Sweat é o segundo longa do realizador sueco Magnus von Horn. O filme é uma realização sueco-polonesa e seu enredo se passa na cidade de Cracóvia. Deveria ter sido exibido em Cannes 2020, porém a pandemia cancelou a apresentação. Atualmente está disponível pela plataforma de vídeo por demanda MUBI.
O filme aborda a vida de Sylwia (vivida pela atriz polonesa Magdalena Kolesnik), uma instrutora de educação física, ou de “fitness”, que se tornou uma celebridade das redes sociais pelas quais ministra suas aulas. O longa abre com a cena de uma aula presencial num shopping center transmitida ao vivo pelas redes sociais. Sylwia precisa não apenas guiar seus alunos presenciais, mas também os assistentes virtuais. Toda cena é tipicamente artificializada, desde a música eletrônica acelerada, o ambiente pasteurizado do shopping, a animação frenética e a coreografia ritualizada do desempenho físico extremado que faz “suar” os participantes. E logo após a aula, a confraternização coletiva se faz ao vivo e à distância, com muitas imagens de selfie de uma felicidade tão exuberante quanto os exercícios.
De fato, Sylwia é uma influenciadora das redes digitais sociais, sobretudo da plataforma Instagram na qual tem milhares de seguidores. Assim, após a aula no shopping, quando retorna sozinha para casa, ela deve permanecer presente na rede digital, comunicando suas impressões do dia, respondendo aos comentários, apresentando sua agenda semanal, transmitindo mensagens positivas aos seguidores. Deste modo, ela é antes uma “coach de fitness” do que instrutora de educação física. Coach é uma personagem típica dos novos tempos digitais, pois deve agir como o influenciador estimulante para uma sociedade estagnada. Ele é menos alguém que tem um conhecimento específico para ser transmitido do que um incentivador de comportamentos. No caso de Sylwia, ela transmite a ideia de uma vida regrada, de consumo sustentável, vegetariana, que preza valores éticos como a reciclagem do lixo e o comportamento politicamente correto, no qual não cabe o preconceito, o racismo, ou a misoginia. Portanto, como já indica o termo fitness, a questão não é manter uma condição física saudável, mas sim um comportamento adequado, modelizador e modelizado.
Sweat / Foto: divulgação
No entanto, quando em uma live a influenciadora perde o controle e se emociona em função de seu sentimento de solidão, o público estranha seu estado emocional, provocando dúvidas e preocupação entre os seguidores na rede social. A exibição espontânea de vulnerabilidade faz com que Sylwia perca a oportunidade de se apresentar num evento remunerado. Os patrocinadores não gostam do fato de que uma influenciadora, que deveria demonstrar equilíbrio psíquico, tenha aparecido tão inconstante. O desequilíbrio acidental afetou a adequação entre sua imagem e o ideal. De fato, a contínua exibição de sua vida privada na rede social faz borrar justamente a fronteira entre o privado e o público, entre a transparência de sua imagem e a obscuridade de sua vida interior. Ela aparece nas redes sociais não apenas dando aulas, mas também preparando comida, se arrumando para festas ou apresentações, transmitindo mensagens de autoajuda. Ela faz das redes sociais seu habitat, extensão do mundo. E Sylwia deve sempre corresponder, em sua imagem icônica, àquilo que ela prega nas aulas. A função básica do coach está na adequação entre forma e conteúdo.
O filósofo Walter Benjamin em seus ensaios seminais nos mostrou que o cinema é uma técnica que permitiu aos trabalhadores confrontar as máquinas com seus próprios rostos e poder encontrar assim uma imagem livre para o humano na sociedade industrial. Theodor Adorno, amigo e interlocutor de Benjamim, já era mais cético quanto às possibilidades emancipatórias da técnica cinematográfica, pois acreditava que a indústria cultural submeteu o cinema à lógica fetichista e regressiva da mercadoria. Guy Debord, por outro lado, viu na imagem espetacular veiculada pelas grandes produções do cinema o ícone de um distanciamento que a reifica no consumo anestésico do espectador. Este é então incapaz de se reconhecer como o produtor da imagem distanciada pelo sistema do espetáculo.
Sweat / Foto: divulgação
Com as redes digitais, no entanto, passamos a um grau diferente da relação alienante entre a técnica e a humanidade. As pessoas não são mais apenas espectadoras passivas e distanciadas das imagens, como descreveu Debord, mas ao mesmo tempo suas produtoras e consumidoras. Consumimos as figurações elaboradas por nós mesmos tecnicamente como perfis e avatares, em comum com múltiplos outros perfis. E o popular e úbiquo selfie se torna um curto-circuito entre a imagem gerada e a assistida, como um “mise em abyme” que lembra as pinturas modernistas de Erscher e Magritte, com imagens dentro de imagens. Mas o selfie não é apenas uma forma de autofiguração, mas o próprio modo em que as imagens aparecem nas telas digitais em rede, que compõem um enorme aparato envolvente, devolvendo-nos, mais do que refletindo, as imagens nele projetadas. Não é que as plataformas sociais forneçam uma imagem especular individualizada a cada usuário, pois as próprias redes dobram-se como uma tecnologia-espelho que reflete a si mesma.
É possível se referir ao tópico da “sociedade de controle” ou da “vigilância”, mas o aparato panóptico não é o de um Grande Irmão que a todos vigia, mas é composto pelos múltiplos olhares que seguem e são seguidos. O perfil construído por Sylwia obedece então aos protocolos técnicos de comunicação das plataformas, que são também protocolos sociais. Ela influencia o olhar de seus seguidores e, por sua vez, os seguidores também são os olhares nos quais Sylwia se vê. Ela é a coach que modela os corpos e as personalidades, e é também modelada pelos olhares de seus admiradores. As cenas dolorosas de exercício na academia servem para adestrar seu perfil à plataforma de comunicação, como o leito de Procusto no qual as imagens corporais são moduladas. E tudo começa a desandar quando ela deixa escapar a emoção na entrevista ao vivo e, posteriormente, quando recebe mensagens de um admirador anônimo que está desesperado em sua solidão sem retorno. São os eventos que quebram o curto-circuito narcísico de imagens espelhando imagens.
Sweat / Foto: divulgação
Depois, esse mesmo admirador virtual anônimo começa a perseguir (stalkear) fisicamente Sylwia, e o círculo fechado digital entre influenciadora e seguidor é rompido com a entrada bruta das carências e falhas do mundo real e analógico. A solidão masturbatória do admirador repercute na redoma afetiva de Sylwia e em sua sexualidade reprimida, pois sua vida solitária não encontra resposta na clausura técnica das plataformas. Um encontro casual no shopping com outra seguidora também evidencia à personagem outros vazios afetivos que escapam do mundo virtual. Se as redes digitais simulam esses circuitos de retroalimentação (feedback) entre os perfis de usuários, que virtualmente se encontram e compartilham fantasias enclausuradas, os choques incidentais (mais do que acidentais) com a realidade acabam gerando rupturas. A partir desses cortes, sentimentos antes guardados e contidos extravasam repentinamente. Na cena do almoço em família, quando se reencontra com sua mãe e amigos mais íntimos, fica claro para Sylwia como nem todos os laços afetivos são de mútua confirmação, mas que podem ser de críticas, incompreensões, ou de perspectivas que não coincidem. E a explosão violenta da realidade será afinal a emergência daquilo que não pode ser controlado pelos protocolos digitais.
E é justamente com seu corpo estafado, depois de uma noite tensa, que Sylwia tem afinal um encontro decisivo com as câmeras. Estas cobram dela mais uma vez o foco, o condicionamento e a adequação. Mas a personagem já sabe que há algo de real que foge dessa vigilância cobrada. Sweat, suor, é assim a metáfora daquilo que escorre ou se excreta, isto é, de um excedente corpóreo que não pode ser inteiramente computado pelos algoritmos digitais. Os aparelhos tecnológicos modelam as silhuetas físicas e modulam os sentimentos. Mas há também aquilo que está para além da moldura das câmeras. No circuito fechado das redes digitais, as lentes cinematográficas são como válvulas que permitem a emoção vazar e, em via dupla, incorporar algo de real, contingente e incalculável.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.
dias transbordados em xícaras de café. no corpo, silêncios. cortina, copo, cordão. a colher ainda adormece dentro do açúcar. ontem, sete dias atrás, vinte e dois, talvez, não lembro. a tv me assiste, o presente esgarça. lágrimas afogam peito a conta-gotas. horizonte de expectativas rompido. vivo um luto estendido. cada pessoa que morre habita o topo na pilha de corpos que cosem meus poros. dessocializada no álcool em gel. sorrisos agasalhados, abraços suprimidos. medo, máscaras, mortes. suspensão. angustio toques, engaveto afagos. a vacina bate à porta. Eles escolheram as trancas. a estabilidade são mil mortes diárias. mil camas vazias. mil copos deixados nas pias. mil vidas esfaceladas pela Covid-19. como não morrer dentro de uma política de morte? baços destroçados. o meu é um deles, mamãe. queria descrescer, sentir o balanço das tuas águas. aninhar no teu ventre, desaguar pulso. ventania, sopro, tufão. como não sentir medo sendo uma mulher no mundo? mulher, e agora sozinha. negligenciadas por governos fascistas. língua, lenço, linha. as mães não morrem nas canções de ninar.
***
[fornalha]
pés sufocados. escondo palavras nas meias coloridas. como caber nas frestas? a cada quatro horas rapto doze segundos de tempo. engarrafo momentos. ofegante, peito bate-estaca. fuligem, fagulha, pó. brônquios embaçados, umbigo aberto. as varandas escondem olhares irredutíveis. pensei ouvir minhas águas, não sei nadar. pernas e pelos e peles queimam colchão suado. das línguas escapam benzeno. gosto do cheiro da fumaça no seu cabelo. inflamáveis: costelas e quadril e clavículas. acendo dedos molhados. chamas penduradas em cabides de plástico. combustão distraída sutura paixão adversa. deslizo. pinço delírio nos dias ensolarados.
***
[infiltração]
flores de plástico não gestam lágrimas. bile saturada. pescoço, tornozelo, pulso. falanges Carrara, mapa violáceo. se eu não tivesse tomado aquele picolé de silêncios com cobertura de ameaças, encontraria o palito premiado? espinhos brotam em intestinos fofos. etiquetada. na face, o reboco em seis camadas. no peito, olhares copiosos cavam átrios viciados. empilhada. adormecida entre lascas de detergente e gotas de óleo. pia suja de palavras. desaguada. exaurida desde a placenta. vigiada em caixas. qual a minha fome? ele devorou todo o resto.
***
[fagulha]
sopro fósforos entre a tela de proteção e o céu que não alcanço. deixei infância na feira de antiguidades. ardo parapeito oxidado. dentro de um envelope vermelho na caixa de correios pousa a chave extra. sexto andar. prefiro as escadas. na cama, cobertos de sonhos e saliva e medos. pistas, ponte, passagem. olhar turbulento de maré baixa faísca paredes frágeis. magnetizados. vestidos em lençóis, horas suadas de algodão macio. os ossos guardam memórias? corpos arrepiados, constelações em pilot vermelho. poemas riscados nas coxas. línguas disparam vontades: insaciáveis. sono excitado, pupilas flutuantes. páginas arrancadas pela manhã. fotografo a pele cansada, não perco nenhum segundo de vida. marsala, bordô, cornalina. planto fogo e não colho chama.
***
[beira]
metatarsos dançam lembranças. piso magoado, afagamento escorregadio. quinas, dores, vasos. alinhavada em cobalto e índigo. perambulo espaços cozidos a olho nu. despertenço. veias chaveadas, espuma rápida. pestanas dragam gotículas de pele. sintonizo águas rasas, visto prumo aluado. corrente alternada, lentes em paralelo. pouso, poeira, pulsão. onde afogo os meus sapatos? pendulares são as tardes de domingo, costelas flutuantes atulham taças de abismo. respiro leds acessos. berro. dependuro balanços chumbados na lâmina do teto. salivo lacunas de vento. medula andarilha., carne viva.
***
[ato]
peles afoitas sorriem vendaval. respiros largos, línguas hábeis. na cama desaforada, travesseiros avulsos. jade, buganvília, alamanda. aérea. paredes infinitas. sentados, pelados, invertidos. claraboia observa bulbos talhados. libertos. pequenos lábios acariciam lâmina. corpos abertos devoram os dias. treliças, toalhas, talheres. comidos, amanhecidos. de perto seus olhos me escapam. nuca aquecida, tornozelo em chamas. não aprecio quedas bruscas. me deixa ver seus tentáculos? no varal, roupas abandonadas sugam horas intermináveis. desmascarados. pendurados em sorrisos amplos, viciados em palavras táteis. inflamáveis. piscada em picossegundo. o desejo dorme, a cortina desce.
Gabriele Rosa é historiadora, poeta, artesã da palavra e da cena. Atua como dramaturgista e dramaturga de processo na Bonecas Quebradas Teatro. Graduada em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, integra o coletivo CuidadoPoema. Autora de “Lavínia é mais Rosa que Espinho” (Libertinagem, 2021, no prelo) e “Fendas extraordinárias” (Patuá, 2019). Tem contos e prosas curtas publicados em diversas revistas literárias.
manhã de quarta-feira
botei teu nome na boca do sapo
e costurei com fios do teu cabelo
a fim de levar todas as desgraças do mundo
de volta pra tua cama
pra tua mesa, pro teu banho
a fim de deixar um gosto amargo na tua boca
e teus olhos secos
teus ouvidos zunindo
teus dedos formigando
acendi uma vela vermelha
que é pra tua sede durar 7 dias
tua fome ir só aumentando
a chama atrapalhar teu sono
trazer queimação pro teu estômago
fazer teu corpo suar frio
coloquei a estatueta de Jesus de cabeça pra baixo
num pote de merda de porco
junto com pedaços de unhas tuas
que é pra deus nenhum ouvir teus apelos
e milagre algum te alcançar
depois, de zombaria,
chamei padre, exorcista, freira e benzedeira
e no meio da reza
fiz um boneco de pano com tua foto 3×4
e marquei teu peito em brasa quente
com um crucifixo invertido
matei galinha, comi pipoca,
servi banquete com coração de boi
misturei sangue de virgem com cachaça
botei veneno de rato na água benta
alisei teu cabelo feito de palha
acendi um fósforo
e entre o cheiro de enxofre e de alfazema
te assisti queimar até as cinzas
fui expulsa do reino dos céus ainda criança
mas faz tempo perdi o medo do inferno
hoje o diabo sou eu
graças a deus
***
Sonho
sonhei que ia me mutilando aos poucos
primeiro arrancava todas as unhas
depois cortava um dedo da mão esquerda,
o menorzinho,
depois sumia com a pele dos cotovelos
arranquei a clavícula
quebrei as costelas
expus as tripas, o útero, o baço
no lugar dos seios, sangue
o coração nas mãos
depois também as mãos foram pro chão
com os braços, com o resto
desconstruí tudo que era sabido ser eu
até que enfim fiquei em pedaços
e acordei
sem pé nem cabeça
***
Brecha
não aprendi as coisas básicas da vida
ainda não sei dirigir
não sei nada de elétrica
não sei investir na bolsa
não lembro bem datas nem nomes da história
nem entendo muito
das coisas todas que são importantes
mas aprendi algumas coisas
talvez irrelevantes
como chorar quando alguém chora
e saber ler as pessoas muito bem
e a sentir
sentir muito, todos os sentimentos,
até os que não são meus
e entre a pilha de coisas que eu deveria ter aprendido
e a pilha de coisas que eu deveria desaprender
existe uma brecha pequena
onde eu durmo
***
Boca do estômago
das coisas todas que destruí
sobreviveu em mim esse sentimento na boca do estômago
têm sido dias estranhos,
o passado me visita nos detalhes do cotidiano
nunca mais ouvi uma chaleira apitando.
me sinto mal todos os dias por volta das cinco.
por que será que tenho fome mesmo de barriga cheia?
toda vez que faz frio eu tenho o mesmo pesadelo
e pelas manhãs sinto saudade
de uma versão de mim que talvez nunca existiu
***
tem uma coisa hoje que me atravessa
tem uma coisa hoje que me atravessa
e eu quero gritar de desespero
mas tem um bicho trancado na minha garganta
um gosto de sangue entre meus dentes
e, na língua,
uma palavra
atrasada
tem uma coisa, hoje, me comendo as entranhas
uma dor intensa no joelho direito
e eu quero chorar
mas tem um bicho pendurado na borda do meu olho esquerdo
tem uma coisa hoje que me atravessa
feito flecha, feito soco, feito poesia
uma dor
indescritível
invisível
infinita
mas tem um bicho sentado nos meus ombros
me dizendo
que é assim mesmo:
quando algo dentro da gente deixa de existir
o vazio nos atravessa
***
Sábado
Organizei as gavetas naquele sábado
Guardei as notas fiscais
Os poemas
As senhas
Cataloguei tudo que era importante
Aquela memória de 1998
Alguns desenhos
Chaveiros, ímãs, fotos
Joguei fora o que já não era (m)eu
Boletos pagos
Diários da adolescência
Emails impressos
Apostilas de francês (que nunca aprendi)
O que mais eu deveria deixar à vista caso morresse?
Passaportes
Certidão de nascimento
O número de telefone da minha mãe
A foto e as roupas que quero no meu velório
Meu livro não impresso semi-editado
(Seriam essas as minhas últimas palavras?)
as roupas e a coleção de Milan Kundera para doar
– sorte que não tenho muitos sapatos –
Sobrariam ainda algumas tarefas para o depois:
Alguém teria que devolver as minhas coisas no escritório
Transferir o dinheiro pouco que economizei e não usufruí
Cancelar minhas contas nos bancos
Desativar minhas redes sociais
Apagar os vestígios de mim que deixei
Sem querer
E mandar meu corpo de volta (pra onde?)
Quero que doem meus órgãos,
A pele, as córneas, tudo que sobrar de bom
– não é muito –
E que possam finalmente jogar meus pulmões no lixo
(enfim vou parar de espirrar!)
Se eu morrer nesse final de semana
Ou em qualquer outro
Mesmo que seja às sete da manhã
Já vai ser tarde
Bianca Grassi é uma artista contemporânea baiana que usa uma combinação dinâmica de materiais, métodos, conceitos e temas em sua arte. Formada em publicidade e propaganda com ênfase em marketing pelo IPA, em Porto Alegre/RS, é designer, ilustradora e escritora. Tem um conto publicado no livro Algumas Ficções (Editora De Leon) e poemas em revistas digitais como Mallarmargens, Literatura e Fechadura, Germina e Ser MulherArte. Desde 2016 mora em Praga, na República Tcheca.
Geralmente, é assim: o escritor, num ato solitário e meio transcendente, trabalha para, num outro extremo, ser lido por alguém que muitas vezes nunca o encontrará, mas que precisa ser um cúmplice, apesar da distância. Dessa forma, suponho ser assim também com o cronista que, entre outras coisas, mistura fatos com percepções e sentimentos para seguir em frente com seu trabalho.
Resolvida a introdução desta resenha, venho dizer que Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo, do jornalista e escritor João Mendonça, pode, sim, ser considerado um bom livro de crônicas conforme a sua catalogação. Mas não apenas isso.
Nas 122 páginas da obra, publicada em 2018 pela Via Litterarum Editora, temos o protagonista que se mostra solitário e que usa do expediente comum aos cronistas (o trivial como inspiração) para escrever. Como o autor afirmou em seu site, Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo foi todo produzido “sem a intenção de transformá-lo em livro. Todo ele foi escrito entre 2015 e 2017. Nesse período, eu adquiri o hábito de escrever antes de dormir, deitado na cama”, atitude que cabe numa boa nesse gênero textual de possível origem francesa.
No livro, porém, é evidente a busca pelo melhor texto, o que refuta um pouco a tese defendida por ele sobre não ter a intenção de publicá-lo. Mesmo que essa busca seja algo inconsciente, naquele esquema do fluxo, enxergamos claramente uma vontade, por assim dizer. Além de percebermos um encadeamento de escolhas e gostos, principalmente na relação de Mendonça com a cidade que o cerca e, de forma mais particular, com o seu bairro, o tradicionalíssimo Corredor da Vitória.
Usando como ponto de partida uns bocados de seu cotidiano – frequentar a banca de jornais; tentar conversar com um italiano antipático, enquanto a baiana do acarajé trabalha; a visita de um sobrinho -, conforme uma das “regras” da crônica, desse mesmo ponto de partida surge uma escrita que se mostra muitas vezes etérea. Os textos do Mendonça tendem ao poético, meio no sentido clássico da coisa (plenitude, essas coisas), talvez ligados a um dos conceitos gregos de poiésis que fala sobre a disposição em criarmos algo belo a partir do sentimento e da imaginação (1).
Pois, conforme o próprio Mendonça, as “palavras quando são colocadas de maneira errada precisam ser corrigidas antes da primavera”, no que conclui: “O erro da palavra é o erro da vida”.
Caso prefira, o leitor pode ficar com a ideia do Quintana que fala sobre os poemas (uma das manifestações da tal poiésis) terem ritmo “para que possas profundamente respirar”.
No caso de Mendonça, respira-se bem. Muito bem, por sinal.
Poesia, ainda
Deixando um pouco de lado esse papo envolvendo gregos, troianos e “quintanas”, outro ponto forte do trabalho é justamente a liberdade. Principalmente em relação à linguagem propriamente dita.
No livro de 89 textos, dividido em partes (“Delírios de uma alma abstrata”, de tratamento mais subjetivo; “Afetos, ausências e fragmentos”, mais autobiográfico, e “A vontade que tenho de abraçar o mundo”, sentimental e franco), o autor baiano extrapola a “simplicidade” comum às crônicas – entendendo “simplicidade” como algo corriqueiro captado pelo olhar de um autor, que se converte em algo belo e comovente, mas que busca o entendimento sem cair em hermetismos. Daí que a escolha de João é acertada.
Ele não se priva de viajar um tanto aqui, outro acolá, sempre calcado na beleza do texto. Seus devaneios fogem da descrição direta, se estendem. E, ainda que o leitor se pergunte o que ele realmente quis dizer com determinada frase, a pergunta se perde na fundamental cumplicidade que esse mesmo leitor deverá ter com o autor para seguir em frente. Cumplicidade que deve se manter, já que não devemos esperar a todo instante fechamentos ou conclusões, daquele tipo de frase que encerra algo (uma ideia, um sentimento, um efeito). O compromisso de João Mendonça é com a escrita. Com as possibilidades dela.
É preciso viajar com João, antes de tudo. Enxergar que seus caminhos são internos, abstratos, metafóricos, bonitos pacas e baseados em verdades e em sentimentos bem pessoais. Na relação marcante com o pai, ou mesmo com amigos, parentes, com a cidade e com as namoradas – estímulos do mundo exterior -, Mendonça nos dá a dica: sempre confie no que escrevo, não nos fatos causadores.
Fatos são “molduras novas para meus quadros”, como ele mesmo diz na página 35. Por sinal, a mesma página em que afirma: “já deixei a poesia se livrar de mim. Ela precisa voar” (tendo como base o conceito de poiésis exposto acima, e considerando que tal comparação feita por mim valha algum Real, sequer um Dracma).
Possivelmente, a ideia de trabalhar sem o intuito de converter sua escrita em livro tenha o feito derrapar em alguns momentos. Em miudezas de seu cotidiano, como a ligação de um amigo que se mudou para Londres, por exemplo, o leitor poderá se perguntar o porquê daquilo, pois nesses exemplos a poesia não brota e o ritmo falha. Frases como “O acarajé é a hóstia de quem mora em Salvador” (um pouco estereotipia), ”Uma flor sombria busca incansavelmente sua pigmentação mirando-se para o sol” (aliteração), podem não agradar tanto ao leitor. E quem as lê pode achar um tanto esquisito.
Entretanto, assim como toda viagem tem lá seus trechos de paisagem modesta, cabe mais uma vez ao leitor confiar que logo adiante a coisa melhora. E muito. Além do mais, e curiosamente, não consigo imaginar Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo sem essas paisagens-passagens mais simples, digamos. Talvez por sacar que elas fazem parte da vontade do escritor e do caminho escolhido por ele. Um caminho firme.
Não demora e Mendonça retoma ao devaneio que comove. É quando ele, autor de O Sol Partido, dentre outros, nos surpreende com frases longas, sutis, belas, meio herméticas e ritmadas (olha o Quintana de novo!), tais como:
“Já fui ao Iraque e não te vi na balaustrada perfurada pelas crateras do tempo. Volto sempre ao mar que grita teu nome. Volto sozinho e esperançoso. Nunca mais entregarei a caixa de bombom sem o endereço correto da última casa em que moraste no fim do grande vazio.”
Aforismos legais para mesas de bar (ou para umas camisetas hype)
Em minha opinião, quando um escritor nos dá alguma frase boa e curta, daquelas que nos orgulhamos em repetir em mesas de bar, geralmente ele está no caminho certo.
Evidentemente, tais frases-de-efeito devem ser o resultado de depuração, de um processo coerente, de literatura boa e da reflexão. No caso de João Mendonça, identifiquei algumas dessas pérolas. E em todos os casos as tais frases me trouxeram a certeza de que o livro dele é bom.
Em tempos de “lacrações” e “memes”, pode ser perigoso destacar algo do tipo num escritor. Todavia, considerando o contexto a que essas frases (bacanas e eficientes) estão submetidas e o efeito direto que elas podem causar, acho que vale a pena arriscar.
O fato é que eu não poderia fingir não ter visto coisas como as que seguem: “Assim é a vida: uma sensação de dúvida intermitente”; ”A saudade é o sonho na contramão”; “O mundo transformou-se numa máquina quebrada que se repete contra a vontade dos homens”; “O vento é a chave que transpõe portas”; não esquecendo a já citada, “O erro da palavra é o erro da vida”.
Sabendo que tais aforismos não surgiram de forma isolada e não surgiram para serem “aforismos”, e que eles são, antes de tudo, consequências de parágrafos bem trabalhados, concluo que a intenção de Mendonça não foi “lacrar”. A coisa meio que brotou como final, meio, mote ou princípio; como boa prosa, boa poesia.
Dessa forma, esse autor baiano, além de nos agraciar com um texto fluído e bacana, nos oferece pensamentos que valem uma dessas camisas legais que a moçada usa em saraus – ainda que eu ande meio desconfiado com essa turma; coisa de quem está beirando os cinquenta-de-idade.
Outro ponto a ser destacado é o olhar de Mendonça que também parece capaz de enxergar a conjuntura social e política (acho que as manifestações de 2016 mexeram com ele de alguma forma), muitas vezes reagindo a ela quase imediatamente (ele caminha pela cidade e vê; depois, em seu quarto, discorre sobre). Reação trabalhada com a mesma pegada poética e metafórica de sempre.
“Ontem, o fogo queimou lojas e as praças foram fechadas por precaução. O menino de rua viu tudo do alto da árvore da vida. A mesma árvore que testemunhou inúmeros massacres contra o povo desarmado de ódio e ávido por lutar. O menino viu tudo e não contou a ninguém porque ele vivia sozinho e nesse mundo estranho ele só conhecia a ele mesmo.
O fogo se alastrou com força em direção às margens dos palácios dos brancos. Logo o acusaram e seu rosto parecido ao de tantos bandidos certificava que ele se tratava de um bandido mesmo. A polícia foi atrás dele porque lugar de menino é atrás das grades.”
A infância como tema é também algo presente. E marcante. No caso de Mendonça, boa parte dos trechos mais comoventes nasce daí:
“Deixei então a pá encostada na parede e comecei a cavar com as minhas próprias mãos. Logo percebi que tinha anoitecido rapidamente, desde cedo estávamos cavando. Foi quando comecei a encontrar os primeiros objetos.
O relógio preto que meu pai me deu de presente quando fiz dez anos, a foto de minha primeira namorada, a bola de basquete, o badogue com que eu brincava atirando pedras, o murro que eu levei na cara do meu melhor amigo, os carrinhos de ferro que eu colecionava, o grito da professora, meu sonho de ser astronauta, meus óculos quebrados, a imagem que tinha de Deus, o medo da morte, todos os fantasmas que vinham me atormentar à noite, as músicas de Moraes Moreira, o fim do mundo, o mendigo que morreu na porta do meu prédio, o sorriso de minha irmã, minhas primeiras observações sobre o sol, o escuro das escadas vazias, as mulheres velhas que me assustavam, as cores dos potes de tinta com que eu pintava, a barraquinha de camping…
Continuamos cavando, até que meu sobrinho olhou para tudo aquilo que estava exposto e disse: ‘Todas essas coisas não são mais suas. De quem são?’.”
Apesar de longo, defendo que o trecho acima é digno de ser lembrado; vamos combinar?
Breves comparações
No quesito paralelos-e-comparações (estou tentando ser didático, tenham paciência), outros autores e livros me vieram à mente na leitura de Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo: Lupeu Lacerda e seus “prosoemas”, pela vontade de romper a couraça da linguagem a partir de observações “puxadas” do trivial; José Agrippino de Paula e seu PanAmérica, pela liberdade na criação de cenários, cenas, percepções e possibilidades; e, finalmente, Richard Brautigan, com seu livro Pescar truta na América, pela atemporalidade, pela carga metafórica e pelo tema “vida adulta”. O livro de João Mendonça também me remeteu a outro publicado no Brasil em 1995 pela José Olimpo, chamado Primeiro o amor, depois o desencanto (e o resto de nossas vidas), do canadense Douglas Coupland. Embora ambos sejam bem diferentes na forma e nas intenções (2).
O autor canadense nos mostra uma face bem melancólica da vida, todavia. João, apesar de tudo (incluo aí a homenagem a um tio, no que suponho algo marcante e talvez grave), nos traz alguma esperança. Com uma boa dose de leveza e outro tanto de espiritualidade não no sentido religioso, mas da transcendência, Mendonça se afasta da tristeza vã e segue.
Portanto, e esquecendo um pouco essa coisa minha de comparar-para-parecer-um-gênio, ainda que o Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo tenha sido catalogado como crônica, eu não o vejo dessa forma – não simplesmente. Nesse gênero textual e literário (por que não?), em que nomes como Sabino, Rubem Braga e, aqui em nossa vizinhança, Kátia Borges (também poeta e jornalista), são referências de pompa, creio que o João Mendonça se sairia bem. Entretanto, a sua habilidade em ampliar a linguagem acabou transformando seu livro num trabalho de maior alcance – ainda mais sabendo que as 89 “crônicas” foram selecionadas entre cerca de 300 textos prontos, num trabalho que contou com a ajuda preciosa do escritor e fotógrafo Tom Correia.
Dessa forma, afirmo que mesmo que o leitor se depare vez ou outra com abstrações, sugiro se deixar levar pela beleza e pela poesia contida neles, pois, assim como qualquer viagem, muitas vezes esbarramos em horizontes aparentemente confusos, mas não menos necessários.
Para mim, parceiros, a viagem com João valeu cada minuto. Assim como valeram também as passagens. Tanto a de ida quanto a de retorno.
(1) São muitos os conceitos e suas derivações. Daí que usei uma ideia bem simplória, tipo voo rasante. Tenho pouquíssima bagagem no quesito “Filosofia” (seria Platônico supor que eu manjo do assunto), mas acho que dá para o gasto.
(2) Tais analogias seguem guardadas-as-devidas-proporções e não são limitadores para a leitura de nenhum dos escritores citados, incluindo nosso querido Mendonça. Antes, podem servir como tentativas minhas de compreender esses trabalhos. Além do mais, as semelhanças podem não estar evidentes para você, leitor, pois minha cachola não tem a mesma precisão sacal dos algoritmos (alguém digita a palavra “amor” e o Google indica motéis, flores em promoção, perfumes Jequiti e caixas de Lexotan).
Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.
Leio borra de cafés
nuvens
cartas
faço freelas
como me cansa ser otimista
***
P… A …R …T…O
Se dizes que não sabes se vem
ocupo seu lado da cama
com livros
espero o pai chegar
para a boa hora
tomo cuidado para não gestar algo maior
que fique difícil depois de sair
Pra eles é mais fácil parir
Como dói
uma palavra que só tem no presente
Encaro a conjunção
dou colo para o passado
escolho uma vida
para o destino
das palavras
***
Dura na queda
Olhar para o alto
no grito do falcão
o
aviso
para antecipar o voo
em pleno ar
ao
invés de cair
eu
poderia apenas
ter feito um poema
***
Um prato para os ancestrais
Respirar para o encontro
o grande encontro das forças
sobreviver
pra dançar I’ll survive
Retornar a Aushwitz
desejar ser bisavó
espalhar o dna por ai
No mapa registrar as curvas até Sintra
abrir uma Durex
dar-se conta
de que todos os espermatozoides
no fundo
desejam ser felizes
***
Não choro mais Julio
pelo livro que não fez sucesso
Nem pela poeta que ficou esquecida
Em Sirius
Só me preocupo em regar
Com água solarizada
Sinto forte
A dama da noite
Gero minha própria luz
monstera deliciosa
Sem hífen
virgula
Abre caminho
anti-matéria
amiga:
as alquimistas ocuparam toda a varanda
Recebo agora
um coração
revestido de selenita
comemoro o batismo
a chegada
do meu novo nome cósmico
***
Agora que o sangue desceu
procuro partilhar sonhos
como se estar por cima servisse
como um método contraceptivo
diagramo a mandala
o sangue passeia comigo
junto a serpente
retorno ao Rio
volto para buscar o que pensava ser nosso
visualizo a floresta brasileira
o búfalo
me agarro às orações
pouca probabilidade de ser arrastada por desejos
no primeiro dia do ciclo
não contarei mais
o tempo que leva para uma barba crescer
Duda Las Casas é colecionadora de imagens, oráculos e palavras. Carioca, diretora de tv e cinema, estudou jornalismo em Belo Horizonte e artes visuais no Rio de Janeiro. Duda se divide entre Brasil e Portugal, onde pesquisa a língua portuguesa na Universidade Nova de Lisboa e administra uma página de memes. “Viseira” é seu primeiro livro.
LA MAGNA IMPORTANCIA EN LA HISTORIA SANTA Y PROFANA DEL POPOKATEPLEK
ZUCA SARDAN
Hay ahora una grande polémica diplomática en la ONU, una acerba disputa que opone el México a L’Italia. Los italianos contestan que el Popokateplek sea más importante que el Vesuvio, en la Historia Geológica y en La Historia Sagrada. Del punto de vista de potencia volcánica, el Popokateplek es un volcán de plena y formidable potencia, capaz aún en nuestros días de lanzar llamas y vapores hasta centenas de metros de altura… Al paso que el Vesuvio, en los días de hoy, no expele más nada, ni siquiera la fumarola que encantaba los pintores hasta la Queda de la Bastilla, y sobre todo después de la Batalla de Waterloo, sobrando solamente el encanto, para los turistas, de su fumarola, hasta la primera mitad del siglo XX, cuando la fumarola se acabó, de una vez por todas. Cuanto a la Historia Sacra, el Vesuvio fue superado por el Ararat, donde se tendría acostado, al fin del Diluvio, la Arca de Noé. Pero el Doctor Zapata acredita, basado en sus excavaciones, que el Ararat no presenta la más mínima erupción, a rigor no es siquiera un volcán, ni tampoco un volcanoide sin cratera… Así, del punto de vista geológico no ofrece condiciones de compararse a nuestro imponente y fogoso Popokateplek. Ahora resta la Historia Santa. Ora, las revelaciones en la Biblia sobre la saga de Noé, fueron hechas siglos Antes de Cristo, cuando los Hebreus, y todos los Pueblos de Europa, África a Asia, no tenían la menor noción de la existencia de las Américas. Entonces los relatores de los hechos bíblicos no tenían la más mínima idea da la existencia del Popokateplek, e imaginaran que la Arca se hubiera acostado en el Ararat… Pero el Diluvio fue mucho más fuerte de todo lo que se pudieran imaginar los sabios de la Antigüedad. Tanto el Vesuvio cuanto el Ararat estuvieron sumergidos por el Diluvio. Solo el Popokateplek ofrecia condiciones de un seguro acostamiento de la Arca. No obstante estas consideraciones geológicas, siguen los armenios y los italianos negando la primacía del Popokateplek, en el salvamento de la Humanidad y de todos los animales, a excepción de los peces, que viven en el agua y… de los dinosaurios de que el tamaño colosal tornó imposible ingresarlos en la Arca, y acabaron todos muriendo ahogados.
DOC FLOYD
Uma vez publicada tal saga nos papiros de arroz Valkiria, o centro do mundo deixou de ser aquela região do Ararat, passando a terra Santa a ser banhada pelas águas do Amazonas. E a história, que sempre teve uma tara pelas distorções, conserva o segredo de sua origem em uma arca de pau d’arco no fundo falso de uma barcaça que sobe e desce o rio Negro. A chave da arca é um mistério que a cobra Nosferatu guarda em seu estômago.
ZUCA SARDAN
Floriano, era isso que eu bem imaginava…
DOC FLOYD
Mas no fundo as coisas nunca são como as imaginamos…
ZUCA SARDAN
E muito menos como elas próprias pensam que são.
DOC FLOYD
Esta é já uma clássica confusão. Daí que hoje em dia os classificados já procuram por pitonisas que não façam a menor ideia de seu trabalho.
ZUCA SARDAN
Quanto menos ideia de seu atualmente mercantilizado trabalho, e mais louca seja a pitonisa, melhor poderá se realizar a verdadeira prática oracular.
DOC FLOYD
As pitonisas cantam e oram enquanto varrem o chão preparando o tablado para a próxima sessão. O ministro Delgado disse a elas que à noite vai contornar a lua com o cetim dos sonhos e um coro de sapinhos com os olhos esbugalhados decifrarão os futuros de cada alma lavada…
ZUCA SARDAN
Para lavar alma precisa água-raz e… a Pílula do Esquecimento do Doutor Radar.
DOC FLOYD
Mais da metade das almas ao menos desconfia que futuro algum terão. Aquelas que imaginam ser tocadas por algum esfregão da sorte, fazem cara de comidinhas do destino e conspiram contra as demais.
ZUCA SARDAN
Não ter aporrinhação futura alguma, e sumir sem pagar as dívidas… é o Calote Metaphysico… saborear o sossego eterno prometido pela Modernidade… Livre enfim do Tribunal das Lambadas de Ultratumba.
DOC FLOYD
Foi assim que um dia desses a Modernidade parou de cantar em sua gaiola de cristal. E os querubins de pasto pequeno em uníssono exigiam que ela fosse para a panela. A boia era a última das quimeras.
ZUCA SARDAN
Segundo o Peru da Modernidade, a Perua da Vida Eterna rebola melhor… Mas como ele não bobeia com as aparências… desconfia que o rabão supino é coisa da Costureira Celeste. Quando chegar o Natal… ele acabará na panela.
DOC FLOYD
A Modernidade sempre foi o grande dilema de Cronos, porque ela trucidou o futuro e congelou o presente. A seus olhos tudo é passado e só ela reina impiedosa.
ZUCA SARDAN
A Modernidade é hoje coisa do passado. A Pós-Modernidade se pinta e se emperequeta… Saturno boceja, e dá uma afiada na foice… O Corcunda Corco se coça e toca a badalada vesperal.
DOC FLOYD
Os grilos sorrateiros desafinam todos os instrumentos no auge da noite sonolenta…
ZUCA SARDAN
Entra o Corvo Edgar… para acabar com a baderna… Súbito silêncio…
CORVO EDGAR
Acabem com essa zoeira grilos jecas, e não voltem NUNCA MAIS…
CORCOVO
(Acompanhando no carrilhão o espinafro do Edgar) Bong… Bong… Bong …
DOC FLOYD
As morsas tiram a poeira dos sextantes. Temos que rever as nossas cartas de navegação. Ainda ontem íamos a toda força a estibordo. Agora a deriva sorri e nos abre os braços.
ZUCA SARDAN
Sem o imprevisto, não haveria surpresas. Sem surpresas, a vida torna-se sem graça. Mas só encontra o imprevisto quem souber esperá-lo. Quem não esperar o imprevisto, jamais o encontrará.
DOC FLOYD
Que diabos de capirôto é esse que escreve uma lenda em que os tupiniquins se debruçam no ombro da estrada à espera do… inesperado! Pois afinal, oh dramalhão de quinta, eivado de paradoxos amanteigados, como pode ser inesperado sendo tão esperado!!!
ZUCA SARDAN
Pois é… a sorte favorece a audácia!… Como dizia o Danton: Audácia! e sempre Audácia!… E o inesperado não deve ser esperado na banheira, ou chega a Charlotte Corday e passa-te a faca!… como aconteceu com o … plec! plec!… o… Marat!… morreu com um papel na mão… escrevia na banheira seus violentos artigos.
DOC FLOYD
Morrer com um papel na mão, é haver sido impedido de uma última representação. Dizem que a banheira de Marat está guardada no porão do Louvre, que até hoje há uma nódoa de sangue em um pequeno rasgo no quarrycast da velha banheira vitoriana…
ZUCA SARDAN
Marat era muito doente e passava grande parte do dia dentro da banheira. E dentro da banheira escrevia, mediante uns apoios de madeira que lhe serviam de mesa. Diariamente ia almoçar no Café Procope, que até hoje existe, na mesma rua em que habitava, na Rive Gauche, onde o editor de seu jornal, localizado na mesmíssima rua, despachava um mensageiro para ir recolher o manuscrito que Marat trazia para o Café, de modo a dar-lhe umas derradeiras penadas. Quando estive em Paris, durante um ano, em 1957, na Rive Gauche, eu ia quase diariamente almoçar no Procope, que era então bem baratinho, sempre orgulhoso de seu passado histórico, e tinha retratos ovais grandes, em molduras douradas, com os retratos de todos os personagens históricos que o haviam frequentado nos tempos da Revolução. Os retratos eram fidedignos, em tamanho natural, mas visivelmente cópias, em cartão, de quadros originais, ou recopiados, por algum pintor-artesão hábil, de alguma gravura representando tal ou qual personagem. O proprietário, que tinha suas fumaças literárias, era muito amável, e seu gato vivia dentro do Restaurante, e cismava de se enroscar ou subir na cabeça de algum freguês, ou freguesa, que lhe parecesse mais simpático. Há poucos dias, vi um documentário francês recentíssimo, sobre o Café Procope e está de um luxo extraordinário, mantendo o aspecto histórico na sua reforma total. Uma cozinha super-sofisticada, e caríssima, garçons com roupas antigas, nada a ver com o café-restaurante, servido por garçonetes velhotas, que eu havia frequentado.
DOC FLOYD
Talvez o papel viesse embebido em sangue da revolução que almejara. A história é fascinada pela borra de café das quimeras. Os sonhos são defumados com precisão. As fumaças que saem pelas escotilhas, chaminés e cozinhas papais. Um batuque ao vento anunciando as glórias e catástrofes da combalida história. O que restou da Modernidade é esse vício de labirintos, essa gravação repetida da voz das nações. A carta magna dos insucessos.
…e a cortina desabando sobre nossas cabeças….
Zuca Sardan (1933). Poeta e desenhista. Autor de várias peças de teatro escritas a quatro mãos com Floriano Martins. Contato: zuca.saldanha@gmx.de
Floriano Martins (1957). Poeta, ensaísta, dramaturgo, editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Autor de várias peças de teatro escritas a quatro mãos com Zuca Sardan. Contato: floriano.agulha@gmail.com
Assim na terra como no selfie (2021) é o sexto livro de poemas de Alex Simões, contando o segundo, uma plaquete com versos e fotos, e o quinto, um livro artesanal de poemas visuais criados (livro e poemas) em colaboração com outros artistas. Quem acompanha o trabalho de Alex sabe como ele tem caminhado do exercício do soneto para o verso livre, que se percebe no seu caso dever muito à prática daquele. Refiro-me ao ritmo do fraseado nos versos de Alex e, por extensão, à construção sintática, àquilo que alguém famosamente disse tratar-se da hesitação entre o som e o sentido. Pois é por aí que começo a falar desse novo livro de Alex. Da hesitação. Até porque ele, à semelhança de Trans formas são (2018), reúne sonetos, versos livres, poemetos e brincadeiras espaciais – embora em menor incidência do que naquele.
O título faz trocadilho com um famoso princípio hermético contido também no “Pai nosso” católico e, junto com a leitura de muitos poemas, deixam claro tratar-se de um livro escrito (ao menos boa parte de seus poemas) durante o período mais tenso do primeiro isolamento social na pandemia da Covid-19. Nesse período, foi comum ver pelas redes a classe média trocar o selfie em sorridentes festas e viagens turísticas pelos selfies das cantorias com vizinhos, aprendizados culinários e rotinas de isolamento. Tudo sempre acompanhado da indefectível hashtag “#ficaemcasa” – com seu tom imperativo. Hoje, um ano e meio após a deflagração do isolamento no Brasil, tudo mudou. Ou nada, talvez. Mas o livro de Alex me chega às mãos como testemunho dessa viagem. E o que leio nesse testemunho?
Leio a hesitação entre o som e o sentido dos versos nos sonetos de Alex se disseminarem por outros fraseados oracionais e certas posições do sujeito da enunciação, embora também permaneçam lá, nos sonetos. O “43”, em que o sujeito circula em casa por rotinas que sobrepõem trabalho e laser, movimento e tédio, idas e vindas: “tapioca e café todos os dias / cedo pela manhã antes da escrita / que precede a visita à toalete / para depois as redes, as notícias / e revisar e planejar e cozer / e irrigar as plantas e dar aulas / às vezes viajar às vezes não”. Há nesse e em outros poemas qualquer coisa de pacificação no sentimento do poeta diante da circularidade doméstica dos dias e afazeres durante o isolamento. Ou mesmo antes dele. Mas uma pacificação cuja respiração às vezes hesita com certa ansiedade.
A melhor imagem para figurar essa paz ansiosa vivida por muitos durante a pandemia me parece o labirinto. Há alguns deles nesse livro de Alex, mas a “Cama de gato”, misto de brincadeira e passatempo, me parece exemplar. Ainda mais como analogia criada pelo poeta para a própria poesia de quem coloca a vida em suspensão no gesto de escrever: “eu faço versos como quem / faz uma cama / de gato”. Mas não somos apenas nós que jogamos com a poesia e a cama de gato. Somos também jogados pela rede do acaso que insistimos em ignorar com o mesmo prometeísmo que disseminou o atual e outros vírus. Chamamos “cama de gato” e “poesia” nossas ferramentas lúdicas; mas, ao que não temos nome e tememos, Alex nomeia “traquitanas”: “não consigo pôr ordem na casa / porque não há nenhum sentido em pôr ordem / menos ainda em progresso. / […] / o caos não é meu, / é nosso”. Pois é mais ou menos assim que o poeta segue hesitante entre o desejo de ordem (“tapetum lucidum”, “haikai não cai”, “Soneto do isolamento social”, “no ferry”, “o amor ao mar em meio à pandemia”, “aquela a esperar”, “um poema para Oxóssi”) e o sentimento de desordem (“47”, “45”, “A educação pela pedrada”, “assim na terra como no selfie”, “o que me resta de uma casa”, “volver”, “sessão de poesia para a tropa”). Talvez por isso o título soe como uma irônica oração dirigida aos que acreditam que haja salvação, embora só vivamos como condenação.
Mas essa ironia de Alex também resvala para algo de autoironia, quando leio “daqui da torre”, onde o poeta diferencia a torre em que se encontra isolado (“vendo tudo daqui, da torre”) da clássica e classista “turris eburnea”: “não é numa turris eburnea / indiferente aos fatos”. Mas eu diria que apesar da atenção, consciência, informação, altivez e lucidez que o poeta diz ter diante dos “fatos”, há um limite para tudo isso diante da realidade concreta que é arremessada para o alto de seus olhos na torre: há um espaço intransponível e causador de “vertigem”. Uma hora, não basta “mesmo estando bem no alto / saber bem muito bem ao chão”. Esse olhar desde a torre, desde o alto, é o que testemunha o labirinto em que poeta, posto no alto, e mundo, cá embaixo, se meteram. E Alex sabe “bem muito bem” disso, já que após o túnel, segundo ele, sempre vem outro túnel: “sei bem de tatear e atravessar o túnel / até chegar a luz que me anuncia, / em forma de cegueira temporária, / que logo outro túnel há de vir, / vivendo nesse eterno entre-e-sai / do mito da caverna redivivo. / se eu fico dando voltas, é que a vida / é feita de volutas pros que ficam / com as vistas treinadas pra enxergá-las”. Ou seja: o título do livro soa também como um enigma que o poeta coloca para ele próprio tentar resolver (ou apenas se divertir, quem sabe?): estar na terra, estar no chão e estar no túnel, tanto quanto ele se sabe selfie, na torre e na lúcida luz. Testemunho da hesitação labiríntica entre o som e o sentido, ou divertimento lúdico com que o poeta ironiza a si mesmo na persona de modesto: “modéstia, / aparte o que me cabe / neste latifúndio. / dê-me um canto qualquer / do tamanho do mundo, / nem que seja este / canto / mudo, / mundo / meu”.
Onde mais percebo esse labirinto no livro de Alex é na sintaxe de alguns poemas, como em “não há mal”, que lembra qualquer coisa da tópica do “desconcerto do mundo”, por ser um ajuste de contas com a moral – antes, moral em desconcerto; cá, moral como acerto de contas. Escreve Alex: “não há mal / nenhum em desejar / o mal a quem / mal desejou / e o já realizou / o mal a quem / se mal lhe fez / foi tão somente / o de encarnar o mal / […]”. Nesse jogo moral de soma zero entre ação e reação, a terra e o selfie, a tela e o mundo, o eu e o outro se fundem na mesma oração de Alex Simões. Oração maldita.
Sim, há qualquer coisa de maldição neste livro de Alex. Mesmo que a contrapelo. Justamente por isso. Como todo maldito, Alex se contradiz em grande parte de Assim na terra como no selfie. Não de modo evidente e convencional. Não basta ironizar Baudelaire, Drummond e Cabral para ser um maldito contemporâneo. Não basta posar de rebelde insubmisso para ser um maldito contemporâneo. Não basta tacar pedras para ser um maldito contemporâneo (a “lacração” tornou essa “maldição” também convencional). Não bastam muitas outras coisas que Alex diz e faz em seu último livro. É preciso se contradizer. E poesia pode ser tudo, principalmente escapar do controle de qualquer que venha a ser dita: poeta só vale essa designação se for contraditório contra a sua própria vontade. Talvez, nesse livro, com uma única exceção (“aí peguei meu rumo na exceção”, escreve ele em “o amo ao mar em meio à pandemia”), que não é o mar – mas a mãe, no belíssimo soneto “44”, que se fecha lindamente com “minha vida é um baile entre seus braços”.
Os braços da mãe são o que há de mais preciso nesse livro de hesitações labirínticas de Alex Simões. Quase como o contraponto inicial ao anúncio de que “poesia / para quem / precisa / de coisas sem precisão”: o que se realizará ao longo de todo o livro e que ao fim é a enunciação possível de Alex, seu testemunho poético, o mais fiel que pode às incertezas que hoje estão arremessadas à nossa cara (para quem quiser ver). Nesse livro, Alex abre a porta do labirinto, entra nele e joga fora (ou perde intencionalmente) a chave para escrever poemas por seus corredores sem saída. E sem precisão.
Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Em obras (poesia, Editora Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (estudos, Editora LiberArs, 2015), dentre outros.
atrás dessas máquinas,
nas folhas, no papel,
desenhei, iluminado à nome,
a física do mundo.
há luas, há sóis
atrás dessas máquinas.
dias sem imobilidade,
flores brancas.
atrás dessas máquinas
desabrochou a noite morta
a consumir as linhas
do dia germinado.
há palavras sujas
atrás dessas máquinas,
fixando ao sonho
extintas ideias.
atrás dessas máquinas
circulei a emoção sanguínea
de poetas fantasmáticos,
monstruosos, aquáticos.
atrás dessas máquinas…
bichos mais densos
lutam. sou lápis (e carvão),
dentro do branco pouso,
pouso salgados gestos,
pouso o sal dos tinteiros.
***
a passagem das tardes
deita
no vazio da hora
pouso solene
brilho
de uma ardência concentrada
nudez
vista
numa mesa
antiga
no espelho aceso
navego ao silêncio súbito
***
PALAVRA
a nudez.
a nudez no tempo.
o rugido tão vulcânico como a nudez.
arremessávamos
fetos,
cruzamos a cratera, procriamos
a cópia que renascia do milagre:
palavra.
palavra – uma cópia do silêncio
o rugido no rugido
iça
anti-seres.
vaidade.
a lua de mar a mar
se afoga.
uma cópia ainda, assim, e as imagens
flutuam no tempo primordial.
***
entre o mapa indecifrável e inabitável
um homem surdo navega.
tateia uma zona nebulosa
feita de tremor e de silêncio…
o seu frescor ardente espaça
atrás de si os astros e os palmares.
este o ilumina, este outro o escreve…
visível a tais surgimentos,
brilhosa a costa em clamor inavegável,
sabiamente ele navega.
tateia uma zona nebulosa,
feita de tremor e de silêncio…
***
A ESPADA
os esquecidos vibram no regresso dos enigmas
abertamente.
e eu naveguei do meu espelho
os segredos mais milenares.
o meu sono movimenta meu corpo
em todas as noites que voguei.
dentro da sombra
no fio ácido do rosto
finjo-me marinheiro.
dos olhos das lendas
surge o rumor das águas,
incertas como um sêmen de inseto.
sei que depois quando me erguer
escutarei a espada da insônia
abrir salgada a crônica das medusas.
***
O DOM DO SILÊNCIO
o silêncio termina
onde o silêncio começa:
à margem do paraíso
uma súbita brisa de velas
comanda naus
e contudo o silêncio termina
e o sorriso grisalho
se curva sobre
a flâmula luciferina –
no horizonte onde o silêncio começa
coração de ideias: o silêncio termina
mansa tela cancerígena
exigindo as cores da arte –
no horizonte onde o silêncio começa
branca praia e mar albino
laborando ideias –
no silêncio onde o horizonte começa
***
O CÁ FORA E O LÁ DENTRO
a liberdade emerge no jogo silencioso sonhado pela alma
e transparece perigoso no fundo surdo do mar.
entre o cá fora e o lá dentro, no dia liso que os sufoca,
súbitos desastres cantam.
Bruno Oggione nasceu em 1990 na cidade do Rio de Janeiro. É graduado em Letras (UERJ), mestre em Literatura Portuguesa (UERJ) e doutorando em Literatura Portuguesa (UERJ). Autor dos livros “Mãos de Ninguém” (pequenas astúcias) (Editora Morandi) e “Velas Pandas, andas… – Ode Marítima e Os Lusíadas” (Folio Digital, no prelo). Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens e Aboio.
A trajetória de um artista não se mede apenas pela quantidade de feitos construídos em sua caminhada, mas principalmente pela capacidade que seu trabalho tem de impactar a audiência que lhe interessa. Ao longo dos anos, as vivências pela arte vão engendrando saberes e sabores, moldando os ímpetos criativos, impulsionando novas ideias. E quando falamos especialmente de teatro, supomos de imediato a força que se estabelece na relação entre obras e o público.
A arte teatral prima pela captura do instante, momento em que as atenções do espectador se voltam para todo o conjunto que lhes é ofertado. Seu efeito é instantâneo, um gozo do efêmero em quem está experimentando a recepção da mescla entre texto e encenação. Assim, o legado maior desse múltiplo território de sensações busca abrigo na memória, sua relevante aliada. Sobretudo agora, no período pandêmico que nos acomete, nunca fez tanta falta vivenciar o ato de estar diante de um espetáculo teatral.
Não são poucos os nomes que historicamente edificaram o teatro brasileiro, fizeram desta nobre arte um território rico em possibilidades e, acima de tudo, ideias que movimentam sensações das mais diversas. No contexto baiano, é impossível falar de teatro sem lembrar de alguém como Paulo Atto. E falar desse dramaturgo é reverberar sua potência criativa para além dos espaços regionais e brasileiros, posto que sua contribuição para a arte cênica encontra também abrigo em paragens internacionais.
Mas o teatro a que Paulo Atto se propõe fazer perpassa a reflexão pungente sobre a condição humana em suas variadas formas de acepção. Interessa ao artista apresentar em seu trabalho a visão multifacetada que a humanidade pode sugerir. Combinando elementos oriundos da poesia a um forte eixo filosófico, Paulo marca sua obra com o signo da inquietude diante de um mundo que nos oferta mais dúvidas que certezas. Para mencionar apenas alguns aspectos, vemos brotar em seu ofício o traçado da sofisticação textual, a agilidade e inteligência dos diálogos de seus personagens.
Seja como diretor, dramaturgo e produtor cultural, dentre outras atribuições, Paulo trilha seu caminho na seara artística há quase 40 anos. Em sua trajetória, dirigiu mais de 30 espetáculos, muitos deles também apresentados nos Estados Unidos, América Latina e Europa, além de ter participado de inúmeros festivais, seminários e programas em vários países. São de sua autoria os livros “Até Delirar”, “Desmontando Shakespeare” e, mais recentemente, “Atto em 3 atos & memórias da censura”, este último assinalando pontos marcantes de sua carreira. Pelo texto dramático “A Travessia do Grão Profundo”, foi agraciado com o Prêmio Selo João Ubaldo Ribeiro – Ano III. Seu engajamento como diretor artístico do Núcleo Caatinga da Cia de Teatro Avatar e do Festival Internacional de Teatro da Caatinga revela um espírito incansável em seus propósitos. E é este personagem mobilizador quem protagoniza agora uma conversa com a Diversos Afins. Nela, fica registrado um recorte sensível e inteligente sobre a caminhada de Paulo, esse artífice que, principalmente a partir das exposições contidas no seu mais recente livro, fala de suas experiências, percepções do presente, além de dar sentido renovado ao ato de resistir através da arte.
Foto: Waldson Alves
DA – Para além de uma nuance autobiográfica, “Atto em 3 atos & memórias da censura” é um verdadeiro recorte histórico do teatro baiano. Ali estão relatos pessoais, matérias jornalísticas e três peças fundamentais de sua carreira. A predileção pelo registro dessa memória vem também marcada por um impulso de sobrevivência da arte?
PAULO ATTO – O teatro é uma arte milenar, que já sobreviveu a revoluções tecnológicas, a guerras, a pestes, mesmo com seu caráter eminentemente fugaz e efêmero. Em parte, pela força do encontro essencialmente humano que promove tocando em muitos aspectos da vida e da alma humanas; por outro lado, pelo registro que dele ficou, primeiro em livros, os textos dramáticos gregos são um grande exemplo disso; também pelos registros e memórias que muitos artistas de teatro nos legaram. Acredito que tudo isso me mova no sentido de produzir esse registro num país que despreza a memória em geral e a arte em particular, sobretudo neste momento constrangedor, obscurantista, no qual a ignorância ganha espaço. É um projeto ambicioso de, nos próximos anos, quando completarei 40 de ofício, poder deixar registrada toda a memória do meu trabalho e o contexto no qual ele aconteceu, na medida do possível. No Brasil estamos passando por um momento terrível para os artistas. Em geral, é necessário primeiro que os artistas sobrevivam para que a arte seja produzida e permaneça. Então, nesse sentido, sim, é também um impulso para a permanência da arte.
DA – Um aspecto importante do seu livro é a reprodução integral do texto de algumas de suas peças, produções naturalmente marcadas por um determinado contexto criativo e temporal. Em que medida esse gesto pode ser entendido como um estímulo à produção de sentidos por parte do leitor de hoje?
PAULO ATTO – Totalmente. E esse é o meu desejo como autor, que o leitor desempenhe um papel ativo com suas inferências e percepções, com seu entendimento sobre a obra. Portanto, cada leitor tem um papel relevante na ampliação de seus significados, gerando novos sentidos no momento desta interação leitor/autor. Considerando ainda que juntamente com os textos, que por si só já representam um universo a ser desvendado com seus personagens e enredos, eu publico um memorial de imprensa, todo o material gráfico das montagens com os programas, convites, cartazes e diversos outros registros que denomino de memorial afetivo. Onde também se encontram uma carta que Paulo Autran me escreveu sobre “A Confissão”, certificados de censura, um bilhete da atriz Andreia Elia no encerramento de uma temporada, um texto que escrevi para a Diversos Afins quando Paulo Autran morreu, anotações sobre minhas ideias e vivências sobre as montagens. Acredito que o leitor fica ainda mais estimulado a construir novos sentidos sobre os aspectos relacionais entre a obra literária, a montagem produzida naquele tempo/lugar e a memória que trago através de todos estes registros. Além de oferecer a minha contribuição para a construção de uma memória do teatro na Bahia, acredito que levo o leitor a entender estas produções no seu tempo e a imaginá-las com todos estes estímulos e registros, produzindo significados para si mesmo neste nosso momento, nessa nossa atualidade. Assim, falamos de hoje através do registro sobre a nossa vivência naquele tempo. Nossa, digo, minha como dramaturgo/diretor, com meus atores e equipes de criação.
DA – Por falar em produção de sentidos pelo leitor, ao lermos, por exemplo, o texto de “A Confissão”, sentimos que o eixo temático da peça não se desbota, pois vemos ali assuntos que se perpetuam no tempo. Um deles é perceber os aparatos de poder atuando para limitar as liberdades individuais no nível do corpo e dos desejos. O fato é que nossa sociedade não deixou de efetuar tais controles e não tem como não pensar em Foucault numa hora dessas. O que dizer sobre essa atmosfera? Alguma vez passou pela sua cabeça remontar esse espetáculo e ofertá-lo ao público dos dias atuais?
PAULO ATTO – Acredito que “A Confissão” seja um texto atemporal pois toca exatamente na questão do Poder e seus mecanismos de controle, seus aparatos de vigilância e punição, afinal a última fronteira que o poder quer chegar é ao nível dos corpos, do controle da relação dos corpos na interação social, cultural, biológica, com uma profunda carga de sexualidade e religião. “A Confissão” é o resultado de uma imensa pesquisa, de muitas leituras, de muitas fontes. Foucault foi, sem dúvida, de fundamental importância, fizemos também uma leitura psicanalítica do texto norteada pelas ideias e visões de Freud e Lacan. Há uma influência, ainda que em segundo plano, do chamado Teatro do Absurdo em sua linguagem. A atmosfera do espetáculo traduziu a claustrofobia do texto, o jogo de espelhos dos personagens, o vazio da retórica dos discursos de dominação, a tortura como estratégia da verdade a qualquer preço, a desumanização das relações e a morte como destino inescapável para todos. Eu tinha 24 anos quando escrevi, e hoje, lendo o texto, às vezes penso: “O que se passava na cabeça deste jovem?” (risos). É um texto muito forte com um traço clássico, o que inclusive foi apontado na época pelo jornalista e crítico Marcelo Dantas. Jamais pensei em remontá-lo. Na verdade, chegamos a trabalhar num projeto audiovisual com nossa saudosa atriz Regina Dourado, no papel de A Morta, e um elenco maravilhoso. Infelizmente, por uma série de razões de produção e recursos o projeto não avançou apesar de termos gravado praticamente 70% das cenas no Castelo Garcia D’Ávila à noite. Agora pensando no nosso momento, percebo como este texto é atual, ele não envelheceu mesmo depois de 34 anos. Acredito que ele possa falar da realidade brasileira hoje e toda a sua estupidez, seu atraso, essa pretensa moral tenebrosa, essa postura retrógada e obscurantista. Acredito que hoje ele teria uma repercussão imensa. Acho que “A Confissão” hoje causaria muito mais incômodo porque tocaria fundo na essência do nosso engano.
Foto: Waldson Alves
DA – Esse mesmo jovem que foi capaz de criar um trabalho importante em “A Confissão” também era reconhecido num determinado momento como alguém dedicado à poesia. Diga-se de passagem, o texto de “Até Delirar” e “O Banquete” evidencia esse caráter poético de sua escrita. Há ainda um Paulo poeta em torno do qual podemos esperar algo em matéria de versos?
PAULO ATTO – Realmente eu comecei a minha aventura com as palavras pela poesia. Eu continuo cometendo poemas embora não os venha publicando. Digo que o dramaturgo é um poeta ao avesso. A poesia exige síntese e a dramaturgia o excesso. Mas o dramaturgo não deixa de ser um construtor de poéticas. Tenho vontade de voltar a publicar poemas depois de tantos anos, na verdade essa vontade me perseguiu durante todo esse tempo e acho que o canal da poesia verteu no oceano do drama, mas continuo sim experimentando a poesia na construção de poemas sempre. Acredito que avançando nesse projeto editorial de lançar toda a minha obra dramática, que já é um esforço imenso, haverá espaço para publicar sim um novo livro de poemas, quem sabe até mais de um (risos). Na verdade, foi o meu primeiro livro de poemas chamado “Até delirar” que originou um roteiro cênico que veio a se constituir no espetáculo “Até delirar” e também na obra teatral “O Banquete”, como está apresentado no livro.
DA – Um outro ponto importante de seu novo livro são os relatos das suas experiências com a censura. Na sua impressão, os censores eram figuras totalmente apartadas do conhecimento sobre a arte ou pairava alguma espécie de cinismo ideológico que correspondia meramente aos ditames do regime vigente?
PAULO ATTO – A censura de que eu falo no livro é uma censura institucional onde funcionários públicos eram pagos com o dinheiro dos nossos impostos para cercear a liberdade de expressão, impedir a realização de qualquer atividade artística ou cultural que, na cabeça dos censores, fosse uma ameaça ao regime, à ordem instituída ou a algum valor moral. Os critérios eram muito nebulosos porque, quando você tinha uma censura ou um corte, os censores explicitavam os motivos e quando você examina as razões dessas ações de censura verifica que são muito difusas, que não são critérios objetivos, ao contrário, depende muito da impressão daquele indivíduo, então são as razões mais disparatadas e absurdas. De um lado, você tem uma falta de critérios objetivos e do outro tem a extrema ignorância desse corpo de censores, que eram pessoas sem absolutamente nenhum conhecimento nem de cultura nem de arte, nem de nada. Eram às vezes funcionários de carreira colocados naquela função ou mesmo contratados para exercer o papel de censor. Portanto, você tinha a união de dois fatores muito ruins: de um lado, um temor infundado e quase sempre paranóico e, do outro, a total falta de conhecimento, chegando muitas vezes à incapacidade de interpretação de texto. O que de outro modo às vezes era positivo, porque como eles não conseguiam entender o que se apresentava, passavam coisas que, pela sofisticação da construção poética ou da linguagem empregada na cena, eles não conseguiam apreender o sentido real do que se queria dizer, e em alguns casos era uma crítica direta ao regime ou à situação política daquele momento. Acho que para as novas gerações de artistas do teatro essa seja uma experiência que eles não consigam nem mensurar, embora nós vejamos nesse momento uma volta, um ensaio de retorno de uma censura, ainda que não seja totalmente institucional, digo claramente institucional, mas uma censura velada com orientações sobre programações. Isso tem acontecido e tem sido noticiado pela imprensa, inclusive espetáculos de teatro que haviam sido programados para espaços geridos por órgãos ligados ao governo e que foram impedidos de entrar em cartaz por causa de alguma temática. Isso é censura. Vemos também o movimento de algumas pessoas da sociedade, cidadãos que se arvoram em defensores da moral e dos bons costumes. Isso é um asco. E justamente empregam os mesmos termos que foram muito utilizados nas alegações dos censores daquele período. Sem dúvida, nós temos aí um retrocesso imenso.
Foi quase impossível para mim falar desse período de início da minha trajetória teatral sem tocar no ponto da censura, porque ela esteve muito presente. As peças eram submetidas à Polícia Federal, pois existia dentro do ministério da justiça uma divisão de censura de diversões públicas, o famigerado DCDP, e nós tínhamos que enviar com muita antecedência o texto que era lido por algum censor, que já poderia determinar cortes ou mesmo a proibição do texto.
Depois eles iam assistir ao ensaio antes da estreia, e novamente poderiam decidir por novos cortes ou mesmo a proibição daquela peça em todo território nacional. É uma coisa inconcebível para os artistas de hoje, os jovens sobretudo, imaginar que você teria que fazer um ensaio para um censor ou uma dupla de censores que poderiam decidir que isso aqui não vai poder ser apresentado ou que você tem que cortar uma cena inteira. Eu não cheguei a ter peças proibidas, mas tive entraves e narro isso no livro, os problemas que enfrentei com a censura que foram complicados de administrar. Pense que eu estou falando no período de redemocratização. Em 1988, foi promulgada uma nova constituição onde a censura institucional foi extinta com todos os seus departamentos. Por isso, mesmo falando de algo que aconteceu há mais de 30 anos, eu termino falando do nosso momento atual, como um alerta para essa situação de obscurantismo imenso que a gente está vivendo e de uma tentativa de censurar os meios de comunicação e a expressão artística. Então, infelizmente o meu discurso foi atualizado pelos fatos que estamos passando, a realidade brasileira atualizou o meu discurso de 30 anos atrás. O que é lamentável e extremamente perigoso. Inclusive porque conta com o apoio e a anuência de uma parcela significativa da nossa sociedade que se sente representada em sua ignorância, em seu atraso e em sua estupidez. Poderia ser apenas um documento histórico, um retrato daquele momento, mas infelizmente estou falando também da nossa realidade hoje.
DA – Nosso teatro também carece de uma atenção para o quesito formação de plateia?
PAULO ATTO – Aí está uma pergunta simples de resposta complexa. O teatro enquanto linguagem precisa de uma aprendizagem, de uma vivência, de ser experienciado. Há gente que diz que não gosta de teatro sem jamais ter visto uma peça (risos). Eu trabalhei em algumas oportunidades com crianças, tanto ministrando oficinas, em projetos infanto-juvenis como em espetáculos infantis que dirigi, não foram muitos, acredito que uns sete espetáculos. Escrevi três textos para crianças: Colombo, A incrível viagem do Curupira e a Aventura da Descoberta. As crianças naturalmente se expressam através da mimesis, constroem muito de sua expressividade através de jogos teatrais, ainda que sem perceber. Falando tudo isso, deveríamos pensar que o teatro teria um público imenso. Entretanto, isso não acontece. Acredito mesmo que nas últimas décadas houve uma perda substantiva deste público que incluía o teatro naturalmente em seu cardápio cultural, devido a uma série de fatores: a violência nos centros urbanos gerou uma insegurança, o enfraquecimento da imprensa escrita que sempre foi o principal veículo de nossa divulgação e diálogo com o público; por outro lado, a perda de espaço para divulgação nas redes de televisão, os serviços de streaming cada vez mais sofisticados e disponíveis a preços baixos, o fechamento de vários teatros, a migração de artistas para fora do estado, que é um fenômeno que, acredito, ainda não foi totalmente compreendido e mensurado. E ainda temos um tripé perverso que vem do distanciamento do teatro do público, a qualidade do que é apresentado, o amadorismo de diversas produções e os editais públicos em que houve e há um certo dirigismo cultural, onde muitas vezes o resultado do trabalho está muito aquém do discurso e da proposta do projeto. São espetáculos de qualidade bem questionável com um discurso lindo. Em todo este processo houve uma dissociação do espetáculo teatral com o seu público. Tudo isso como introdução para responder a sua pergunta “Nosso teatro carece de uma atenção para o quesito formação de plateia?” A resposta é sim. Mas não podemos imaginar que um programa de formação de plateia, ainda que seja amplo e bem construído, será suficiente para fazer o público retornar aos teatros. Sem ser saudosista, sou de um tempo em que ficávamos em cartaz de quarta a domingo, na temporada de Morangos Mofados na Sala do Coro do TCA, em 1988, tínhamos filas para comprar ingresso e cambistas, um espetáculo baiano com cambistas, a direção do TCA chegou a limitar a venda de ingressos por pessoa. Ficamos três anos em cartaz, realizamos uma turnê nacional por Belém do Pará, Fortaleza, Goiânia, Aracaju, Recife, Maceió e ainda uma temporada de um mês em São Paulo com casa cheia todos os dias, na última semana foram duas sessões por noite para dar conta do público. Não tínhamos edital e nem financiamento público, a bilheteria nos mantinha. Fiz outros espetáculos com propostas para um público mais restrito como KAO, mas o espetáculo nos levou para o mundo em sucessivas turnês e apresentações em festivais em mais de 10 países por 16 anos. Foram muitas outras questões que deixaram esta relação teatro x público extremamente complexa.
Nós temos uma experiência incrível de formação de plateia com a realização, desde o ano de 2012, do Festival de Teatro da Caatinga, na cidade de Irecê, sertão baiano. Cidade onde existe um movimento teatral pequeno, mas significativo, cidade que não possui teatros, e está distante da capital (500 km). Nosso festival é realizado através do edital setorial de Teatro da Funceb há seis edições e conta com apoio da Prefeitura Municipal de Irecê. Em 2018, tornou-se internacional e tem um público cativo, que foi sendo construído ao longo dos anos. É uma mostra de teatro a portas abertas que tem superlotação todos os dias com imensas filas na porta do Auditório do Colégio Modelo, adaptado para converter-se numa sala de teatro. A repercussão é tão grande que o prefeito Elmo Vaz, atualmente no segundo mandato, em 2018 anunciou no palco do festival que iria solicitar junto ao governo do Estado da Bahia a construção de um teatro. Este ano o governador Rui Costa assinou a ordem de serviço para construção e provavelmente em 2022 teremos um teatro na cidade. Outro lado é o investimento na formação e qualificação profissional dos atores e técnicos. Muitos dos atores que participaram dos projetos de formação do festival buscaram se aprimorar em cursos acadêmicos de teatro na UFBA e na UNEB e mesmo em outros estados. Nosso programa de formação de plateia está consolidado e apresenta resultados. Acredito que este seja um bom exemplo, mas muitas outras iniciativas vêm acontecendo neste sentido em outras regiões da Bahia. Formar o público é fundamental, mas oferecer um trabalho de qualidade também.
Foto: Waldson Alves
DA – Agora nesse período de pandemia, testemunhamos experiências de espetáculos online, sem público nos espaços. Até certo ponto esse gesto é compreensível, pois estamos falando também de formas de sobrevivência para artistas e suas companhias. Há quem veja essa alternativa se perpetuando mesmo após as restrições pandêmicas. Não seria nocivo ao fazer teatral, em condições de normalidade, ter isso como alternativa já que a arte é feita muito fortemente da proximidade com sua audiência?
PAULO ATTO – O chamado teatro online, telepresença, web encenação, teatro digital ou qualquer nome que se queira dar, dada a falsa importância de um rótulo na nossa “desmodernidade”, não é Teatro. Não foi uma opção que nós, realizadores, tivemos dentre outras, foi a única possível. Não havia outra saída. Há quem defenda que sim, apenas pelo gosto de dizer que é Teatro e ponto. Vi coisas interessantes e lamentavelmente produções pavorosas, recheadas de antigas ideias modernosas. Temos um audiovisual com uma linguagem teatral, porém há uma câmera por intermédio, direcionando nosso olhar, temos as edições, a seleção de cenas, os cortes, algo que não existe no Teatro, ainda que se alegue que a montagem teatral e a iluminação possam de alguma forma dirigir o olhar do espectador. E isso pode realmente acontecer. Entretanto, a liberdade do espectador no teatro é total para estabelecer os focos e os centros de sua atenção. E ainda poder ler os diversos planos, camadas, signos e sentidos que coexistem no palco, sem mediação nenhuma a não ser a sua, ainda que tentemos fazer isso, nada supera a presença e o encontro de dois seres humanos, máquina nenhuma, tecnologia nenhuma, pode suplantar ou oferecer isso. Falta a sensorialidade. Aqueles que defendem o tal “teatro digital” estão sem saber desejando o seu fim, a perda de sua autonomia e de sua essência. Pode ser que esta “defesa” seja por interesse próprio, para promover algo que possa parecer uma moda, ou pela incompetência em realizar o teatro de fato. Já ouvi com muita arrogância a frase: “é teatro porque eu estou dizendo”. Sim, mas quem é o interlocutor para dizer isso ignorando mais de 2 mil anos de história? Ignorando o que é a linguagem do teatro. Cada linguagem foi sedimentada por séculos, possui cânones, possui memória e técnica especifica. No final é muito barulho por nada. Eles serão superados pelo próprio Teatro, que não sucumbiu ao cinema, nem a TV, nem às guerras, e nem sucumbirá à tecnologia. Se não se encaixam em nada disso, é apenas imbecilidade pueril (risos). Os perdoo: eles não sabem nem o que fazem, e fazem mal. Não pretendo desenvolver este tipo de proposta como teatro. Como audiovisual, acho interessante. Porém, é certo que ganhamos uma ferramenta de divulgação, de interação com o público, de novas possibilidades de reunião, de estudo, de comunicação. Devemos aproveitar isso ao máximo, mas o que mais fez falta neste período pandêmico é justamente a ausência do humano, do contato entre as pessoas, e é sobre isso, em sua essência, que trata o Teatro.
DA – Voltando a seu livro, o texto de “As Máquinas” parece dialogar muito com o que notamos hoje nessa era de excesso de informações e também de reprodução padronizada de comportamentos. Podemos perceber muito disso a partir do “eu” espetacularizado que brota das redes sociais, por exemplo. Como é que você observa esse sujeito contemporâneo?
PAULO ATTO – Quando eu escrevi o texto de As Máquinas ou A Tragédia em desenvolvimento, era aluno do curso de Filosofia da UFBA e estava profundamente influenciado por temas ligados à Lógica da linguagem. Meu professor João Salles, atual reitor da Universidade, além de professor excepcional, era um amigo com o qual repartia tardes em animadas conversas, das quais também participavam o meu querido e saudoso mestre professor Ubirajara Rebouças e meus colegas e alunos Sandrinha Santana e Ricardo. Eram papos interessantíssimos regados à cerveja num boteco ali da Federação. Tenho muitas saudades dessas conversas. Ali foi gerada a semente desse texto. Quando fui convidado para abrir o projeto de leituras dramáticas da Escola de Teatro da UFBA, o Contexto Cênico, escrevi o texto muito rápido quase como se fosse um ensaio sobre aquelas ideias. Outra influência foi novamente o chamado Teatro do Absurdo, por excelência um teatro sobre a incomunicabilidade humana. Certamente me assombra a atualidade do texto, é atualíssimo. Muitos leitores do livro já apontaram isso para mim. O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o qual admiro muito as ideias e reflexões, fala de uma “náusea da informação” e acredito que estamos vivendo isso de maneira muito profunda. Os algoritmos, as chamadas “fake news”, o grau de desinformação com o paradoxo de tanta informação disponível, o obscurantismo, os retrocessos políticos, talvez tenham como raiz essa náusea e o perverso jogo dos algoritmos dominando as nossas escolhas. Outra ideia muito interessante está presente no livro de Bauman “Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria”. É incrível como ele nos traduz nesta obra. Chegamos ao ponto em que a principal mercadoria, diria até a mais comum disponível no mercado agora, são as pessoas. Nos tornamos o principal produto do mercado de consumo, somos enfim a mercadoria. Isso vai desde os sites de encontros, de grupos, até as redes sociais onde as pessoas vendem a farsa de uma vida ideal, utópica, irreal. Fonte de angústia e de frustração. A cultura das artes também sofre muito com isso. Tudo é cultura, há uma vulgarização das artes, Arte e indústria cultural de massas estão perigosamente sendo confundidas. Enfim, estamos vivendo apenas para o consumo. Acho que no texto essas ideias vão se desenhando a partir da falência da comunicação, dos modelos repetitivos e sem sentido do trabalho, das convenções mais absurdas, do sectarismo generalizado e da dissociação entre a vida e a sociedade.
DA – O fazer teatral em que você acredita tem algum compromisso?
PAULO ATTO – O Teatro, sempre digo, é a vida mesma, é um ensaio vivo sobre o humano por excelência. Existem muitos teatros. O teatro no qual acredito, aquele que me dá prazer em fazer e justifica a existência dele nas minhas trajetórias pessoal e profissional, é aquele em que eu possa falar para as pessoas do meu tempo, para esta humanidade, para este momento histórico e social. Nada para mim está dissociado deste mundo no qual vivemos. Quando encenei Shakespeare, nos espetáculos “A Tempestade”, logo depois “A Terra de Caliban” (inspirado na mesma peça), “A Herança de Macbeth” (a partir de Macbeth), com a Cia de Teatro Avatar, e ainda “Antônio e Cleópatra: o desencontro do olhar”, na Espanha, com a Cia Quasar Teatro de Astúrias, em todos esses espetáculos estava dialogando com meu tempo através das histórias de Shakespeare. Me nego a fazer um teatro museológico, desligado da nossa realidade. Quando escrevi e dirigi “A Travessia do Grão Profundo”, meu último espetáculo, mergulhei no sertão e sua realidade, sua simbologia, sua riqueza, seu imaginário, para falar de nossa diversidade cultural, da riqueza que a caatinga apresenta e esta história de perda do pai, também ainda presente nessa dimensão sertaneja. Apresentar o humano em suas múltiplas faces é o que me interessa, e é com isso que estou comprometido.
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
Ao rés do espetáculo,
no átrio do templo,
tricotar o Verbo,
tirar as cartas,
recostar-se no tabernáculo
e arriscar um jogo da velha.
***
MANUAL PARA ACENDER A GRELHA
Nas gretas
recostam-se as cinzas
deixadas a recordar
querelas e tragédias
de um calendário
sem trégua.
A chama,
filha do sopro,
do risco alquímico
a enveredar calor
nos recortes dos fósseis
dos troncos tombados.
Da brasa
exige-se o atropelo
das lástimas
e um devaneio divino.
Resta à carne
o arder anônimo,
o suor da salmoura
e o resgate ao útero do Mundo.
***
MANUAL PARA FAZER BOLA DE GOMA DE MASCAR
A goma é urbana̶ ruminância humana.
Observar
os preceitos do bom uso
dos dentes,
da forma de mascar,
de sorver a abundância
da saliva,
remoer na mandíbula
e repousar sobre a língua.
(Dissimulada leveza
do Ser de vícios.)
Artificialidade do gosto
̶ subterfúgio ̶
do que é falso
e não mascavo,
borracha
e não morango.
Remexer, revirar,
mastigar o que não é hóstia,
aguardar o porvir do nada,
do sem gosto,
da palidez real
da hipocrisia.
Contorcer sobre as papilas
a massa amorfa ̶
corrompê-la.
Pressionando no céu
da boca
o que não é estrela.
Espalhar a massa,
fazê-la translúcida.
(Apropriar-se da sacrossanta trindade x̶xx – palato, dentes e língua.)
Cingir os lábios,
usar do fole,
de soprar velas,
dar suspiros.
Trazer do tórax
o ar quente
por estreitos caminhos x̶xx – forjar destinos.
Dissecar a lâmina,
arremeter em fuga
o balão menino.
Expandir
a liberdade,
testemunhar o baque,
o estouro,
a impossibilidade do voo.
Sentir tombar sobre a boca
os restos, as sobras,
o restolho do sopro x̶xx – a felicidade.
***
MANUAL PARA PERMANECER INCÓGNITO
Um modo de ser perdido:
o extenso do nome descartado.
(Toda escolha é um pacto
de sangue.)
A marca d’água derramada
̶ comunhão do ébrio.
A certeza da régua
é um esboço sem cópia.
***
MANUAL PARA DESPERTAR
Guardar os corpos na memória,
desfazer a ilusão
de que se constrói sobre flores,
pois são mártires
e escombros, e fuzis,
e ferozes trombetas do infortúnio,
e um sentimento
de tentar entender o tempo.
***
MANUAL DO SER DIVINO
O mais das vezes
este excesso,
esta fartura, x̶xx – entusiasmo de merda ̶
esta ruína,
deslumbramento,
suspensório
para não arrear o escroto
ser de vidro
na fogueira do Inferno.
***
MANUAL DO SANTO AMPARO
Apoio a cabeça
em mão que não é minha.
Ela me batiza,
me passa a unha,
acaricia,
desmancha o cabelo,
me põe medo
tampando os olhos,
empurra o nariz
contra a porta,
me sufoca
com o travesseiro,
encosta a guimba do cigarro,
me intimida,
espeta achas,
apazigua as rugas dos anos,
sustendo erguida
a face tombada
e espalha em meus lábios
o sabor das batalhas.
Jorge Elias Neto é de Vitória, Espírito Santo (1964-), Médico, Poeta e pesquisador. É membro da AEL. Publicou “Verdes versos” (2007), “Rascunhos do absurdo” (2010), “Os ossos da baleia” (2013), “Glacial” (2014), “Breve dicionário (poético) do boxe” (2015), “Glacial” (2016), “Breviário dos olhos” (2017), “Ornitorrinco do pau Oco” (2018), “Sonetos em Crise” (2020) e “Manual para Estilhaçar Vidraças” (2021).