
alheio aos gestos automáticos
das mãos que cerravam as portas
……..outros continuavam a vida ……..imunes à que passava, ……..despojada de sua última chama.
A cidade não seria diferente
porque amanhã
outras notícias viriam
e o rio no qual navegamos,
……..Tejo a repetir a lógica de Heráclito,
seguiria rotineiro
como o sangue em nossas veias,
entre urgências e desatinos metabólicos.
Entre o solene despedir dos mortos
e a maquinal dor dos vivos
………..a criança se demorava ………..num olhar pensativo e inquiridor ………..rumo ao insondável.
E percebia,
ainda na antevéspera de sua existência,
que viver é um lento aprendizado de extinção.
(Ronaldo Cagiano é mineiro de Cataguases, viveu em Brasília, onde formou-se em Direito, e reside em São Paulo. Publicou, dentre outros: Palavra Engajada (Poesia, 1989), Dezembro indigesto (contos, 2001 – prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 2001), Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio, 2006) e O sol nas feridas (poesia, Dobra Editorial, SP, 2011). Organizou as coletâneas Poetas Mineiros em Brasília (Varanda Edições, DF, 2002), Antologia do conto brasiliense (2003, Projecto Editorial, DF) e Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo (LGE, Brasília, 2006))
Desbravar visões e depois incorrer na tessitura das palavras. Qual semeadura de ventos, o ofício do poeta retorna da viagem com a colheita marcada por gestos infindos. Se pensamentos incomuns ou um mergulho na escuridão do mundo, saberemos em parte quando os sentimentos tomarem a forma de texto. Aquele que se põe a escrever, com propriedade e certa dose de resignação, deve saber que as incursões lhe reservam a sagração do mistério. Certo de que o caminho traçado não lhe confere status de impunidade, o artesão da palavra saboreia um banquete cujos ingredientes mesclam catarse e desventuras.
Entre nós, mortais que reinvidicamos a patente da racionalidade, habita o ímpeto de revolver o desconhecido, beijar-lhe a face e se enveredar por seus labirintos insones. Nesse trajeto, há quem não se deixe levar por meros devaneios e se dedique a olhar a existência com necessária porção de lucidez. Imbuídos dessa percepção, testemunhamos as escrituras de um autor como Heitor Brasileiro Filho. Sem esquecer os imperativos do lirismo, esse baiano de Jacobina ergue a sua expressão poética como quem vislumbra alguma ordem no caos que nos abraça. Ao poeta interessa moldar a palavra até que ela amplie suas frentes e atinja um patamar no qual o conformismo seja instância esvaziada. Rechaçando a uniformidade das coisas, Heitor escreve como quem não está disposto a pactuar com verdades inventadas nem tampouco limitações de cunho moral. O efeito que extrai disso torna seus versos dotados duma provocação que arregimenta signos e outros tantos sentidos. Dentro de um caminhar de dedicada cumplicidade com as palavras, o que inclui a participação em antologias como “Diálogos: Panorama da Nova Poesia Grapiúna” (Editus – Via Litterarum) e “Bahia de Todas as Letras” (conto – Editus – Via Litterarum), eis que o momento presente celebra a aparição do primeiro livro solo do poeta, “O Chão & A Nuvem” (Editora Mondrongo). Nessa entrevista, Heitor fala sobre o significado do seu mais recente rebento literário, chama atenção para a obra do poeta Sosígenes Costa e pontua reflexões sobre o fazer literário. Depois dessa conversa, não há dúvidas de que estamos diante de um artífice que talha palavras numa busca que sugere uma virtuosa inquietude.
Heitor Brasileiro Filho / Foto: Marcos Penalva
DA – Depois de alguns bons anos de maturação e de estrada, você publica seu primeiro livro solo de poemas, reunindo versos recentes e outros guardados de outrora. Nesse sentido, julga ter achado o momento certo para romper o silêncio das palavras?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Demorei a publicar o primeiro livro individual. Entretanto, não há espaço para o silêncio nesse processo. Participo de umas duas antologias. Participei usando os veículos de que dispunha desde o jurássico mimeógrafo aos blogs modernosos, jornais tradicionais, suplementos sarados, revistas, cadernos culturais, parcerias musicais, levamos a poesia em parceria com músicos e bandas, como a experiência do projeto Rock & poesia, por exemplo. Fechamos o livro O Chão & A Nuvem, atendendo a uma solicitação da Mondrongo Livros, modesta e ousada Editora do Teatro Popular de Ilhéus, a pedido do poeta e editor Gustavo Felicíssimo. A editoração de livros neste País é uma aventura inconsequente, pra usar uma expressão análoga à Bandeira, por isso fui solidário à Mondrogo, fundada em 2012, em Ilhéus, no interior da Bahia. E estimo que ela a mim. Lá estão poemas recentíssimos, cutucando o cão com vara curta e não menos flecheira. Juntei-os a outros testados pelo leitor mais exigente. Creio que deu bom resultado.
DA – Na apresentação que faz de seu livro, o escritor Gustavo Felicíssimo atribui à sua voz poética algo entre o lírico e o incendiário. Como concebe tais atributos?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Com naturalidade e certa resignação. Como ainda não conquistei a heteronomia (risos) com a qual se refugiou o genial Pessoa, concluo que a verve do poeta manifesta fidelidade ao temperamento do homem. Está em LIRIUM: quem / bem me / quer / não me // despe / ta / la, poema que me é cobrado desde 1983, não poderia deixá-lo fora deste livro. A assertiva é presente também em A Outra face: A poesia não aceita algemas / nem acredita em bombas de efeito moral // (…). Podemos denunciar a intransigência, o horror liricamente, veja em Burka da alma: Os arcanjos e as crianças / pegam em arma / como se tocassem o rosto do criador. O Gustavo estudou alguns dos meus textos e desenvolve trabalho analítico da nossa poesia contemporânea, trabalho de fôlego, ele que pretende publicar. O que me enobrece, vez que me situa entre meus pares e em boa companhia. Sua apresentação no meu livro é pouco econômica, mas não é cabotina, não erra com a afirmativa. O lirismo mais que convence, comove. Quando “a dança das palavras entre as ideias” (vide Pound) rompe o cerco da indiferença, ainda que não demova a apatia coletiva ou vença a insensatez, avança contra toda essa brutalidade. Se a prosa libertária enfeixa bananas de dinamite, senhor dos interstícios é o lirismo. Penetra e vai além das reentrâncias. Implode estruturas de falsa solidez. A poesia nesse estado é glicerina pura.
DA – Em “O Chão & A Nuvem” vemos um olhar que parte dos cenários regionais, íntimos e, portanto, afetivos da memória rumo ao mundo globalizado que nos atropela a todo o tempo com suas complexidades. O que cabe melhor ao poeta: a contemplação ou o enfrentamento?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – São dois lados da mesma “moeda”, que não se rendem a escambo. Mais que uma questão de temperamento é um estado de espírito, não há recuo na contemplação. O enfrentamento em mim é um princípio pessoal impulsionado pela necessidade de me expressar para o mundo. Deem-nos infância e memória / e ficaremos para o grande espetáculo da terra (in, O Grande espetáculo da terra). O melhor lugar está dentro de nós. É com isso que iremos ao longe. Parto do princípio de que dignificar o mundo infantil é fazer adultos saudáveis, ou ao menos razoáveis. Sou neto de modestos fazendeiros de gado do semiárido baiano. Filho de um caminhoneiro com uma dona de casa. O natural era que aspirasse ser médico, advogado, engenheiro. Se o Drummond dizia-se fazendeiro do ar, que posso dizer? Fazendeiro do árido (risos). Foi aí que começou todo o enfrentamento. Mas nada sou sem minhas raízes. Daí, a importância do locus, o nosso lugar é nosso ponto de partida. Nessa ordem fui educado. Primeiro a escuta, depois a fala. O problema nosso é quando o silêncio conspira contra a dignidade humana, quando o fenômeno ocorre nas relações sociais e contamina até a famigerada política cultural. O desafio do poeta é o fazer literário. Chegamos ao ponto em que a contemplação já é um enfrentamento. Não o único, felizmente. Mas quando as relações se amesquinham ao ponto, não deixa de ser uma afronta à necessidade de ascensão social a qualquer preço, da avidez de poder e mando, pior, sob o manto sinistro da corrupção. Ao poeta cabe o fazer poético sem melindres e sem peias. Se isso vai mudar o mundo, responda-me quem o lê. A primeira mudança ocorre na gente, é de atitude. A literatura muda apenas a maneira como a gente vê o mundo.
DA – A lucidez é uma espécie de companheira quase inseparável de seus versos. Aceita, sem ressalvas, a condição de poeta inconformado pelo espanto que é existir?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Aceito, com as devidas ressalvas (risos). “Viver é muito perigoso”, diz Guimarães Rosa na voz do jagunço Riobaldo. Mas é preferível que seja gozoso. A materialidade da vida, a existência reduzida a efemérides, o cotidiano torpe e mesquinho zoando nossas perplexidades, enfim, o sublime e o grotesco são matérias-primas e combustível para minha criação poética. Não posso encarar a vida sem essas prerrogativas na formação de meus versos. Não posso reclamar do destino que escolhi, posso sim transformá-lo. Tampouco, posso aceitar o arremedo como opção de vida para meu semelhante. Ninguém é obrigado a aceitar a esculhambação que fazem com nosso país, nem uma ditadura midiática mijando a nódoa em nossa cara. Digo em A República & o Newmonarca: A res é pública \ mas não é pudica \ pasto de sacripanta \ posto que nos fornica.// (…) Pública é a res! / dita um monarca / bobo de outros reis / que regem a fuzarca. De fato, não há poesia sem perplexidade, ou “espanto”. Não tenho vergonha de ser feliz, tenho a mulher que amo, temos o filho que escolhemos. Gosto de dizer que felicidade não é conformismo. Como pode haver conformidade com um mundo em ebulição?
DA – Todo poeta é, em certa medida, um impostor?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Jamais. Ou é poeta ou não é. A poesia não representa, a poesia é. Ao fazer uso da verdadeira linguagem poética, o poeta não “quer dizer”, o poeta diz. O fato de ser uma das características da poesia a multiplicidade de sentidos, essa riqueza expressiva revela sua capacidade de revolver e expor os prismas de uma verdade. A verdade da arte. Poesia é transparência da alma. Entretanto, se a pergunta se refere à limitação do indivíduo em viver de sua arte, digamos que sim. Se é que é possível ser impostor de si. Sabendo que a impostura parte do mercado, a relação com o mercado editorial é esquizofrênica. Onde já se viu emprego de poeta? Não podemos viver sem poesia, mas não podemos viver de poesia. Isto não é uma escrotidão? É. No meu caso o eu-peão é quem sustenta o eu-poeta, quando ambos são indissociáveis, a mesma pessoa. O mais incrível é que por essa condição a poesia ainda é uma arte livre, que não é escrava do mercado, não se curva à sevícia. Veja como a ostentação é a cara da pobreza. Meu sonho agora é ganhar dinheiro escrachando, poeticamente, toda essa escrotidão (risos). Não apenas o lirismo, mas, o humor e a ironia são badogues que valem por uma ogiva nuclear. A gente morre, vira lama, e a poesia fica aí… levitando. Como pode ver no poema “Poesia é ouro sem valia”, com título homônimo de um artigo de Ferreira Gullar, a quem dedico, estabeleço seguinte diálogo:perdoe-me a gula / o Gullar // poesia / não é ouro / é valia // ouro vale / quanto / o pesar // o quanto flutua / a poesia.
Heitor Brasileiro Filho / Foto: Arquivo Pessoal
DA – Sua trajetória aponta para um caminho em torno da obra de Sosígenes Costa, um poeta de cunho notável e que ainda permanece desconhecido por muita gente. O que o fez debruçar-se nessa pesquisa?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – O desafio. Minha primeira impressão sobre a arte de Sosígenes foi de estranhamento. Apesar de todo um domínio, de uma técnica, ele recusava a moda. Fui entender melhor. Havia apenas um exemplar de “Obra Poética” (1959) na biblioteca pública. Depois consegui cópia de “Obra poética II” (1978) e “Iararana” (1979). É injustiça um poeta ficar mofando por mais de 30 anos. Embora o material fosse escasso, o escolhi como objeto de estudo para minha monografia de conclusão do curso de especialização na UESC. Só havia dois livros sobre sua poética: “Pavão parlenda paraíso”, de José Paulo Paes e “Sosígenes Costa: O Poeta grego da Bahia, de Gerana Damulakis. Li toda a bibliografia disponível, poemas, uma entrevista, e as crônicas que revisei para o livro de Gilfrancisco Santos, organizado por Hélio Pólvora. Garimpei alfarrábios, juntei textos esparsos tentando montar o quebra-cabeça. Mais escassa ainda é sua biografia, muita lenda, poucos fatos. Os contemporâneos estavam morrendo. Aproximávamos de seu centenário, procurei seus familiares e amigos em Belmonte. Uma epopeia: levei gravador e máquina fotográfica. Preparei minha “Violeta”, uma moto XR2000R que guardo até hoje, embarcamos em Canavieiras para Belmonte. Seguimos pelo Rio Pardo até o Estuário do Jequitinhonha. Em Belmonte, sua sobrinha Ana Rosa me confiou documentos. Colhi depoimento da Professora Mariinha, contemporânea de infância e também no Rio de Janeiro. Segui de moto para Santa Cruz Cabrália pra gravar entrevista com Naçu, o irmão caçula que tinha 79 anos. Não pude retornar por Belmonte para pegar o barco devido às chuvas. Enfrentei tempestade na estrada pra Porto Seguro. Tinha recursos para uns três dias. Fui acolhido na pousadinha Pôr do Sol em Trancoso. Retornei sete dias depois pra Ilhéus, debaixo de chuva impiedosa. Embora levasse material para uma Universidade e a Fundação Cultural na qual trabalhei, viajei às minhas expensas. Sou grato ao apoio da família e amigos, aos quais conquistei amizade e respeito. Retornei pra proferir palestra. Essa viagem me serviu para remontar sua ambiência de origem, sua formação de leitor, seus primeiros escritos, e desmistificar a imagem divulgada do poeta. Já nesse período, quando afirmei que Sosígenes, com dicção própria, espírito combativo exprime solidariedade, preocupação com a pesquisa histórica revelando um rico vocabulário que não dispensa o coloquialismo da gente do povo, fruto da vivência e da pesquisa de termos de origem indígena e africana, as duas raças mais sacrificadas na constituição do povo brasileiro(…), os donos da cultura na Bahia deram de ombros. Recentemente, Herculano Assis, reuniu documentos colhidos em Belmonte e, no Rio, lançou Cobra de Duas Cabeças. A obra só confirma que Sosígenes não era apenas um poeta habilidoso, o sujeito tinha senso crítico, às vezes era ácido, mas bem humorado, antenado com a obra de autores então em evidência e com o desenvolvimento das letras nacionais.
DA – Quais traços julga serem marcantes nos escritos de Sosígenes Costa?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – A busca da originalidade, algo difícil de edificar em qualquer arte. Mas, sobretudo, a quebra nos paradigmas no que concerne o “enquadramento crítico-convencional da nossa Teoria Literária”. O cara era invocado, tinha integridade e não buscava sucesso fácil. Até sua poesia dita clássica, a sonetítisca dos pavões, admirada por dez entre dez acadêmicos dentro e fora dos quadrantes da Bahia, usa uma roupagem parnasiana rigorosamente metrificada, e ainda com floreios barrocos para incutir-nos um conteúdo moderno e com as cores locais, anseio do nosso Romantismo que conhecemos com uma das principais bandeiras do Modernismo, corrente que ele ainda implicava e batia através de sua Coluna de Sósmacos , em 1928, porque ainda não havia digerido completamente seu conteúdo. “Búfalo de Fogo” passou pelas mãos de muita gente boa como um poema meramente simbolista, telúrico, etc. Subestimaram o mestre-escola das roças de Belmonte, recém-chegado a Ilhéus, com apenas 27 anos de idade. Por trás daquela capa simbolista, o que temos lá é um épico denunciando o horror da invasão e da pilhagem. Imagine a cidade de Ilhéus, cidade-mãe da “civilização grapiúna” (vide Adonias Filho), qual “Búfalo de Fogo”, “fosfóreo”, “florescente”, sendo perseguida por centauros (“Centauras”), bichos perversos dados à desordem, invasão de lares, e cuja representação simbólica na mitologia clássica nos remete à barbárie? O Simbolismo, em essência, preconizava “a arte pela arte”, a contemplação e não o conflito. Em “Búfalo de Fogo”, literalmente, o bicho pega! Portanto, um épico a ser estudado com maior acuidade. Veja que Sosígenes abre o poema da seguinte maneira: “Anoiteceu. / Roxa mantilha suspende o céu no seu zimbório / que noite azul, que maravilha / sinto-me, entanto, merencório”. Olha que tristeza retada… Depois faz um passeio pela Bíblia, pela história, pelas mitologias, com vocábulos nossos tão rebuscados que mais parece outra língua, uns duzentos versos depois encerra de forma emblemática: “(..) Protervos ventos em mantilha / como cem feras em regougo, / fazem da noite na Bastilha / revoluções de demagogos. / Ventos, ladrões de uma quadrilha, / depois do crime, vão pra o jogo. / dentro da noite, Ilhéus rebrilha qual Búfalo de Fogo.” De lá pra cá, passaram-se 85 anos. Agora repare na atualidade do tema! A sua poesia Modernista, talvez a mais visitada, novamente foge às regras vigentes. Menotti del Pichia, na Semana de Arte Moderna, em 1922, provocou a plateia: “Morra a Hélide!” Sosígenes seguia próprio caminho, depois criou o mito da falsa Iara (“Iararana”), fruto do estupro contra a Iara pelo centauro Tupã-Cavalo, “Mondrongo vindo das oropa” para invadir e usurpar a cultura nativa. “Iararana” remonta as origens da colonização portuguesa e vai até o processo histórico da formação da nossa cultura do cacau. Inadmissíveis para os primeiros modernistas eram os mitos da nossa civilização de origem indígena junto à mitologia clássica, portanto, de origem europeia. Os “ouropeis”, pra usar uma expressão irônica de Mário de Andrade. Sosígenes inovou no conteúdo ante a orientação modernista-primitivista desta primeira fase, a chamada fase heróica, e o fez ao seu modo. Usou elementos da tradição clássica para fazer uma poesia essencialmente brasileira, contudo, universal. Elementos presentes em outros textos, escritos a partir dos anos 30. Embora acusado de anacrônico, ele fez o diferencial e o complementar. Digo sempre que não é tudo que Sogígenes escreveu que eu gosto incondicionalmente. Mas, justiça seja feita, em toda área que atuou deixou peças de comprovada grandeza.
DA – De que modo a tradição pode dialogar melhor com a modernidade em matéria literária?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Não podemos negar aquilo que desconhecemos. A história tem sua dinâmica e a referência é a tradição. Não significa estacionar o olhar numa zona de conforto. A vanguarda de hoje pode vir a ser a tradição amanhã. Na história dos movimentos literários uma tradição se sobrepõe à outra – não a suplanta – nem sempre por um processo de ruptura, mas de associação e superação. A boa leitura não apenas alarga os horizontes, às vezes deixa marcas indeléveis que vão além do consciente. É preciso saber ouvir a voz que habita nosso espaço interior. A partir de então, saber o que fala, como fala, de onde fala e para quem. Tudo isso, sem se privar da descoberta constante que é o fazer literário.
DA – Uma de suas máximas é afirmar que alguns de seus poemas foram premiados e outros ainda não foram corrompidos. Esse pensamento é uma espécie de antídoto contra a vaidade?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Mera tentativa. O antídoto ainda não foi inventado. Quando brinco com a vaidade humana, revelo meu jeito de ser vaidoso.
DA – Escrever aponta algum caminho de salvação?
HEITOR BRASILEIRO FILHO – Sim. A poesia salvou minha vida.
– DOIS POEMAS DE “O CHÃO & A NUVEM” –
PEDINTE
A loucura bate à porta
do vaso das flores
sirvo-lhe o copo d’água
amanhã virá a consciência
em busca de comida
A REPÚBLICA & O NEWMONARCA
A res é pública:
mas não é pudica
pasto de sacripanta
posto que nos fornica
a res é pública:
como quer a grei
que escreve & publica
& não reconhece a lei
a res é pública:
se não ultrapassa
a verdade e a justiça
à venda e à mordaça
a res é pública:
não é de ninguém
de quem mais se furta
é do que menos a tem
é pública a res:
como será sempre
magarefe o rei
& o gado a gente
é pública a res:
como sempre foi
covarde a sangria
da farra com o boi
a res é pública:
mas livre de arbítrio
ao biltre da política
se eleito o estrupício
é pública a res:
privada só pra súcia
evacuar de vez
seu voto de astúcia
– pública é a res!
dita um monarca
bobo de outros reis
que regem a fuzarca
Desde que a simplicidade se deu, Bárbara resenha, desenha, põe gente, passarinhos e medos pra voar no papel:
A primeira vez que Bárbara pegou numa folha, a folha tragou a Bárbara.
Era de cheirar dum tudo o que tocava.
Conhecia as coisas pelo tato que no tato da coisa, dizia, pequenininha, dizia, que no tato das coisas está a cor e o contorno em luz e sombras.
Tinha muita dó de apontar os lápis, achava que podia doer, não nos meninos, os lápis, mas nela. Podia doer fundo nela, ela a Bárbara. E desde sempre que é desde então, desde que a simplicidade se deu, Bárbara desenha, por conta daquela primeira vez em que a folha tocou nela e porque tudo, pele de coisa, urubu, estado, gente-coração, minhoca vendida, violão velho, gato fedido, pensamento doente, pedra jogada e pedra contente, Monalisa estragada, tudo-tudo, tem cheiro de cor e de mundo e de gente:
Aos dez anos já fazia gente e chamava URUBU aos pássaros que fazia. Vestia pessoas com corações, dava bolsinhas, sorvetes e bracinhos aos corações.
Entrou para a escola de desenhos aos treze anos e abandonou a escola de desenhos aos treze anos quando o professor mandou que desenhasse a Monalisa igualzinho a Monalisa do Leonardo. Onde já se viu? Igualar as coisas? Professor mandar?
Pisoteou a faculdade de artes visuais em 2004 pelos mesmos motivos, ora, onde já se viu?! Onde?!
Desenho: Bárbara Damas
Desenhou, seguiu desenhando e foi parar na faculdade de direito no mesmo período, onde, porque ninguém mandou, graduou-se. Nesse tempo torto, deu-se sua primeira exposição e Bárbara encontrou-se com seus traços. Foi em 2007, no SESC AMAPÁ, no evento “Aldeia SESC Povos da Floresta”.
No ano seguinte, convidada para ilustrar seu primeiro livro infantil, lançou-se no “Macapá – a capital do meio do mundo” pela Cortez editora. De lá, então desenha ali, resenha aqui. E aqui está: Penso que Bárbara Damas tem a arquitetura lúdica, os traços mais leves que conheço. É um estado. Pois que é de se estar debaixo duma árvore muito da chapeluda, verdíssima, quando se tocam os olhos nos traços de Bárbara. É de se estar, mas também pode-se estar a precisar dum lugar assim, sim, porque Bárbara é fornecedora. (Tenho pra mim, tenho para dar, que as linhas de Bárbara Damas elevam a qualquer estado de se estar.)
Há quem desenhe para expurgar, há quem desenhe para se ornamentar, há quem, há quem. Bárbara Damas, como se vê logo ao pingar vistas num de seus desenhos, Bárbara Damas desenha para que o mundo aconteça. O mundo e tudo o que há no mundo: pele de coisa, urubu, estado, gente-coração, minhoca vendida, violão velho, gato fedido, pensamento doente, pedra jogada e pedra contente, Monalisa estragada, tudo-tudo. É de se estar e Bárbara sempre estará, pondo tudo pra voar.
Quem disse que gente não é coração?
Desenho: Bárbara Damas
* Os desenhos de Bárbara Damas são parte integrante da galeria e dos textos da 79ª Leva.
(sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. Babando)
Há pássaros que me doem no avesso
dos voos. Como se engolisse a vertigem
de um caos de penas e perdas. Acentos
graves em desassiso na queda invertida das
lágrimas
………do fundo de mim para a superfície dos teus …………. olhos.
E sei que não há outra pele que me salve
da solidão. Porque tu corres-me por dentro
do corpo. Qual seiva espessa do ar que me
atravessa. Um abismo de sopros a romper-me
o peito. Tempestade de reversos. O oposto do
teu toque.
Há pássaros que me doem no avesso
das asas, sabes. Como se a vida fosse este caminho
de pernas para o ar. Um horizonte desenhado
ao contrário. Um céu que piso sob o peso da terra.
Há pássaros que me doem, meu amor.
No avesso dos voos.
***
Decomponho-me
Sitiada na hora da torção da luz, decomponho-me.
Em excertos de estrada húmida. Em filamentos
de solidão.
Entorno o meu corpo nos intervalos das tuas mãos
recorrentes, e contemplo a agonia amplificada dos
ruídos na crosta arfante da terra.
…………[Consubstanciação do impacto da memória.]
Como as gotas de ti no vidro sujo.Como aquele
cheiro a interior prescrito.
…………. [Como se não pudesses
habitar-me mais.]
E no movimento perplexo dos olhos golpeados
de horizontes intermitentes, respira-me o lamento.
O meu grito lentificado,
…….. [pedestal do teu aceno]
a sangrar visões de nós. Um uivo grave, desnorteado,
a ser-me eco mortificante na pele.
E sitiada, ainda, na hora da torção da luz,
……………decomponho-me.
***
O silêncio das pedras
Apetece-me o silêncio das pedras
A quietude das areias primitivas de um chão
sem dono
A lonjura sem fundo
nem pele
que me doa
Apetece-me a nudez das escarpas
salgadas
A liquidez inabraçável
do mar
O alívio de não ter peito
O descanso das mãos
Apetece-me o silêncio das pedras
***
Um rosário de dias sem nome
Sobre a mesa do meu jardim de pó e ar,
um rosário de dias sem nome. Dias
(in)seguros na compressão de dedos partidos.
Dias memoriados em cacos de porcelana azul.
Contas de um céu por limpar.
É um rosário de dias sem rosas nem chão. Dias
desfiados em mistérios de um tempo menor, a tremer
por dentro das coisas, a doer nas dobras dos dedos
partidos. Atravessado de vestígios da salvação
por encontrar.
É um cordão de pedras e nós a engolirem silêncios
irrespiráveis.
Estranha cadência de uma procura qualquer.
Três terços de um todo por acabar.
***
Cansada
Cansada de me ser um relevo abstracto na textura das coisas que piso.
Cansada de percorrer esta cordilheira insular de abraços possíveis.
Aprendi a respirar vazios estranhos ao meu corpo e dói-me já o peito
de tanto me salvar dos espaços contaminados.
Cansada de calcar a ternura em gavetas que já não fecham e depois
partir para um mundo onde não cabe todo o tempo que ainda falta.
cansada.
Cansada de tudo o que me sobra do chão.
(Virgínia do Carmonasceu em Champagnole, França, mas foi em Trás-os-Montes (Portugal) que cresceu e aprendeu a escrever. Licenciada em Comunicação Social, o seu percurso profissional passou pelo jornalismo, mas foi no mundo livreiro que encontrou a sua verdadeira vocação. Atualmente leva adiante um projeto (Poética – Livros, arte e eventos) que, mais do que uma livraria, pretende ser um espaço de verdadeiro e profundo encontro de livros e pessoas. É autora das seguintes obras: “Tempos Cruzados” (poesia), Pé de Página Editores, Coimbra, 2004,“Sou, e Sinto” (poesia), Temas Originais, Coimbra, 2010,“Uma luz que nos nasce por dentro”, Lua de Marfim Editora, Lisboa, 2011)
6:00 am. o dia a encontra. com um martelo de feiticeiras. o vapor do café é a fogueira que decide ativar. poderia poupá-la do fotoenvelhecimento interior, com seu rosto abstrato: nenhuma lua, nenhum quadrúpede. esfenoides imóveis, asas absortas. apenas o cálculo, criteriosamente revelado, em expressionismo facial de espécime taxonômica. Ela, zoomorfa como quadriga apocalíptica em autoestrada planejada, o sonda com o neurocrânio odonata, preparado para os aparatos curiosos do laboratório solar. com uma esferográfica mental, rabisca sobre sua testa simétrica: uso externo.
12:00 pm. Semáfora, a libélula fêmea deposita seus ovos em estacionamentos lotados. A luz refletida pela lataria dos automóveis imita espelhos d`água.
6:00 pm. festins, repugnâncias, minas de carvão. exauridas. e as mãos de querosene, com um incêndio astuto a escorrer sobre a gravitação das almas devastadas. pelas instalações mais infernais: onde os opositores ancestrais são envernizados em corpos de gigantes cogumelos polimorfos. inocentes e jovens, frente à barbárie dos querubins em santuários de fast-food. banalizados pela melancolia industrial de madonas dopadas. lógicas e fálicas. Ela pressente suas mortes cifradas. quando desconecta o interruptor. carbonizam em alegoria de betume, políticos, no fermento escuro. stercus diaboli.
12:00 am. se as lâmpadas fossem navalhas, cerraria as pestanas de lobo-guará sobre o córtex dos corredores mortiços desta massa cinzenta que impede o símbolo da faísca selvagem pelas escadarias. mas os olhos de tungstênio não se fecham.
***
A curandeira do império solar
Em meu tratado particular de esquizoanálise, a alma chocalho canta teus mortos e artefatos.
E, xamã de ti, canibal de ti, índio de ti, espalhando barbáries mínimas em teu dorso iluminado, entorpecida de síndrome luciferina, aguardo a noite e a visto como um hábito de monge. Por pura exaustão pirofágica. O lodo no escalpo dos pés, queimando nas estrelas, com a baba de teus anjos: os viscosos generais, empalados em cerveja e tintura vermelha.
Até que tu, mal amado, desperte-me de um sono de eras selvagens e puras, e tiquetateie minha sombra mais uma vez, esquartejando-me com as engrenagens desligadas de meus ancestrais.
Meu proceder escambo me pesa os nervos. A pele escalpelo cicatriza fácil demais.
Olíbano libidinoso, tu és. É preciso, sol do império, ferver teus exóticos inimigos, em óleo quente.
***
poesia para bruxas órfãs
Meu livro das sombras, todos os livros. Meu oceano monocromático. Os livros enchem o refrigerador. O guardião das linhas efervesce sua sombra líquida pelas almofadas. Em minha crueza, mastigo os fantoches que dormem nas forminhas para gelo. São de vários formatos, gatos, rinocerontes, cabides vazios, hexágonos. Seus olhos lendo minha laringe lacrada. Seu sal escuro pelo apartamento, seus braços infantis, agitando a parafernália marinha com moinhos de abracadabra. A sombra efervesce. Como uma vitamina em mutação. Invoco raios, primeiro os pequenos, a esquizofrenia de tesla, o curador de pássaros obcecados. Depois os maiores, de alturas extintas, os que caem cheios de deuses empalhados pelo pó dos homens. Em minha jaula inventada, fabrico uma densa população prensada contra as cortinas, a coleção de vagalumes. Ainda sorrindo para mim. Tão elétrica quanto o vapor de uma pavorosa respiração. Não há médico-monstro que supere os impropérios luminosos que lanço para ti, carbonífera existência.
O tinteiro está lotado com o sangue azul-petróleo de meus pais.
***
Um corpo herege no cemitério de néon
A terra roxa, a bisavó benzedeira. Sodalita, nunca quis teu azul. O slogan portfólio. A aura escarlate, o passo amarelo, cuidado atenção.
Enquanto escrevo abraxas, nos terreiros degolam o bode e o galo. E a fogueira, acesa só para mim, seiscentos e sessenta e seis micro-ondas.
Vivo a escrita dos grimórios. Meu tempo caça às bruxas ainda fresco nas praças de alimentação. Babalon sadia nos rótulos de uma barra de cereais. O tridente de fiat lux espeta a carne frigorífica de uma maçã domesticada.
Tenho um punhal medieval, colorizado e intacto, para algum ritual cibernético. Cultivando à sombra, livros e mais livros, transgênicos. E gado marcado, com alguma dócil indolência, apresento formal (por fora) o desgastado erregê. Limpo a seco.
Sodalita, nunca quis teu azul.
Mantenha-me longe do alcance dos iluministas de celofane.
(Andréia Carvalho(Curitiba/PR) é autora dos livros A Cortesã do Infinito Transparente (Lumme Editor, 2011) e Camafeu Escarlate (Lumme Editor, 2012). Participa do corpo editorial deMallarmargens – revista de poesia e arte contemporânea)
Para a psiquiatria, monomania “é a definição de uma obsessão doentia por uma ideia, objeto ou pessoa”. Em seu álbum de estreia, a atriz, roteirista e compositora Clarice Falcão parece ter apenas uma fixação: a meiguice. Filha do cineasta João Falcão e da escritora Adriana Falcão, esta pernambucana criada no Rio de Janeiro transita desde cedo entre diversas esferas da arte. Aos 23 anos, Clarice já possui um extenso currículo – como atriz e roteirista – na televisão, teatro, cinema e principalmente na internet, onde há pouco mais de um ano e meio começou a postar vídeos de suas canções de voz e violão, somando mais de 10 milhões de visualizações. Aliás, sua primeira composição foi a trilha sonora do curta-metragem Laços (2007), também estrelado por ela, que ganhou o concurso mundial Project: Direct, do YouTube. Parte deste sucesso virtual deve-se ao canal de humor Porta dos Fundos, onde a multifacetada artista escreve e participa ativamente das esquetes, muitas vezes ao lado do namorado Gregório Duvivier, um dos idealizadores do coletivo.
Suas canções de amor – de rimas fáceis e melodias suaves –, repletas de ironia e humor negro, são na verdade pequenas construções narrativas, o que talvez justifique a ausência de refrão da maioria das faixas. Lançado pelo iTunes no final de abril, Monomania não possui gravadora ou formato físico oficial, visto a relação direta que a cantora já estabelece com seu público. Atualmente, o álbum figura entre os mais baixados na Apple Store brasileira e é comercializado, de forma quase artesanal, apenas em suas apresentações ao vivo. Com influências de Magnetic Fields, Kate Nash e Chico Buarque e comparada à atriz e cantora Zooey Deschanel (da dupla She & Him), Clarice soa como um mix da canadense Feist com Mallu Magalhães. O primeiro registro de estúdio da menina de voz doce e canções despretensiosas ganha arranjos mais elaborados do que as versões acústicas disponibilizadas na internet e conta com a consultoria e produção musical da sogra, a cantora Olívia Byington.
“Só pra você saber”,como um mantra, Eu Esqueci Você abre o álbum enumerando as vantagens de superar um amor do passado. Na sequência, a insensata Macaé (e se eu mostrar o cianureto que eu comprei pra gente se matar/você manda me prender no amanhecer?) e Monomania (se juntar cada verso meu e comparar/vai dar pra ver/ tem mais você/que nota dó) elucidam a tal patologia do título. A minimalista Um Só talvez seja uma de suas letras mais inspiradas (o meu desespero/é que quando acaba/você fica inteiro/e eu fico o pó), juntamente com o filmete-dançante Fred Astaire (mas, cuidado/me deixa no canto da sala/que se eu tiver alguma fala/eu mudo pra “amo você”), que ganha também uma versão em inglês no encerramento do álbum. A divertida Talvez (se eu não tivesse um troço/lá dentro da barriga/que eu sinto que está dançando a dança da garrafa) e Qualquer Negócio são sussurradas quase à capela – a última na companhia do violoncelo de Jaques Morelenbaum, que assume o instrumento em outras três faixas do disco.
A segunda metade de Monomania inicia com a balada De Todos os Loucos do Mundo – uma declaração à Duvivier – e fala do encontro de dois seres pra lá de criativos (de todos os loucos do mundo/eu quis você/ porque a sua loucura parece um pouco a minha). A etílica O Que Eu Bebi narra as mágoas amorosas que todos já tentamos afogar (o que eu bebi por você/dá pra encher um navio/e não teve barril/que me fez esquecer), enquanto A Gente Voltou oferece um clima circense à reconciliação do casal da canção (não entra na bad, Romeu/Julieta morreu/mas a gente voltou). O ponto alto do disco fica a cargo do dueto de Clarice com o capixaba SILVA (que também toca violino em algumas faixas) na valsinha Eu Me Lembro, com as impressões masculinas e femininas do primeiro encontro. A deliciosamente mórbida Oitavo Andar, uma de suas letras mais teatrais, (e aí, só nos dois no chão frio/de conchinha bem no meio fio/no asfalto riscados de giz/imagina que cena feliz) reforça toda sua veia literária, bem como a singela Capitão Gancho e sua listagem de coisas que fizeram Clarice ser quem é. Definitivamente, a graça da autora/obra é a simplicidade, doçura e frescor adolescente. Sua audição provoca aquela sensação de riso bobo nos lábios: quando você se dá conta, já está totalmente arrebatado.
minha boca suja de sono no teu sonho sujo desata novelos e subtrai gengivas: gosto de deserto em prato de cerâmica, língua escorregando pela geometria defasada. arapuca armada: impossível resistir ao ato de se abismar. a janela cega revela nódoas, sequelas atrás dos tijolos. o silêncio costurado com barbante faz lembrar que as raízes cortadas fazem falta: – onde furtaram meu quase nada há um incêndio infinito e asas longe do tronco.
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no quintal de nossos umbigos
o teu riso desata um solstício – ( suprimimos os travessões, os dois pontos, as vírgulas, atropelamos a semântica com beijos salgados. retiramos do relento os balões desgarrados, retiramos também do guarda-roupa os sonhos velhos e os refizemos para o uso diário. nos encontramos quando erramos os caminhos, quando na interseção dos itinerários brincamos de nos perder e de nos achar e de trocar de pele.) – a cada gesto… um poema de amor, um samba, uma brincadeira no quintal de nossos umbigos.
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perdi muito mais que uma orelha
e tudo vaza pela ferida do pé: as árvores sorumbáticas, os peixes dopados de barbitúrico em mazeladas coreografias. a paisagem cabe em garrafas, enfio os fantasmas em um cordão e os penduro no pescoço. os dentes estão sujos, o corpo livre, os ossos antes oxidados sentem a velocidade retomar seu lugar, os espinhos nascem fortes novamente, devo a alguém o que me foi de vazio. o telefone está mudo e o colchão acolhedor em sua extensão longitudinal, província dos sonhos que arrebenta o nervo dos álbuns de fotografias, capitania tremembé guardada na memória das pedras. – e tudo vaza pela ferida do pé.
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a espinha de março
i
a espinha de março atravessa a garganta do abismo.
um relâmpago indigente cai no deserto de presságios
perpendicular às asas verdes inoxidáveis que me pertenciam.
mordida pela nevralgia do cão andaluz
a menina conseguiu apanhar a mão no vazio da rua, …………………………………………………….antes que as formigas ………………………………………..chegassem.
quando no entardecer chovia no sol-laranja
os últimos demônios que ainda esperneavam se iam,
deslizando lentamente pelo orifício do horizonte
acompanhando o movimento do astro sumindo.
ii
21 gramas é o peso da alma dentro da anatomia rígida do caroço, …………………………………….do hermetismo flácido da certeza ……………………………………..quando os pássaros caem feito folhas ……………………………………………..no chão abjeto, ……………………………………………..um quase-som do violinista verde.
impossível saber que código contém aqueles rostos: ………………………………………..quase poço sem fundo. ………………………………………..não importa.
fazendo a barba dos olhos com navalha
eu deixava a assonância dos acordes criar sons de cor, ……………………………………..jardins sinestésicos ………………………………………pra alimentar camaleões.
iii
março passa a conta-gotas em pingos diacrônicos,
um gole no líquido baldio da xícara
e um gosto suave insiste em permanecer, ………………………………imitando os dias teimosos.
as alpercatas do tempo acariciam degraus, ………………………a tangente dos cílios, ……………..o astigmatismo do olho d’água:
a diáspora das figuras-carcomidas que moravam nos armários, ……………………………………………………………gavetas, …………………………………………….estantes da lembrança.
iv
– os insetos digerem o mundo na sua enzimática-paciência-atemporal,
tal como as ostras em seu silêncio-de-calcário-inacessível
guardam os pecados do mar num cofre impermeável.
(Demetrios Galvão é Historiador e poeta. Nasceu em Teresina-PI, cidade onde reside. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (FUNDAC/PI, 2005), Insólito (ed. Corsário, 2011) e o cd Um Pandemônio Léxico no Arquipélago Parabólico (2005). Foi membro do coletivo poético Academia Onírica e um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011), além de ter participado da produção do cd Veículo q.s.p – Quantidade Suficiente Para (2010). Atualmente edita a revista Acrobata)