Deitei sob a terra
Medos infundados
Geleiras afundaram-me
Em fractais anseios
Tudo faço em ciclones
Tumulto na sala de estar
A anfitriã opaca
E o café frio do sono
Convida-me ao deleite
Bolos mofados
E sonhos escatológicos
Revirei o celeiro
Entre plumas e palhas
Para enterrar-me no agulheiro
Pântano de pontas soltas
Subi ao sótão
E aspirei as lembranças
Bati tapetes
Amamentei traças
Servi pulsos aos cacos de vitrais
Fiz guisado de tempo
Com sobra de ossos
de meus antepassados
Varri a varanda
Inaugurando passagens
Entulhei pecados
No tapete surrado da porta
Dancei com folhas vencidas
De qualquer outono
Plantei heras e horas
Na murcha véspera da tarde
Reguei-as com águas de soluço
Cortei videiras atrevidas
E suas hastes indevidas
Colhi azevinhos
Na espera infértil
De quem sabe um beijo seco
Talhei entranhas
Com a faca da cozinha
Mil cortes
Em minha espessa pele
Com bílis aspergi os cômodos
Cruzei o corredor
Em tudo untando
E bendizendo
Risquei no chão
Áspero alicerce
O início da chama
***
PILATOS SE BANHA
Eu hoje volto
Com as mãos sujas de sangue
E não sei de quem
Já secou e mancharam
Vestes brancas e encardidas
Da sujeira do mundo
Tentei alvejá-las
Mas o cheiro fica
Entranhado na mente
Inundando as narinas
Ouço as vozes
De corpos que gritam
E o pavor me acorda
Em noites insones e nebulosas
Olho para as mãos
E estão rubras
Um alerta indelével
E as cubro com luvas
Para esquecer o sangue
Saio nas ruas
Paralelepípedos violentos
Jogados contra um crânio qualquer
Lançam-me num mar sangrento
Vejo vísceras e miúdos
Numa carnificina aterrorizante
Mas fecho os olhos
Tapo os ouvidos
Emudeço…
Sobram delitos
Para cada morte sentenciada
Tento convencer-me
Há no silêncio a virtude dos justos
E quem se resguarda
Tem o privilégio da vida
Sigo pela rua deserta
Não pela falta de gente
São seres de retidão
Que não gritam e nem se aborrecem
Inofensivos e cheios de bem
De branco trajados
E com luvas
Mesmo distante o inverno…
***
ARREMETIMENTO
Faço compêndios
Arrisco inscrições
Dentro de páginas ariscas
Eu sangro letras
E cada gota
Já é minha parte
No pacto maculado
Embaraço lãs
Entre agulhas agonizantes
Meu tear tem pressa
Em capturar
O fio do nada
E sua tenuidade
Na tapeçaria do tempo
Lavro atas obscuras
Cego no labor de sectários
Assino no anverso
O lado de fora
Da minha pele fugidia
Meus dias são documentos
Arquivos do morto passar
Corto a fita de cetim
Inaugural arquitetura
De voltas retorcidas
Abro esse mesmo caminho
E o pavimento
Sob o que em mim
Desiste e não recomeça
Curvas precedem
Diagonais flutuações
Abro imensas galerias
Nessa terra que há
Em busca de cínicos cristais
E nada do que busco
Minera a dor
Já o magma flui
Tão denso queimor
Meu solo alcalino
Ferido em ravinas
***
A BOTA ACIMA DOS PESCOÇOS
A bota acima dos pescoços
Brilhante e ilustríssima
Engraxada na melhor saliva
E com panos caríssimos
De decentes cidadãos
A bota acima dos pescoços
Dizem que é cega
Tal qual a deusa da balança
Mas tem forte predileção
Por tingir-se de sangue retinto
A bota acima dos pescoços
Curtida em puro couro militar
Orgulho da pátria
Item customizado na nação
Uma bela babá para o sono das elites
A bota acima dos pescoços
Pisando vigorosa no chão
De favelas e subúrbios
O solado tem fome animal
E devora ossos marginais
A bota acima dos pescoços
Pisa em folhas flutuantes
Balé adestrado e perfeito
Quando dança nos salões
Dos bairros da nobreza
A bota acima dos pescoços
Sabe de toda a carnificina
E sente-se orgulhosa
Do seu idioma de dor e violência
Abatem presas para um deus odioso
Os pescoços debaixo da bota
Ouvem a sinfonia macabra
De ossos partidos
E seus gritos desvanecem
Há falta de ar no país
E os pulmões precários
Tentam capturar
Qualquer sinal de vida
***
À NOITE NO BATEKOOL
Vejo línguas infames
Mortais verbos
De afiar navalhas
Esparramam na rua
Closes certos
E muito atrake
Abrindo esparcates
Em pernas longuíssimas
Giro pombagiresco
Voam as mechas
Das laces alucinantes
Cabeças como rodas da fortuna
E o futuro é tombamento
Magias profanas
Antigas conjurações
Ocultação dos mistérios
E o universo acuendando
E tudo sumindo
Num buraco negro
A Super Lua montada
Do céu brindava
E fazendo o lipsync
Banhava todas
Criaturas insubmissas
Na fronteira
Da folia
Daquelas que apenas
Deslizam
Tales Pereira. (Ar)risco versos desde os nove anos e até agora tenho essa maquina rota de fazer versilharias. Trago também meu corpo de beesha para esta tessitura, e uso desse verbo viado para enviadescer palavras e conceitos. Tenho vários palcos para uma multidão inquieta. Às vezes Thallyz Mann vem rodar essa gira comigo, ou eu com ela e vice-versa. E vamos todas girar: a doutoranda, a aspirante a performer, a cantora de chuveiros e tantas outras.
Uma das tentações mais recorrentes no estudo da obra de um determinado artista é dividi-la em vários períodos. Ainda que de forma controversa e simplificadora, fala-se das fases romântica e realista de Machado de Assis ou dos períodos coloridos e cubistas de Pablo Picasso, para ficar apenas em dois exemplos fáceis.
Quem acompanha o trabalho da banda paulistana O Terno e de seu principal expoente e compositor, o vocalista e multi-instrumentista Tim Bernardes, pode se sentir tomado pela mesma tentação. A banda, que lançou em 2012 seu elogiado álbum de estreia, 66, se notabilizou por um som com tintas neo-psicodélicas, um tanto quanto freak, na melhor acepção do termo.
Em <atrás/além>, o quarto disco do grupo, lançado em abril de 2019, há uma continuidade estética do primeiro voo solo de Bernardes, Recomeçar, de 2017, sem a companhia de seus colegas de banda Guilherme d’Almeida (baixo) e Biel Basile (bateria). Com o artista alcançando uma maior maturidade pessoal e criativa, <atrás/além> segue na procura por caminhos mais lapidados. As composições intimistas e melódicas mostram um Tim Bernardes com um sotaque próprio, típico de cantores-compositores de grande calibre.
O Terno / Foto: divulgação
Há uma grande coesão no álbum, muito em razão do grande zelo nos arranjos, que possuem uma qualidade cinemática, emoldurando os vocais cada vez mais idiossincráticos de Tim. Mesmo o balanço à Jorge Ben de “Bielzinho/Bielzinho” não soa deslocado e carrega alguns dos mesmos elementos de introspecção que permeiam os cinquenta minutos do disco. Aqui cabe destacar o talento de Tim não apenas como compositor, mas também como produtor, já que em <atrás/além> ele é creditado pela primeira vez na história da banda como produtor solo.
Tim Bernardes parece consciente de atravessar um movimento cíclico em sua vida e carreira, e os títulos das canções parecem retratar essa dicotomia: “Atrás/Além”, “Nada/Tudo”, “Profundo/Superficial”, “Passado/Futuro”. Ao se aproximar dos seus 30 anos de idade, Tim se autodiagnostica ao mesmo tempo no final de algo e no começo de outro, como nos versos de “Pegando Leve”: “Dividido, indeciso / Me cansam tantos hipsters e modernos de plantão / Me cansa ser mais um // Acabado, esgotado / Eu já cheguei no fim, recomecei e aqui estou eu / No fim de novo, eu”.
Ao mesmo tempo em que celebra a coletividade em “Nada/Tudo” (“Como é que vai, Vaquinho? Como é que vai, Luiza? / Como é, my brother Charlie? Salve, Tute, salve, Geeza! / Companheiro Bielzinho, porows, peixe, nóis, clubinho / Mari e turma da pesada, não me sinto tão sozinho”) e homenageia o baterista Biel Basile em “Bielzinho/Bielzinho”, O Terno se torna cada vez mais um retrato de Tim. Falta-nos o distanciamento temporal para classificar onde termina o período “Terno” e onde começa o período “Tim”, ainda que eles coexistam nos dois discos mais recentes, o solo do Tim e <atrás/além>. De uma forma ou de outra, sejam quais forem os caminhos futuros, O Terno e Tim Bernardes já se configuram como objeto de estudo obrigatórios na música brasileira dos anos 2010.
Rogério Coutinho é operário museal, podcaster e publicitário de formação, não-praticante. Um homem do interior, em vários sentidos.
Primeiro ia tirar os sapatos. Perderia o medo dos pés sujos e entraria mata adentro, se despojando das roupas até estar nu. Enfrentado o terror da escuridão, o frio, os mosquitos, cobras e o que mais habitara sua insegurança infantil. Seguraria na Jurema, na fé antiga, e ia aprender a se perder de vez.
Viria tarde pra casa, cansado e com fome. Ansioso pelo banho e fazendo as contas pra fechar o mês e poder ir tomar umas caipirinhas na praia, dormir até tarde e lembrar qual a valia daquilo tudo. Entraria no apartamento com um sorriso, contaria uma história e colocaria as mãos nas costas dela, sentindo o cheiro do sono vindouro.
Acenderia a luz da sala. Sentaria na poltrona carrancudo. Três da manhã e ele não atendeu o celular uma única vez. Já teriam conversado longamente sobre ele. Assumiria a responsabilidade dessa vez. Não queria gritos. Queria encarar o idiota olho no olho e saber se estava bem e se tinha comido. Colocaria a sobra de almoço no prato e dentro do microondas.
Compraria seus próprios remédios. Sangue derramando no chão seria muito assustador pra ela. A cena teria de ser de sono. As despedidas e pedidos de desculpas teriam de estar escritos. Toda a operação iria se realizar de forma simples. O momento de ir tão longe quanto necessário pra escapar de si. Imaginaria o reencontro com ele e ia ter certeza que iam faltar dados e o livro do mestre, mas sempre valia mais ter um bom cenário. Teria vários planejados.
Sairia na rua sem avisar. Desligaria o celular. Andaria por horas sem rumo.
***
Coleiras
Fazia sol na praça. Poucas nuvens no céu, crianças correndo e gritando. Pipoca, algodão doce e aquela quentura gostosa, abrandada pelas folhas das amendoeiras que moravam ali.
Isolda detestava e amava tudo aquilo. Desprezava os guris e suas brincadeiras idiotas, mas amava o efeito que causava neles. Os olhos assustados, o modo como abriam espaço, a sensação de poder mudar o aspecto da praça inteira com sua simples presença. Dela e de Tião.
Dalila era uma linda! Alegre, brincalhona e boba. Só causava medo pelo tamanho. Era uma Fila brasileira imensa… a alegria da fazenda São Ciro. Depois do assalto, veio o medo, veio Conde, o Mastim Napolitano. Grande, severo e bem treinado. Não fez questão de ser mimado ou brincar. Seu trabalho era outro. Dalila tentou mas não conseguiu nada além da cruza. Conde era mesmo europeu.
A ninhada era apenas de três filhotes: duas fêmeas cinzentas (Loli e Poly) e um macho de pêlo negro e cara enrugada. Isolda tinha acabado de debutar seus quinze anos e vovô achou que era melhor dar um cachorro, que era de graça, do que um celular.
Isolda olhou para os cães com um desdém completo. Eram fofos, mas preferia tê-los como brinquedos da fazenda do que se encarregar dos cuidados, xixis e cocôs. Sua mãe ia encher pra que fosse ela, e não Neide, que fosse responsável pelo bicho. Ponderava a desculpa ideal pra se manter nas graças de vóvis e conseguir ao menos metade das parcelas do iPhone, que dinda cobriria o resto. Foi quando percebeu que Tião rosnava para as irmãs. Pegou ele no colo e foi amor derramando no chão.
Isolda treinou Tião com afinco naqueles três anos. Na disciplina cruel que só uma adolescente é capaz. Carinhos imensos e punições geladas. Era como se Tião tivesse de agradar duas donas diferentes, mas que cheiravam do mesmo jeito. Tião se tornou assustador, feroz e tenso. O corpanzil parecia ainda maior com a pelagem e os dentes brancos que brotavam da boca negra eram saídos de um conto de lobisomem.
Nem a mãe, nem o pai e nem Neide eram capazes de cuidar de Tião, mas era Isolda chegar e Tião se derretia em pulos e rosnados. Isolda permitia exatamente vinte segundos de afagos. No olhar, num simples olhar, Tião ficava teso. Estático e firme, sentado nas patas traseiras, olhando em súplica. Babando e esperando.
Tião ouvia os passos dela pela sala. Já havia compreendido todo o ritual. Podia sentir o cheiro dela mesmo do quintal. Ela tomaria banho e sairia com a coleira na mão. Era uma peça de couro firme, grossa e com três fechos de metal prateado e polido. Ligado a ela, uma corrente fina mas muito sólida. Não importava o quanto fosse difícil, tinha de se conter e esperar que ela prendesse a coleira no seu pescoço. Toda aquela ânsia de latir, morder e correr precisava ficar presa até a praça.
Isolda segura Tião com pulso firme. Sabe que ele jamais se afastaria dela pra morder ninguém. Mas eles não sabem, e é uma delícia. Tião rosna e ruge. Suas ameaças estrondam pela praça e todos os olhos estão em Isolda. Vestido florido, cabelo de presilha e óculos de menina estudiosa. Um contraste adorável. Tão adorável quanto a ausência da calcinha.
Isolda tinha mesmo algum poder.
Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.
Desistir enquanto há tempo e ensejo
Da casa sem frestas, das portas fechadas,
Das flores murchas e seus vasos quebrados,
De todos os domingos em branco e preto.
Desistir enquanto há tempo e ensejo
Das mãos que prendem sem nenhum abraço,
Das palavras mornas, do amor minguado,
Do sexo sem nenhuma estrela acesa.
Escrever cartas para o Papai Noel,
Fazer pedidos a estrelas cadentes
E aos santos meninos rezar novenas.
Aprender a pular as sete ondas do mar,
Construir torres e castelinhos de areia
Para neles se abrigarem as sereias.
***
Testamento
Ela bem sabia não fora amor.
Porém, casada. Por onde a coragem?
Não poucos lhe diziam: “É bom moço”.
Que pensasse nos filhos e no lar.
Ela bem sabia não fora amor.
Porém, calada. Por onde a coragem?
Era trêmulo o amarelo das dores
No recôndito do peito sangrado.
Ela bem sabia não fora amor.
Corpo tomado, rasgado, calado.
Os filhos distantes, partira o esposo.
Restaram as grades e os cadeados.
Ela bem sabia não fora amor.
Olhar tíbio, desejos sufocados.
Como ser corpo após tanto repouso,
Ferrolhos na voz, o riso guardado?
Ela bem queria ter sido amor.
Como bicho, como puta. Gozar
A liberdade de se prender ao outro
Em delírio: língua, dedos e falo.
Ela bem queria ter sido amor.
Como bicho, como puta. Gozar
As delícias do sexo sem pudores.
Amar sem limite, amar sem recato.
Ela bem queria ter sido amor.
Juiz impiedoso, amarelado,
O tempo, agora convertido em flores,
Espiava a urna a ser lançada ao mar.
Ré sem culpa, morreria de amor
Como bicho, como puta. Gozar
As delícias de se entregar ao ardor
Do corpo que para si resgatara.
***
Corpo calado
Por que tão tarde na rua?
– Ela desejava: era puta.
Por que tão curto o vestido?
– Ela provocava: era perdida.
Por que o rebolado e a cerveja?
– Ela queria: era rameira.
Por que tão feliz e risonha?
– Ela pedia: era piranha.
Estava sozinha a devassa.
Batom vermelho, talvez drogada.
No beco, no escuro:
Vestido rasgado,
Corpo violado.
– Puta, rameira, perdida!
Em deboche a polícia.
Na maca, às escuras:
Corpo sangrado.
Feto gorado.
– Acaso não merecera?
Em potestade a Igreja.
No túmulo, às claras:
Um corpo pálido.
Calado.
***
Urbanidades
A moça não parava.
Corria de um lado para o outro.
Arrancava os cabelos.
Dizia palavras desconexas.
Pintava-se de azul turquesa.
Pegava carona na lua.
Comia nuvens de algodão.
Brincava com os anjos do céu.
Era de vidro, de tons incolores.
Chovia lá dentro, no peito.
Alguém levasse suas águas.
Era o clamor da moça na rua.
Que se chamasse o padre.
Ela queria confessar seus pecados.
Que se chamasse a polícia.
Ela queria confessar seu delito.
A moça sangrava.
Franzina, quebrada.
O trânsito parado.
Todos absortos.
Fumaça.
Trinta e três.
A cola e os pivetes.
Meninos e meninas.
Picolés e chicletes.
Tesourinhas e bonés.
Um real.
Dois reais.
Sinal vermelho.
Pavor e medo.
Luzes apagadas.
Vidros fechados.
***
Escrevivências
Num canto da sala, estava Nininha.
Nunca, dos lábios, um som ou palavra
Para que se percebesse a menina.
Dizia-se: “Nascera muda, coitada!”
Tudo, porém, era voz em Nininha.
Os olhos choviam e as mãos sangravam
Inscrições da cálida pequenina
Nas mobílias e paredes da sala.
Pura maldade: ceifaram paredes
E queimaram a madeira mofada.
“Tragam papel!”, implorava Nininha
Para compor registro de segredos
Escondidos nas ruínas sangradas.
Narradora de enredos, a Nininha.
Léa Costa Santana é doutora em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestra em Literatura e Diversidade Cultural pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Especialista em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Professora de Literatura Brasileira da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Integra as coletâneas “Contos de Natal” (Lura Editorial, 2019), “Natal com poesia” (Biblio Editora, 2019), “Canarinho” (Porto de Lenha, 2019), “Toca a escrever” (In-Finita, 2020) entre outras.
Da crise à salvação: os novos poemas de Jorge Elias Neto
Por Geraldo Lavigne de Lemos
A recente publicação de formas fixas é um novo percurso na trajetória de Jorge Elias Neto e traduz os eventos mais contemporâneos: revisão de modelos e padrões. Contudo, a intenção do autor ultrapassa o presente, pois avalia a crise que a humanidade atravessa desde o Século XX, agravada nas últimas décadas. Nesse contexto, constrói variadas situações para conduzir o leitor por este grande observatório da alma que é Sonetos em crise. A poesia da obra resulta da ânsia da palavra enquanto entidade autônoma, desde quando apenas verbalizada até a presente escrita.
O poeta anota logo de início que as mudanças acontecem em decorrência das necessárias buscas por alternativas à sobrevivência, como modo de enfrentamento das permanentes ameaças de extinção. A crise civilizatória abordada pelo autor atravessa o existencialismo e deságua na sociedade industrial de riscos e destruição, que a ciência deu azo, mas não deu cabo ainda.
Vê-se, então, um labor complexo para dar conta de tantas relações intersistêmicas: artes, desenvolvimento e sobrevivência amalgamados nestes dias presentes. Ora as rimas preciosas e incomuns apresentam o extenso léxico do autor, ora versos brancos e intertextualidades revelam o cabedal, ora a coloquialidade torna-se instrumento de intrusão e profusão na sociedade, ora os decassílabos remontam o clássico na contemporaneidade.
O Soneto em crise, que inspira o título do livro, persegue o sentido da vida e o divino, com o pesar do pecado que amaldiçoa a vida terrena. Tal maniqueísmo persiste durante toda a obra, sem esclarecer se originado na formação do próprio Jorge Elias Neto ou se utilizado como ferramenta do eu lírico para eliciar do leitor as reflexões pretendidas. Certo é que, ao longo das páginas, o poeta manifesta o conflito entre o divino e mundano, extraindo a tensão poética a partir das qualidades exigidas para ingressar no paraíso.
Nesse fazer, ele também questiona a religiosidade enquanto construção humana e utopia, ainda que essencial à vida. E do evidente conflito de racionalidade que nasce da religião, o poeta impõe o exame permanente da morte e a salvação pela arte, capaz de perpetuar um estado de sobrevivência com significado. A vida está em discussão e todos nós, enquanto leitores e viventes, somos compreendidos pela densa e irremediável temática que assombra a nossa espécie desde a mais remota inteligência.
Nem a busca pela perfeição escapa ao atento olhar de Jorge Elias Neto, rejeitando-a se porventura manchada pela vaidade. O autor quer a sabedoria e a simplicidade. Para tanto, importa deixar os espaços de poder e privilégio, bem como os espaços de conforto e segurança. Assim, ele traça a perspectiva rebaixado, donde, à margem das coisas, é possível ver por inteiro o significado dos acontecimentos. Um genuíno mergulho no íntimo e no silêncio das coisas, tornando-os despudoradamente públicos.
É um risco e tanto, e Jorge Elias Neto parece movido por uma força impávida. Contudo, essa incessante procura pela verdade é contraposta por um certo medo das consequências da razão plena. Dizem por aí que coragem é continuar o caminho a despeito do medo, e dizem igualmente que a abstração é um bom remédio para combater o choque da realidade. Suspeito que o eu lírico tomou algumas discretas doses destes absintos, pois ele segue e chega ao destino.
Acontece que a revelação exige a imersão nesse ambiente de certo torpor para conectar simultaneamente o poeta com o universo que o rodeia e o permeia. Sem jamais dissociar-se da consciência, a embriaguez é passageira e o remédio, um mero placebo. A razão cresce ao transitarmos pelos sonetos e a realidade é cada vez mais pungente. Ao cabo, ele alcança sóbrio o limiar da consciência, ainda que isso lhe custe autodefinições ultrajosas após lancinante embate. Enfim, sentindo-se vazio e diante do nada, sabe-se invencível e inteiro.
O retorno do poeta ganha luz, cores do outono e compaixão. Sim, ele retorna compassivo para nos trazer o seu relato, volta fecundo de sabedoria para aplacar o frio de seus semelhantes. Mesmo que a consciência ainda o importune, ele é esperançoso. E tal contrariedade incomodará o autor como um infortúnio. Tanto que o retorno do poeta também ganha sombra e ele deixa de ser um amedrontado para tornar-se um amedrontador, uma figura mítica e colossal a transitar entre o divino e o humano, um arauto e semideus.
A mensagem que Jorge Elias Neto porta não visa facilitar a vida do leitor, mas conduzi-lo à igual revelação, processo que pode ser tão penoso para o leitor quanto foi para o autor. Ele bem compreende o quão custoso pode ser tocar a lâmina da verdade, mas sabe também que esta é a única forma de libertar o ser humano, dando-lhe autonomia e consciência plena diante das absolutas incertezas da vida.
Diversas áreas de conhecimento se ocuparam com as balizas da existência humana valorosa e digna. Os pensadores conectaram-se com as pessoas dentro de um arco, tendo em seus extremos a objetividade e a subjetividade – e aqui leia-se a arte, conceito retomado em diversos poemas. Dito isto, entenda o curioso desfecho que o autor trará: arte e poesia são o caminho. Ainda que o leitor ingresse nessa jornada pelo poema, é a poesia o método de alcançar o que o autor pretende, renovando no leitor a forma de olhar o mundo e o tempo presente através da arte. Quem alcança a esperada revelação, ganha visão e consciência tão destoantes que, em geral, será tido como louco, quando, na verdade, será um dos poucos a vagar liberto e verdadeiramente vivo neste mundo.
Trata-se de um itinerário de purificação das pessoas e de humanização das divindades, que reduz a vaidosa autorreferência e sobreleva a alteridade, quebrando as engrenagens tradicionais e as lógicas científicas, dando espaço a um estado sobre-humano. Pode parecer estranho, todavia o poeta alcança a recriação do mesmo espaço e da mesma vida de um modo diferente, completo e outrossim imperfeito, porque tem que haver nada no tudo para que seja inteiro, tem que haver todos em cada um para que seja tudo.
Geraldo Lavigne de Lemos é advogado e poeta, membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor de seis livros. Publicou literatura nas revistas Revista da Academia de Letras da Bahia, Diversos Afins, Mallarmargens, Subversa, InComunidade, Ser MulherArte e Acrobata, nos jornais Diário de Ilhéus (Ilhéus/BA), Fuxico (Feira de Santana/BA) e A Gazeta (Vitória/ES) e no blogue LiteraturaBR. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus, parecerista ad hoc da Editus e membro de comissão julgadora de concursos literários.
Consta que Meu Nome é Bagdá é o segundo longa da jovem diretora Caru Alves de Souza (o primeiro, De Menor, foi filmado em 2013). Mesmo assim, este longa de 2020 tem a energia impactante e renovada de uma obra de estreia. Foi apresentado no Festival de Berlim deste ano e ganhou o prêmio de Júri da Mostra Generation, que traz obras que enfocam a juventude. Na Berlinale, o filme foi aclamado pelo público. A diretora é filha da renomada cineasta Tata Amaral, e mãe e filha são sócias da produtora Tangerina.
Meu Nome é Bagdá conta a história de uma moça de 16 anos, de apelido Bagdá (vivida por Grace Orsato), que é skatista e vive na Freguesia do Ó, bairro de São Paulo, com sua mãe (interpretada pela cantora e atriz Karina Buhr) e duas irmãs mais jovens. A formação exclusivamente feminina da família é marcada logo nas primeiras cenas que retratam uma conversa familiar amistosa enquanto a mãe troca de roupa para sair. Apesar da simplicidade da vida doméstica periférica, o clima é de completude, no qual a necessidade econômica não parece intimidar.
Fora desse lar feminino, no entanto, Bagdá se relaciona com jovens rapazes, a maioria ainda adolescente, que também são skatistas. O skate é não apenas a maior diversão desses jovens (além do consumo eventual de maconha), mas também um modo de linguagem que se expressa na fala, na vestimenta e na relação social da “tribo”. Esse modo uniformiza os jovens em termos de visual e gestual, e a princípio também em termos de sexualidade. Na tribo, a solidariedade horizontal se sobrepõe a diferenças de sexo, gênero e cor. Há também a relação territorial com o bairro, que é um dos móveis do filme.
Há apenas um fino fio narrativo, sutil, a ligar cenas que variam nas manobras de skate e na música de rock punk, pop ou rap, ou nas conversas pontuadas pela gíria local, num quase dialeto. Bagdá, cujo nome de batismo é Tatiana, se integra à sua tribo e à solidariedade entre os pares por um apagamento, a princípio voluntário, de seu gênero. Na ausência de grandes conflitos e dramas, a história e a câmera giram em torno da ambivalência de gênero de Bagdá, que assume um modo de viver sua sexualidade emergente pela indecidibilidade.
Grace Orsato na pele de Bagdá / Foto: divulgação
Na verdade, é esta indecidibilidade de gênero que a obra procura sustentar. Numa das primeiras cenas dramáticas, uma “dura” de policiais militares sobre os adolescentes, com a constante achacação e com o exercício de terror, a jovem é questionada sobre sua sexualidade e responde apenas que “é de menor”, título aliás do primeiro longa da diretora. Essa resposta também sugere que a obra adota um enquadramento temático de “filme de passagem”, de “coming at age”, da perda de inocência com a transição da imaturidade para a maturidade.
A cena mais dramática do filme, no entanto, é a reemergência da questão do gênero vinda não como repressão de Estado, mas do próprio interior das relações de grupo, ou ainda da família. Primeiro com o afloramento de certo “ciúme” em relação à sexualidade mais ostensivamente feminina de sua irmã; em seguida, pelo desvelamento do machismo cortando violentamente a solidariedade horizontal tribal entre os jovens. Esse corte propicia o ressurgimento de outra solidariedade, enquanto sororidade entre as “manas”, já não mais simplesmente localizada no território, mas distribuída pela cidade. É essa relação entre territorialidade (do bairro ou da “freguesia”) e desterritorialidade (da sororidade enquanto solidariedade de gênero) que representa outro eixo formal da obra.
A tênue teia narrativa, criada em torno de conflitos específicos, é o fio de eventos que liga o filme à principal rede de imagens na qual se insere. Meu Nome é Bagdá oscila entre o filme de registro, documental, e o filme de ficção e faz parte de uma recente produção cinematográfica brasileira que procura construir uma estética que mal poderíamos chamar de realista; termo talvez melhor seria hiperrealista. O filme estabelece um diálogo com os filmes da cidade mineira de Contagem, como os exemplos de obras como Ela volta na quinta, Temporada ou No coração do mundo, da produtora Filmes de Plástico. Ou com o pungente Arábia, cujo título equívoco ressoa com o nome Bagdá. Podemos dizer que todas essas obras são filmes de registro que apagam a distinção entre filme ficcional e filme documental. Essas obras traçam uma fronteira não entre ficção e não ficção, mas criam outra distinção entre filme e contexto. O filme se transforma numa película digital de imagens que absorve os elementos significantes de seu contexto espaço-temporal (cronotópico). Esse contexto é o da sociedade brasileira periférica (das “quebradas”) dos trabalhadores informais e precários contemporâneos. Trata-se, portanto, de registro e não de representação, de absorção ou de permeabilidade aos signos concretos da vida urbana periférica e não de seu reflexo.
O filme é a forma que emerge a partir da seleção de elementos de um meio de concretude vivencial, como se fosse um filtro desse meio. No entanto, a distinção entre ficção e não ficção não desaparece, mas reentra para o interior do filme e passa a ser um dos elementos da montagem cinematográfica. Isso está claro na escolha de todas essas obras (incluindo as de Contagem) por não atores (ou atores locais) e pela escolha de um território contextual na qual o filme se imbrica enquanto mapa cinematográfico, no caso, da Freguesia do Ó. A narrativa do filme não apenas registra o cotidiano dos skatistas do lugar, mas os liga numa semiose temporal com a reminiscência da cena punk da periferia, eternizada na canção popular de Gilberto Gil.
Foto: divulgação
O jogo entre ficção e não ficção faz parte do roteiro. Esse jogo desmonta alguns dos momentos mais tensos do filme, por exemplo, na cena do ataque homofóbico no campo de futebol. Logo em seguida, esse momento dramático é desconstruído pelos esquetes que “quebram” a tensão do registro supostamente realista, criando um distanciamento quase brechtiano. Já no passeio de ônibus metropolitano até o Centro da capital (sua parte “rica”), é a total indistinção entre a ficção e não ficção que se torna um elemento da montagem cênica. A viagem de ônibus é e não é “real”. Finalmente, nas cenas dos jovens praticando skate nas rampas da Freguesia, ou nas ruas da cidade, ao som de rock, o registro videoclipado indica uma estética audiovisual natural, que, por fazer parte da formação desses mesmos jovens, não é menos “realista” do que as manobras arriscadas sobre suas pranchas de rodas. Todas se incluem no modo de vida que é próprio a esses jovens ou a essa tribo, no qual a estética não é um registro exterior.
O saldo do filme é francamente positivo ou otimista. Num momento tão absolutamente pessimista da vida nacional, no qual a cultura vem sendo sistematicamente atacada, quando não destruída, o filme de Caru Alves de Souza é uma brisa fresca de utopia. A cultura enquanto seiva vital flui através de Meu nome é Bagdá. A conclusão não é que os jovens devem, para alcançar a maioridade, se adaptar às regras do jogo, seja do Estado (ou pior, do Mercado) quanto do sexo (ou do gênero). Nesse aspecto não há diferenças gritantes entre as escolhas dos adultos da história e as dos adolescentes. A obra na verdade relativiza as fronteiras que a sociedade tenta impor, através da lei ou dos códigos de moralidade. Ao desconstruir tais distinções, a obra de Caru mostra que a ação fortificada pelas solidariedades horizontais, de gênero ou de afinidade, é um empoderamento que não está para lá, mas para cá de Bagdá.
Guilherme Preger é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética Caneta Lente e Pincel. Escreveu sobre cinema para o site Ambrosia.
O solo que pisamos abriga um verdadeiro inventário de memórias. E cada território contém em si as marcações do humano nas suas mais variadas intervenções. Cada povo impregnou seu lugar com o resultado de suas ações, com o dinamismo de vivências segundo gestos e costumes que lhes são peculiares. Tudo está atravessado pela fonte que emana da história, esta senhora que é modulada pelos mais difusos papeis dos seres viventes, sejam eles racionais ou não.
E eis que pensar a história é, sobremaneira, também perceber os ecos da ancestralidade. No sereno exercício de tentarmos mentalizar quem primeiro andou por nossa terra mãe, talvez vislumbremos muito mais do que formas imaginadas ou habituais e possamos sentir o quanto trajetórias e existências traçaram o espírito fundante dos lugares sobre os quais hoje nos apossamos ou simplesmente transitamos. Diante das profundezas dessa reflexão, será que conseguimos visualizar quem realmente nos antecedeu?
O esforço adequado que devemos aqui fazer não é o de uma mera sucessão genealógica dos nossos antecessores diretos, tendo em vista a constatação de que muito provavelmente isso nos afasta de compreender o quão distantes estamos de reconhecer quem primeiro esteve nesse locus chamado Brasil. Para bons entendedores, não fica difícil desconfiar prontamente que tratamos aqui de refletir a respeito dos povos originários. Sendo assim, o passo seguinte contrasta com qualquer ideia romantizada do tema, impele-nos a nos questionarmos sobre qual é o nosso papel em meio a um secular processo de apagamento de tais figuras humanas.
Quiçá a arte possa, de alguma maneira, não nos fazer perder de vista o elo que nos leva a um passado que condena resultados desprezíveis do processo civilizatório imposto por aqueles que sempre edificaram, a duras penas, a sua exterminadora hegemonia. No bojo da causa genocida, o homem, ao dizimar um expressivo contingente de vidas humanas, é, em grande instância, predador de si próprio. Sim, mas e o que o front artístico é capaz de fazer por causas tão devastadoras quanto esta?
Foto: Ricardo Stuckert
A pergunta grita. A resposta, eis que ela pode vir também pelas lentes de alguém como Ricardo Stuckert, fotógrafo que dedica uma porção especial de seu ofício a registrar a viva expressão de povos indígenas brasileiros. Dentro dessa temática, Ricardo abraça a ideia de que tais grupos humanos não são um agrupamento homogêneo de seres humanos tradicionalmente colocados no fosso comum e preguiçoso dos estigmas. Pelo contrário, quer demonstrar imageticamente como existem vários mundos dentro das mais diferentes culturas indígenas.
Engana-se quem possa achar que o artista percorre tais delicados caminhos de nossas humanidades sem que sua vivência esteja profundamente associada a assuntos que nos são deveras caros. Em sua trajetória, ele acumula saberes e sabores no campo social, político e cultural do país, tendo sido fotógrafo oficial da Presidência da República entre os anos de 2003 e 2011, durante os governos do ex-presidente Lula, cuja experiência lhe proporcionou a cobertura de importantes acontecimentos da vida pública do Brasil. Some-se a isso também o fato de que ele assina a direção de fotografia de um dos mais emblemáticos filmes de nossa cinematografia, o premiado documentário “Democracia em Vertigem”, da diretora Petra Costa, aclamado internacionalmente e indicado ao Oscar 2020.
Feito esse pequeno parêntese, o que importa é tentarmos observar modestamente como Ricardo constrói seus olhares em torno de diferentes povos indígenas que habitam nossa continental nação. Desde seu primeiro contato com os índios Yanomami, em 1997, quando trabalhava na revista Veja, muitos outros percursos mais viriam a ser feitos nesse universo de matizes étnicas e culturais. De lá para cá, seu olhar testemunhou parte da rotina dos indígenas em diversos estados brasileiros, tais como Acre, Amazonas, Bahia, Mato Grosso, Goiás, Amapá e Alagoas.
Foto: Ricardo Stuckert
O resultado dessa abrangente incursão pela diversidade indígena brasileira assume contornos poéticos, pois é capaz de promover olhares sensíveis e atentos às expressões observadas, vê-las desfilar suas espontâneas aparições. Mais do que rotinas e todo um conjunto de manifestações características de tais povos, Ricardo Stuckert traz até nós a vivacidade dos personagens retratados em seu enleio. Assim, gestos, rostos, atos e ritos abarcam um painel de sensações que nos mostram a principal riqueza que atravessa tais pessoas, sua genuína dignidade. E o artista obtém verdade em seu trabalho quando suas lentes se apartam de qualquer tratamento exótico na relação com esse Outro que se afigura belo, vivo e necessário.
A curiosidade de quem se depara com tais registros também pode estar direcionada à noção de imaginar como é mergulhar nessas culturas seculares e sorver delas o valor dos instantes. Atentar para os seus silêncios e sons, para as suas práticas, ideais coletivos, gestos naturais e narrativas. Ao mesmo tempo, quando pensamos no atual contexto político brasileiro, em que experimentamos um crescente atentado à existência plena dos povos originários, notamos o quão importante é considerarmos que pelas trincheiras da Arte também é possível se falar em resistência, deixando claros os imprescindíveis ímpetos de sobrevivência de toda uma coletividade de sujeitos. E negar o direito à plenitude da existência dos indígenas é, em larga instância, endossar a barbárie.
De fato, sobra experiência para Ricardo com toda a caminhada profissional, sobretudo por sua passagem em grandes veículos jornalísticos. Afinal, são 33 anos dedicados ao labor com as imagens, sendo testemunha de momentos contundentes da história nacional brasileira. Entretanto, arrisco em dizer que depois do seu vigoroso mergulho nas múltiplas faces das gentes indígenas, tanto o fotógrafo como o homem, ainda que abrigados na mesma pessoa, não são mais os mesmos de outrora.
Foto: Ricardo Stuckert
* As fotografias de Ricardo Stuckert são parte integrante da galeria e dos textos da 138ª Leva
Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras.
Todos os poemas agora
são habitados por você
e também as montanhas,
os rios, as árvores desfolhadas
deste inverno rigoroso
e também o sol,
o fogo que arde na floresta,
as notícias tristes.
Você vem disfarçado,
então de repente você é
um livro, um animal que escapa,
um filme antigo, uma música.
Você está na palavra aparição,
na palavra afeto, na palavra gesto.
Você é este terror, esta avalanche,
esta luz, esta onipresença selvagem.
***
MAR ABERTO
Naquele dia
em que você me puxou
pelo braço
com força
para cima
eu já não respirava.
***
VISÃO
Te encontrar numa praia
de areia muito branca e mar muito azul.
Pegar os teus dois olhinhos marrons
e colocá-los num vidrinho em cima
das pedras brancas da encosta.
Ficar ali a ver o mar
e a olhar os teus dois olhinhos
e a lembrar que nem tudo
o que está posto no mundo
é para se pegar com as mãos.
***
AUTORRETRATO
Imaginas que, também aqui, no frio absurdo do museu, acompanhada do barulho excessivo das marteladas do andar debaixo, da minha total descrença no mundo, do meu coração cansado, até aqui, ou melhor, também aqui, estou a ver o autorretrato de Lucian Freud e, por qualquer semelhança boba (rugas fundas, olhar parado, cara perplexa), estou a pensar em ti. Teriam então que acabar todas as pinturas de homens tristes para acabar também isto: a lembrança de ti em lugares estapafúrdios.
***
ZEN
Para Tito Leite
A vida ligeira das moscas
ensina tanto quanto
a cerimônia do chá.
No Tibete ou aqui na cidade
de São Paulo
o mesmo calor infernal
a mesma desilusão
o mesmo trabalho pesado
(nesta tarde, desisti da poesia).
É sempre isso:
a vida, esta artimanha
eu, a mosca morta.
***
MINIMALISMO:
o cheiro da toalha que seca ao sol
o cheiro do sol
o sol.
***
VISTA (II)
É preciso ver um ponto à frente
seguir
seguir
seguir
como um camelo
esperançoso
no deserto.
Michaela v. Schmaedel (1976) é jornalista de cultura, nasceu e mora em São Paulo. Nos últimos anos, tem se dedicado à poesia, além de escrever resenhas sobre literatura para jornais e revistas. Cursou o Clipe (Curso Livre de Preparação do Escritor), na Casa das Rosas, e oficinas de poesia com Angélica Freitas, Tarso de Melo, Ismar Tirelli Neto, entre outros poetas brasileiros. “Coração Cansado”, lançado pela editora Penalux em junho de 2020, é seu primeiro livro de poemas.
Papear com ele com a cabeça em seu ombro no quarto escuro. Jogar pega-varetas com ele, botão, dominó no chão do quarto, enquanto minha mãe chorava pelo draminha da tela ou sei lá por quê. Chovesse lá fora à noite e eu tinindo de febre e ele me empurrando limão quente com mel e alho. Nada disso eu vi. Devia ser um tigre e não se assustaria com qualquer gripe. Veio um tio de longe uma vez, irmão dele, ver minha mãe e me ver; trazer um dinheiro pra folgar as despesas. Não sei, não sei, era o que ele falava. A testa apoiada nas mãos juntas, como se rezasse. Não posso falar pela cabeça dele – ele dizia –; o que posso é vir aqui às vezes, trazer uma ajuda e passar o olho no menino.
Aquela droga de sábado de competições no colégio. Todo ano a legião de barrigudos atrás da bola, saltando, correndo pra vomitar no banheiro da quadra. Menos o meu. Nada disso eu vi. Até os 10 anos eu sofria a semana inteira antes do Sábado do Papai. Minha mãe corria dias antes até a diretoria; não sei pra quê. Uma professora tentou aliviar as coisas pra mim. O pai dele nunca participa porque trabalha viajando, viaja muito, crianças. Uma mentira que salvasse meu couro pra sempre.
Mas o que importava mesmo era na classe, ali na conversinha paralela. Quando no recreio o assunto era o sábado de competições, eu ia olhar as plantas, ou me encostava nas rodas de figurinhas. Eu morria uma vez por dia, cada dia da Semana do Papai, até que o sábado passasse e os meninos com pai e sem pai voltassem a ser uma coisa só.
Dividendo, divisor, quociente e resto. Minha mãe não entendia bulhufas de contas. Ele devia manjar disso e até me daria uma força na interpretação de textos. Mas nada disso eu vi.
Eu e seu pai lá na roça, quando a gente era pequeno, a gente armava arapuca e alçapão pra pegar passarinho. Aquele meu tio irmão dele chegou uma vez já contando isso com uma gaiola na mão. O azulão morreu em dois dias. Acho que minha mãe o envenenou.
Abrir no chão da sala na sexta à noite os pacotinhos de chumbada e anzol, colocar linha nas varas, cortar isca pra sábado bem cedo a gente ir pescar na Lagoa dos Patos, bem ali no bairro. Passar de volta antes do meio-dia com a cordinha de traíra e acará. Eu e ele desfilando na frente dos prédios. Mas nada disso eu vi.
A gente bem que podia se rivalizar entre Zorro e Lone Ranger, ou entre Silver e Escoteiro, mas eu almoçava com o prato no colo vendo Zorro e de noite – antes de descer as pálpebras – não dava pra recontar o episódio no vazio, pra ninguém.
Lá em meus 4, 5 anos, minha mãe tinha que responder nervosa e sem graça a tudo que eu quisesse saber dele. Agora tá perto de ele voltar, mãe? Quando não aguentou mais, ela escondeu um porta-retrato em que ele me segurava no colo ainda de fraldas. E assim ela me explicou tudo sem abrir a boca. O resto foi silêncio e choro.
Dênisson Padilha Filho (1971) é escritor e roteirista de audiovisual. É Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA. Recentemente lançou “Um Chevette girando no meio da tarde” (Mondrongo, 2019, contos). É autor de “Eram olhos enfeitados de Sol” (Penalux, 2017, novela), “Trilogia do asfalto” (Editora P55, 2016, contos), “O herói está de folga” (Kalango, 2014, contos), “Menelau e os homens” (Casarão do Verbo, 2012, contos e novelas), “Carmina e os vaqueiros do pequi” (2003, romance) e “Aboios celestes” (1999, contos). Participou de algumas antologias e tem textos publicados em diversas revistas literárias. Foi vencedor do Prêmio Internacional Cataratas de Contos- 2015.
Lima Trindade é rock, quadrinhos e literatura. Nascido em Brasília, viveu intensamente os anos oitenta no olho do furacão. Entre o Distrito Federal, o Rio de Janeiro e Salvador, onde mora hoje, construiu uma bagagem sólida de referências, numa triangulação de afetos que transcende a ascendência carioca-baiana. Autor dos livros Supermercado da Solidão (LGE, 2005), Corações Blues e Serpentinas (Artepaubrasil, 2007), Todo Sol mais o espírito Santo (Ateliê Editorial, 2005), Aceitaria Tudo (Mariposa Cartonera, 2015) e O retrato: um pouco de Henry James não faz mal a ninguém (P55, 2014), lançou no ano passado As margens do paraíso (Editora Cepe), romance que apresenta ao leitor um Brasil que se alimentava de sonhos, talvez ingênuos, de grandeza. Nesta entrevista, conversamos sobre influências, paixões, mercado literário e a primeira incursão de Lima Trindade no universo dos quadrinhos, na lendária revista NTC, com um conto e um roteiro inéditos, que devem ser lançados em 2021.
Foto: Marcelo Frazão
DA – Quando o Lima Trindade que sonhava em ser desenhista descobriu a literatura como modo de expressão?
LIMA TRINDADE – A expressão literária chegou tarde. Talvez o grande estímulo tenha ocorrido quando assisti ao filme “Sociedade dos poetas mortos” aos 23 anos de idade. Eu me identifiquei muito com a personagem do Ethan Hawke, um cara extremamente tímido e que se sentia deslocado em ambientes formais. Todo aquele lance do “Carpe Diem”, a mistura de Horácio com os transcendentalistas americanos e a busca por uma existência autêntica fizeram minha cabeça. De vez em quando, rabiscava umas frases sem sentido nos intervalos das aulas da faculdade. Era uma coisa quase mediúnica. Eu não censurava nada. Apenas, deixava fluir. Não havia burilamento. Escrevia nas margens do papel timbrado, nas últimas folhas dos cadernos, no lado interno das capas. Escrevia e dava por acabado, sequer voltava a ler. Havia uma amiga na sala de aula, a Rosana Garutti, que adorava pegar meus cadernos e ler esses fragmentos. Dizia que achava bonito, que eu deveria escrever poemas ou letras de música. Aconteceu, então, de eu me deparar com o livro “Walt Whitman, a formação do poeta”, do Stefan Zweig. Eu fiquei fascinado com a descrição da maneira como o grande bardo norte-americano construiu e moldou sua vida por uma perspectiva puramente artística, tendo influenciado até o Wilde. Passei a estudar e exercitar versificação, trabalhando para dominar a forma e me sentir seguro para compor um poema inteiro. No começo dos anos 90, conheci os poetas Andrei Morais e Sandro Ornelas. Juntos, lançamos um folhetim poético chamado Huguy Rupi. O Andrei se desligou do projeto quando ainda imprimíamos os primeiros exemplares, rodados na gráfica do Correio Braziliense. Eu e Sandro percorríamos os bares da Asa Sul e Norte para vender e pagar o Huguy Rupi. Era uma grande aventura. Conhecemos os mais diversos poetas nessas andanças: do marginal beatnik ao parnasiano erudito. Infelizmente, a publicação só duraria dois números. Sandro, que tinha ido a Brasília para estudar, concluiu seu curso na universidade e retornou para sua casa em Salvador. Eu não quis tocar o jornal sozinho. Por volta de 1996, reuni uma quantidade significativa de poemas meus com o objetivo de montar um livro. Durante a preparação do original, reavaliei o material cuidadosamente, percebendo, com tristeza, que ele carecia de um acento particular, que sua publicação nada acrescentaria à história da literatura. Faltava-me originalidade. Eu me expressava literariamente, mas não com a potência que eu gostaria. Desse modo, desisti de escrever versos. Havia um amigo no trabalho que insistia muito para que eu escrevesse uma história de amor vivida por ele. Eu nunca experimentara a prosa de ficção, mas resolvi atender o seu pedido. Contudo, em vez de narrar a história que ele tanto desejava, enveredei por outro caminho e escrevi o conto “A meia-sola do sapato”, inspirado num episódio real de sua infância. Esse trabalho, que era meu primeiro no gênero, me valeu uma menção honrosa no Concurso de Contos Paulo Leminski em Porto Alegre. Deu-me também disposição para experimentar novas possibilidades de narrativas e pontos de vistas.
DA – Há um momento no qual essa vocação tenha ficado perfeitamente nítida para você? Uma espécie de marco, de ponto de virada.
LIMA TRINDADE – Sim. No dia do lançamento do “Todo Sol mais o Espírito Santo”, no Rio de Janeiro. Como todo ansioso, cheguei ao evento, que aconteceria no Centro Cultural dos Correios, algumas horas antes do previsto. Estava tudo muito bonito e organizado. Eu não tinha muito o que fazer. A não ser, esperar. Desse modo, resolvi dar uma volta. Chegando na Rio Branco, encontrei a Leonardo Da Vinci, que eu sempre ouvira os amigos falarem ser uma livraria fantástica e dona de um acervo de muita qualidade. Fiquei todo animado com a possibilidade de encontrar alguns títulos e autores que não achava em Salvador. Logo na entrada, tomei um susto. Vi o meu livro exposto em destaque. Ao lado, escritores como Truman Capote, Clarice Lispector, Reinaldo Arenas, Gabriel García-Márquez, Caio Fernando Abreu etc. Foi uma emoção sem igual. Ali, eu tive a consciência de estar verdadeiramente inserido no jogo. Até então, nos lançamentos em São Paulo e Brasília, eu me sentia como se estivesse anestesiado, como se nada daquilo fosse real.
DA – Como foi a adaptação do brasiliense, que orbitava o boom do rock BR, ao universo dominado pela cultura do axé?
LIMA TRINDADE – Não houve conflito. Sou filho de baiana e carioca. Meu pai e minha mãe se separaram relativamente cedo. Quando eu tinha quatro anos de idade, meu pai foi trabalhar em Manaus, por conta das oportunidades surgidas com a zona franca. Alguns anos depois, retornou, mas os dois não se entenderam e ele partiu novamente. Nós, meu pai e eu, só fomos desenvolver maior proximidade no começo de minha adolescência. O resultado disso é que passei boa parte da minha infância sendo criado por uma mãe, avó e tia baianas. Não sei distinguir o que é brasiliense e o que é baiano em mim. Sem falar que, em matéria de cultura, nunca fui purista. Eu mergulhei no rock de minha geração, mas, ao mesmo tempo, gostava de ouvir Caymmi e Noel Rosa. Ou Villa-Lobos. O que apreciava no rock dos anos 80 era justamente sua rebeldia, sua não aceitação das regras, sua inteligência. Vim para Salvador em 2002. Eu tinha muito preconceito em relação ao axé, botava É o Tcham e Olodum no mesmo saco, entende? Ficava irritado pelo fato de as rádios de Brasília não tocarem mais músicas de rock e cederem quase todo o espaço para o “axé”. Eu sabia que se tratava de grana, que o rock tinha sido uma moda do mesmo jeito que o axé era naquele momento, mas não me conformava. Somente morando na Bahia é que fui compreender o quanto a classificação “axé” era limitada, preguiçosa e excludente. Não dá para dizer que Gerônimo, Lazzo Matumbi, Ilê Ayê, Netinho, Chiclete com Banana e Harmonia do Samba são parte de um mesmo movimento, têm as mesmas identificações estéticas e interesses artísticos. É algo absurdo. Por outro lado, eu já conhecia e admirava a produção roqueira baiana quando ainda estava em Brasília. Foi uma alegria grande conhecer pessoalmente os músicos da Brincando de Deus e da Dead Billies, por exemplo. Salvador é uma cidade muito diversa, rica de possibilidades e encantamentos. Os amigos que fiz aqui estão longe dos estereótipos de baianidade propagados pela mídia. Viver em Salvador não foi uma decisão motivada por falta de perspectivas. Foi uma eleição, uma escolha.
DA – Um aspecto marcante de sua personalidade é a aproximação com o universo dos quadrinhos e do rock. Essas referências influenciam a sua produção literária?
LIMA TRINDADE – Totalmente. Os dois gêneros decodificaram o mundo para mim e nutriram minha capacidade criativa. Por causa deles, atravessei oceanos, vivi momentos únicos na história da humanidade e me senti menos solitário. Minha sensibilidade se cunhou muito a partir das histórias que li e músicas que ouvi. Pela escrita, eu “desenho”. Assim como trabalho os sons numa frase de um conto, estabeleço certos climas para cenas e, digamos, me deixo dominar por uma estilística roqueira, uma trilha sonora interna que dá ritmo e cadência ao texto e me embala.
DA – No caso específico dos quadrinhos, tem acompanhado a produção contemporânea brasileira e baiana?
LIMA TRINDADE – Eu tento. Porém, meu método de leitura é caótico, não obedece a nenhuma cronologia. Não me preocupo em estar atualizado com os lançamentos. Meu único compromisso é com a qualidade. Quando recebo dicas de um trabalho legal, seja pela mídia especializada ou por amigos, corro atrás. Tem gente que se satisfaz com quadrinhos bem desenhados e roteiros inconsistentes. Ou o contrário, grandes textos e traços ruins. Para mim, a coisa só funciona se os dois aspectos forem bons. No Brasil, sou fã da Laerte, do Allan Alex, André Dahmer, Davi Calil, Lourenço Mutarelli e Rafael Corrêa. O Marcelo D’Salete é obrigatório. Gosto muito do Wagner William também. Já entre os baianos, o Marcelo Lima, com os roteiros, mais o Dan Borges e a Lila Cruz, com a arte, são três nomes expressivos. Há ainda iniciativas de coletâneas muito legais feito a Máquina Zero, da Quadro a Quadro, que é uma editora baiana, e a Bang Bang, da Devir, de Sampa.
Foto: Marcelo Frazão
DA – Há alguma incursão nesse universo na gaveta ou na cabeça, em roteiros para HQ, por exemplo?
LIMA TRINDADE – Recebi um convite do Allan Alex para participar de um projeto superbonito, a revista NCT, uma singela homenagem a um gênero que abrigou diversos artistas nacionais de grande talento: os quadrinhos de terror. Quem tem mais de quarenta anos talvez se lembre das revistas Spektro, Pesadelo e Calafrio, que eram vendidas em bancas, e de nomes como Flavio Colin, Julio Shimamoto, Watson Portela, Rubens Cordeiro e Mozart Couto. Para a NCT, escrevi um conto exclusivo e preparei um roteiro de 6 páginas, que está nas mãos do Dan Borges. Se tudo der certo, em 2021 a revista estará em circulação.
DA – Vivemos hoje o que alguns classificam como um pandemônio, mescla da situação política, que nos lançou em um cenário de violência e insegurança institucional, e dos efeitos devastadores da pandemia do Covid-19. Nesse contexto, sendo um escritor brasileiro, brasiliense-baiano, como avalia as perspectivas do mercado literário, no que tange à criação, produção editorial e circulação de livros?
LIMA TRINDADE – O interesse por literatura e arte, seja ela qual for, nunca deixará de existir. É vital no ser humano. Não se trata em absoluto do impacto reflexivo que ela nos proporciona, o que não seria pouco, pois isso as ciências exatas também fazem, mas sua importância se dá numa espécie de refinamento de nossas emoções, na possibilidade de oferecer uma troca de experiências e nos conectarmos com nós mesmos e com os outros num nível mais profundo. Recordemos que a humanidade já passou por desafios ainda maiores que essa pandemia. E, fosse na quebra da bolsa dos EUA em 1929, num Japão destruído do pós-guerra ou a vida num regime ditatorial no Brasil em que, para piorar, havia um índice de inflação altíssimo, as pessoas não deixaram de adquirir e ler livros, ouvir músicas, participar de exposições ou espetáculos de dança. Penso que nessas situações limites a necessidade de aproximação com o universo artístico se torna ainda mais forte. No âmbito da criação, há quem acredite, inclusive, serem esses momentos mais férteis. Quanto ao mercado editorial em si, a produção e circulação de bens adaptar-se-ão às novas realidades, sejam elas quais forem. Pode ser que a mudança do suporte físico para o virtual, no caso da literatura, avance mais. Pode ser que o crescimento se dê mais apenas na forma de aquisição, os leitores comprando livros de papel pela internet. Ou, ainda, pode ser que as consequências não sejam tão amplas e tudo volte a ser exatamente como era antes.
DA – Seu livro mais recente, “As margens do paraíso”, debruça-se sobre um país literalmente em construção. Logicamente, há vários caminhos narrativos para contar a história de Brasília. O que o fez escolher um formato não exatamente linear?
LIMA TRINDADE – A história de Brasília se confunde com a história do Brasil e se confunde também com as histórias de todas as pessoas que viveram o período. No entanto, o livro foi escrito hoje e meu objetivo ao realizá-lo não foi o de suprir lacunas históricas ou fazer sociologia. O romance traz uma realidade completa que se fecha nela mesma e se presta a múltiplas leituras e interpretações. Quando lemos o Quixote ou Hamlet pouco importa o período “real” em que a personagem vive, mas, sim, a vivência de uma gama de emoções colocadas em cena por meio de uma linguagem igualmente viva. A linearidade ou a não-linearidade tem de atender à capacidade do autor expressar melhor os problemas, questões e temas escolhidos para trabalhar. No caso do As margens do paraíso, esse “em construção” já dá uma tônica da complexidade do caminho. A linearidade isolaria e simplificaria as vidas de Leda, Rubem e Zaqueu, personagens também “em construção”, coisa que eu não desejava. Eu não quis facilitar nada para quem lê. Acredito na inteligência de meus leitores e leitoras.
DA – Como se deu a opção por três pontos de vista, em processos individuais, na composição de seu romance?
LIMA TRINDADE – Ao escolher a margem como perspectiva, eu decidi não colocar as personagens à margem, entende? E não dava para problematizar o centro acreditando em limites únicos, restringindo o seu ser e estar no mundo numa única voz. Seria contraditório. Essa era uma história que, a meu ver, um único narrador a empobreceria. As sutilezas das diferenças e aproximações dos três narradores se perderiam, a visão do todo ficaria embaçada e não duvidaríamos se o que a personagem diz é uma manipulação ou se o fato narrado acontece “verdadeiramente”.
DA – “As margens do paraíso” é um dos poucos romances contemporâneos que abordam a construção da capital federal do ponto de vista dos candangos e dos primeiros habitantes de uma cidade planejada. O que, a seu ver, provoca o desinteresse temático por esses personagens tão característicos quanto interessantes e históricos?
LIMA TRINDADE – Não sei. É algo que nunca me ocorreu. Talvez não haja desinteresse. Talvez a razão resida no fato de a cidade ser extremamente jovem e seu passado recente pareça um presente sem enigma algum a ser decifrado por quem a vive hoje. Jorge Amado retratou uma Bahia em processo de transformação, a passagem do estágio agrário para a industrialização, que poucos se detiveram com idêntica acuidade. Ou será que uma parcela grande de escritores enfrentou o tema, porém sem despertar a mesma atenção do público e alcançar os mesmos resultados literários que Jorge? É possível que haja uma literatura submersa dos candangos e primeiros habitantes da capital federal e nós não saibamos.
Kátia Borges é autora dos livros “De volta à caixa de abelhas” (As letras da Bahia, 2002), “Uma balada para Janis” (P55, 2009), “Ticket Zen” (Escrituras, 2010), “Escorpião Amarelo” (P55, 2012), “São Selvagem” (P55, 2014) e “O exercício da distração” (Penalux, 2017). Tem poemas incluídos nas coletâneas “Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000” (Global, 2009), “Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia” (Éditions Lanore, 2012), “Autores Baianos, um Panorama” (P55, 2013) e na “Mini-Anthology of Brazilian Poetry” (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).