PROJETOMACABÉA – NALGUM LUGAR ENTRE O CAPÍTULO 9 E A INUNDAÇÃO
Celebremos! Macabéa está de volta. A festa não acabou. Com três faixas inéditas, recém-gravadas, Álisson Lima dá continuidade ao seu trabalho mais pessoal, que hibernava desde 2016. Pensando bem, talvez hibernar não seja a palavra correta, projetos necessitam de uma longa gestação para que amadureçam e venham ao mundo na hora certa. Assim, penso, é o caso do projetomacabéa.
O EP, na contramão dos atuais lançamentos, não traz participações especiais. Ele volta a ser o resultado da vontade de onemanband: as letras, melodias e arranjos são todos assinados por Álisson, que também grava todos os instrumentos e vocais.
É comum, ao escutarmos um novo disco, procurarmos influências ou referências de bandas e artistas consagrados. Sim, elas estão lá, ou aqui, misturadas. Sentimos algo de Pixies, Raul Seixas, Pavement, Wander Wildner e até uma pitada de Júpiter Maçã, mas o principal, acho importante frisar, é, no projetomacabéa, como a vivência e experiências pessoais estão em primeiro plano, imprimindo uma marca original em cada uma das três faixas do álbum.
É a estranheza que aglutina e conta uma história com começo, meio e fim em Nalgum lugar entre o capítulo 9 e a inundação, característica que pode incomodar os ouvidos viciados em baladas melosas e de fácil digestão. A melancolia é outro traço de nosso tempo a imprimir um estado de espírito cinza que percorre o álbum e pode não agradar aos ouvidos moucos. Sim, o cinza é a cor que nele predomina e, atenção, não se trata apenas de um tom de cinza. O projetomacabéa transforma em música e poesia uma palheta extensa, que vai do quase branco ao cinza chumbo metálico. Afinal, cores traduzem sentimentos melhor que palavras gastas ou expressões da moda. Fazer isso de forma monocromática é para poucos. É um dom que as almas mais sensíveis possuem. Os três grandes méritos deste novo EP são: não embarcar no fácil do caminho já percorrido; não apostar em fórmulas de sucesso certo e instantâneo e, o mais importante, expressar a sua verdade. Afinal, como a Arte não tem compromisso com nada ou ninguém, o artista não pode nem deve fazer concessões.
Álisson Lima / Foto: divulgação
Nome estranho é a faixa que abre o álbum e evoca o melhor Ramones, alertando o ouvinte para a tônica do conjunto: o estranhamento com a vida, com as coisas inexplicáveis e a busca por respostas que não existem, mas ressoam em todo ser. Ressoa “seca e doce, quando estamos a sós, apenas com nossa voz”, como a letra sugere e repete e repete para que seja compreendida. A resposta está guardada dentro do corpo, com suas vontades latentes dissociadas das vontades impostas pelo mundo, e é apontada no verso que fecha, vivo e seco, como uma porrada: “Minha voz e eu estamos a sós”. A porrada é maior quando percebemos a ironia de se estar só num tempo de redes sociais, seguidores, mensagens instantâneas, público sem calor à espera da próxima novidade, do próximo like, comentário, cancelamento. Tudo aparentemente tão real, mas totalmente descartável.
Dia cinzento, a segunda faixa, como o título anuncia, é cinza, como a angústia das correntes dos dias. Como os dias sem sol. Como sentimentos que incineramos e, não à toa, se transformam em cinzas. A depressão é cinza e a voz é um acalanto com sugestivas metáforas, um antídoto, uma forma de lidar com essa angústia sem cores, sem rumo nem explicação. Resistir é preciso. Resistir à dor é preciso. Resistir a todas as dores, as que nos chegam de fora e, principalmente, as que causamos a nós mesmos. É mais fácil deixar-se levar correnteza abaixo, mas esta não é a única opção, apenas a mais fácil. É preciso querer mais do que se tem se não quiser permanecer na dor. É preciso não entregar os pontos. Procurar abrigo da chuva nos dias cinzentos. A fuga não é a mensagem desta faixa. A luta consigo mesmo, apesar de ser a mais difícil, é a única que expurga e transforma um dia cinzento.
A festa acabou é uma balada melancólica que arremata o sentimento individual das faixas anteriores e deságua no coletivo. O que nos resta? A festa, para qual ninguém foi convidado, mas todos compareceram e terão que pagar o preço, acabou. Resta a ressaca, trabalho e dias desnecessários. A festa acabou. O mundo é real e sempre haverá vidas que virão depois das nossas vidas. E aqui, nesta faixa, o diálogo nada explícito das duas vozes que se entrelaçam e se sobrepõem é o ponto mais alto do disco. A letra é uma bela poesia que complementa e se funde com a melodia.
Último aviso: esta não é uma análise definitiva. Muitas outras interpretações e possibilidades se escondem nas palavras e na música do projetomacabéa. Assim como este não é um disco para se ouvir apressadamente. É cinza e melancólico como sugere o título. A música e a poesia provocam emoções que às vezes não gostamos de sentir. Sentimentos que não levamos para uma festa, mas que estão sobre nós como nuvens prontas para desaguar. Sentimentos que nos forçam a amadurecer ou a sucumbir. Contudo, estas três músicas nos inspiram a seguir com cabeça erguida, mesmo que os dias continuem cinzentos, muito cinzentos.
<a
Marcelo Frazão é artista plástico, poeta e editor. Publicou Haikai (1996) e Homo Sapiens Sexualis (2015). Ganhou o Premio APCA em parceria com Olga Savary. Atualmente trabalha como editor da Villa Olívia e ilustra para o Jornal Rascunho.
O céu laranja empoeirado
traz o deserto que meus pés
ainda não conhecem
para meu inverno particular
A areia do Saara paira
e move
deixando uma cor diferente
na minha pele península
***
Mulher locomotiva enlouquece
e esquece e repete e comete
um crime sem arma ou morte
apenas um ato ou seria
um pacto
de sanidade
com a própria
liberdade
Ela escreve
a mulher
***
Palavras puras
não existem
só com as híbridas
escrevo
e recito
os segredos
que desencontro
no caminho
***
Despertar
vento frio na pele
respiro sem deixar
o medo amanhecer
junto ao meu
despertar repentino
não sei se este dia
será como um dia
qualquer ou como
o outro que deixei
sem terminar
aquele que passou
horas a fio
desencapado
doendo pela
ponta que esqueci
de cortar
***
Um mapa
Fui nascida em dezembro, abaixo daquela
linha imaginária que corta o mapa
desenhado nos livros
por quem?
Fui ensinada a reconhecer as fronteiras,
mas depois aprendi que as bordas
desaparecem e se desviam do rumo
para onde?
Fui crescendo no território sem limites
dos meus medos e sonhos
misturados na geografia
de qual país?
Ainda não sei.
***
A minha revolução
acontece em silêncio
dentro do coração
e meu texto
busca derreter
os gritos congelados
que se forem ouvidos…
sinfonia
***
Aqui moram…
uma verdade que arruma a casa
e nunca recebe visitas
um desejo que deixo escondido
e esqueço de vigiar
umas dores de criança pequena
uns sorrisos de mulher adulta
e alguns livros que nunca li
Julia Sereno nasceu em 1978, no Rio de Janeiro, mas atualmente mora em Lisboa. Mestre e doutoranda em Estudos de Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ, é professora e tradutora. Em 2022, publicou seu primeiro livro, “As Outras em Mim”.
1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite (2021) é o mais recente livro de W. J. Solha, publicado pela editora paraibana Arribaçã, e é o quinto poema de uma série projetada para seis livros do poeta, romancista, cordelista, artista plástico e ator (cf. O som ao redor). Dos cinco volumes publicados até agora, conheço outros três – Trigal com corvos (2004), Marco do mundo (2012), Esse é o homem (2013) –, mas comentarei apenas esse quinto, embora o diálogo com os demais esteja claro desde o início, por exemplo, na montagem do texto através de referências históricas, culturais e artísticas que fazem da série um grande painel intertextual da história.
Não me parece, no entanto, esta a sua vontade primeira – ser um painel –, mas o resultado da sua organização discursiva (ou “poético-filosófica”, como afirma). Todos os quatro volumes que li são longos poemas costurando referências que formam uma malha dramática de personagens, eventos e reflexões representando nosso esgotamento contemporâneo. De um lado, esgotamento da possibilidade de se fazer algo de novo em arte; de outro lado, esgotamento do próprio discurso histórico, esgotamento do futuro. Em 1/6 de…, à contemporaneidade só restaria repetir a história moderna como farsa, tragédia ou, como é dito a certa altura, comédia chapliniana (p. 46). Mas, nesse texto, o motor da história parece ser mesmo a farsa, particularmente no entrecruzamento desses diálogos dramáticos com a narrativa e as interrupções líricas.
É também como farsa que o discurso começa e termina re-citando-se ab ovo – “Perfeito desde o começo, / ab ovo, / o poema não teria um primeiro versículo como o do Velho Testamento…, / mas do Novo” (p. 09). Desejando-se perfeito, no poema de Solha – na longa viagem inventariando referências, eventos, obras e nomes – tudo não passa de desastre, erro e decepção na busca de uma impossível perfeição humana. Isso é percebido principalmente como falência da ideia de progresso, que se insinua sub-repticiamente, tanto em certos instantes do seu discurso, assim como na própria discursividade do poema.
A ideia de progresso é transformada em mito falido na impossibilidade do poema fazer seu próprio discurso progredir e avançar, mesmo quando de modo não-linear. Todas as dezenas de referências históricas e estéticas parecem repetir o mesmo princípio de impossibilidade, ilusão e falha de um discurso que conduza a história para um futuro melhor, mesmo como profecia: “Tudo / …velho / …como o evangelho” (p. 42), ou “Poeta / não é / P(r)o(f)eta. // Mas em tudo / há uma meta” (p. 43), ou “Tudo… anseio puro / de adiamentos do / …futuro” (p. 54). Não há no poema futuro melhor. Nem passado. A sua narratividade não avança, mas vai e vem, perdida entre referências labirínticas de uma história exemplar em decepções e catástrofes. Diferente da burguesa forma do romance, 1/6… descrê de qualquer aprendizado possível, de qualquer retórica aquisição de consciência – o que se deduz do arco histórico e geográfico que ele abrange e do modo como costura liricamente tudo.
O texto, portanto, ratifica essa falência do discurso também pelo que possui de lirismo poético. Por exemplo, o modo como as rimas são compostas – como aparecem em versos de grande oscilação rítmica – reforça a inércia do discurso. Rimas associando palavras, ideias ou nomes que parecem girar em falso, não por mero gosto de ludismo verbal, mas de uma sequência gaguejante, de interrupção em interrupção do que poderia ser dito, refirmando a crise do progresso do discurso e da ideia de progresso. Exemplo: “travellings… em Toda a Memória do Mundo, / glória do cinema francês, / de 56, / nos… desfiladeiros – entre estantes… da Bibliotheque Nationale – com o final … em nada transcendental, / tipo A idade da Razão ou Finnegans Wake: / numa pilha de / … Mandrake” (p. 14-5). Solha espalha rimas como pequenas bombas que vão explodindo ao longo, à medida em que caminhamos por seu texto. São rimas que impedem o discurso de avançar ou recuar, mantendo-se suspenso entre repetições fonéticas e diferentes referências, como pede qualquer lirismo forte. Eles chamam muitas vezes mais a atenção para si do que para o que se diz, roubam a atenção, vão para o primeiro plano. Isto é: a discursividade se encontra interrompida por um lirismo antidiscursivo nas rimas: “e a mente, / a que nada, / jamais, / diz “Basta!” / se verá, / então, / …vasta, // … como o fundo falso das poças rasas, / com o céu, o sol e a lua, / estrelas, / nuvens, / e tudo que tem / … asas // coisas que …persistem, / mesmo que se saiba que – em sua transmissão ao vivo, quase / … subjetivo – apenas de certo modo / existem” (p. 58-9). Esta última passagem é também exemplar de outro recurso que reforça o ímpeto interruptivo: as reticências, que parecem nesse livro carecer de maior funcionalidade pelo seu uso excessivo. Embora o excesso também esteja nas referências, nas utopias, nas rupturas e nas esperanças e nas frustrações, que a certa altura impõemRemover imagem destacada um “etc etc etc” (p. 36) para se referir a Picasso, como se o excesso de informações na contemporaneidade exigisse do poema apenas o ato de dar a referência, sem precisar de maiores reflexões. Nada mais. Nada além.
O poema vai, em sua progressão narrativa, sofrendo todo o tempo com quedas líricas que põem por terra qualquer maior ordenação de sentido. O texto sempre parece retomar essa ideia de falha no progresso. Aproximando a arte moderna da bomba atômica, Solha explicita: “ou entre as… obras… de cubistas… e abstracionistas / do século seguinte, / o XX, / em que essa… premonitória desintegração… culminaria em sua obra-prima: / Hiroshima, // depois da qual / a arte / de Picasso, / perderia espaço” (p. 61). O mito do progresso estético precede o real progresso técnico e prepara a destruição potencial do fato da vida humana. Qualquer semelhança com a pandemia não é mera coincidência.
Mas se tal raciocínio sobre o progresso como mito conduziu vários contemporâneos nossos ao reacionarismo que vimos brotar na última década brasileira, ele conduziu o poeta justamente à constatação do fim dos anseios modernos, não à sua conservação ou, pior, regressão política. Qualquer projeto moderno hoje (da “democracia” à “individualidade” ou à “autonomia”) é uma gigantesca “work in progress” que nos mantém programados e engajados em metas impossíveis, mas que simulam desejos divinos na criação humana: “mas… o que seria, / então, / a soma dos objetivos, / que nos mantém / vivos / … no engajamento… programado, / compulsório, / … a um work in progress permanentemente / … provisório? // Falha das mitologias (da grega e hebraica à tupi-guarani), a de nos terem dito… coisas dignas de Dali: / que Deus teria feito o homem do barro, / como o oleiro faz o jarro / …e a vida, / em nós, / teria sido inserida – por uma das generosidades divinas – através do sopro nas …narinas, / ou a nós teria sido dado o fogo dos deuses, roubado, // […]” (p. 26-7). Aqui o poeta enuncia com todas as letras o progresso e o destino humano como mitos, a exemplo de Prometeu buscando propósitos em se estar vivo. Disso, só teria restado um discurso religioso laicizado na forma de um progresso histórico que nos legou a bomba atômica, o controle tecnológico e a catástrofe ambiental.
Paro por aqui, e sem concluir, pois que comento apenas o quinto dos “seis tratados poético-filosóficos” de W. J. Solha. Se 1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite é de 2021, falta o sexto e último livro a completar a série e apontar para algum fim. O próprio pensamento do poema não se conclui, pois o texto se fecha como começou, “ab ovo”, cobra mordendo o próprio rabo e girando em falso pela história como poesia, história cujo impasse hoje percebemos com clareza cristalina diante de nós. Pedimos apenas ao poeta que o fim da série chegue antes do fim do mundo, já que o poema não tem fim.
Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.
Desligo os faróis antes de alcançar o alto do morro e deixo o carro deslizar suavemente, como se planasse sobre uma nuvem, até parar embaixo de uma árvore. É tarde, não há ninguém, nem mesmo os nóias. Apenas nas luzes da cidade, lá embaixo, há algum sopro de vida. Salto do carro e acendo um cigarro. Uma vez Kersey me disse que a gente nunca deve ter pena de vagabundo. Vagabundo tem mesmo que se fuder, do contrário fodem com a gente. Eu nunca discuto com Kersey. Ele está nisso há muito mais tempo que eu.
Jogo o cigarro no chão e caminho até a casa com o portão verde. Bato três vezes. Alguns segundos se passam e escuto o barulho de uma porta sendo aberta e, em seguida, passos arrastados, os chinelos ralhando sobre o cimento do passeio que leva até o portão.
– Quem é? – ele pergunta.
– Te dou uma chance pra descobrir.
Depois de três segundos, ele destrava o ferrolho e o portão fica entreaberto. Está com os olhos inchados e o rosto suado, a cara de quem não dormiu.
– Ainda não tenho a grana.
– Não tem nada?
– Alguma coisa. Não é muito.
– Eu quero.
Ele me encara. Está desconfiado.
– Espere aqui.
Encosta o portão, se vira e caminha até a entrada da casa.
Cruzo a porta e vejo uma mulher deitada no sofá, de frente para uma mesinha onde há um prato com algumas gramas de pó. É loira, magra e, quando seu olhar de vampiro pousa sobre mim, imediatamente se encolhe, espremendo-se contra o sofá, uma almofada suja servindo de escudo. Faço sinal para que continue em silêncio, mostro a arma em minha mão. Pergunto onde ele está e ela aponta para o quarto. Sento-me em uma cadeira e espero.
Dois minutos depois, ele passa sem me notar. Está com o dinheiro na mão. Tem um 38 nas costas, preso à cintura. Ele nota a mulher espremida no sofá e, ao reparar nela, me vê.
– Pra quê o 38? – pergunto.
Seu rosto está congelado. As narinas dilatam-se por conta da respiração.
– O dinheiro tá aqui. Quase dois mil. Consigo o resto em uns dois dias.
– Não vim atrás do dinheiro. Quero minha parte da encomenda.
– Que encomenda?
– Você sabe.
– Não sei, não. Seja lá quem falou isso de encomenda, é mentira.
Fico de pé e caminho até ele. Pego o dinheiro de sua mão, coloco no bolso e então aponto a arma pra mulher no sofá. Ela grita e se protege atrás da almofada.
– Já disse, cara – ele responde -, não sei nada sobre o que tá falando. Muito menos ela!
– Tem certeza?
– Claro!
– Não está mentindo?
– Eu não minto pra você.
Deixo de apontar a arma para a mulher e a direciono para a cabeça dele. Seu rosto se contorce, os olhos piscam naquele segundo em que calcula se daria tempo de pegar o 38. Atiro no instante em que ele, com os olhos esbugalhados, faz o movimento. A mulher dá outro grito e se agarra à almofada, enquanto ele cai morto no chão.
– Fica de pé – digo pra ela.
– Não me mate, por favor!
Ela se levanta lentamente, o corpo inteiro treme. Usa uma bermuda jeans gasta e uma camiseta com a foto de uma garota, o nome Raquele escrito em cima.
– Sabe onde está?
– Sei… Na caixa d’água. Foi lá que ele subiu.
Há um limo grosso sobre a Eternit. Ando com cuidado. Tenho medo de escorregar ou de quebrar uma das telhas e cair. Seria estranho morrer assim. Tento imaginar o que escreveriam no jornal: POLICIAL CAI DO TELHADO APÓS TIROTEIO COM TRAFICANTE. Abro o saco plástico azul escondido na caixa d’água e, dentro dele, vejo dois pacotes enrolados com fita adesiva. Enfio o canivete em um deles e coloco o pó na gengiva. Em dois segundos, está dormente. Fecho o saco e volto a andar sobre a Eternit, cada passo como um salto rumo ao abismo.
A mulher teve tempo de fugir, mas continua ali, sentada no sofá, olhando para o corpo do bandido no chão. Ao seu lado, sem que consiga enxergar, Kersey se senta, cruza as pernas e olha pra mim. Eu sei o que quer. Nunca deixe testemunhas, ele me disse uma vez. Nem perca tempo com eles. Aponto a minha arma para ela.
– Você disse que não ia me matar! – a mulher grita, os olhos miúdos, cheios de lágrimas. – Eu falei o que você queria! Por favor, não me mate!!
– Quem é a menina?
Ela me encara, sem entender.
– Raquele – digo, apontando a arma para sua camiseta.
Ela suspira, estica a camiseta e olha para a imagem.
– Minha irmã. Desapareceu há dois anos. Tava brincando na rua e sumiu.
– Encontraram?
– Não. Minha mãe sonhou que ela já estava morta.
Abaixo a arma e saio da casa carregando os dois pacotes, enquanto ela me observa. Vou até o carro, sento no banco do motorista e acendo um cigarro, olhando para a cidade lá embaixo, para o pouco de vida que ainda resta.
– Uma vagabunda viciada é só uma vagabunda viciada – Kersey diz, sentado no banco do carona. – Volte e acabe com ela. É assim que a gente faz.
Olho pra ele. Paul Kersey. O mesmo bigode de sempre, o mesmo gorro sobre a cabeça, o olhar de quem já testemunhou coisas demais. Um grande homem, uma constante inspiração. Agora, no entanto, estou cansado.
– Vamos deixar essa merda pra lá, Kersey. A mãe dela já chorou demais.
Ele dá de ombros e, de um segundo para o outro, desaparece em meio à noite que engole tudo. Eu ligo o carro, acendo os faróis e começo a descer a ladeira.
Rodrigo Melo tem publicados dois livros de histórias curtas, “O Sangue Que Corre Nas Veias” e “Jogando Dardos Sem Mirar O Alvo”, ambos pela editora Mondrongo, e participou das coletâneas de contos “82, Uma Copa/15 Histórias” (Editora Casarão do Verbo), organizado por Mayrant Gallo, e “Outro Livro na Estante” (Editora Mondrongo), organizado por Herculano Neto. Escreveu, ainda, o livro de poesia “Enquanto O Mundo Dorme”, e o romance “Riviera”. Mora em ilhéus, no sul da Bahia.
Drive my car foi concorrente ao prêmio Oscar de melhor filme e melhor produção estrangeira em 2022, além de roteiro e direção, um feito raro para um filme japonês. Ganhou afinal o prêmio de melhor produção estrangeira. A carreira cinematográfica de Ryûsuke Hamaguchi está toda dentro do século XXI e se torna importante para compreender o trajeto da oitava arte neste novo milênio, particularmente em relação à cultura oriental japonesa. Este filme é baseado no livro de contos Homens sem mulheres, de Haruki Murakami, na costura narrativa entre o conto que dá título ao filme e dois outros contos do mesmo volume. Murakami é um importante escritor japonês, às vezes criticado na terra natal pelo seu ocidentalismo. Sua obra é reconhecida pela confluência entre várias formas e meios de expressão diferentes. O filme de Hamaguchi é fiel a essa estética: consiste numa intricada construção semiótica entre literatura, cinema, teatro e música erudita. Por outro lado, essa construção heterogênea torna possível, numa obra de 3 horas de extensão, a afluência de delicados e entrelaçados sentimentos das personagens.
O filme abre (atenção para possíveis spoilers daqui para frente) num longo prólogo de 40 minutos. Entramos (os espectadores) no meio da vida íntima e amorosa de um ator, Yusuke Kafuku (vivido por Hidetoshi Nishijima), e sua mulher Oto (Reika Kirishim). Ela, uma roteirista, que durante os atos sexuais do casal tem os seus melhores momentos de inspiração, inventando histórias (este trecho do filme remete ao conto Sherazade de Murakami). O casal constrói sua química sexual baseada nesse estratagema criativo, mas aprenderemos que eles compartilham também de um grande trauma, a perda de uma filha quando pequena; ao mesmo tempo, descobriremos que Oto costuma ter amantes, preferencialmente entre os atores que encenam suas peças. Com a morte súbita de Oto, termina o prólogo e é então que o filme começa realmente, com os créditos aparecendo na tela e a trilha de abertura. Na sequência, dois anos após a morte de Oto, Yusuke é convidado para dirigir a peça Tio Vânia, de Tchekhov, obra que ele conhece bem, em residência na cidade de Hiroshima. O ator possui uma fita de áudio com os trechos da peça narrados por sua falecida mulher, com os espaços vagos das falas do protagonista da peça, de tal modo que ele pode memorizar as falas do personagem ao preencher os tempos vazios da gravação. Yusuke gosta de fazer isso enquanto dirige, mas ao chegar em Hiroshima, por exigência de contrato, é obrigado a aceitar motorista profissional, pago pela produção do festival; motorista que vem a ser Misaki Watari (Tôko Miura), uma jovem de 23 anos, que se revela excelente condutora.
Drive my Car / Foto: divulgação
Entre os selecionados para a peça, seleção do próprio Yusuke, está Koji, jovem ator que foi um dos amantes da falecida mulher do diretor. Koji assume justamente o papel principal na peça, aquele de Tio Vânia, apesar de não ter a idade apropriada, mas devido ao seu talento. Na narrativa então se desenvolve uma relação conflituosa e ambivalente entre esses dois homens, o diretor e o ator, mediada pela lembrança de Oto. Além disso, a peça é multilíngue e há uma atriz que fala em mandarim e outra que se expressa em libras. Esse caráter multilíngue é um dos interesses tanto da peça, que vemos ser montada aos poucos no correr da narrativa cinematográfica, como do próprio filme. Isso nos faz lembrar do conceito de heteroglossia do linguista russo Mikhail Bakhtin, que significa o plurilinguismo de idiomas e a multiplicidade de vozes presentes na literatura que Bakhtin chamou de “dialógica”, sobretudo em seus estudos sobre a obra do escritor Dostoievski. Já se chamou a atenção para a proximidade entre o cinema japonês e o romance literário russo, sobretudo na obra do grande diretor Akira Kurosawa. Hamaguchi traz para o cinema a aproximação com a obra de Tchekhov, que é paradigmática dos dilemas da Modernidade, entre a frustração e a impotência do indivíduo frente aos desejos que carrega e a ordem social que precisa seguir.
A peça de Tchekhov serve como um substrato dramático para o filme. As tensões entre Yusuke e Koji, as frustrações, o sentimento de culpa e de vergonha dos personagens, a mistura entre admiração e despeito, e entre competição e cumplicidade, ou entre maturidade e juventude, todos esses elementos relacionais aparecem sob a forma de silêncios, vazios e hesitações, filtrados pela encenação do drama russo; abaixo do roteiro cinematográfico está a peça de Tchekhov que sustém os vazios da narrativa, como na fita de áudio que Yusuke ouve com a voz de sua falecida esposa. As duas obras, Tio Vânia e Drive my Car, estão assim conectadas em camadas de significação. Numa das cenas em que a companhia teatral encena a peça ao ar livre, um ato da peça aflora dando sentido à relação vivencial entre duas atrizes. É menos a incorporação de personagens do que a correlação de sentimentos aquilo que se desvela. Com isso redefinimos a própria noção de mimese estética: não é a arte que imita a vida, mas, ao contrário, a arte que permite a articulação (ou a emergência) das relações existenciais. Mas além dessas duas obras, há também a costura com os três contos de Haruki Murakami. A grande virtude da obra de Ryûsuke Hamaguchi é esta intrincada costura de tecidos estéticos, entre cinema, teatro e literatura, na qual os sentidos parecem mover-se para várias direções.
E a principal linha de fuga do filme é a personagem de Misaki, a motorista que serve a Yusuke durante a preparação do espetáculo. É ela, sobretudo, que faz com que o foco narrativo se distancie da rivalidade entre os personagens masculinos. Japonesa da região do Norte, também marcada por um trauma familiar, ela “só sabe dirigir”. E enquanto conduz o carro, na referência que dá título ao filme, ela ouve a fita com a gravação em áudio de Tio Vânia. Ela é testemunha da disputa entre os homens pela lembrança da mulher morta, através dos diálogos tensos que ocorrem durante os trajetos de carro. E finalmente ela é uma assistente da peça que está sendo montada. Assim, ela está na posição do próprio espectador do filme e atua como uma mediação entre a intriga ficcional e o contexto mais amplo e vivencial de sua recepção estética. Quando ela e Yusuke partem em longa viagem ao norte do país para conhecer a vila onde viveu, a personagem intervém no fio narrativo principal fazendo-o desviar de rota. Há então uma imbricação entre sua história de vida, a vivência de Yusuke, o drama de Tchekhov e o destino da montagem teatral. Essa deriva do roteiro (que também implica a associação com os contos de Murakami do volume mencionado) favorece a imersão do espectador no espaço-tempo construído do filme.
Drive my car / Foto: divulgação
Tudo se conjuga num jogo entre a audiência e a participação. E, de fato, no filme de Hamaguchi, há uma dedicação ao trabalho de escuta e de observação. A importância dada aos gestos, tão presente nas relações de cortesia oriental, relativiza assim o suposto ocidentalismo tanto de Murakami quanto do diretor. Compreender o outro a partir de seus gestos ou em suas palavras se torna o elemento mais enfático dessa obra. Pode ser tanto de Yusuke em relação às histórias de sua mulher contadas durante e após o ato sexual, dos atores que observam seus parceiros atuando na peça, ou de Misaki que observa a disputa viril entre ator e diretor, ou ainda enfim dos espectadores do filme que reconstroem na imaginação todas essas peças do enredo. Esse trabalho de observação é ressaltado pela sua duração longa e na temporalidade vagarosa das cenas. E vai no sentido contrário da compressão de tempo narrativo tão frequente no cinema hegemônico contemporâneo.
Os contos de Murakami são conhecidos por essas derivas na intriga ficcional, que levam a finais inconclusos e vagos, e nesse aspecto há aqui convergência entre literatura e cinema. Drive my car é um caso exemplar de cinema complexo, no qual é mais importante a perspectiva da visada do que encontrar uma explicação para o que é visto. Não é tanto por uma questão de mistério a ser decifrado, mas por algo que, sendo complexo, exige do espectador a aceitação do que permanece inexplicável. No título de um dos contos do escritor japonês, Kino, que também serve de mote para o filme de Ryûsuke Hamaguchi, há tanto referência ao nome do protagonista japonês da narrativa literária, quanto ao próprio cinema e ao plurilinguismo (Kino significa cinema em alemão). Por isso, não é surpresa quando a realidade da situação pandêmica contemporânea adentra a narrativa ficcional subitamente. Não se trata de uma cena que se pretenda enigmática, mas de uma saída do ficcional para o contexto mundano e histórico global. Tal fuga confirma a costura delicada da trama realizada por Hamaguchi, na qual estão conjugados cinema, literatura e teatro, ficção e realidade, imagem e áudio, personagens e espectadores.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.
culpei-me
como se fosse meu o controle do tempo
culpei-me até por não morrer
culpei-me pelas dores do mundo
e pelas minhas próprias
desculpei-me por ser maria
e também quando não fui
como quem entende que não existe tempo, nem controle
desculpei-me da desculpa por envelhecer
desculpei-me pela vida e por amar o mundo, ainda que cheio de dores
desculpei-me, arranquei a culpa do amor-próprio
e ele próprio me desculpou
***
Sujeito é verbo
Não soube não ser anônima
É homônima
Homófona
Não sabe ser hegemônica
Quem é de escola antropofágica
***
note minha natureza morta
esqueci de abrir a porta
e de nós surge a revolta
impedindo aquele sim
veja a muralha que nos cerca
é o medo da poeta
ainda há viga entreaberta
concreto que esgota em mim
se já não entendo o que me importa
e desconheço minha resposta
natureza viva ou morta
com visão um pouco torta
percebo o mundo à minha volta
mas se me prende ou se me solta
se me sente ou se desloca
se me vende ou subloca
se me entende ou acha louca
se me quer ou me conhece
se me mente ou se me esquece
se projeta o meu alcance
não sou boa nesse lance…
a linguagem que me livra
de confusão desmedida
incompleta a minha obra
e o que é que de mim sobra?
a reforma que me cobra
quem sou eu para mim?
note a minha natureza torta
nossa vida em minha porta
o que não sei não me solta
o que sei sempre se esgota
quem me salva da revolta?
me interessa aquele sim.
***
sou produto do hoje (com memória)
precedida a história
sou produto do hoje (com medo)
precedido o enredo
sou processo lento (contento)
resultado do tempo
procuro o presente
-no limiar do sentimento-
precedidas posturas
procuro não procurar futuro …
ai.
***
a real tem idade
e são anos luz
sem tempos de agora
(nem depois)
nem olho que vê
nem cheiro que sente
nem tato que esbarra
um tropeço no real, para,
do chão passar
rejeição é doença que sara
ao lembrar de olhar pra frente
***
Kafka
eu aspirei esse ar pirado
fiquei asfixiado
e aficcionado
por qualquer tipo de enredo e qualquer tipo de estado
passei pela rua e sorri
fui filmado
passei da linha e recebi
importante papel timbrado
no documento li “fichado”
caí nas lentes, fui logrado
Drika Prates trabalha como ilustradora, designer gráfica e, de vez em quando, pinta murais. Seu trabalho com as imagens é retroalimentado por sua escrita, que vai das crônicas aos poemas. Vive em Portugal desde 2018, quando resolveu fazer um mestrado em História da Arte Contemporânea e participou de residências artísticas locais, como o Festival A Salto e a Bienal de Coruche. Nos últimos anos, ilustrou dois livros de poesia: “Exposta”, de Marina Vergueiro e “Aorta”, de Rani Ghazzaoui. Acredita que um dia vai ilustrar um livro próprio, integrando suas palavras e imagens. Sua escrita reflete cartografias que vão do micro ao macro, do corpo(natureza) à cidade, além de transitar por inquietações feministas.
O livro azul de Wesley Peres – Apontamentos sobre O corpo de uma voz despedaçada
Por Wilton Cardoso
O livro azul
O corpo de uma voz despedaçada, de Wesley Peres, trata-se de um pequeno e impressionante livro sobre o trágico acidente do Césio 137 em Goiânia, ocorrido em 1987. É impresso em letras azuis (como o pó radioativo) numa ótima edição da editora Martelo, que vem se notabilizando pela qualidade gráfica e poética de seu catálogo de poesia. As letras-partículas azuis remetem à irradiação da palavra e da memória, ressoando o acidente que, ao que parece, a cidade quer enterrar (recalcar) no esquecimento, como enterrados estão os seus mortos e os detritos radioativos. A tarefa do poeta é recuperar, com sua máquina tormentosa de palavras, essa incômoda memória, em luta com os mecanismos de recalque da cidade:
[…] É preciso dar corpo à voz eviscerada em pedaços, o corpo recalcado pelos sólidos mecanismos da cidade goiânia. […] É preciso construir a máquina palavra girândola repetitiva não de estrelas, mas de tormentas. […] (p. 43)
O corpo da voz: título
Wesley Peres é um poeta rigoroso e experimental, que costuma torcer e distorcer a linguagem até os seus limites sonoros, sintáticos e semânticos. O título do livro não foge à regra e já apresenta ao leitor uma paradoxal construção metafórica, ao atribuir à voz, signo da palavra, da linguagem e do simbolismo, a materialidade do corpo.
O que se quer, afinal? Explorar e dar corporeidade à voz despedaçada (ao sofrimento silente, inarticulado) das vítimas? Dar corpo no sentido de recordar e expor a tragédia social e individual ou no sentido mais ambicioso de re-presentificar o vivido com a poesia?
Poesia que, costuma-se dizer, é o lugar onde a linguagem deixa de ser apenas céu significativo e se torna também terra significante, concreta e material: locus em que as alturas do sentido entram em simbiose com a matéria sonora e (no caso do livro) visual da palavra falada e escrita.
Parece-me que o poeta opta pelo caminho mais ousado de (pelo menos tentar) corporificar de fato a voz, re-vivendo a tragédia com o experimento material e simbólico do poema, mesmo sabendo que acabará num beco sem saída.
O corpo da voz: do livro e para além do livro
Este dilema entre corpo e alma, ou corpo e psique (já que o poeta é também psicanalista), que se desdobra no dilema entre vida e linguagem, não é uma questão apenas deste livro, mas perpassa toda a obra de Wesley Peres. Trata-se, portanto, de uma obsessão do poeta.
Assim, a rememoração ou re-incorporação do acidente radioativo se torna também uma oportunidade para o autor exercitar suas obsessões acerca da tensa relação entre matéria e espírito, corpo e mente, vida e palavra, existência e sentido, plenitude e vazio. Obsessão que é também a do Ocidente desde que este se define como tal, ou seja, desde a Grécia pré-socrática.
Wesley Peres é, portanto, o que se poderia chamar de poeta existencial ou filosófico, sempre pensando enquanto canta, fazendo a re-flexão no mesmo ato da flexão poética da linguagem. Outra tensão em sua obra: pensar e cantar, significar sobre a linha sonora e imagética do jogo poético. Um poeta cerebral e construtor, sem dúvida, mas que deixa transbordar um lirismo que pulsa sob o árduo trabalho de linguagem de seus poemas. O que implica numa terceira uma tensão atravessa sua obra, entre lirismo e construção.
Pode-se, então, dizer que Wesley Peres transita entre as ‘tradições adversárias’ do lirismo de Bandeira e do engenho de Cabral, mas numa linguagem que recupera uma terceira tradição, onírica e a-lógica, que é a do simbolismo e surrealismo mais experimentais e construtivos, como em Manoel de Barros. Este último, aliás, seria a ‘filiação poética’ (na falta de expressão melhor) mais próxima e visível de Peres, como pode se perceber em suas desconstruções sintáticas e semânticas da linguagem.
Manoel de Barros promove uma desconstrução da linguagem que remete a uma crítica também desconstrutiva do mundo moderno. Sua poesia é atravessada pelo desejo de uma regressão primitiva não reacionária e não autoritária à infância, à tradição popular, ao mundo animal, vegetal e até mineral; e é uma celebração desse ‘mundo puro’ dos primórdios. Puro não no sentido ascético do termo, mas concebido como um caos primordial intocado pela ordem, desmedido e sem hierarquias, prenhe de novas possibilidades de mundo. No fim das contas, a poesia do mato-grossense, sob a superfície de um regionalismo e um naturismo ingênuos e lúdicos, é uma crítica aguda à modernidade e, em consequência, ao capitalismo.
Palimpsesto e origami: tensão entre o sem sentido e o desejo de sentido
A desconstrução poética de Wesley Peres, ao contrário da de Manoel de Barros, não resgata nem celebra os primórdios e o caos como uma nova possibilidade de mundo, mas costuma se deparar com o vazio de sentido e a ausência de saídas para a ‘alma humana’ e o ‘espírito do mundo’. Exemplos desse ceticismo em relação à transcendência e até à magia são a presença de duas imagens recorrentes neste livro, e em outras obras suas, que são o palimpsesto e o origami. O primeiro remete à impossibilidade da origem e do fundamento, enquanto as complexas dobraduras do segundo nos diz que o conteúdo e o sentido não passam de puras formas, dobras e redobras de uma matéria/substância indiferente e inerte.
Palimpsesto e origami remetem, portanto, a uma poética agnóstica e desencantada, descrente das possibilidades utópicas de uma regressão aos caos primordial ou mesmo de uma ultrapassagem emancipatória das sufocantes coerções da sociedade (pós)moderna. Este agnosticismo de fundo às vezes emerge límpido no livro:
(O homem crê em Deus e nas pedras. Sonhou a clareza de seus olhos implodidos densos de um imenso sol soletrado pelo calmo ninguém que habita o homem só com o seu corpo). (p. 21)
A poesia de Wesley Peres é, portanto, anti-mágica e anti-lírica. Mas ao mesmo tempo, as pessoas amam, sofrem, desejam, vivem, morrem e formam a teia desejante e coletiva da sociedade ou, no caso do livro em questão, da cidade de Goiânia. E a poesia cética de Wesley Peres se inquieta (se espanta, se comove?) com as paixões humanas e seu desejo de sentido. O poeta procura, então, expressá-las contra o pano de fundo da perspectiva agnóstica, que não vê na realidade social e biopsíquica do mundo humano nenhum fundamento ou possibilidade de transcendência. É nessa tentativa de exprimir esse desejo de sentido, tão constituinte do humano quanto o seu não sentido, que o autor deixa transbordar um lirismo que o agnosticismo construtor de sua poesia aparentemente não possibilitaria.
Esse transbordamento lírico, embora intenso e carregado de afetos, não descamba para a pieguice ou o confessionalismo, nem mesmo quando o eu lírico se expressa. Talvez porque o fundo agnóstico e o rigor experimental, que constituem o pano de fundo poético do qual o lirismo transborda, tornem impossíveis qualquer espécie de derramamento sentimental. Emergindo do pano de fundo agnóstico, o lirismo perpassa todo o livro (e toda a obra que conheço do autor) e é nítido, por exemplo, no poema em prosa “1987”, um dos pontos altos do livro. Em meio a várias referências intertextuais, como à Lautréamont e Deleuze & Guattari, emerge, de forma comovente, a dor e o sofrimento das vítimas de acidente radioativo:
[…] Lautre, era setembro, Lautre, era o sol e era menos de duas décadas para o fim do século. era no Novo Mundo, Lautre, e o mal e o horror amoral e sem nome eviscerou a menina, era o seu cão do terceiro canto, Lautre, sob ordens maldoronianas, o cãoazul m u l t i p l i f l o r a n d o inchando as células multiplicando-as rizomaticamente em era de politicoeconomia e esquizofrenia entrelaçadas. […] (p. 36-37)
No trecho acima, a indiferença e o sem sentido do mundo físico e biológico, representados pelo césio em ação no corpo humano, se chocam com o sofrimento físico e psíquico das vítimas – e dos que se compadecem por elas. Contradição expressa em belas e terrificantes metáforas como “cãoazul” e “o mal e o horror amoral e sem nome”. Do fundo agnóstico e indiferente da física e da biologia que constituem o mundo e o homem, emerge o sofrimento e a dor, assim como o desejo de dar sentido a estes afetos e os compartilhar pela comoção. Os poemas do livro encontram-se, portanto, num campo de tensão que oscila entre a percepção do sem sentido da vida e o desejo de sentido, que constituem de forma contraditória o ser humano da modernidade.
O palimpsesto e o origami são metáforas agnósticas do sem sentido do mundo, como já foi dito anteriormente, mas não apenas isso, pois remetem também ao seu oposto, ou seja, ao desejo de sentido. Palimpsesto e origami são, portanto, metáforas da tensão, tão cara ao poeta, entre ausência de sentido e desejo/construção de sentido. Tensão que atravessa a vida humana, suas memórias e a própria escrita poética, que também quer significar o vivido:
No palimpsesto da memória fiz dobras em vértice e horizonte. e também: ideogramo origamis para a linguagem que se fala nas ruas sem nome
(p. 62)
As sucessivas escritas sobre o pano de fundo insondável do palimpsesto e as intrincadas dobraduras da matéria inerte do origami são (desejos de) construções de sentido que o ser humano empreende, muitas vezes de forma inconsciente, a partir e contra o sem sentido do mundo e da vida. E no trecho acima o poeta nos alerta que sua escrita poética devém como palimpsesto e origami para resgatar e ressignificar a memória. Ora, como nos ensina a psicanálise e a história, a rememoração afetiva e consciente do trauma passado é o fundamento da reconstrução do sentido da vida presente, de uma forma mais sã e humana. Processo de ‘cura’ e humanização que se aplica tanto ao indivíduo quanto à coletividade.
Um poema palimpsesto para lembrar de Leide
palimpsesto nº 1 para piano e pássaro morto
Era uma vez uma menina. Era uma vez ela e um quarto. Num quarto hospital ela rodeada de bonecas. E o invisível azul mastigava ela por dentro e por fora. Estava cercada de flores, e depois cercada de chumbo e pedras. Era uma vez uma menina que irradiaria por séculos o seco silencioso som do sono. (p. 29)
O “era uma vez” do conto de fadas se refere a fatos fantasiosos mas que, em geral, possui um fundo de realidade social, como a fome, os dilemas morais, a sexualidade etc. Ao tentar desvendar o real na origem dos contos, o exegeta se depara com essa realidade difusa que as fábulas significam e ressignificam sem cessar, como num palimpsesto de camadas sucessivas de sentido.
Mas o acontecimento do poema acima, a morte de Leide das Neves, não é fantasioso nem indeterminado socialmente, e mesmo assim o autor se refere a ele com um “era uma vez”. Talvez esse recurso à retórica da fábula denuncie um esforço da sociedade em esquecer (indeterminar) o acidente radioativo e suas vítimas, ou talvez porque mesmo o mais documentado dos fatos, quando rememorado, acaba por se turvar e se misturar à imaginação. Rememorar, portanto, não deixa de ser um ato de ressignificação, sempre, ainda mais quando se trata de uma memória traumática que se quer esquecer.
Então, o poema rememorativo é uma camada significante a mais e em meio ao palimpsesto de sentidos que todo ato lembrado (e esquecido) é. O “era uma vez” do poeta nos alerta que lembrar, mesmo que seja o fato real da morte de Leide, é fabular, ressignificar, construir sentido, um sentido a mais que se acrescenta à multiplicidade irredutível do palimpsesto do que se é narrado/rememorado. E alerta ainda que há uma enorme liberdade em fabular, mesmo sobre, fatos reais. Pode-se escolher esquecer, aludir, refratar, relatar os fatos objetivamente etc. Ou se pode optar por uma lembrança afetiva que reavive o acontecido para que ele nos afete novamente. É este tipo de lembrança que este poema (e todo o livro) procura re-construir, tornando o leitor um contemporâneo e um vizinho da tragédia, como se fôssemos testemunhas do sofrimento de conhecidos nossos.
Assim, o sentido a mais que se fabula, que constrói a partir do “era uma vez” é o da comoção e (porque não?) da compaixão por Leide, acometida do mal amoral, invisível e cego. O poema rememora os dias finais da menina, enclausurada num ‘quarto hospital’, rodeada de bonecas e cercada de flores e doença (“o invisível azul mastigava ela por dentro e por fora”), e depois cercada de chumbo e pedra. A partir do contato com o césio, a vida de Leide se torna uma sucessão de dor e clausura, até o cerco final da morte, que a encerra num caixão de chumbo dentro de um túmulo de concreto. O procedimento anafórico de repetição de sentidos (num quarto, rodeada, cercada) conduz a fábula, de tom aparentemente singelo, num crescendo espiral de horror até o desfecho trágico.
Ao final do poema, há outros dois tipos de repetições, desta vez sonoras, que são a aliteração em ‘s’ e a assonância em ‘o’: “Era uma vez uma menina que irradiaria por séculos o seco silencioso som do sono” [grifo meu]. Um arremate que faz ressoar na matéria-forma sonora do poema a radioatividade do corpo contaminado de Leide e a própria morte. Mal radioativo que persiste mesmo depois da morte: “irradiaria por séculos”. E esse mesmo ressoar sonoro forma, em termos semânticos, uma bela, e trágica, metáfora para a morte: “seco silencioso som do sono”. Não é apenas a radiação, mas também a morte da menina que ressoa (irradia) de forma comovente na sonoridade final do poema.
As repetições do poema (anáfora, aliteração, assonância), bem como o ritmo e a metáfora são procedimentos que dão ao texto o seu aspecto poético, (re)dobrando a linguagem no canto silencioso do poema. Mas a repetição é também um recurso mnemônico, um artifício para o leitor, e o poeta, relembrar o poema, o que ele diz e como o diz. No caso de um poema rememorativo como o “palimpsesto nº 1” – e, na verdade, todo o livro – lembrar do texto é relembrar da vida e da morte de Leide, é explorar suas dobras recalcadas (de origami?), expô-las e ressignificá-las, acrescentando sentidos e afetos a mais no palimpsesto da memória coletiva dos fatos.
O poema (todo o livro) é uma exploração, exposição e ressignificação da memória para resgatar, compreender, se indignar e se comover com o sofrimento da menina, vítima de um mal impessoal e indiferente ao sofrimento: o Césio 137, mas também o Estado e boa parte da sociedade. Essa comoção da rememoração, que nos leva ao compadecimento (padecer junto) para com as vítimas, nos lembra que ainda somos humanos carregados de afetos, lembrança que já nos humaniza em meio à fria impessoalidade do mundo moderno e seus “sólidos mecanismos da cidade goiânia” (p. 43), que quer moldar a existência humana apenas com a razão instrumental dos seres úteis e funcionais.
Um livro necessário
Nem Goiânia nem o país querem relembrar o acidente radioativo de 1987, mas é necessário remexer essa ferida mal curada da sociedade, que trouxe dor e morte a pessoas simples e sem voz. O livro é uma tentativa de falar, não por, mas junto com essas pessoas e a partir de seu sofrimento que, afinal, é o sofrimento humano diante da doença e da morte, agravado por uma sociedade cuja mecânica fria e utilitária (“as engrenagens da cidade”, p. 24) esquece os desimportantes desde o nascimento e tenta esquecê-los ainda mais quando se tornam um problema para seu funcionamento e sua autoimagem.
Wesley Peres empresta sua voz poética, sua perícia experimental e seus dilemas existenciais e filosóficos para seus concidadãos anônimos que pereceram diante do mal invisível e amoral da radiação. Se a vida humana, em essência, não tem sentido nem fundamento, esse generoso ato de rememorar, se comover e se compadecer pelo outro, e também de se indignar com a indiferença de boa parte da sociedade diante do sofrimento alheio, ato literário-afetivo que é do poeta mas também do leitor, talvez este ato construa para a vida um significado, não metafísico, mas mundano, que faça o ser humano ter sentido não como ser em si transcendental, mas como ser social, fundado no chão histórico do mundo.
Assim, a comoção do autor e do leitor com as vítimas faz com que suas vidas não tenham sido em vão e sem sentido, assim como as nossas. Enquanto guardarmos vivamente na memória a tragédia e os que a sofreram, estaremos salvos, nós e elas, não para o Reino de Deus, mas para a humanidade ‘demasiadamente humana’ do humano, com suas alegrias e sofrimentos, sua fragilidade, finitude, contradições e imperfeições. Salvos como humanos, como seres sociais contra a indiferença da natureza e da sociedade (pós)moderna que nos objetifica e instrumentaliza e, em consequência, nos des-socializa e desumaniza.
Wilton Cardoso (Morrinhos/GO,1971). Graduado em Jornalismo (UFG) e doutor em Estudos Literários (UFG). Poeta e ensaísta, publica seus textos em seu blog pessoal. É funcionário público e mora em Goiânia.
O silêncio
não é o melhor meio
de conter acidentes.
corpo escolha luz sorte
detalhe perda relógio tudo
existe além da linguagem
(seu nome:
serial de rumores
que nada diz
sobre seus gestos)
Talvez ler
o livro do mundo
seja também
saber perdê-lo.
Antes do ruído
a vida é.
***
Passo
Ainda que isso seja
inversamente proporcional
(pode ser que eu me perca
no meio do passo
e tudo acabe
antes de você chegar)
quem não dança,
esmaece:
gira
mais devagar.
***
Oberkampf
Nossos pais morreram
no mesmo acidente estúpido:
vimos o sangue,
vimos os corpos.
E você me fez prometer
que jamais
te deixaria
Morávamos
no mesmo
prédio,
no mesmo
andar.
Sua porta era colada
à minha porta e
entrar no seu quarto
ou no meu
era igual,
mas ao contrário.
O metrô passava a cada
três ou quatro
minutos
a estação era a cozinha
da sua casa,
parecia Oberkampf
mas com menos
azulejos amarelos.
Sua voz ainda era
uma força da natureza
que me alcançava
na sinestesia
dos sonhos.
E dos sonhos
acordei
e nunca mais
escrevi sobre cadernos
folhas
em branco
desertos
palavras escondidas
atrás de
palavras escondidas
E as coisas passaram
a ser como antes eram:
as coisas,
só as coisas
pouco importa a ênfase
pouco importa a verdade
o que importa é a vida
(e a vida
não cabe).
***
O desamparo é um labirinto perverso.
Onde nunca se imagina a saída,
é justamente o lugar em que ela está:
…………………………………………………………na entrada.
O princípio é isso:
duvidar de tudo sem saber
de nada.
Não alcançar o interruptor,
um vislumbre de móveis
e mágoas.
Crianças crescendo no escuro.
Perséfone
descendo
escadas.
(mas só bem mais tarde elas entenderiam essa metáfora)
***
Uma década com os olhos
cheios de névoa
e as mãos
tomadas por livros
errando
por corredores
onde as mulheres que se pareciam comigo
falavam baixo pediam
desculpas
…………………………………………………………………..sumiam
***
I
Nunca estou sozinha nos corredores
de lojas e supermercados;
isso poderia ser uma história de amor,
mas é exatamente o contrário.
***
II
Existem várias maneiras
de se livrar de um corpo:
obrigue o corpo
a esconder
seu corpo;
olhe pro corpo
como quem vê
outra coisa
no lugar
do corpo;
ensine ao corpo
que tudo bem
ser ferido e morto
por outro corpo;
convença o corpo
de que ele é
apenas um corpo
e nada mais.
Laura Assis (Juiz de Fora, 1985) é poeta, tradutora, editora e professora, com doutorado em Literatura pela PUC-Rio. É autora dos livros “Depois de rasgar os mapas” (Aquela Editora, 2014) e “Parkour” (Edições Macondo, 2022). Integra o coletivo editorial Capiranhas do Parahybuna, edita a revista ADobra e dá aulas de Língua Portuguesa e Literatura no CAp. João XXIII/UFJF.
Árdua tarefa tentar descrever um ser peculiar como Juvenil Silva. Aura despretensiosa de artista, veia de poeta, prosa (boa) de trovador. É alma pernambucana, carne de Carnaval, casca rachada de caranguejo. E por falar em prosa, como é bom debruçar-se sobre as reflexões nada juvenis do “compositor, tocador e cantante”, como define a bio de sua conta no Instagram. É bom ouvi-lo filosofar sobre os efeitos da pandemia em nós mesmos e sobre seus discos, ou melhor, sobre seus “álbuns de fotografias abstratas”.
Juvenil nasceu autodidata e já trocou uma bicicleta por um contrabaixo, quando criança. Iniciou sua trajetória na banda Canivetes, foi agitador cultural por uma década no A Noite do Desbunde Elétrico (conhecido como “o festival anual de rock independente ou a noite mais doida do ano”, em Recife) e atualmente concilia três projetos paralelos (Avoada, Dunas do Barato e A Banda dos Corações Selvagens). Além de seu trabalho solo, ainda comanda seu próprio selo musical e é idealizador de projetos como o Discos Offline ou Vende-se Música. É um acumulador de funções artísticas e um aglutinador nato.
Não é fácil também seguir trilhando um caminho musical há mais de duas décadas pela cena independente. E se tem uma coisa que Juvenil sabe, é ser livre, seguir como um pássaro seus próprios fluxos estéticos e não se dobrar a nenhuma tendência migratória. Talvez o artifício sejam as “canções coracionais” desse eterno psicodélico. Por ora, seus próximos voos reservam o lançamento do primeiro disco de seu projeto coletivo Avoada e de seu quinto álbum solo.
Esta conversa sem pressa, “sem relógios”, como o nome de seu single mais recente, reflete algumas considerações da mente criativa e do coração generoso desse sujeito consciente e engajado, amante das plantas, dos gatos e da arte – no sentido mais genuíno da palavra. Um encontro do Juvenil menino com o Juvenil maduro celebrado em nossa Pequena Sabatina ao Artista.
Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova
DA – Praticamente 9 meses (uma gestação inteira) separam o lançamento de Lonjura (2021), seu álbum mais recente, do seu retorno “oficial” aos palcos. Qual o impacto dessa distância (ou dessa “lonjura”) entre o lançamento do disco e a retomada dos shows com público?
JUVENIL SILVA – Pra ser franco, ainda não me sinto de volta. Não sinto esse “retorno oficial aos palcos”. Não como antes, talvez nunca seja como antes, talvez seja melhor algum dia, ou mesmo parecido. Mas no momento ainda me sinto dentro dessa “Lonjura”. Por exemplo, o EP foi lançado, mas nunca executado ao vivo. Nunca houve show de lançamento. De algumas pequenas apresentações que tenho feito, ainda não sinto algo forte, real, presente. Acredito que isso se deve mais a mim mesmo. Às vezes, a gente vai tão longe lá dentro que fica sem saber por onde, nem como voltar. Mas por ora, tô mais interessado em ir, seguir. Só pra ver no que vai dar.
DA – Apesar do isolamento social no qual foi concebido, o Lonjura teve inúmeras parcerias. Você ainda pretende fazer um show/turnê de lançamento? Ou você acredita que este EP em particular funcionou como uma espécie de registro, um recorte desse momento introspectivo pelo qual todos nós passamos (e ainda carregamos sequelas)? Qual o significado desse disco para você?
JUVENIL SILVA – Sim, meus discos são recortes do tempo, álbuns de fotografias abstratas. Espelhos emocionais do subconsciente. Sobre a produção do EP, é mais sobre um mergulho prazeroso nas possibilidades do que um aperreio com as dificuldades que o isolamento trouxe. Explorei ao máximo isso de gravar com vários músicos, cada faixa traz uma galera diferente e de lugares distintos. Algo que antes era mais resumido a ensaiar com uma banda e gravar. No período de isolamento eu me reconectei com pessoas que estavam perdidas nessa “lonjura”, que mais existe dentro de nós mesmos. Pois perdidos ficamos em nosso emaranhado universo de afazeres, demandas e péssima utilização de nosso tempo.
DA – Como você avalia o atual papel da arte e do artista diante dessa “poluição midiática”, calcada em excesso de informação e escassez de conteúdo, e ancorada em algoritmos, militância e inquisição virtual?
JUVENIL SILVA – Em relação ao papel da arte, acredito que é algo que deve ser livre de qualquer coisa. Por mais que na mídia a gente tem visto ela sendo explorada de modo tão engessado. É triste, o capitalismo sempre fez esse joguinho sujo. Se apropria de culturas, discursos, bandeiras… A qualquer custo. Mas a arte em si, (r)existe para além disso. Eu não tenho muita paciência para seguir tendências, só sigo um próprio fluxo de ciclos estéticos que vão deslanchando naturalmente. Por mais que, na maioria das vezes, aparentemente, eu esteja de ré na contra mão (risos). Sinto que vivemos numa espécie de saturação dos sentidos em relação à arte. Um tedioso fast food cultural. A gente come tão rápido que nem sente o gosto e depois vem outra coisa e depois outra, não se degusta e nem se absorve direito. Essa entrevista, por exemplo, a maioria das pessoas vai ler apenas a chamada da matéria, algumas vão até compartilhar mesmo sem ler, outras vão ler pelo menos o começo… (Oi pra você que leu até aqui!). Infelizmente, toda essa avalanche de informação não nos torna mais sábios e sim pelo contrário, é tudo tão ligeiro que nem temos tempo pra pensar direito. E a festa continua, seja lá como a coisa esteja.
Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova
DA – O que nos reserva o próximo fluxo de Juvenil Silva? Um novo álbum, uma nova produção?
JUVENIL SILVA – Faz tempo que não lanço um álbum cheio, né? O “Suspenso” é de 2018. Talvez eu ande meio desacreditado desse formato. Não por ele em si, pois amo ouvir álbuns, mas pelo modo que as pessoas vêm consumindo música. Bem, tenho um disco guardado e pode ser lançado a qualquer momento. Em janeiro lancei um single dele, a faixa “Sem Relógios”. Na verdade, são 7 canções, daí existe uma dúvida em deixar como EP ou pôr mais músicas e fechar um álbum completo. Também estou imerso nas gravações do primeiro álbum do projeto coletivo “Avoada”. Ambas as produções serão lançadas ainda este ano. Acredito que o meu sai ainda este semestre e se chamará “Um Belo Dia Nesse Inferno”. Nome que seria do meu primeiro disco, lá em 2013. Não só o nome, mas também a estética. Pois desde o início eu queria lançar um disco de folk psicodélico, acabou que fiz algo mais rock psicodélico, folk rock… Mas agora vai. Recomeçando da maneira que eu iria começar.
DA – Por falar em Avoada, esse não é o único projeto coletivo que você participa. Você ainda integra o Dunas do Barato e A Banda dos Corações Selvagens. Quais as peculiaridades de cada projeto e como você consegue conciliá-los com sua carreira solo?
JUVENIL SILVA – Esses projetos coletivos requerem um pouco mais de disciplina e compromisso do que meu trabalho solo, pois envolvem outras pessoas. São vários fluxos alinhados para que se possa fazer algo. Mas também é onde posso aproveitar minha versatilidade no exercício de compor. Na Dunas do Barato, eu trago um material mais voltado pra música brasileira, a banda tem bastante influência dos Tropicalistas. Na Avoada, usamos a canção como veículo de luta. O coletivo foi praticamente formado pra meter o pau nesse desgoverno e fazer isso usando a canção numa estética mais rural, regional, folk. Além desses projetos, que são autorais, tem A Banda dos Corações Selvagens, que faz uma releitura ácida e psicodélica da obra do Belchior, e também o trabalho com o selo Plurivox, com Tonho Nolasco, onde além de gravar e produzir nossas coisas, estamos fazendo a produção fonográfica de outros artistas. De alguma forma, minha carreira solo permeia tranquilamente entre tudo isso e mais um pouco.
DA – Como surgiu a ideia do selo Plurivox? Como funciona a captação de novos artistas para a gravadora? O estúdio já está finalizado?
JUVENIL SILVA – A Plurivox surgiu quando na pandemia comecei a aprender a gravar para fazer meus “Discos off line”, álbuns que gravei e não lancei, apenas vendi. Com a construção do estúdio, que ainda não terminou, e com a troca constante e experimentos com o músico e produtor Tonho Nolasco e a designer Natália Amorim, a coisa foi surgindo naturalmente. Além de gravar nossas coisas, começamos a produzir artistas próximos que admiramos. Até então lançamos alguns singles da Flor de Jacinto e Marcionílio. Outros artistas e propostas estão sendo avaliadas. Ainda esse ano teremos vários lançamentos.
Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova
DA – Seu projeto Discos Off-line funciona como um chapéu virtual enquanto o artista toca na rua e já rendeu 8 EPs. Como tem sido a receptividade do público ao projeto? Você pretende continuar com esses lançamentos ou, de repente, lançá-los em outra plataforma?
JUVENIL SILVA – Os Discos Off-line foram 8 ao todo, “Isolamento Acústico”, “Isolamento Acústico Vol 2”, “Não Amolem os Canivetes”, “Cinzas de um Ano Morto”, esses de 2020. Em 2021, teve “Calendário dos Sonhos”, “Farol das Esperanças”, “Coracionalismo” e uma versão diferente do “Lonjura”, com arte diferente e mais músicas do que o EP lançado. Esse projeto foi algo de guerrilha mesmo, algo emergencial e cumpriu bem o seu papel. Teve uma ótima recepção da mídia e do público. Saíram várias matérias sobre e muita gente comprou. O valor era espontâneo, às vezes compravam um disco por 10, 20 reais, mas, às vezes, 50, 100 ou até mais. Não penso em seguir com esse projeto, pois foi algo estratégico para esse período de isolamento em que não havia possibilidade para shows e outros trabalhos mais. Os Discos Off-line e editais, como o Aldir Blanc, me ajudaram a segurar a barra financeira desses dias impossíveis. Agora, mesmo ainda sentindo que não voltamos por completo com os shows, pelo menos existem possibilidades. Vamos a elas. Saudade da estrada… Cheguei até a fazer alguns shows em São Paulo, mas tenho tocado mais pelo Nordeste. Mas vamos em frente, seguindo e passando de acordo com abrir das porteiras.
DA – Qual a diferença do Juvenil do A Noite do Desbunde Elétrico (festival de rock underground de Recife) para o Juvenil de hoje?
JUVENIL SILVA – O Desbunde Elétrico era um festival que eu e uma turma de outras bandas fazíamos, começou em 2007 e foi até 2016, se não me engano… Ao passar dos anos, ficou sendo produzido mais por mim mesmo. Naquela época, eu tocava com a Canivetes, banda de rock sessentista e psicodélico, com a Dunas do Barato, que fazia um som mais tropicalista e, depois, meu trampo solo. A diferença de hoje em dia, além de mais de uma década de juventude (risos), é que eu era ainda mais maluco e despreocupado, com o tempo a gente vai ficando mais sério mesmo, percebendo o tanto de coisa que acontece ao nosso redor e dentro de nós mesmos. Isso dá pra ver bem nas letras que escrevo. Se comparar as de hoje em dia com as primeiras composições gravadas nas bandas e na carreira solo… Depois do golpe, Bolsonaro, pandemia, términos de relacionamentos e outros tantos traumas, ninguém é mais o mesmo.
DA – Entre lonjuras e avoadas, suspenso ou no meio de lugar algum, o que mais o estimula a seguir trilhando sua estrada musical?
JUVENIL SILVA – Desde que me entendo por gente, me sinto artista, desde os rabiscos mais bobos nos caderninhos… Depois do primeiro violão, pronto. Não tenho, nem quero saída. É o que amo e sei fazer… Esse foi o caminho que escolhi, mesmo com todos e tudo na vida tentando me afunilar para um outro caminho. Àquele que dizem ser o correto: estudar, ter um emprego fixo, casar, ter filhos e morrer temente a Deus. Pois é, fui criado em família evangélica. Temores, hipocrisia e promessas de um paraíso pós-vida, no qual toquei o foda-se e fui atrás do meu próprio paraíso, no aqui e no agora. E não existe outra forma de viver isso, sem o tesão e amor naquilo que se faz. Sejamos plenos, triunfantes e nada menos que isso.
Larissa Mendes já viveu dias impossíveis, mas hoje, na medida do possível, se considera feliz.
Mas Onã, que sabia que essa posteridade não seria dele, maculava-se por terra cada vez que se unia à mulher do seu irmão, para não dar a ele posteridade. — Gênesis 38:9
O beijo de um tempo frio em minha testa/ Alguma luz na água/ O reflexo do meu rosto/ A poesia é meu único amor sincero/ A poesia é meu último amor sincero... — João Maceno
Estive envolvido profundamente com a literatura. Li muitas obras importantes e também escrevi umas coisas, por influência dessas obras, como quase todo mundo. O que fiz com tudo isso eu ainda não sei. Confesso que não me importo muito pelos resultados, porque os processos, os métodos, me envolvem sem que deles possa sair; estes me levam para longe, e qualquer trabalho finalizado se perde no horizonte distante. Sobre o ofício? Ah, dia após dia, sentava-me para escrever, até anoitecer; não saía de casa sequer para comprar um pão. Com esse exercício medonho aprendi a fazer umas coisas. Todavia, logo que me aperfeiçoei um tanto me deparei com aqueles velhos problemas inerentes à ficção. Minha terrível agrura: as personagens se misturavam muito às minhas histórias pessoais e com boa parte do meu caráter — o que é péssimo… porque verdadeiramente, no final das contas, eu não sabia em quem bater primeiro, se neles ou em mim mesmo. Com o tempo, me especializei nesta arte de me perder no universo das personagens, de modo que eu não pude nunca mais desvencilhar uns dos outros, isto é, eu deles. Como escritor eu trabalhava demais, digo, no sentido de não parar nem para comer um brioche de geladeira! Neste universo, a minha imersão era tamanha, eu trabalhava tanto! que estive sempre indiferente às demandas fisiológicas do meu corpo e à família — era o espírito da literatura que regia minha existência para não sei onde, noite e dia —, todavia, depois me apareceram sérios problemas… Não posso me culpar, eu já me perdoei, hoje eu pago por isso e assumo minhas culpas, estou quite com meus personagens e comigo mesmo. Porque para alguns escritores, sua relação com a literatura se configurava tal a uma condição de “aprofundamento singular” — este termo é de Ludwig Vaander-Stelmmer — porque a literatura, devo dizer, é o grande culto! Em outras palavras, eu nunca me preocupei com o tempo do meu corpo, enquanto estive convicto da importância do tempo do espírito. A realidade exterior apenas tem sentido quando incorporada sem pretensões, quando a deixamos perambular pelo labirinto da memória, para em seguida reescrevê-la, não em busca dos “fatos”, mas em busca do “como se” — esta é a nossa salvação… Eles disseram, depois do ciclo de palestras: “Vai com calma, João!”. Eu retruquei (muito embora não estivesse de todo convicto): “Eu sei o que faço, meus colegas… eu sei o que faço…”. Escrevi uns versos e quase os publiquei em livros, a experiência de escrevê-los ficou para sempre, mas a obra se perdeu. Eu vivo tentando… Vivi um tempo de livro quase concluídos, em eternas revisões — é isto o escritor, não se engane! No final das contas eu carregava sempre alguma dúvida se os publicaria ou não, visto que daí em diante eu poderia ser elogiado ou difamado; não me animava a possibilidade de tornar-me reconhecido enquanto houvesse o precedente da difamação, que é aquele estigma que mesmo após a morte perduraria (meus filhos teriam vergonha de mim). Eu escrevia, mas carregava as minhas dúvidas — e por causa destas eu não parava de escrever. Porém, dúvida boa é aquela que possui uma cratera tão grande em seu arcabouço, que pensamento incomodado infla, e se torna maior que a cratera. Hoje, gostaria demasiadamente de precisar alguns pormenores sobre a minha vida — se é que interessa.
Nasci na cidade de Penedo, nas Alagoas, em 12 de janeiro de 1962, sob o nome de Roberto Rabocha dos Santos, e não de João Maceno, meu pseudônimo. Aos 22 anos resolvi enfrentar o destino em São Paulo, e por lá, em alguns aspectos, me dei bem. Aos 32 anos tornei-me profissional da comunicação, redator de uma revista considerada e arrisquei-me pela literário da mesma revista. Neste ambiente de papel e de letras encontrei a mulher que me tolerava e que enxergava alguma beleza em mim — não vi nenhum feito em seu caráter. Casamos em 1996, e em 14 anos de casados e tivemos duas filhas — Clarisse, 05 anos; Alice, 11 anos. Vivemos como num sonho bom, porém, de súbito, aos 48 anos eu estava sozinho num quarto meio mofado de casa alugada a pouco dinheiro; sim, eu fiquei sozinho, porque sem a esposa as filhas escolheram, obviamente, morar com a mãe ou com a avó… (não quero tratar de detalhes do fim do meu casamento, mas adianto que há uma temática trágica, sobretudo “patética” envolvida, e da minha parte…). Ora, sinceramente não tenho ódio ou mágoas contra ninguém. O ódio sem destinatário é arte. Mas, deixa eu te dizer uma coisa: por outro lado, nós amamos e sabemos que amamos, examinamos nossos pensamentos e atos sobre a pessoa amada e cremos que amamos, todavia ela pensa que ainda é pouco, ou desconfia que é bobagem ou enganação. O que nós sentimos é tudo o que temos para aquela pessoa, e ela acha pouco ou inútil…
Após o divórcio, desvencilhei-me da maioria dos compromissos domésticos, ainda bem. Resolvi me debruçar, com o devido empenho sobre o que me restou de fato, aos meus textos. Certo dia, ao acordar disposto, explorei o velho armário cheio de papéis, de algumas traças e ácaros; tentei dar ordem ao que reencontrei. Seis sacolas de supermercado contendo manuscritos velhos, seis possíveis livros que eu abandonara. Muitos papéis, e ao folheá-los, de imediato retomei ao fio da meada daqueles anos passados; eram quase livros, ali, e somente eu estava ciente de que sabia o que escrevera, porque quando se diz a verdade ninguém acredita. Mas, não eram ainda livros, antes de reuni-los, sob a ordem de temas correspondentes. Havia certa desconexão (mesmo as melhoras frases, as que soavam bem, ainda não continham uma verdade). Grandes obstáculos enfrentados, num trabalho interminável, tentei encontrar ou inventar liames. Para alguns textos escrevi coisas que depois chamei de “emendas” e lutei em vão contra outros tantos. Às vezes temos frases aparentemente perfeitas, mas que não passam, no final, de um engodo. Os manuscritos “não aproveitáveis”, aqueles que por si só não forneciam saídas, eu os comi, os umedeci com água ou refrigerante, pus pimenta calabresa e os comi; o texto impossível não me dava outra saída senão trazê-lo para dentro de mim por simbiose, incorporá-lo pelo estômago, já que não sedia ao intelecto.
No final de 2013, eu os tinha organizado todos e atribuído títulos chamativos, tais como, “Diurnos”, “O Caso 64”, “As Aspirações de um Equilibrista”, “Âmago Translucido”, “A Paixão Segundo Margarete”, “Manto Frondoso” e “Piramundo”. Editar tudo me custou muito caro. Trabalhar pelas madrugadas me adoeceu. Emagreci em demasia, houve queda de cabelo e tornei ainda mais impotente. Cara caveirosa e olhos fundos, os lábios descorados, sem brilho. As calças caiam um tanto, as camisas folgaram-se. Neste período, eu pensava ter desenvolvido diabetes. A sorte é que depois de um tempo de folga e de paz — digo, não pensar em nada, não fazer nada — melhorei sobremaneira. A saúde se restabeleceu e se estabilizou. Eu estava grato pela saúde aparente. Pensei em me casar novamente, mas desde sempre fora casado com a literatura; na verdade, fiquei sozinho, ainda bem; eu não queria dar trabalheira a mais ninguém. Eu quis resolver de uma vez por todas, aquela tendência incômoda à vida a dois. Me lembrei de Kant, solteirão, quem sabe apaixonado pela Filosofia. Me lembrei do padre Simão, solteiro, quem sabe apaixonado pela fé. E eu, talvez pudesse estar solteiro, quem sabe, para escrever, porque escrever toma tempo e é a boa solidão.
Em grande medida, meu casamento acabou porque vivia para o trabalho e para a escrita autoral, e foi por causa destes dois universos que me lasquei. O primeiro, abandonei, já que perdera algo mais importante: a presença da minha esposa e filho. Acabei aposentado por invalidez. E o segundo? Não tive forças para abandoná-lo, devido “ao tamanho absurdo e a densidade insustentável da sua inerência dentro em mim” — tal frase parece clichê, mas na verdade eu nunca quis deixar a literatura; a violência sem destinatário é arte… Literatura, deste ofício não se despede; vive-o até o fim, e quem sabe, depois (mas não sou religioso, não penso o “depois” para além de um gracejo). Diante deste quadro, resolvi radicalizar alguns aspectos da minha vida; havia algo dentro de mim que me “roubava” certa parcela da minha concentração. Disse a minha mãe que iria morar sozinho e que cuidasse das meninas com o auxílio da maior parte do meu dinheiro (o que não era suficiente); as meninas gostam mais dela do que de mim e da mãe — digo isto sem mágoas pela opção delas; também não acho oportuna tal opção. Por conseguinte, comprei uma bela chácara em Araçoiaba da Serra (por sinal, mal-assombrada, mas eu ignorava visitantes de toda sorte). Por lá me aperfeiçoei ao meu gosto. Escrevi novos sonetos, escrevi odes, sáficos, gaitas galegas, e outras dezenas de decassílabo; escrevi alexandrinos e bárbaros, enquanto os pardais tentavam chamar minha atenção à janela; reinventei a métrica e a diluí em anarquias criativas que me faziam gargalhar pelas altas madrugadas, sem que as corujas noturnas, pousadas num galho à janela, me compreendessem. Mas percebi, com o tempo, haver em meu corpo uma demanda, que mesmo sendo menos indômita que a fome e a sede, e estando ao largo, ainda me incomodava; era uma ansiedade genital, a maldita libido: ora, eu a sentira muito sutilmente e difusa, muito de longe, muito de leve, porque estava enceguecido pelos versos; mesmo pela manhã, ao acordar eu notava sua presença e a sentia tal a um leve incômodo, que mobilizava dentro de mim certos pensamentos luxuriosos (e eu nem escrevia sobre o tema…). Antes, aquela coisa volátil, sem nome e sem nexo, reverbera vapor dentro, no calor cego da virilha, sem diretamente percebê-la, até que uma noite, devo dizer, depois de algumas perscrutações, me incomodou, porque eu me alegrei com a lembrança voluptuosa de antiga amiga da universidade. Imaginei-nos em mil e uma manobras sensuais, e por causa de pensamentos persistentes enfrentei duas semanas sem escrever um verso, até me libertar razoavelmente. Desde muito cedo, entre outras pulsões medianas, a sexualidade me era enfadonha; casei-me porque me vi obrigado, coitada…; eu muito jovem quis experimentar, me apaixonei e amei, todavia, acabou…. Para o sexo, nunca uma mulher me atraiu, nem homem, nem quaisquer outras das variantes… sempre tive medo desse calor exótico e testicular, desse exercício medonho sobre superfícies macias, colchões sofredores. A libido sem destinatário é arte, eu sei, mas eu não tenho este dom, nunca quis arriscar de fato, na cama fui um fingidor. Para mim, o sexo era a prática dos bichos que espumam pela boca, dos cães e das aves, em oposição à escrita, algo muito lento e calmo e que se faz sobre superfícies duras, escrivaninhas felizes. Quando casado, me cansava muito deste exercício — seus jogos, as caras e bocas, as mãos bobas, os sons monossilábicos incompreensíveis, os lábios derreados, as convulsões momentâneas, a dedicação ao gosto do outro, às frustrações das precocidades, minhas insuficiências, e a traição que ignorava, porque, como disse, o sexo e suas variantes me eram enfadonhas — na verdade, eu gostava quando minha esposa voltava feliz, porque ela sinalizava discretamente que somente neste aspecto eu não me tornara um suficiente. Sei que mesmo a pequena relação se constitui numa dívida de monta, e as asas daquele que voava sozinho se desfaz pelo caminho do matrimônio — me perdoem por usar esta metáfora tão felpuda. Ah, só mais uma coisa: a cama é tudo! Não é à toa que falam tanto da cama quando se fala de relacionamento. Na cama ocorre o “efeito da presença”, eu já disse uma vez, de quando dormindo ou acordado a gente sente a presença forte do outro, a gente acorda para olhar o outro dormindo, ouvir sua voz e sua respiração, olhar seu rosto sempre inédito, dormindo… isto é o amor. Porém, quando o outro desaparece na cama, se torna parte da cama, tal a uma almofada grande com pés e mãos, e nos sentimos como quem dorme só, acabou o amor.
De todo modo, tomei uma decisão definitiva, porque a literatura era a minha vida. Era o ofício! Sim! Até o final da minha vida, como dizia o pessoal do Romantismo europeu. E, um tipo de prescrição para a existência — e eu achava melhor considerar coisas do tipo do que a vida doméstica. Na verdade, a literatura é um modo de existir, é um horizonte, um portal em aberto, um plano existencial cujo alcance é infinito e maior do que a mente. “A literatura é mais extensa do que a natureza” — uma vez nos disse Eleanor Mannoir. A literatura é um plano extensivo, enorme, onde o mundo recosta a cabeça em busca de algum alívio. E é aí, neste orbe imenso, que eu queria viver e morrer. Deste modo, decidi conversar sobre o assunto com o meu médico; já a minha psiquiatra concordou de imediato. Como é de imaginar, o assunto demandou muitas outras reuniões (e a psiquiatra fartava a sua curiosidade…), porque aí, no âmbito de uma longa confrontação, que se enredou entre eu e o médico, havia um aspecto ético que ele denegou por um tempo; somente a muito custo consegui convencê-lo. Ora, é bom saber que em todo tempo da minha existência eu me reconhecia não sendo heterossexual ou homossexual, ou qualquer outra condição sexual. Na verdade, relativamente ao sexo, como prática eu não tinha gênero, eu nunca tomei gosto pelo ato em si, embora de quando em quando meu corpo “se aquecesse”…, e, íntegro desta minha apatia por mim conhecida e compreendida, ainda que no meio desse “fogo”, perseverei; tempos depois, consegui do médico o que queria — a castração, que é parecida à vasectomia, porém, com extração testicular; eu não queria ficar simplesmente infértil, eu queria ser como um Castrato italiano ou um Eunuco judeu e me libertar da libido, ter paz de espírito, enfim. Tal escolha seria para mim um gesto de violência? O que é a violência? A violência sem destinatário é arte. Aliás, meu pai falava que a natureza nos acha uns idiotas: para manter o ciclo da espécie, pela fecundação, ela nos obriga a copular a preço de esmola, o gozo. Mas eu não quero falar sobre isto.
Ora, pesquisando, eu não encontrei nada sobre castração humana nos dias atuais; num dicionário comum, está escrito que “A ‘castração’ no Brasil é um dos procedimentos mais realizados em pequenos animais. Evita diversos problemas de saúde, melhora o comportamento, e é das medidas mais importantes para controle populacional de cães e gatos. O procedimento não costuma ser complicado, porém exige certos cuidados antes e após a cirurgia”. Apresentei este pequeno texto ao meu médico e ele riu; disse que precisava pesquisar… confessou que nunca realizara tal cirurgia. Duas semanas depois, estava eu em seu consultório; me despi ali mesmo e vesti uma camisola hospitalar aberta nas costas. Numa sala pequena e branca, cerâmica até o final da parede, deitaram-me numa maca estreita. Uma enfermeira aplicou Clonazepan na entrada de um cateter na venosa do braço, porque eu estava um pouco hipertenso e nervoso. Um homem grande me pediu para sentar, ordenando que não me mexesse e aplicou a anestesia raquidiana em algum lugar da minha coluna serviçal. Logo eu estava paralisado da cintura para baixo. O doutor Aristóteles, meu médico, estirou uma pequena cortina, lado a lado à minha cintura e eu não vi mais meus pés, até ele erguer as minhas pernas sobre dois pedestais. Os três começaram a conversar sobre coisas banais, ou seja, era o sinal, a cirurgia havia iniciado. Em vinte minutos ele me mostrou meus testículos na palma da sua mão, e eu não pude segurar as lágrimas, num choro copioso, porque me senti como se houvesse perdido o elemento ancestral da minha existência e que me fez ver ali os rostos saudosos do meu pai e do meu avô. O médico disse que eu deveria parar de chorar, porque aquelas convulsões em meu ventre poderiam desencadear uma hemorragia no local da cirurgia, durante o processo. Ele me costurou por baixo, enquanto eu enxugava minhas lágrimas; realizou seu último ponto e me disse: “Missão cumprida, meu caro… De hoje em diante você será para sempre um homem indiferente ao sexo”. A enfermeira me olhava triste. Por questões éticas talvez o médico mantivesse segredo quanto ao meu caso, por isso ela me olhava triste. Se manteve segredo eu ainda não saberia entender aquela expressão de tristeza nos olhos impecáveis da enfermeira. Nos dias seguintes acordei taciturno demais, de modo que levantava tarde da cama e não conseguia realizar a menor tarefa em meu cotidiano. Meu consolo foi ouvir Pink Floyd e os álbuns Zeit e Alpha Centauri do Tangerine Dream, o dia inteiro, semanas a fio, até sarar. Nos quinze dias seguintes à cirurgia, eu não pude beber vinho e isto me foi aterrador, torturante, porque a embriaguez em momentos decisivos sempre me foi uma grande salvação, quase uma salvação escatológica. Eu sentia uma tristeza persistente e difusa, que estava não somente dentro de mim, mas em tudo ao meu redor, como quando se perde um ente querido; a minha tristeza estava nas paredes, nos móveis, na voz dos transeuntes, na réstia empoeirada que riscava o chão, no chilrear dos pardais, no cinzeiro de latão, nas cuecas sujas dentro do cesto de plástico, na reprodução de um nu artístico de Toulouse-Lautrec em minha parede, na forma quadrada da janela, sobretudo no encarnado soturno do arrebol de fim de tarde. Eu pensei que ia morrer de tristeza. Não havia ombro amigo nem outro consolo, porque ninguém sabia do meu caso, e o médico não me ligou nem para desejar boa sorte. Somente Deus sabia da minha situação, mas Ele talvez não gostasse da minha literatura.
Nos meses seguintes me sucedeu uma calmaria. Meu lar tornou-se mais claro, no espelho meus olhos tornaram-se mais inocentes, meu rosto rejuvenesceu-se uns dez anos, e minhas mãos tornaram-se mais dignas. Minha concentração nas coisas era precisa, meus pensamentos tornaram-se irrepreensíveis, minha autoestima subiu, as ideias fluíam em enxurradas (e eu anotava tudo!); eu conseguia articular pensamentos e conceitos complexos com grande coerência, e mesmo um ser de luz, um homem vestido de branco, rosto luminoso, olhos esfogueados, de uns dois metros e meio de altura, conversou comigo a noite inteira, em minha sala, sentado em meu sofá, e até tomou um chá de boldo comigo — disse-me coisas inefáveis que deveras não é lícito narrar agora. Meu corpo tornou-se como corpo de menino; meus ombros se encolheram, minhas pernas afinaram-se, meus pelos caíram, minha testa ampliou-se para cima e para os lados, minhas rugas desapareceram, meu maxilar tornou-se harmonioso e gracioso, meus incisivos retraíram-se dentro da minha boca, e brotou uma flor em meu peito, deixei de ser carnívoro. Meu pênis tornou-se ainda mais “sanfonado”, de modo que encolheu até quase desaparecer abaixo do umbigo, sobretudo nos dias frios (e como não me restaram testículos, minha virilha era tal a virilha lisa, sem protuberâncias, de um inocente boneco de brinquedo, ou de um andrógino). Passei a realizar enemas em mim mesmo, com o intuito de me libertar um pouco mais dos processos mais baixos do metabolismo animal inerentes a este corpo. São arte os empenhos sem destinatário.
Foram três meses de inoperância total, após a castração; emergi lentamente na escrita e nas leituras, isto de um modo quase sobrenatural, elevando estas duas ao patamar da mais leve e pacifica religião — confesso que eu estava eufórico, excitado de espírito; nunca uma libertação física me trouxe tamanha graça espiritual. Vivi uma mística nova, para além de qualquer recalque freudiano. A um só tempo estava liberto do pudor religioso e do cio dionisíaco. Me arrebatei às nuvens do vernáculo, e era tudo que eu queria, e lá encontrei o divino, o numinoso, o plenamente suficiente, e escrevi bastante. Descobri que a maior emancipação de um homem é perder os instintos. Hoje o alvor dos versos de camões está plenamente apreendido em meu ser. Posso dizer que vivo um nível outro de existência. Estou absolutamente convencido que as pulsões do animal no corpo do humano (sexo, pavor da morte, medo do imprevisível, agressividade, excreção) são um terrível estorvo diante do alto nível de humanidade que se descortina no tempo presente, e do qual sou o primeiro e único representante. Eu sou o übermensch de Nietzsche. Amigo, é preciso elevar nossa humanidade até patamares nunca antes imaginados — e tal libertação somente se fará pela libertação das pulsões, e o sexo é a pior delas! Todas as guerras e todos os males têm sua raiz na transa, têm seu aspecto corrupto também nas pulsões diversas! É preciso elevar o logos aos planos antes inimagináveis! Libertemo-nos a nós mesmos da velha sentença aristotélica do “humano como animal”! O “bicho” no corpo é uma cifra diminuta no calcanhar da existência, e o humano é todo o cosmo! Podemos ser como os santos anjos. Um dia nos aproximaremos daquilo que os antigos orientais denominavam de deuses (e os ocidentais de Sofia)! A busca sem destinatário é arte. E, que todo homem se castre por amor a si e ao devir, e escreva belos poemas, no intuito de libertar a Natureza dos nossos equívocos milenares.
Wellington Amâncio da Silva nasceu em 1979, em Delmiro Gouveia, Alagoas. É professor graduado em Pedagogia e Filosofia, e tem mestrado em Ecologia Humana. Editor das Edições Parresia. É membro da equipe editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Em literatura, publicou-se: Apoteose de Dermeval Carmo-Santo (2019), O Reneval (2018), O Quasi-Haikai (2017), Epifania Amarela (2016), Distímicos e Extrusivos (2016), Diálogos com Sebastos (2015), Primeiros poemas soturnos (2009) e Elegia da Imperfeição (2001).