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76ª Leva - 02/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Joelma Bittencourt

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

Sobrevoo em mar íntimo

 

Tem dia que só acontece
na concha das mãos

trilha escondida
labirinto sem mito
passagem secreta para mundo
onde a voz tem som de mar
límpido
sem ondas
sem sal
sem naufrágios

e o olhar é gaivota
à espreita da hora certa
de mergulhar.

 

 

***

 

 

latrodectus

 

sei o que tens
em tua íris
palavra
de instinto aracnídeo

tece
prende
mata
devora

digere o bardo
com tua libido

 

 

***

 

 

guizos e mordaças

 

laços dão-se
nós e pesam
no estômago

a profilaxia
atordoa
o bom senso

a ebriedade
não brinca
de bacante

reza o mito
desconsagrado
e impuro

: o amor
finge-se fingir

 

 

***

 

 

matéria

 

a mesma carne
que ama
é vil
quando rejeitada

líquor
: o outro nome
da alma?

 

 

***

 

 

lírica explosiva

 

o hipotálamo
rende-se
ao olor
da úmida
flor
que lhe acena
entre coxas

e erotizado
fode com
meu juízo

 

 

(Joelma Bittencourt é paraense. Formada em Letras pela Universidade Federal do Pará. Dedica-se ao ensino de Linguagem. Sua relação apaixonada com a poesia dá-se pela necessidade de exteriorizar sensações e imagens que lhe acometem. Além de assinar os textos com o próprio nome, utiliza o pseudônimo Acqua, quando aborda temáticas mais densas. Publica seus poemas nos blogues pessoais Transfigurações e Negrume, e nos sites coletivos Poesia: Falsidade Ideológica, Dardo, Poetas Vivos)

 

 

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Por trás dos percursos de uma obra, abrigam-se motivações das mais diversas. Definitivamente, entendê-las não é a via mais importante a se seguir. Sentir parece ser o termo mais apropriado. Daí, a necessidade de converter os mecanismos da percepção em ferramentas possíveis a um mergulho para dentro de nós mesmos. Afinal, tudo principia nas paisagens que, embora episodicamente relutemos em reconhecer, são cada vez mais redescobertas daquilo que tornamos a visitar, quiçá uma fonte inalienável da existência, alimentada pelas travessias reais ou vividas em sonho. Onde a distinção entre criador e criatura? Quão tênue pode ser a linha que perpassa projeções e concretudes? Mais ainda, como negar a noção de unidade que assoma nossas trajetórias?

Estas e outras tantas indagações estão postas no caminho que compartilhamos com nossos iguais. E ao alçar voo por sobre as humanas idades, somos companheiros de sopro vital de um alguém como o escritor Vicente Franz Cecim. Nascido nas paragens amazônicas, mais precisamente em Belém, no Pará, Vicente tem na mítica e emblemática Andara a pedra fundamental de seu caminhar com as palavras. Com a habilidade de quem faz do olhar sensível sobre o existir um precioso aliado, o autor constrói uma obra cujo apelo filosófico é virtude das mais caras. Do mesmo modo em que o ambiente tido em Andara sugere vias especialmente oníricas, pautadas numa aproximação com a literatura fantástica, também estamos diante da manifestação cotidiana, e nada banal, do real entre nós, algo profundamente transmutado em poesia.

E foi com esta habilidade de nos apresentar trajetos movidos por uma perspectiva de amplitude do ser que Vicente ergueu sua obra. Ao pensarmos no conjunto de suas escrituras, deparamo-nos com o que o autor denomina de livros visíveis e invisíveis. Seu trilhar abarca, dentre outros, feitos como Viagem a Andara oO livro invisível, K O escuro da semente (Ver o Verso, Portugal, 2005), Ó Serdespanto (Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2006) e oÓ: Desnutrir a pedra (Tessitura, Minas Gerais, 2008), além dos e-books Desnutrir a pedra (Tertúlia de eBooks, 2012) e Asa de murmúrios (Tertúlia de eBooks, 2012). Como cineasta, é criador dos filmes KinemAndara. No diálogo que agora segue, Vicente Franz Cecim fala um pouco sobre as perspectivas criadas a partir de Andara e de como a simbologia dessa Floresta Sagrada de Palavras está inserida em nós mais do que pensamos. A entrevista, feita por e-mail, possibilitou também o explicitar de todo um singular modo de expressão do escritor no que se refere à grafia, algo que potencializa saberes e sabores inerentes a sua jornada.

 

 

Vicente Franz Cecim / Foto: Bruno Cecim

 

 DA – Andara, ambiente metafórico da vida e que perpassa sua obra, é desejo de reinvenção de nossas existências?

VICENTE FRANZ CECIM – Sim. É a nossa Existência que através de Mim inventa Andara, para ser inventada por Andara. Isso é recíproco. Mas já perdi de vista, agora – Andara começou a se manifestar em 1979 e estamos em 2013 – qual das duas Faces é a do Espelho e qual a que está diante dEle. Ah, não percebo Andara como uma metáfora: percebo/isto é: recebo Andara como o Real. É a nossa existência que entendo como a metáfora de uma realidade que deseja o Real, ou Mais Real, que Andara busca e busca e busca.

 

DA – E o que dizer das linhas que derivam destes signos andarianos? Serão elas uma ode à redenção do humano?

VICENTE FRANZ CECIM – Ah, a Redenção do Humano. Isso é uma pergunta que abala todas as certezas, primeiro, para só depois pretender alguma resposta. A Redenção do Humano? De alguma forma, sim, Andara busca isso. Mas, às vezes, com muitas dúvidas que se ampliam em mais dúvidas sobre como, e por quais vias? É um labirinto de dúvidas que eu preciso percorrer, por onde passam, se entretecendo, a literatura e o humano. Antes de mais nada, Andara busca a redenção de si mesma – como uma Outra realidade: feita do tecido verbal e do tecido existencial dos seres e coisas que faz emergir através das Palavras. Quando parece, aqui e ali, tocar em algo, digamos, como que uma Graça, possivelmente redentor – então, dá um segundo passo: a partir desse ponto consistente quando achado, tenta avançar para fora das palavras e passar a caminhar já através do próprio humano. Não sei o que é mais difícil, se esse passo verbal ou o segundo, que vem depois dele, já em pleno humano. Porque, vê só: assim como Andara é verbal e não-verbal, existe e não existe – pois é um livro nãoescrito de onde brotam os livros escritos de Andara – também o homem e o mundo são existentes e nãoexistentes. E é justamente por isso – porque Andara e a Vida, a Literatura e o Homem são coisas tecidas de ser e nãoser – que, quem sabe, esteja de alguma forma autorizada a buscar redenções. Mas é possível se redimir de um sonho? E eu posso me redimir do próprio Sonho que, humano, sou?

 

DA – Diria que a memória presente em sua obra corre paralela ao que se vive em nosso mundo supostamente real? 

VICENTE FRANZ CECIM – Não, não se trata de um mundo supostamente real – mas de um mundo real como um sonho. Nesse sentido, Andara quis existir para nos lembrar disso, para evocar, permanentemente, essa Memória, este Saber: Mundo – tão real quanto um sonho, logo tão liberto de si mesmo como uma irRealidade da qual não se pode escapar.

 

 

Vicente Franz Cecim / Foto: Bruno Cecim

 

DA – Desde que tudo começou em A asa e a serpente, passando por K O escuro da semente e chegando a oÓ: Desnutrir a pedra, a busca pelo entendimento do Uno, tão apregoada no filósofo Plotino, atravessa intensamente seus caminhos de criador?

VICENTE FRANZ CECIM – Sobre isso só posso falar com as palavras que já disse outras vezes e que em cada Mil e Um Homens todos fingirão não entender, refugiados na Noite Espessa em que, no Medo ou Astúcia da espécie, se ocultam, o que no fundo todos já sabem. Sigamos sem muitas esperanças, então, a resposta: –  O homem é coisa que vive para dentro e para fora de Si. Para fora, ele é o Ente: o Espanto domado pela Civilização. Para dentro, ele É o Ser: o Puro Espanto de Ser, intocável. A Viagem a Andara caminha assim: desperta para essa vida em Ente e combatendo a Civilização como alienação de sermos, e se sonhando em miragens de sermos que nos libertem para Sermos plenamente, o que já somos, mas estamos encarcerados, vivendo como os Humilhados & Ofendidos de Dostoievski, mas em escala cósmica. E quer levar para além desse homem submetido – que se deixa submeter ou é submetido à força e por promessas políticas ilusórias das Forças Sociais Malignas, malinas como dizem as Crianças. Em Andara se dá a Alquimia Verbal da transformação do Humano em Umanoh, lançando para trás da palavra esse H inútil, vazio, aspirado para liberar o Um, o Uno: a abertura para o Ser. Mas aqueles que impelidos pelas Astúcias das Forças Sociais Malinas a viverem somente para fora a vida como Ente continuarão avançando na única direção que conhecem e lhes é consentida no Ocidente, onde se lê da esquerda para a direta: do calcanhar para a ponta dos dedos – e reencontrarão o H no fim da palavra. Que pena. Isso me entristece. Porque caminhar através da irRealidade, despertante, de Andara me mostrou que a direção oposta nos torna levar ao nosso Centro Real. E esse centro se atinge indo na direção inversa: da ponta dos dedos para o calcanhar, em demanda de um Real Total que nos transfigure. Pois o homem é, essencialmente, coisa que caminha Por Dentro. Se quiserem: Da direita para a esquerda. Liberando o Um de Tudo em si. – A Descoberta Fulgurante de Andara em sua Via Imaginal é a Irrealidade da Vida como  manifestação da Pura Irrealidade em Si – ou semSi – do que os homens intuem, advinham ou criam ou recebem como o que chamam > Deus. Mas isso não é coisa para temer:  gerou em Mim a Imensa Alegria. Porque significa, se entendido em um Clarão: libertação, significando: – Liberdade.

 

DA – A perspectiva de escrever invisivelmente nas páginas do livro da vida, abraçada a essa libertação a que você se refere, é uma total vontade de transcendência?

VICENTE FRANZ CECIM – Algo, ou eu mesmo, devo ter me feito essa pergunta no instante Clarão em que nasci – saltei aqui para fora, ou Dentro, como mais um ser de espanto. E a pergunta deve ter vindo me acompanhando até o dia em que, já aos 33 anos, escrevi a primeira página de A asa e a serpente, o primeiro livro de Viagem a Andara oO livro invisível. Até agora, + quase 34 anos depois, nada mudou. A primeira página com a resposta foi esta:

 

   Tu escreves um livro com tinta invisível.
            Por que fazes isso?

            Nós somos homens invisíveis
            Depois de nascidos, visíveis.
            Entre o início visível e o invisível final, nós somos os homens

visíveis.
            Aproveitemos para ver-nos

            E então ir escrevendo outros livros,
            nestes jardins, todas essas asas,
            para que um livro vá se fazendo.
            Mas não em si.
            Dele não se verá nem sombra das palavras no papel.
            Viagem a Andara.
            O não-livro. Não existe, não existe
            Literatura fantasma.
            Não foi escrito.
            Enquanto texto, tudo o que teremos dele é um título

 

Mas, Fabrício, há uma outra pergunta implicada nessa, e que não me fizeste – mas como eu a fiz a Mim, então te passo a página seguinte da abertura de A asa e a serpente, após a pergunta sobre por que escrever um livro invisível:

 

             E a pergunta seguinte é:
            E o que são livros, os livros que se escreve
            Livros de Andara.
           Livros-miragens. Pois uma vez escrita, da vida só resta a alucinação literária

          Situação dos livros de Andara: condenados à vi¬sibilidade para que Viagem a Andara, o livro invisível possa existir como pura ilusão.

            Andara, a viagem ela mesma, nunca será escrita diretamente.

           E ela está começando assim

 

DA – Chama atenção a presença de uma grafia toda própria quando menciona seus escritos, percursos em Andara. Nesse sentido, vislumbras uma espécie de ressignificação consciente da palavra?

VICENTE FRANZ CECIM – Bem, isso é mais simples do que parece. Quero dizer: é Simples como as coisas simples. Mas passa por estágios. O primeiro, essencial, é: um criador de literatura, de qualquer arte, ou é idêntico a sua impressão digital, único, ou é apenas um artesão. Esse é o estágio do Ser. O segundo é o estágio da Linguagem: a Vida toda é uma Linguagem que nos fala e se fala em nós próprios – todo esse Cosmos visível, um Livro – mas cada coisa, de cada espécie, fala a sua linguagem – mas aqui se dá algo curioso: para falar a partir de si próprio, e falar para todos, é preciso que cada um, dentro de sua espécie, fale uma linguagem tão sua quanto sua própria existência não pode ser a de outro. Aquele que fala a linguagem de todos certamente não fala para todos porque não fala solitariamente. Um terceiro estágio é um exemplo disso: a própria linguagem de Andara: senti que para falar como só a mim seja dado falar – e poder falar para todos – os tempos padronizados do verbo não eram suficientes: passado, presente, futuro – e precisei de um tempo-sem-tempo, que chamei de Tempo da Hipótese – esse é o tempo do Verbo em Andara, o tempo do fosse, seja, estaria – o tempo do talvez, do quem sabe, que acabou se tornando o tempo do Fosse Uma Vez. E de onde veio essa minha necessidade? Da descoberta, evidente, de que o tempo mais profundamente falso na literatura é o tempo do É – na Literatura nada é – por isso mesmo a Literatura pode ser tudo: ela é o menos real para ser o mais real. Entre o percebível Real e o concebível Imaginário, aí se manifesta a Literatura em sua Verdade. Além disso, devo acrescentar que, nesse Tempo da Hipótese, Andara foi me revelando a diferença entre palavras que se referem a coisas passageiras e palavras que dizem de coisas Permanentes: são as coisas como Entes, entidades, diferentes das coisas como coisas. Basta dar aqui um exemplo para ser entendido, acho. Quando em Andara escrevo: a noite, falo do fenômeno que é a noite. Quando em Andara escrevo: a Noite – surge o Ente que é a Noite origem e significado de todas as noites. Assim também: o homem/o Homem, uma árvore/aquela Árvore, a voz/a Voz – podendo às vezes se dar transmutações instantâneas, de uma mesma coisa, quando percebo numa cintilação, nela, sua dimensão de entidade, como em: o vento: o Vento. Mas os livros visíveis de Andara, os que escrevo e vão brotando de Viagem a Andara oO livro invisível, que não escrevo, é que dizem em si mesmo tudo o que eu apenas esbocei dizer.

 

Vicente Franz Cecim / Fotoaquarela: Bruno Cecim

 

 DA – Em sua trajetória, há também a presença de uma íntima relação com o cinema, sobretudo nos filmes produzidos ao longo dos anos. Que reflexão você faz desses percursos com a imagem? A vontade de produzir permanece viva?

VICENTE FRANZ CECIM – Uma vez conversei com o cineasta Carlos Diegues aqui na Amazônia, conversa longa, de amigos. E apontei uma árvore e disse a ele: – O que eu queria mesmo era trazer aquela árvore exatamente como ela é, viva, para dentro dos meus livros. E ele me respondeu: – Pois eu queria era poder trazer a árvore que tu inventas com palavras para dentro dos meus filmes. A resposta essencial a tua pergunta sobre por que faço, também, os filmes KinemAndara, Fabrício, está toda nesse diálogo. Tentemos entender isso que nos dissemos: são duas impotências: na Literatura, posso criar a árvore que eu quiser – e em Andara as árvores falam, caminham, contam histórias para os homens, sobem até as estrelas – mas não posso ter a árvore viva, no Cinema, posso ter a árvore como ela se mostra viva, mas ela, para se manter a árvore viva que percebemos, mesmo só como imagem, não contará histórias, caminhará, subirá até as estrelas. Por muitos motivos, mas esse é o principal – escrevo e filmo.

 

DA – Houve um período em que você encontrou ambiente mais favorável para publicação em Portugal, tanto que alguns de seus livros foram editados por lá. Naqueles tempos, você enfrentou, de fato, dificuldades para publicar no Brasil? Como estão as coisas agora? Um novo livro já estaria em curso aqui?

VICENTE FRANZ CECIM – Melhor, agora, assumir o tom de uma crônica, áspera e um tanto melancólica, para descrever esses já quase 34 anos de resistências, desistências e persistência de Andara, desde deu seu primeiro passo em 1979. Os principais livros visíveis de Andara saíram primeiro no Brasil, pela Iluminuras – Viagem a Andara, em 1988, reunindo os 7 primeiros livros, que recebeu o Grande Prêmio da Crítica da Apca – Associação Paulista de Críticos de Arte, antes dado apenas a Cora Coralina, Mário Quintana, Hilda Hilst e, depois de mim, a Manoel de Barros, porque só é atribuído se houver unanimidade dos críticos votantes – e Silencioso como o Paraíso, em 1994, reunindo os 4 seguintes, que Leo Gilson Ribeiro considerou ‘um dos mais perfeitos livros publicados no Brasil nos últimos dez anos’ e muitos outros elogiaram tanto quanto o primeiro volume. Devo revelar isso para que fique muito claro: o impasse do chamado mercado editorial brasileiro não é criado por questões de qualidade literária – é expressamente comercial. Então, após esses dois volumes, foi o exílio nacional de Andara. Não gosto de procurar editoras com meus originais e desisti de vez ao ouvir do meu próprio editor, um amigo e leitor lúcido, Samuel Leon, que ‘os leitores brasileiros ainda não estão preparados para Andara’, quando apresentei à editora Ó Serdespanto, em 1988, reunindo mais quatro novos livros de Viagem a Andara oO livro invisível. Só em 2000 o livro saiu em Portugal, pela Íman, e mais de dez críticos portugueses, consultados pelo jornal Público, o apontaram como o segundo melhor lançamento do ano – o que devo, pelo mesmo motivo acima – questões de qualidade literária – também revelar aqui. Mas nem isso foi suficiente para abalar a indiferença do exílio editorial brasileiro. Um novo inédito de Andara saiu em Portugal em 2005, pela Ver o Verso: K  O escuro da semente. Mais de dez anos após a última publicação de um livro meu no Brasil. Com dois volumes publicados no Brasil e dois em Portugal, comecei a me sentir um escritor tão brasileiro quanto Guimarães Rosa e tão português quanto Fernando Pessoa. Seria cômico, se não fosse doloroso – mas nem uma coisa nem outra, porque sempre me senti um escritor da Amazônia, da Floresta Sagrada – meu essencial país. Então, num espasmo que simulou uma redenção, enfim Ó Serdespanto saiu aqui pela Bertrand Brasil, em 2006. Mas O escuro da semente – e embora a editora tenha assinado comigo nessa época dois contratos de edição, dele e de uma reedição de Silencioso como o Paraíso – jamais foi editado – nem foi feita a reedição – e ninguém conhece O escuro no Brasil até hoje. Guardo os contratos não cumpridos como fantasmas num sótão, assombrações do Mercado Editorial. Enfim, continuei gerando novos livros de Andara. Para o que? Para nada? – Ficar jogando pedras no escuro? Enfim, o último deles saiu aqui pela Tessituras, de Minas Gerais, em 2008: oÓ: Desnutrir a pedra. Quanto ao exílio de Andara – continua. E há cinco anos não é impresso nenhum dos novos livros visíveis.

 

DA – E a alternativa dos e-books, o que acha do livro virtual?

VICENTE FRANZ CECIM – O livro virtual – que em breve deverá ser também devorado pelo sempre faminto Mercado Editorial – é uma radicalização do Exílio de Andara, que agora estou assumindo: editei em e-book, com algumas mutações, Desnutrir a pedra e o mais novo visível de Andara: Asa de murmúrios, pela Tertúlia de E-books – mas atenção: é uma editora de Portugal. Quem sabe, se não há um Lugar físico para os livros visíveis de Andara, não seja mesmo o livro virtual o nãoLugar de Viagem a Andara oO livro invisível?

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

VICENTE FRANZ CECIM – Essas divisões do chamado tempo histórico, ah – não me interessam – apenas como curiosos arquivamentos, são um Museu de Miragens dos passos passados da Humanidade que quer nos induzir ao sentimento, coletivo, de que estamos em evolução e que tudo vai bem – sua função, implícita e consoladora, é prometer que os chamados tempos melhores virão, sempre estarão vindo. E que tudo, no fundo, apesar das aparências, está bem. Elias Canetti escreveu um livro impressionante, Massa e Poder, onde você pode ver como em todos as épocas os homens avançaram brutalmente e seus passos têm sido à deriva e cruéis – como quem avança através das Trevas.  Eu vivo no Tempo da Natureza. Porque viagem do homem no Cosmos é uma só, Una, sem divisões em pré e pós. Através da História o homem avança e recua por labirintos de caminhos que em Andara chamo de: o Vários. Mas é no Um que passa, em nós e na Vida, o Caminho – assim, com maiúscula – em sua dimensão de Entidade, diferente desses caminhos nas névoas que também os seres neblina de Andara percorrem em Sua busca. Eu reduzi tudo a uma palavra-imagem: oO – e eu pequeno – eu – e o Eu grande – o semNome. Eu vivo é no O Um Vários.

 

DA – Em que medida o caminhar em Andara transformou o homem Vicente Franz Cecim?

VICENTE FRANZ CECIM – Na medida em que eu quase nem sou mais Vicente Franz Cecim. Andara tem uma meta: – Atravessar o que nos nega, chegar ao Sim. Atravessando Andara, fui aos poucos me tornando Sonhos de Escritura de mim mesmo. E, a cada novo passo na Viagem a Andara oO livro invisível, vou penetrando mais e mais, no Menos, gosto cada vez mais das páginas em branco, sem nem Sombras de palavras no papel, região dos Silêncios. É a busca – do que me busca? oO. Enfim, sou mais um serneblina de Andara: nascido, como todos, um ser de espanto, meu sonho é ser o próprio Serdespanto. Quando me vejo de costas num espelho, sinto melancolia. Nostalgia da promessa de Asas não cumprida nas omoplatas humanas. aVe

 

 

 

***

 

 

Vozes de Andara I – Muro branco das idades

 

 

 

 

 

***

 

 

K  O escuro da semente / Um fragmento

……(…)

……E seria nessa noite e sob aquele céu de asas negras brancas
que ele, Oniro, fosse se levantando da terra onde caído,

……e então diria:

……– Vê, Orino,
……isso: Isso, que eu agora entendi: essas asas, negras, brancas,
……seus Círculos brancos negros
……não existem. Eles são só uma invenção desse Vicente que nos
escreve,
……só que elas ele escrevendo com asas de palavras,
……e nós ainda inventando com palavras de carne,
……ah as pesadas as humanas, e nelas uns ossos vazios por onde
ele sopra os seus sonhos
……– Não existem, mas existem. Como te dizer isso?
……Escuta.
……E vem comigo

……– É que esse Vicente,
……vindo de um vale onde nasceu, é lá embaixo da vida,
……o que ele quer o que mais quer é ascender, alado, e, leve,
abandonar o Vários por maior Amizade ao Um.
……Pois já não houve um outro, um tal K que
……Diz-se
……antes dele já ascendeu deixando aqui embaixo o Alfabeto
Humano?
……Ou essa é só mais uma das suas histórias
……Esses livros que ele escreve
……Então, todos os seus livros sendo atravessados por asas,
……para ele um lugar não lugar Andara e todos os lugares sendo
para ele uma grande Asa, com a qual ele sonhando isso do Visível ao
Invisível,
……ele faz essa viagem, e já bem longa.
……Isso de andar sem ir ficando indo fosse
……Pois em Andara, tudo está no Vale, embaixo,
……e quer ir para a Montanha, lá no alto.
……Tudo

……– Vê, Orino,
……sendo fantasmas de Andara,
……nessa Neblina
……nós também podendo viajar por Andara inteira, indo através
dos livros que esse Vicente escreve,
……como estamos indo agora através das páginas deste livro que
ele escreve,

……e estão, vem comigo, façamos isso

……– Mas tu, não, dizendo Oniro ao omem de areia. Não vá se
desfazer nos grãos das palavras desse Vicente o que ainda resta do
teu Grão de Ser

……Vem,
……e vê Orino.
……Como parecem se elevar tão altos os seus livros
……À Sombra deles, ah suas sombras assim tão longas e íntimas
das sombras longe lá do horizonte
……as nossas sombrazinhas de Neblina humana

……A asa e a serpente.
……Lês, o título?
……Dos livros assim visíveis de Andara
……este é o primeiro. E vês o que eu te disse? A serpente: o Vale,
a asa: a Montanha. E tudo terminando por uma chuva de asas e
serpentes sobre a terra,
……sobre os homens
……Vem, vê. Entremos também neste
……É Os animais da terra. Aqui, repara,
……aparentemente tudo se dá só no Vale, mas não é o que
acontece, porque o sonho da Montanha vês ele
……nos vôos de Caminá? A mulher alada
……Este outro é Os jardins e a noite. O Vale está nos olhos que
antes um homem tinha para não ver nada, nada sob o sol, e a
Montanha nasce da Noite em que uma ave, a imensa,
……o Curau,
……desce do céu e tira os olhos desse homem
……e ele então começa a ver, é bem longe, e também dentro de si,
a vida
……Este é Terra da sombra e do não.
……Entremos
……Nele, uma criança atravessa o Vale: a vida, levada por dois
outros fantasmas como nós, um querendo ser leve, o outro, pesando
sobre a terra,
……e no final surgem umas borboletas, vês: elas, lá? Umas
cintilações no ar, que voando diante da criança a levam até a
Montanha, que é um montinho de nada de terra onde um morto
dorme e não dorme pois não sabemos se ele ainda está lá ou já se
ergueu de si
……Este é Diante de ti só verás o Atlântico.
……Nele, o Vale será submerso

……(…)

 

 

***

 

 

KinemAndara – PERMANÊNCIA (1976)

 

 

 

 

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Carla Diacov

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

seus corredores

     (para Raul Macedo)

 

faz a cama como quem veste a noiva e não dorme sobre. o pouco que se diria sobre este jovem não se daria à história. é como aconselhar alguém a não respirar mais o ar, dizer que é pura alegoria, luxo demais. estou tocada pelo fogo. há também o fato de que não gosto de dizer o rapaz. ele me chama. quando o digo, ele me chama. mas bem, faz a cama como quem veste a noiva e não dorme sobre. veste-se como aos dias, é um mancebo cotidiano. hospeda-se onde cessa. sempre. é uma preguiça feita. é também essa espécie de hotel de esquina onde raios de sol e partes de luar só entram se convidados. não uma casa, é hotel de esquina, pois que pura cintura. não bebe café nem liga pra conhaque. serve-se de leite morno e não dança bem, não dança bem nem querendo pretender passinhos engraçados. não nos roçamos. aos seis anos tomou uma surra dum buldogue de ladeira e quase perdeu-se do nariz. ele não diz, mas sei que ama a minha voz, pois que falo a ele. falo a ele para ecoar o menino. e minto. o menino não faz a cama. a cama o faz. sua noiva, sua cama. disse que o pouco que se diria sobre este jovem não se daria à história. minto. oh, Deus, minto tanto. neste hotel, as esquinas dos espelhos se dobram, os corredores se cruzam e se perdem tanto, todas as janelas se lamentam e então prosam. este é o nome do menino.

 

 

 

***

 

 

 

seus parágrafos

 

digo que há sempre um leitor. na escuridão. na chuva. no ponto de ônibus, entre tantos que não, por exemplo, na biblioteca poderia não haver. e o leitor é instituto flamejando a cabeça besta e os óculos respingados, boneco vodu recheado de nada para que o livro entre ao leitor, faça-se o leitor. é besta e é servidor e como é bonita a cara do leitor. não ter vergonha, não ter destino, consumida cara por este sal de esperanças desgraçadas. na praça, na fila do açougue, onde houver aglomeração, lá estará o leitor, onde houver espaço, onde houver encaixe, onde não houver, no avião, onde não há, poderia haver. deixa-se respirar e existir pelo manto que o cobre, o leitor é súbito. emprestado à paisagem, divindade caridosa, silente, o leitor. o leitor do quando alguém a pedir informação, o leitor gesticulando sem estar ali, o leitor. escondido e infiel, agora estará lendo um suspense, em casa, ao lado do abajur tenro, o leitor e o gato do leitor, o café esfriando ao lado do leitor e o leitor ao fim do livro, como que num gesto de súplica e horror, aplacado e um tanto decepcionado, enfim volta a ser gente no clique que apaga a luz, derrubando o café já frio, espantando o gato do leitor que não mais, o leitor.

 

 

 

***

 

 

 

seus queijos

     (Para Gabraz Sanna)

 

parte já o trem com jeito de sino. vai já partir.  numa das janelas sem vidro está o homem bom. Gabriel é de viajar sozinho e leva no colo uma sacola com queijos e doces caseiros. fazia tanto, contando em tempo, que Gabriel não via a mãe e esta o fez levar sete dos queijos e três dos potes de doce que é o doce-de-leite,  não o argentino,  diz a mãe, o argentino não presta, esse faço eu, gritava, que gostava de gritar. ao lado de Gabriel senta-se uma senhora já tomada pelo conhaque, fumando feito uma senhora muito fumante e que podia muito bem ter se escavado em outro lugar do vagão quase completamente vazio. Gabriel é este homem bom que não dirá coisa alguma, não se levantará rumando outro assento, não Gabriel, Gabriel não. a senhora roça o homem bom, ela não tem jeito mesmo, é uma joça duma senhora, enfia o dedo na beirada da sacola, espia os queijos, ri como joça muito gargalhosa. e agora estarão passando pelas fazendas e Gabriel fingirá esse interesse absurdo pelas manchas que fazem o rebanho no pasto, pensa em mapas, são mapas, são estados e cidades as manchas que fazem. a senhora o cutuca na bochecha, examina sua camisa de homem bom. o cigarro dela já quase todo consumido e a cinza quase toda aposentando-se no queijo do cimo. Gabriel cutuca um dos parafusos do banco da frente, são globos, planetas, são planetas, lá vivem criaturas que, pensa gritado, que gostava de pensar assim, gritado, criaturas que. a senhora pega a cabeça de Gabriel, desmoronada do cigarro que já não mais, que jaz na sacola sobre o último queijo, junto às cinzas, pega a cabeça do homem bom, toma o rosto dele e por uma eternidade, com a língua e os dentes, com o sexo e a tremedeira duma ressaca bem próxima, estuda um estudo mancado do que é o rosto e o dorso de um homem tão bom. engole e então o cospe, mastiga e então o rumina, Gabriel é a pele seca da mulher vivida, é a vulva e é a suja lentidão. a senhora o embrulha em pura libertinagem molenga e malpassada para depois o ejetar. embrulha e o ejeta. e agora o Gabriel não. o homem bom não estará mais ali. Gabriel, o bom, terá sumido com os entrecortes de sombra e de sol, uma ou duas estações atrás. o Gabriel que fica é tomado pela senhora ladrona depravação, é tomado de luxúria e despreocupação. filho do mal, agora é um homem vermelho e alto que desce ao Rio de Janeiro sem instinto subsidiário. ele não é mais uma filial. a vida se ribomba por ele e tudo é calor e umidade. a senhora, os queijos e o doce seguem viagem. não esse Gabriel. esse não.

mas acabar assim o guloso recomeço de vida de Gabriel, oh, não poderia.
agora ou mato Gabriel ou ele me mata. e assim é.
segue a bandidagem, segue a senhora, seguem os queijos e o doce.
segue o trem com jeito de sino. fica um homem, fica sua pujança, coisa abusada debruçada na ribalta da mácula.

 

 

 

***

 

 

 

suas faces

 

cresce o boi, os porcos, cresce a lã, cresce a muié. o céu faz cosquinha nos orvido dos bão de coração. ah, a vida pequeninha do homem de saia rosada. tem dia que limpa o chiqueiro e tem dia que não, que se limpa não chamava chiqueiro, não. tosa Carla, sua única ovelha. pretinha-pretinha é a Carla, a ovelhinha do homem de saia que faz café, faz pão de milho, fez curso de tricô lá na comunidade do Amparo, com a mulherada do Amparo pra tricotar e tricotou: fez três lindos cachecóis pra Carla, friorenta que só, tadinha, estranhando a intimidade com a lã. teve o dia em que o boi, a muié e os porcos do homem de saia fugiram e não voltaram. teve o dia em que Carla quis fugir e não foi, ficou presa no farpado. e é assim: Carla e o homem de saia. a cadeira de balanço com o homem de saia e Carla. e, claro, o céu fazendo cosquinha nos orvido dos bão. os bicho e a muié andarão bebeno e brigano na estrada, cabadibronco. UMA HORA ES AVORTA, CARLA. UMA HORA ES AVORTA. CAUSEDEQUE AVORTA É AVESS DI SAÍ. Carla pensa: ÉÉÉ-É-É-É.

 

 

(sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. Babando)

 

 

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Heitor Brasileiro Filho

 

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

 

A OUTRA FACE

 

A poesia não aceita algemas
nem acredita em bombas
……………..de efeito moral

madona ou doidivanas
a espada de Dâmocles
madrasta humana

tremula o horror
nos lábios de uma menina
tremula o horror
na face de uma criança

no lado acordado peito
tremula uma flâmula
tremula uma bandeira
no quintal da infância

no lado açodado do peito
tremula um fleuma
e mais que infla o inflama

novamente o arbítrio
a tutela – cinco dedos
tatuados na cara
e os chutes na canela

colar de medos
adorna o tornozelo
os guizos no esqueleto
pedem ao novo ilustre
um lustre na caveira
limpem as botas pois
os novos soldados

aonde vai a insensatez
essa bala de borracha
se o espaço é infinito
e o átomo está dividido?

está dividido o homem
o peito está dividido
e o coração endividado
despe-se em inexato leito

madona ou doidivanas
a espada de Dâmocles
madrasta humana

a poesia não aceita algemas
nem acredita em bombas
……………..de efeito moral

 

 

***

 

 

SOLUÇO SÍSMICO

 

Farto é o fogo
dos vulcões
julgados extintos

soluço sísmico
na contração do parto

pende um quadro
trêmulo
na parede do útero

Sem a distorção
da moldura
arde uma tela
de Cícero Matos:

deserto
a ser florido
rio morto
a ser aguado

Jacobina
não é apenas um retrato
na parede

um berço
a ser embalado

 

 

***

 

 

A TIBIEZ DA PAISAGEM

 

Eles estiveram aqui
trouxeram antiga mala
……………em espécie
…….sob auspícios
de Pandora

foram afáveis
com a minha mulher
e acariciaram
a fronte do meu filho

eles estiveram aqui
com uma grande mala
abriram seu coração
com cédulas perfumadas

– fixaram uma etiqueta –

tinham dentes retocáveis
como um sorriso de Hollywood
& tinham olhos comovidos
com a tibiez da paisagem

dóceis
……..porta-vozes
………………….do agouro

um dia estiveram aqui
& diante dos seus olhos
abrimos aquela grande mala

incrédulos: todos os pássaros
foram libertados
como borboletas em chamas

 

 

***

 

 

HARAKIRI

 

todas as manhãs
afia a lâmina
de matar o tédio

tira-a da têmpora

– aonde
..a forja arde –

e divide a tâmara

essa lâmina
……………luminar

eletricidade
…………..e nuvem

não a porta
………mas
a comporta

………. não a porta
………. mas
………. a transporta

na baínha da alma
na cerzida
….bainha da alma

essa lâmina
fotossintática
………tética

para
……enfim
………….guardá-la

entre pétalas
na floração do umbigo

 

 

(Heitor Brasileiro Filho é ensaísta, cronista e poeta. Natural de Jacobina, Bahia, reside em Ilhéus desde 1994. Licenciado em Letras, é pós-graduado em Estudos Comparativos em Literaturas de Língua Portuguesa. Integra os livros “Diálogos: Panorama da Nova Poesia Grapiúna” (Editus – Via Litterarum); “O Triunfo de Sosígenes Costa” (ensaio – Editus UESC-UEFS), e “Bahia de todas as letras” (conto – Editus – Via Litterarum). Acaba de lançar o livro de poemas “O Chão & A Nuvem” (Editora Mondrongo – 2013))

 

 

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra

Vestígios na navalha de aço

Por Márcia Barbieri

 

 

 

 

 

Paisagem com cavalo (Editora 7Letras) é um romance-ensaio, uma metaficção, uma narrativa que brinca e desloca os conceitos literários. Já na página de abertura, deparamo-nos com um narrador nada complacente com o leitor, é um narrador saído das profundezas do subsolo. Embora se trate de um romance de estreia, ouso afirmar que Halley Margon queimou tantos outros antes deste, recuso-me a acreditar que estou lidando com um romancista inaugural.

Halley é o tipo de escritor que não precisa mendigar por leitores, não espera aflito por eles, até suspeito que os renega*. Mas, se por acaso os conquista, não os subestima. O autor em questão não precisa alimentar e nem manter os cães na soleira, quem decide segui-lo terá que acompanhar seus devaneios, embrenhar-se nas suas matas fechadas por conta própria, porque ninguém mais dormirá um sono sem pesadelos, ninguém sairá ileso ao corte de sua narrativa. Como o narrador alerta, a previsibilidade é uma das características mais nobres do aço. Talvez, o autor comungue dessa opinião, pois ele não tem medo de começar o romance contando sobre um suposto assassinato. Tal ousadia é a marca dos grandes, dos destemidos, como Sábato em O túnel. Ele tem essa coragem porque não precisa de leitores, somos nós quem precisamos dele.

Encontramos, nesse romance, todo tipo de linguagem. Em algumas partes, experimentamos uma linguagem mais poética, em outras, mais filosófica, em outras, tão fria e direta que se assemelha a uma literatura médica.

Tanto a arquitetura quanto a linguagem desse romance são impressionantes, ainda mais em uma época como a nossa em que se procriam (como se procriam bactérias e tão nocivas quanto) fórmulas fáceis. Ele não é um autor que acredita na facilidade, no enxugamento das frases, na eliminação da língua, é experimental e sabe que é necessário se submeter aos caprichos da escrita. Sabe que a escrita se esconde nas brechas, nas lacunas, nos devires, no fora de Blanchot. A língua é um fosso e apenas os escritores autênticos têm permissão para escavá-la.

No final do trajeto, percebemos que o verdadeiro drama relatado não é o assassinato, ele é ínfimo comparado ao resto. A verdadeira tragédia é o esquartejamento do homem contemporâneo, é a apresentação de um sistema (político, social, econômico, pessoal) precário, de engrenagens que não funcionam, não acoplam. A tragédia é a exposição de rostos sem face, de rostos suturados, de uma humanidade em estágio avançado de putrefação.

* O ouvinte não tem nenhuma importância. Não é para alguém que você tanto anseia contar. Você apenas conta/relata porque precisa. (p. 19)

(Marcia Barbieri é paulista. Possui textos publicados nas Revistas Literárias Coyote, Cronópios, Germina, Escritoras Suicidas e Meio Tom. Tem três livros publicados: dois de contos e um romance. É colunista da Revista Literária O BULE)

 

 

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

Qual sopro contínuo e que move a vida, abrimos a janela das publicações para um novo ano. Diante disso, expectativas de outros tantos encontros se fazem reais. Flertar com o vindouro não é negligenciar o presente, mas sim buscar a extensão dos dias para que tudo possa confluir num projeto cada vez mais sólido e maduro. São 75 edições levadas pelo aprendizado e pela evolução, quesitos que nos fazem refletir o quanto trilhamos de efetivo em todo o tempo de existência da revista. De toda a bagagem incorporada até aqui, a mais importante decorre dos laços humanos que foram estabelecidos. Sem sombra de dúvida, estar aqui hoje é resultado direto de trocas, diálogos e interações firmadas por todas as frentes possíveis de um mundo que se desenha multiforme. E como é recompensador depararmo-nos, inclusive, com o diferente e o inusitado, lugares que muitas vezes removem a tão acostumada zona de conforto. A partir de perspectivas como esta, vamos revendo algumas práticas, consolidando outras, tudo para tentar alavancar e manter um modelo de qualidade que represente algo atraente aos leitores e visitantes. Tais perspectivas implicam em considerar que os caminhos estão abertos, pois seguir adiante se faz imperativo. Sendo assim, nada melhor do que abraçarmos novas e coerentes descobertas, como é o caso dos poetas Jorge Vicente, Daniela Delias, Gil T. Sousa, Alexandra Vieira de Almeida, Alvaro Posselt e Lílian Maial. Exalando seu modo poético de conceber mundos no mundo, Luiza Maciel Nogueira partilha conosco os signos de seus desenhos em meio à profusão de palavras presentes nesta recente Leva. Múltiplas visões da existência atravessam os contos de Natércia Pontes, Eleonora Marino Duarte e Bruna Mitrano. Há também o valioso diálogo com a fotógrafa Mercedes Lorenzo, entrevista que pontuou aspectos ligados à concepção da imagem, bem como reflexões sobre a arte em nosso tempo. Bolívar Landi ousou percorrer as rotas de Django Livre, novo e polêmico projeto do intrépido cineasta Quentin Tarantino. No gramofone, Larissa Mendes deixa girar as canções presentes no mais novo álbum da Orquestra Imperial. O mais recente livro de contos do escritor Rodrigo Novaes de Almeida é destaque do Aperitivo da Palavra. Esta, caros leitores, é apenas uma pequena demonstração de que palavras e imagens continuarão fazendo par constante por aqui. Que 2013 seja motivo frequente de saberes e sabores em torno da arte. Boas incursões a todos!

 

Os Leveiros

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Jorge Vicente

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

sei que as mãos se mantêm
no mesmo lugar subliminar,
adiante das palavras e mais perto
do poema que gira

sei que há uma árvore
e que existem troncos que dizem da
árvore [dizer é caminhar incólume
entre os versos]

sei que há palavras,
mas não digo delas
senão para decifrar
que tudo o que escreve morre cedo.

 

 

***

 

 

a língua lembra e purifica. mas não diz dos orgasmos, da pequena sombra plantada junto à árvore branca. não diz do corpo quando se toma de decadência e horror ao esplendor. não diz dos silêncios que não são silêncios. [debaixo da raíz, apenas fico eu e um enorme deserto vermelho]. a língua não diz da semente e da grande voz que alcança. do inverno, da ânsia das flores, do pecado que aberto é à vida e ao desarranjo dos olhos. a língua não pode suportar pernas, braços, sexo, liberdade de sentir e entregar-se ao chão. a língua abre-se e encolhe, escolhe as vontades, escolhe as sílabas certas, o modo único de dizer o nomeado.

o inominado tem um pecado único: não suporta a fala e diz que o poema é uma cobra gigante, plantada na base do sexo. o resto são as pernas e o que fica entregue no acto da raíz.

 

 

***

 

 

poderás ter a experiência da carne,
mas apenas tens o chamamento da
palavra viva,

aquela que, de artéria em artéria,
vai construíndo o ramal das sílabas:
ordem geométrica do sangue.

a experiência chama
e o oceano transforma,
trazendo o poema de volta
à sua raiz de árvores:

ao cimo do vento
e abaixo da copa dos dedos.

 

 

***

 

 

destrói o poema
aniquila toda e qualquer possibilidade
do livro transpirar palavras

o poema não foi feito
para a estante desarrumada,
para os limites que as páginas impõem
à memória

constrói uma nova realidade,
em que as coisas sejam apenas coisas,
em que as palavras não representem,
nem tenham significados nem conceitos

explora do corpo o seu devir
explora da vivência a tua memória
e do saber oceânico da pele

o teu antro de sílabas.

 

 

(Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Mestrando em Ciências Documentais e em processo de formação na Escola de Biodanza de Portugal, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas. Participa activamente nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. O seu primeiro livro de poesia, Ascensão do Fogo, foi publicado em 2008, sendo seguido por Hierofania dos Dedos, editado sob a chancela da Temas Originais, em 2009)

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi

 

Django Livre (Django Unchained). EUA. 2013.

 

 

Django Livre (Django Unchained), a mais nova incursão cinematográfica do diretor Quentin Tarantino faz uma homenagem ao filmes Western spaghetti italianos, muito famosos nas décadas de 60 e 70. Além do nome do personagem principal e da música tema, contudo, a obra não apresenta muito em comum com o filme homônimo dirigido em 1966 por Sergio Corbucci e estrelado por Franco Nero (que faz uma participação especial na trama). O Django original passa todo o filme arrastando um misterioso caixão movido pela necessidade de vingar o assassinato de sua mulher. Em sua versão, Tarantino recria toda a história, mas preserva o instinto de vingança do protagonista, aliás tema recorrente em sua obra.

A película é ambientada no sul dos Estados Unidos, dois anos antes da Guerra Civil americana. A mácula da escravidão serve como pano de fundo ideal para a violência apresentada no filme, que, por mais extremada que possa nos parecer, será ainda menos cruel que a que realmente ocorreu. Jamie Foxx, vencedor do Oscar de melhor ator por “Ray”, personifica Django, um escravo liberto pelo arguto Dr. King Schultz, um caçador de recompensas, brilhantemente interpretado por Christoph Waltz, austríaco vencedor do prêmio de melhor ator em Cannes ao dar vida ao nazista Hans Landa de Bastardos Inglórios. Os dois irão formar uma dupla imbatível e partirão em um segundo momento da história em uma longa jornada para procura e resgate da esposa do herói. O filme conta ainda com nomes de peso no elenco, como Leonardo DiCaprio, no papel de um latifundiário escravagista, e de Samuel Lee Jackson, quase irreconhecível, encarnando extraordinariamente o velho lacaio negro de DiCaprio, racista e totalmente insensível às agruras sofridas por sua etnia.

Christoph Waltz e Jamie Foxx na pele dos protagonistas / Foto: divulgação

Esta versão Livre de Django traz todas as qualidades que consagraram o diretor e lhe conferem um estilo inconfundível, imitado por muitos seguidores. Uma direção ágil, movimentos de câmera não usuais e precisos, um texto afiado e irônico, a história que foge da linearidade comum e, óbvio,  sangue, muito sangue… Pulp Fiction – Tempos de Violência (1994), seu segundo longa, por exemplo, se tornou um marco para a sétima arte, introduzindo novos parâmetros que influenciam até hoje a linguagem do cinema.

Assim como em outras obras, Tarantino assina em Django Livre o roteiro original, extremamente inspirado e agraciado este ano com o Globo de Ouro. A trilha sonora, escolhida a dedo pelo próprio diretor, “para variar”, é uma preciosidade à parte e cai como uma luva ao filme. Temos a impressão que as cenas são construídas para se moldar a ela, tão grande é a sintonia. Há músicas clássicas do Western, além de algumas liberdades como James Brown, 2Pac, John Legend e o rapper Rick Ross. A obra concorre ao Oscar 2013 em 5 categorias: ator coadjuvante (Christoph Waltz), roteiro original, fotografia (deslumbrante), edição de som e melhor filme.

O filme foi alvo de inúmeras controvérsias. O diretor Spike Lee (ícone do cinema afro-americano) chegou a declarar que não assistiria ao filme por considerá-lo desrespeitoso à memória de seus ancestrais, outros o acusam de ser racista pelos termos depreciativos com que trata os negros. Polêmicas à parte, o Django de Tarantino se posiciona Livre, acima de qualquer convenção e purismo. Em muitas cenas, chega a ser mais eloquente contra os horrores da escravidão e da discriminação racial que muitos militantes extremistas que sobem ao púlpito para proferir discursos vazios.

Quentin Tarantino brinda mais uma vez seus admiradores com uma obra instigante, cheia de reviravoltas e diálogos sedutores que encantam e prendem o espectador em suas quase 3 horas de exibição. Confesso que fiquei meio com pena de Spike Lee por perder este grande filme.

 

 

(Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana)

 

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Alexandra Vieira de Almeida

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

O pescador e o mar

 

Os murmúrios das ondas martelam
molhando os lençóis amarelados
de areias mescladas em branco e preto

Vaga a grande asa do barco no ar
e o céu escurece as ondas do mar
indo o rastro do mastro diluir-se

Moroso o pescador move o leme
sem medo do vento ventando alto
busca o consolo do leito límpido

E ruidosas as águas o bebem
sorvendo o seu sossego no mar.

 

 

***

 

 

Deserto

 

Canibalismo no deserto, aridez dos astros. Não há mágoa numa névoa. Somente a faca é minha carne. O desejo se escondeu num olhar amargurado. Facas e garfos não são sensações. O astro cresce à minha volta. Não é possível contornar a outra margem, o deserto é meu silêncio. A névoa cai nos meus braços, sustento-a até a capacidade do meu olhar. Olhar de deserto, não espero estações. Na virada das poeiras que oscilam ao vento quente do deserto, pássaros se comem antropofagicamente. Formigas, maçãs, garfos, facas na sua ordenação neblinam minha face. Face neutra na passagem da névoa. Névoa paira, cai, se esbarra nos ventos da minha passagem pelo deserto, anímico, auditivo, mais do que a minha vida.

 

 

***

 

 

Confusão

 

Deus habita o castelo de meu devaneio noturno
Abnego a abulia de um ser inconsequente
A alavanca contorce pêssegos na estrada da razão
Não sonhe com anjos e demônios em contenda
O camundongo toca a campainha da loucura
Casta, a moça fia a rede de uma agonia
Angústia de uma cômoda sobre o solo vazio
Concerto de uma concha no ouvido de um menino
Eclode a doçura de uma vértebra quebrada
Não há paixão numa corda esticada por Deus
Infecta, a pele queima ilusões de monstros
Madrigal eterno ecoa no cérebro de um vegetal
Opulenta manobra de um orangotango no escuro
A poeira sacode as núpcias de um casal
Preta é a cor de sua urina, carvão soturno
Uma prisão de um feto na coxa de um deus pagão
Ferramenta de um escriba é um feixe de seu cabelo
Não deixe a memória esvaziar a sua solidão
Devoto, um peixe apanha sua isca
Retrato de uma cova na abertura de seu crânio
O coveiro joga a pá num mar de serpentes
Cisne deixa o castigo inverter sua cicatrização
Cego, o homem censura a postura de sua demência
Doure um pedaço de carne podre com o sol de seu saber
Confusa, a mente não escolhe a esfera de um poder.

 

 

(Alexandra Vieira de Almeida nasceu no Rio de Janeiro. É agente de leitura, tutora de ensino superior, poeta, contista, cronista, ensaísta. Publicou o livro de crítica literária Literatura, mito e identidade nacional, pela Ômega Editora, em 2008. Tem vários ensaios literários publicados em revistas acadêmicas e livros. Participou da Antologia Scortecci de Poesias, Contos e Crônicas, em 2011. Tem dois livros de poesia publicados pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel” (2011))


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75ª Leva - 01/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Eleonora Marino Duarte

 

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

O Guardião

 

Habitava um ódio sem limites e um rancor de dar veneno ao ar, não havia quem lhe sensibilizasse além do desprezo, era de fel a saliva que expelia para manchar a calçada, na desova diária de seu cuspe. Aliás, tinha um prazer enorme ao imaginar alguma mulher, das que nunca lhe olharia a cara, pisar seu cuspe e levar a sentença de sua escarrada para a casa.

Trabalhava bem em frente a um irritante chafariz, uma grande farmácia e um lugar de servir café. Não gostava de lugar nenhum, gostava mesmo era do ponto de bicho, no beco, onde apostava na sorte de ter alguma sorte para poder se livrar de viver junto aos miseráveis.

Conhecia o ser humano de dentro para fora, de trás para frente, acreditava e assim gostava de dizer quando lhe censuravam os mais chocados pelos seus comentários. Não tinha nada que lhe convencesse da possibilidade de existir gente que prestasse. Chegava mais cedo ao trabalho só para poder ver o movimento de pedestres apressados e ir fazendo as histórias daquelas vidas sujas em sua cabeça. Os que passavam todos os dias eram vítimas de crueldades no julgamento, sem nenhum pudor ou trégua, fosse adulto ou uma simples criança choramingando. Todos eram, no fundo, no fundo, gentinha.

Em um dia inesperado, depois de já haver visto todo o tipo de gente ruim, apareceu o pior ser humano de que ele já teve notícias: Francisca Martins! Dona de um andar glorioso em sensualidade inocente, deixava claro o grande desprezo que ela tinha pelos outros, ao levar os quadris de uma lado a outro, como um pêndulo que faz hipnotizar quem para ele olhou por mais de uns segundos… Vestia-se de roupas humildes para disfarçar alguma coisa, com toda a certeza! Dizem que era solteira e que jamais fora envolvida em nenhum tipo de escândalo ou comportamento mais ousado, quando trabalhou no bairro vizinho. Mas ele, com sua habilidade incomparável para detectar porcaria, percebeu na primeira hora que se tratava de uma farsa! Decidiu que iria dedicar algumas de suas análises mais profundas a ela, a tal Chiquinha…

Ia juntando os fatos à medida que convivia na mesma atmosfera que a moça. Os porteiros dos outros prédios diziam que se tratava de uma moça bonita vinda do Norte e chegaram a demonstrar certa queda pelo sorriso brejeiro na fala arrastada da mulherzinha. Ele não! Manteve-se digno de seus princípios e castigava-a com a língua, sempre que havia oportunidade.

Trabalhava há 25 anos no mesmo edifício e jamais havia sido atingido por uma energia tão maléfica quanto a da moça. Propositalmente, ela adquirira o hábito de ser gentil com toda a população do quarteirão, as velhas beatas achavam que ela era abençoada, os homens a queriam proteger, as crianças sorriam frouxo ao seu toque. Se continuasse assim, em breve ela acabaria levando para a lama a rua inteira… Pensava ele.

Desde cedo ele decidira não se casar, era uma grande bobagem o casamento, jamais dormiria tranquilo ao lado de alguém que poderia queimar-lhe com água fervente ou cortar-lhe o sexo com uma tesoura. Ele sabia do que as mulheres eram capazes, ouvia com atenção a conversa das empregadinhas, sabia das mandingas e pragas que elas distribuíam quando contrariadas. Entretanto, inexplicavelmente, a cobra maldita, Francisca Martins, lhe perturbava o sono com aquele encantamento do maligno, aquele véu de bondade, aquela promessa de prazer, aquilo tudo que faz parte da caixa de truques do maldito, o sibilar da serpente com o qual devemos sempre nos preocupar quando lutamos contra as forças do mal.

Foi em um dia de feriado que ele resolveu dar cabo ao tormento. Acordou um pouco antes do relógio, mas esperou pelo despertador. Detestava quebrar rotina. Barbeou-se e reparou novas marcas pelo rosto. Gostava das rugas. Combinara com um amigo que, se alguém perguntasse, para todos os efeitos, estaria com ele durante aquela manhã.

Morava Francisca em uma espécie de pensão para moças, assim como fazem as prostitutas, obviamente. Não era muito difícil conseguir entrar pela porta da frente, principalmente para alguém com as habilidades de porteiro. Subiu as escadas estreitas e fedorentas do cortiço, deparou-se com uma senhora sem importância. Não tardou a achar a porta da devassa, havia nela uma foto de padre Cícero, uma clara afronta ao padroeiro. Bateu devagar e a moça abriu. Nos olhos de Francisca um evidente espanto por ver aquele homem ali, parado. Para ele, uma inexplicável inércia diante dos olhos da moça. De repente ela sorriu e foi como se o diabo cavasse um abismo em seu peito. A comoção que o gesto lhe causou transformou o dia em noite, a vida em morte, o sangue em gelo. Saiu correndo imensidão afora.

Não tornou a ser visto no trabalho, nem em casa, nem no beco do bicho. Dizem que virou uma espécie de profeta mendigo no centro da cidade, que canta salmos em uma língua estranha e alerta as pessoas sobre a doçura do demônio.

(Eleonora Marino Duarte mora no arquipélago dos Açores, em Portugal. Nasceu na cidade Serrana de Petrópolis, Estado do Rio de Janeiro. Aos 12 anos, mudou-se para a Ilha do Governador e no mesmo ano ingressou como atriz no mais antigo grupo de teatro em atividade da cidade do Rio de Janeiro, o G.A.T.I.G., fazendo parte da companhia por vinte anos. Formou-se em Alta Gastronomia pela UNIRIO. Em 2005, criou o pseudónimo Betina Moraes. Publica seu trabalho como escritora na Internet mantendo o Blog Versos & Ideias e mais outros sete de sua autoria. Participa do Blog coletivo Falsidade Ideológica)