Categoria: 155ª Leva
Ciceroneando

Cada edição que desponta no horizonte de nossa caminhada desperta sempre o gosto por ares renovados. São indicativos de que outras escutas seguem abertas e se fazem presentes. Tais inclinações nos levam a conhecer vozes do mundo cultural, subjetividades que, acima de tudo, projetam o desejo de uma existência quiçá mais plena, dado o componente de que provavelmente a arte seja, em suma, vetor de uma consciência mais ampla acerca do mundo e seus fenômenos. E não estamos aqui a falar somente da arte que intenta contemplações ou fruições estéticas das mais variadas, mas também aquela que é capaz de conectar seus protagonistas aos mais difusos anseios contemporâneos. Nesse sentido, cultura e sociedade são um par indissociável, deixando entrever desdobramentos de cunho social, político e econômico, para não mencionar outros aspectos plausíveis. É perceber que todos nós somos agentes de possibilidades vivas de transformação, condição esta que tem como ponto de partida o plano individual de cada sujeito, seu repertório pessoal. Quando essa dimensão particular se espraia na esfera pública, tomamos conhecimento do potencial que cada criador compartilha com o mundo externo. Por isso, ler, ver e sentir as obras é fundamental numa jornada como a da nossa revista, pois esse gesto revela descobertas e norteia direções que oxigenam os caminhos editoriais. É, então, com esse entusiasmo que acolhemos agora toda a expressividade marcante de poetas como Rita Santana, Karine Padilha, Luciana Moraes, Bianca Monteiro Garcia e Jussara Salazar. Nesta nova edição, somos visitados pelas fotografias de Marcelo Leal, numa exposição de imagens que remontam aos detalhes poéticos do mundo. No caderno de teatro, Vivian Pizzinga desfila todas as suas atentas impressões para a peça “A palavra que resta”. Por sua vez, Guilherme Preger traz análises importantes sobre o provocante filme “A Substância”. Com uma resenha sobre “O inquilino das horas”, livro do poeta Nílson Galvão, Maruzia Dultra nos convoca a expandirmos nossos territórios de leitura. Numa entrevista especialmente centrada em seu mais novo livro, o escritor Marcus Vinícius Rodrigues dialoga com Fabrício Brandão sobre seus processos criativos. Nos cadernos de prosa, os contos de Cecília Vieira e Rodrigo Melo denotam diversidades inventivas. O livro de poemas de Kátia Borges, “Dias amenos”, recebe os mergulhos valiosos de Sandro Ornellas. Como não poderia faltar, gira na agulha de nosso Gramofone o mais recente álbum do pianista Amaro Freitas, com um texto que revela as apreciações de Rogério Coutinho para esse importante trabalho do artista pernambucano. Eis a nossa 154ª Leva. Boas leituras e que venham instigantes ventos culturais em 2025!
Os Leveiros
NAS CINZAS DAS HORAS DEPOIS DAS HORAS
Por Maruzia Dultra
De todos os órgãos, a pele é o que possui o trato mais direto com o tempo – “o tempo nos toma/ feito obsessor/ revira nossa pele”, “a urgência/ de cada gesto como/ envelhecer todo dia.” É nela e através dela que a passagem das horas se faz presente-passado-futuro, esculpe o corpo a seu modo, nos cava fugazes demoras de uma poesia vívida que “todo mundo vê, o cinegrafista vê, a jornalista vê, mas não escreve, não tem tempo” (Miró da Muribeca). Nos falta tempo, no entanto é irresistível “inventar uma pele para tudo” (Nuno Ramos), roçá-la, esfolheá-la, penetrá-la, transpassá-la.
Aí me cai, sobre “o tato mais experiente [que] é a palma da mão” (Arnaldo Antunes), essa espécie de tratado dermotemporal. Um “cair como caem” os sonhos, ininstagramável “instante-já” (Clarice Lispector). Não consigo deixar de perceber assim o livro de poemas O inquilino das horas (Villa Olívia, 2024), de Nílson Galvão – “Newson”, o poeta da física, como brinco –, que não se constrange frente a dicotomias ilusórias e persegue imagens complexas, que não refletem, nem complementam as polarizações do mundo – antes, nos dizem baixinho e mansamente: sim E não.
Imagens que escapam às binariedades vulgares que “acusam o ridículo do pensador: sim, sempre os dois aspectos” (Gilles Deleuze): “ser é quente-e-frio”; “ela chora e ri”; “coisas combinam e não”; “ainda/ é ontem, já é amanhã: nunca/ soube decidir sobre coisas assim.”; “quase/ não chove por quarenta/ anos e chove chove chove/ por quarenta anos, e ficamos/ doidos de nossos sentidos,/ quer de alguma chuva/ quer de chuva alguma,”; “tão diversos/ tão simétricos/e tão os/ mesmos.”; “o vagão impregnado de/ algo indefinível e palpável/ no entanto”.
É nesse incansável vaivém de inclusões (vai E vem, porque a norma linguística não sufocará o gracejo!) que o poeta faz morada no tempo, reverenciando-o em seus “deuses quandos”: “já faz muito tempo/ mas naquele posto/ persiste a imagem de/ uma súbita mudança”; “ali ulisses nos aguarda com a/ civilização inteira em sua loja/ de quinquilharias.”; “a começar/ pelos ossos partidos/ dos que foram jogados/ no abismo da história”; “as bananas/ quase verdes// agora quase/ passadas// neste canto/ da casa.”; “o tempo é um sol/ decaído, fica frio mas/ um sol é um sol”.
E, na duração das fotografias em preto E branco de sua memória, dentro delas, de seus grãos, verte em personagem constante a manhã: “hoje de manhã não havia/ manhã nenhuma quando/ acordamos”; “não menospreze as manhãs/ esquisitas, dessas que nascem/ com um brilho que não é o que/ se pensa”; “o nome/ do silêncio/ exato/ entre um/ galo e o/ outro e/ o outro/ no halo/ dessa manhã”; “a pele frágil da/ manhã ficando vermelha”; “a verdade late lá fora./ temos tanta coisa pra/ fazer e a manhã é tão/ curta.”
Dizer a manhã “pele do dia” faz cruzar topologia e cronologia, ao modo filosófico de uma pele-tempo, como ocorre no vivente: a superfície dérmica é o presente do corpo, por isso “o tato não tem antecipação” (Sandro Ornellas) e “organiza na pele uma inteligência” (Lais Muller). Daí também a interioridade corporal ser entendida como passado (tempo regresso, do já vivido) e a exterioridade como futuro (tempo sucessivo, do vir a ser): “O presente é essa metaestabilidade da relação entre interior e exterior, passado e futuro.” (Gilbert Simondon).
Em meio ao passado interior e futuro exterior, a derme: “de criatura esquisita de quem olha/ de baixo de quanto mais baixo de/ muito mas muito mas muito mais/ baixo sob a atmosfera o chão a pele/ sob a pele sob as sete peles”; “toda/ pele arrasta gosta de/ arrastar-se. toda pele/ enrosca. toda pele/ toca. toda pele fuça./ (…) a pele sabe os poros.”; “a alma/ se tem dor não é com/ a pele que sente”; “deixe que a pele se acostume ao/ que não se sabe.”; “toda pele/ à espreita: toda pele é/ outra.” Toda a pele à espreita quer outra, em sua defasagem, nas cinzas das horas depois das horas cinzas das horas depois das horas… – convite que subjaz em O inquilino das horas, embora insurja do mais óbvio e exposto contorno de nossa incontornável realidade de corpo.

Maruzia Dultra é jornalista, artista-pesquisadora e poeta.
Luciana Moraes
00:00 ou À Meia-noite
Devorar as cores em nós, destacar outro tema para o futuro. Hoje, vai
transplantar a palavra que não acordou no corpo inteiro. Passos, no
corpo inteiro, as mais de cem mil vidas, agora, Silenciadas. Inaceitável:
esquecer o dia em que se nasceu (corpo inteiro). Na profundidade de
11km, numa fossa do Oceano Pacífico, a vida quer ser Plenos pulmões, lá
onde o jogo esteja vencido pelo suspirar.
Rente ao chão, nada com os pés, continua assim: inatingível,
distanciado, limítrofe: o natural é já um mistério e AR. Boca aberta,
marulhando ~ ~ ~ faz parte do tempo enevoado. Se encara talvez tanja os
in.vi.sí.ve.is
………………………………………………….g.r.ã.os
***
Compenetrado olhar do Abismo
A meta do veado alvejado
é ser mutação e desova
desencarne das flechas
numa ação Cor de Ouro
Não há beleza nem altura maior
do que suas Quatro pernas abertas
empostadas no caminho
galopando o idílico desconhecido
Ressurgindo…
Ele comporta o peso (é)
depois mais nada:
leve e sereno pu(lu)lar de páginas
Como se a chuva
__________________ se expandindo
e toda gota lavando
a dureza da fibra na Cabeça
A ferida na vida
Pausa de quem recebeu Nove
flechas rasteiras cravadas
na carcaça mais fina
gritante e certa
que pudemos
V E R
***
Peregrino no PandeMundo
Tu não lês o trabalho deste sangue
corpo catando sonhos reciclados
Tem que abrir a janela para ver
Ar noticiando o fim do começo,
pois só há possibilidade de
início no fim dos
meios-limites
Uma coisa infinita a cada dia
Aqui morre também
O das ossadas, O da carne viva
……se faz
Cotidianamente em seu jardim
, cintilante e cariado,
Nosso pranto inoculado do Agora
Corpos jovens ou não
Garranchos e papagaios de toda
….c………..o……………r
***
Sobre atravessar o horizonte partido
Há fome desde a Antera,
onde se poliniza galáxias
Há flor de ideias na tinta espacial
chegando ao exoesqueleto e
em nosso túnel compacto roçando
claras espirais
Se palavra é gasta, sombra túmida de si
malícias negam desfibrilação de estrelas
demônio-um representante
saturação de cores invertidas num dragão marítimo
branco, pouco comum ao olho nu
Nossos pássaros inquilinos
frementes, em desvio
colisão da vida que pulsa
em nós, sem pergunta
Se o peixe feroz, informe e ilegível à claridade
Leviatã New-artífice do exício
do enredo sem rumo
cria o mundo anônimo
noite em todo o corpo, debalde,
carregando as rédeas do tempo nas compotas
de falácias
As sépalas em preto em branco contraem o passado
e assumem a sustentação de toda a flor até o estigma central
parem borboletas luzentes
mitológico sabor do vento
yvytu em zênite
tu e tal e tal e tu
formam-se tessituras de vida
Entre uma cabeça de serpente e outra
não ponderando termos
carregando em sua joia ruína
sua mortal comprovação
***
Tigre de Champawat
Quando a chuva
perde sua cor marrom
e tocamos no mistério
de suas entranhas de tigre
o sangue cristalino revela
numerosos feixes de luz
abrigando nossos desenganos
Na claridade do desamparo
ainda tiros intrépidos
e desenfreados
pelas vítimas que ainda vemos
em nosso Habitat
é doloroso morrer, e ainda morremos
porque não somos tigres
***
Rastro 8
Após o silêncio
a mulher falava com o sangue
Ela: céu e terra
com a ternura em sua face
sempre se
ajustando
à fala do sangue
Após o sono
na manhã
sem cabelo
com sangue
sem sono
Após o silêncio
seus gestos bailavam os braços
e entravam na Odisseia
entrementes
***
No decorrer da noite
Agapanto no peito. Uma Ofélia em água funda. Ainda viva.
Na fuga de novembro. Rasgos de mim.
Mesmo assim, amiga das procelas em fúria.
Uma nova janela aberta. O dossel ao vento nos espalha.
[ Juntas passeamos nas cinzas.
(Você não finda)
Nemorosos
vaga-lumes
Luciana Moraes (1993) é poeta carioca, graduada em Letras pela Unirio. Integra a equipe do portal “Fazia Poesia” e o coletivo “Escreviventes”, pesquisa o figurativo do inominável e o hibridismo nas artes extemporâneas, além de atuar como revisora e tradutora literária. Foi tardiamente diagnosticada, no final de 2023, com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Participou do coletivo “Oficina Experimental de Poesia” (2017-2018). Tem poemas publicados em revistas como “Mallarmargens”, “Capivara”, “Aboio”, “Caxangá”, “Torquato”, “Cassandra”, “Letras Salvajes”, “Zunái”, “ONavalhista”, entre outras. Seus livros: “Tentei chegar aqui com estas mãos” (2022) e “Flor de sangue” (2024).

