Categorias
141ª Leva - 01/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Mônica Ribeiro

 

Desenho: Geometria da palavra

 

ÂNIMA

 

As coisas têm vida
se vida damos a elas

[quem me ensinou foi Patti Smith]

Mas eu já sabia
Só não tinha coragem
ainda
de falar com as coisas

E tinha menos coragem
ainda mais
ou ainda menos
de ouvir as respostas das coisas

Mas não

Coragem de ouvi-las
não tenho
ainda

Para tanto
é preciso saber
ouvir o dentro

As coisas não se ouvem de fora

 

 

 

 

***

 

 

 

 

PERNAS

 

As pernas da cabeça
bambas e trêmulas
não conseguiram
me fazer conseguir

Machucaram-se
as pernas da cabeça
Foi ataque dos pensamentos:
chutes, rasteiras, chaves de perna

As pernas da cabeça
agridem as pernas da cabeça
e permanecem firmes
torneadas
Nem um arranhão

As pernas da cabeça
agredidas pelas pernas da cabeça
doloridas, flácidas
não se levantam do chão

 

 

 

 

***

 

 

 

 

AMPULHETA

 

Não sei
quantos pontos
são necessários
para estancar
o sangue
de quem se corta
com cacos
de ampulheta

Não sei
quantas pinças
são necessárias
para tirar
do sangue
a areia do tempo
que escapou
da ampulheta quebrada

Não sei
quantos anos
sofridos
são necessários
para que a ampulheta
não se quebre

Há de se saber
que a ampulheta
é por si
torta
trincada
mal lacrada

Embora viva
morta

 

 

 

 

***

 

 

 

 

MEMÓRIA

 

Faz-me falta o que eu não tive
mas que sei muito bem
É coisa que retive
na não memória

É coisa do que não veio
do que não vem

Distraída disfarço
a falta
o cansaço

Retraída
eu perco
esta dança
e o compasso

 

 

 

 

***

 

 

 

 

TEMPESTADE DE AREIA

 

Dor não se mede
Dor desnorteia
Desagrega o ser
que agoniza
mesmo sem morrer

Dor é falta de ar
ventania que sufoca
hiperventilação arenosa
choro seco
de lágrimas secas

Dor é tempestade de areia
é falta de brisa
daquela que
em vez de ferir
alisa

 

 

 

 

***

 

 

 

 

FADO

 

Antes que fosse cedo
já se fez tarde
O tempo rompeu
a velocidade da luz
A vida escoou
aliada do tempo que é
A vida acabou
sobrou foi nada
Feneceu a vida que
como o tempo
é fadada

 

Mô Ribeiro, ou Mônica Ribeiro, é mineira de Belo Horizonte. Arquiteta de formação, descobriu-se poeta por insistência do inconsciente. Participou da antologia “É Urgente o Amor”, Edições Vieira da Silva, Portugal, e também da antologia “Ruínas”, da Editora Patuá. Foi publicada pelas revistas Caliban, Desvario, Germina, Literatura & Fechadura, Mallarmargens, Mirada, Revista de Ouro, Revista Ser MulherArte e Ruído Manifesto, entre outras. Publicou, este ano, seu primeiro livro de poemas, PAGANÍSSIMA TRINDADE, pela Editora Penalux. Nasceu em 1971 e deu trabalho para vir à tona: o parto foi de fórceps. A escrita, ao contrário, vem nas contrações que dão à luz seus poemas. Partos rápidos, mas não sem dor, e depois o cuidado com a cria. Assim é sua escrita.

 

Categorias
141ª Leva - 01/2021 Destaques Gramofone

Gramofone

por Larissa Mendes

 

SILVA – CINCO

 

 

“A música é o meu chão. É onde eu encontro sentido para as coisas e para esse mundo tão controverso. Fazer música, em sua grande diversidade de sentidos e significados, é a minha razão de viver. Hoje, vivendo de música, nunca imaginei chegar tão longe. E já que tão longe cheguei, chego também ao meu quinto disco autoral, que muito intencionalmente se chama Cinco. Cinco sou eu, Silva, com 5 letras e Lúcio, também com cinco letras (…)”. Numerologia à parte, o fato é que Silva chegou e permaneceu. O menino capixaba e tímido de Claridão (2012) deixou a barba crescer em Vista Pro Mar (2014)  e  Júpiter (2015)  e deixou também de ser promessa para hoje figurar como um dos principais expoentes da nova música brasileira. Lançado em dezembro nas plataformas digitais, Cinco – décimo álbum de carreira, incluindo quatro discos ao vivo e Silva Canta Marisa (2016) – traça uma continuidade natural do seu antecessor de estúdio, Brasileiro (2018). Finalizado durante a quarentena, Silva, que já havia lançado Ao Vivo em Lisboa no primeiro semestre, celebra genuinamente, mais uma vez, o amor e suas facetas: chegadas e partidas, idas e vindas, do encantamento a depois do fim, com serenidade, esperança e um pouco de sarcasmo.

 

Silva / Foto: divulgação

 

O ska sessentista Passou Passou, primeiro single divulgado, tem clipe em plano-sequência com o músico equilibrando-se em uma tiny house em movimento, enquanto despede-se em tom de deboche de um amor que tem que ir embora de sua vida. O suingue de Sorriso de Agogô (tira essa poeira dos olhos/vem pra ver como nasceram os sonhos/o depois a gente faz é agora/não dá pra adiar) e No Seu Lençol (como se fosse um dia bom/você sorriu e é bem melhor/morar aqui no seu lençol) evidenciam a tropicalidade do álbum composto com o sempre parceiro Lucas Silva, em passagem dos irmãos por Caraíva (BA). Enquanto a densa Pausa para a Solidão (pausa para a despedida/já não sei como expressar/que não encontrei saída) exalta com maturidade o fim de um ciclo, Não Vai Ter Fim (o amor é parte de tudo/é parte do mundo/é parte de mim) parece saída do repertório de Roberto Carlos e se não houvesse pandemia, possivelmente o compositor dividiria os vocais com o Rei em seu especial de fim de ano. A canção de quarentena Jogo Estranho (trancado nessa casa/acendo meu cigarro/e pego um violão/olhando da janela/eu tomo um outro trago/dessa solidão) contrasta com a sensual Facinho (eu gosto e fico tranquilo juntinho/cama, sofá ou de pé, de ladinho/ai, isso é bom, muito bom, já parei de contar), espécie de ska em dueto com Anitta, repetindo a parceria de Fica Tudo Bem, gravado com a funkeira em Brasileiro.

A balada Você (é que quando acordei de manhã/eu tentei te esquecer/e esqueci que o querer é um mar turbulento/não tenho um alento, nem sei velejar) e a bossa Quimera (pra que sentir/coração feito de água/não vou mentir/a saudade me naufraga/quando acalmar/e eu nem sequer te lembrar/vou amar de novo) relacionam poeticamente a saudade aos movimentos do mar. Se a acústica Não Sei Rezar (ainda é cedo pra falar de amor/é melhor fingir não ser/não quero atropelar você, meu bem/e por tudo a perder), ironicamente, mais parece uma prece, tamanha simplicidade e beleza, Furada (eu sei qual o seu perfume/sei que é bom/mas não, não vou mais cair na cilada/você finge ter poderes que não tem/ai, ai, essa sua lábia é furada) diverte como a troca de mensagens com um “contatinho”. O disco conta também com a participação do icônico João Donato no jazz Quem Disse (tem coisas que a vida nos dá/tem coisas que são como um dom/é dom te querer e depois/vou te requerer) – que tem lindos arranjos de sopro e piano e do profeta do Grajaú, Criolo na “afro-baiana” Soprou (te vejo no céu/te sinto no ar/no vento uma brisa que vem me acalmar). Além de dividir os vocais com Silva, o rapper compôs a segunda parte da letra, com versos como “controverso diverso disperso/tua pele na minha é verbo/minha boca na tua é luar”. O delicioso samba Má Situação (eu nunca me importei/com as coisas que não sei/somente com você/que não conheço/já tenho um grande apreço) dá o tom final em ritmo de amor platônico: que atire o primeiro bilhete único quem nunca se apaixonou por um(a) desconhecido(a) próximo à plataforma de embarque.

Há que se destacar também o projeto Bloco do Silva (2019) turnê onde o cantor revisitou o melhor dos hits carnavalescos, sobretudo dos anos 90, passando por sucessos do axé, frevo, samba e MPB , o que lhe rendeu desenvoltura suficiente para transitar com tanta despretensão pela brasilidade de Cinco. O álbum marca ainda o rompimento do artista com o selo SLAP (Som Livre), o que talvez explique o ritmo frenético de lançamento de seus álbuns em apenas uma década de atividade. As 14 faixas do trabalho destrincham com ritmo, poesia e refrão(!) o sentimento mais puro e complexo que carregamos no peito. E os irmãos Lúcio e Lucas, como bons artesãos a serviço da música, traduzem de forma orgânica e atemporal tal engenhoca. Então, tire essa poeira das orelhas e ouça Silva (5 letras), agora (5)!

 

 

Larissa Mendes, 13 letras, tem na música o seu céu.

 

 

 

Categorias
141ª Leva - 01/2021 Destaques Olhares

Olhares

O legado das linhas de Vinha Oliveira

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Há um universo de coisas que se abrigam na tessitura dos dias. É dizer de formas que compõem mínimas partes de tudo o que pode ser representando pelas mãos de quem se dedica a mostrar o mundo pelas vias da arte. Nesse sentido, cada contorno e traçado se movimentam em favor da aparição de seres e objetos dos mais diversos aspectos, tendo em vista retratarem porções imaginadas da existência.

Na cabeça de uma artista como Vinha Oliveira, podemos supor resgates de memória, flagrantes cotidianos, delicadezas do ser, constelações de afetos e outros tantos sintomas da vida. Seus desenhos anunciam, de modo especial, uma miríade de mergulhos místicos que reverenciam a contemplação de mistérios inerentes à trajetória humana. Sobre este último aspecto, notamos que a criadora entrega seu ofício à sondagem do nosso âmago, trajetos internos que sugerem um diálogo com aquilo que transcende a materialidade das coisas.

Basta um percurso mais detido pelos desenhos da artista em questão e logo percebemos o efeito marcante que se inicia no engenho das linhas. A partir destas, Vinha desenrola os fios de cada gesto, face, objeto ou cenário apresentado. E tudo gira de modo impactante em tal perspectiva, pois é como se uma espiral de manifestações produzisse um resultado perene de possibilidades. Percebe-se, por exemplo, uma roda vida de expressões das personagens mostradas no enleio dos dias, na pulsação de hábitos, crenças e recortes íntimos.

 

Desenho: Geometria da palavra

 

A desenhista, que nasceu no Rio de Janeiro e mora na Bolívia há cinco anos, também é antropóloga e poeta. E foi no que chama de “exílio andino” que Vinha Oliveira, num modo de reencontrar elementos da cultura carioca que mais aprecia e tem saudade, se enveredou por caminhos autônomos do desenho. Estão marcados na memória dela, em especial, o mar, o samba, a música e as festas populares. Como a artista confessa, seus desenhos procuram a essência geométrica das palavras, percorrendo letras de músicas e também os poemas que escreve. Diga-se de passagem, tudo isso foi impulsionado no contexto da pandemia, sendo que o isolamento social levou-a a criar, no Instagram, o perfil Geometria da Palavra, espaço no qual divulga seus trabalhos.

A confissão de Vinha nos põe a pensar também que tudo principia no poder das palavras, pois estas geram a vontade das imagens. Mas é interessante notar que palavra aqui é matéria-prima, alicerce, estrutura sobre a qual se constroem as dimensões da vida representada em linhas, contornos, cores e contrastes. A palavra pensada em sua gênese primeira, que é dentro da mente de quem cria, estimula, projeta, engendra a materialização das formas no produto artístico. Palavra-faísca que dinamiza sensações, observações dos instantes e se constitui também como testemunho dos cenários experimentados na tênue linha entre saberes e sabores.

É de se imaginar porque Vinha Oliveira sustenta que na arte estão todas as respostas. E talvez a artista esteja querendo nos dizer que viver pela Arte é também se lançar num caminho permanente de descobertas, resgates, libertações e outras tantas epifanias íntimas. É renovar o impulso da vida, criar sensações, habitar dimensões outras, ver florescerem os enigmas e emblemas da condição humana. Mais ainda, pode ser forjar um outro indivíduo em nós, aquele que pende mais para as levezas do que para os abismos da realidade.

 

Desenho: Geometria da palavra

 

* Os desenhos de Vinha Oliveira são parte integrante da galeria e dos textos da 141ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

Categorias
141ª Leva - 01/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Marcus Groza

 

Desenho: Geometria da palavra

 

do rascunho pra trás

 

no princípio era traço era rascunho
desenhamos o homem à imagem
e semelhança dos bichos selvagens

caçamos com afinco o dia futuro
em que o rascunho ganharia lustro
e progredindo de forma gradativa

chegaria quem sabe enfim às franjas
da perfeição por ser ele mesmo
braço mão cinzel e obra-prima

porém o que críamos ser qual nenê
que inspira cuidados e pede teta
mas alegria e graça promete aos pais

logo se mostrou nada mais do que
uma tosca versão definitiva
do omi-nenê sub-espécie extinção

progresso nenhum não veio aliás
senão o temporal que se prenuncia
com gestos de velhice e finitude

e avanço só mesmo qual curupira
cujo rastro é tão enigmático
que sherlock nenhum elucida

se no caso retrocedemos pra frente
ou se a vida é do rascunho pra trás

 

 

 

 

***

 

 

 

 

vinho manga losna ou cacau

 

o apetite dos convidados de uma casa em festa
Luís da Câmara Cascudo

 

é amarga a vida diz um sincero
que nem tanat no primeiro gole

no início são fiapos de manga
aguerridos choupos ao vento

é o que respondo pois já nem
praguejo o visgo que se adere

e empedra no vão dos dentes
é uma manga a vida eu digo

é amarga repete o sincero
feito losna no dia seguinte

sinceridade é ateísmo açucarado
mesmo entre os mais crédulos

primeiro é tanino que amarra na boca
um gosto forte que água não leva

me lembra quando tudo salgado
da língua à garganta marrenta

como durante o sexo oral
não é sede na boca sedenta

a mim lembra bílis diz o sincero
que sobe em refluxo fermentado

e o palatante por fim experimenta
assombrações dos antigos manjares

entre arrotos azia e sabor azedo
é amarga a vida então eu penso

verdade é mancha no fundo da taça
o roxo que nos colore os lábios

amargor é vida eu digo
língua travosa cacau 100%

 

 

 

 

***

 

 

 

 

vinagre da insistência

 

…………em toda mesa de trabalho
não só o café esfria
…….como cedo ou tarde
……………a ossatura ideal se rompe
……………………emulsão e textura coalham
…………..então resta nas mãos
…………………o vinagre da insistência

…………………….verter ali nossas lágrimas
………..chorar a linfa empoçada
………………os pés inchados
…………..se inda resultasse num afeto-feitiço
…………………..mas sequer materializa a prata

………….desaprender ………única tarefa
………………………………começa vertendo o método
…………………………em leito sinuoso quando sabemos
……………………..que nos cabe esperar
………………..da seiva extraviada
…..apenas uma poeira nos olhos
………um silêncio condensado

 

 

 

 

***

 

 

 

 

osso

 

dentre tudo Q descarna
o amor é a mão suja
dum açougueiro indo pra casa
quando prende o punho
na engrenagem da porta basculante
e os dedos não se magoam
de tão acostumados ao sangue

 

 

 

 

***

 

 

 

 

para raquel gaio

 

dentre tudo Q oxida
embolora e resseca
faço um semicírculo
de flores e folhagens
rejeitos e pedregulhos
Q você coleta
quando andamos
pelos arrebaldes
escombros e estrelas
Q despencam
e você coleciona
cacos informes
materiais imperfeitos
irmãos nossos
servem de pretexto
pra esquecermos
a respiração curta
os invisíveis desabamentos
escombros e estrelas
Q despencam
e você coleciona

 

 

 

 

***

 

 

 

 

suor e oração

 

dentre todos cuja
pele não formiga
e imolam remorsos
com fósforos molhados
Quem me dera
ser todo estômago
movimento peristáltico
bile e refluxo
pra poder vomitar tudo

vomitar nossa servidão voluntária
aos gritos sem delinquência
ao valor moral do trabalho
aos traumas produzidos
em banho maria
no seio das famílias

quisera ser todo estômago
pra vomitar os ritos insossos
vomitar a obediência
vomitar a hierarquia
as ordens cantadas
os papeis de leis escritas
mastigar como uma cabra
a tábua dos mandamentos
e cagar uma merda ungida

 

Marcus Groza é escritor, dramaturgo, performer e pesquisador. Autor dos livros “Uma pedra em cima disso” (no prelo), “Milésima demão nas paredes de estar perdido” (Ed. Urutau – 2019) e dos textos dramatúrgicos “Não Urine no Chão”, “Tambor de Couro Vivo”, “Maré Morta”, entre outros. Participou com oralização de poemas no programa “Manos e Minas” da TV Cultura (São Paulo-SP), no “Eco Performances Poéticas” (Juiz de Fora-MG), no “Inverno Cultural” da UFSJ (São João del Rey-MG), no “Tercer Jueves” (Buenos Aires) etc. O seu ensaio “Para uma poética do esquecimento” foi traduzido para o espanhol e saiu no livro Olvidar – Brumaria Works #9 (Madrid, 2018).

 

 

Categorias
141ª Leva - 01/2021 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Cinthia Kriemler

 

Desenho: Geometria da palavra

 

O SÊMEN DO RINOCERONTE BRANCO

 

Março de 2018. Quênia.

 

Eutanásia. O último rinoceronte branco do norte está morto. Sudan, 45 anos, se torna parte das espécies e subespécies dizimadas pelo único predador que mata por ignorância, por lucro. E sempre por prazer. Um macho de sorte — mesmo que sorte seja uma palavra estranha de significado. Não foi abatido como caça. Sobreviveu. Capturado aos 10 meses de idade, foi enviado para um zoológico. Por 36 anos agradou humanos. Morre, agora, num santuário. E santuário também é uma palavra de significado incomum. Um cativeiro cercado por boas intenções. Uma fração da história que deveria ter sido. De um jeito ou de outro, Sudan foi uma vida desvirtuada. Deturpada em seu roteiro original. Fecha os olhos cercado pelos soldados que o protegem, pelos cuidadores e pelos pesquisadores que o observam há quase uma década. E quando o seu corpo de dois mil e trezentos quilos — tomado por uma infecção generalizada — segue para o descanso da morte, ainda ostenta, intocado, o cobiçado chifre que fez dele um alvo por toda a sua vida. Sudan é o último macho dos rinocerontes brancos do norte. Mas o seu sêmen congelado ainda é esperança de rebentos. Multiplicados, alimentarão a lenta e difícil tentativa de reverter a extinção da subespécie. Se os caçadores não se reproduzirem como pragas, se a cobiça não caminhar mais rápido do que a ciência, se todos os obstáculos forem superados, talvez seja possível repovoar a savana.

Não há lágrimas pelos rinocerontes brancos do norte. São apenas bichos.

 

Abril de 2014. Chibok, Nigéria.

 

Negras. Virgens. Crianças. 276 meninas sequestradas de uma escola em Chibok por fundamentalistas islâmicos do Boko Haram. Em nome do fanatismo, da dominação e do ódio, essa trindade depravada. Afastadas de suas famílias, impedidas de suas crenças, privadas de qualquer dignidade. Pasto fresco para as bestas que justificam atrocidades em nome de um deus falsificado, omisso, cúmplice. Caças impotentes.

47 fugas. 117 libertações em trocas árduas com o governo. Mas 112 meninas de Chibok nunca mais são vistas. Para elas, não há a proteção do santuário. Só o cativeiro. E as curras que não cessam. E a parição de bebês indesejados que crescem ao lado de seus reprodutores selvagens, influenciados pela bestialidade de crenças pervertidas. 112 meninas-matrizes, como as cadelas acorrentadas que cruzam e cruzam sem descanso até a morte por infecção, por inanição ou por maus-tratos.

Não serão resgatadas. Não têm nome ou foto nos jornais. São apenas meninas negras da África. Descarte.

 

Fevereiro de 2018. Dapchi, Nigéria.

 

Não bastaram. O sequestro das 276 meninas de Chibok. Os casamentos forçados. A destruição das identidades. O aniquilamento dos alicerces psicológicos, religiosos e morais. As crianças geradas por espermas sem nome. Mais 110 são raptadas em Dapchi. Meninas. Em plena luz do dia. Porque a luz do dia parece ter se tornado uma sentinela inútil e impotente. Em igualdade perversa, as meninas nigerianas de Dapchi são como as meninas de Chibok. E como os rinocerontes brancos do Quênia. Indefesas. Caçadas. Afastadas de suas histórias originais. Exiladas. Cativas. Desenraizadas. Vítimas da mesma ganância. Neles, o que se cobiça são os chifres. Nelas, os úteros.

No mundo, tudo permanece silêncio. São apenas estatísticas ruins do Terceiro Mundo.

 

2 de setembro de 2015. Costa da Turquia.

 

Aylan Kurdi não vence o mar. Como poderia? [… as águas são rotas de braços frios / que adormecem bebês / meninas, bebês meninos / para entregá-los, purificados / a um Criador envergonhado]. Aylan Kurdi é só um menino de três anos. Sírio. Como a maioria dos refugiados que fogem das guerras pelo poder. Aylan Kurdi é mais uma criança afogada numa praia da Turquia. Vira notícia porque a turca Nilüfer Demir e sua câmera estão em vigília na areia trágica. Ah, os fotógrafos! Esses seres despudorados que denunciam com suas lentes o que os olhares frágeis das pessoas frágeis preferem não ver. Ver é inquietação. Por isso, talvez, o mundo não tenha chorado por Galip, 5 anos, irmão de Aylan. O corpo dele não chegou à praia. Não foi fotografado.

Não ver é a alienação desejada.

Aylan e Galip saíram de casa para morrer no mar. Sem entender por que deixaram para trás o seu país. Crianças não entendem as guerras. Não deveriam, igualmente, fazer parte delas. Nem deveriam ser arrancadas das suas referências para serem jogadas no cativeiro do exílio.

Aylan e Galip fazem parte da cegueira cômoda. Afinal, são apenas meninos sírios.

 

20 de setembro de 2019. Morro do Alemão, Brasil.

 

Morro do Alemão. Ou qualquer outro morro. Desde que seja morro. Ágatha Vitória cai. 8 anos. Tiro nas costas. De fuzil. Coisa de covarde fardado. Mais uma — e já foram tantas. Crianças como ela, meninas como ela. Feitas de sorrisos, de brincadeiras, de fantasias. A de Mulher Maravilha invocando o sonho de um mundo de justiça e de mulheres guerreiras. E o pesadelo da realidade se contrapondo. Ceifando, ceifando, ceifando.

Crianças. Já nem se trata de quantas. Ágathas, Guilhermes, Alanas, Kayos, Larissas, Adrielles. Já nem se trata de onde. Nova Holanda, Borel, Alemão, Guarabu. Faz tempo que essa conta está perdida. E perdido é o que tudo está. Bala. Homem. Consciência. Futuro.

 

Outubro | Novembro | Dezembro de 2019. Em todos os grotões de pobreza.

 

Caixões brancos encaixados uns sobre os outros empilham-se em tédio cínico. Aguardam os hóspedes perpétuos que se deitarão entre suas paredes finas. E o cheiro do sangue que, mesmo lavado, se entranhará nas suas fibras fracas como uma droga perigosa, viciante, nauseante. Meninas. Meninos. De algum morro, de alguma comunidade, de algum bairro pobre. De qualquer lugar esquecido ou desprezado pela tal gente de bem.

Há também covas rasas. Esperando os que não podem pagar pela mísera decência de um caixão vagabundo. São bocas indigentes essas covas arreganhadas em espera curta. Sabem que logo será saciada a sua fome ávida. Mais tarde, corpos pequenos preencherão as suas entranhas. Perfurados por balas perdidas. Vítimas dos predadores que somos: os que abatem, os que aprisionam, os que empurram para a morte, os que perseguem até a extinção. Como os caçadores do Quênia, os estupradores da Nigéria, o ditador da Síria. Como os homens e mulheres de farda que atiram pelas costas.

Podemos fechar os olhos. Mais uma vez. Essa é a nossa expertise. Podemos desligar a TV, tampar os ouvidos, cobrir a cabeça. Podemos nos mudar para Paris. Ou para a Finlândia. Quando voltarmos, tudo estará terminado. E olharemos para o genocídio de meninas e meninos pobres com toda a piedade hipócrita que nos foi ensinada pelos nossos pais e pelas nossas igrejas. E nos sentaremos com um copo de cerveja, de vinho ou de uísque entre amigos que também terão acabado de voltar de Berlim ou de Barcelona. E discutiremos planos para reverter a extinção.

Em nossos planos, só uma falha. Não temos o sêmen do rinoceronte branco.

 

Cinthia Kriemler nasceu no Rio de Janeiro e mora em Brasília. É autora, pela Editora Patuá, de: O sêmen do rinoceronte branco (Contos, 2020) – finalista do Prêmio Guarulhos 2020 na categoria Escritor do Ano; Tudo que morde pede socorro (Romance, 2019);  Exercício de leitura de mulheres loucas (Poesia, 2018); Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017) – finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos, 2015), semifinalista do Prêmio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos, 2014); e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). Organizou a antologia de contos Novena para pecar em paz (Editora Penalux, 2017) e participa de antologias de contos e de poesia. Tem textos e poemas publicados em diversas revistas eletrônicas.

 

 

Categorias
140ª Leva - 07/2020 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Passadas 140 edições da revista, cá estamos a contabilizar os efeitos dos encontros promovidos. No decorrer do tempo, o agregar de palavras e imagens consolidou ainda mais os nossos propósitos editoriais, tornando o ambiente de publicações profundamente marcado por expressões bastante distintas. No campo das subjetividades, uma profusão de singularidades vem ganhando corpo e mostrando, a cada nova leva, vozes comprometidas com a criação artística nas mais variadas frentes. Há muitas visões de mundo assinaladas nesse caminho, muitas delas notadamente imbuídas do desejo de transformação das coisas. Transformação que se desdobra em matizes diversos, a exemplo daqueles de natureza social, política e cultural. É quando autores percebem seus trabalhos como instrumentos possíveis de reflexão sobre a realidade. E tal constatação não se mostra contrária a uma noção de fruição do gozo estético que cada obra sugere. Notamos que é perfeitamente possível, por exemplo, harmonizar ideais estéticos com o exercício ativo de uma consciência crítica que emana dos trabalhos artísticos. Ao que nos parece, o grande desafio dos autores é saber lidar com as armadilhas do discurso que movimenta suas criações, afastando-se de qualquer noção de gratuidade, falta de embasamento, desconhecimento do processo histórico ou ímpetos de cunho meramente panfletário. Assim sendo, talvez fosse possível arriscar que ninguém passa incólume aos imperativos do seu tempo, mesmo que se recuse a professar isso na materialização de sua arte. De toda sorte, os sintomas do mundo vão marcando a presença dos autores na Diversos Afins. É o caso agora dos poetas Alberto Bresciani, Milena Martins, Alex Simões, Sara F. Costa, Felipe Fleury e Adriana Linhares, que com seus versos nos atravessam com doses pungentes de realidade e ilusão. Nas reflexões de Helena Terra, as marcas do romance “Entre outras mil”, de Rochele Bagatini. Percorrendo o terreno das delicadezas da memória afetiva, entre outros afins literários, Clarissa Macedo entrevista o poeta Tiago D. Oliveira. Nossos cadernos de prosa de agora estão assinalados pelas porções de vida presentes nos contos de Marcus Vinícius Rodrigues e Geraldo Lima. É Larissa Mendes quem desperta nossas escutas para o disco de estreia da banda Varal Estrela. Pelas veredas da sétima arte, Guilherme Preger analisa “High Life”, o denso e provocante filme de ficção científica da diretora Claire Denis. Na resenha de Rafael M. Fogaça, atenções voltadas para “O Amor é um abismo furtivo”, livro de Adriano de Paula Rabelo. E são as fotografias de Cristiano Xavier que transitam em todos os espaços da nossa atual jornada, um trabalho artístico devotado especialmente a registros de verdadeiras raridades da natureza. Eis a 140ª Leva da revista. Seja bem-vinda (o), cara leitora (o)!

Os Leveiros

 

Categorias
140ª Leva - 07/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Milena Martins

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Antes da queda é cárcere.

A comida não chega à boca
E o passado não chega ao hoje
Antes da queda.

É cárcere
Sangrando a carne nas grades.

Antes do salto da queda
É cárcere
Sob a tutela da incerteza da verdade.

Não saber é cela antes da queda.

Vieram as tochas, a fogueira.
Os versos condenados.
A morte de Hipatia pelo fogo e pela cruz.

Cárcere
Antes da queda.

E calou aos que buscaram gritar
O rastro de silêncio do carrasco.

Antes da queda, caíram as folhas,
Morreram os frutos,
Cortaram-se as línguas,
Nasceram os súditos.

Antes do nascimento é morte.

 

 

 

***

 

 

 

Hoje há meio sol lá fora
E um estrondo de antecipação.
É hora do risco.
Ponho sapatos apertados
E a dor é mais forte que eu.
Eu nunca fui muito forte.
Cada passo é um esquecimento.
Eu nunca fui muito forte.
Deixei a dúvida dentro do forno talvez ligado
E o propósito em cima da mesa.

Começou a chover no meio do caminho.

Eu nunca fui muito forte.

 

 

 

***

 

 

 

Alguém manteve o fogo
Depois que eu fugi.
Outros vieram continuar os trabalhos.
Eu corri até caírem as pernas
E rastejei uns metros mais.
Fui achada morta de bruços com os demônios presos às costas.
O fogo ainda arde na carne de alguém
Com o calor que eu temi um dia.

 

 

 

***

 

 

 

Não repara a bagunça.
É que eu enlouqueci de ontem pra hoje
E esqueci de guardar os sapatos.
As cartas acumularam pela metade,
As plantas morreram
E os pulmões agora doem.
A loucura chegou de madrugada,
Me achou sem defesa,
respirando entre os dentes.
E os cravou na carne dos meus braços
Como se eu fosse acordar.
E me bateu com os dedos no crânio
Como se eu ainda
Tivesse
Lágrima.
 

 

 

***

 

 

 

Eu machuco o som
Com as unhas.
Cada gota é um soluço.
Finjo-o num devaneio ruim,
Ferido da minha memória.
E só eu o conhecerei,
No escuro atrás dos olhos.
Morreu na garganta uma letra.
O mundo não terá
Esse castigo.

 

 

 

***

 

 

 

Cada desvio podia ser o último.
Eu tinha sopro demais.
Eu tinha gotas de mágoa,
Saltos de susto.

Eu já não conseguia olhar nos olhos
E nunca aprenderia a jogar.

E as décadas que vieram eram ainda futuro,
Que tudo pode enquanto não é.

O sopro se dissolveu em nota
E os aros ficaram vermelhos.
E a liberdade me caiu pelos ombros quando pude sorrir.

O jogo se acabou pela metade.
Ninguém ganhou.

Morreu o medo ao espelho.

 

Milena Martins  é mestre em literatura brasileira pela Uerj e tradutora. Autora dos livros “Promessa Vazia” (2011) e ”Os Oráculos dos meus Óculos” (2014). É também cantora e compositora, autora do EP Flamboyant (2018). Publica poemas, fotografias e pinturas no perfil de Instagram @oraculos_dos_oculos. 

 

Categorias
140ª Leva - 07/2020 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

VARAL ESTRELA – VARAL ESTRELA

 

 

“Da última vez que nos vimos, você disse que visto daqui, do interior, o céu é mais bonito, de um azul-anil-marinho-royal-bic”. Empresto meus próprios versos de Ciclo Curto para tentar definir as nuances da banda que mistura noite estrelada com literatura de cordel e possui cheiro de terra molhada no atual quintal musical brasileiro. Formada há três anos e meio em Itapeva (SP) e radicada em São Paulo, Varal Estrela é composta por Thaís Rolim (vocal), Rodolfo Braga (guitarra), Lucas Silva (guitarra) e Thalles Macedo (contra-baixo). Lançado no final de 2019 através de uma campanha de financiamento coletivo, o disco de estreia possui influências de MPB, indie e pop. Enquanto a vertente dos músicos sempre foi o rock’n’roll (os rapazes integravam o PBB Pink Big Balls), Thaís entoava sua voz junto aos batuques de umbanda da Paranambuco, em sua passagem por terras curitibanas. Disponível em todas as plataformas digitais, o álbum homônimo celebra esta mistura sonora de [re]encontro e exalta todos os artistas interioranos.

Casarão, assim como sinaliza um de seus versos, “escancara os seus portões” para adentrarmos em toda pluralidade da Varal. Maria, primeiro single lançado, composição da vocalista Thaís Rolim é uma homenagem à filha de um casal de amigos. Se fosse uma canção de ninar, seria daquelas que faz você querer mudar de nome apenas para tê-la um pouco sua. O pop-rock Guri (desfila seus pés de moleque/sobre calçadas e quintais/por aqui te chamam guri/na pedra ao lado te chamam piá), dueto com Hugo Rafael (Sambô), discorre sobre a infância de várzea de tantos meninos (guris ou piás, como chamamos no sul). Primeira Canção de Amor (você me abraçou/e não houve jeito/meu ninho em seu peito/estava feito) — talvez a mais bela canção do álbum — tece sobre amor e liberdade e atinge o ápice da doçura e potência vocal de Thaís, que lembra o timbre de Elis Regina. A instrumental Um Trem pra Capital tem clipe recém-lançado, gravado em plano-sequência no apartamento dos meninos (Thaís gravou de sua casa) e funcionaria tranquilamente na abertura de uma série de TV, comprovando toda a habilidade dos instrumentistas. A explosiva Furacão (sou o olho do furacão/sou movimento que só vai/sou a lava do vulcão/derretendo e escorrendo/dentro de mim) abre uma espécie de lado B do disco flertando com o maracatu, o que deixaria Mestre Salustiano orgulhoso em seu céu de rabeca. Se as doces Seguir (eu sei/você tentou me avisar/deixou a porta aberta/e foi pra não voltar) e Sem Fim são baladas de [des]amores que transmutam, o rock Viagem Astral (aqui nos vemos como somos/sem maquiagens, mentiras ou planos/expandindo nossa consciência/fluindo com a correnteza) simplesmente transcende e arrebata. Passarinho (minha raiz é movediça/estou em casa onde for/eu já me acostumei ao movimento/por onde eu passo/sou onda de amor) finaliza o primeiro vôo da Varal Estrela em grande estilo, ao som de samba e ijexá — ritmo nigeriano.

 

Varal Estrela / Foto: divulgação

 

A arte deste primeiro compilado de canções foi produzida em xilogravura por J. Borges, outro interiorano — dessa vez de Pernambuco. O artista ilustrou o álbum em consonância com as dez faixas autorais, dialogando com as lendas e histórias que envolvem Itapeva. O momento de quarentena rendeu ao grupo algumas parcerias em composições e projetos, tais como as canções de “MVB” (Música Virtual Brasileira) A Cura (a curva achatada/a porta fechada/a cabeça aberta/e o coração cheio), com participação de Hugo Rafael, Camilo Macedo, Tiago Giovani e Ítalo Riber, e Camarada (a face do futuro te afrontaria/pra te dizer que os fatos/vão tecendo nós), parceria com Lucas Gonçalves (Maglore). Além disso, no canal oficial da banda no YouTube, encontram-se inúmeros episódios do programa Varal Resenha, divertido bate-papo, onde os convidados abordam suas origens e influências musicais. Como frisa o release do álbum: “Distantes de megalópoles e megalomanias, nós, os artistas enraizados à margem, somos resistentes e sonhadores, em essência. Dar asas às produções para migrá-las aos grandes centros representa um esforço quase que aos moldes de Sísifo, no entanto a recompensa por elevar uma pedra até o cume de uma montanha é imensurável. Sim, nós sabemos, certos mitos existem para serem derrubados”. E é com esse entusiasmo que o grupo pretende disseminar suas mensagens, sonhos e saudades. Para isso, em uma noite qualquer, basta aumentar o som, deitar na grama ou no sofá, olhar para o céu ou para o teto. Com as bênçãos de Salú ou de Sísifo, Varal Estrela é uma constelação inteira, é luz que vem de dentro.

 

Larissa Mendes nasceu no interior catarinense, também tem Maria no nome e ainda se pergunta o que é, o que é. 

 

 

Categorias
140ª Leva - 07/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Entre outras mil: nós iguais e diferentes

 Por Helena Terra

 

 

No livro “Sobre a literatura”, Umberto Eco explica que as obras literárias nos convidam à liberdade de interpretação por oferecerem um discurso aberto a diferentes planos de leitura ao mesmo tempo em que pontuam o que nelas deve ser assumido como relevante e à prova de dúvidas. Pois bem, no romance “Entre outras mil”, da escritora Rochele Bagatini, lançamento da Diadorim Editora, há um ponto de partida indiscutível: a educação sentimental e cultural das mulheres brasileiras por meio das telenovelas nas décadas de 70, 80 e 90. Quem passou horas e horas semanais, de segunda a sábado, diante de uma televisão nesses anos, ainda que não tenha parado para refletir, testemunhou e absorveu a organização e condução de modelos e estereótipos femininos. Às vezes, tendo à frente uma protagonista chamada Raquel, como a que dá nome a do livro “Entre outras mil”; outras vezes, tendo uma Helena, como eu que agora desenvolvo esse texto, as telenovelas impuseram valores e comportamentos. Em grande parte, nocivos. Registre-se.

A protagonista do “Entre outras mil”, por exemplo, batizada de Raquel por ter nascido no dia da morte de um ator e em homenagem à atriz central da novela “Sol de Verão”, tal como nessa trama televisiva, subitamente, vê-se frágil e desamparada diante da partida de uma mulher, sua mãe, que não suporta mais a rotina com o marido. Não sabe, a Raquel menina, as razões que a levaram a deixá-lo e a incluí-la no pacote do abandono. Não sabe, também, a Raquel adulta:

“Minha mãe sempre foi calada dentro de casa, mas com as pessoas na rua era simpática, falante. Eu tinha ciúmes quando se abria com outras pessoas e contava coisas que eu não sabia sobre ela. Era carinhosa comigo, embora distante. Nunca falava o que pensava sobre a vida. Algumas pistas eu identificava em comentários sobre as novelas, pistas essas que bem podiam ser fruto da minha imaginação.”

Essa Raquel literária, de fato, é imaginativa e dada a devaneios tanto quanto é dada ao enfrentamento do mundo. Oscila dentro de um pêndulo de ingenuidade e de lucidez, recapitulando a própria história e o vínculo com os pais, em especial com a mãe, como se estivessem todos atrelados ao horário nobre da programação de uma emissora de TV sem, no entanto, simplificá-los e desumanizá-los. Sua percepção, senso de justiça, espírito crítico e sua capacidade de narrar, apesar das memórias conectadas com as telenovelas, são apuradas e trabalham a favor de seu despertar e amadurecimento.

Raquel dedica-se ao bem-estar do companheiro e revende cosméticos para melhorar o orçamento do casal enquanto sonha com sua independência financeira e prepara-se para uma carreira jurídica. Em um primeiro momento, parece exagerado e paradoxal ela questionar o papel social e doméstico para que foi programada, querendo fazer parte de uma estrutura conservadora e masculina como é a do Poder Judiciário. Mas querer ser juíza e atuar fora do universo estético e subserviente das mulheres que conhece desde criança está de acordo com o seu processo de ruptura de padrões. Raquel não está mais sentada no sofá em frente à televisão decorando textos. Ela não quer mais ser manipulada. Tampouco manipular. Portanto, não manipula. E não se afunda em culpas, temores e condenações. Quer é entender:

“Não sinto falta do meu pai. Sentia pena. Talvez tenha sido vítima dele mesmo, por ter escolhido para vida uma mulher acima do que ele poderia suportar, ou que poderia suportá-lo. Não sei por qual motivo coloco ambos em níveis diferentes, e sequer sei dizer de que substância é feita essa diferença. Talvez ele seja superior a ela, porque não fugiu da vida que lhe foi dada, porque não quis ser outro. No caso do pai, não querer ser outro deu errado. Será que, no caso dela, deu certo?”

Como saber o que deu, o que não, no romance, nas novelas, na vida? Eu li e reli o “Entre outras mil” em uma espécie de “vale a pena ver de novo” sem controle, mesmo o remoto. Penso ter encontrado algumas respostas e muitas perguntas. Um livro é uma interrogação fincada na mente. E é, voltando a citar o Umberto Eco, uma máquina preguiçosa que pede a quem o lê que faça parte do seu trabalho. Você tem feito o seu?

 

Helena Terra é escritora e jornalista. O seu interesse, despertado na infância, por literatura a levou a cursar a Oficina de Criação Literária, do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC/RS, e a frequentar os grupos de produção e de leitura crítica da professora Lea Masina. Em 2013, publicou o seu primeiro romance: “A condição indestrutível de ter sido”. De lá para cá, participou de antologias, organizou, com o escritor Luiz Ruffato, a antologia “Uns e outros” e é coautora na novela “Bem que eu gostaria de saber o que é o amor”. Atualmente, ela coordena o grupo de leitura “A literatura tem nome de mulher”, que se propõe a ler, a pesquisar e a pensar os livros escritos por mulheres em Porto Alegre.