Aprendi recentemente um conceito novo, na minha vadiagem de leituras: “paraexcitação”. Embora não esteja nos dois dicionários de psicanálise de casa, é termo criado por Freud. Eu buscava algo novo para começar a escrever sobre Todo suicídio é um homicídio, o recente livro de Lupeu Lacerda, ele o escreve assim, a meu ver, sob paraexcitações. São defesas, são escudos. São escusas. Para-raios. Para-brisas. Paralamas. Paralemas. São paralupeus.
E assim entendo melhor esse livro: na verdade uma carta, menos ao modo ridículo das cartas suicidas e de amor, e mais ao modo dos mapas, das cartografias, das batalhas navais, como está ali na página 96.
1.
Cada investida sua no mundo editorial é um tipo de suicídio, porque depois de publicar um livro ele se cala, fica puto por qualquer coisa, os vizinhos o chateiam, os amigos antigos também, os mais novos não lhe interessam para nada, pois ele está de novo em xeque. Não comparece para corridas, não vai aos hipódromos dos autógrafos, foge das baias e das bahias dos mise en scenes. Sua melhor atuação é para dentro de seus livros, ele sabe disso, e não está interessado em nenhuma teoria mais, nem poesia, nem literatura, nem música. Ele está no melhor e no auge de sua máxima forma: está de novo só.
Lupeu Lacerda escreve sobre Lupeu Lacerda a partir da leitura que Lupeu Lacerda faz de si e contra si. Muitos anos na literatura e na música fizeram dele seu leitorouvinte mais radical.
Ele não busca pontuar em concursos e fortunas críticas, senão escrever como o cara que conheci aos quinze anos. Temos 55, eu e ele. De lá para cá, Lupeu é um fenômeno. Ele emula todos os bons e maus modos da contracultura, anuncia certo descrédito pela leitura sistemática dos críticos e evoca para si o papel de leitor de si mesmo. Sua persona pública vive sob a aura da performance de sobrevivência, bem narrados nos seus poemas-coisas ou prosoemas e tocam os leitores mais jovens, os velhos e os mais velhos ainda como eu.
E por que nos tocam? Porque morremos, os mais velhos. Porque querem morrer, os mais novos. Porém, no caminho, resta isso, a morte destinada a quem não quer morrer: a velhice. Precisamos falar sobre ela, Kevin. Em breve. Na página 77?
2.
Tolstoi caminha por sua propriedade rural: messianismo sem fé, mas esperança
Cada investida sua no mundo editorial é um tipo de homicídio. Esse seu Todo suicídio… já tem o título todo na contramão comercial. Paira algo de messiânico nele, de domesticável, e pode não agradar a alguns, mas Lupeu não parece estar muito aí para isso. E inaugura sua ironia, seu ‘tolstoismo’ particular. Como Lupeu sabe, Tolstoi, já velho, aos 50 anos, vivia atordoado por pensamentos suicidas ou pela na morte, mas sempre esperava algo a mais da vida. Um místico para além da mística, eu diria. Um escritor atormentado pela filosofia na sua potência máxima. Também serve. Dadas as proporções certas, Lacerda sempre foi alguém assim. Mas a ele se acrescente a ironia trazida pelo narrador de Todo suicídio…, livro de auto-leitura numa transleitura.
A palavra “leitura” vem de eleição, de escolha. E o autor faz muitas, boas e más, nesse novo trabalho. São sensações, parasensações; estesias, parestesias; paraexcitações, como eu disse. Seus leitores gostam. Escreve para os confins e os confinados do século da Peste.
3.
Desde 2019 foi retirado outro mal do jarro de Pandora. A Covid. Neste maio de 2021, já somos mais de 400 mil mortos, cuja paisagem mais fiel está na página 59, à espera do Deus anunciado dez páginas antes.
Mas o deus da pandemia, de Lupeu, é Pã, chamado de Lupércio, pelos latinos.
A divindade nesse seu novo livro é esse Pã e não aquele Tânatos, de Entre o alho e o sal, (2007), por exemplo. Mesmo quando esse deus festeiro namore Senectus (de onde vem a palavra geração, essa velhice). O narrador de Todo suicídio… é um Titônio moderno, transformado em imortal, mas sem o privilégio da eterna juventude.
Deixe-me provocar lembrança mais recente a quem lê esta resenha: se Alex, o personagem central do romance A laranja mecânica (1962), de Anthony Burgess, envelhecesse, seria ele o narrador de Todo suicídio… A aproximação não é deslocada. Lacerda aponta de forma consciente para o leitor ou leitora algo distópicos, descrentes, amantes de Cioran mesmo sem conhecê-lo para além das epígrafes ou aforismos, para quem os clichês da linguagem precisam ser reconhecidos de imediato. E seus leitores são fisgados justo por essa familiaridade. Somente depois seu poema ou narrativa vão se inovando. Lupeu é um escritor que poderíamos chamar de cult. De seguidores. E acerta bem na lata: o público interessado na rebeldia em relação às convenções sociais e literárias. Sua única novidade é garantir vitória sobre o desafio violento de se manter o mesmo. E isso não é fácil no mundo como o nosso, sobretudo o submundo literário. Esse compromisso mantém o autor vivo, me parece. Certa irregularidade, comum a todo autor, faz parte da verossimilhança, dessa atmosfera criada por Lacerda, onde se inclui persona & obra que, com exceção de um livro, Caos Tecnicolor (Virtual books, poemas, 2012), mantém escalada bastante visível.
4.
Todo suicídio… está entre a realidade da lobotomia e as sensações e emoções sem filtros, isso inclui a inteligência; entre o mundo mecânico e o digital, um reino de linguagem pessimista/realista que define bem o personagem-narrador do livro. Suspenso na dupla impossibilidade de dois mundos, o personagem percorre o livro, viaja pelo mundo idealizado buscando a Beleza das coisas e como já não acreditasse tanto nela. Isso me lembrou Rimbaud. Não era o poeta Rimbaud quem disse ter sentado a Beleza no colo para injuriá-la? O leitor ou a leitora desta resenha devem dar uma olhada nos livros para ver se não estou confundindo Rimbaud com Baudelaire, mas acho ter sido Rimbaud: “Sentei o Beleza no colo e a injuriei”. Algo assim. Esse sentimento me arrastou para dentro do livro de Lupeu, ou seja: “Tá, tudo bem, há a Beleza nas coisas, o.k. mas e aí, o quanto mesmo isso muda lá em casa?”
É esse o narrador que marca encontro conosco no livro, alguém encurralado nessa dupla tentativa, a ambi-existência. Alguém disposto a dar ao mundano a beleza sem dar tanta ênfase aos seus efeitos e eloquências. Por isso o livro se aproxima mais do poema e menos da prosa, na busca do registro, da palavra certa e vã. Ali está um dos pontos bons do livro. Esse paralelismo.
Mas a senhora aqui não é a Morte nem a Beleza. É mesmo a Velhice.
Por isso não soa mal a lembrança do personagem Coelho, o Harry da trilogia de John Updike, no começo desta resenha.
Logo, não é tão à toa aparecer o fóssil na capa. Ele está dentro da pedra. Contudo, é preciso quebrá-la lhe adivinhando seu sentido ou longitude, se se quer mesmo encontrar a esqueletaria, o peixe antes jovem e buliçoso; agora, só fantasmagoria, representação somente.
Eternamente morto e velho.
Não é em vão o intertítulo: “prosoemas para ninar dinossauros.”
Assim é assim o narrador que Lupeu retira da pedra, desse livro novovelho: alguém condenado à velhice, mas sem lamentar a vida nem pedir para morrer nem para lhe matarem, mas que, de alguma forma, toquem a flauta do fauno.
5.
Há 14 anos, escrevi sobre o recém-lançado Entre o alho e o sal, publicado pelo selo Outsider, da Kabalah Editora:
“Tiro do bolso a última bala. Ela tem um brilho estranho, daqui, contra o Sol do Recife. A pólvora rescende a um último verso, talvez. Fi-la dormir no tambor da arma. É uma criança linda. Use-a você, meu amigo. Talvez você queira acertar o autor com ela, ou usá-la em benefício próprio, sabe-se lá.”
Essa escolha serve ainda para a leitura de Todo suicídio… que, diferentemente, não se curva sobre o “eu”, como é o caso de Entre o alho e o sal. Já Todo suicídio… trata mais do Ele, o Louco, o Homem, o Palhaço, o Cujo, o Cospe-Bula, o Caga-Regras, o Indivíduo, o Dito, o Idiota. Este livro é sobre o Você.
6.
Lucha libre, religião mexicana.
No nosso último encontro, eu e Lupeu nos desencontramos e quebramos tudo em torno de nós, nada ficou de pé nem vivo, e terminamos humilhados pelo cansaço e a asma e a velhice, nos esmurrando com golpes que eram mais velhas carícias, porque inúteis e inofensivas. Só nos unimos por um instante: para esmurrar quem tentava apartar nossas mágoas. E voltamos para nossas tesouras-voadoras, nossa religião, nossa “lucha libre”. Olhos roxos, descobrimos de nossa amizade aceitar sermos ao mesmo tempo velhacos e velhos, dois grandiosíssimos filhos da puta, desses wrestlers mascarados que não precisamos mais das cordas, por sabermos de nossa velhice ser agora o ringue mais verdadeiro, a parte mais revolucionária de nossas vidas. E seguimos intrigados um do outro, intrigados um com o outro, mas não a ponto de não nos reconhecermos: dois escritores-pedras da mesma montanha. Pedras inencontráveis.
É sobre aquela revolução, romântica, a anunciação do seu novo e mais velho livro, Todo suicídio é um homicídio, que vocês precisam ler. Ler, não: praticar.
Panteras em transe
Dançam sob minha pele
Cerro meus olhos e sinto
A furiosa partitura nas artérias
E a sinfonia dos caninos acesos
Lacerando a carne
A febre cresce e decifro
A fábula canibalesca
***
A Carne Flamante das Metáforas
Irmã fronteiriça
Alia bestial delícia
Ao seu léxico luxurioso
Colhe especiarias na mata
Tece um amuleto de enigmas
Sangria de grafemas e signos
Rumorosa raptora
Transita e transborda
Salta entre as páginas
***
A Doçura Peçonhenta dos Feitiços
Meus seios sussurram preces em tuas mãos
Rosários lambem teu espírito enfurecido
Os meus feitiços roçam os céus de tua fome
Sílaba a sílaba, sacrílega
Tempero um apocalipse
Com a tempestade dos nossos nomes
***
As Mil Portas do Poema Ardem
Cinco voltas
Ferozes
À fechadura
***
Códex
Uma canção toma de assalto a minha boca
e estilhaça a paz que não queremos.
Dentro da casa que erguemos,
não há mordaça que baste:
o sonho cresce selvagem no sangue.
Um verso acende molotovs na língua,
verve virulenta inventa a rebelião.
Um gatilho para o tumulto,
entre corpos pacatos e obedientes,
um acorde eriça a revolução.
***
Teia
Francesca Woodman desliza
por dentro das fotografias.
Com olhos aranhiços,
a face sublime suicida.
Francesca dança
nua
levita e tece.
Penélope suspensa
espreita,
espera.
De súbito, o rapto
Francesca nos dilacera.
***
O balanço do fim do mundo
Um céu deliciosamente louco nos convida
ao beijo vertiginoso do abismo.
Ardilosos feiticeiros, driblamos a morte
e nos encontramos como dois pássaros infinitos
em cósmico voo.
***
Talismã
Nas mãos de um anjo
o mineral mistério
onde o desejo se enraíza
e diabólico, floresce
cruel e escura ferida
no coração de Deus.
Anna Apolinário (João Pessoa – PB, 1986). Bruxa, poeta, produtora cultural independente, organizadora do “Sarau Selváticas”, co-fundadora da “Cia Quimera” – Teatro & Poesia, colaboradora da Revista Acrobata – Literatura e Artes Visuais. Autora dos livros “Solfejo de Eros” (CBJE, 2010), “Mistrais” (Prêmio Literário Augusto dos Anjos – Funesc, 2014), “Zarabatana” (Patuá, 2016), “Magmáticas Medusas” (Cintra/ARC Edições, 2018), “Las Máscaras del Aire” (Poema Colectivo – Cintra/Arc Edições, 2020), “A Chave Selvagem do Sonho” ( Triluna, 2020), “Furor de Máscaras” – Poemas automáticos em coautoria (Cintra/ARC Edições, 2021).
Um sonho. Lá está ela, nos dias de Junho, durante o auge do solstício de inverno. Lá está ela, no mais alto plano do hemisfério austral, próxima à constelação de Órion. Liúna é uma galáxia, para quem pode vê-la. A mais estrelada do universo. Espiralada, cinco linhas circulares, paralelas, mas que se tocam de leve. Predominam o dourado, o anilado, o prateado, e tons de ardósia nas bordas. Sua figura se consolida no dodecaedro. Veste-se de seda inconsútil, imaculada, e apenas disto se veste. Possui o poder universal de suster os luminares, por isso nenhuma contristação sente, e não há o mais leve sinal de que ela não sinta demais outros sensos. Diz-se que no centro do seu alvor reside a mais fulgurante estrela, que se observada através de um prisma especial, contar-se-á oito pontas, e cinco ao centro. Seus olhos de âmbar transparente e claro transfixam-nos constantemente (por isso a impressão de que somos observados e ao mesmo tempo protegidos). As entidades mágicas de variegados domínios e graus podem pensar, voar, pairar, andar, circunvagar, existir, morrer e reexistir como queiram, quando e onde, segundo os auspícios de Liúna. Debruçam-se sobre as esferas, clarificam certos âmbitos, domínios, e administram certos campos, segundo o que apraz Liúna. E ela estende as mãos e nos toma para si — sua miração primeira possui dois ângulos abertíssimos, e no centro, o adentramento e o anelo. E pode transmutar-se ao coração do homem em dura gnaisse, ou em matéria vaporosa e volátil. Eis a porta aberta, o fogo, irresistível umectância! E ele, o Carlos, abriu uma das mãos, ao máximo, até as pontas dos dedos curvarem-se para cima; desceu as mãos sobre a coxa lisa e dura, perto da virilha dela; parecia tocar em brasas (não porque estivesse quente como o fogo — muito porque a perna, a coxa, em que se toca, muda a sina das mãos, embaralha a ordem das coisas, desfaz o sossego da mente, e eriça alguma coisa dentro do peito — perdição); bordeou a orla da fundura de Liúna, e caiu, de corpo penso, ao fundo. Sentiu estremecimento antigo. Lançou-se, num ímpeto, imerso, e atravessou-se para lá. E em Liúna o editor sumiu. Um sonho.
***
Formação
Alceu Vivalma compositor de samba das antigas! Reverenciado, ainda que “dissidente” da Portela. Do tipo “raciado”, porque trazia os sinais supremos do autêntico e do febril criador. Ébrio-de-cara-inchada e pálpebras caídas, ao modo do equilíbrio entre o sadio e o patológico, do fígado não muito cirrosado, porque só no final, tal e qual o auge, amadurece no ser do boêmio aquele horizonte trágico, apaixonado, entre a indiferença do artista diante da proximidade do fim e o seu mais inspirado e fervoroso momento de criação (certamente evidente no último disco lançado). Isto quer dizer — como pensam alguns radicais — que a obra póstuma, por vezes incompleta, é a obra máxima do artista, “a obra de porta aberta”, em que os críticos têm pano pra manga. E a obra-prima é aquela que nos lega espaços vazios e brancos, suscetíveis a enchimentos interpretativos, e aos questionamentos de todos os tipos, sem os quais a conversa não se prolongaria, nem a crítica se lamberia, e a rodada de cerveja vai que se acaba em breve. E é preciso que digam alguma coisa e sempre, nos jornais, na roda de samba, na esquina cotidiana, dentro dos lares, dentro do pensamento de quem curte a coisa toda, porque se se acabar o converseiro sobre o artista quando morto, ele pode ainda morrer novamente. E é essa “segunda morte”, o silêncio da boca do povo, que o artista tem medo de morrer.
Diziam que os “iniciados” o reconheciam em qualquer lugar, sem requerer dele nenhum imperativo de palavras de apresentação. Era necessário o silêncio para que reverberasse o som. Cantava ao violão Di Giorgio 1979. Voz de barítono levemente alcoolizada e rouca. Alguém batucava de leve num pandeiro deitado sobre a mesa — “A vida é assim/ Eu sou assim/ Não me leva a mal…”.
Após, Alceu Vivalma ainda recebia os aplausos, quando Safiro do Borel cochichou no seu ouvido. Em seguida, num canto do bar, ambos conversavam.
— Alceu, meu amigo, agora é a tua hora, o teu primeiro disco. Por favor, não diga não desta vez! A oferta é irrecusável. Fubica disse que ele mesmo produzirá o teu disco! Aceita, homem! Fubica é gênio de mixagem, e Aloísio um mestre do merchandising, das rádios, da tevê. Aceita, homem! Ou vai morrer cantando em bares? Compondo música para tocar em mesa de boteco? Teu repertório, bicho, está fadado ao sucesso! Vai estourar! Fubica é um mestre! Aloísio é um mestre! Você é um mestre! Vai tocar em todo mundo.
Alceu, com ar de pensativo, disse, pondo a mão direita sobre o peito:
— Não me vendo, meu amigo. Tu sabes porque resisto. Tu sabes…
Safiro se aperreava.
— Homem! Eu sei das tuas filosofias. Mas, seja um pouco mais flexível. Seja sábio desta vez! Ou prefere mofar naquele barraco?
Alceu enrugava as sobrancelhas, como se estivesse zangado:
— Ninguém é sábio, rapaz! Essas gravadoras todas não iriam desvirtuar minha imagem e minha música? Eles gostam de meter o dedo em tudo. Lembra-se que modificaram a minha capa?
— Águas passadas, meu amigo. Pode crer. E os caras da OMD são imbatíveis, profissionais!
Alceu o encara, põe a mão no ombro dele.
— Quanto custará sua comissão por esta empreitada? Me diga!
Safiro do Borel ajeita a gola da camisa.
— Homem, isso é de menos… o teu sucesso é o que importa.
Alceu o encarou por um instante.
— Me fale a verdade: lembra-se que modificaram a minha capa?
Safiro coçou o topo da cabeça e olhou de lado.
— Sim, sim. Há vinte anos atrás? E tu ainda se lembra disso, bicho? Deixa de orgulho, meu irmão! Aquela capa estava mais para disco de música clássica, ou caipira… do que para o teu disco de samba raiz.
Alceu descansou a mão direita novamente sobre o ombro de Safiro, e disse em voz demasiadamente pausada:
— Além da capa, eles regravam os batuques, mudaram o ritmo, descartaram nosso partido alto, tiraram os graves do som.
Quando ouviu a expressão “Partido Alto”, Safiro respirou fundo e calou-se. Tremeu-lhe o queixo. Encheu-se os olhos d’água, ainda encarando os do Alceu. Baixou a cabeça e foi-se.
Em seguida, Abelardo e a esposa chegaram junto do Alceu.
— Ouvi a conversa to-di-nha! — cochichou Abelardo, num tom assisado, e continuou — Novamente, Alceu!? Vai negar até quando a oportunidade de ouro? O tempo passa, meu irmão. E o nosso disco? E o nosso disco?
— Ah… Disso eu sei, Abelardo. Um dia eu gravo. Agora, não.
— Compadre, compadre, tome jeito! — disse Lurdinha, esposa de Abelardo.
— Não sei o que dizer… — finalizou Alceu de cabeça baixa.
Lurdinha o encarava com aquele semblante de zangada, de quem exorta um amigo ou um parente.
— E o senhor não dá a mínima para registrar a sua obra? E o nosso disco?
Alceu passou a mão no rosto, de cima para baixo.
— Do fundo do meu peito, vocês sabem que não minto. Digo o que penso. De verdade: quem quiser me ouvir, que venha até aqui me escutar tocar e cantar. Eu amo este bar, as pessoas, vocês dois… não porque vocês sejam os proprietários… eu amo este bar… há décadas nos reunimos aqui. E isso já me basta. Encontro paz e sossego, aqui. E eu acho, aliás, que a fama é exigente demais, sufoca o artista em demandas impossíveis.
Os três detiveram-se em silêncio por um instante. Lurdinha e Aberlado reconheciam sua genialidade, sua sinceridade, por isso o olhavam-no com orgulho e apreço.
— Como pode cantar canções tão belas?… — perguntou Lurdinha depois de longo silêncio. Os clientes observavam de longe.
Com esta pergunta, os olhos de Alceu encheram-se d’água:
— Vou te contar algo que nunca antes disse a ninguém — ele falava entoado, com aquela rouquidão típica de sambista, que brota do fundo da garganta, quando se expressa e se expira desde o ventre —Sou íntimo de mim mesmo, quando não tem alguém por perto. Parece óbvio, mas não é. Assim, me debruço em mim mesmo e passo um tempo nisto, só cavando. Desço às profundezas do Alceu de verdade e reconheço a sua face de homem que nunca desistiu no meio das lutas, e vou buscar por lá, no fundo da alma, umas poesias, uma canções, o meu jeito mais particular de ser. Depois, apresento o que tudo naquela mesa, ali, aquela… sim, a minha mesa, a mesa que me basta. Mas, apresento porque… é o dever do artista, vocês sabem como é…. Depois descanso. Depois, missão cumprida. Depois, volto para casa. Fico por lá por alguns dias, olhando as paredes e as telas pintadas que os amigos me deram de presente. Leio umas coisas… leio Drummond, Bandeira e João Cabral e outros, e choro, mas ninguém vê, graças a Deus, porque lágrima verídica na cara de artista pode ser sinal de fraqueza, pode ser seu sim, dar em má interpretação. Se vissem as lágrimas que choro todo dia, meu samba perderia a graça, viraria um “caldo ralo”, porque só se pode ver a boa lágrima, com a poesia e tudo, no próprio samba, ali, naquela mesa, onde cada nota do violão e verso cantado é suada e chorada, mas o artista não pode chorar pra o mundo ver, somente no samba, eu já disse. Quando escrevo eu tomo um baque e a boca do mundo vem me visitar, me fazer sofrer, aí eu não suporto o seu peso — daí eu penso nas crianças jogadas, eu penso nos velhinhos… eu penso no amor negado a uma mulher fiel que por sofrer demais caiu na vida, eu penso no cara que morreu de tanto tomar pinga por causa de amor não correspondido, eu penso nessas coisas e penso no próprio samba, na coisa em si, tá entendendo? E após, eu lembro dos grandes que antes de mim cantaram, e a sua música fica tocando o dia todo dentro da minha cabeça, eu lembro da paixão de cada um deles, e as minhas pálpebras começam a pesar abaixo da testa, meus olhos ficam vermelhos, meu nariz se enche d’água e eu começo a fungar e a garganta dá um nó. Tudo isso que digo, a intimidade do artista, é cafona, apelativo, fora de moda? É. Mas sem essa matéria-prima não pode haver samba. Por isso gosto de ficar sozinho.
Wellington Amâncio da Silva nasceu em 1979, em Delmiro Gouveia, Alagoas. É professor graduado em Pedagogia e Filosofia, e tem mestrado em Ecologia Humana. Editor das Edições Parresia. É membro da equipe editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Em literatura, publicou-se: Apoteose de Dermeval Carmo-Santo (2019), O Reneval (2018), O Quasi-Haikai (2017), Epifania Amarela (2016), Distímicos e Extrusivos (2016), Diálogos com Sebastos (2015), Primeiros poemas soturnos (2009) e Elegia da Imperfeição (2001).
Yang Haoyu appears in Dead Pigs by Cathy Yan, an official selection of the World Cinema Dramatic Competition at the 2018 Sundance Film Festival. Courtesy of Sundance Institute | photo by Frederico Cesca. All photos are copyrighted and may be used by press only for the purpose of news or editorial coverage of Sundance Institute programs. Photos must be accompanied by a credit to the photographer and/or 'Courtesy of Sundance Institute.' Unauthorized use, alteration, reproduction or sale of logos and/or photos is strictly prohibited.
Por Guilherme Preger
Dead Pigs. China. 2018.
Uma diretora chinesa de sucesso que é chamada para os Estados Unidos para fazer um filme americano de grande estúdio. Não, não estamos nos referindo à atual ganhadora do Oscar, a diretora Chloé Zhao, de Nomadland. Estamos falando de Cathy Yan, diretora cujo filme de estreia é Dead Pigs (2018). Cathy fez sucesso no festival de Sundance nesse mesmo ano e depois foi convidada para dirigir o filme Aves de Rapina (Birds of prey) do grande estúdio DC Comics. Dead pigs foi lançado agora para a plateia global via plataforma de demanda MUBI. Embora tenha nascido em Xangai, Cathy Yan mora nos EUA. Apesar disso, seu primeiro filme aborda sua cidade e país natal, Xangai. É uma comédia falada em mandarim, produzida com o estado da arte da tecnologia, que traz o cotidiano e os conflitos da China contemporânea da maneira mais franca quanto possível.
Não gostaria de realizar aqui uma comparação entre Nomadland e Dead Pigs, que são filmes quase diametralmente opostos, apesar da coincidência de situação de suas diretoras. A vitória do filme de Zhao no Oscar faz sua obra estar sendo bastante comentada. No caso da obra de Yan, no entanto, apesar da excelência de sua produção, é uma obra bem menos mencionada. No entanto, em termos de geopolítica, no momento mesmo em que voltamos a ingressar em um novo tipo de Guerra Fria econômica entre duas superpotências, esses dois filmes tornam-se de grande importância sociológica e histórica. A única comparação que arrisco é a curiosidade do contraste entre ambos: enquanto Nomadland investiga o nomadismo dos atingidos pela crise econômica americana, Dead Pigs observa, numa grande cidade chinesa, uma das maiores do mundo, o desejo de permanência e habitação, numa sociedade em que, mais do que os habitantes, o ambiente parece velozmente se alterar. Em outras palavras: no primeiro filme, as pessoas se mudam enquanto a sociedade está estaticamente congelada em seu consumismo sem remédio. No segundo filme, as pessoas querem se fincar às suas raízes, mas parecem levadas pela voragem do progresso acelerado.
Dead pigs é baseado em fatos reais: em 2013, centenas de carcaças de porcos apareceram boiando no rio que corta a cidade de Xangai, durante vários dias. Descobriu-se que criadores de porcos estavam jogando seus porcos misteriosamente mortos no rio à noite, clandestinamente. Mortes misteriosas de porcos na China são sempre um caso de apreensão, em função das epidemias. Até os dias de hoje a causa da morte dos porcos se mantém não inteiramente esclarecida. Houve boatos de envenenamento na ração dos animais ou na água do rio, ou de uma misteriosa infecção suína que, no entanto, não se propagou para os humanos. No filme, Wang, um dos protagonistas da história, é criador de porcos e perde toda sua criação no misterioso incidente. Tal como nos fatos verídicos, Wang também se livra clandestinamente de seus porcos mortos. Trata-se de um momento de grande infortúnio para o personagem, pois ele também perdeu todo seu dinheiro, tomado emprestado, na Bolsa de Valores, seduzido pelas perspectivas de enriquecimento especulativo fácil. Wang torna-se assim endividado e é cobrado por suas dívidas pelas gangues chinesas de agiotas.
Dead Pigs / Foto: divulgação
Wang precisa recorrer à ajuda de sua irmã, Candy Wang, que é a principal protagonista do filme. Ela é vivida pela grande atriz internacional Vivian Wu, conhecida do público desde o Último Imperador, de Bertolucci, nos anos 80. O nome de Candy Wang ressoa com o de Cathy Yan, da diretora, o que não é acidental. Candy é a principal cabelereira de um salão de beleza. Seu lema é que não existe mulher feia, mas apenas preguiçosa. Mas o drama de Candy, solteira, é que ela vive sozinha na casa que pertenceu há décadas à sua família. Havia toda uma vizinhança com quem ela cresceu, porém agora sua casa é a única que resta, isolada no meio de um aterro sanitário de destroços, num imenso terreno que foi comprado por uma empreiteira chinesa. Esta empresa planeja, em parceria com investidores americanos, construir no lugar um empreendimento residencial temático, como se fosse numa Espanha romanticamente andaluza. A casa de Wang é a única que não foi vendida e ela se recusa não só a vendê-la, mas a se mudar do lugar onde nasceu e cresceu, mesmo degradado. Acontece que seu irmão está endividado e precisa que Candy venda a casa para pagar suas dívidas, sob o perigo de pena de morte nas mãos da gangue de agiotas. E aí está criado o conflito de família.
Há também o jovem Wang Zhen, filho de Wang e sobrinho de Candy. Ele trabalha num restaurante de luxo em Xangai, porém mente a seu pai que é um jovem bem sucedido. Zhen se apaixona pela jovem rica Xia Xia, que é filha de um milionário chinês. Esta sofre um acidente de carro ao atropelar um vendedor de melancias. Ela pertence à classe dos novos ricos chineses, cujo destino é estudar fora, e que vivem uma vida de luxo consumista num país comunista. Com Wang, Candy e Zhen está formado o núcleo familiar da trama.
Uma das grandes virtudes da narrativa é entrelaçar à vida desses personagens os principais dramas das imensas transformações da China contemporânea. Wang é um criador de animais que é ao mesmo tempo um jogador da bolsa de valores. Ele está entre a vida rural e urbana, sendo o liame entre os dois polos da economia chinesa. Ele se diverte ao comprar óculos de imersão virtual 3D, ao mesmo tempo em que gosta de estar com amigos em jogos de tabuleiro tradicionais chineses. Sua falência é também a destruição de um estilo de vida tradicional popular, espremido entre as dívidas financeiras e as cobranças mafiosas de agiotas. Candy, como dona de um salão de beleza, a cada manhã reúne suas funcionárias para a tradicional dancinha de exaltação nacionalista. Ela é solitária e suas principais companhias são as pombas que alimenta em seu viveiro. Assim como seu irmão é vítima da especulação financeira, Candy é vítima da especulação imobiliária. Ela não quer deixar o lugar em que criou raízes e que se vê agora degradado. Já Zhen é um jovem que quer subir de vida, mas se vê às voltas com as grandes diferenças de classe que surgem num país outrora igualitário. Essas diferenças de classe interferem não só no seu orgulho (pois é humilhado por clientes ricos), mas também em sua vida amorosa quando se apaixona por uma jovem que é bem mais rica e que já tem valores bem diferentes.
Dead Pigs desenvolve inicialmente uma montagem vertiginosa entre esses mundos, de modo que o espectador também se vê tão desorientado quanto os chineses de Xangai. O tom é de comédia, porém ácida e auto-irônica, muitas vezes burlesco. Nisso, um dos personagens é também importante. É o arquiteto americano Sean. Ele está na cidade como parceiro dos chineses para a construção de condomínios residenciais temáticos. Sean é um romântico da arquitetura, mas os chineses querem o espetáculo, a simulação e a ostentação que julgam características tipicamente americanas. Os chineses querem ser melhores do que os americanos no próprio sonho americano. O filme sugere que a guerra comercial entre americanos e chineses esconde parcerias e acoplamentos mais subterrâneos ou menos aparentes. Numa das passagens do roteiro, Sean tenta uma abordagem mais “humanista” para justificar a desapropriação dos terrenos antigos para a construção de novos condomínios, mas é como se ele estivesse se expressando numa linguagem desconhecida e quase poética, e o resultado é uma situação totalmente constrangedora e fora-do-lugar, mas que inesperadamente funciona.
Dead Pigs / Foto: divulgação
Apesar do tom afetivo, a obra de estreia de Cathy Yan é bastante corajosa quando traz à cena os principais dilemas da vida chinesa que ambiciona se tornar a nova superpotência global. O filme nada censura sobre os reais problemas dos chineses de Xangai, tendo que se ver com a violência de máfias, a iminência cotidiana de uma nova epidemia, a crescente divisão de classes, e a soma das especulações financeiras e imobiliárias que estão intimamente conectadas, como o filme sugere. O pano de fundo histórico para todos esses problemas é o grande “Salto para Frente” do crescimento chinês, o maior de toda a história da humanidade. Na cena clímax do filme, em torno de um conflito que parece insolúvel, a saída do enredo é apresentar uma canção popular chinesa cantada por quase todo o elenco. O lirismo da canção pacifica e “supera” o conflito. Nesse momento de metalinguagem, o filme se volta para si mesmo, mas esta saída não é a mais fácil. Ela é antes a expressão de que os gigantescos problemas que os chineses comuns enfrentam diante das transformações incessantes não têm mesmo como ser resolvidos no plano individual. É nesse momento, ou nessa encruzilhada, que a potência da linguagem artística intervém. Ela não cria uma situação fantasiosa na qual os problemas magicamente desaparecem. Ela recorre e acentua o paradoxo da situação para mostrar que, em vez de simplesmente negar o conflito, é preciso usá-lo como a fonte que impulsiona tanto a História, com letra capital, quanto a pequena história individual e invisível, real ou imaginária, das pessoas que são exatamente comuns porque se reconhecem num momento de beleza compartilhada.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.
Uma trilha de formigas
sobe a parede
parecendo um ponteiro.
Sai de trás de um relógio
e cada uma
parece um segundo
em direção ao poço do prédio
onde só há o esquecimento.
Vão fugindo tão devagar
que é possível fechar a janela
para que o tempo
não escape do quarto
Para que as formigas deem voltas
e mais voltas ao redor da gente
como se o tempo parasse.
Ou para que retornem ao relógio
como se o tempo retrocedesse.
Voltasse ao ponto
em que instantes antes
uma formiga andava pelo chão
e você, numa cena linda
com um copo de plástico
retirou-a dali
colocando-a nas plantas
para que aquele pequeno segundo
jamais
se perdesse
***
Cena
Ver você através da janela
como se os limpadores de para-brisa
fossem os pincéis numa cena
que vai virando passado
à medida em que o ônibus
se aproxima.
Como uma pintura que vemos na sala
e imaginamos apenas
os movimentos do pincel
atrás das cores.
Ou uma música em que imaginamos
o que fazíamos e onde estávamos
ao ouvi-la da primeira vez.
Como se no ônibus eu estivesse
com fones de ouvido
e assim que chegasse,
a cena do encontro já estivesse
em um dos seus desenhos.
E tudo que parecia acontecer
pela primeira vez
os sons, as cores, as lembranças que teria
quando chegasse
fosse algo que eu apenas recordasse
pois você já teria me mostrado
no caminho
há muito tempo
***
Viagem dentro de um quadro
Ela olhava pra fora
do carro como se houvesse uma pintura
que ia se fazendo aos poucos.
Então passava os dedos no vidro
como se fosse ela
que pintasse a paisagem.
Primeiro pintava as árvores, contornando-as,
ou as rosas, cujas pétalas
pareciam sair da tintura vermelha das unhas,
e um lago aparecia conforme a respiração
embaçava o vidro e ela murmurava o barulho das águas.
Depois, era a paisagem que entrava pelo vidro aberto,
na luz que coloria a pele,
no vento que trazia os cheiros das flores
e desenhava seus cabelos
como se fosse ela que estivesse dentro do quadro.
Ela parecia dormir encostada no vidro,
sonhar com a paisagem
que aos poucos se formava.
Por isso, ao atravessar um longo túnel,
a lua aparecia como um olho brilhante que investigava
tudo. E quando uma montanha na forma de
menina enrolava toda a pintura,
parecia ser ela se preparando para dormir
do outro
lado
***
Caixa de sapatos
Ela guardava suas fotos
numa velha caixa de sapatos.
Mas o olhar que a câmera
capturava era o olhar que
eu via todos os dias.
Aquela doçura já lhe servia
quando criança.
E as olheiras lhe serviam
à medida em que o corpo crescia.
O olhar mais lindo que eu
vi era como uma roupa
que sempre a acompanhava
e através dele eu podia imaginá-la
ao meu lado mas também
no corpo de antigamente e nos vestidos
que usava naqueles dias.
Era como um tênis
cujo número nunca mudava.
Que ela guardava numa caixa
como se aquele tênis fosse também
uma espécie de fotografia
Rafael de Oliveira Fernandes nasceu em São Paulo, em 1981, é autor dos livros de poesia ”Menino no Telhado” e “Cadernos de Espiral” (ed. 7letras), e dos romances “Vista Parcial do Tejo” e “Baseado em Fantasmas Reais” (ed. Patuá).
Do sentimento à ação: um olhar sobre a prática amorosa
Por Vinícius Gaudêncio de Oliveira
As relações amorosas, sejam elas românticas ou comunitárias, têm sido impactadas diante do enfrentamento de males estruturais e estruturantes da sociedade, como o racismo e o patriarcado, elementos que operam através do domínio exercido pela força.
O combate ao racismo e a luta por igualdade de gênero, lutas legítimas e temas da ordem do dia, encontraram nas redes sociais um novo espaço público. Nesse sentido, as divergências entre amigos, familiares e até mesmo entre casais que vivem uma relação amorosa estão cada vez mais expostas, trazendo para o debate público a necessidade de uma autocrítica enquanto seres dispostos a abrir mão de relações opressivas, de maneira que o amor se manifeste de forma autêntica.
Nesse contexto, “Tudo sobre o amor, novas perspectivas”, de Bell Hooks, dá uma substantiva contribuição ao debate, colocando o amor na centralidade das relações humanas: “Nós nos tornamos completamente humanos até que nos entreguemos uns aos outros no amor”.
O livro, primeiro da Trilogia do Amor, seguido de Salvação: pessoas negras e amor e comunhão: a busca feminina pelo amor, traz no capítulo 1 a importância de saber nomear o amor. O encaminhamento narrativo, sempre quando se referir a palavra amor, vai sugerir, para além de um forte sentimento, que o amor é a ação de comprometimento que promoverá crescimento mútuo. A autora, na sua busca pelo entendimento da palavra e pela palavra, traz definições intertextuais decisivas para formulação da sua tese, ao citar o psiquiatra M.Scott Peck, que vai dizer, no seu livro A trilha menos percorrida: uma nova visão sobre a psicologia e o amor, que o amor é “a vontade de se empenhar ao máximo para promover o próprio crescimento espiritual ou de outra pessoa”.
Desesperança, medo, solidão e desamor são elementos constitutivos e condicionantes da vida humana. Bell Hooks vai dizer, a partir da observação minuciosa do desespero de seus alunos, que a espiritualidade ajuda na superação de sentimentos de isolamento, proporcionando mais uma ferramenta na busca pelo amor, uma vez que ele, o amor, proporciona também elevação espiritual. “Todos precisam estar em contato com as necessidades de seu espírito. Essa conexão nos chama para o despertar espiritual para o amor’.
O capítulo 4, intitulado “Compromisso: que o amor seja o amor-próprio”, foi, segundo a autora, o mais difícil de escrever. Isto porque se faz uma confusão ao atribuir ao amor-próprio ideias equivocadas. “Precisamos parar de igualar covardemente o amor-próprio a egoísmo ou egocentrismo”. Não é difícil perceber nas redes socias essas ideias equivocadas. Basta observarmos páginas de influenciadores digitais de público majoritariamente feminino – que até formam redes positivas de acolhimento, de sororidade – mas por não saberem nomear o amor e entenderem que a base do amor-próprio é a prática amorosa, acabam passando uma mensagem distorcida e egocêntrica, desconsiderando que o amor-próprio genuíno é quando nos conhecemos e reconhecemos no outro aquilo que transborda da gente.
A autora de Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra faz importantes considerações sobre a baixa autoestima, uma vilã da busca pelo autoconhecimento. Para isso, o livro aborda as seis dimensões para elevar a autoestima, dimensões propostas por Nathaniel Branden, no livro Autoestima e seus pilares. Chamo a atenção para a primeira delas, “a prática de viver conscientemente”, que vai significar pensar criticamente sobre si e sobre o mundo, nos ajudando a entender as transformações sociais ao longo do tempo e, fundamentalmente, buscando entender qual o nosso papel diante delas, nos aceitando e nos reconhecendo enquanto seres em permanente mudança e constituídos por dores, perdas e tristezas, mas também com capacidade de reinvenção e superação: “O coração ferido aprende o amor-próprio começando por superar a baixa autoestima”.
Após reconhecer as origens que levou a baixa autoestima, como socialização negativa, abusos e traumas, Bell Hooks fala da importância da atividade laboral na busca pelo amor-próprio, afirmando que, ainda que trabalhando com o que não gostamos, a única forma de lidar com a insatisfação é executar bem aquilo que nos é confiado, como melhor forma de lidar com as dores. A narrativa segue discutindo a relação entre vocação e dinheiro, e como podemos tirar proveito de situações as quais não nos agradam. Para isso, ela cita como o seu trabalho de cozinheira, do qual ela não gostava por odiar o barulho e a fumaça, se tornou uma oportunidade para realizar o seu sonho: “Trabalhar a noite me deixava livre para escrever durante o dia. Cada experiência aprimora o valor da outra”.
Autora de O Feminismo é para todo mundo, Bell Hooks, ao falar de amor, dá uma consistente contribuição para o movimento feminista. Isso porque, embora militante fervorosa, a autora não cai no radicalismo de afirmar que o feminismo é um movimento que exclui o homem do debate, ao contrário, vai afirmar que a luta das mulheres por igualdade de gênero é, ao mesmo tempo, uma luta que vai combater a masculinidade tóxica que acaba por afetar também os homens: “A masculinidade patriarcal distancia os homens de sua identidade”.
Como o patriarcado é historicamente atravessado pelo desejo de poder, o feminismo é também, em última instância, a luta pelo resgate do amor genuíno. “Onde o desejo de poder é primordial, o amor estará ausente”. Nesse sentido, a honestidade diante da pessoa amada e o desejo de desconstrução de padrões machistas, nos quais os homens rigorosamente se inserem, são condições fundamentais para que o amor possa penetrar e encontrar terreno fértil, livre de opressão, fazendo com que o encantamento pela pessoa amada seja maior que o encantamento pelo poder.
Em geral, quando falamos de amor, facilmente incorremos em clichês do tipo “felizes para sempre”, o que não ocorre em “Tudo sobre o amor, novas perspectivas”. Com uma linguagem simples, porém contundente, o livro assume a sua potência na medida em que define o amor sem apelar para uma autoajuda barata – e aponta caminhos consistentes para alcançarmos o amor, seja ele romântico, familiar ou entre amigos.
Na minha última resenha publicada nesta revista, falei sobre livro “O amor como revolução”, do pastor Henrique Vieira. Bell Hooks e Henrique conversam entre si e, através da palavra, concordam que é decisivo, se quisermos viver o amor genuíno, romper com padrões eurocêntricos de opressão, como o racismo, sexismo, exploração e preconceito religioso. Se a autora diz ser possível viver um grande amor sem ao menos ter contato com a pessoa amada, bastando que a prática amorosa eleve a si e o outro, por que os seres humanos, nas diversas relações de sociabilidade, ainda não são capazes se se abrir plenamente para o amor?
Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura. Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.
“(...) Faça como o griloSem grilo canta pro seu bem chegar”(4 Cabeça, Quem Canta)
Se a adolescência é a etapa da existência que nos dá toda a coragem e certa petulância para enfrentar a tudo e a todos, é no início da vida adulta – e provavelmente durante toda ela – que nos damos conta de que “por mais que a gente cresça, há sempre alguma coisa que a gente não consegue entender”, como diria Humberto Gessinger e seus Engenheiros do Hawaii em Terra de Gigantes, no já distante final dos anos 80. Mais de trinta anos depois, a banda paulistana O Grilo dispensa o apoio de hey, mãe (!) para reafirmar que ninguém sabe de coisa alguma. Composto atualmente por Pedro Martins (voz e composição), Felipe Martins, o “Fepa” (guitarra) — não, eles não são parentes! —, Lucas Teixeira (bateria) e Gabriel Cavallari (baixo), o grupo formado em 2017 (entre o final do Ensino Médio e o início da vida universitária) que queria fazer covers de música indie nacional passou por uma reformulação em 2019 e define-se hoje como um grupo de “Rock Popular Brasileiro”.
Depois de alguns singles e dois EPs lançados, o contagiante Herói Do Futuro (2017), com destaque para o hit Serenata Existencialista e de O Grilo no Estúdio Showlivre — Ao Vivo (2019), os meninos (sim, meninos; eles estão na faixa dos vinte e pouquíssimos anos) — que abriram o Lollapalooza Brasil 2019 (sonho de muito artista veterano) após vencer um concurso lançado pela Rádio Rock 89 FM — estão de volta. As 13 faixas autorais do disco de estreia Você Não Sabe De Nada (2021), gravado pelo selo Rockambole, foram produzidas pelo quarteto em parceria com Hugo Silva e alternam ritmos dançantes com momentos mais introspectivos. A sonoridade pop-tupiniquim mistura bossa, baião, new wave, indie, pop, rock e outros elementos brasileiros, que agora se apresentam de modo ainda mais intenso.
A despretensiosa Trela (o meu amor vem da terra e do mar/uma musa estendida na areia/anjo de um céu de estrelas do mar/um balé de mulher e baleia), primeiro single divulgado abre o álbum em ritmo de pop. A canção seguinte, Guitarrada (é que eu sou mais eu, mas eu queria ser você/eu sou mais você/mas se você sou eu, agora eu quero te esquecer/eu quero me esquecer), é um carimbó ou forróck, como a banda gosta de chamá-la e já tem videoclipe em fase de pós-produção. O samba-rock Contramão (nada novo sob o sol/são aquelas mesmas mentiras/banhadas em formol), segunda música lançada, lembra de um carnaval de outrora, um amor entre coisa de cinema e quarta-feira de cinzas. Ainda há espaço para Tudo e Mais um Pouco e para a balada Vou Levar. A levemente vingativa Meu Pior Amigo (eu só quero ver você cair/eu só vim pra ver, ver você cair/eu só quero ver você cair/em si) manda um recado praquele alguém que você já guardou no lado esquerdo do peito e hoje figura no hall dos seus desafetos, enquanto Infinito (-1) (vou partir o horizonte ao meio/vou me dividir/por todos os caminhos que eu quiser seguir) passeia por caminhos mais experimentais.
O Grilo / Foto: divulgação
Na “mini-música” Você Não Sabe de Nada, O Grilo divide o refrão da faixa de pouco mais de 1 minuto e meio com diversos convidados, entre eles Gabriel Aragão, Reolamos e as bandas Maracatech e Pluma (da qual Teixeira também é baterista), o que é a deixa perfeita para a setentista Meu Amor (meu amor/as coisas não precisam ser assim/pega uma lata de tônica, um copo de gin e vai dançar), que alterna refrão engraçadinho com uma crítica à indústria fonográfica, na qual “a música mais bonita d’O Grilo tem que ter/um bilhão de curtidas/10 mil cópias vendidas/lotar estádios e avenidas/e tocar o coração das rádios Brasil afora”. Se a vinheta E daí, eu sei lá prefere não opinar, eu me arrisco a dizer que ela é o abre-alas para o melhor bloco do álbum, composto pelas três últimas canções: a disco Adeus (não dá pra esquecer alguém como você/mas bem que eu queria/o que te encanta em mim é você/sempre foi você e eu sabia/mas resolvi não me abandonar), que ganhou até coreografia oficial no TikTok; a festiva Onde Flor (onde flor não for jardim/eu não vou, eu sou assim/algo que não cabe mais em mim/ôô, eu quero viver um grande amor/e morrer de saudade), que pode figurar ao lado de Todo Carnaval Tem Seu Fim, do Los Hermanos no catálogo de canções-foliãs que alegram nosso “carnaval fora de época” instantaneamente; o belíssimo bônus-track de voz e violão Malabarista de Granadas (malabarista de granadas/me conta quantas fardas você já vestiu/pra manter a cabeça ocupada/enquanto o mundo te estraçalha como um tiro de fuzil), que finaliza o álbum com toda a doçura que pode haver na voz de Pedro Martins.
Responsável pelo projeto gráfico da obra, o cartunista Pietro Soldi idealizou também um livro que acompanha o disco. O personagem central de Você Não Sabe De Nada – o livro, é Lauro, sujeito de poucas palavras que traz em sua personalidade características físicas ou psicológicas de cada um dos integrantes da banda. Lauro já deu o ar da graça em 2020 nas capas dos três singles lançados: Trela, Meu Amor e Contramão. Além das tirinhas, o livro traz ainda cifras, fotos e canções comentadas, com direito a rabiscos, anotações e muita criatividade (revelada inclusive à luz negra). Os integrantes são bastante atuantes nas redes sociais e chama atenção a constante interação com seu público, seja através de lives, posts,tweets ou dancinhas no TikTok. Ou mais especificamente em seu podcast (ou melhor, Grilocast) e no canal no YouTube (o GriloTube), com destaque para Você Não Sabe de Nada — o Mini Doc. Aproveitando o lançamento de VNSDN no final de março, os músicos têm disponibilizado em seus stories do Instagram cifras das canções no violão, comentários sobre as inspirações das faixas, enquetes e versões das músicas feitas por seus fãs. O Grilo está mais falante, dançante, maduro e criativo do que nunca. E é só o começo.
Larissa Mendes se identifica com Lauro e tampouco sabe de muita coisa.
milena esconda essas vergonhas
limpe dos olhos dos pios a presença na casa
escórias
o sujo
paredes molhadas
de cheiro vivo
guarde no armário a presença na casa milena
guarde nas gavetas
debaixo das roupas proibidas
que roçam na umidade
sobras à beira do canal
dobras
na ponta dos dedos
é suja a presença na casa
a terra sob os peitos qual serpente
e outros castigos pelos feitos de eva
maçã vermelho-sangue salivando gênesis
***
terra sob as unhas,
sob as solas,
sob o ventre.
eu rastejo.
e o frescor do solo
contra a pele
conhece apenas
quem tem a minha sede.
tantos milhões de anos dedicados
a levantar a criatura humana
em duas pernas
e eu prefiro ver o mundo
desde o chão,
de fora, de frente.
contrariando o igual dos dias.
aqui, desse lado da lida,
todo e cada corpo
é um querubim rebelado
ainda acometido
pela dor da queda.
aprendendo passos senoidais.
aqui, desse lado da lida,
os ciclos se fecham
qual mandíbula nas caudas.
passamos bem, provando o proibido,
que não é tão saboroso quanto pregam uns
tampouco põe as malas na porta.
passamos bem, mas nos botaram
a cabeça a prêmio
num livro famoso
e agora estão querendo nos queimar.
não se vê piedade
para as que preferiram
abandonar pelo caminho
braço e pena,
rito sagrado e doutrina
em nome de um ângulo primevo
que nenhum ser
jamais verá
na vertical.
***
tenho uma dobra vermelha na pele do rosto
como um corte
entranha
……..você viu
a marca vermelha da cama no meu corpo
branco
onde dói o sol
……..você viu
os meus sinais em coleção
imitando a pose ereta de órion
ombro em rigel pé em betelgeuse
as partes proibidas à mostra
faz calor
e eu tenho sede
todos os tabus desnudados
……..constelações
e eu ariadne corpo celeste
vindo jantar nos escombros
as pontas dos seus dedos mastigando os meus contornos
entranha
todos os lábios
mordendo
a fraqueza da carne
***
suas mãos em expectativa
vinham me manter acordada
era hora do sol …….isso tem que ser visto
o primeiro é o raio das promessas
que se fazem por medo
o segundo é o raio das mentiras
que se contam por amor
os que vêm depois são para aquecer a culpa nos ossos …….isso tem que ser visto
a manhã é a hora de uma verdade
que não desce com água
nem harmoniza com vinho
hora do lugar da língua que ocupa o sabor do erro
salgado demais para o sangue] …….em gota …….em gota
vem ver
já vai nascer
vamos ter certezas
e as janelas ainda mostravam a cidade alagada
***
o reles ato
de atar
os cadarços ……..o inacabado
e a boca continua aberta em suspenso ……..eu respiro
o reles ato
de pés e mãos ……..atarefados
feito o sapato em tropeços ……..desatado
e eu sou inábil em usar as mãos
servem-me à inutilidade
de não arrematar o rosto ……..o inacabado
do ano de quem morreu
dos planos de quem surtou
dos meus dentes que eram tortos
e continuaram tortos
dentro apenas do limite do ignorável
o final da chuva em que eu dancei pequena
tomei bronca
mas não gripei
mamãe estava errada ……..você não é todo mundo
e quem não é todo mundo
é ninguém
e eu ainda tropeço nos pés
e sujo a blusa da escola de sangue ……..eu respiro
e o calor de madureira lateja as minhas veias de infância
o mundo passando
na telefunken
1984
que já estava ali quando eu nasci
***
comecei no mundo com um grito de dor ……..o primeiro ar
comburente universal ……..fogo no peito
a minha história
que nasceu do grito
sucessão de notas descolocadas
em sol maior
fogo grave ……..queimadura
a minha história
escrava no fogo da forja
molda o passo torto
com que tento dançar ……..na ponta ……..do lápis
nanquim luz e sombra
todos os fados padecendo ao sol
o meu deposto aos pés do fogo
gota de sal na pele nos pelos
……..cai o pano
eu seco os olhos com o desfecho inesperado
eu seco o corpo da impureza nos poros
Milena Martins Moura é mestre em literatura brasileira e tradutora. É autora dos livros “Promessa Vazia” (2011), “Os Oráculos dos meus Óculos” (2014) e “A Orquestra dos Inocentes Condenados” (Primata, 2021, no prelo). Integra a equipe de poetas do portal Fazia Poesia e de colunistas da revista Tamarina Literária. Publica suas produções em diversas esferas artísticas no Instagram @oraculos_dos_oculos. Contato: milenamartinstradutora@gmail.com.
Nem sei como isso começou, sei que sempre gostei muito de bonecas.
É como se eu tivesse acordado de repente nesse lugar, ou no mesmo lugar de antes, e as pessoas é que foram substituídas. Sabe quando a gente para e tenta lembrar o que aconteceu do nosso nascimento até cerca de uns três ou cinco anos de idade? Parece que simplesmente a gente acordou de repente. É isso que sinto agora.
As moradias são do tamanho das humanas, com móveis de verdade. Só que estes são programados. A TV passa quase o dia inteiro ligada. Existem coisinhas parecidas com trilhos dentro da casa que fazem os bonecos se mover por ali bem como na rua.
Na casa que eu vivo, existem dois bonecos. Um feminino e outro masculino. De manhãzinha o boneco se levanta e se direciona para fora de casa, e passa o dia por lá mesmo. Acredito que seja uma espécie de trabalho, já que esporadicamente ele chega com coisas novas, as coisas que vemos na TV. A boneca vai para a cozinha. Eu fico por ali observando o movimento. Também aproveito pra ler. Há muitos livros, mas não são tocados. Acho que não existe ainda mecanismo de leitura nesses bonecos, apesar de se alimentarem e fazerem outras coisas dignas de humano.
Sinto-me estranha. Eles não conversam, nada de sentimento, nada de afeto. Sinto falta dos afagos de família, de beijos de mãe, cócegas no sofá, risos pela casa. Eles se reúnem sempre à noite, em frente à televisão. Em algumas ocasiões me põem nos trilhos e sou obrigada a fazer certas coisas e ir a lugares dos quais não gosto. É complicado porque os meus pés não se adequam nunca e doem. Quando vou a esses lugares realizo trabalho chato. Lá não posso cantar que é algo que gosto bastante.
Acho que meu canto é de certa forma inútil pelo fato de não conseguir enxergar nenhum tipo de vibração por parte dos bonecos. Deduzo que eles não apreciam música. O rádio nunca é ligado, só por mim. Mas a música que existe na cidade dos bonecos é de uma péssima qualidade: rimas pobres, ritmos chatos, melodia irritante aos ouvidos. Então, logo desligo. E canto.
Lembro-me da criatividade humana quanto à música e começo a cantá-las. Meu coração se entristece um pouco por não poder mais tê-las. Se fosse boa o suficiente eu comporia, mas apenas canto. Há dificuldades de relacionamento entre mim e os instrumentos musicais. Contudo, do que acontece na cidade dos bonecos, esse é o fato que mais me entristece.
Vivo aqui e espero o dia em que os bonecos se transformem em seres humanos para que tudo se torne completo. Nas minhas reflexões penso se isso há de ser um tipo de praga que contamina o mundo aos pouco. Penso no dia em que eu serei contaminada e me tornarei uma boneca. Choro, depois acalmo, acreditando que se me transformar certamente entenderei a lógica deles e terei felicidade em viver de tal modo. Não há espaço aos que no mundo estão diferentes.
***
Envelope
Começamos a namorar.
Enlouquecida, deixei que tudo acontecesse muito rápido.
Primeiro, se foram os olhos.
Ele me arrancou um de cada vez. Comecei a poder ver menos, devagar fui me acostumando, e quando me arrancou o segundo eu já não senti tanta dificuldade de adequação. Não pude mais ver nem mesmo a ele mesmo, o que fazia, com quem convivia.
Mas eu o amava e deixei.
Da outra vez foi minha boca. Deixei de opinar. Na hora não vi necessidade porque certas coisas que saíam dela visavam nosso próprio bem-estar.
Mas eu o amava, e podia aprender a viver sem falar.
Arrancou-me um dos ouvidos. Poucas coisas eu podia ouvir dele antes de me arrancar o outro. Do que conversava com os amigos, do que lhe diziam as outras garotas.
Mas eu o amava e não me importei.
Quando me arrancou um braço, ainda consegui dirigir por um tempo. Eu queria estar nos lugares. Mas sem os dois braços, passei a ficar mais tempo em casa. Sequer podia fazer o que eu mais gostava: escrever.
Mas eu o amava e acreditei que faria bem.
Um dia me arrancou as pernas, ambas ao mesmo tempo.
Nosso relacionamento se resumiu a cama, pois era o lugar onde eu conseguia passar todo o tempo, sem queixas. Confesso que foi difícil essa vida.
Mas eu o amava, e me contentei com suas visitas e frases de amor.
Muito tempo de cama me fazia ter certas reflexões.
Quando ele apareceu para mais uma visita de amor, eu estava pronta.
Entreguei-lhe um envelope numa pulsão risonha.
Ele abriu e pôde ver.
Lá dentro estava todo o meu amor. Eu o estava devolvendo em troca de mim.
Com dificuldade ele aceitou, e me devolveu tudo de uma vez só: olhos, pernas, braços, ouvidos.
Agora ali estava eu, com tudo que precisaria para recomeçar.
E ali estava ele, com o meu e o seu amor nas mãos.
Fernanda Paz é Artista Visual e Especialista em educação infantil pela UFPI. Professora, escritora e produtora no FragmentadoLab. Estudou Teatro e participou de curtas metragens, performances e montagens teatrais. Tem dois livros publicados “O Buraco e Outras Histórias”(Multifoco, RJ) e “Olhos de Vidro”(Quimera, PI), participou de antologias de contos e poemas e publicações em revistas virtuais.
Artistas como Tereza Sá nos fazem compreender que algumas almas expandem a vida imaginativa em várias nuances, porque desde muito cedo foram expostas ao máximo de realidade possível. Entendendo os atravessamentos dos que vieram antes, bem como a importância das referências que lhe foram apresentadas durante a infância, ela se declara resultado da força de gerações anteriores, em sua família. Mulher negra, professora, poeta e atriz, filha do professor e poeta Eléus Leonardo de Sá e de Tereza Soares de Sá, mãe de Èbano Bencos e de Luan Bencos, a entrevistada da Pequena sabatina ao artista é ilheense, Graduada em Letras/Espanhol e Pedagogia (UESC), Especialista em Leitura e Produção Textual e Educação e Relações Étnico-raciais (UESC), Mestranda em Ensino e Relações Étnico-raciais (UFSB). Atualmente, Tereza Sá faz parte da Cia Trapizonga de Teatro e do Coletivo Afro em Cena (UFSB), que trabalha na perspectiva do teatro negro, tendo o corpo negro também como protagonista da cena. Além disso, ela integra a Coletânea Literária e Fotográfica de mulheres: Profundanças 3. Seja com expressões faciais fortes, em performances marcantes; ou versos intrigantes, em poemas bastante atuais, Tereza Sá mostra que há mais para se ver e interpretar em suas expressões artísticas. Com uma carreira que inclui o concurso de poesia da Revista Brasília, que lhe rendeu o prêmio da categoria “destaque” e a publicação coletiva no livro Valores Literários do Brasil, Volume XV(1992), a artista conta à Diversos Afins sobre sua trajetória artística, suas experiência de vida e como tem pensado a arte no atual cenário pandêmico, no Brasil.
Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal
DA – Mulher negra, ilheense, professora, poeta e atriz. Co-autora do Projeto “Mulher Negra: a força que se explica”, na Escola Municipal Themístocles Andrade, no Teotônio Vilela, em Ilhéus. Tereza Sá, a sua biografia em constantes transformações e atravessamentos, em alguma medida, se explica pela sua árvore genealógica? Quais influências, dos que a antecederam, você consegue identificar em seus percursos individuais e coletivos? Mais, quais as divergências e desconstruções?
TEREZA SÁ – Sim. Eu posso afirmar que a constituição do que eu sou é inteiramente atravessada pela força dos que me antecederam. Sempre me vi fortalecida pela referência individual e também coletiva de pessoas que muito contribuíram e contribuem para a formação da mulher que me constitui. Como criança negra, conheci desde muito cedo os percalços que o racismo nos coloca. Foram justamente essas referências que me encorajaram no processo de enfrentamento ao racismo, sexismo e tantos dilemas que envolvem o ser mulher negra. Sinto-me uma mulher múltipla, intensa, cheia de sonhos e projetos. Minha influência primeira acontece dentro de casa. Meu pai, intelectual negro, professor de Esperanto, sempre nos possibilitou contato com a cultura e a arte. Fomos expostos ainda crianças a ambientes onde o poético e o estético se estabeleciam, mesmo diante das dificuldades que a vida nos impunha. Cresci ouvindo meu pai tocando bandolim, recitando poesias, escrevendo artigos em jornais e participando de coletâneas poéticas. Minha mãe sempre precisa em cobrar, de nós, leituras. Era certo que em algum momento eu enveredaria pelos caminhos das artes para além do lugar de expectadora. Essas referências iniciais foram decisivas para as minhas projeções, a curto e longo prazo, e com o passar do tempo foram somadas a novas experiências, novos contatos com pessoas, em sua maioria mulheres negras, que influenciaram e me encorajaram a seguir na composição das coisas que acredito. Certamente seria muito mais difícil para eu caminhar e crescer sem os diálogos que se estabeleceram, o exemplo e principalmente os ensinamentos dessas pessoas para que eu persistisse nos sonhos e na coragem de ser feliz. As divergências encontradas se deram mais precisamente no campo da raça e do gênero. Ainda que não fosse dito com palavras, desde a infância já esbarrava na imposição de um lugar para a mulher negra na sociedade e, por mais que meu ambiente familiar me desse suporte de superação, eu me vi por diversas vezes afetada por impedimentos do sistema de opressão e violência que me colocaram em condição de silenciamento e inércia, em diversas situações. A escrita literária foi uma delas. Por muito tempo me tranquei para o ato da escrita acreditando não ser esse meu lugar. Mas a minha trajetória é de lutas e a força da ancestralidade sempre me colocou no trilho da história, renovando as águas da minha existência. Tenho caminhado e seguido os passos de nossos antepassados que resistiram para que pudéssemos (re)existir e ocupar todos os espaços que nos foram negados. Os desafios são muitos e as redes de apoio estabelecidas entre as mulheres negras vêm fortalecendo nossa consciência ancestral, nos fazendo revisitar memórias, que nos encorajam a um constante movimento em busca de estabelecer nossas trajetórias enquanto mulheres negras.
DA – “Sinto-me uma mulher múltipla”, esta é uma afirmação sua sobre a composição contínua de sua identidade, no mundo. Outro dado importante de sua biografia é o fato de ter sido criada em ambientes onde o poético e o estético se comunicavam. Como é possível, em retrospecto, identificar os contornos estéticos construídos na e a partir de seus escritos? Quais as referências visuais e literárias ganham sentido e materialidade nas suas construções artísticas?
TEREZA SÁ – A palavra realmente se fez a força motriz no que me constituí. Minha memória remota aos sons impactantes, seja vinda dos provérbios proferidos por minha mãe, seja através das músicas que meus irmãos ouviam na “radiola”. Eu gostava de ouvir os discos de vinil lendo os encartes que acompanhavam as músicas. Lembro de um disco de Raimundo Fagner intitulado Eu canto (quem viver chorará) e, dentre todas que gostava, uma me chamava atenção e dizia: “Eu canto porque o instante existe/e a minha vida está completa. / Não sou alegre nem sou triste:/sou poeta.” Eu deveria ter uns dez anos. Essa canção me consumia os instantes. Não sei se por conta da letra ou da interpretação do cantor. Só mais tarde tomei conhecimento de Cecília Meireles como poeta. E assim eu cresci consumida pela palavra cantada e reconhecendo também essa força na escrita. A minha consciência da escrita veio muito sutilmente e não era nada compulsório. Aconteceu ainda na infância, justamente nessa época em que era afetada por canções e bordões de minha mãe. Já na fase adulta eu compreendi que o que eu escrevia era poesia, mas uma poesia que não se atrelava a uma estética especifica. Meu pai, que era trovador, ao perceber que eu escrevia, passou a me orientar sobre a métrica da trova. Arrisquei os versos rimados dentro da métrica, mas confesso que sempre tive dificuldade com aquele processo matemático e, ao tentar encaixar pensamento/sentimento na métrica, sempre fracassava. Isso foi um dos fatores também que me travaram no processo do escrever, pois papai me dizia que a forma com que eu escrevia era coisa da modernidade e deixava transparecer que não era muito “elegante”. Mais adiante, aprendi sobre versos livres, poesia concreta, entre outras coisas da “modernidade” que me permitiram mais liberdade. E eu continuei a escrever da forma que os poemas me vinham e registrava. Apenas isso. Registrava, guardava e muitas vezes os revisitava, da mesma forma que revisitava os poemas de Cecilia Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira… Note que a literatura que eu consumia era majoritariamente masculina. Posso garantir que muito do que escrevi inicialmente (e muitas vezes atualmente) foi afetada por essa literatura. Atualmente reconheço a riqueza da escrita de mulheres, principalmente das escritoras negras e fico triste com o tempo em que essa literatura esteve tão distante do alcance de minhas mãos. Hoje sou afetada pela escrita de Mirian Alves, Esmeralda Ribeiro, Conceição Evaristo, entre tantas que os Cadernos Negros me apresentaram.
O teatro me chegou paulatinamente e sei que seu prenúncio se deu na infância quando ainda na pré-escola eu decorava os versos para o dia das mães e outros eventos. Sentia prazer naquilo, mas não sabia que me acompanharia para a vida toda. Foi no Ensino Fundamental, nas atividades para as Feiras de Ciências que eu compreendi o quanto o palco me tornava imensa e que queria muito aquilo. Busquei cursos de teatro na cidade, que só fortaleceram a certeza de que representar era algo fundamental pra mim. Tive poucas experiências com teatro clássico. As oportunidades me levaram às técnicas de Boal e ao teatro de rua. Poder atuar ao lado de Jorge Batista, Mônica Franco, Telma Sá, Rita Santana, Val Kakau, Tereza Damásio, Justino Viana, Ester Santana e João Marcelino, no Grupo Caras e Máscaras nos finais dos anos 80 em Ilhéus, foi algo imenso e revelou em mim a atriz. Nosso repertório textual era referendado pela música popular e a literatura brasileira, fortes dispositivos para nossa atuação enquanto teatro de/na rua, de direção coletiva. Os artistas da região foram grandes influenciadores na arte em que me propus navegar. Os grupos Macuco, de Buerarema, Arte em cena, de Itabuna, e os atores e atrizes, como Carlos Betão, Ramon Vane, Marcos Cristiano, Alba Cristina, Eva Lima, são figuras que introjetaram o gosto e a possibilidade de fazer teatro no Sul da Bahia e são as referências mais marcantes, pois reverberam até hoje em minhas construções artísticas.
DA – Interessante pensar que sua biografia transita por várias artes, como uma espécie de tessitura que desenha um conjunto muito singular. No fazer teatral, temos uma infinidade de formas de atuação e composição de cena, a performance é uma delas. O teatro de rua, digo a performance realizada na rua – encontra sempre o contingente, o inesperado, tal qual a vida. Como você descreveria a relação entre este espetáculo de rua, seu percurso de vida e a troca com o público espectador? Esta relação sempre foi a mesma sempre? Quais as variantes?
TEREZA SÁ – O teatro de rua foi um grande divisor de águas para mim e acredito que para todos os integrantes do GrupoCaras e Máscaras, pois vivíamos em um processo decisivo no que se refere à entrega de sermos atores/atrizes, mas nos deparávamos com a dificuldade de não termos diretor e, por estarmos frequentemente ausentes do palco, já não éramos convidades a atuar em espetáculos. Acreditamos por muito tempo que para um grupo existir de fato deveria contar com a presença de um diretor para desempenhar única e exclusivamente essa função. Só quando passamos a entender que o teatro poderia acontecer em espaço não convencional e que poderíamos dinamizá-lo em uma direção coletiva, foi que realizamos nosso sonho de atuar. Isso foi engrandecedor. Fizemos da rua nosso palco e essa relação se estabeleceu por muitos anos, movimentando a cidade e nossas vidas. Esse teatro foi para mim uma escola e o aprendizado se estende até hoje. Aprendi a reinventar-me sempre. No teatro de rua eu aprendi a perseguir sonhos, criar meu próprio jogo de cena, superar obstáculos. Sinto a vida como um verdadeiro espetáculo, no qual estamos constantemente performando as diversas versões de nós. Eu, por exemplo, tenho a sala de aula, o teatro, a poesia, entre tantos papéis sociais a desempenhar. A vida tem me surpreendido ultimamente com situações de desafios. Tenho vencido esses desafios como quem entra em cena naquele teatro de rua de outrora, na certeza de que nem todos que cruzam meus caminhos são meros transeuntes. Muitos aparecem justamente para formar a rede de apoio, idêntico como acontecia naquela época com o Caras e Máscaras, que sempre contava com uma plateia que colaborava com silêncios, risos, gargalhadas e até lágrimas. Ela aparecia em determinada praça ou rua porque sabia que nossa trupe estaria lá. Erámos impelidos/as por esse encorajamento e sempre foi fortalecedor contar com o apoio de tanta gente boa naquela época em que fazer teatro sempre foi muito desafiador pra nós. Com isso eu acabei aprendendo a ser múltipla e a desempenhar papeis distintos que exigiriam de mim muita dedicação num mesmo tempo/espaço. Como no teatro, aprendi a ser intensa em todos eles. Lembro-me de um fato em minhas experiências teatrais em que eu, ainda em resguardo do parto do meu primeiro filho, já estava em cena ensaiando a peça “O fiscal e a Fateira”, sob a direção de Équio Reis. Em determinados momentos, parava para amamentar e retomava os ensaios. Isso porque eu nunca consegui fragmentar em mim a mãe, poeta, atriz e professora. Esses papeis sociais são a minha motricidade e um fortalece o outro. Tenho buscado intensidade em tudo o que me proponho e agora com uma certa dose de suavidade. A sala de aula sempre foi para mim espaço de reconstrução e de poéticas. As trocas que comumente estabeleço ali estão para além da grade curricular e, por conta disso, a professora exigiu mais permanência em cena. Aliás, a sala de aula consumiu a poeta e a atriz (na ordem apontada) desproporcionalmente. Sempre foi difícil viver de arte em nossa cidade. Sair em busca de novas possibilidades quando já se tem dois filhos era algo bem longe de minhas expectativas. Agarrei a carreira docente, mas de certa forma fui vivendo “tudo ao mesmo tempo agora”, como canta a banda Titãs. Assim, eu vivi intensamente a gravidez/maternidade imbricada na aprovação do vestibular e também na atuação como professora da educação Básica; a segunda graduação conectada ao Mestrado, este, por sua vez, integrado à participação no Coletivo de teatro negro Afro (en) Cena e paralelo à Cia Trapizonga de Teatro. Sem contar essas últimas atuações, concomitante com a participação como poeta no livro virtual Profundanças 3. Ufa! Parece que falta folego, né? Às vezes, falta. Mas “me recomponho/ feito rabo de lagartixa”, como afirma a cantora e compositora ilheense Eloah Monteiro. Minha trajetória é assim: pulsa num emaranhado de variantes que reforçam meu existir. São minhas escolhas e não deu para escolher uma em detrimento de outra. E assim, sigo intensa, sendo acolhida e fortalecia por uma rede de mulheres negras que me revigoram e seguram em minha mão o tempo todo para que eu tenha certeza de que a vida continua e o espetáculo não pode parar. Como diz Arlindo Cruz: “o show tem que continuar”.
Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal
DA – Quando você diz que nunca conseguiu fragmentar em sua identidade a mãe, a poeta, a atriz e a professora, sinto que há uma integridade na expressão, que é corroborada pelos relatos que se seguem na sua narrativa. Você poderia falar um pouco dos atravessamentos que o ser “mulher” na contemporaneidade impõe? Partindo de suas experiências, desde o seu lócus social, conte um pouco para a Diversos Afins sobre estas intersecções que atravessam sua existência.
TEREZA SÁ – Historicamente, a condição do feminino sempre foi marcada sem o mínimo de dignidade humana, excluída de todo e qualquer processo político, sociocultural, em ambiente violento, predominantemente racista e machista. O espaço que lhe fora reservado foi o da marginalidade, amarga herança da dominação colonial que espoliou a condição dos colonizados de se colocarem como sujeitos e autores de pensamento e de conhecimento. Mas as mulheres vêm assumindo uma postura de ruptura frente a essa imposição histórica que por tanto tempo nos colocou em condições de subalternidade. Estamos assumindo postura de enfretamento às desigualdades, reinventando nosso lugar histórico e criando a cada dia condições para garantir participação ativa em todas as esferas da sociedade. Isso tem exigido de nós muito enfrentamento no combate às desigualdades e resistência para garantir conquistas e validação de nossas escolhas. Mas não nos intimidamos, ao contrário, temos marcado fortemente nossas presenças em movimentos de diferentes lutas pelo fim de opressões e conquistas de direitos. Sabemos que toda a conjuntura de nossa sociedade se estruturou com base no patriarcado e consequentemente sustentou-se em ideologias heteronormativas, sexistas, racistas, profundamente segregacionistas. Mesmo com tantas lutas já conquistadas pelas mulheres, muitas desigualdades ainda precisam ser superadas, dentre elas a mais urgente é justamente a desigualdade racial. As mazelas da escravidão ainda nos atingem em cheio e a presença negra no movimento de mulheres é de grande importância, pois exige amplitudes nas lutas, traz para evidência a necessidade de combate às mais variadas formas de opressão, além de impulsionar a mobilização de uma sociedade mais equânime. Ser mulher negra nesse contexto demarca situação muito mais desafiadora, pois exige a defesa de território do ser mulher e negra, condições extremamente marginalizadas socialmente. Eu, como mulher negra, o tempo inteiro vivi os atravessamentos dessas marginalizações. Desde a infância até os dias atuais. E, como toda preta, aprendi desde muito cedo que nossa luta é muito mais complexa, fazendo com que estejamos em militância o tempo todo, em constante alerta para diariamente nos defendermos contra todo tipo de discriminação e assédio. Tenho me comprometido com lutas antirracistas em sala de aula e através do teatro. A minha poesia também se apresenta como uma forma de combate e tenho feito uso dela como dispositivo para contribuir nas reflexões das questões de gênero/raça, somando minha voz a de muitas mulheres em um grande movimento que marca a inserção de nossas presenças em espaços tidos no passado como inacessíveis para nós.
DA – Por falar em poesia, no poema Profundeza, você encerra da seguinte maneira: “Já não possuo superfície/Sou toda profundeza”. O fazer poético envolve inspiração, mas também técnica e processos variados. Conte-nos um pouco sobre seus processos criativos, suas inspirações semânticas e, caso queira, fale um pouco sobre este poema em específico.
TEREZA SÁ – Eu sempre percebi o fazer poético como um movimento antecipado de imagens, cores, sons, desvelo criativo, entre tantas subjetividades que podem ser tecidas por quem escreve. Antes de se consubstanciar-se em poema, a poesia já é movimento na essência do/a poeta e a sua corporificação é o resultado da cumplicidade entre o sentir e a decisão de externar. O processo de escrita é um poço profundo e secreto que nutre todos os atravessamentos e inquietações que povoam o existir. Já mencionei que não sigo uma linha técnica específica no processo de escrita, mas certamente quando a poesia em mim se apresenta, traz em sua configuração uma roupagem entrelaçada com linguagem literária e a carga emocional. De certa forma, percebo que embora não haja, até então, uma escolha consciente com determinada técnica literária, essa escrita é bastante influenciada pelas autoras e autores que leio. Por ter contato constante com vários textos poéticos, na condição de leitora e também de professora, sou afetada intimamente pelas diversas estéticas literárias dos/as autores/as que devoro. Isso certamente influencia em minhas subjetividades. Escrever é também aprendizado. Tenho aprendido muito nessa construção de aceitar-me como poeta. Sinto que a técnica vai se apresentando, mas não quero que ela represente limitação para minhas enunciações criativas. Quero seguir no registro de minhas inspirações, me comprometendo mais e mais na cumplicidade com o estético, me permitir ser atravessada pela palavra sem tantas cobranças. Escrevo por prazer, por impulso, mas noto também que em muitos discursos narrativos certas estruturas textuais aos poucos acabam se manifestando, sendo utilizadas porque cabem melhor em determinados poemas que em outros. Isso tem se apresentado naturalmente com a presença de metáforas, metonímias, sonoridade, sinestesia, que dão fluxo aos versos que arrisco. Ultimamente, tenho me dedicado mais a apropriação da palavra escrita, como registro de sentimentos, me permitido brincar mais com essas palavras num jogo de escolhas e adequação das mesmas na disposição do processo criativo que tem insistido em se apresentar. Em Profundeza eu trago o caráter intimista de encorajamento e desprendimento da poética. Um poema em primeira pessoa, que traz um traço bem característico de minha escrita: muitas vezes uso a palavra com brevidade, como na capoeira regional, que ataca e defende em golpes precisos, que crescem, dilatam-se, destrincham-se, até se concluírem como um só fôlego, ou um trago.
DA – (…) Há lugares que se instalam e me adentram como ostra na pedra fi(n)cam mesmo quando não estou. Há lugares que em mim habitam e me povoam do que já sou. Em Pertença, você se refere à influência que a localização geográfica tem na (des)construção da identidade do seu eu poético. Como este processo de identificação se deu em sua biografia?
TEREZA SÁ – Na verdade, tudo é muito um processo de construção. Como falei, não dá para fragmentar a multiplicidade do que sou. O mesmo ocorre com o processo de escrita. Tenho feito muitas andanças e elas têm me conectado a dimensões cartográficas que têm interferido de forma ativa em minha construção identitária e consequentemente em meu processo criativo. Elas me fortalecem à medida que revelam pessoas e lugares que traçam os paralelos e meridianos que me constituem. Trazem-me os campos históricos da minha essência de mulher afrodescendente. É um rico processo de (re)afirmação que se completa com o sentimento de pertença que adentra as narrativas justamente porque me atravessa. Sinto que vivo um momento abundante, de águas cujos rios confluem e se completam. A força ancestral que determinados lugares e determinadas pessoas me transmitem, me conduz ao engajamento com essas forças que são/estão em mim, fortalecendo a memória coletiva que muitas vezes é ressignificada em minha inteireza.
Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal
DA – Tenho feito muitas andanças e elas têm me conectado a dimensões cartográficas, isso antes da pandemia ou mesmo neste momento? Sabemos que o artista, o criador tem as experiências do cotidiano como respiros para a vida, de maneira geral, e memória criativa de forma específica para as artes. Como têm sido lidar com este momento tão delicado? Há alguma criação poética deste período, em seu repertório? E mais: criticamente, como você visualiza as dificuldades oriundas do momento pandêmico para a classe artística?
TEREZA SÁ – Infelizmente, esse tempo pandêmico fez uma ruptura nessas andanças. As rotas foram interditadas, mas boa parte das trocas permaneceu e até se fortaleceu. Realmente é um momento de extrema delicadeza e não tínhamos proporção do quanto ele remexeria nossas vidas. Eu fui extremamente afetada por essa situação. Passei momentos difíceis, inclusive precisei de ajuda profissional para superar. É triste perceber que o momento de crise, incertezas e instabilidades em vários setores do país estão atrelados a falta de ação efetiva e seriedade política no enfretamento à Covid-19 por parte de nosso governante, em esfera federal. A classe artística foi bastante prejudicada, pois foi atingida em cheio por conta do isolamento social. As casas de espetáculos e os espaços ligados à cultura foram os primeiros a serem interditados, possivelmente serão os últimos a retomarem. Muitos trabalhos foram interrompidos, projetos adiados. Tem uma frase que é atribuída a Che Guevara, mas não sei se realmente é dele, que diz: “hay que endurecerse pero sin perder la ternura”. De certa forma, isso nos descreve, nessa catástrofe. Nós não perdemos a capacidade de sonhar. Fomos verdadeiramente golpeados pela pandemia e toda sua conjuntura nos deixou um tanto endurecidos/as diante de tanto caos. Mas percebi também que em certo momento foram acontecendo determinadas atitudes isoladas e, aos poucos, como onda, foi-se ampliando e contagiando o coletivo. A classe começou a se mobilizar para fazer atuar como dava. Todo mundo se virando, usando a internet a seu favor. Isso nos trouxe novas e desafiadoras possibilidades de fazer arte. Não retomamos o fôlego ainda, pois o processo se estende e não temos a real dimensão de como/quando tudo vai se resolver, mas os artistas se reinventaram nesse cenário, o que foi muito bom. Aprendemos muito com tudo isso, principalmente a não desistir. Sabemos que o auxílio emergencial contribuiu em alguns aspectos, mas faltam políticas públicas mais eficazes nesse setor. Eu sempre afirmo que produzo no caos. Sempre tive dificuldade em afirmar-me como poeta, principalmente por não ter uma disciplina rígida com a escrita. Não sou das que organiza tempo/ambiente. Geralmente, sou arrebatada pela poesia e me flagro criando em momentos inusitados de bastante ebulição de atividades. A pandemia me pegou em um momento de conclusão de escrita de mestrado, o que gerou em mim ansiedade descontrolada. Ainda assim produzi alguns poemas. Um deles, inclusive, foi postado como vídeo-poema na página do Profundanças: Influxo. Além disso, junto com um grupo de visionários, fomos contemplados com Edital emergencial do Calendário das Artes, que resultou no trabalho Corpos Negros Insurgentes. E mais, produzi outros vídeo-poemas para @amataode e Teatro Popular de Ilhéus, em 2020. Sigo viva sonhando com novos momentos de encontros, abraços e aplausos.
DA – Pensando neste momento delicado que requer de nós fortaleza e lucidez, mas também capacidade de olhar além de si, em direção ao outro, como você concebe o valor das palavras humanidade e futuro, na sua criação artística e, de forma mais ampla, no sentimento do mundo? A arte pode ser motriz de mudanças necessárias neste e em outros cenários? Se sim, de que forma?
TEREZA SÁ – A arte tem nos dado respostas, “régua e compasso”, não apenas para esse momento, mas em todas as circunstâncias de crise tem oportunizado condições de superação tanto para quem produz, quanto para quem consome. Nessa situação atual, ela vem, sim, como motriz da vida e do sonho. Dessa forma, edifica e liberta a alma do artista e de quem aprecia e a valoriza. O momento delicado, como disse, fez com que a arte se reinventasse para se fazer chegar ao público, já que a aglomeração de afetos, talentos e aplausos está restrita. Mas o poder criativo não está. A humanidade experimentou o medo, a angústia e de fato a morte. Mas a arte vem como alternativa de vida, fazendo aflorar não apenas sensibilidade do artista, aumentando seu poder criador, mas ascende o sentido da esperança. Esperança no futuro para o público em geral. A arte afeta de forma demasiada. Leva a refletir, entretém, eleva… O amanhã se viu ameaçado, mas o presente se viu validado e isso é bom. A arte é motriz de mudanças quando ela mesma muda sua configuração para chegar ao público sem perder a forma e a estética, quando aborda temas atualizados aumentando perspectivas e dando vazão às neuroses que aumentaram muito nesses tempos. A arte alerta que o que se externa pela privação é uma essência que pode ser melhorada. A arte sinaliza que o belo pode florir e libertar mentes e corações. Não está fácil para ninguém, mas o artista consegue renascer das cinzas. Aliás, Mateus Aleluia nos afirma que “o amor há de renascer das cinzas”. Eu acredito nisso.
Elis Matos é doutoranda em Linguagens e Representações, mestra em Linguagens e Representações (2019), especialista em Gestão Cultural (2017), bacharela em Comunicação Social (2013), licenciada em Filosofia (2009), pela UESC. Com pesquisa voltada à guerrilha literária empreendida pela escrita de mulheres em obras produzidas colaborativamente, a partir da perspectiva da Análise de Discurso materialista. Pesquisadora, professora, produtora, feminista, antifascista, acredita na construção coletiva de um mundo justo e livre.