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140ª Leva - 07/2020 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

High Life. França/Alemanha/Reino Unido/Polônia. 2018.

 

 

High Life é uma produção internacional de 2018, de idioma inglês, da consagrada diretora francesa Claire Denis, que infelizmente não passou nos cinemas públicos brasileiros, mas que pode ser visualizada pela plataforma You Tube, mediante pagamento. Sendo a primeira obra de ficção científica da autora, é um filme que se adequa a esse período de confinamento pandêmico por causa de seu enredo claustrofóbico sobre a vida artificial. É certamente a produção mais cara da diretora.

Denis é conhecida pelos seus filmes que abordam a sexualidade e o corpo. Seu filme mais importante, Beau Travail (1999), que se passa na África (Denis viveu em vários países africanos quando jovem, acompanhando o trabalho de seu pai), é sobre um affair homoafetivo não declarado entre dois militares, um comandante e um subordinado da Legião Estrangeira Francesa na Argélia. A relação se dá numa mistura de jogo de poder e desejo reprimido, e supõe a troca de papéis, ao estilo “Senhor e Escravo”. Muitas vezes, os filmes da autora abordam as questões do sexo e do desejo na fronteira das transgressões, dos tabus e dos jogos de poder (que frequentemente são também jogos eróticos).

Em High Life, uma missão espacial se dirige para fora do sistema solar e objetiva se aproximar de um buraco negro para estudá-lo. Descobrimos que toda sua tripulação é composta de criminosos que foram condenados na Terra, mas a quem foi dado o direito de substituir suas penas pela participação na missão espacial, “para servir à Ciência”. Aos poucos, todos descobrem que a missão não visa retorno possível à Terra. Em flashback, um cientista denuncia que a expedição é desumana por não supor o retorno dos tripulantes, o que é o mesmo que condená-los a uma espécie de prisão perpétua ou mesmo à pena capital. É ambíguo no filme se os participantes realmente desconhecem seu destino.

Duas personagens se destacam. A primeira é a “doutora” Dibbs (vivida por Juliette Binoche, frequente colaboradora da diretora). Ela é a médica da missão e é também responsável pela “pesquisa” científica a respeito da fertilidade humana nas condições de radiação do espaço sideral. Não se sabe se esta é uma pesquisa “inventada” pela médica ou já decidida pelos cientistas projetistas. Tampouco se sabe se seu posto de médica e pesquisadora foi definido antecipadamente. Aos poucos, saberemos que Dibbs é uma criminosa condenada tal como os demais membros da tripulação. Ela certamente mantém uma ascendência de poder sobre todos que muitas vezes se submetem aos seus experimentos genéticos (fornecem fluidos sexuais). No entanto, nas condições irremediavelmente longínquas da nave, o poder ditatorial e severo que Dibbs exerce sobre os demais poderia ser alvo facilmente de uma rebelião. Mas os outros passageiros parecem passivos demais para lhe questionar o poder. Parte dessa inércia vem do fato de que Dibbs tem acesso a drogas narcóticas que tornam a longa viagem mais suportável.

 

Juliette Binoche / Foto: divulgação

 

A segunda personagem protagonista é Monte (vivido pelo ator americano Robert Pattinson). Ele é o único passageiro que permanece fora da esfera de comando de Dibbs, nem participa de suas pesquisas e nem cede às suas demandas sexuais. Ele é um “celibatário” por sua própria decisão, o que lhe garante uma fortificada “pureza” e uma aura de integridade. Desde a primeira cena, sabemos que Monte será o único sobrevivente da missão, junto com uma criança, menina, recém-nascida. Ele mantém um jardim com estufa num dos compartimentos da nave espacial. A narrativa do filme é construída de forma totalmente não linear e varia com cenas da nave em momentos diferentes e cenas antes da partida, ou ainda com outras da própria juventude de Monte. Não sabemos de onde vem aquele insólito recém-nascido que está com ele nas primeiras cenas.

O antagonismo entre Monte e Dibbs estrutura um dos eixos do enredo. De um lado, a pureza de Monte permite que ele mantenha uma aura de sapiência diante da tripulação. Dibbs, por seu lado, é uma personagem ambígua. De um lado, seu poder vem de seu saber científico e instrumental. De outro, seus longos cabelos e seus pelos abundantes são índices ostensivos de sua feminilidade e de sua sexualidade. Uma das participantes femininas a chama de “bruxa”. A personagem de Binoche assedia sexualmente os homens, mas não consegue os favores de Monte. Há um compartimento da nave que é um cubículo onde ela pode se masturbar sobre um dispositivo fálico de cavalgadura. Assim, ela articula o poder da racionalidade científica e instrumental e o poder arquetípico da sexualidade feminina.

O outro eixo narrativo é o da própria missão, a utopia-distopia da viagem sideral. Claire Denis explicitamente organiza uma montagem cinematográfica em que vários filmes são referências: 2001, uma Odisseia no Espaço; Solaris; Alien, o Oitavo Passageiro; Perdido em Marte. Este último é referenciado pelo jardim interno mantido por Monte. De fato, um dos alvos temáticos de Denis é o projeto de colonização do espaço, em particular o projeto de Elon Musk (Tesla) de enviar uma nave tripulada à Marte sem retorno. As pesquisas de Dibbs sobre a viabilidade da fertilidade humana no espaço sideral estão inscritas nessa experiência de sobrevivência utópica da espécie quando as condições do planeta Terra estiverem irremediavelmente inóspitas (e também lembram a pesquisa do cientista androide de Alien com o material genético alienígena). High Life vai mais longe, para além do Sistema Solar. Porém, submete esse projeto de “escapar” do planeta e do Sistema a uma reversão irônica. A nave é caracterizada como um container grosseiro, como uma caixa de transporte e uma nave-prisão.

 

Robert Pattinson / Foto: divulgação

 

Numa de suas entrevistas sobre o filme, Claire Denis diz que nas condições absolutamente sem esperança das personagens, “o sexo é a única liberdade”. O sexo, o corpo e a carne estão presentes em todos os seus filmes. O que se observa neste último filme é um embate entre o sonho distópico da tecnociência e a espessura dos corpos carregados de sexualidade e desejo. Denis exibe em seus filmes um verdadeiro fascínio com o corpo, seja disforme ou mutilado. Denis é uma feminista diferente, fascinada com a masculinidade. A discussão de gênero está presente em sua obra não à maneira da performatividade discutida pela Teoria Queer, mas como um encrave sexual que acomete a carne, independentemente de seu código genético. Em seu filme clássico White Material (2009), o frágil corpo branco da personagem de Isabelle Huppert recebe uma caracterização de virilidade. O embaralhamento de gênero em seus filmes vem totalmente desprovido de classificações. É algo a ser vivido carnalmente pelas personagens.

Esse embaralhamento sexual também acontece em High Life. Mesmo com sua sexualidade arquetípica, é a personagem de Dibbs que está com o poder fálico da violência da posse. É assim que sua experiência científica terá êxito através de dois estupros em corpos de mulher e de homem. Já a personagem de Monte será retratada desde o início num claro viés maternal e virginal, com uma propensão ao cuidado e à proteção.

Para Denis, os corpos são andróginos. E o sexo é um assunto sobre o encontro desejoso (quase sempre violento) dos corpos. Quaisquer corpos. Mesmo (ou principalmente) com o seu próprio: sexo é também masturbação com o corpo do outro (podendo este ser o “outro de si”). Na relação contraditória entre esperança e desesperança, a ficção científica de High Life é um experimento cinematográfico e também um experimento mental. A viagem de escape para fora do Sistema Solar se dirige a um buraco negro. É o buraco negro que sintetiza as contradições entre mito e ciência, masculino e feminino, ideologia e utopia. E entre o monstruoso e o sublime da arte. O buraco negro é a alegoria da “fenda” do sexo, de sua passagem e de seu encerramento. Da posse que é também uma entrega: possessão.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do  Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Nestes tempos de relativo confinamento, muitos de nós percebemos o quanto a arte é fundamental. E ela não é tão somente a preenchedora dos instantes envoltos no ócio, mas a que tende a chacoalhar a rotina dos dias, propondo-nos um sem fim de caminhos. De todo o repertório possível, há mergulhos que nos impactam com mais intensidade do que outros. Seja na literatura, cinema, música, teatro ou artes visuais, para ficar nalguns exemplos, há sempre distintas chances de assimilação dos conteúdos. Mesmo que algumas dessas fruições não representem qualquer tipo de transformação do sujeito ou de sua realidade, ainda assim este pode ser atravessado pelos temas dispostos bem diante de seus sentidos. As obras também são instrumentos de comunicação que nos falam do quanto o estar no mundo significa muito. Quantos de nós não se sentem, em algum momento da vida, representados por determinadas narrativas artísticas? Certamente, há tanto processos naturais de identificação com obras específicas quanto o contrário. Sentir-se parte de algo, ainda que no campo ficcional, já parece nos dizer um pouco sobre o que somos. Pensando desse modo, o artista é também uma espécie de porta-voz de muitos ímpetos inconfessáveis, pois um dia talvez tenha faltado coragem a alguém de exprimi-los. Daí, percebemos o fio tênue entre dois mundos, o interno e o externo, através do qual a arte encontra seus deslizamentos. Dizer o indizível, provocar, balançar as fundações, desacomodar certezas, eis algumas investidas que podem muito bem não corresponder a um mero efeito retórico. E assim as estruturas vão se delineando e movimentando narrativas que nos atraem também por seus apelos inusitados. Nesse sentido, observamos, por exemplo, a capacidade que os poemas de gente como Alexandre Pilati, Helena Arruda, Neuzamaria Kerner, Juliana Sbrito, Vanessa Teodoro Trajano e Jorge Lucio de Campos têm de atrair nossas atenções. Quando o tema é discorrer sobre certas veredas literárias na contemporaneidade, a entrevista com o escritor Rodrigo Melo nos sugere perspectivas e reflexões bastante interessantes. É Vivian Pizzinga quem nos ciceroneia pelos caminhos de “haverá festa com o que restar”, livro de poemas de Francisco Mallmann. E há também espaço para as pulsações intensas nos contos de Adriano B. Espíndola Santos e Enio Jelihovschi. No nosso caderno de cinema, Guilherme Preger traz à tona algumas discussões sobre o instigante filme sueco “Border”.  Rans Spectro relembra o impacto causado por “Sobrevivendo no Inferno”, disco antológico dos Racionais MC’s. Por seu curso, Gustavo Rios nos oferta seus agudos olhares para “Bartolomeu”, romance de Bruno Ribeiro. Por todos os cantos de nossa mais nova edição, fomos brindados com uma exposição dos desenhos de Fernanda Bienhachewski, que tem como um de seus temas centrais as delicadas nuances do corpo. E assim se firma a nossa 139ª Leva, repleta de caminhos e acolhidas. Boas leituras!

Os Leveiros

 

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139ª Leva - 06/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Neuzamaria Kerner

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

ESCREVIVENDO

 

Escrever e viver
se misturam
quando os olhos se apuram
para ver o traçado da vida.

Que o meu sentido veja
o percurso das veias
que levam sangue e sentimento
na vida em circulação

Que eu veja e seja
percurso e veia então

Neste percurso inscrito na alma
eu me inscrevo na vida
e sigo

Escrevo

Escrever é fazer autópsia
dos vivos sentimentos
que borbulham em cada passo
veia, sentido e laço
no traço dos meus caminhos

 

 

 

***

 

 

 

VIRULÊNCIA

 

Um dia
nossos olhos se abriram
e não estávamos sós

Prosseguimos desbravando

Noutro dia
como pedras atritadas
palavras começaram um incêndio

Prosseguimos debatendo

De repente
nos vimos apartados
olhos tapados contra o sol
desabraços legislados
obrigados num exílio
que dá dó

Estamos morrendo

 

 

 

***

 

 

 

FÚRIA

 

A pior fúria é a silenciosa
A fúria disfarçada de um
Atrai a fúria oculta de outro
Nos barulhos a fúria tapa ouvidos
Nos silêncios a fúria age
Pressente oportunidades
Embaralha sentimentos
Finge felicidades
Permanece má passageira
No colo que embala a raiva.

 

 

 

***

 

 

 

SÚPLICA POR UM INCÊNDIO

 

Em verdade
nunca fui um vulcão
em permanente erupção.

Em aparência
sempre soltei labaredas de vida
para viver as necessidades.

No imo
busquei o sentido para continuar
meu sentido interior.

O que há no centro dos ossos nossos
escapa aos olhos do mundo.

Mas meus passos pararam
quando descobri que do nada
só têm saído nadas.

Uma pequena fagulha
pode reacender uma chama
e eu preciso me queimar
nem tanto nem pouco
como sempre foi.

Dá-me um fósforo, ó meu Pai!
Um pequeno incêndio
já vale uma vida.

 

 

 

***

 

 

 

SITIADOS

 

Transito na transição
mas não imune
aos vírus que enrugam minha cara

Neste trânsito que penso infindo
outros também transitam
com suas carquilhas expostas

De costas os vírus
metáforas do horror
riem discórdias
matando o espírito crítico
ou seja lá que espírito for

Na dor de onde vinda não sei
pobre cães ladram e atacam
as caravanas que passam

 

 

 

***

 

 

 

PONTUALIDADES

 

Eu me divido em minutos
o tempo em eternidades.
Eu sempre gerundiando
o tempo imperativista.
Eu vivendo de atrasos
o tempo de nunca mais.
Eu compasso de esperas
o tempo sempre passando.
Eu cheia de reticências…
o tempo de pontos finais.

 

Neuzamaria Kerner, baiana de Salvador, é professora e escritora. Tem publicados os livros: “Fragmentos de Cristal”, “Eu Bebi a Lua”, “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna”, entre outras publicações em revistas literárias. Seu mais recente rebento poético é “O Livro-Arbítrio das Evas – Dentro e Fora do Jardim” (Ed. Editus – 2014).

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Gramofone

Gramofone

Por Rans Spectro

 

RACIONAIS MC’S – SOBREVIVENDO NO INFERNO

 

 

 O ano era 1997. Enquanto o mundo se distraía tragicamente com o desenrolar da morte de Lady Di, vítima da insanidade midiática ao extremo, e com a trama científica da clonagem da ovelha Dolly, o Brasil seguia sob as vacilantes rédeas neoliberais da era FHC. Na TV, no mesmo canal onde Zé Ramalho cantava as agruras da “Vida de Gado” na abertura da novela, o ainda semi grisalho Bonner noticiava extasiado em rede nacional a prisão da banda Planet Hemp.

Grande ano da música brasileira, com lançamentos de discos que ajudariam a notabilizar ainda mais os produtivos anos 90, e imprimiria definitivamente suas digitais na subjetiva calçada da fama nacional. O citado grupo de Marcelo D2, antes de ir preso por falar de maconha, agraciou o mercado com o fantástico Os Cães Ladram Mas a Caravana não Para. O ano também contaria com pedradas, a exemplo do primeiro cd do Charlie Brown, e o Quebra-Cabeças, sucesso estrondoso e pop de Gabriel o Pensador. Sem esquecer de mencionar também o Lapadas do Povo, quarto disco de estúdio da melhor fase dos Raimundos.

Mas foi em dezembro, precisamente no dia 20, poucos dias antes do Natal, que fomos presenteados com um dos discos mais relevantes da música negra mundial, 14° mais importante do Brasil, segundo ranking da Rolling Stone, e, sem dúvida alguma, um dos mais notáveis lançamentos do gênero Rap de todos os tempos no país e no mundo. Sim, ele mesmo, o quarto disco dos Racionais MC’s, o histórico Sobrevivendo no Inferno. Obra que extrapola o universo do hip-hop, flerta com fotografia, literatura e jornalismo de denúncia. Mais do que um disco, é um verdadeiro manifesto político da periferia, álbum que colocou merecidamente em definitivo os Racionais no panteão sagrado dos grandes nomes da música.

Em maio de 2018, o álbum foi incluso na lista de leitura obrigatória para o vestibular de 2020 da Unicamp. Meses depois, a obra virou livro, lançado pela Companhia das Letras.

O Sobrevivendo no Inferno é um divisor de águas não só na carreira dos Racionais, mas para o rap nacional. O grupo, que seguia uma trajetória ascendente na qualidade dos seus lançamentos, incluindo o primeiro grande disco independente de sucesso (Raio X do Brasil, lançado em 1994), ajudou a impetrar no imaginário coletivo das periferias brasileiras narrativas complexas e reais, que dialogavam assustadoramente com a realidade. Narrativas essas com notáveis teores de reflexões sociais, críticas ao sistema e a explicitação de realidades não presentes para a maioria dos brasileiros: o dia a dia do sistema carcerário.

 

Foto: divulgação
Racionais MC’s / Foto: divulgação

 

Além da evolução das letras e narrativas, a sofisticação da estética da capa e das bases chamou a atenção, deixando claro que o grupo não passaria despercebido perante outros setores da sociedade até então não alcançados pelas narrativas da periferia do rap.

O disco é iniciado com uma bela versão de “Jorge de Capadócia”, oração de guarnição dos adeptos de São Jorge, imortalizada pelo homônimo cantor de sobrenome Ben. Na sequência, o interlude “Gênesis” e, após, a faixa “Capítulo 4, Versículo 2”, um verdadeiro soco no estômago da sociedade brasileira, até então nunca “afrontada” de maneira a se deparar com o formato musical duro e sofisticado do que o grupo define por “efeito colateral que seu sistema fez”. A música conta com a participação do ex-goleiro do Santos, e filho de Pelé, Edinho.

Também são destaques no disco as faixas “Tô ouvindo alguém me chamar”, que, a meu ver, é um curta-metragem no formato rap, além da incrível “Diário de um detento”, que alçou os Racionais a porta vozes e interlocutores das parcelas excluídas e marginalizadas da sociedade e ganhou um histórico videoclipe.  Surgiam os primeiros ídolos musicais da periferia com conteúdo altamente politizado recheado de ferrenhas críticas sociais, totalmente independentes e sem depender dos grandes meios de comunicação. Um fenômeno da indústria cultural sem precedentes até então no Brasil.

Segundo informações divulgadas pelo Racionais, o disco Sobrevivendo no Inferno vendeu cerca de 1 milhão e 500 mil cópias. A metade pirata.

 

 

 

Rans Spectro é Randolpho Segundo Santos Gomes. MC, sócio fundador da empresa OQuadro Corporation e jornalista.

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Juliana SBrito

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Pedra tumular 

 

O silêncio também pode ser pedra
recusa, ponto final.
Encerra a impossibilidade do pouco que é possível
do pouco, do mínimo, do íntimo
que nos é permitido.

É arma automática
Permanentemente acionada
Granada escondida à flor da pele
A matéria depois da bomba atômica

Até quando falarei sozinha?
Ficarei para sempre com o tiro no peito
Eternamente em exílio
Sob silêncio sepulcral?

 

 

 

***

 

 

 

Sob o microscópio

 

Seres fronteiriços
Em constante movimento
Abertos
Feridos
Cindidos
Em devir
Lacunares
Sempre estrangeiros

 

 

 

***

 

 

 

Diante do Umbral

 

Essa espera sujeitada
Que me força a aguardar
Por uma porta que se abra
É terrível e suicida

Arrombarei portas
Construirei janelas
Ou me entregarei
Ao espaço sem limites

Um muro pode servir
Um guardanapo sujo
Um post virtual
Ou mesmo o asfalto ensanguentado

Vital é circular
É dar luz
Ao que tenho a dizer
Forma visceral de existir

 

 

 

***

 

 

 

Gratuidade

 

Uma flor selvagem brotou no jardim
Declamou uma poesia para o Sol
Exalou um perfume sutil como uma borboleta
E se entregou para a primeira abelha que passou

 

 

 

***

 

 

 

Malabarista de uma perna só

 

Tropeço nas pedras soltas das certezas
Mergulho sem paraquedas nos abismos do sentir
Me agarrando kamikase na neblina
Inconsistente pratico nado sincronizado na fumaça
Me desfaço em mil pedaços
Fraturada até a raiz
Tombo vertiginosamente no chão
Como a pena daquele passarinho
Que ninguém notou
Soltou-se em pleno voo
Beijando o solo em pirueta

 

 

 

***

 

 

 

Recomendações

 

Exigem que eu justifique meu texto
Quanto devo recuar?
As margens me oprimem
Alinhar à direita ou à esquerda?
O centro me descabela
Me deixa ilegível
Quero a página em giro
Capa e contracapa em branco
Ou preto?
Romperei como Saramago
Ou Joyce na cabeça da Molly Bloom
Sem paradas para respirar
Abolirei as vírgulas
Ou inconsequente abusarei delas
Ignorarei o sublinhado vermelho
Que me grita: Há um erro!
Em minúsculas itálicas
Gravarei minha falta de estilo
Sem direito a revisões.
Salvar.
Imprimir.
Enviar.

 

Juliana Sbrito é baiana de Vitória da Conquista. Graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Professora. Coordenadora do Clube do Livro Um Dedin de Prosa e Poesia. Colabora com o site Crônicas de Categoria.

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Border. Suécia/Dinamarca. 2018.

 

 

Obra que estreou no Festival de Cannes de 2018 e somente através das plataformas de vídeo por demanda chega ao grande público, Border (Gräns), de Ali Abbasi, é um filme sueco que causou debate e mal-estar por onde passou. Mas parece totalmente apropriado para os tempos pandêmicos em que a humanidade está submergida nos terrores de sua própria existência no planeta.

O filme trata da história de Tina (vivida pela atriz Eva Melander), uma policial alfandegária que trabalha num aeroporto da Suécia. O aspecto assombroso de Tina, ligeiramente andrógino, é devido a uma suposta “anomalia cromossômica”. Tina desenvolveu uma aptidão extraordinária de farejar o odor dos corpos e relacioná-los aos afetos das pessoas. Esse seu dom lhe é de valia em sua profissão, na qual Tina pode detectar, através do faro, a culpabilidade de possíveis criminosos que atravessam a alfândega, como, por exemplo, o caso de um viajante que carrega imagens pedófilas na memória de sua câmera fotográfica.  Esse reconhecimento permite à polícia desbaratar uma rede sueca de pedofilia.

Mas Tina falha absolutamente na identificação de Vore (vivido por Eero Milonoff), cujo aspecto é tão bizarro quanto o dela, mas que Tina acredita guardar algum segredo. Na verdade, Vore, que possui uma compleição masculina, é, na verdade, do sexo feminino, e a incapacidade da personagem protagonista de identificar seu sexo causa-lhe um grande constrangimento na revista. Por esse erro, e por uma secreta sintonia com Vore, Tina lhe oferece abrigo.

Marcada por sua silhueta bizarra, por uma atestada infertilidade, por cicatrizes no corpo, Tina apesar de tudo tenta estar integrada à sociedade: mora com um amigo, tem emprego, visita o pai habitualmente num asilo de idosos, tem a confiança dos colegas de trabalho que admiram e tiram proveito de seu “poder” paranormal. No entanto, a personagem está na “borda” da sociedade normal.

 

Foto: divulgação

 

O caráter limítrofe de Tina é o mesmo do filme de Ali Abbasi. Border é uma obra entre o fantástico e o realista. Saberemos que Tina e Vore são trolls, seres mitológicos das culturas eslava e celta. Os aspectos supostamente monstruosos de suas silhuetas são na verdade naturais. A monstruosidade é, portanto, questão de perspectiva. Efetivamente, Tina e Vore estão mais próximos da natureza do que estão os humanos. Se eles assustam os humanos e os cães domesticados, comunicam-se com raposas e outros animais selvagens de maneira mais direta. Estão muito mais em casa na floresta do que no meio da sociedade.

Border foi bastante criticado, no entanto, pelas cenas de sexo aberrante e pela crueldade. É preciso entender, no entanto, qual a função formal dessas cenas em relação à montagem cinematográfica. O filme apresenta dois mundos que seriam incompatíveis: o mundo dos humanos e o mundo dos trolls. O perspectivismo narrativo traz os dois pontos de vista e como eles parecem inconciliáveis: aquilo que é “natural” num dos lados da “fronteira” é não natural na outra e vice-versa. Aquilo que parece aberrante num dos lados surge como erótico no outro. Essa separação entre mundos, no entanto, é rompida (ou ultrapassada) de diversos modos. Daí, por exemplo, a metáfora “alfandegária” da profissão de Tina e sua participação profissional nessa exata “passagem”.

O espírito transgressivo do filme está justamente nos modos narrativos onde a separação entre mundos é violada. Tina é considerada “infértil” pelos padrões da sexualidade humana. Numa das cenas, o amigo de Tina quer transar com ela e é rejeitado. A questão básica é que Tina não sente desejo entre humanos. Sua infertilidade não é devido a uma anomalia genética como lhe dizem, mas porque ela não está em “casa” na sociedade humana. É Vore que conduzirá Tina a recuperar sua libido própria. Essa libido já estava transparente desde as primeiras cenas em que Tina se banha nua num lago das redondezas. Não havia nada de “errado” com a sexualidade da personagem. Ela só não a encontrava no lugar certo ou melhor: sua sexualidade não tinha “lugar” em sua vida a não ser quando estava sozinha na natureza.

A crueldade se dá em outro modo, dentro do comércio entre humanos e trolls. Ela antes liga do que afasta as duas espécies. Por um lado, há a própria crueldade “aberrante” da sociedade humana, na pedofilia, ou no especicídio, forma mais abrangente de tantos genocídios a que se dedica a espécie sapiens. De outro, há o ressentimento, que não é exclusividade também dos trolls, mas abunda em nossa sociedade. A crueldade é a matéria mesma da guerra e a guerra não deixa de ser um “intercurso” entre as sociedades.

 

Foto: divulgação

 

A guerra é ambígua entre acabar ou manter as fronteiras. Mas a guerra também pode ser infletida para dentro, o que significa que a fronteira é deslocada para o interior da própria sociedade humana. Se Tina hesita na sua relação com Vore é também por sua fidelidade ao trabalho, aos colegas, aos vizinhos, enfim à sociedade da qual faz parte. Em última análise, a decisão de Tina, de ordem ética, é um elemento de sua humanidade. A fronteira não está entre espécies ou entre grupos de indivíduos. A fronteira está no interior da própria individualidade. O nome dessa fronteira é subjetividade.

A potência de Border está na figuração da fronteira e sua transposição da narrativa interior para o ato cinematográfico propriamente dito. A fronteira dos gêneros, completamente transfigurada na representação dos sexos de Tina e Vore, se transplanta para a fronteira dos gêneros estilísticos: a do filme realista e a do filme fantástico. Como na história, o filme de Ali Abbasi cruza frequentemente a fronteira dos gêneros narrativos. É essa ultrapassagem que gera o efeito de choque apontado por tantos espectadores. Em algum momento da trama é revelado que na Finlândia há uma comunidade sobrevivente de trolls que vivem em liberdade. A comunidade é um “enclave” utópico livre de guerras e livre para o erotismo entre os iguais da espécie. A estranheza provocada por Border vem dessa opção estética de nunca apenas “sobrevoar” esses mundos acima de suas fronteiras; ao contrário, a opção da obra é fazer com que todo o filme seja uma habitação da fronteira. Não há nada além da fronteira, o que vale para os humanos e trolls, bem como para a demarcação entre fantasia e realidade: só existe o poder que emana de suas imagens. Além dessa fronteira há apenas a utopia.

 

 

 

 

Guilherme Preger é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética Caneta Lente e Pincel. Escreveu sobre cinema para o site Ambrosia.

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Vanessa Teodoro Trajano

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Mulher em partes

 

Eu não sou inteira
Sou feita de partes
Não todas juntas
Nem apartadas
Apenas somadas
Uma a uma.

Há partes minhas
Por aí soltas
E, quando eu as
encontrar
Perderei outras.

Partes, quantas partes?
Fazei de mim tudo
Que cada parte queira
Qualquer coisa
Menos inteira.

 

Mujer en partes

 

Traducción: Clarissa Macedo
Revisión: Irina Henríquez

 

No soy entera
estoy hecha de partes
no todas juntas
ni lejanas
solamente sumadas
una a una.

Hay partes mías
por ahí sueltas
Y, cuándo yo las
encuentre
perderé otras.

¿Partes, cuántas partes?
haz de mi todo
lo que cada parte quiera
cualquier cosa
menos entera.

 

 

***

 

 

Puteiro

 

No puteiro da D. Eudóxia
é sempre meia noite
oportuna transição
entre os que nasceram tarde
e morreram ontem
sobretudo anteontem

Lá reside a mulher fatal
vermelho nos pés
vermelho no corpo
vermelho na alma
alma propositalmente fatalista
na mão um cigarro
na outra a bebida
a boca vermelha, ferida

Sugere o poema e o giz:
se te entrego minhas forças
sou louca, não trouxa
melhor ser infeliz
vestir verdade
sem roupa

Mas os dentes,
afiados na infantaria,
avisam:
cuidado com o sorriso
que ambientou desgraças
dele não se morre
por ele se mata.

 

Prostíbulo

 

Traducción: Clarissa Macedo
Revisión: Irina Henríquez

 

En el prostíbulo de D. Eudóxia
es siempre media noche
oportuna transición
entre los que nacieron tarde
y murieron ayer
sobre todo anteayer

Allí reside la mujer fatal
rojo en los pies
rojo en el cuerpo
rojo en el alma
alma intencionalmente fatalista
en la mano un cigarrillo
en la otra la bebida
la boca roja, herida

Sugiere el poema y el lápiz:
si te entrego mis fuerzas
soy loca, no tonta
mejor ser infeliz
vestir la verdad
sin ropa

Pero los dientes,
afilados en la infantería,
advierten:
cuidado con la sonrisa
que alardeó desgracias
de él no se muere
por él se mata.

 

 

***

 

 

Etimologia de prostíbulo

 

Se ser meretriz ou leviana
É roubar o corpo e o bolso
De muitos homens
E não amá-los noutro amor
Que não for o da gana
Peço então que somente me chamem
Por esse nome que diz
Que uma mulher só pode ser feliz
Quando pela pura vaidade
Muitos corações ela engana.

 

Etimología de prostíbulo

 

Traducción: Clarissa Macedo
Revisión: Irina Henríquez

 

Si ser prostituta o frívola
Es robar el cuerpo y el bolsillo
De muchos hombres
Y no amarlos en un amor
Que no sea el de la gana
Pido entonces que sólo me llamen
Por ese nombre que dice
Que una mujer sólo puede ser feliz
Cuando por pura vanidad
Muchos corazones engaña.

 

Vanessa Teodoro Trajano é natural de Teresina-Piauí e atualmente reside em em Brasília-DF. Além de escritora, é professora de língua portuguesa com mestrado em Estudos Literários pela Universidade Federal do Piauí. Participou do projeto Arte da Palavra promovido pelo SESC em 2017, em que viajou por diversas cidades do Brasil como palestrante e oficineira, e do 25ª Encuentro Internacional de Mujeres Poetas na Colômbia em 2018. Possui ao total 10 publicações, entre antologias e obras individuais, as quais se destacam: Mulheres Incomuns (2012, contos), Poemas Proibidos (2014) e Doralice (2015, romance). Ela não é mulher pra casar (2019) é o seu quarto livro.

 

Vanessa Teodoro Trajano es de Teresina-Piauí y actualmente vive en Brasília-DF. Alem de escritora, es profesora de lengua portuguesa con maestría en Estudios Literarios por la Universidad Federal del Piauí. Ha participado del proyecto Arte de la Palabra promovido por el SESC en 2017, viajando por diversas ciudades de Brasil como maestrante y tallerista, e del 25ª Encuentro Internacional de Mujeres Poetas en Colombia en 2018. Tiene, al total, 10 publicaciones, entre antologías y obras individuales, a ejemplo de Mulheres Incomuns (2012, cuentos), Poemas Proibidos (2014) e Doralice (2015, novela). Ela não é mulher pra casar (2019) es su cuarto libro.

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Enio Jelihovschi

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

A meia morte de Chico Cego

 

Chico cego viveu meia vida e meia morte, só foi inteiro quando morreu. Por isso mesmo durante toda sua meia vida conheceu a morte.

– Amanhã, morro.

Onofre e Herculano riram:

– Mas, como, Chico Cego?, disseram em uníssono.

– Não acordo mais, ou acordo morto. Acaba minha meia vida, já conheço bem o escuro.

A palavra escuro tinha um significado metafórico para ele, fora da realidade, pelo simples fato de que nascera cego e, sem nunca saber o que era luz, não tinha como comparar. Escuro para ele era um nome que tanto podia ser branco, colorido ou até luminoso. Durante a vida, em sonhos ou em grandes bebedeiras, brilhos espocaram pela sua mente, mas ele não tinha como descrever para si mesmo aquelas coisas na cabeça, por lhe faltarem as comparações, que na mente de uma pessoa não cega são corriqueiras. Seu mundo era tátil e sonoro, luz para ele era algo etéreo descrito por mera formalidade, por meio daqueles dois sentidos. Luz, cores, brilhos eram palavras sem sentido, usadas somente para melhor se comunicar com as pessoas “normais” do mundo.

Onofre e Herculano eram seus parceiros de bar, sempre bebendo e sempre conversando. Eles falavam do mundo da luz, das mulheres bonitas, o que Chico Cego entendia com as mãos. O que era uma mulher bonita?, ele perguntou uma vez. Os amigos se olharam entre risos. Mulher bonita tinha um corpo bem feito, um sorriso com dentinhos alvos, olhar distraído de donzela e rebolava ao andar. Como fazia Chico Cego para entender estas coisas com as mãos? Teria de tocar o traseiro de algumas e ir apalpando enquanto ela andava. Chico Cego então tocou o seu próprio e mexeu.

– Ah! Então isto é uma mulher bonita!

Uma vez perguntou à mãe, quando ainda criança, o que era a morte.

– A morte é a escuridão total.

– Mas, mãe, você me disse que o cego vive na escuridão porque não enxerga. Então eu estou morto.

– Não, meu filho, você tá vivo, é que você é cego.

Chico Cego não entendeu e desde então viveu convencido de que estava morto, ou melhor, meio morto. Hoje, sentiu, lá no fundo, que amanhã seria morto inteiro, deixaria a metade viva de lado. Para ele seria um ato normal, sem muitas consequências. Como foi que sentiu, não sabe explicar. Sentiu. Talvez, depois de beber alguns goles de uma cachaça, da boa, pudesse encontrar as palavras. Chico Cego sempre gostou dos goles, a cachaça fazia aparecer coisas na sua cabeça, seria isto luz? Os amigos descreviam coisas como chispas brancas, algo dourado como o sol, mas sol para ele era somente um calor que queimava a cabeça e ardia as costas. Ele chamava isto de coisas, não conseguia encontrar outras palavras e por isto continuaram coisas. Eram as coisas desconhecidas que apareciam na cabeça, depois dos goles.

– Chico, o que eu quero saber é: como você vai morrer? Você vai se matar, vai se jogar em cima de uma faca ou na frente do trem, ou então vai tomar veneno? Pois é, como? Ninguém morre só porque quer, ainda mais com uma saúde de ferro como a sua.

Herculano perguntou, enquanto coçava o cabelo ralo e mordia um dedo num tique nervoso. Os dois amigos se olharam, Chico Cego sentiu os olhares e sorriu. Como ele podia sentir olhares sendo cego? Dizia ele que isto era a visão do cego.

– Eu não sei como vai morrer o resto que me falta, disse ele, quem sabe um carro passa por cima de mim, ou um avião cai em cima de mim, mas não precisa muito, só falta um pedacinho. Quem sabe encontro a Francisca? A desgraçada me deixou, a mulher mais bonita do mundo. Um dia ela disse que me olhou nos olhos e perdeu a vontade de homem. O que é isso, “olhar nos olhos”? Eu não tenho olho, tenho uma coisa na cara, mas não enxergo, então não tenho olho. Será que ela morreu? Quem perde a vontade morre. Eu não perdi a vontade, mas, mesmo assim, vou morrer. E eu acho que, morto, encontro ela.

Onofre e Herculano se lembraram da Francisca. Foram eles que a apresentaram a Chico Cego, era a mulher mais feia da cidade, tinha o rosto torcido, gordíssima, falava pelos cotovelos, condenada a viver sozinha. Chico Cego a conheceu com as mãos, apalpou, correu por todos os cantos e recantos e assim foi definindo seu conceito de mulher bonita. Quando terminou, registrou na mente o que seria a mulher mais bonita do mundo. Os dois amigos também sabiam que Francisca não aguentou a forma de Chico Cego olhar para ela com as mãos, ele a tocava tanto, rebuscava por todos os seus recônditos, não parava, dizia que estava olhando, desfrutando da sua beleza. Assim eu enlouqueço, desabafou ela um dia. No outro, foi embora.

No dia seguinte ao anúncio, Chico Cego morreu. Foi atingido por um raio num dia de sol. Ninguém sabe como. Parece que havia uma nuvem esperando por ele na curva da estrada. Pouco antes de chegar em casa, ela avisou com dois trovões e, logo após, descarregou um tiro certeiro bem na cabeça. Disseram que, antes de morrer, ele gritou: luz!! Os amigos comentaram que neste segundo antes da morte, enquanto o raio penetrava pelo crânio adentro, ele viu. Eles então levantaram os copos de cerveja e fizeram um brinde ao amigo que, finalmente, conheceu a luz.

 

Enio Jelihovschi nasceu e cresceu em Belo Horizonte. Aprendeu a gostar de livros com o irmão mais velho com o qual dividia o quarto e as querelas. Com ele também aprendeu a escrever e que escrever bem depende de talento e muita labuta. Atualmente é professor da Universidade Estadual de Santa Cruz, onde gosta imensamente do trabalho que faz. Vive em Ilhéus, a qual considera a cidade mais charmosa de todas que conheceu. Publicou o livro de contos “Assassinos de Aluguel” (Editus – Editora da UESC, 2013).  

 

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139ª Leva - 06/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Jorge Lucio de Campos

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

GIRÂNDOLA 

 

Um belo retrato
alucina teus sapatos
sujos de charco. Teus
lábios cochicham textos
de filosofia. Há deuses
egípcios em tuas axilas.
Já não és desse tempo.
Diante de nós, rosas
sangrentas te açoitam
até o fim. Uma pulga
de óculos nos convida
a entrar.

Entramos.

 

 

 

***

 

 

 

A NOITE SEGUINTE

 

Até sinto
um traço
entre as
coisas em
que toco e
quase me
impedem
de existir –
só não sei
como.

 

 

 

***

 

 

 

MACMANN

 

Salta o silêncio que corrói
a miopia trevosa dos carretéis
de teus cabelos.

Nas latas de lixo, um abrir e fechar
de tampas, um sussurro na terra
deserta, sem direito a voz.

A palavra cinzenta não deve morrer,
mesmo acuada na boca que mastiga
línguas de papel.

Há a história de uma pedra perdida
na floresta. Não quero perder-me
na floresta.

Que floresta?

 

 

 

***

 

 

 

RATOS E RATAZANAS

 

Daqui para frente,
entrarei em órbita.
Sacudirei as asas
só pra te agradar.
Entre as duas piscadas
de um cachorro velho,
uivarei para a casebre
com a alma solta e
pios de gaivota na
tinta da chuva.

Mas o mundo,
como um prato,
continuará vazio.

 

 

 

***

 

 

 

SERMÃO

 

Foste minha
sombra, minha
epifania
revolta.

Alguns degraus
abaixo dos meus,
estava aquele
que te fez.

Não fui algo
que te sirva.
Apenas quis
amar-te antes

que fugisses
como glosa
pregada num
deserto sem

gavetas.

 

 

 

***

 

 

 

CALEIDOSCÓPIO

 

Dobras de raios
de sol abrigam
um criado-mudo e
um fonógrafo.

Na cabeça cortada,
um pavio aceso,
uma escotilha
em cada olho.

No fim da tarde,
um polvo rasteja,
mesmo que eu
não queira.

 

Jorge Lucio de Campos é poeta, ensaísta e professor da ESDI/UERJ. Publicou diversos ensaios, entre os mais recentes estão: “Os nomes nômades”(Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020), “Paisagem bárbara” (Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020), “Sob a lâmpada de quartzo” (Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020), “Desimagens” (Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020),”Impertinências” (Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020) e” Figuras para outras pessoas”(Clube de Autores, 2019; Amazon, 2020).

 

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139ª Leva - 06/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Como escrever bem sob uma rajada de tiros

Por Gustavo Rios

 

 

Ao falar sobre quadrinhos, música pop, televisão e outros expedientes que, em tese, existem fora dos limites da arte mais elevada, por assim dizer, seria legal de minha parte citar aqui um fragmento de uma entrevista que Umberto Eco deu ao jornalista Ben Naparstek. Quando instigado a falar sobre cultura pop, Eco, que possuía na época 34 doutorados honorários, disse: “muitos acadêmicos liam histórias de detetives e quadrinhos à noite, mas não falavam nisso porque era considerado uma masturbação”.

Ainda que eu não conheça nenhum dos acadêmicos citados pelo Umberto, e ainda que eu saiba que o Pornhub salvou muito escritor amigo meu em momentos difíceis, ao esconder a influência dos quadrinhos, da música chamada pop e da TV em nossa arte, negamos a outros conhecerem a fonte e a essência de uma boa fatia de nosso trabalho: a beleza do que produzimos como resultado de uma louca, inventiva e caótica junção.

A coisa não se resume a essa trinca, evidentemente. Quando se trata de livros, a literatura conhecida como Pulp também deu a muita gente boa lastro e fôlego pra seguir em frente – ou mesmo pra se despedir em grande estilo, vide Nick Belane e o seu criador, o nosso querido Charles Bukowski.

No caso dos livros Pulp, talvez uma das características mais legais seja o desprendimento de seus autores na criação de universos – coisa sem relação alguma com descuido, friso. Nesses livrinhos, dogmas travando os limites da fantasia parecem não existir. Tampouco o desejo de entrar na marra para a história da literatura através de hermetismos e outras traquinagens. Do pouco que li e gostei desse divertido quinhão literário, as questões psicológicas eram facilmente resolvidas e a pancadaria comia solta. Naquelas páginas a linguagem era simples e eficaz, no final das contas. E até hoje tento imaginar o que seria do Paul Auster e do Thomas Pynchon sem as histórias de detetive.

Bruno Ribeiro, autor do romance Bartolomeu, me parece o tipo do cara que curte um livrinho Pulp. Nas 122 páginas de sua “sátira burocrática e violenta” envolvendo “assassinatos encomendados”, nas palavras de Mateus Rodrigues no que parece ser um posfácio, o uso das estratégias comuns aos famosos livros de papel barato (pulp paper) abunda. Ou mesmo sobeja, se quisermos usar um termo à maneira do linguista e semiólogo italiano.

Com um enredo eficaz e interessante, mesmo para os que nunca curtiram a literatura “barata”, Bartolomeu salta aos olhos. Dono de uma linguagem rápida e multifacetada, que evolui de maneira alucinante, Bruno Ribeiro constrói a trama sem abrir mão de inovações.  E de alguns riscos. A forma que Ribeiro escolheu para seguir com seu livro foi muito feliz. E tal escolha deixou o trabalho acima da média de outros Pulps que conheci – se fizermos uma relação direta entre as opções e considerando meu conhecimento no tema.

Bartolomeu, o protagonista, é um assassino dos bons; um artista em seu ofício. Além de ser o eixo de todo o livro, esse anti-herói negro trabalha para uma empresa chamada Indústria. A Indústria é uma corporação regida por normas parecidas com as de qualquer grande firma – ou quase isso, já que ela dá a seus funcionários “(…) desconto em motel, cesta básica, restaurante, férias, décimo terceiro recheado, desconto em lojas de departamentos, roupas estilosas e a puta que pariu”. Afora ser uma corporação que tem “a puta que pariu” como benefício trabalhista, outro detalhe que a distingue das demais é o seu, digamos, ramo de negócio: a eliminação de pessoas sob encomenda, aqui conhecidas como Trabalhos.

A Indústria, que emprega hackers, snipers e assassinos, possui semelhanças com outra “empresa”: a Comissão, da HQ Umbrella Academy; quadrinho que virou série na Netflix e que foi magistralmente desenhado pelo brasileiro Gabriel Bá.

Com isso, diante das escolhas do Bruno, creio que posso assinalar dois pontos que me chamaram a atenção de imediato: a provável influência dos quadrinhos e o modo escolhido pelo autor para contar sua vibrante história

Grosso modo, a literatura Pulp transcorre de forma linear. A história é contada com começo meio e fim (com alguns flashbacks, é bem verdade), geralmente tendo uma voz narrativa firme durante o trajeto. Essa voz observa, pontua, muitas vezes ironiza e sacaneia, mas sempre se mantém estável, presa ao estilo e amarrada à personalidade do protagonista-narrador. No caso do Bruno a coisa funciona de forma diferente.

Mesmo que o livro não se resuma a um amontoado de relatos, tipo papo de divã ou algo parecido (tem muita ação, muita coisa rolando), as páginas de Bartolomeu são um apanhando de vozes distintas. E tal expediente enriquece muito a história, em minha opinião.

Colegas, inimigos (ou colegas que viraram inimigos), pessoas, figuras macabras e tantas outras, falam sobre Bartolomeu na primeira pessoa. Cada uma o descreve de forma pessoal e única. Todo o processo, entretanto, ocorre sem que Ribeiro perca o fio condutor: raramente o novo elemento confunde o leitor, já que enxergamos o mesmo Bartolomeu à nossa frente. Com suas manias, escolhas, habilidades e aspectos.

Criança Branca, Eraldo, Vegetal, Lobo Cego, entre outros, contam e vivenciam as mais variadas e perigosas situações. Assim sendo, a cada voz que surge (e incluo também Vegetal nessa onda, lá do seu jeito), fica óbvia a aptidão de Bruno em definir as características de cada personagem, mesmo que todos girem ao redor do protagonista. De Mona à Criança Branca, Bruno altera um pouco as regras do jogo Pulp, quando nos apresenta uma narrativa meio psicológica e individual. Indo além do uso atabalhoado de clichês.

Clichês são usados sempre que preciso, todavia. E esse procedimento em nada prejudica Bartolomeu – diante do fato de que tais clichês são o fundamento do estilo aparentemente escolhido por Bruno, ficamos bem em seguir com eles. Assim como cowboys devem usar chapéus e marcianos só conseguem invadir a terra se vierem de Marte, livros com a temática de Bartolomeu devem conter bebidas fortes, cigarros e charutos, drogas, quartos de hotel, socos, armas, tiros, conspirações, cadáveres, homens e mulheres ressentidos, tesão em suspenso, facadas, femme fatales, traições e gente esquisita.

Além disso, esse mineiro radicado na Paraíba traz para o livro uma série de questões pertinentes e atuais. Referências à Lava Jato, ao presidente do executivo e à nossa política apodrecida, surgem com ironia e até justificam o rumo da história – vide o trecho, “O troglodita chuta uma cadeira, ‘você é um dos maiores hackers do país, crioulo. Invadiu o celular do Moro e da galera da Lava Jato. Um gêniozinho (sic)’”, página 18; ou então: “O Brasil se tornou um paraíso para nós, mas os comunistas estão voltando. Povo brasileiro é besta. Não será uma eleição fácil, saca? Estão nos vigiando sem parar. Temos que nos manter mais discretos, pelo menos por enquanto.”

 

Lirismo, imagética, tiros e escopetas

 

Não é tão raro identificamos em Bartolomeu passagens dotadas de lirismo e até mesmo com um pouco de poesia, diria eu. Esse recurso, quando aparece, sempre surge no momento exato.

Bruno, autor de Febre de Enxofre, livro escrito em Buenos Aires sob a orientação do poeta Guillermo Saavedra, trabalho que serviu como parte do mestrado em Escrita Criativa na Universidad Nacional de Tres de Febrero, parece gostar do jeitão portenho de se resolver as coisas.

E é nessa mesma Buenos Aires que o lirismo e um pouco dessa poesia ficam evidentes pela primeira vez: “Sou conhecido como a Criança Branca e estou em Buenos Aires, hospedado em um quarto na Pousada Díaz, no bairro de San Telmo. Local apertado, cama com cheiro de mofo, aquecedor pequeno, poltrona com desenhos tribais e um abajur quebrado. Um paraíso às avessas” – destaco aqui a última frase.

Em outro instante o canto de uma coruja se converte em “(…) um assovio em forma de enterro.”, enquanto nas já citadas páginas iniciais, o tiro disparado por uma mulher surte efeito semelhante ao se transformar em  “(…) o assovio de um pássaro negro, o canto de uma flauta doce, tão doce quanto aquele cheiro que agora significava o meu fim.”

Ainda que pareça repetição, achei legal a definição literária que Bruno Ribeiro deu para a morte. Para mim, uma boa estratégia.

A ironia também é outro item presente em Bartolomeu. E isso não poderia faltar de qualquer forma. A começar pelos nomes e codinomes dos personagens, desembocando nas frases em que Bruno descreve, de forma macabra e ácida, situações e trejeitos do seu rol de personagens pra lá de excêntricos, me flagrei diversas vezes rindo alto.

Cito como exemplos os trechos: “Vegetal só verbaliza grunhidos através da sua máscara de gás surrada e acinzentada. Regata branca desbotada da banda Legião Urbana. Jeans preto e rasgado. Um corpo esquelético e meio morto. Os olhos azuis arregalados no vidro da máscara encaram Bartolomeu, que depois de alguns segundos, decidiu pedir uma água para o garçom.

“’Não precisa ter medo. O Vegetal aqui tem uma função nessa reunião.’”

No que Bartolomeu, tempos depois, retruca: “’Da próxima vez, não traga o psicólogo. Não confio em quem gosta de Legião Urbana.’”

Fundamental para o bom andamento da obra, a linguagem simples também dá o tom. Assim como a agilidade das frases e uma forte carga imagética na descrição de algumas cenas.

“Os meninos estão felizes. Eles insistem em perguntar sobre minhas armas e a resposta é sempre a mesma ‘papai gosta de colecionar’. Tão pequenos, sagazes, tão vivos. Deito na grama, enquanto a esposa cuida da janta. Digo que é tarde, devemos entrar. A janta está maravilhosa. Elogio minha esposa. Coloco os meninos na cama. Transo com minha esposa. Pego a cadeira de balanço e coloco do lado de fora. Em meus braços, a escopeta carregada. Três carteiras de cigarro no bolso da jaqueta preta: refeição para uma madrugada.”

“Se estivéssemos fora da sala eu já poderia prever os olhares mortos em nossa direção. A última marcha nessa enorme empresa, entre os corredores infinitos e largos, paredes nuas, sem janelas, portas distantes, fechadas e cheias de códigos, espectros de terno e sem terno, heróis e codinomes sem noção, e eu me perguntando se tudo isso faria sentido, e eu me perguntando: onde fica a Indústria? Até hoje não sabemos… Chegamos aqui e não sabemos como, mas chegamos. Em algum ponto entre São Paulo e Rio de Janeiro. Um ponto recôndito, eterno. E os homens e mulheres deste estabelecimento de morbidez e cifrão finado balançando a cabeça, falando em suas mentes ‘meus pêsames’ para o nosso Departamento, enquanto caminhamos rumo ao céu aberto, o exterior, o mundo real. E ali, a qualquer momento, nossas vidas seriam extraídas dos corpos, seja por Bartolomeu ou por qualquer um, o nome não importa.”

Digressões também são bem vindas, já que romances permitem isso com o manejo adequado. E no caso do Ribeiro as digressões me lembraram do Tarantino: personagens falando sobre Bolsa de Valores, sobre a obsolescência de produtos industrializados e sobre orgasmo feminino antecedem fatos novos, muita ação e rupturas.

A presença de raríssimos ecos, pleonasmos e assonâncias não prejudica tanto a leitura. Porém, como não captei a intenção do escritor em ser irônico ou mesmo poético nesses trechos, fato que permitiria mexer e brincar com a sonoridade sem derrapar, melhor seria se ele revisasse algumas frases, tais como: “Todos nós simulamos um luto. O silêncio não é absoluto, pois meus soluços (…)” e “ (…)um ruído sutil foi audível (…).”

 

A pressa: o inimigo mais perigoso para Bartolomeu

 

Na leitura que fiz de Bartolomeu, não pude deixar de perceber alguns erros simples de se resolver: se considerarmos o suporte em que o livro foi lançado (digital), é crível que Bruno os reveja.

Da grafia da palavra iPhone que surgiu por duas vezes como “iPHONE” e uma vez como “Iphone”, até o uso da palavra Nordeste – digitada como “nordeste” em outra página, sendo que ambas pareciam ter a mesma finalidade -, temos aí itens que merecem atenção. Outra coisa que pode melhorar é a formatação do texto que, no livro, parece ser aquela do tipo “justificada” (usem essa resenha como exemplo). Espaçamentos menores nos diálogos também ajudariam na leitura.

Certamente no afã de entregar um trabalho ao seu público, que não é dos menores e me parece bem qualificado, Bruno e os revisores devem ter se passado em tais questões. Esses vacilos, contudo, não diminuem o itinerário do Bruno nem o livro, com absoluta certeza.

Finalmente, diante de tudo que vi e li, indico com sobra Bartolomeu para todos aqueles que curtem uma boa história. Para a turma que gosta de uma escrita ágil e cheia de surpresas, o livro do mineiro-nordestino Bruno Ribeiro é uma excelente pedida. Um tiro certeiro, sem dúvida. Ou uma rajada de tiros, a depender do caso, do Trabalho e da encomenda.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), entre outros.