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73ª Leva - 11/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha. Brasil. 2010.


 

“(…) Mas só viveu de fato quem conheceu luz e sombras”.

É inquestionável que O Bandido da Luz Vermelha (1968), primeiro longa-metragem de Rogério Sganzerla, então um jovem crítico de cinema de 22 anos, tornou-se um manifesto do denominado cinema marginal. O filme – baseado na história de João Acácio Pereira da Costa, lendário assaltante de mansões paulistanas que usava um lenço para cobrir o rosto e uma lanterna de bocal vermelho – revela todo o experimentalismo, estrutura díssona e estética radical que romperam o tradicionalismo narrativo da época, ignorando censura e mercado e conquistando público e crítica. Endossado por nomes como Ozualdo Candeias, Andréa Tonacci, Júlio Bressane e João Silvério Trevisan, os marginais foram grandes entusiastas da ironia e da subversão da linguagem cinematográfica brasileira. Pressionado pela ditadura militar, o movimento teve seu fim em meados da década de 70, com vários cineastas exilados na Europa. Sganzerla faleceu em 2004, vítima de um tumor cerebral, mas deixou como legado o que seria o roteiro original de uma continuação deste clássico: Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, adaptado anos depois pela atriz Helena Ignez (viúva do cineasta e sua eterna musa) e transformado quase em projeto familiar, produzido e protagonizado pelas filhas do casal.

Jorge Prado – uma das identidades do Bandido da Luz Vermelha – ou simplesmente Luz (Ney Matogrosso) é um prisioneiro de si mesmo. Condenado a 300 anos de cadeia e recluso há 30, o “malandro forçado pelas circunstâncias” viu sua pena gradativamente reduzida (e suas regalias atendidas) de acordo com os crimes não-resolvidos que assumia ser autor. Os mais atentos logo questionarão: como pode Luz estar preso se ele morre eletrocutado no filme de 68? Ao que o próprio detento protesta enquanto assiste a cena: “– Não foi assim que eu ensaiei pra morrer!”. Jorge Bronze (André Guerreiro Lopes), codinome Tudo-ou-Nada, é filho de Luz, fruto de seu relacionamento com Olga (Sandra Corveloni), uma das muitas mulheres que realizam suas fantasias sexuais em visitas íntimas na prisão. Tudo-ou-Nada ingressou na marginalidade ainda moleque, cometendo pequenos furtos antes mesmo de saber sua filiação famosa. Após a revelação da mãe, torna-se uma espécie de sucessor de Luz Vermelha (ou de Michel Poiccard, em referência ao personagem de Acossado, de Goddard), tanto na indumentária criminal quanto ideológica, cujo lema é “ouro ou euro”.

Ney Matogrosso na pele do Luz Vermelha

Vale salientar que em nenhum momento Ney Matogrosso fica intimidado pela sombra de Paulo Vilaça (o bandido original): o cantor está magnífico e totalmente entregue no papel de um Luz Vermelha enjaulado e amargo, que se exercita com aparelhos improvisados, lê Além do Bem e do Mal, de Nietzsche, recita Kant em espanhol, declama com veemência profundas reflexões sobre a prisão e a vida, e faz uma performance de seu próprio Sangue Latino. O longa (que à primeira vista pode ser confundido com título de terror) conta ainda com rápidas participações de Bruna Lombardi, Maria Luísa Mendonça, Simone Spoladore, Paulo Goulart, Sérgio Mamberti, Arrigo Barnabé, José Mojica Marins, Thunderbird e Criolo. A própria Helena Ignez está no elenco como Madame Zero, uma antiga confidente de Luz, assim como sua filha Djin Sganzerla, que interpreta Jane, personagem homônima e semelhante (inclusive fisicamente) ao de Helena no primeiro filme. As “Janes” são namoradas, respectivamente, de bandido-pai e bandido-filho e protagonizam a mesma cena a bordo de um Galaxie conversível em direção à praia.

Menos que uma sequência e mais que um remake (além da inserção de cenas do original, estrutura, planos e mesmo determinados diálogos se mantêm idênticos), Luz nas Trevas é um tributo a criador e criatura. Montado em 2010, o filme participou de alguns festivais e sofreu vários cortes até chegar a sua versão definitiva, lançada oficialmente sem muito alarde somente este ano. Dirigido por Helena Ignez em parceria com Ícaro C. Martins, a película revisita e reverencia um artista e sua principal obra que – mais de 40 anos depois – continua moderna e transgressora. Mantendo o discurso político do filme referencial, através de locuções radiofônicas sensacionalistas (com narrações também de Helena, Ney Latorraca e Gilcivan Carvalho) e de uma coletânea de frases de efeito (várias delas em letreiros luminosos), Luz nas Trevas permanece criticando a mídia e a polícia, o sistema carcerário (“numa penitenciária ninguém se penitencia de nada”) e a justiça brasileira (“os grandes espertalhões do Brasil não vão pra cadeia”). Definitivamente o cinema-herança do catarinense Sganzerla segue vivo, contestador e atemporal. Se há luz nas trevas [da prisão], por que não haveria originalidade na aparente mesmice?

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

DELIA FISCHER – PRESENTE

 

 

Quando nos deparamos com a descoberta de um disco, muitas podem ser as direções para as quais nossos sentidos apontam. Se arranjos, vocais e toda a ambientação instrumental já são, por si sós, componentes indispensáveis de um adequado conjunto sonoro, imagine os efeitos quando uma determinada obra transcende a materialidade e nos desloca para um cenário onde habita o intangível.  É o que a cantora e compositora Delia Fischer nos proporciona em seu Presente, álbum que nos conduz por uma atmosfera de sensações etéreas.

Desde seus primeiros caminhos, Presente se revela um trabalho que prima pela densidade. Tudo ali é dotado de uma força delicada e de uma maneira sublime de se sentir e perceber a vida. É como se cada canção fosse revestida de uma aura carregada de contemplação e êxtase. E não é prematuro arrematar que o fio condutor do álbum é uma vigorosa celebração da existência. Quiçá um caminho de escutas espirituais.

De imediato, duas virtudes são caras ao belo resultado do disco: a interpretação e o piano da artista. Nenhuma música passa despercebida por seu canto suave e cativo. E as composições, quase que inteiramente arquitetadas por ela, pedem uma entrega à qual Delia não se furta. Sentir faixas como Vozes no Mato, Das Plantas (com uma participação bastante especial de Hermeto Pascoal), Aluvião, Nascimento da Vênus e Sozinhesa é constatar que Presente é um disco feito de profundidades. Avançando nas escutas, não tem como deixar passar impune a força de canções como Das Águas, Mercado e Minha Avó, todas elas a construir um painel feito de memórias e apelos sinestésicos.

Sem dúvida alguma, um aspecto marcante no disco é a influência de Egberto Gismonti que, além de ser parte fundamental da formação musical de Delia, assina juntamente com ela a canção que dá título ao álbum. Outros nomes são também importantes na construção de Presente, tais como o de Pedro Mibielli (violino), Luciano Correa (cello), Pedro Guedes (violão, programação e arranjo) e Marcio Bahia (bateria e percussão).

Misturando evocações à natureza com percursos pelos recônditos humanos, Delia Fischer consolida um trabalho marcado pela singularidade. Há um caminho pelo qual um olhar sereno e poético confere amplitude ao fato de se estar no mundo. As imagens que povoam o álbum revelam que, por mais delicada que seja a vida, urge-nos atravessá-la com toda a sorte de coragem e entrega. O resto da travessia é feito de luz e mistério.

 

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Cícero Galeno Lopes

Arte: Fao Carreira

 

 

As rosas, Dafne

 

As rosas são belas, Dafne, e como,
A quem por deleite só as cultive,
………Por prazer apenas!
A quem as cultive, que delas viva,
Não serão tão belas: quanto esforço
………Por menores penas!

Sol mesmo ou água de um regato
Não se dão igual a folha e raiz:
………Estão; não estão!
Mata uma por falta, outro por demasia;
O tempo se esvai no só cultivar,
………E a rosa é pão!

De onde tempo, Dafne, quando o tempo
Para admirá-las brotar, colorir,
………Se é mister fazê-las!
O homem, pois, que tem na rosa ofício,
Rosas não vê, senão o que delas tem:
………Regá-las n’é tê-las!

 

 

***

 

 

Apesar de tudo… aqui venho e virei

 

Aqui venho e virei, pobre querida.
Machado de Assis

 

Apesar de tudo ao meu amor levarei flores.
Escondidas entre espinhos levarei as pétalas.
Contra a morte das flores na mágoa do amor,
investirei com a força da esperança crédula.

Aqui venho e virei entristecido e grato,
procurando as vozes que se ouviam ontem.
Aqui voltarei envelhecido e consternado,
acrescentando dias, descontando noites.

De que oco do mundo a vida tira a morte?
De que surpresa a paixão arranca a dor?
Como em tantas dificuldades fomos fortes?

Desmaiam as luzes, mas, pontilhando as cores,
teu olhar renasce e brilha – esperança e sorte –
e ilumina a estrada por onde fores.

 

 

(Cícero Galeno Lopes é natural de Uruguaiana, RS. Vive em Porto Alegre. Tem doutorado em Letras pela UFRGS. É ficcionista, poeta e ensaísta, com livros próprios e coletivos editados nessas áreas. Participou de dicionários temáticos no Brasil, Portugal e Espanha. É autor do conceito de literatura de dissidência. Tem suas atividades registradas na Plataforma Lattes do CNPq)

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

OS OUTROS

Nilto Maciel

 

Arte: Fao Carreira

Quando Severino me apareceu pela primeira vez, nem me assustei, porque o vi de relance e queria voltar logo à sala, cioso de rever a chegada do primeiro homem à Lua. Há tempos me imagino astronauta, a saltitar no solo seco do satélite. Chovia muito, a luz dos postes bruxuleava na rua, os pneus dos carros jogavam água nas calçadas. Fui ao banheiro correndo, apenas para cuspir na pia e bochechar. Assim, nem acendi a luz. Além disso, a claridade da sala me permitia ver bem a pia e o espelho. Enquanto esfregava as mãos e cuspia, olhei para o retângulo de vidro e vi o bigode em branco e preto, leve traço de preocupação ao redor da boca e nos olhos. Muito parecido comigo, é verdade. Porém, apresentava uns traços de outro. Voltei à sala e não mais pensei nele, pelo menos durante uma hora.

Naquela noite e nos dias seguintes não falei nada disso a ninguém, muito menos a Sibila. O nome do desconhecido surgiu por acaso. Precisava de um nome. Qualquer um. E o primeiro (ou talvez o mais apropriado àquele rosto) a ancorar em meu porto – como barco perdido – se anunciou com letras redondas: Severino.

Para evitar discussões domésticas, passei a trancar a porta do banheiro, quando ia me ver. Sibila me vigiava e fazia perguntas: Por que tanto você se olha, Rafael? Está ficando vaidoso, depois de velho? Com a porta fechada, poderia passar alguns minutos a observar Severino, analisá-lo e até conversar, sem ser interrompido por Sibila. Mas não adiantou nada a minha precaução: ela continuou a me importunar. Está virando Narciso?

O segundo a aparecer se chama Mariano. Também usa bigode, como eu, mas em seu olhar há uma profundidade abissal. Não podia mais esconder de Sibila a novidade. Ela me chamou de doido. Parasse de beber. Aquilo era alucinação. Arrependi-me de lhe ter contado tudo. Ela não acreditou em mim.

Severino se mostrou mais algumas vezes, mesmo depois de Mariano e outros. Depois sumiu para sempre, ou até agora. Da segunda vez, também na moldura do espelho do banheiro, demonstrou vontade de me revelar um segredo. Não posso assegurar ter ouvido sua voz. Seria mentira. O bigode parecia mais branco do que preto, porém as rugas mais se acentuavam. Figurou-se um homem sofrido, desiludido. Falei-lhe (juro ter falado, e isso mais irritou Sibila, que riu, gargalhou e prometeu me levar à força a um hospital para doentes mentais) de meus problemas pessoais, domésticos e de relacionamento com Sibila.

Bernardo surgiu numa noite de muito calor. Passei alguns minutos a conversar com ele. Ainda não realizara a maioria dos sonhos, porém não desistia deles. Pensava em viajar à Europa, passar uns tempos longe daqui. Plano para um futuro próximo, coisa de um a dois anos. Precisava juntar mais dinheiro, parar de gastar com futilidades.

Muito me estranha em tudo isso é as pessoas só me aparecerem no espelho do banheiro. No do quarto não se apresentou ninguém. Para tirar dúvidas, comprei um espelhinho de bolso. Talvez eles quisessem se expor a qualquer momento, em qualquer lugar. Vez por outra, eu metia a mão no bolso, procurava saber se não estavam a me espionar os curiosos, fazia careta, mostrava os dentes, a querer enganá-los. Como se estivesse preocupado com limpeza. Certa feita, uma colega de trabalho cochichava aos ouvidos de outra. Riam. Tive ímpetos de lançar sobre elas o espelho ou o grampeador.

Nos últimos tempos, minha vida tem sido um martírio. Os antigos amigos se afastaram. As mulheres se aproximam, vão ao meu apartamento, dormem comigo (Sibila desistiu de mim), mas logo se afastam, ao me virem diante do espelho do banheiro, em conversas prolongadas comigo mesmo.

Ontem tudo piorou de vez: antes de me deitar, quebrei o espelho, espatifei-o todo. Fui dormir. Os cacos ainda estão no chão. Só assim poderei me livrar desses desconhecidos que me atormentam dia e noite. Mas uma força estranha me puxa para o chão, me força a juntar os fragmentos do espelho. Eles, Severino, Mariano, Bernardo e outros, parecem pedir socorro, como se quisessem voltar à vida, ao convívio comigo. Porém, não tenho força para remover do piso do banheiro os restos deles. Talvez me falte vontade.

(Nilto Maciel: Venho da serra, do verde do Ceará, mas meus pais e avós vieram do sertão seco. Do tempo do trabuco, da injustiça, da perseguição, de Antonio Conselheiro (Antonio Vicente Mendes Maciel), aquele de Canudos, que as tropas militares massacraram. Não esqueci isso. Li a História desses povos, dessas gentes. Mas li também Camões, a Bíblia, Alencar, Machado, cordel, Moreira Campos. E me pus a escrever também. Mais para relembrar aquele povo e seus descendentes. Para recriá-los. Ou mesmo criá-los, porque talvez nada exista. O que existe é a obra de arte, que é ficção. Nada é real. Quanto mais antigo mais irreal. Ninguém me conhece, ninguém me lê. Sou marginal da literatura. Há muito deixei de sonhar com glórias e famas. Tudo isso é passageiro. O que é bom fica, permanece. Sem precisar de muletas, fanfarras, galardões, medalhas. Sou apenas um escritor de poemas, contos e romances)

 

 

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Olhares

Olhares

AS CARTAS AO MUNDO DE FAO CARREIRA

Por Fabrício Brandão

 

 

Arte: Fao Carreira

 

 

Pensar a expressão artística de Fao Carreira é trilhar uma via onde as representações da existência estão marcadas, acima de tudo, pela poesia.  De posse de tal condição, o artista inscreve na pele dos dias os laços que o atraem para o jogo das veleidades humanas, da presença sorrateira daquilo que nos seduz e, ao mesmo tempo, nos escapa volátil entre as mãos.

 

 

Arte: Fao Carreira

Indagar o que povoa a infância da criação, se a palavra ou a imagem, não nos parece relevante no caso desse paulista de Botucatu. Em Fao, as feições de desenhista, pintor e poeta harmonizam-se de modo a conferir à sua obra um caráter de unidade. Essa “contaminação” de uma arte pela outra opera a comunhão de linguagens distintas, cujo resultado possui um decidido teor filosófico. Nessa perspectiva, o porquê de se estar num mundo no qual os excessos nos saltam aos olhos parece instigante questão de ordem.

Cada desenho ou tela produzido por Fao Carreira é verdadeiro exercício de correspondência com o que explode lá fora. Seja em traçados, rostos ou profusão de cores, o artista remete ao mundo seus anseios e inquietações. A despeito disso, não é em vão o nome de batismo de seu blog. Suas missivas são direcionadas a todos nós como o registro mais puro do espanto que é estar vivo.

 

 

 

Arte: Fao Carreira

Da sua paixão pela literatura, Fao consolida um diálogo especial e denso com quem se debruça na contemplação de sua arte. Isolada ou conjuntamente, seus versos e imagens ousam sondar a fina camada que envolve o tecido das horas. Na passagem dos instantes, lacunas ganham corpo e nos relembram que o ato contínuo de respirar é pedra fundamental da criação. Por isso, um artista a relatar marcas do tempo. Por isso, somos cativos leitores do mistério que povoa suas cartas.

 

Arte: Fao Carreira

 

 

* As imagens de Fao Carreira são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 73ª Leva.

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A perspectiva de vislumbrar o mundo suplantando quaisquer questões que reflitam distinções de gênero é um caminho válido para pensar uma obra literária. Mesmo se o tom das premissas apontar para uma escrita que pulsa de uma específica condição do ser, há, sim, significativo espaço para que a voz criativa pautada num determinado ponto de vista faça operar a convergência de sentimentos e outras tantas aferições da existência. Quando nos debruçamos sobre as escrituras de criadores como Marilia Arnaud, logo nos vem à mente a desnecessidade de levantarmos bandeiras de gênero. Muito pelo contrário, o olhar densamente feminino da autora desloca-se para uma noção de harmonização de percepções, tornando leitores cúmplices e atores de suas narrativas como se todos partilhassem o mesmo solo das esperas.

Com uma trajetória marcada pela verve contista, algo que inclui obras como A menina de Cipango (Prêmio José Vieira de Melo – Estado da Paraíba – 1994), Os campos noturnos do coração (Prêmio Novos Autores Paraibanos – 1996) e O livro dos afetos (7Letras), Marilia acaba de edificar seu primeiro romance, Suíte de Silêncios (Editora Rocco), livro que demarca de modo bastante especial um percurso por paisagens intimistas embebidas em lembranças, projeções e mistérios. A narrativa, levada a cabo pela personagem Duína, revela-se arrebatadora e singular porque sabe atravessar com pungência alguns desertos que devassam a alma humana. Dentro da camada sensível da ótica feminina, pulsa intenso o jogo das ausências e hesitações, reforçando a ideia de que existir é saber-se fugidio e finito. No breve diálogo que agora segue, Marilia Arnaud fala desse momento especial em torno do seu primeiro romance, do olhar feminino na literatura e de outras questões integrantes de sua vivência no intricado universo das palavras.

 

Marilia Arnaud por Roberto Athayde

 

DA – “Suíte de Silêncios” é uma verdadeira transversal de tempos, fazendo convergir presente e passado numa narrativa marcantemente intimista. Ali, a alma humana é devastada pela personificação tida em Duína, menina-mulher que suscita esperas e ausências. Na escolha desse caminho repleto do algo intangível instaura-se a via crucis de um criador?

MARILIA ARNAUD – Sem dúvida, a criação é um processo doloroso, na medida em que demanda a total entrega do artista. Sempre me pergunto por que escolhi essa paixão, o que busco nas palavras, na invenção, quando poderia simplesmente viver. Ao mesmo tempo, acho que não escolhi nada, que simplesmente fui tomada pela literatura, assim como fui arrebatada por Duína, por sua história de perdas e desamparo. Escrever é um processo, de certa forma, obsessivo, porque o autor acaba tão impregnado pelo personagem, por sua voz, que tem dificuldades com a realidade.

DA – No livro, chama atenção a densidade que povoa o olhar feminino sobre as coisas e sentimentos. De que forma tal condição se consolidou como uma escolha narrativa?

MARILIA ARNAUD – A literatura, assim como toda criação artística, é o espaço do imprevisível e da imprecisão. É preciso acreditar na voz narrativa e manter-se fiel a ela para trazer à tona o personagem (homem ou mulher) em sua inteireza. Somente uma narrativa densa e coesa, capaz de impactar o leitor, de fazê-lo refletir sobre as coisas do mundo, sobre a condição humana, pode assegurar que um romance não seja lido impunemente. Trabalhei mais de dois anos para isso, para trazer ao mundo a voz de uma mulher marcada por uma infância traumática, para revelar a inadequação e o sentimento de insuficiência de uma irrevelável Duína. Não sei se consegui (os leitores que o digam).

DA – Guardadas as devidas diferenças contextuais, Duína aproxima-se da Macabéa de Clarice Lispector quando a perspectiva é olhar o mundo sob o manto da delicadeza. Ambas têm uma expressão que suplanta qualquer conclusão apressada de ingenuidade. Como é que você percebe tal associação?

MARILIA ARNAUD – Duína e Macabéa são personagens talhadas por faltas. Na infância, faltaram-lhes os pais. Na idade adulta, afetos, alegrias, talentos. O isolamento, a culpa, a saudade, a aparente passividade e o sentimento de fracasso também as aproximam. Em ambas, a vida dói com força, no corpo (Macabéa sofre de tuberculose e de um dente cariado – a dor da polpa exposta é uma das piores – Duína, de um câncer que lhe rói as entranhas) e na alma (inadequação ao mundo e consciência da rasura da própria existência).

DA – Apesar do aparente espaço conquistado pelas mulheres em plena pós-modernidade, conceber a condição de Duína em nosso mundo é, sobremaneira, refletir sobre um contraste entre certa liberdade do corpo, tão apregoada hoje, e as amarras que nos são mais caras, as do pensamento. Acredita que reside aí o principal conflito que atravessa o universo feminino?

MARILIA ARNAUD – Eu diria que houve uma conquista efetiva, mas não, plena. A mulher pós-moderna trabalha (muitas são chefes de família), estuda, exerce seus papéis sociais, traça os próprios caminhos, e especialmente a mulher de classe média investe na carreira e luta bravamente pela independência financeira. Porém, é uma mulher dividida. No plano da subjetividade, ainda há muito a ser conquistado. Ao fazer escolhas que fogem do padrão enraizado, do modelo maternidade/família, ela se enche de culpa e angústia. É compreensível. Durante séculos, viu-se impedida de afirmar a própria existência, de expressar sua identidade através do corpo e da palavra. Nessa busca por um equilíbrio, a mulher segue se construindo, construindo sua identidade.

DA – A seu ver, quando o assunto é o olhar sobre as densidades humanas, qual a diferença marcante entre homens e mulheres? Padecemos muito com os determinismos?

MARILIA ARNAUD – A diferença marcante talvez seja a maneira de um e outro estar no mundo, os papéis sociais que lhes foram atribuídos ao longo da história, o determinismo sexual que durante séculos apontou o homem como um ser de poder e a mulher como um objeto de reprodução. Em sua essência, o homem e a mulher são universos complexos, sobre os quais o ficcionista deve se debruçar com o mesmo olhar de espanto, porque é do espanto que brota a criação literária.

DA – Depois de construir uma trajetória devotada ao conto, você edifica, com vigor e propriedade, seu primeiro romance. Quais percursos foram fundamentais para essa, digamos assim, mudança de rumos?

MARILIA ARNAUD – Entre meu primeiro livro (contos/crônicas – produção independente) e o recente Suíte de silêncios, primeiro romance, caminhei bastante. Nesse meio tempo, mais de vinte anos, participei de algumas coletâneas e publiquei três livros de contos, dois deles (A menina de Cipango e Os campos noturnos do coração), através de concursos públicos. Foi O livro dos afetos, editado pela 7letras, em 2005, que me levou a pensar na possibilidade de escrever um romance. Explico. Luiz Ruffato apresentou minha prosa a Luciana Villas Boas que, à época, era editora na Record, e ela, muito gentilmente, escreveu-me dizendo que, embora tivesse gostado dos meus contos, não pretendia editá-los, tão somente pelo fato de serem contos, gênero pouco comercial, e sugeriu-me que eu escrevesse um romance. Então, a motivação inicial para a construção do Suíte de silêncios foi o conselho da Luciana, que tomei como um desafio. Comecei tateando, às escuras, sem nenhuma certeza de que teria fôlego para ir adiante. Em algum momento, encontrei o tom, e a história começou a fluir. Algumas pessoas têm me perguntado se o romance é de fato o gênero mais braçal, e eu lhes digo que as dificuldades na construção do Suíte de silêncios não me pareceram maiores do que aquelas com que me deparei na elaboração de alguns contos; creio que são de uma outra ordem.

DA – Somos crias de um deus menor, o mercado, quando, presos a ele, submetemo-nos à imposição de modelos. Consegue vislumbrar por qual razão um livro de contos, por exemplo, seja algo pouco comercial? Esse tipo de constatação não lhe soa incômoda?

MARILIA ARNAUD – Não compreendo a lógica comercial das editoras. Há um desprezo declarado pelo conto, como se tratasse de um gênero menor. Antes do Suíte de silêncios, ouvi inúmeras vezes a mesma pergunta, quando finalmente eu escreveria um romance. Leitores, amigos, familiares. Nessa cobrança equivocada, eu enxergava uma dúvida quanto ao meu valor como escritora, como se somente com a publicação de um romance eu pudesse confirmá-lo. Como já falei, encarei a negativa da editora como um desafio, mas eu já vinha percebendo que meus contos estavam cada vez mais longos. A experiência de escrever um romance não me desagradou. Pelo contrário. Tanto, que já tem um outro tomando forma dentro de mim.

Marilia Arnaud por Roberto Athayde

DA – Acredita que estamos vivendo um tempo no qual as escrituras e seus criadores andam um tanto exasperados por reconhecimento ou afirmação? Não seria melhor lermos mais do que escrevermos?

MARILIA ARNAUD – Sem dúvida. Hoje se tem uma superexposição do autor. Se ele não aparece, não circula, não frequenta festas e feiras literárias, não dá palestras, não fala sobre a própria obra, seus livros simplesmente passam despercebidos. O “escritor espetáculo” não tem mais tempo para escrever; ele viaja o tempo inteiro, correndo de lá para cá, num frenesi e, muito provavelmente, numa ansiedade terrível. Peno demais quando sou convidada para algum desses eventos. Sou tímida. Gosto de ficar quieta no meu canto, lendo e escrevendo. Falar em público me constrange. E me pergunto qual o sentido de se falar sobre o que se escreve se o livro existe para ser lido? Não estaria o autor usurpando o espaço do livro?

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

MARILIA ARNAUD – A superficialidade das relações, a falta de interesse real pelo outro, isso é o que há de pior. Na literatura, os experimentalismos presunçosos, o barateamento da linguagem, narrativas sem a mínima elaboração, palavras vazias, textos ocos.

DA – Aos poucos, você prepara um novo romance. Depois de percorrer algumas veredas da palavra, tem a sensação de estar mais próxima de uma maturidade criativa?

MARILIA ARNAUD – Não tenho dúvida de que cresci nesses anos todos de escritura. Meu texto tornou-se mais denso, meus personagens, mais complexos, a linguagem, mais elaborada. Já falei, aqui mesmo ou em outra oportunidade, que esse é um processo natural quando se investe na carreira literária, quando o escritor se determina nesse sentido. Desde muito cedo, decidi que queria escrever. E escrever bem. Minha intenção é fazer isso de forma cada vez melhor. Não tome essa afirmação como arrogância. Reconheço minhas limitações. Sou uma eterna aprendiz, na vida e na criação literária. Tenho dó do escritor que se acomoda com a fama, com prêmios, com o reconhecimento dos leitores e da crítica, porque está morto e não sabe.

DA – O que busca a mulher Marilia Arnaud em sua teima com as palavras? 

MARILIA ARNAUD – Também já me fiz essa pergunta. Muitas vezes, para escrever, abro mão de grandes prazeres, como viajar, ir ao cinema ou ao bar/restaurante, estar ao lado de pessoas que amo. De certa forma, deixo de viver experiências reais para me embrenhar no universo da imaginação. Seria essa uma maneira de lidar melhor com esse sentimento, que é um misto de perplexidade e desolação diante do mundo, do absurdo da vida? De me livrar do desamparo existencial de que todos nós somos vítimas? Ou busco a emoção de ser tantos outros, sendo eu mesma? Não sei. Só sei que a palavra é a minha fé, minha verdade, minha beleza. É quando escrevo que me sinto mais próxima de mim mesma.

 

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Nuno Rau

 

 

Arte: Fao Carreira

 

 

NOTA MARGINAL 2.

 

A linha sinuosa do amor atravessou sua pele
e você,
noite sem luz, todo por dentro um escuro sem tamanho,
não pode perceber em que parte do corpo foi escavado este caminho estreito e suas margens difusas.
Fora, há dia e as manhãs se repetem encadeadas
quando luzem sobre a linha que se afasta e inauguram outros territórios, acolhendo peregrinos  pelo que se segue, curso aberto.
O tempo atrapalhou-se no seu fluxo e lhe ancorou a este entreposto,
presente que nunca se afasta:
os propósitos desencontrados são projéteis contra a pedra à sua frente
e agora sim, agora é o meio do caminho,
você está no meio, mesmo que algo lhe diga,
qualquer coisa lhe diga
que não seja assim.

 

 

***

 

 

NOTA MARGINAL 66.

 

Não há mais rosa ou girassol. Para um outro
jardim deslocado, o aroma da pétala
ainda paira no ar rarefeito.
Seca, a terra – entregue à solidão de uns astros
que nunca respondem – agarra-se ao espinho
e o emoldura: dele é que faz a pena
e risca em si, como se tatuasse auroras na agonia,
uns versos, íntimos
do espanto.

 

 

***

 

 

FALADO

 

não deu pra fazer o retrato falado do mundo, meu amor

retirando as escamas da imaginação (repara o brilho
de prata, fugidio, antes de mergulhar
na sombra, sem a menor possibilidade
de sonho) sobrou esta substância
informe, espessa e sem mágica
que a gente depois pendura em ganchos
nos incêndios sucessivos (onde quem se queima
somos nós) das palavras.

 

 

(Nuno Rau é poeta, letrista, carioca e leitor. Bloga em As Musas Pós-Modernas.  Email: nuno.rau@gmail.com)

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

SUMINHA

Tere Tavares

 

Arte: Fao Carreira

 

Dos degraus junto à calçada prorrompiam papéis e folhas varridos pelas lufadas de ar, prenunciado a torrente que se aproximava. Sob a leveza das malhas de algodão aguardava os pingos da chuva que lentamente lhe umedeciam a pele, o fôlego palpitante, apoiado por uma hachura decidida.

Caminhou ondulando as pernas, apreciando o tremular das gotas como um afago de nanquim que lhe retirava as ardências do dia.

Largou os sapatos encharcados junto ao chão luzidio da casa – a janela debatendo-se contra o vento numa cantoria estridente. As paredes lhe ampararam o cansaço. Via-se no debrum da água que a banhara como se só naquele instante realmente valesse a pena desvelar-se.

Os livros que carregava no colo amaciaram a mesa e as transparências da sala. Largou-os como quem liberta retratos de outrora, recolocando-os novamente no olhar. Quase perscrutava com exatidão pueril o chilreio das folhas semi-abertas, devorando as capas, os desenhos das capas, tateando: até onde tudo era somente o mosto de histórias, sons desertos, cores aninhadas em outras cores, águas dentro de outras águas?

Buscava rapidamente o ar mais puro e perfeito, como quem se dispõe a arrefecer o frio, a alma disposta sem repressões nos vãos da natureza. O barulho da enxurrada preenchia as fendas rudes da casa, o telhado ensurdecia-se dos pingos desfeitos na cerâmica. Viu-se no desassossego das ações mais simplórias. A louça do dia anterior ainda rescendia à canela e erva-doce. Quantas vezes tomara o chá desanuviada de afazeres para melhor prender-lhe o sabor? Não tinha dúvidas de que se filiaria algum dia, com tempo, ao movimento slow. Pensava enquanto o vapor do chá se misturava à poeira da chuva.

Lá fora para onde resolvera retornar, as flores permaneciam no seu crescimento inevitável. A legitimidade de estar conspirando para além da linguagem lhe parecia a incompreensão de assumir detalhes, a desistência decidindo por uma oposta intimidade apaixonando-se por silhuetas abstratas como se soubesse que, ao flanar sobre as coisas importantes, passassem, essas mesmas coisas a não ter mais lugar algum no mesmo e luminoso mundo que as pensara.  No incomum, talvez mais oportuno e incômodo, longe de superlativos ou relativismos, a lucidez de arguir sobre o que é grandioso ou necessário nasceria invariavelmente da suspeita de não chegar a nada sem a via crucial dos sentimentos.

As pétalas palmilhavam-se de um amarelo descrente, olhava-as, em tintas musicais – colheu várias, sentiu-lhes a seda, como se pedisse desculpas por não considerar-se uma delas.

Pinças de brisa se estendiam na claridade morna, retorcendo-lhe a curiosidade.  Com alívio, retornou para dentro da casa. Amaciando-se na umidade da aragem, desfazendo-se sobre lençóis e travesseiros rebordados de um cetim confuso porque de letras brancas que sobre o negro cansava-lhe o fundo mar dos olhos.

Pensava como se sonhasse… e escolhia retornar à beira do areal, ao menos até o verão retornar, a pele sugada por um farfalhar de asas, em movimento de abraços…bastava-se num colar de ametista, afoita, sulcada pelo que se fora,  quiçá em ramas de mangues, de uma garça que vigiava –  o vento ruminante torcia as gaivotas, tomava notas ao secar-lhe os olhos suspeitando que a sensibilidade das retinas desse em algo possível de prodigalizar.  Adiava as ondas enquanto ganhava novos óculos escuros, as têmporas renovadas pelos filtros duros de lume, da brandura árida que não mais lhe provocava lágrimas. Como se assim pudesse evitá-las.

No lado mais despido da praia o bailado das dunas era um dueto a agigantar-lhe os cílios no rumor sonoro e miúdo do algaço. A vida era real como o vento que soprava a memória dos sais retidos de Suminha. De outro ponto os cardumes contrariavam a correnteza e as redes como se fossem seus olhos multiplicados em cepas e borbulhas, em busca de fertilização.

As mãos restavam finas produzindo fogueiras sobre o mar – repletas de matizes azuis e verdes, a rebuscar a serenidade líquida transportando-a, imensurável, para uma tela qualquer, sem importar-se se alguém diria que era um auto-retrato, um resto obscuro retirado da coloração irresistível dos corais.

Os dedos ágeis como o choro contido nas achas por arder, perfuravam o silêncio, prosseguiam nos mimos hirtos do horizonte, bebia do sargaço, do sumo esgarçado nas bordas dos barcos que mascavam a madeira carcomida pelas cordas da âncora. “Sobe um pouco mais, Suminha, preenche o ato duplo dos gestos com o teu verde pueril – há ornamentos suficientes para estilhaçares condições que por um descuido fútil do destino não mais te pertencem. O tato, Suminha”.

Retomou os despojos. Alguma coisa sobrara dos rabiscos que ousaram ferir a brancura daquele dia, das polifonias daquele vento, daquele sal, se a preenchessem de mais cor, de mais força – o que havia perdido permanecia em origamis devorados por fungos de esperança – quantos pronunciavam que a experiência não se media entre os dedos, entre o passado e o futuro, tampouco em entretantos.

Suminha do desacato chamuscava os feitiços luminosos, não suportava a ideia de submeter-se por mais tempo ao torpor. “Que cores acordam-te mais a música por dentro, Suminha? Assim, na umidade? Que rio te quer decantar esse azul-vermelho-débil-verde?”. Dá voos aos beijos azuis, lava a lama das asas, o corpo fenece, lúbrico, como se moldado pelas águas que lhe caíram do céu, na face, na secura febril dos olhos, o azul fiel lhe dá guarida.

A xícara de chá é óleo, medium, piano, tecido. Agora sentia o sabor, controlava as gotas, recriando-se, diluída do silêncio, na leveza de esvaziar-se no que lhe agradava. O peso leve da louça era igual ao da vida, da sua vontade que enfeitara feito Penélope cega, partituras dispostas num circuito infalível… a limpidez dos nadas que carregava como adornos. Dos engenhos orquestrados, das teclas, das paletas. Demais o que desconhecia, era desnecessário dispor… os azuis salpicavam-lhe os cabelos, como pincéis de outono musicando-lhe o que, independente de solicitações, concebera para o mundo – Suminha é a multiplicação assídua dos sons suspensos na memória, na umidade lídima de cada segundo que ensaia abrir-se no horizonte.

(Tere Tavares é escritora e artista plástica. Autora de três livros publicados: “Flor Essência” (2004), “Meus Outros” (2007) e “Entre as Águas” (2011). Integra a Academia Cascavelense de Letras. E-mail: t.teretavares@gmail.com) 

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

SOBRE GRAÇAS E DESGRAÇAS

Por Yara Camillo

 

Há pouco tempo traduzi um conto oriental que fala sobre graça e desgraça, ambas se alternando como se girássemos uma moeda e suas faces opostas se mostrassem quase que simultaneamente, quando talvez o que valesse a pena estivesse justamente no desconsiderado ínterim entre ambas.

O conto fala de um garoto fascinado por cavalos que encontra um potro selvagem, nas montanhas. O animal o segue. Que graça! – diz a família. Que graça ímpar vinda diretamente dos céus! Entre o garoto e o cavalo desenvolve-se um singular afeto. Certo dia, durante uma cavalgada, o garoto cai e quebra a perna. Que desgraça! – diz a família. Pouco tempo depois, todos os jovens do povoado são recrutados para a guerra. O garoto, ainda convalescente, é dispensado. Que graça! – diz a família. Certo dia, o cavalo, que tem o hábito de passear sozinho pelas montanhas, já que seu cavaleiro ainda não se curou de todo, desaparece. Que desgraça! Algum tempo depois, o animal retorna, acompanhado de uma égua já prenhe. Que graça! E por aí segue a estória, alternando graça e desgraça, cara e coroa, frente e verso…

Conheci minha primeira desgraça aos seis anos, quando perdi a avó, em quem depositava minhas esperanças de amor e compreensão, entre os humanos. Perdi, com ela, o espaço e o afeto que me acolhiam durante as tardes, depois da escola. Passei então a ficar com meus tios.

O tio e a tia, João e Maria, tinham seis filhos; quatro deles, bem pequenos. Comigo, o contingente dos pequenos chegava a cinco. Resultado: cinco crianças no exíguo espaço de um apartamento. Resultado do resultado: a saudosa tia Maria enlouquecia diariamente, com aquele bando que ela – filosofica e às vezes desesperadamente – chamava de “uma plantação de capetas”. A tia acabou descobrindo o que ela chamou de pracinha, um quarteirão inteiro, com muito verde, que podíamos avistar da sacada do edifício. E decidiu conhecer o lugar, para ver se poderia soltar os capetas por lá, ao menos durante uma parte do dia.

Certamente a tia não imaginava que seu justo anseio por um pouco de paz seria também o início de um infinito bem, que nos acompanharia por toda a vida.

Foi o início de um longo trecho. Na praça, além dos jardins e das árvores muito antigas, havia a Biblioteca Monteiro Lobato, que oferecia atividades dirigidas ao público de seis a dezesseis anos: Leitura, Pintura, Música, Teatro: meu primeiro amor, na Arte, a primeira forma de expressão que descobri, quase junto com a Literatura.

A desgraça, traduzida na morte da avó, havia dobrado a esquina… Agora, era a vez da graça. A rotina dos capetas mudava consideravelmente: saíamos da escola, almoçávamos e íamos para a biblioteca, onde passávamos a tarde, as tardes de todos aqueles anos.

Muita água correu por baixo da ponte que liga a já longínqua tarde em que Iacov Hillel reuniu alguns frequentadores da Monteiro Lobato para a montagem de um Auto de Natal. Meu personagem, no auto, era um anjo que desafinava e, por isso, fora expulso do coro celestial… Uma simbologia para a estranheza que sentimos, quando tentamos nos enquadrar um pouco na normalidade das coisas?

Ocorre-me agora um conto de autor desconhecido, que se chama “O Macaquinho e a Desgraça”: uma mulher, caminhando pela trilha de um bosque, levando um grande pote de mel na cabeça, tropeça numa raiz e cai. Contemplando o mel espalhado pelo chão, ela se lamenta: “Oh, meu Deus, que desgraça!” Um macaquinho curioso assiste à cena e, quando a mulher se afasta, resolve bulir no mel, que ele até então desconhecia. Experimenta e se deslumbra: “Ah, que delícia! Como a desgraça é gostosa!” E nos dias que se seguem não tem outro pensamento em mente, senão este: “Quero mais desgraça! Não posso viver sem ela!”

O Teatro, cujas reservas de desconhecido mel espalham-se entre graças e desgraças, trafega muito bem por esse aparente paradoxo. Ali, na mágica inexatidão de seu território, pode-se trafegar entre tragédias e comédias, passear pelas esquinas que se dobram após cada limite, prometendo outros que vão além, sempre além. Assim, encontram-se os lados opostos da moeda, um extremo deságua em outro, o que parece morte pode virar vida, o que parece miséria pode prometer riquezas.

Uma estória engendra ou chama outra… Uma forma de expressão pressupõe outras, como na Literatura, por exemplo, quando, como diz Borges, “um livro encontra seu leitor”. E então se dá algo que tem a ver com o Teatro, com o leitor armando seu palco de intimidades para que ali aconteça vividamente o enredo que seus olhos e seu espírito captam do livro e transpõem para esse palco particular.

Todo ser humano deveria praticar uma forma de Arte. Seja qual for a profissão ou caminho escolhido, a criatividade pode e deve fazer parte de sua trajetória. É um modo de exercer a infância, de trilhar o território lúdico, o primeiro, talvez, que todos conhecemos quando crianças. É um modo de não abandonar a criança, de deixá-la respirar livremente no adulto que somos, preservando assim nossas reservas de curiosidade, coragem e alegria.

Caminhando mais por essa ponte, invoco agora uma coletânea de contos populares espanhóis, de José María Guelbenzu, que traduzi há alguns anos. Seguindo um critério de sempre, minha ideia era conhecer a obra inteira, antes de começar a tradução. Mas, quando li um dos contos, A Pereira da Tia Miséria, resolvi iniciar a tradução por ali. Não imaginava, claro, que a pereira daria tantos frutos. Apenas, senti que era um conto que ia muito, muito longe: Tia Miséria é uma velha senhora, mãe da Fome (sua filha que saiu de casa há muito tempo e vive caminhando pelo mundo, espalhando sofrimento). A Tia vive sozinha, sustentando-se de uma velha pereira que tem no quintal – cujos frutos os meninos da vizinhança roubam, antes que amadureçam – e das poucas doações que consegue, de alguns moradores do povoado. Certo dia, recebe a visita de um santo do céu, disfarçado de mendigo. Ajuda-o, e consegue uma graça: todo aquele que subir em sua pereira ali ficará grudado, até que ela o autorize a descer. Com isso, consegue afugentar os meninos, consegue colher e vender suas peras. Sua vida fica mais confortável, até que um dia recebe a visita da Morte. Mas a Miséria não quer morrer. E engana a Morte, fazendo-lhe um último pedido: “Por favor, vá colher alguns frutos da minha pereira, para eu ir saboreando durante minha última viagem.” A Morte concede… E então fica presa à pereira. Assim, desaparece do mundo… E o caos se instala, em vários desdobramentos, até a conclusão do conto.

Cinco anos depois do lançamento dos Contos Populares Espanhóis, pela Landy Editora, em 2005, o Núcleo Ás de Paus, de Londrina, Paraná, fez uma montagem teatral com base na Pereira. Assisti ao espetáculo, que segue em cartaz até hoje, e concluo este texto transcrevendo aqui algumas de minhas impressões sobre o trabalho:

Tia Miséria e Pereira por Natalia Turini

A adaptação e montagem do conto popular espanhol, A Pereira da Tia Miséria, pelo Núcleo Ás de Paus, preserva e honra a tradição desse gênero, desde o texto, trabalho raro da Palavra, até o trabalho de Corpo, com os atores se movimentando muito à vontade, em pernas-de-pau, como se brincassem em cena. Que no Teatro se brinca a sério, se rapta e conduz o espectador até a plataforma de decolagem. E voa o espectador, enquanto os atores engendram novos encantamentos para a próxima cena.

A idade ideal para se assistir à Pereira da Tia Miséria? Todas, porque o espetáculo tampouco tem idade e chega a resvalar no atemporal.

A plateia – essa entidade que se forma e se recria diante de todos os palcos – complementa a magia. Talvez seja este outro mérito do Conto Popular: o de falar a todas as idades, porque os contos vêm de épocas em que as pessoas ouviam, em volta do fogo, da mesa – ou em qualquer cenário onde ocorresse essa comunhão –, as estórias trazidas e levadas pelos contadores, jograis, andarilhos, menestréis, saltimbancos, precursores dessa linha que agora o Ás de Paus leva adiante.

Pereira por Natalia Turini

Outra magia da Arte, e já do Afeto: a de fazer viver o que se evoca. É assim que Tia Miséria, mais viva do que nunca, acontece. O espetáculo tem ritmo, a cenografia e os figurinos são impressionantes. As linhas de interpretação são claras e mergulham fundo; o resultado é Arte. Percebe-se uma linha de direção que, no entanto, é coletiva: criação coletiva, surpreendente e possível porque, além do talento, o grupo consegue uma unicidade – que não ocorreria, sem um reconhecimento recíproco das percepções individuais.

Há um momento no espetáculo em que a música, entoada pelo coro, assim anuncia a entrada de um personagem:

“O que é desprezível não se deve desprezar.

O que é invisível é preciso enxergar.”

Recado precioso, nesse tempo. Em todos os tempos.

Esse trabalho do Ás de Paus precisa cumprir seu destino de ir longe e para muitos, porque leva em si a essência do Teatro, nas cores e no texto, na música e cenografia, nos figurinos e na interpretação, na concepção do cômico e do trágico. Na beleza, enfim.

O Teatro habita a alma e o trabalho do Núcleo Ás de Paus. A Arte se faz. Saímos mais ricos e com as mãos cheias de frutos depois de conhecer A Pereira da Tia Miséria, através da visão desses artistas.

Bruna Stéphanie e Rogério Costa por Natalia Turini

De novo a graça e a desgraça, alternando-se nas faces da moeda… Como se tudo tivesse apenas dois lados! Como se não houvesse, entre um sim e um não, uma quase infinitude de possibilidades.

(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Vera Lúcia de Oliveira

 

 

Arte: Fao Carreira

 

 

 

PARA DENTRO

 

como águas que jorram
para dentro

dei para pisar
o rangido dos ventos

dei para virar
em volta dos passos

dei para lavrar a veia
em que piso

dei para revolver
os ossos

 

 

***

 

 

A CULPA

 

o que é
a culpa?

senão a mão que
não existe mais
aguilhoando
o mesmo cão

senão o olho desse cão
que não existe
abocanhando
a mesma mão

 

 

***

 

SEMPRE

 

fui sempre
de percorrer na carne
..o puído dos vãos
sempre de pôr o pé
na intimidade
das veias
sempre de lavrar
os dias mais
ferozes
……..para que doendo
….amansem a morte

 

 

***

 

 

MEMÓRIA

 

abundância de rastros
que não se cancelam
fascinados pelo assombro
de atravessar as esperas
com seus passos abortos
subindo pelas artérias
em busca de outro corpo

 

 

(Vera Lúcia de Oliveira nasceu em Cândido Mota e cresceu em Assis-SP. Atualmente reside na Itália, onde ensina Literatura Portuguesa e Brasileira na Università degli Studi di Perugia. Entre os livros publicados, estão Geografia d’ombra (poesia), Fonèma Venezia, 1989), No coração da boca (poesia), São Paulo, Escrituras, 2006; A poesia é um estado de transe (poesia), São Paulo, Portal, 2010)