Há mais que um forte clamor de transtornos
neste cavalgar dos quatro cavalos.
Seus cascos rebrilham em tons nada claros,
tens já em tua mente as cores e os nomes?
Toda a relva desiste de vida.
Toda vida é silêncio e clausura.
Todos os sons, segredos, sepulcros.
Tudo completo, enfim, tudo escuro.
Quatro bandeiras, quatro promessas,
quatro pensamentos, quatro discursos.
Quatro adeuses, acenos encobertos,
quatro mistérios cavalgam o mundo.
No teu quarto aparente e seguro
só com teus olhos se surpreenderias
se com teus ouvidos avistasses os galopes,
os galopes, os galopes já em teus corredores.
Não mais ao longe, na distante Beirute;
China ou Coreia, Senegal ou Rússia,
mas no meio de ti, na corrente profunda,
no sutil e diário passear do teu sangue.
***
A CONQUISTA DA PALAVRA
Para a palavra ser bem escavada
não se pode apenas esperar o dado
no desígnio aleatório da jogada.
Como touro no trabalho dos dias
ferido de ferro a palavra é faca
que desfaz antigas missões já concluídas.
É falar deste cão irritante que escapa,
no encanto elíptico da palavra,
não nos omitindo, mas presentes.
Em cada azul dentro dos céus que chama,
fixa conquista dos significados: – Ata
este labor sobre a terra transparente.
***
A CANÇÃO
Esta canção não é a minha,
surgida das cinzas e das
chuvas
impetuosas na rubra
manhã,
que está na cisma do
escuro,
e na noite mais serena e
fria.
Esta canção não é a minha
ouvida
no laticínio posto à mesa,
no azeite
e na cólera cega,
em assembleias
onde homens procuram
a fome
e se fartam
da solidão da espera.
Esta canção não é a minha
absurdo canto
do acalanto
nebuloso
nas patas de um urso
bravio
que quer capturar
os sussurros
impossíveis
da rósea tarde
finda.
Esta canção não é a minha
se estatelada ao chão
em cruzes que bifurcam-se,
transformando-se
em moradas
de insetos
abjetos
em ruelas
ainda projetos
de moradas
não resolvidas.
Nenhum canto
se tantos
se encantam:
nenhum povo é temido
nenhum caldo é tomado,
é fervido,
nenhum santo é morto.
Todos ouvem o nada
e do nada se fartam,
pois não ouviram
das canções
cantos
nas estradas
polidas
em
que ainda
percorrem
ruas e becos
sem saídas
em rampas
íngremes.
E a canção negada
se transforma
em visão.
Esta visão
outra coisa
mais estrela ou vegetal
puro, do mais puro minério.
E esta canção
canta-se alto
afligindo a surdez de um mundo,
que não suporta uma voz trina,
perfeita e única a governar o gorjeio
dos eternos pássaros bravios.
E é esta a canção-nula,
que ensurdece
e limpa as várzeas e os celestes céus
se faz cantoria alada
na suavidade intacta de uma mulher.
Mulher que devolve a canção
desdobrada
para o infinito.
E já não é campo, é nação.
E já não é só, é junto.
E já não é pós, é este.
Além do que foi e sempre será,
e que seria:
– a poesia.
(Autor do livro de poemas Roupagem Leve (Editora Patuá), Nestor Lampros é arte-educador, escritor, artista gráfico, quadrinista e artista plástico. Em 2002, representou Atibaia no Mapa Cultural Paulista, onde, em 2004, obteve o segundo lugar. Em 2008, novamente, chegou à final. Participou de diversas exposições como artista plástico. Criou ilustrações para livros e revistas em editoras, tais como Ática e a Editora Três. É membro-fundador da Academia Literária Atibaiense (ALA). É formado em Letras pela FESB, de Bragança Paulista (2005), e pós-graduado em Arte Educação pela FAAT(2009))
O cantor e compositor capixaba Lúcio [da] Silva Souza – vulgo SILVA, assim mesmo, em maiúsculas – carrega no nome a brasilidade de um som universal. Se à primeira vista, alcunha e letras soam minimalistas, é na riqueza sonora que o músico derrama toda sua eloquência. Com uma formação musical erudita calcada em piano e violino, Lúcio mescla clássico e moderno, pop e experimental, orgânico e sintético. Lançado em outubro pelo selo SLAP (Som Livre), Claridão, seu álbum de estreia, figurou em várias listas de melhores de 2012, o que valeu ao jovem músico de voz suave o prêmio de melhor cantor do ano, concedido pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Ainda ano passado, sem mesmo ter gravado o disco, o artista teve a oportunidade de se apresentar no Sónar São Paulo – Festival Internacional de Música Avançada e New Media Art – em sua segunda edição brasileira. O multi-instrumentista conta com a parceria do irmão e letrista Lucas Silva para compor (sempre em português) os quase-poemas que parecem preencher suas elaboradas notas de MPB de vestes eletrônicas.
Com algumas alterações instrumentais, 5 das 12 faixas de Claridão pertencem ao seu elogiado EP lançado em 2011 e disponibilizado via web, enquanto as inéditas conferem o tom de unidade que talvez faltasse na ocasião. Vale ressaltar que mesmo com o respaldo de uma grande gravadora, o músico não perdeu sua essência caseira, optando por registrar o álbum de forma quase artesanal, revezando-se entre voz, piano, violão, guitarra, violino, percussão, sintetizadores e programação eletrônica. Os vinte e poucos anos e a doçura do rapaz de Vitória contrastam com a segurança impressa em Claridão, fazendo de SILVA nome e sobrenome da autenticidade.
SILVA / Foto: divulgação
Se a apocalíptica de batidas modernas 2012 abre o álbum sugerindo o otimismo do artista diante do caos (gosto mesmo do incerto/pode ser belo o feio visto de perto/o avesso às vezes dá certo), a ritmada Falando Sério reitera sua ambivalência (não curto o tédio/mas ele é tão “cute” em você). Aeletro-erudita Cansei, possivelmente uma das melhores canções, dita a tônica mais poética do álbum, juntamente com as intimistas Ventania e Posso. Aliás, certa melancolia – pontual ao longo de quase todas as faixas – está presente também na atmosfera etérea de Mais Cedo, que fecha a primeira metade do álbum. Enquanto a dançante Claridão, que intitula o disco, possui elementos de uma espécie de drum’n’bass oriental, em determinado ponto o instrumental folclórico de 12 de Maio lembra os americanos do Beirut. Acidental e Imergir, ambas integrantes do EP do cantor, possuem um tom mais delicado e um lirismo peculiar. A graciosa e penúltima faixa Moletom (não quis o frio de só te ver/agasalho é ter você) parece aquecer o ouvinte tal qual o tecido da canção. Com som de cantiga de ninar ao violino e ukulele, a bela A Visita, composta ainda em sua passagem de estudos pela Europa, encerra Claridão de forma mais orgânica e alegre, demonstrando toda a versatilidade do artista.
Comparado ao britânico James Blake e aposta entre os nomes da nova geração, talvez a dificuldade de se rotular a sonoridade de SILVA seja proporcional à quantidade de referências acumuladas pelo músico, que, apesar da formação e refinamento melódico, nunca pretendeu soar elitista. Seria redundância (e exagero) afirmar que Claridão é um lampejo de criatividade no atual cenário musical brasileiro?
(Larissa Mendes carrega no DNA o silva de qualquer brasileiro que se deixa ofuscar pela boa música)
Uma caixa de vidro iluminada,
no interior uma pedra cinza,
as bordas lascadas,
e assim ocorre-me ainda,
quão absorto eu sentado estava,
em Kiel, à mesa da cozinha,
quando a notícia surgiu,
quando o Muro caiu.
Im Museum der Geschichte
Ein Glaskasten im Licht,
darin ein grauer Stein,
der an den Rändern bricht;
und also fällt mir ein,
wie ich versunken saß,
am Küchentisch in Kiel,
als die Meldung kam,
als die Mauer fiel.
***
Fliperama
Pena! Inferno! Susto e dor!
Espasmos! Tinidos! Abismos não!
Oh rapidez! Alavanca! Torção!
Luzes! Sim! Nova cor!
Mas certamente, deve-se planejar,
pode-se apontar o alvo e é preciso adivinhar –
rio de luzes, dança eufórica,
oh, quem sabe, medo e glória.
Flippern
Jammer! Hell! Schreck und Pein!
Zucken! Klacken! Abgrund nein!
Ach vergeh! Bumper! Drall!
Leuchten! Yes! Neuer Ball!
Aber sicher, man soll planen,
man kann zielen und muss ahnen –
Lichterfluss, schneller Tanz,
ach wer weiß, Angst und Glanz.
***
O futuro começa
como no quadro de Rafael a Madonna
na parte inferior da obra o arranjo,
a próxima geração – anjos,
com quase um bocejo à tona.
Velha é a magia,
um sorriso principia
nos lábios, e entretanto –
o que sabem os anjos?
A cabeça apoiada na mão,
já não é tão
ao fundo da moldura
nem tanto consola a formosura.
Die Zukunft beginnt
wie auf Raffaels Madonna:
Am unteren Bildrand lehnen
die Engel – nächste Generation.
Die müssen fast gähnen,
der Zauber ist alt,
ein Lächeln wächst
auf den Lippen, und bald –
was wissen die Engel?
Den Kopf in der Hand,
schon nicht mehr ganz da
am unteren Rand
ein trostreiches Paar.
***
Eles se encontram no corredor
Meu filho veste camisa amarela com letras irregulares,
onde cavaleiros erguem espadas de lasers
e uma cobra dá de cara com uma pantera –
para mim são coisas já passadas nesta vida.
Mas estou na posse de vitórias antigas
como um menino na bicicleta que conquistou a glória,
porque ela, oh Deus, subiu na minha garupa,
tocou meu quadril, – corrente elétrica.
Ainda acontecerá com o menino:
o sútil, incerto futuro-flamejante,
o corar abrasador até as orelhas
e a impaciência, o pulso querendo acelerar.
………O homem tira lentamente a gravata, ………o menino passa empurrando a bicicleta.
Man trifft sich im Flur
Mein Sohn trägt gelbe Shirts mit Zackenschrift,
wo Ritter ihre Laserschwerter heben
und eine Schlange einen Panther trifft –
das ist für mich vorbei in diesem Leben.
Doch bin ich im Besitz von frühen Siegen
als Fahrradfahrer, der dem Glück erlag,
denn sie, oh Gott, ist hinten aufgestiegen,
fasst meine Hüfte an, Elektroschlag.
Das steht dem Jungen alles noch bevor:
das feine, ungewisse Zukunfts-Brennen,
die heiße Röte bis hinauf zum Ohr
und Ungeduld, der Puls will immer rennen.
…….. Der Mann macht langsam die Krawatte frei, …….. der Junge schiebt sein Mountainbike vorbei.
***
10º andar,
edifício com ar condicionado, celeiro dos mortais.
Fique frio, sorria, o mais alto é o 19º,
minha guia, enfraqueço, quando
passo por um bando de secretárias
maquiadas, ménades, bocas trêmulas ….. para que a encenação?
seus pensamentos ….. chamamos de volta
surgem quando falam ….. tudo como sempre
e displicentes comem donuts
esperando a existência, e nisso acompanha
a música: tudo é bom, canta
Madonna, que quer saltar no Etna;
e em frente as janelas precipitam-se
as núvens passageiras, cinza profundo, depois a queda
de brilho no escritório espaçoso,
manchas de luzes na tela da face,
sussurro de fax, eternamente – ok, ok,
há inúmeros purgatórios, há
televisão após a morte do moderador,
se eu, por favor, pelo menos, a chave
o código, do local
o âmago – ela riu.
10. Stock,
klimatisiertes Hochhaus, Tenne der Sterblichen.
Cool bleiben, lachte, höchstens 19,
meine Führerin, schwach ich, als
wir einen Schwarm von Sekretärinnen
passierten, geschminkt, mänadisch, zappelnde
Münder ……..was soll das Theater?
ihre Gedanken ……..wir rufen zurück
entstehen beim Reden ……..alles wie immer
nebenbei essen sie Donuts u.
warten auf die Existenz; dazu
die Musik: Alles ist gut, singt
Madonna, sie will in den Ätna springen;
und vor den Fenstern rasender
Wolkenzug, tiefgrau, dann Stürze
von Helligkeiten im Großraumbüro,
Lichtflecken, auf einem Schirm Gesichte,
Fax-Surren, ewig – okay, okay,
es gibt zahlreiche Fegefeuer, es gibt
Fernsehen nach dem Tod des Moderators,
wenn ich wenigstens, bitte, den Schlüssel,
den Code, was den Laden
im Innersten – sie lachte.
* Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007)
(Dirk von Petersdorff (1966/Kiel) é poeta, ensaísta e crítico literário. Estudou filologia germânica e história na Universidade de Kiel. É professor de literatura alemã moderna na Universidade de Jena. Dirk também é membro da Academia de Ciências e Literatura de Mainz (Akademie der Wissenschaften und der Literatur) e do Centro Internacional de Pesquisa Clássica (Internationalen Zentrums für Klassikforschung). Em 2006, foi membro do júri do Prêmio Kleist (Kleist-Preis))
Essa ave fugidia, eu a vejo de longe, na extensão gélida, sobre as montanhas. Minha tribo a chama de Desejo, mas não tentarei explicar por quê. Tente você, meu leitor, descobrir com o arrastar dos anos como montar essa palavra com o quebra-cabeça de peças que somem ao toque. Ela voava, chegava até a ser pretensiosa. Olhava para mim vez ou outra, podia jurar. Mas aterrissou na neve, bem próxima da minha armadilha. Mas não guardo tantas esperanças.
Ilusória, pode muitas vezes dissuadir-nos de sua presença, mesmo a quem tem olhos fixos nela, como, no momento, eu. Salto do meu cavalo bem longe de onde ela está, só para ter uma visão melhor da minha presa. Ajoelho-me lentamente enquanto ela lentamente perambula nas patas à procura de alimento. Bem próxima. Quase lá. Queria saber passar a sensação do suor estacionando no meio do caminho do meu rosto, a fim de não atrapalhar o acontecimento. Isso se chama concentração. Mas vejam, meus leitores, ela parou, me olhou com vista antiga e zombeteira, depositou um bicho qualquer em cima da minha armadilha, cuja reação foi de um estrondoso estalar de ferro e madeira, jogando neve para todos os lados, fazendo subir uma fumaça branca e espessa que despistou meu olhar da fuga do Desejo.
Se pensam que estou frustrado, é por que realmente não conhecem o sentimento pelo qual nomeamos aquele animal. Saberiam a carne magra e escassa que ela tem, quando vista de perto ou tocada, e saberiam que não a caçamos por alimento ou sustento. Ela passa por você muito mais sorrateiramente do que para nós, posto que sabemos que a incerteza é um dos traços mais fortes dessa ave. Mas ela passa por você, tenha certeza, pelo menos disso. Chego até a imaginar que, se me virasse, ela estaria à janela me espreitando…
Sem ela, meu amigo, tudo é mais sofrido. Até essa escrita. Penso agora: e se ela me espreitasse no espelho feito das palavras no papel? E se pousa no vácuo entre os verbos? Talvez se tentasse descrever esta ave para você, conseguisse capturá-la, ao menos por aqui, pelo papel. Mas a ave é feita de caos, e as palavras pesam. O papel não a suportaria.
***
Mosca Diuturna
Esfreguei os olhos e balancei a cabeça com rudeza de um lado para o outro, e franzi o cenho por conta da imensa luminosidade. Estava em um amplo areal branco infindável, completamente desorientado, e tirei os sapatos para poder avançar um pouco. Lembrei que estava de relógio em pulso e também o retirei. Senti debaixo dos meus pés aquela areia fina como pequenas lascas de vidro rasgando meu andar em frente, um andar fluido e quase imperceptível, o que me fez permanecer na dúvida se andava ou estaria somente imaginando o meu andar. Meu delírio começou quando eu vi tudo se modificar a cada passo, o firmamento mutável me trazendo imagens belíssimas medonhas felizes suicidas até eu quase cair de um precipício: o final do meu terreno, e sem forças não conseguia retornar ao ponto de onde comecei.
Daquele limite de terra branca tive outra visão: era um abismo cujo fim não sabia distinguir se era o fim ou o começo do fim, pois também era pálido como o areal. Mas, proeminente daquele cenário pacífico, ao longe, elevava-se uma montanha, e seu cume terminava na linha de minha visão paralisada. No topo desse cume, pude ver que havia uma sereia em seu topo, e olhava para mim.
Seu rosto era brilhante, parecia forjado em silício queimado, e seus cabelos esvoaçavam para o alto por conta de um vento frequente e forte que vinha da respiração daquele monte pálido e enorme – teias brancas brincavam em sua cabeça, se tecendo por si mesmas, em meio ao canto tremeluzente daquela voz etérea. Queriam se tecer para mim, mosca diuturna e oposta da vigília.
Quanta saudade senti quando reconheci-me naquele monstro, e parecia que meus pés tinham se diluído no pó de nuvem. Poderia até tentar avançar. O fim, ou o começo do fim, poderia também ser o começo, e poderia ousar pisar imaginando-o nele um prolongamento do terreno. Desvencilhei meu pé direito e toquei com a ponta do pé o que poderia ser um vazio, e uma pequena série de ondulações circulares percorreram velozmente o espaço entre meu cume e o cume da sereia com rosto de espelho.
Quando o padrão circular tocou o iceberg a minha frente, ele estremeceu e parecia também ser feito de areia branca, e a movimentação das águas poderia levemente destruir e afogar meu objetivo. Não mais tentei ousar percorrer a planície invisível, pois destronando aquele ser de seu espaço, seu por direito e meta, não poderia mais voltar a me reconhecer.
(Pedro Costa Reis, nascido em 1987 em Recife, formou suas leituras no interior do estado e quando voltou, em 2003, à capital, iniciou sua produção com pequenos poemas escritos em cadernos escolares. Em 2005, lançou seu primeiro conto em uma revista mineira, e depois o mesmo conto foi para o portal Cronópios, bem como a prosa A borboletas do pai (Meu pai e as borboletas). Entrou na Contologia, organizada pela Cronópios e lançada em 2012, e seu conto Midas fez parte de uma antologia de narrativa fantástica da Fliporto de 2012. Enquanto isso, segue escrevendo)
As opiniões se dividem quando o assunto é delimitar as implicações da poesia. Se para alguns o gênero representa uma vasta possibilidade de experimentos e usos da linguagem, outros defendem uma perspectiva que opera no sentido duma transformação do olhar. Especificidades à parte, o fato é que, ainda assim, parece haver uma coexistência tácita entre esses dois modos de pensar o fazer poético. Ao passo que descortinamos leituras das mais diversas, percebemos autores a privilegiar, sobretudo, aspectos formais da criação, construindo uma obra que também congrega elementos dotados de subjetividade. Definitivamente, uma via não anula a outra.
Embora o ato de criar possa conferir uma condição especial a quem escreve, alavancando proezas e notoriedades, há quem renegue tal atributo não por um mero capricho, mas sim pela percepção de que estar no mundo e decodificá-lo de algum modo representa algo mais valioso. Nesse trajeto, imbricada está a noção mais pura de um exercício do olhar, e para gente como Eduardo Lacerda isso significa muito. Gaúcho por nascimento e residindo em São Paulo desde a infância, o moço rejeita ser chamado de poeta. Prefere, ao levar adiante sua feição de editor, ser visto como um alguém que faz nascer livros e autores. Em parceria com Aline Rocha, conduz a Editora Patuá, iniciativa que acaba de completar dois anos de existência e cujo lema confere aos livros um status de verdadeiros amuletos.
Mesmo se considerando um não-poeta, Eduardo ousa com palavras e versos. A prova disso é a reunião de poemas presente em sua cria de estreia, “Outro dia de folia” (Editora Patuá), obra que encerra imagens e tantos outros signos bem típicos de um ser/estar no mundo. Ao mesmo tempo em que apresenta deslocamentos em torno de temas caros à existência, o livro também sugere impulsos pela via da transgressão. Lê-lo é sentir-se um pouco menos confortável diante da parca quantidade de certezas que nos habitam. Assim, um ritual de provocações desfila por cada verso, desafiando os leitores a celebrarem epifanias que nem sempre soam como boas novas. Tendo como companhias inseparáveis o espanto e o estranhamento, Eduardo Lacerda compartilha conosco suas impressões sobre a vida e a literatura, perfazendo um diálogo movido por uma paixão notória: os livros.
Eduardo Lacerda / Foto: Stefanni Marion
DA – “Outro dia de folia”, sua obra de estreia, evoca, de modo especial, uma poesia de imagens, reminiscências e louvores dispersos numa travessia pela vida. Na construção desse caminho, o que lhe parece mais emblemático?
EDUARDO LACERDA – Você tem razão em afirmar que é e há uma poesia de imagens no meu livro ‘Outro dia de folia’. Tento construir em meus poemas aproximações com a prosa, criando cenas, espaços, personagens – embora não explícitos – falas sobrepostas, que podem simular outros planos de discurso e diálogos dentro do poema. A imagem é um dos recursos para a montagem desses pequenos contos em forma de poesia. Então, se há algo emblemático, é que o poema precisa acionar – criar uma ação – no momento da leitura. Precisa criar um impacto de uma história. Não busco exatamente, com estes poemas do livro, despertar sentimentos ou mesmo emoções sentimentais, mas inserir o leitor dentro de uma ação.
Em nem todos os poemas consegui isso de forma efetiva, mas acho que com a maior parte isso foi possível, até mesmo pela ligação temática entre eles, que é, principalmente, a imagem do deslocamento e melancolia do eu-lírico em relação a uma necessidade cada vez maior de felicidade, quase como uma obrigação de se comemorar, festejar.
Talvez dois versos possam ser emblemáticos para a definição desse deslocamento, o primeiro é o desfecho do poema “A Última Ceia”: “já não me encaixo / depois que aprendi / a olhar de lado / e sair por baixo”. O personagem do poema, uma criança, é colocado sentado à esquerda dos pais no meio da mesa, essa marcação espacial ‘à esquerda’ (uma referência bíblica alterada, que é a de Jesus sentado à direita de Deus) e ‘no meio’ já revelam um deslocamento, uma não adequação do personagem, que como um ‘prato que se enche’ vai procurar ‘lugar entre as pessoas’. O personagem não encontra esse lugar, ele não aceita esse lugar imposto, ele aprende a olhar de lado. O ‘sair por baixo’, que poderia remeter a uma inferioridade desse ‘pequeno’, como chamo o personagem, na verdade pode significar que é possível uma fuga. Que sair por baixo, quando estamos cercados por todos os lados, pode ser uma fuga.
O outro verso é do poema ‘Outro dia de folia’, que dá título ao livro (embora escrito após o título do livro já estar definido há muitos anos). Nesse poema eu questiono: “quanto há / de / penetra / no dono / de sua / própria / festa?”. É uma provocação. E é um deslocamento, mas é também, talvez, uma forma de transgredir nossas certezas de espaço no mundo.
DA – É interessante você pontuar essa noção de transgressão a serviço da poesia. Nesse sentido, percebe a existência como um misto de espanto e estranhamento?
EDUARDO LACERDA – O poeta Ferreira Gullar afirmou exatamente isso sobre sua poesia: “A minha poesia nasce do espanto, de alguma coisa que me surpreende, alguma coisa que eu não tinha descoberto ainda na vida”. Gosto disso, do espanto, do estranhamento, mas também da descoberta. Descobrir algo, conhecer e, principalmente, reconhecer são passos além do estranhamento. É entrar em contato com aquilo, mesmo sem um entendimento completo. Podemos estranhar algo a vida toda e aquilo não e nunca significar absolutamente nada, não é? Um estranhamento só terá valor se me revelar algo. Então é também uma revelação. Fazer um poema é também encher de significados o que queremos dizer. E será um bom poema aquele que conseguir criar outros espantos e novos significados a partir disso. Um bom poema precisa ter uma eternidade (e não infinidade) de interpretações, eu acho.
Mas acho que existem muitas interpretações para a minha percepção de existência. A minha existência, como pessoa, é uma coisa muito simples. Gosto de livros, amigos e cerveja. E é diferente da minha existência como poeta, da minha existência como editor de livros. Aliás, sempre afirmei que eu não sou um poeta. Eu não romantizo a figura do poeta. Eu não existo como poeta. Publicar foi uma consequência de mais de onze anos escrevendo alguns poemas que acabaram premiados para a publicação em livro. Publicar se tornou uma obrigação, acho.
Mas eu romantizo a minha importância de editor. Eu existo como editor. Talvez isso seja estranho e espantoso. Espero que seja. Mas não estou dando um sentido de uma importância para os outros, não sei se tem essa importância. É importante para mim. O que eu sinto com a edição é exatamente o que deve sentir um escritor. E que o Rilke definiu tão bem: “Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: ”Sou mesmo forçado a escrever?”. Eu só morreria se não pudesse mais, de alguma maneira, trabalhar com os livros.
DA – Ao declarar-se um não-poeta, você abre margem para algumas reflexões ligadas ao ofício, sobretudo se formos levar em conta a multiplicidade de escritos que eclodem cotidiana e freneticamente em nosso tempo. Guardadas as devidas proporções daquilo que pode ser considerado como de efetiva qualidade, acredita que a criação literária anda um tanto banalizada?
EDUARDO LACERDA – Entramos em um campo onde tenho feito muitas inimizades. E, sinceramente, não tenho nenhum problema com isso. Tenho defendido, nos últimos anos, a ideia de que existem mais poetas do que leitores. Um paradoxo, no mínimo. Um absurdo, para dizer a verdade. Todo poeta deveria ser um leitor. Eles não são, infelizmente. Claro, não quero generalizar. Alguns ainda são leitores, mas é uma parte muito ínfima. Mas se realmente todo poeta fosse leitor de poesia, poesia venderia muito.
Então, sim, a criação literária está banalizada.
Gostaria de dizer, entretanto, que acredito que todos têm o direito de exercer a criação literária. A banalização da literatura não está no fato da popularização da escrita. Poesia não é para as elites, assim como não é para as massas. Ela é para todos. A poesia deve estar acessível para todas as pessoas. Algumas das manifestações mais interessantes de criação e divulgação literária estão ocorrendo nas periferias de São Paulo, por exemplo.
A banalização, a meu ver, é o descaso dos poetas com outros poetas, com outros livros, com outras linguagens, com tudo que está ao nosso redor.
Vou dar um exemplo simples: a Editora Patuá, da qual sou coeditor, recebe cerca de 100 originais por mês. Desse total, muitas vezes, nenhum desses autores sequer conhecem um livro da editora. Nunca se interessaram em comprar nenhum livro de nenhum autor, muito menos pedir um e-book de graça (os quais sempre oferecemos). Eu não entendo, então, como alguém pode se interessar por uma editora que não conhece. E talvez isso explique como tantos escritores pelo país são enganados por editoras sem nenhuma qualidade.
A necessidade de publicação se tornou maior que a necessidade de leitura e de diálogo com o outro. Todos só querem falar. E eu acho que é o momento de pararmos para também ouvir o outro.
Então, acho que essa se tornou a banalização da poesia, mas também é a banalização das relações em toda a sociedade. Mas esse é o discurso de um otimista, embora não pareça. O meu otimismo está nas minhas ações, em acreditar nos poetas. Em acreditar ainda na literatura, na poesia.
DA – Talvez uma das causas desse insulamento literário seja a tendência atual de laços de compadrio estabelecidos na internet, principalmente via blogs e sites pessoais. Muitos se visitam e se comentam mantendo uma seara de cordialidade que parece alimentar um círculo vicioso. Daí, essa, digamos assim, frágil aprovação, com seus controvertidos códigos de ética, oferecer um ambiente perigoso para a criação. Vivemos uma era de relativizações?
EDUARDO LACERDA – Sérgio Buarque de Holanda formulou a ideia do homem cordial. Acho que ela explica uma parte do que você chamou de ‘era de relativizações’. Na verdade, essa ‘cordialidade’ não é – sempre – essencialmente ruim. Chico Buarque, filho de Sérgio Buarque, comenta / resume em um vídeo essa teoria: “Mas a ideia é a do homem cordial como o homem que reage conforme seu coração, né? Capaz pro bem e pro mal, capaz de grandes efusões amorosas, capaz de inimizades até violentas. E o brasileiro tem um pouco, acho que ainda tem, de levar tudo pra esse lado, de ser incapaz às vezes de seguir uma hierarquia, de obedecer uma disciplina muito rígida. A vontade que ele tem de travar contatos amistosos, criar intimidade, encurtar distâncias. Isso continua existindo, essa informalidade, avesso as formalidades, não gosta (…) o brasileiro criou essa informalidade natural. Isso continua existindo. Agora, como eu dizia, é pro bem e pro mal, dependendo da circunstância o brasileiro pode dar numa raça generosa, né? Ou num povo até triste e amargurado.
Como já afirmei anteriormente, minha tendência é para o otimismo. Acredito na literatura, acredito nos livros, acredito na poesia. As relativizações, as cordialidades, eu não poderei mudá-las dentro do sistema. O que podemos fazer é trabalhar seriamente e de forma honesta, com comprometimento. Eu busco muito isso de nossos parceiros – autores, por exemplo – comprometimento.
Evitamos, dentro da Patuá, quem queira estabelecer relações apenas cordiais, de amizade. Eu costumo dizer que não publicamos os amigos, embora todos os autores se tornem nossos amigos. A amizade é fundamental. Mas o texto, o texto é, para a publicação, mais importante. Nem sempre acertamos. É impossível, sem conhecer um autor, saber qual o comprometimento dele com o livro, com a literatura, com a editora. Mas acho que formamos, em menos de dois anos, um grupo de autores que ultrapassam a publicação do próprio livro. Isso é fantástico!
DA – A Editora Patuá completa agora dois anos de existência e vem, pelo que se pode observar, construindo um caminho cada vez mais sólido. O surgimento dela trouxe embutido algum desafio em especial? Vocês vislumbraram uma ruptura de padrões editoriais?
EDUARDO LACERDA – Após dois anos de trabalho, com quase 80 autores publicados e mais 100 títulos que queremos lançar apenas este ano, além de um prêmio de R$ 50.000,00 do Proac – Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo – destinado à realização da Coleção Patuscada, que publicará 12 títulos de 12 poetas inéditos, sendo que os livros terão uma tiragem de 1500 exemplares, com 20% destinados à distribuição gratuita nas bibliotecas do estado, acredito que conseguimos romper com alguns padrões, tanto editoriais como de mercado editorial, agora os desafios são outros e muitos.
Mas existem dois desafios especiais nesse momento. O primeiro é editorial, queremos sempre apresentar livros diferentes e únicos. Então estamos sempre pensando em como inovar de alguma forma. Cada livro na Patuá tem um projeto gráfico especial, ilustrações exclusivas, formatos e acabamentos diferenciados (capa-dura em alguns títulos, por exemplo). Então, esse é um desafio prazeroso: como podemos fazer algo ainda melhor e surpreendente? Como fazer isso mantendo também os preços de nossos títulos abaixo dos praticados pelas outras editoras?
O segundo desafio é o da Patuá como empresa. Em dois anos conseguimos vencer uma série de dificuldades, mas a editora ainda não nos dá lucro. É claro que o lucro não é nosso objetivo principal, mas precisamos dele até para continuar o projeto. É bom ter autonomia financeira para investirmos em novos projetos, em coisas mais ambiciosas (editorialmente). Essencialmente esse desafio nem é financeiro, mas será bom ter mais livros sendo vendidos e distribuídos, isso também pode nos fortalecer editorialmente.
DA – Quando se fala em era digital versus a manutenção do livro impresso, muitos assumem um discurso apocalítico quanto a este último. Na sua visão de editor, de que modo podemos fomentar uma coexistência harmoniosa entre os dois suportes?
EDUARDO LACERDA – Há muitas formas de se entender essa questão, infelizmente muita gente ainda não entendeu nada.
O escritor Umberto Eco deu uma definição muito simples e certeira sobre o que é um livro “O livro é como a roda, depois que foi inventado, não há como melhorar”. E é isso. O livro digital é apenas um suporte (na verdade, o livro digital pede um suporte – os leitores eletrônicos -, enquanto o livro impresso é o próprio suporte do texto: são ambos, texto e suporte, uma única coisa).
Assim, o livro digital não veio substituir o livro impresso, que ainda é infinitamente superior, mas pode ser – nem sempre ele é – uma opção a mais para a leitura e acesso ao conhecimento. Não há nada, porém, no livro digital, que o torne mais atraente do que o livro impresso.
Pensando de forma prática, um bom livro também é um produto, mas é um produto na contramão da lógica capitalista. Um bom livro pode durar uma vida inteira – pode durar dezenas de vidas inteiras e passar vários séculos. Um livro não fica obsoleto. Um livro impresso pode ser emprestado e lido por várias pessoas (pode-se argumentar que o livro digital também permite o compartilhamento, mas não é verdade. Um livro digital comprado legalmente não pode ser revendido, emprestado, compartilhado. Podemos fazer isso apenas ‘pirateando’ o livro digital. O que é diferente, porém, em tudo que é independente no digital). Um livro pode ser revendido, pode ganhar valor, com o passar dos anos.
E pensando de forma subjetiva, um livro pode ter marcas das nossas vivências: impressões digitais, manchas, orelhas, riscos, anotações, dedicatórias. Ele pode nos trazer memórias. Ele pode ser autografado.
Fazer um livro impresso é também mais barato, acredite. O que é caro no livro impresso não é a impressão, mas o que há de humano no processo: revisão, edição, ilustrações, projeto gráfico. E isso deverá continuar no livro digital – deveria continuar, pelo menos. Não sei se vai. Sinto, muitas vezes, que poucas pessoas se importam com essas partes de um livro.
Os entusiastas do livro digital, em geral grandes corporações como a Amazon, querem que o livro entre na roda do jogo capitalista. Querem nos obrigar, com vários discursos estúpidos como o preço (que não é menor) ou como a praticidade (que não é maior), a comprarmos, a cada dois anos, um novo leitor eletrônico e a recomprar, centenas de vezes durante nossas vidas, os mesmos títulos que, de forma impressa, teríamos que comprar uma única vez. É isso o que acontece com a música, por exemplo, e que nunca aconteceu com o livro. Os suportes vão mudando e somos obrigados constantemente a renovar nossas coleções.
Existem outros argumentos ainda, mas recomendo para uma compreensão maior sobre o assunto o texto “O futuro do livro impresso e das editoras”, do professor e editor Plínio Martins Filho.
Agora, se entendermos o livro digital como maneira de disseminação independente do conhecimento, como forma de compartilhamento de informações, cultura, textos, literatura, então eu acho que ele vem para somar. A Diversos Afins, e centenas de novas revistas, por exemplo, são digitais. Tenho lido muitos livros digitais, mas a maneira como essas publicações são feitas vêm para renovar a antilógica capitalista do livro que mencionei. E isso é incrível.
Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal
DA – Certa feita, o poeta Manoel de Barros afirmou que a gente escreve para se descobrir e, lembrando o dito de alguém, ressaltou que nossas maiores verdades são inventadas. O que acha disso? Escrever seria também um truque para o existir?
EDUARDO LACERDA – Gullar também diz que “a arte existe porque a vida não basta”. Mas discordo, para mim a vida só existe porque a própria vida não basta.
E, como já disse, escrevo muito pouco. Então não posso dizer que isto, que escrever, é o meu truque para existir. Realizar coisas é o meu truque para existir. Mas eu não estou dizendo que são coisas importantes, são importantes para mim. Eu gosto muito de falar com poesia, então isso de realizar coisas, de dizer que eu realizo para existir, posso expressar com esse poema do Leminski: “das coisas / que eu fiz a metro / todos saberão / quantos quilômetros / são / / aquelas / em centímetros / sentimentos mínimos / ímpetos infinitos / não?”. Acho que é isso. Eu tenho ímpetos infinitos, mas são tão importantes. E acredito que se há um truque para existir, ele está nisso. Mas está também, concordo, nas verdades inventadas. Toda realização é também uma verdade inventada. Gosto de pensar, qual Itamar, “Que tal o impossível?”. Mas o impossível pode ser mínimo, pode ser só meu. É isso.
DA – A poesia está a serviço de quê?
EDUARDO LACERDA – Vou citar o Leminski novamente: “A poesia é o inutensílio. A única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa. Porque elas são a própria razão de ser da vida. Querer que a poesia tenha um porquê, querer que a poesia esteja a serviço de alguma coisa é a mesma coisa que querer que o orgasmo tenha um porquê, que a amizade e o afeto tenham um porquê. A poesia faz parte daquelas coisas que não precisam de um porquê”. Mas estou citando para discordar um pouco, só um pouco. A poesia realmente não está a serviço – ela não é máquina – de nada e de ninguém, ela não existe sem os poetas, sem os leitores, e não existe mesmo sem os críticos. E todos estes estão a serviço de algo. Veja, estar a serviço não significa que estamos servis, que estamos escravos, que estamos qualquer coisa que nos desumanize na relação de um trabalho. Mas escrever, mas editar, mas criticar… mas ler, afinal, é um trabalho. É uma forma de transformar a realidade, de transformar as percepções.
Poesia serve para transformar a minha percepção. Ela serve, para mim, para transformar a realidade. Ela é útil.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
EDUARDO LACERDA – Vamos brincar com uma pergunta anterior? A pós-modernidade é uma verdade inventada. É apenas uma necessidade, e até muito carregada de romantismo, de se delinear percepções sobre a realidade histórica que vivemos, mas todas essas tentativas são bem falhas ainda. Essa construção, e essa percepção, da nossa condição atual, não estão bem claras. Não estão para mim. E o que eu não endosso no que chamam de pós-modernidade é o que eu não endossaria nos entendimentos de realidades anteriores: a exploração, a injustiça, a desumanização, a falta de perspectiva para que a nossa vida possa ser mais do que o trabalho e as obrigações. Isso eu não posso endossar.
Um instante partido no tempo e alguns passos rumo ao infinito. No meio do caminho, a sutileza das cores flagrando a vida, atenuando-lhe certo peso da alma. Existir, somados os seus imperativos, precisa se configurar um flerte com os tons sublimes que governam o espaço abstrato através do qual desfilamos nossos rompantes. Existir, nos desenhos e ilustrações de Thaís Arcangelo, é pacto de escutas, rompendo a redoma da grande noite que insiste em nos abraçar.
No limiar entre o real e o inventado, a artista funda territórios e instaura entre nós a percepção marcantemente poética sobre uma delicadeza que esquecemos nalgum ponto da jornada. Assim, viver torna-se um arremesso incerto, porém desejoso de uma transformação a mais humana possível. Ao nos revelar dimensões por vezes etéreas, Thaís desafia zonas de conforto, rejeitando-as e nos impelindo a reescrever nossas errantes trajetórias.
Ilustração: Thaís Arcangelo
Em seus trabalhos, a artista devota especial atenção a uma múltipla representação do universo feminino. A partir daí, surgem personas das mais variadas possíveis diante de nossos olhos, todas elas inscrevendo seu traçado numa tentativa serena de redenção. Nessa perspectiva, Thaís caminha para além da materialidade das coisas, erguendo um vasto e denso painel de sensações.
Se por um lado somos seres reconhecidamente duais por natureza, por outro, nos é dada a chance de revermos nosso velho e desgastado costume de repetir. E isso nos é lembrado a todo tempo nos cenários propostos por Thaís. Com sua ciranda de sentimentos pueris e ao mesmo tempo também maduros, a artista recria mundos no mundo, fazendo do atributo onírico de suas criações uma passagem permanente para o centro de nós mesmos. Nesse trajeto de autoconhecimento, talvez a única certeza que carregamos seja a da dúvida, essa sedutora senhora a nos acalentar insistentemente em todo tempo e lugar.
Ilustração: Thaís Arcangelo
* As ilustrações de Thaís Arcangelo são parte integrante da galeria e dos textos da 77ª Leva.
Quando afinal o que não se diga
eu o imponderável lógico matemático
querendo-me aberto patife herói safo
discurso que não esporre ou ex-porre
o húmus da terra me cobrirá
ou a gala o cuspe o vômito do mundo
se farão o lanho das minhas carnes e feridas?
Com essas dúvidas
estarei reencontrado e pronto
para o sacrifício
se em dia de intensa morte
louco de ver-te e te perder
eu te puder manter na ponta dos meus dedos
e com eles trocar a incúria e o terror
dos olhos do povo
por tua presença, liberdade
***
NADA SOSSEGA O HOMEM
Nada sossega o homem nada
o acalma nada o amansa
que não o amor
nada aflige o homem nada
o amarga nada o suprime
que não a opressão
Nada sucumbe o homem nada
o dilacera nada o subjuga
que não a inconsciência
Sejamos pois ……………..fome ao amor ……………..firmes à opressão ……………..fortes à inconsciência
Votemos nada a tudo o que seja
contrário ao homem
Vivamos fartos o destempero do sem-ódio
do sem-medo do sem-nada
Joguemos livres o lá de nossa paz
***
NESTA ILHA V
Nesta ilha
não me arquipélago
noutros largos (inexistentes)
ouço
ventos gemendo ausências
nas vidraças, polifônicos
e me guardo
do apocalipse dardejando
sinas, sinos, senões
***
VADE
O segredo não está no aceite de uma relatividade
nem no acinte de uma vã docilidade
Cumpre e urge no entanto
dar curso e recurso a esta longa sensação de ácido:
a vida
Quem com ela advir-se
descobrirá incertos fios invisíveis a tecer
Maio deste ágio imponderável
bússola sem reparo decaída árvore sem sumo
a vida é uma mulher cega cantando ladainhas no adro do tempo
Não há como esquecer-se:
para encontrá-la, à vida
nada como embriagar-se e ver de novo
seu renascer assim papoula desgarrada
em tarde quieta e loucas laudas
de um sequer talvez quem sabe porventura
***
DATUM
E se de repente
me fosse dada
a sentença da vida
e da morte
eu escolheria
ficar na terra
cheirando a terra
comendo a terra
vivendo a terra
em sangue
em seiva
em salva
e mel (ou fel)
(Jorge de Souza Araújo époeta, Mestre e Doutor em Letras pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-professor de Teoria da Literatura, Literatura Brasileira e Literatura Comparada na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Dentre suas publicações, estão: “Os becos do homem” (poesia – Rio de Janeiro: Antares, 1982), “Profecias morenas: discurso do eu e da pátria em Antônio Vieira” (Salvador – Assembleia Legislativa/Academia de Letras da Bahia, 1999), “Dioniso & Cia. na moqueca de dendê: desejo, revolução e prazer na obra de Jorge Amado” (Rio de Janeiro – Relume Dumará, 2003), “Floração de imaginários – o romance baiano no século 20” (Itabuna: BA, Via Litterarum, 2008), “Essa esquiva e dilacerada fauna” (Contos – Ed. Mondrongo, 2012)
gosto de ver os barcos nesses dias de baixas nuvens chumbo, quando o céu se torna um reflexo encapelado do mar e sopra fiapos d’água que tingem de escuro meu terno, tecendo um manto baço de papel de seda que cobre o horizonte.
nesse cenário espesso de giz, os barcos são como pequenos borrões coloridos, imóveis no expressionismo da tela turva, onde gaivotas e trinta-réis adejam em voos erráticos como úmidas cerdas de um pincel que pinta de inverno todo o tecido marinho, exceto as franjas brancas tomadas por este misterioso e interminável ímpeto de tramar-se e destramar-se.
gosto de sentir as azaleias de espuma que se abrem mansamente entre meus dedos e me queimam de vida a carne, para logo em seguida desaparecerem na areia viscosa que suja de sal as bainhas da calça e engole meus pés para a fundura cinza onde penetram as ondas.
gosto de deixar que o áspero sudoeste me percorra o corpo, açoitando a pele por entre as casas dos botões e insuflando as asas de um homem-pássaro negro, eu e milhões de grãos, gotas e uma gravata, que rodopiam pelo ar.
parto com eles em direção ao infinito, perdendo-me no teatro de névoa e chuva, no momento em que descem as cortinas e os barcos içam suas velas, disparando em mim a reconfortante certeza de que o vazio da praia é maior que o meu.
sempre preferi a solidão. vivia em busca deste estado de desaparecimento, quando é possível ouvir alto a própria voz calada. na infância, fui uma criança introspectiva. gostava de colecionar coisas sem valor e andar a esmo pelos parques. não tinha amigos e nos aniversários ficava sentado ao lado dos adultos, observando as outras crianças brincarem.
uma vez, me deram um cachorro, mas ele morreu de tristeza antes de completar um ano. nem sequer teve um nome, só um retrato que desenhei do dia em que desenterrou um pardal. esquecia das horas entre os lápis de cera ou assistindo aos desenhos animados. minhas tias diziam que eu seria um infeliz ou um gênio.
quando ingressei no ginásio, descobri a leitura. lia de maneira indistinta e compulsiva. na biblioteca, no horário de recreio, no ônibus de ida e no ônibus de volta. no meu quarto, chegava a ler dois livros de uma vez. os professores começaram a me usar como referência e minha introspecção foi se tornando sinal de inteligência e admiração.
verdade era que, na página seguinte, eu já não me lembrava do que tinha ocorrido no capítulo anterior. os livros eram uma necessidade, pois são chaves para a solidão. às vezes, deitava na cama com um livro pousado sobre o peito e me perdia nos entremeios e nas reviravoltas até me esgotar de sono. era gostoso retomar a história no dia seguinte e perceber que parte do enredo fora tramada em sonho. dormindo, eu era um melhor escritor.
tentei a faculdade de matemática, mas os livros não me serviram para os números. os anos foram adoecendo meus pais até os tornarem dois insetos pequenos demais para a mecânica da casa. tive de trabalhar para comprar remédios e reparar os móveis.
meu primeiro emprego foi na fábrica de calças. tinha a função de verificar a precisão dos botões e dos zíperes. eu gostava, pois passava todo o dia sozinho, forçando as costuras e o trilho dos fechos. na hora do almoço, me sentava numa mesa do canto com um jornal aberto sobre o tampo para afastar qualquer intenção de diálogo. a única que insistia era Irene.
todos os dias, puxava conserva sobre os fatos publicados, que eu respondia com hum-huns. de tanto me importunar, acabamos iniciando um relacionamento em que nos víamos pouco, falávamos no refeitório e ela me ajudava nas tarefas domésticas pesadas de fim de semana. minha mãe gostava da Irene. dizia que ela me entendia e amava como ela amava o meu pai, e que dançariam conosco a valsa nupcial, no baile de casamento.
fatalmente ela estava enganada. alguns meses depois, minha mãe sofreu um infarto fulminante. no dia seguinte, meu pai acordou cedo, fez a barba, tomou o ônibus até o mais alto prédio comercial, subiu o elevador e se jogou do nono andar. fizemos as bodas junto à missa de sétimo dia para salvar as poucas economias que tínhamos, ameaçadas pela hipoteca da casa que pendia há seis meses. com o ordenado da fábrica, seria impossível nos sustentar dignamente.
foi quando um tio de segundo grau, que trabalhava numa secretaria de estado, me ofereceu um cargo no setor de protocolo. era um trabalho que não requeria muito raciocínio, o salário e os benefícios eram satisfatórios e o horário flexível, embora o terno e gravata fosse indispensável.
dividia a sala com dois funcionários estatutários, nos revezando no ofício de numerar os processos, carimbar, comunicar e depositar num dos muitos arquivos. a sala era pequena, de paredes cor pastel e sem janela, acarpetada e tomada de antigos móveis de patrimônio. havia três mesas, uma máquina de escrever e um ventilador em mau funcionamento.
verdade é que, com o tempo, comecei a gostar de passar o dia nesse isolamento remunerado, no qual quase não tinha de interagir com pessoas e podia me perder na leitura por horas sem interrupção. com essas garantias, me vi impelido por vontades que se harmonizavam aos desejos de Irene. quitei as dívidas e recuperei a casa, compramos móveis novos, incinerei as tralhas dos meus pais e tivemos duas filhas. tornei-me um homem de família, embarcado numa ciranda de deveres e novos sentimentos, em que a solidão era o acordo que incidia sobre o cotidiano quando o relógio de ponto, no hall de entrada, marcava o início do expediente da repartição pública.
uns dois anos depois, esse refúgio, porém, adquiriu uma atmosfera claustrofóbica que asfixiou o mundo que inventei para mim. a Casa Civil protocolou um comunicado, informando que todos os órgãos teriam de cortar despesas. houve demissões e todos os contratos foram suspensos.
logo, os funcionários do meu setor foram alocados em outras seções e fiquei sozinho. é claro que, a princípio, assaltou-me uma euforia sem igual. ficaria completamente isolado, imune a qualquer contato ou explicações. livre para ler, sonhar, pousar minhas costas sobre a espalda da cadeira e ouvir somente a minha voz calada. no entanto, detidamente percebi (e era como sufocar aos poucos) que esse estado que tanto buscava, a solidão, só suscita recompensa quando conquistado e não imposto.
a paralisação deflagrou a negligência que já pairava sobre as repartições, estabelecendo a mediocridade e o desânimo que acomete todo o ser envenenado pela burocracia. não havia mais andamento de despachos, fotocópias ou telefonemas. o expediente resumia-se a sentar diante do relógio e esperar os ponteiros empurrarem a massa pegajosa que era o tempo. fui sendo esquecido naquela sala sufocante e sem janela. desbotando feito um retrato consumido pelos anos, uma silhueta borrada sem reflexo.
a vontade de isolar-me, esse ímpeto de estar apenas comigo, deteriorou-se dentro de mim, deixando um vazio que me tornara invisível não do modo que sempre pretendi. às vezes, acontecia de um entregador ir ao setor levar uma correspondência e ficar parado na porta, olhando como se não tivesse ninguém, até ir embora. quantas feitas eu pedia para segurar o elevador e as portas se fechavam indiferentemente. ou quando alguém precisava arquivar um processo, o deixava com um bilhete escrito à mão, avisando que tinha estado ali e a sala estava vazia.
em casa, o isolamento desencadeara um processo mais doloroso. juntamente ao amadurecimento do corpo, minhas filhas desenvolviam a cruel habilidade de não me enxergar. cruzavam por mim como se me vestisse a textura do papel de parede ou a insignificância de um vaso ornamental.
já começavam as refeições sem a minha presença, ignorando meus comentários e mesmo os pedidos de passar o sal. quando, por ventura, estava assistindo à televisão, naturalmente pegavam o controle remoto e mudavam de canal. há duas noites, eu me deparei com a menor olhando para uma foto minha com ela e a irmã ainda pequenas com uma estranha atenção, como se eu fosse suspenso em sua prematura memória.
mesmo Irene, que me encontrou no esconderijo dentro de mim, agora me esquecia em comezinhas obrigações e pormenores que supriam o sentimento de ausência. fui desaparecendo. rareando como um tapete pisado, um fantasma na eletrostática da televisão. não dormia, e nem mesmo a leitura trazia-me conforto. comecei a vagar pela rua, em busca de um olhar, um rosto em meio à multidão, uma expressão manchada por olhos nublados capazes de enxergar o invisível…
ele vê a forma, um borrão, uma mancha que aflora na sedosidade da neblina e o assalta um entusiasmo incompreensível, tal a voragem que urde grãos de areia e contracorrentes na germinação de bulbos de lótus, flâmulas e pétalas que se abrem apenas para se despedaçarem na arrebentação, fragmentos de espumas, espelhos-fantasmas que refletem o desfraldar das asas do pássaro negro, o prelúdio do voo entre os véus bailarinos de chuva fina sobre as milhares de pegadas que se confundem e percorrem caminhos que nunca existiram, rumo ao rochedo, o aglomerado de pedras e depressões, coberto de limo, alestrins e matacães, onde explodem ondas e acertam estilhas peroladas nas suas costas, avançando contra os papa-breus entrando por desvãos e saliências que lanham as mãos confusas, entre o par de sapatos e escorregões, na escalada até o cume, o abismo onde o ar é menos salino, e ela está sentada, braços envolvendo os joelhos, o rosto delgado e a bainha do cabelo castanho, repartido ao meio.
É uma bela visão.
É uma bela queda.
Não deixa de ser um ponto de vista.
Talvez um menos glorioso.
A vida, em certos aspectos, tende a não ser gloriosa.
Meu pai costuma dizer algo parecido.
Seu pai é um homem sábio.
É, talvez.
Posso me sentar?
…
Sabe, subir aqui me dá a medida da minha insignificância.
Para mim, é a possibilidade de desaparecer.
Acredite, não é tão simples.
Não é difícil o bastante.
Está vendo os barcos? Os pequenos borrões coloridos atrás do mau tempo, surgindo e desaparecendo? Imagine todos os elementos que são necessários para que isso aconteça. A névoa, a chuva, o vento, as ondas. Tudo tem de convergir perfeitamente para criar essa ilusão de ótica. Não acho que seja tão simples assim.
Eu não consigo me impressionar com ilusões.
Deve existir uma boa razão para isso.
Meu pai é mágico, um ilusionista, como ele prefere ser chamado. O seu número mais famoso é o do desaparecimento.
E você cresceu sabendo que era uma ilusão.
É. Ele era grande em sua época.
E onde está agora?
Agora ele está preso à cama de um hospital, flutuando entre momentos de lucidez, enquanto espera por um transplante que nunca acontece. Irônico, não? Meu pai ganhou a vida com truques de desaparecimento, e agora não há nada que se possa fazer para evitar que desapareça para sempre.
Sinto muito por isso.
Acho que essa é a ilusão que ainda me impressiona. Acreditar que existe algum sentido na vida.
Sei que não é reconfortante, mas imagine, em todos esses anos, quantas pessoas seu pai tocou com seus números, quantas vidas conseguiu mudar.
Não é nada reconfortante.
Ao menos, ele tem a você.
A mim e ao meu irmão Pedro. Nunca o abandonaríamos. Minha mãe desapareceu quando éramos crianças. Meu pai sempre foi muito presente. Apesar da vida itinerante, de crescer seguindo a rotina dos circos de cidade a cidade, em momento algum ele permitiu que imaginássemos que poderíamos ficar sozinhos. Fomos ensinados a acreditar na comunhão e educados a construir um futuro próprio. Ele nunca deixou que seguíssemos sua estrada.
É curioso como viemos aqui por razões parecidas, mas com propósitos diferentes.
E o que você veio fazer aqui, num dia chuvoso, de terno e gravata?
Não sei ao certo. Encontrar algo.
Não deveria estar trabalhando?
Deveria, mas ninguém se importa. Já faz algum tempo que ninguém percebe que estou lá. Faz tempo que ninguém me percebe, de forma alguma.
Você é casado.
É, a aliança. Tenho duas filhas.
Isso é bom?
Não sei.
Deve existir uma boa razão para isso.
Passei a vida me escondendo, tentando desaparecer. Quando finalmente consegui, descobri que não podia voltar atrás.
No número do desaparecimento havia um fundo falso. Meu pai era amarrado por correntes presas a cadeados e erguido dentro de uma caixa. A chave ficava na sua mão. Quando a corda se rompia, ela passava pelo buraco e caía sobre um colchão. Esse é o segredo.
Quer ouvir um segredo? À noite, quando sei que todos estão dormindo, vou até o quarto das minhas filhas. Pego uma cadeira e me sento à beira das camas. Fico horas apenas as olhando, às vezes até raiar o dia. Eu não sabia o porquê. Na verdade, eu fingia que não sabia o porquê. No fundo, eu esperava que uma delas acordasse e, na transição entre o sono e o despertar, ainda livre de qualquer pensamento, pudesse me ver novamente. Saber que eu estava ali, que ainda existia. Mas agora sei que não posso reverter o que me tornei. Sou um fantasma no porta-retrato, um morto-vivo.
De alguma forma, é isso que meu pai se tornou.
É isso que, afinal, nos tornamos.
E não há nada que possamos fazer.
Ainda podemos ver os barcos.
(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O conto aqui publicado faz parte de seu mais recente livro, “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012)
‘Estilo é o plágio de si mesmo’.
(Alfred Hitchcock)
Considerado pelo American Film Institute como o melhor thriller de todos os tempos, Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, é um marco não só para o cinema – por ter matado sua protagonista na primeira meia hora de filme e por proibir que as pessoas entrassem na sala com a sessão já iniciada – como para a própria carreira do cineasta, que, nesta altura, já era um sexagenário com mais de 40 filmes no currículo. O que talvez o grande público desconheça é que a ParamountStudios vetou o projeto e Hitch o bancou de forma independente, hipotecando sua casa para arcar com a adaptação para o cinema do livro Psycho, de Robert Bloch, o qual classificou como “diabolicamente divertido”. Baseado em fatos reais, o enredo e o personagem Norman Bates são inspirados em Ed Gein, assassino que dissecava suas vítimas e construía objetos com partes do corpo humano, no interior americano, no fim dos anos 50.
Mais de meio século depois, chega às telas Hitchcock, primeiro trabalho de ficção do londrino Sacha Gervasi, que aborda os bastidores do filme e a relação de Sir Alfred (interpretado por um caricato Anthony Hopkins) com a esposa Alma Reville (Helen Mirren). Baseado no livro Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose (Ed. Intrínseca), de Stephen Rebello, talvez o maior trunfo do filme esteja em não se levar demasiado a sério nem assumir um caráter de cinebiografia, diferente, por exemplo, do tenso The Girl (2012), que aborda os escândalos envolvendo Alfie e a atriz Tippi Hedren enquanto rodavam Os Pássaros (1963) e Marnie – Confissões de uma Ladra (1964). Aliás, com maior ou menor intensidade, Hitchcock costumava apaixonar-se platônica e doentiamente por suas blondie girls.
Como de praxe na época, o roteiro de Psicose (assinado por Joe Stefano) precisou da aprovação do departamento de censura cinematográfica, o que, aliás, rende uma boa sequência na trama, principalmente quando Hitchcock é questionado quanto à nudez no assassinato no chuveiro (‘ela não estará nua, usará uma touca de banho’) e pela filmagem de um vaso sanitário aberto, fato inédito até então. O filme transita desde o casting de atores, curiosidades do set até sua exibição e consagração. Revela ainda a mágoa do cineasta com Hollywood (Hitchcock nunca foi premiado com um Oscar, apenas homenageado com o prêmio memorial Irving G. Thalberg, pelo conjunto da obra, em 1979), seus transtornos alimentares e crises emocionais. Aliás, durante seus devaneios, Hitch chega a dialogar com o serial-killer Ed Gein (Michael Wincott).
Helen Mirren e Anthony Hopkins em cena de Hitchcock - Foto: divulgação
Paralelo ao making of, o filme explora a máxima “por trás de todo grande homem há uma grande mulher”. Assim sendo, detrás do egocêntrico mestre do suspense havia Alma Reville, sua companheira por toda a vida e peça ativa em todas suas produções, seja como consultora, revisora ou montadora. Inclusive a trilha sonora da cena do chuveiro – composta por Bernard Herrmann – foi insistência sua. A ideia de Hitchcock é que a sequência de golpes fosse muda. Alma suportava, ainda, os flertes do marido com jovens atrizes e sofria com o ciúme provocado por sua aproximação com o escritor Whitfield Cook (Danny Huston). Aliás, há que se destacar a inspirada interpretação de Helen Mirren como a espirituosa e decidida Alma e o elenco estrelar do longa, que conta com Scarlett Johansson como Janet Leigh/Marion Crane e James D’Arcy interpretando Anthony Perkins/Norman Bates, além de Jessica Biel, Toni Collette e Ralph Macchio (o eterno Daniel San, de Karatê Kid). Sente-se, porém, a ausência na trama – tanto em sua figura familiar quanto profissional – de Pat Hitchcock, filha do casal e atriz em Psicose.
A verdade é que a “franquia psicótica” rende frutos até hoje, a exemplo da série Bates Motel, do Canal A&E, que foca na adolescência de Norman e estreou sua primeira temporada dia 18 de março nos EUA. Ainda que muito inferiores ao original e dirigidas por três cineastas distintos, não esqueçamos das continuações Psicose II (1983), Psicose III (dirigida pelo próprio ator Anthony Perkins, em 1986) e Psicose IV – O Começo (1990), além do (desnecessário) remake para o clássico, do cineasta Gus Van Sant (1998) e do documentário The Psycho Legacy (2010). Mesmo apresentando algumas falhas e divergências em relação ao livro que o originou e um Anthony Hopkins um pouco aquém da expectativa gerada, Hitchcock (talvez até mesmo o título esteja equivocado) possui seus méritos, seja por introduzir ao público Alma Reville ou simplesmente homenagear criador e criatura. Trata-se de um bom pretexto para (re)conhecer o cineasta inglês e suas vastas obras-primas e/ou para debruçar-se sobre a mente do perturbado Norman Bates, um dos personagens mais complexos e intrigantes que o cinema já conheceu.
(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)
A vida me causa espasmos
E eu permaneço ao chão
Um caco que não quer adentrar – e não vai!
Uma ferida aberta, que jorra
Que glorifica o prazer de
Ainda suspirar – e sorrio!
A vida me intensifica
E sobretudo,
Acredito e cicatrizo – continuo!
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fragmento
Achava legal a superficialidade porque a comparava como as bordas das coisas, como as cascas das frutas, onde, por exemplo, fica concentrada a essência do sabor. Depois, aprofundar qualquer coisa que fosse, era preciso coragem. Nem todo mundo está disposto a espinhar-se. Os dias soltam venenos. Os dias superam. Amanhã o céu será mais azul, e mataremos a sede no suor que escorre sal-ga-do!
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22:22
toco o breu, meio ao jardim na sua cabeça de rosas ……………………………………………………………………………..sangrentas ……………………………………….e salivo.
paladar só assim.
infinito.
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Ela queria ser seu casaco inúmeras vezes. Não! Não falo deste grudado no seu corpo que insiste substituir a quentura da minha alma, aquecendo sua meia-estação. Ela se refere ao que você leva nas mãos em caminhadas noturnas. Ela fala deste, deste que te faz decorar cheiros.
(Ana Pérola Pacheco (RJ – 1988), mora em Florianópolis, é poeta, fotógrafa, tem ensaios publicados na Revista Ellenismos, exposição fotográfica e conto na Revista Cruviana. Além de escrever em redes sociais e em seu blog Sentidos, é colaboradora no Poesia: Falsidade Ideológica e no projeto infantil Para Qualquer faz de Conta e atua também na área de Recursos Humanosma qual é graduada)