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155ª Leva Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Marianna Perna

 

Ilustração: Nicole Marra

 

Abertura

 

Pelas mãos daquelas
que vieram
antes.

Porque estive morrendo
já há tanto tempo,
e foram estas mãos
da Idade
que me relembraram.

Eu estou aqui.

Denise, Sylvia
Hilda, Ana Cristina
Adrienne.

Alejandra…
Catarina, senhora.

Senhora.

Eu estou aqui.

 

 

 

***

 

 

 

Poema para cessar o horror

 

Campo de batalha
pelas plumas brancas
da vida & da morte

supremacia destacada
sobre um nada inútil
que insiste em vicejar.

Não, não quero mais o horror
gotejando sobre o umbigo
vermelhoso da terra.

Não, necessito devorar o seu coração
agora
veias e artérias
em um só ato
para que a dor se faça tão, mas tão grande
que deixe de existir.

Filamento por filamento
de carne

Hei de deglutir
e expelir em troca
o fruto extenso
da Chuva profunda
que há em mim.

Desejo o som de água corrente
para encerrar esta batalha
de forma fecunda.

 

 

 

***

 

 

 

Algo de novo

 

Há no ar
a voar

um pássaro enfeitado
de saudade & solidão;

veja como ele
voa alto,

rodopia
em seu silêncio
desconhece todo apego.

Veja como ele
decola, sem demora
decola para além
de suas penas enfeitadas
mergulha fundo
nos céus
e de si mesmo
transborda-se,

extasiado
de um novo sol
que subitamente

brotou

em seu ferido peito…

 

 

 

***

 

 

 

Sobre quatro patas
Cresce a vontade selvagem

Enrola-se
Em galope

Sobe o morro
Suor nas asas.

Palavra impossível.

 

 

 

***

 

 

 

Contemplo do outro

 

Espelho pode ser Máscara, escudo
Pode ser não-ver
Pode ser mergulho & espanto

Ver-se infinita, caleidoscópica
Duelo, esconde-esconde
Convite
Fusão.

 

 

 

***

 

 

 

Lua de fogo

 

1.
na face oculta
da lua
sigo talhando pedra
até virar fogo

2.
no silêncio absurdo
da lua
sigo pisando em gravetos
ocultos
até a floresta
ser toda puro sonho.

3.
na topografia
impensável
da lua
sigo o impossível destino
de beijar o solo
até tudo arder e ser sol.

 

 

 

***

 

 

 

nenhuma carne a cantar
nenhum olho intacto

tudo é nuvem nuvem nuvem
ainda é preciso existir
encontrar formas de seguir

Após o colapso
Após o desaparecimento das estrelas

(Me sinto tão antiga).

 

Marianna Perna é artista, pesquisadora e terapeuta holística. Historiadora & mestre em filosofia (USP). Ativa como poeta multimídia desde 2015, publicou dois livros-disco autorais. Propostas de poesia expandida, contam com trilha musical original, nos quais Marianna se desdobra entre miríades de vozes e instrumentos, além de contar com outros músicos convidados: “A cerimônia de todas as vozes” (Urutau, 2018) e “O livro dos espelhos” (Litteralux/Auroras, 2023). Em 2024, lançou a plaquete de poesia “Até os corais renascerem”, dentro da coleção da Editora Primata.

 

 

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155ª Leva Destaques Olhares

Olhares

O gesto silente das transformações

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Nicole Marra

 

A vida em seus diferentes modos de uso: universos que coexistem na arena das singularidades e que nos fazem atentar para as delicadezas que habitam esferas íntimas do ser. Desde o recorte daquilo que há de mais cotidiano, passando pelos detalhes abrigados nas mais diferentes sinas, nossas humanidades despontam na paisagem diluída pela sucessão dos dias que trilhamos sobre o planeta.

E há quem esteja alerta a tudo isso com o toque marcado pela atenção aos pormenores que escapam diante da fugacidade imposta pelo imponderável deus tempo. Nesse ínterim, o olhar sobre o mundo revela seus pontos de ênfase, descortinando imagens que traduzem um vasto panorama de sentimentos. É assim que Nicole Marra lança mão de sua condição de artista para evidenciar a poética da existência que sabe a gestos e formas de uma intricada cartografia de afetos.

De imediato, não há como deixar passar a marcação do feminino como fio condutor da obra de Nicole. Nesse painel através do qual transitam múltiplas expressões, é o corpo quem rege o destino das formas exploradas, pois ele, em larga medida, funciona aqui como catalisador de sensações e ímpetos. Assim, a artista nos oferta vertentes de apreciação que flutuam entre a dimensão física e imaterial das personagens apresentadas, sugerindo um equilíbrio entre as tensões internas e externas do ser mulher.

 

Ilustração: Nicole Marra

 

Diria que a particularidade do traço de Nicole Marra é também capaz de harmonizar o caos interior que mobiliza as paixões humanas. E nesse fio delgado que molda seres e lugares, está fundamentada a percepção de que estamos por um átimo limítrofe, seja para a contenção dos arroubos ou a explosão daquilo que precisa ser manifestado aos olhos do mundo.

Residindo em Berlim desde 2017, Nicole destaca que a arte é um instrumento que auxilia sua compreensão sobre a condição de migrante, algo decorrente de uma trajetória de vida que mescla adaptação e introspecção. É, por assim dizer, a busca pelo entendimento do que seja construir sua própria identidade enquanto pessoa e artista, porções amalgamadas pelos efeitos das escolhas e movimentos.

 

Ilustração: Nicole Marra

 

De posse dessas confissões dela sobre os fatores que impulsionam seu trabalho, é preciso assinalar que as ilustrações levadas a cabo por Nicole Marra simbolizam as metamorfoses pelas quais experimentamos no transcurso da vida. As personagens femininas retratadas pela artista exprimem seus diferentes estados de fruição do viver, arregimentadas especialmente pelo experimentar silencioso do recolhimento, sendo que o emprego das cores parece redimensionar os mapas da solidão tão caros ao exercício do autoconhecimento e da individualidade.

Em seu curso, as ilustrações de Nicole delineiam sublimes maneiras de expansão da consciência da mulher diante de seu corpo-território. Mas eis que essa assunção daquilo que emana de tal corporalidade transcende os aspectos meramente materiais, fluindo da linguagem expressa pelos contornos e formas em direção ao ambiente abstrato das emoções saboreadas. É na apreensão das revoluções internas que o salto acontece, pois elas noticiam lúcidas epifanias de feminilidade.

 

Ilustração: Nicole Marra

 

* As ilustrações de Nicole Marra são parte integrante da galeria e dos textos da 155ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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155ª Leva Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Whisner Fraga

 

Ilustração: Nicole Marra

 

o apetite incorruptível

 

pegue, helena, vamos dessacralizar a militância: pessoas e interesses e planilhas orçamentárias de partidos projetadas em assembleias precisam de dinheiro, helena, armas são caras, impulsionamentos em redes sociais são caros, subornos são caros, campanhas de conscientização são caras, licitações são caras, brindes, cartazes, faixas, helena, colchões, cobertores, botas, tickets: caros, e a origem dos depósitos que darão fôlego à luta?, não se inquiete, é por uma ótima causa, helena, eu juro, apesar da corrupção, é a lida, fundamental é a abundância: o ativismo, o partido, a entidade, os desvalidos reconhecem: um dia o município ficará abarrotado de estátuas de bronze em minha homenagem e, helena, elas não são nada baratas.

 

 

***

 

 

cuidado com o embrulho na calçada

 

o policial ergue os braços para cumprimentar os colegas na viatura subindo a avenida: os mendigos revoam, alarmados (pessoas em situação de rua, corrigirão os militantes de coletes laranjas, que aportam, com faixas, depois de removido o corpo): depois retornam, passos miúdos, ariscos, abaixam os pesares até o contorno do amigo sob a manta térmica, a assepsia metálica blindando a indigência, ele não brindará mais a afeição que nunca lhe negou um gole nem o amor picando a veia num enlace jungido e ninguém se atreve a perguntar quem velará o companheiro, quando o levarem.

 

 

***

 

 

estratégia de dissolução

 

o medo atocaia os passos noturnos, que esmiúçam a fuga: os postes na rua balbuciam a claridade impetuosa: inútil clareira a realçar o breu, lá dentro, nas mansões assistindo, às vezes, a vida na rua, não aceitam a existência do medo, mas lacram as portas, os dedos sapateiam ferozmente sobre a tela do celular, propagando mentiras (esses ladrões, esses drogados, vão acabar com o bairro): o terror entra, liga a tv, senta no sofá e bebe uma cerveja, eles compreendem o preço do pânico: convencem os amigos que a desordem prevalecerá, arrancam o medo dos outros e o substituem por uma arma: em nome da justiça, dos costumes, da moral, dos bons costumes, da fé, imploram a mediação da bala: de onde virá o disparo?

 

 

***

 

 

o apetite imaculado

 

eles têm vontades, mas a rua não é lugar para isso, é uma indecência: quantas opiniões no whatsapp do condomínio: melhor chamar a polícia, melhor o corpo de bombeiros, melhor o padre, melhor a assistência social, outro dia ele tirou aquilo para fora e mijou em plena calçada, eu vi coisa pior, eles têm vontades, também levaram a barraca!, onde fornicarão?, cristo disse: vá e não peques, a discussão avança no grupo do edifício himalaia: outro dia o vaivém debaixo do edredom, um horror, será que usam proteção?, anticoncepcional?, a mulher sofre de convulsões, deve ser epiléptica, ela parece mais barriguda, será que engravidou?, ele fez vasectomia, ele me contou quando fui deixar uma sopa, tem uns meses, ufa, ainda bem, seria uma tragédia, como conseguiriam cuidar de uma criança?, essa pouca-vergonha em frente ao prédio, não pode, será que a prefeitura não leva os dois pra outro lugar?, em época de eleição eles costumam agir, alguém liga lá?

 

 

***

 

 

a palavra alimenta

 

o dorso acobertado pelo piso, as cabeças lado a lado se revezam num tremor controlado, os olhos cerrados contra o esplendor do dia, até que um homem se aproxima, pede licença, está com alguns pães com mortadela enrolados em um saco transparente, em nome de deus faz a doação, se desculpa porque é só o que pode doar hoje, mas jesus há de prover, aquele que vem a mim nunca terá fome, você certamente foi até ele e eu estou aqui para saciar sua privação, os homens se endireitam, é bom ganhar comida logo cedo, o almoço garantido, graças a um desconhecido, que pede um abraço a ambos e eles aceitam, os três se juntam neste gesto, enquanto, não longe dali, alguém grava tudo.

 

 

***

 

 

planejamento

 

complicado obter o documento: a identidade faz par com o título de eleitor, basta se encaminhar para a seção, a diferença é o deslocamento gratuito no domingo, o colégio a dezenove paradas, é apertar o número do candidato, o botão verde, a música confirma o voto, torce pela indicação do deputado: que cumpra o pacto de aprovar um programa e tirá-lo da mendicância!, conquistar uma suíte de hotel, a nova política possibilitaria a estabilidade, a locação de um quarto-e-sala: fantasiar uma noiva e, talvez, apresentá-la à sociedade que, finalmente, o acolherá.

 

Whisner Fraga nasceu em Ituiutaba, MG (1971) e atualmente reside em São Paulo, é professor universitário e autor de mais de uma dezena de livros de ficção, tendo contos traduzidos para o inglês, alemão e árabe, escreve para o coletivo “crônica do dia” e mantém o canal “acontece nos livros”, no youtube, em que resenha obras de escritores contemporâneos, é editor na sinete.

 

 

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155ª Leva Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Marlos Degani

 

Ilustração: Nicole Marra

 

 

PLACEBO

 

Incomodado no seio da tarde morna,
entre o arquivo em branco e a encosta
do morro, mesclada de cinza e ardósia,
caio novamente na ilusão de uma rota

imaginária, no enredo que me transporta
às curvas da sua neve quente que alojam
a inédita encarnação deste corpo utópico
parindo a perfeição no sal dos meus suores.

Mesmo aqui de longe, posso ouvir as notas
da água contra os seus ombros sem ossos
e fotografo todos os leitos que ela percorre
durante o banho que invento antes da morte.

Por que o poema? Sua ausência é mais forte.

 

 

***

 

 

RANGIDOS

 

É seu o que restou da minha fogueira e da fumaça
que entoa a dor e a música das dobradiças da casa.

Irei assisti-la entre intimidades… E sobre os lados,
abrirei os meus cadeados enferrujados que faltam.

Antes de despertar, serei o seu dia, o chá, a torrada
Petrópolis, o vento de fora e a nuvem almiscarada

das seis; serei a sua folha de outono, o seu mágico
no final da manhã, no beijo das onze: o seu atraso

claro; um grito silencioso ou aquele vapor abafado
ao deitar na sua rua e me asfaltar no seu passado.

E virá a tarde: e serei seu; a noite e a madrugada,
e serei seu, todo, enquanto for a nossa temporada.

 

 

 

***

 

 

 

CHORUME

 

Quando, por fim, acharem entre os meus destroços
A caixa-preta, saberão que mais trágico que a minha
Própria morte, foram os poemas
Que morreram comigo
João Dinato

 

 

E quando acharem os meus destroços,
a caixa-preta não dirá apenas
da tragédia que são os não poemas
ou filigranas que foram a óbito,

dirá dos truques, das obsolescências
— do desdém, do medo e desses códigos
salientes, rasos e mentirosos
em que pus o amor, entre correntes.

Haverá sinais de entorpecentes,
do corpo e alma fantasmagóricos,
de quem nunca teve fé e enforca
a poesia desde a nascente.

E quando acharem os meus destroços,
serei o fedor que sobe dos ossos.

 

 

 

***

 

 

 

Sou aquela chuva muito intensa
Caio no mar, não faço diferença.
Esse sem sombra, não marca presença,
Insosso, não esfria, nem esquenta.
Cézar disse: só uso um esquema.
Eu respondi: é a mesma sentença,
Desde quando fui preso na algema
Do mundo feito de papel e pena,
Da sinfonia muda de nascença,
Do ofício que não pede licença.
Ser poeta é a antiessência
Da cor onde a luz se movimenta.
A palavra, meu reino, em mim reina
No verso que nunca será poema.

 

 

 

***

 

 

 

INSUFICIÊNCIAS
— 23h15 —

 

 

Ensina-me um grito. Ou um suspiro
que reconduza à corrente da janela,

a paleta de escuros do meu espírito,
este voo solo permitido para o poeta.

Repara: em tudo o que reza equilíbrio,
há, entre os lados da linha, o convívio.

E às altas horas desta noite, e à espera
do milagre improvável de algum verso,

defloro a folha de poeiras e de fuligem
(mas sempre será pura e intrometida).

O morro é musgo. O céu não sei ainda.

 

 

 

***

 

 

 

OUTRA HISTÓRIA NATURAL

 

I.

Cinomolgos usam cabelos feito fio dental.
Há tubarões que navegam pelas estrelas.
O Louva-a-deus orquídea é quase branco.
E o tal do poeta não é o que pensamos.

II.

Há primatas exclusivamente carnívoros.
Colmeias sem rainha não produzem mel.
Adolf Hitler pertencia à raça dos humanos.
E o tal do verso não é o que pensamos.

III.

Tiranossauros Rex não eram solitários.
Golfinhos diferentes não são sociáveis.
Cobras e lagartos planam no pântano.
E o tal do poema não é o que pensamos.

 

Marlos Degani, Nova Iguaçu/RJ, é jornalista. Lançou o seu primeiro livro de poemas chamado Sangue da Palavra em 2006 e que conta com a apresentação do poeta Ivan Junqueira, imortal da Academia Brasileira de Letras, falecido em 2014. Em setembro/14 lançou o segundo volume de poemas chamado INTERNADO, também pelo formato e-book, disponível nas melhores livrarias virtuais do planeta. Em 2021, pela Editora Patuá, lançou o seu terceiro volume, chamado UNIPLURAL. Participa como poeta convidado da edição número 104 da Revista Brasileira, editada pela Academia Brasileira de Letras, lançada em janeiro/21, ao lado de grandes nomes da literatura brasileira.

 

 

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Ilustração: Nicole Marra

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Ilustração: Nicole Marra

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Ilustração: Nicole Marra

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Ilustração: Nicole Marra