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134ª Leva - 01/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

A interpretação dos sonhos de Dênisson Padilha Filho

Por Sérgio Tavares

 

 

Escrito em 1876, o conto “O sonho”, do russo Ivan Turgêniev, é considerado um arauto da modernidade psicológica, pois prenunciava, por meio da ficção, temas que seriam a base da psicanálise no século 20. Na trama, um jovem começa a ter sonhos repetidos com o pai, que morreu quando ele tinha seis anos. Os encontros são antecedidos por andanças pelo subconsciente, frequentando pessoas e cenários de composições substancialmente realistas. Até que, em meio a um festejo local, o protagonista se depara com o mesmo homem do sonho e planta-se a dúvida se está no mundo concreto ou dentro de uma produção onírica.

Turgêniev dosa, de forma impecável, a ambiguidade no movimento entre esses planos, fornecendo ao texto uma característica ímpar de tornar a assimilação do sonho narrado numa experiência muito próxima do que seria a de um sonho de verdade. Duas décadas depois, no volume “A interpretação dos sonhos”, Freud cita o filósofo alemão Karl Burdach para decifrar tal fenômeno na configuração de chaves que levam a coleção de memórias a simular os acontecimentos em estado de vigília. “Mesmo quando toda a nossa mente está repleta de algo, quando estamos dilacerados por alguma tristeza profunda, ou quando todo o nosso poder intelectual se acha absorvido por algum problema, o sonho nada mais faz do que entrar em sintonia com nosso estado de espírito e representar a realidade em símbolos”. Neste caso, sonhar nada mais é que prolongar o vivido por meio de representações. Os sonhos, invariavelmente, levam à vida comum, em vez de se apartarem dela. Em outras palavras, por mais transgressiva que possa ser a experiência onírica, sempre será uma amálgama do que foi experimentado internamente e externamente.

O baiano Dênisson Padilha Filho bebe desse conceito em seu mais recente livro de contos, “Um chevette girando no meio da tarde”. São 10 narrativas curtas, cuja matéria nuclear é o sonho em sua projeção difusa e sensorial, porém reproduzida a partir de uma mecânica na qual o desenho do cotidiano nunca deixa de ser como o conhecemos. Não se trata de alucinações ou experimentações insólitas, e sim de imagens de consistência estranha, embora familiar. O inusitado não se filia a uma percepção dilatada, mas a vertentes da interpretação do mundo no qual a frequência dos sentimentos se sintoniza a uma estática dualista, inclusive através de comentários sociais.

Vide “Barracão de enlatados explode no ar”, conto que abre o livro. Um sujeito, que participa de uma tal Festa do Mar, resolve ir a um bar gourmetizado e, enquanto toma uma cerveja, começa a enxergar a fauna local em sua forma antropomórfica: a beluga, o leão-marinho, a baleia branca etc. O autor trata essas manifestações psíquicas com um traço de humor, mas também usa desses arquétipos para criticar o comportamento forasteiro, a adesão do estrangeirismo na cultura e nos hábitos regionais.

O texto seguinte, “Livro de contos no painel de um velho Boeing”, evidencia a busca por uma qualidade estética, valendo-se das possibilidades pitorescas do sonho de modo a se criar composições visuais muitas vezes mais vigorosas que o próprio desenvolvimento do enredo. O narrador (sugestivamente um segundo eu do autor) descobre-se dentro de um velho Boeing da Varig, arrastando-se na pista em meio aos carros, enquanto atravessa a cidade. Trata-se de um insight narrativo que canaliza seu alto poder imagético para a discussão do desamparo do escritor diante do inevitável fracasso da escrita. “Talvez, cada um de nós seja esse avião obsoleto que não consegue voar”, conjectura.

Assim como Turgêniev, Padilha guia o andamento de suas tramas através de um senso de imprecisão entre o que é estado onírico e o que é estado de vigília. “Aqui vamos nós mais uma vez” e “Um chevette girando no meio da tarde” remontam o período do colégio, da infância plena, sobre a qual, segundo Freud, incorre, com mais intensidade, os sonhos de angústia, aqueles cujos “sentimentos desprazerosos nos retêm em suas garras até despertarmos”, representando “indisfarçáveis realizações de desejos”.

“Um amigo em dia com a moda” segue no tema da angústia, só que a literária, como que numa resposta desesperançosa ao personagem no interior do Boeing. “Nunca serão leões” lança mão outra vez do arquétipo antropomórfico para dar significado a uma alegoria sociopolítica, enquanto “As camisolas dos monges tibetanos” recorre a um teor satírico para falar de meditação, terapia junguiana e clichês literários, executando um inesperado movimento de metalinguagem que sugere o fecho de uma parte.

A coletânea se encerra com “Trilogia de sal e vento”, cujo tom naturalista e uma certa dissensão entre vida pedestre e voos farsescos trazem à memória o Copi, de “A Internacional Argentina”, e os trechos marítimos de “Um ano”, do chileno Juan Emar. O conto final, “Não são cavalos-marinhos”, evoca uma entidade mitológica de modo a construir uma metáfora sobre o quão penoso é tentar domar os galopes selvagens da criação literária.

Os sonhos de Dênisson Padilha Filho podem não ter enredos complexos, mas são enriquecidos pelo jogo construtivo da ambiguidade, plasmando um território onde imaginação e experiência direta do autor surpreendem ao trazer uma sensação de inconsistência no tratamento de temas tão objetivos. Combinam fugas visuais concretas com abstrações generalizadas, a partir de um impasse extraído do subconsciente que parece indagar: se, ao fim, o fracasso espera, por que insistir no sonho de ser escritor? Diante das possibilidades de tantas interpretações, penso que essa questão nem Freud explica.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É crítico literário e escritor, autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participou da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris. Edita o site de crítica literária A NOVA CRÍTICA.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Fernanda Nali

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

I.

Tocam, as mãos – esse aparato para o tato
o meneável frênulo – primeira manufatura
E dedilham, como abertura, o úmido períneo
inundando os vasos e nervos
de assoalho tão delicado.

A palma abraça o prepúcio: esse movimento lavrado
modula a temperatura das manilhas e falo
Como instrumento meu, corda e sopro
toco também com a boca
dentro o membro, prenhe, dura.

A língua, à viscosa água, saliva:
_Arfa. Espasma. Goza.
Chama o meu nome.
Depois reclame que me abra
sobre a carne, novamente, dura.

 

II.

Encontram os pés – planta semeadura em solo
um outro casco – pele fora da pele
e desliza o dorso, em toque pouco preciso
de metatarsos e falanges, nessa espessura
tateando, entre sono e vigília, nas rachaduras
a anatomia de estranhos calcanhares.

Os ossos livres das dimensões do sapato
amoldados na entre curvatura do arco
como concha, nessa postura se ajustam
vacilam no movimento, como pêndulo
nas margens até encostarem, titubeosos
as dobras de desconhecidos dedos.

Essa fricção em estrutura tão íntima
é deambulação por todo corpo – ranhura
marcando sobre um palimpsesto
a fundação de uma arquitetura segura.

 

III.

Arde sobre escorpião a minha prematura fome
farejo sob a armadura, onça descendo a rugosa fundura
tensionando_ rastro aroma sombra pureza, e encontra:
_dá-me a via do excesso, há anos-luz tem que espero
sóbria penetro com os dedos e retenho: esse antigo desejo
e já o encontro pronto, labirinto aberto sem pejo
mandíbulas na cartilagem tudo a minha boca come
sobre o teu sexo tocando a minha voz implora
que venha dentro: fecunda primeiro a última dobra
e cresço madura em seiva bruta folha nova.

 

IV.

Dobram-se as costas – como garças canoas
em remanso abandonadas, os braços remos
distraídos tocando, minúcia, leveza, delícia
a superfície de águas sopesadas, o descanso

Mas somente depois de força e loucura
essa dobradura se aceita: porque o amor
não compreende brandura que não seja
impudência arrefecida mornando alheia
sobre todas as nossas profundas fissuras.

 

V.

Repousa o pescoço sobre a fímbria do colo
[o faro preparado para todos os ciclos do cio]
as pernas arqueiam uma moldura para os quadris
é breve esse intervalo.

O ombro como alavanca se inclina e acrobata
[é a intimidade inesperada tua singular diferença]
junto à cintura sincroniza a rotação das vértebras
até a extensão dos braços.

De joelhos me segura de quatro, como potro bravo
É por trás que captura a cavidade e me suspende à altura
grassando absurdo e teso mais perto dos testículos
uma pintura na projeção do espelho.

Sobre os cotovelos suporto o peso, a tortura de tê-lo
no equilíbrio instável dos artelhos e sob o teu nariz
me devolve ao mundo mais madura e safo
sempre por um triz.

 

Fernanda Nali nasceu em Vitória, ES. É autora de “território inominado” (Cousa, 2018, Prêmio de Obras Literárias da Secretaria de Cultura do Governo do Estado Espírito Santo),  atua na elaboração e execução de projetos culturais e cursa doutorado no programa de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP. 

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa IV

Berg Morazzi

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

Três

 

Era aniversário de um ano de casamento. Meu segundo casamento. Decidimos fazer um pequeno jantar para comemorar, convidamos alguns amigos. Eu não conhecia todos os amigos de Marina, acho que ela já conhecia todos os meus, pois não eram muitos.

Fui ao supermercado em busca de um bom vinho, pensei em levar um argentino, mas isso me remetia à minha antiga esposa. Acabei levando um italiano. Comprei mais umas azeitonas e amendoins, a maior parte dos convidados tornou-se adeptos do veganismo. Os que não fossem veganos teriam que comer nossas comidas. A regra da casa era “sem crueldade animal”.

Na fila que eu peguei havia uma velha na frente. Sempre as velhas. Ela tinha o carrinho mais cheio que a conta bancária de Bill Gates. Logo atrás de mim uma mulher linda, cabelos pretos, ondulados, pouco menos de um metro e setenta. Levava apenas uma garrafa de vinho, um vinho chileno que eu adorava.

– Ótima escolha. – apontei para a garrafa.

Ela estava meio distraída. Quando processou o que eu disse, respondeu:

– Ah, sim! Adoro esse vinho. Na verdade, adoro os vinhos chilenos, têm bons preços e o sabor raramente deixa a desejar.

– Concordo.

Ela tinha algo além da beleza óbvia, seduzia com seu jeito de andar ou falar. Tinha um tipo de magnetismo que não me deixava desviar o olhar.

A velha passou as compras e deixei a mulher passar na minha frente, fui gentil, acho que todo mundo deveria ser. Nem sempre fui legal assim, mas a vida ensina que devemos ser menos cuzões e fazer algo de bom, ainda que pareça pequeno.

Num piscar de olhos a atendente passou o vinho dela, que por sua vez pagou na mesma rapidez, com dinheiro trocado, também dispensando o uso de sacola plástica. Despediu-se de mim, agradecendo a gentileza. Desceu para o estacionamento.

Paguei minhas compras, também desci para o estacionamento. Coloquei as compras no banco do carona, pois não levaria ninguém. Quando arranquei com o carro, fui fechado por um SUV prata. Abaixei a janela, pronto para ser rude e começar a gritar feito um imbecil, mas lembrei do que vinha me dizendo mentalmente: “vamos tentar ser menos bosta”.

Umas madeixas pretas e onduladas saíram da janela do motorista do carro à frente:

– Desculpe!

Não tive outra reação, a não ser gritar:

– Tudo bem!

Coloquei o carro na garagem. Antes de subir, fumei um cigarro. Marina não gostava do cheiro de cigarro, dizia que lembrava seu pai, e ela o odiava. Eu até a entendia e fazia o possível, menos parar de fumar.

Terminei, coloquei uma bala de hortelã da boca, subi. Quando cheguei no penúltimo degrau, lembrei que as coisas ficaram no carro. Voltei para buscá-las.

Alguns convidados já estavam lá. Meu melhor amigo, André, com sua nova noiva. Acho que era a terceira ou quarta. Eu o entendia, relacionamentos são difíceis. Tinha chegado também um amigo escroto de Marina. Era do TI do trabalho dela, cantava nos bares da cidade nos fins de semana, achava que seria o próximo Tim Maia. Eu odiava aquele cara, ele quase acabou com meu casamento uma vez.

Cumprimentei meu amigo e sua noiva com um caloroso abraço, ele sempre teve bom gosto para as garotas, eram lindas e gentis. Não fui tão cortês com o outro, apenas acenei com a cabeça, de longe.

Levei as compras até a cozinha, Marina me seguiu.

– Você pode tentar ser menos babaca? – ela veio se aproximando de mim com raiva.

– Não com ele.

Para quebrar o gelo, dei-lhe uma flor, que estava meio amassada por estar na sacola, abracei e beijei-a.

– Você é um babaca, mas é o meu babaca.

– Estou sendo menos babaca ultimamente, mas não menos seu.

Preparei alguns petiscos, enquanto isso os outros convidados chegavam. Minha surpresa foi tanta que quase deixei cair a bandeja no chão. A mulher do supermercado sentada dentro de minha casa.

Ela se levantou ao me ver, sem esconder a surpresa.

– Vocês se conhecem?

– Não. – minha resposta.

– Sim. – resposta dela, que logo emendou. – Ele me deixou passar na frente da fila do supermercado.

– Sinal que as sessões de terapia estão funcionando. – Marina ironizou.

Cheguei perto do ouvido dela:

– Não precisa falar dos meus problemas para os outros.

Sem censura, ela escandalizou:

– Daniela não se encaixa na categoria de “os outros”. É minha melhor amiga, dividimos apartamento na época da faculdade. Ela só não veio ao nosso casamento porque estava morando em Chicago. Chegou há uma semana.

Senti tanta vergonha que deu vontade de enfiar a cabeça no chão, como um avestruz. A moça esticou a garrafa de vinho para mim.

– Muito prazer, Daniela Portillo.

Peguei a garrafa, sorrindo timidamente.

– Hugo Saavedra.

Jantamos, bebemos, conversamos, rimos, todos nós. Até ignorei o olhar estranho do babaca do TI e aquela sudorese nojenta nas axilas. Daniela era discreta, mas quando queria, tomava a atenção de todos. Tinha boas ideias, boas histórias. Bom decote também, que eu lutava para não ficar encarando.

Pouco a pouco os convidados iam saindo. Em questão de menos de uma hora, não havia mais nenhum. Eu e minha esposa levávamos as coisas para a cozinha.

– O que você achou, meu amor? – perguntei à Marina.

– Adorei, foi tudo incrível. A noiva do André é linda e muito simpática…

– É mesmo, ele tem bom gosto.

– Já a Karen, meu Deus! Quem é aquele peixe morto que ela foi arrumar? Ele deveria deixar a barba crescer, assim não ia parecer ter acabado de sair do ensino fundamental.

– Verdade.

– Ela engordou também, nem devem estar transando.

Ri alto.

– Duvido! Ela é ninfomaníaca.

– Como você sabe disso?

– André…

– Eles já?

– Várias vezes. Uma vez teve até participação da garota que dividia apartamento com ela.

Marina colocou a mão no rosto, tocando a orelha esquerda com as pontas dos dedos, como sempre fazia quando estava surpresa.

– Ela nunca me disse isso.

– Você tem o jeito muito fechado, sua cabeça é muito fechada.

Vi seu rosto enrubescer, eu conhecia bem aquela mulher, sabia que ela não estava brava, mas tímida. O problema é que quando ficava tímida, aumentava o tom de voz, num tom quase que de briga.

– De onde você tirou que eu tenho a cabeça fechada?

– Você faria um ménage?

– Nunca pensei sobre isso.

Ela me conhecia o suficiente para saber que se passava sacanagem na minha cabeça, quando eu abaixava a cabeça e dava um sorriso de lado.

– Você já, não é mesmo?

– Ah… sabe… eu acho que seria uma coisa legal de experimentar.

– Não sei.

Sua voz titubeou, havia uma brecha. Eu tinha que tentar.

– Já que você confia tanto na Daniela… Seria legal. Queria dizer, ela parece ser legal.

– Acho que ela não é do tipo que faria isso.

É sim! – gritei em pensamento.

– Só tem um jeito de saber.

– Qual é?

– Fazendo o convite a ela.

Era minha última jogada, não sabia o que vinha depois, podia ser o xeque mate. Ela me olhou nos olhos, ficou alguns segundos assim, então respondeu:

– Tudo bem, vou falar. Agora vamos acabar de arrumar essas coisas aqui, a noite ainda não acabou para nós.

Transamos a noite toda, foi incrível. Alguns meses depois estávamos divorciados. Nunca mais vi ela ou Daniela. Não tivemos um ménage a trois. Talvez no meu terceiro casamento.

 

Berg Morazzi, nascido em 17 de maio de 1992, em uma pequena cidade de Minas Gerais. É escritor, roteirista, audiodescritor e ativista vegano. Autor dos livros “Sobre a lucidez e outras farsas”, “Obsolescência Cotidiana”, “Isso nunca foi sobre o amor”, “Enquanto a cidade dorme”, “As flores morrem o ano todo” e “A um passo do precipício”. Traz em sua prosa uma mistura exótica de Paulo Coelho, Gabriel Garcia Marques e Charles Bukowski. Mostrando o doce e o amargo da vida cotidiana, criando personagens profundos e histórias reflexivas.

 

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134ª Leva - 01/2020 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Giovana Damaceno

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

Cama e mesa

 

A repórter se ajeitou no banquinho de madeira rente ao chão, enquanto Dalmira tentava controlar o choro para continuar seu relato. Levava ao rosto o lenço gasto e parava o olhar, perdido, a mirar o passado. Na face cansada e velha, apesar dos quarenta e poucos anos, escorriam as lágrimas expressivas dos sentimentos de uma existência. Firmino Neves morrera há nove meses; Dalmira agora já não frequentava o casarão do dono “daquelas terra tudo”, inclusive do pequeno povoado de Encruzilhada do Cipó. Mudara-se em definitivo para sua casa.

Chegou menina-moça na fazenda para trabalhar e, ainda que sem corpo de mulher pronta, deixava rastros de suspiros por onde transitava. Diziam que era feita de café com leite e açúcar queimadinho, devido ao tom da pele, e provocava lambidas de beiços na homarada, sem dar confiança para ninguém. Porém, o patrão Firmino Neves foi o único a provar o sabor de café com leite tão cobiçado em Encruzilhada do Cipó. Não apenas a tez morena, mas o balançar dos quadris e a voz de criança faceira que cantarolava pelos corredores nas tarefas diárias faziam o poderoso fazendeiro tremer de vontades. Firmino Neves se considerava dono dos empregados e logo determinou para si que Dalmira era sua pertença, sem se importar em quando lhe colocaria as mãos; seria apenas questão de tempo. Aguardou a potra arisca se acalmar sem pressa, para aprimorar a doma na cama; logo ficaria doce e fácil.

Assim, Dalmira se tornou mais uma entre as mancebas de Firmino Neves. Ganhou uma casa sua e passou a receber cinquenta dinheiros por dia para servir a seu senhor em meio aos lençóis e nos afazeres domésticos. Fora comprada e “bem-paga”, do mesmo modo que as outras, mantidas em cada sede. Dalmira cuidava pessoalmente da comida, das roupas, das botas, do quarto, dos banhos. Era presenteada com vestidos, brincos, pulseiras, colares, fitas de cabelo, teve a casa mobiliada e até um aparelho de som, no qual colocava suas músicas preferidas para tocar e rodopiava pela sala, quando Firmino Neves não estava ou não a chamava. Não levantava os olhos, respondia às ordens com ações, quase não falava. Como a ninfa Eco, condenada à maldição de apenas repetir a voz de Narciso, objeto de sua cupidez, alienava-se e enfurnava seus próprios desejos. Estava sempre pronta, arrumada e perfumada, pois Firmino Neves cismava de querer seus préstimos a qualquer hora.

Não teve criança; fora obrigada a entregar menino nascido ou a botar fora a cria, logo que lhe atrasavam as regras. Nunca saiu da fazenda, não conheceu parente. Nasceu criada, encarou a lida em troca de morar e comer, tornou-se amante de Firmino Neves e nada soube de si.

— Conheço ninguém, não, senhora, a não ser os daqui. Fico sozinha neste fim de mundo até morrer.

Sem pressa e em detalhes, Dalmira discorria acerca de seus dias ao lado de Firmino Neves a uma jornalista lívida. A matéria, pensada minuciosamente, contaria as experiências de mulheres do interior do país, que atravessaram a vida sob o jugo de seus coronéis, servindo-lhes a própria carne. A exemplo das amasiadas de Firmino Neves, muitas poderiam existir pelos cantões do país, e a revista seguia atrás dessas histórias.

A personagem escolhida para a primeira reportagem da série “Cama e Mesa” envelhecia rápido e prematuramente, contudo se conservava jovem no gosto de se mostrar enfeitada, de sombra nos olhos, vestido florido de saia rodada. A repórter acreditava que a trajetória de Dalmira seria perfeita para sua pauta – saturada de dor e tormento, coagida pela dominação, pelo poder, pelo dinheiro, pelo descaso de uma sociedade conivente com a submissão e subserviência femininas. Alheou-se à entrevista, imaginando Dalmira infeliz, dias e noites em claro, o anseio por ir embora, sumir dali, abandonar Firmino Neves para ser livre, ao lado de alguém que a honrasse e construísse com ela uma família em uma relação de amor.

— Saudade? – a repórter se deu conta de que escapulira em devaneios – o que disse?

— Que sinto saudades de Firmino Neves, sinto falta do meu homem.

— E o seu sofrimento nesse tempo todo? – perguntou a repórter, confusa.

— Que sofrimento? A vida não me deu nada, não, dona; Firmino Neves foi quem me deu tudo. Amei quieta, servi com gosto, recebi em troca mais do que esperei. Felicidade era ter Firmino Neves. Agora que foi embora, resta esperar minha vez e ir no encalço dele.

 

 

 

***

 

 

 

Pé de não sei quê

 

E o maldito pé de não sei quê enfim pendeu de vez, mortinho. Arqueou o tronco fino lentamente, perdendo sua força; tentou apoiar no muro, mas minha vontade que virasse um molho de folhas secas pareceu vencer o que lhe restava de viço. E ali está: acabado, sem chance de voltar a assombrar minhas lembranças e a se manter como guardião do jardim do amor eterno, como se agora me ameaçasse com sua presença muda. E feia.

Ele caiu. E com ele se foram as últimas lágrimas. As últimas que choraria de raiva, de humilhação. Agora o choro é de foda-se! Desabou o último representante de uma fase sombria.

Dez anos durou aquele arbusto. O mesmo tempo em que dividimos o teto, a cama, a comida, o chão. O mesmo tempo em que nos enganamos ou que eu me enganei. Era pra ser o símbolo da nossa união e da nossa felicidade. Foi o primeiro ser vivo a fazer parte do que seria um lar, em dia especialmente escolhido, com direito a ritual a dois. Recebeu o apelido de pé de não sei quê, pois não sabíamos nada sobre plantas, muito menos que nome teria a arvorezinha que levamos para a casa em obra. Ríamos disso.

O que nunca prevemos é que o mundo é real, com problemas reais e suas consequências. Com as mudanças, mágoas e rancores. Com a maldade pura e fria. Foi uma década de olhos baixos, sorrisos pela metade, concordâncias falsas, cessões por simples favor. E, ao final, o transbordamento de tanto desgaste pela via mais torpe: a violência.

Encaro o pé de não sei quê com ódio. O peso de significados que carregava o levou à queda. Eu não resisti, ele também não. Aguentei o que pude, levei a sério o que aprendi com o padre e com meus pais: segurar o casamento, pelo bem dos filhos. Balela. Tornamo-nos todos infelizes – eu, ele e eles – por não sermos capazes de dizer não. Eu não fui capaz de dizer não.

Confesso que dei uma ajudazinha: deixei que se virasse. Se chovesse, teria água; caso contrário, ah, que pena. Era frágil, o pé de não sei quê. Bem parecido comigo lá no início da história. Passei pela manipulação, pela pressão, pelo descaso, pelo abuso. Ele só teve sede e absorveu minhas vibrações negativas para que definhasse sozinho. Finalmente, parou de exalar seu perfume nauseante no fim da tarde.

Por que não o derrubei? Afinal, seria mais rápido me livrar da representação tão marcante dos meus dias de infortúnio. Porque preferi ser cruel. Queria vê-lo se dobrar diante dos meus olhos, vergar o que era altivo e vultoso, beijar o chão. Entregar -se.

Em pouco tempo o caule enrugou, as folhas amarelaram e começaram a cair. Mais uns dias e estava encurvado, até tombar de vez. Morte assistida e comemorada com o que de pior tenho em mim. Imagino que me olha com desprezo, enquanto o encaro com sarcasmo.

Era o que eu queria ter feito, meses atrás, mas não tive tempo, nem jeito. O ódio me faria a arrancar-lhe unha a unha, até ajoelhar e pedir perdão. O ódio que o surpreenderia na madrugada com o quarto em chamas, até sucumbir sufocado. O ódio a mim, por ter me submetido e suportado sem resposta. O ódio por tudo em que se transformou essa existência fracassada. O ódio que me moveu a fazê-lo pagar com a vida, sem sentir nada do que me fez penar.

 

 

 

***

 

 

 

Desenlace de Família

 

Aquele rosto me era estranho. Não porque jazesse inerte, dentro do caixão. Não porque, coberto de flores, não pudesse reconhecer-lhe o físico. Não porque cheirasse mal. A tez morena, avermelhada, feito índio; os cabelos brancos encaracolados; os lábios finos, sem curvatura, como se traçados num único risco de dois lápis. Aquele rosto me inspirava desprezo, somente. Não me interessava recordar dele vivo, pois à memória retornaria a expressão de fúria nas lides diárias ou descendo o cacete nas filhas.

Agora a carcaça do brutamontes estava cercada pelo choro das mulheres que subjugou. Não atinava como pessoas tão judiadas fossem capazes de lamentar a morte de seu carrasco. Olhei ao redor e não encontrei a caçula, a única das filhas que conversava comigo, a mais doce e cordata. Havia algo que nos unia, um laço entre almas. Não reagia às corretivas do pai, ao contrário, demonstrava afeto por ele, não manifestava revolta pelo tratamento opressivo, não chorava e nem reclamava pelos cantos. Apesar de castigá-la como às outras, Rejane era a única filha que contava com um mínimo de carinho e certo excesso de atenção do “tio” Cadô. As irmãs se ressentiam, enquanto a mãe notava a diferença, mas deduzia como preferência natural – quem não tem seu filho dileto? Compreenderia se qualquer das filhas faltasse ao velório, no entanto foi Rejane que não velou o pai.

E eu? O que estava fazendo naquela sala escura com cheiro de flor e vela, suor e café? Fora arrastada pelo meu irmão, Lucas, sem explicações; disse “morreu” e me tirou de uma festa para o velório. Não tivesse apenas treze anos e igualmente criada abaixo de porrada, teria questionado “E eu com isso?”.

Seria a minha primeira vez na quermesse, sem a mãe; a primeira vez de olhos sombreados e batom; a primeira noite com amigas. Combináramos de andar na festa de braços dados, pedir música e mandar mensagens aos rapazes pelo autofalante. Não poderia passar das dez horas, sob a ameaça da varinha de marmelo de papai, que me aguardaria na varanda, a contar os primeiros segundos de atraso. Como “tio” Cadô fazia com Rejane, papai me cobria de mimos exagerados, contudo não me poupava das sovas quando lhe convinha ou se me rebelasse contra seus afagos melosos.

Quis me afastar do caixão, porém meu irmão me segurava, e se mantinha contrito diante do corpo do homem que admirara. Temente a Deus, frequentava a igreja aos domingos, pai exemplar, bom provedor, trabalhador, honesto, corrigia esposa e filhas com precisão, educava com rigor, rude, tosco, grosso, mau, violento, cruel. Na verdade, não era parente nosso; amigo chegado de papai, fora escolhido para apadrinhar Lucas. Embora as duas famílias tenham se constituído praticamente juntas, até então, mamãe tolerava essa amizade em silêncio.

Não assisti ao enterro. Acompanhei o caixão sair no carro funerário, entrei em casa, do outro lado da rua, e emburrei. Sobre a causa da morte, passei muitos anos sem saber. No velório escutara rumores sobre um tombo da marquise e minúcias que não se arranjaram de modo lógico no meu raciocínio. Este mês faz dez anos que “tio” Cadô se foi. Também são dez anos sem ver Rejane, a filha que pagou na cadeia pelo assassinato do pai, com a paulada que o derrubou do beiral da janela, onde emendava um fio. Deve estar prestes a sair da prisão. Agora, se quiser, poderá viver. Eu escolhi fugir.

 

Giovana Damaceno é jornalista e escritora. Autora dos livros: “Mania de escrever” (2010), “Depois da chuva, o recomeço” (2012) e “Do lado esquerdo do peito” (2013). Membro da Academia Volta-redondense de Letras e integrante do Coletivo Feminista Literário Mulherio das Letras.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Angel Cabeza

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

BARRO

 

Deus criou nas trevas
os vinte dedos do homem
e sua caligrafia cinzenta.
Cego, imaginou
o som do sangue.
Num súbito lampejo,
investiu no sujo da têmpora;
teceu chumbo nas escápulas
da criação.
Impedido de voar,
o homem consumiu o céu
com olhos vitralizados;
expeliu todo o fogo herdado.
Inferno abaixo da terra nunca existiu.
Esse peso de Sísifo…
Esse vislumbre do voo…
Desde então o homem
segue agradecendo diariamente
a falha nas asas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

SACRAMENTO

 

Abandonar o pó
e esquecer a terra,
quebrar o corpo
e esconder espinhos:
somos o sal
de um deus barroco
temperando intervalos
entre pedras.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

ALONGAMENTO

 

Alongo os olhos
nesta manhã
e curvo a mão
sobre o teu peito:
frêmito de asas
que toma a forma
do chumbo
da cidade.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

CAVIDADE

 

Coloca meu nome entre dentes
e trinca.
Amacia o escuro
que nele mora e rememora
o gosto acetoso:
uma manhã envernizada
e virgem devorando
a extensa e já vazia noite.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

MILAGRES

 

Os céticos anunciam não existir milagres
que comprovem uma santidade ou fé.
Tudo é matéria oca e sem divinização.
Somos duros e ácidos e inventivos
em nossas brumas.
Construímos uma religião
para o desespero do pão.
Entretanto, abrimos diariamente um mar
ao observar nossa rasteira plenitude
de extremos — fuligem na carne.

O silêncio atravessa o raso
à procura de novas terras.
Não seria milagre
o som dessas salgadas águas?

 

 

 

 

***

 

 

 

 

SOBRE FICAR

 

Lacerar a pele
e manter as
sensações expostas.

Fender a epiderme
e ferir a cicatriz
do tempo.

 

Angel Cabeza nasceu no Rio de Janeiro. Cursou Letras e Jornalismo. É poeta, cronista, coordenador editorial e produtor gráfico. Autor de ”Canção para os seus olhos e outros castanhos” (Urutau, 2019), participou das antologias “O Casulo” (Patuá), 29 de abril, o verso da violência (Patuá), Qasaêd lla falastin — Poemas para a Palestina (Patuá) e das revistas Odara, Escrita Droide, Vício Velho, Literatura e Fechadura, Gueto, Germina, Zunái, Subversa, Cuarto Propio (Porto Rico), Verso Destierro (México), Generación Espontánea (Madri), entre outras.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Olhares

Olhares

Anseios da luz

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

A roda da vida gira. Há paisagens anunciadas pelos matizes de uma aurora deslocada no tempo. A curiosidade de quem observa os interstícios da existência sonda os mais variados momentos em que tudo transcorre. É preciso que aconteça o gesto natural das coisas, mecanismo de se deixar levar por tudo aquilo que acontece diante dos olhos. Quem contempla a manifestação dos elementos dispersos por entre os dias, sabe que a palavra rotina é somente uma mera tentativa de definir o espetáculo cíclico das coisas.

Ainda que pareça não haver nada de novo sob o sol que nos abraça, o sabor das primeiras visões e descobertas é chama acesa em nossos sentidos. Entre o espanto e o encantamento, podemos ser surpreendidos por aquilo que mobilize e quiçá rasure a nossa maneira de vislumbrar os fenômenos do mundo. E é desse modo que a fotografia é capaz de nos impactar, trazendo a lume registros que bailam entre o traçado da memória e a revelação daquilo que passa despercebido em meio à cronologia de nossa trajetória.

Se o que julgamos como sendo o Belo estiver confinado ao campo de nossas vivências e crenças pessoais, então o despertar da arte em nós parece ser mais o exercício puro de nossa individualidade. No caso da fotografia, talvez seja o misto de constatação imediata e sugestão que nos mobilize rumo ao território vasto das percepções. Por constatação imediata, leia-se aquilo que se corporifica como a concretude que salta aos olhos, enquanto que a sugestão é esse abrigo permanente em torno do mistério, embalada que está pelos dotes da intermitência e da relativa infinitude.

De todo modo, é possível considerar que as linhas iniciais deste texto encontram correspondência direta com a trajetória de certos artistas. Pensando nisso é que vale mencionar aqui a obra de um fotógrafo como Hermes Polycarpo. Do artista em questão, trazemos à tona o esmero das formas, seja na busca por se retratar a figura humana, seja na maneira em se deter sobre objetos e temas afetos à natureza. Nesse trajeto de observações muito peculiares, o fotógrafo evidencia o ritmo dinâmico que está por trás das jornadas pessoais de gente dos mais diferentes estratos sociais. Pode ser um mero transeunte das vias públicas ou quiçá um alguém a mirar o mar de esperanças sem fim. Pode ser o corpo que repousa em luz e sombra ou o olhar inquiridor de um menino. Pode ser a paisagem que redimensiona a natureza ou então a geometria das alamedas.

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

O fato é que em Hermes nada parece fugir aos desígnios da sutileza, essa mão invisível que conduz os temas abordados. Não há dúvida de que a técnica está a serviço de toda uma demanda de subjetividade e poesia que emanam das imagens concebidas. Em meio à solidão que atravessa pessoas e suas sinas, lá está também o olhar do artista capaz de tornar suaves certas missões imperativas da existência. Desse modo, homens, em seus engenhos de labuta e contemplação, aparentam ser muito mais do que meros operários de suas rotinas.

A recorrência do mar no trabalho de Hermes Polycarpo parece metaforizar o sentimento de renovação que o movimento das águas suscita. Ao mesmo tempo, lembra o desembocar de anseios todas as vezes que alguém mira, absorto em pensamentos de silêncio e quietude, o imensurável horizonte oceânico à sua frente.

Natural de Ilhéus, na Bahia, Hermes despertou para a fotografia em 2007, quando residia no Rio de Janeiro. Em seu processo criativo, busca, na confluência entre técnica e sensibilidade, um resultado que faça uso extremamente reduzido de recursos de edição. Mostra-se como um fotógrafo de ímpeto eclético, explorando paisagens e imagens conceituais, e confessa estar sempre em busca de novas incidências de luz.

Lançando mão duma exuberância de cores, Hermes Polycarpo também assinala através delas a marca efusiva do humano e suas intervenções espaciais. À paisagem urbana misturam-se gestos diversos, plenos de uma espontaneidade que só a observação serena do fotógrafo é capaz de preservar. No caminho que exalta a luz como fonte norteadora, a arte instaura suas delicadas faces, vias que nos mostram a pulsação dos tempos e que mobilizam em seu âmago expressões abrigadas em toda sorte de gestos.

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

* As fotografias de Hermes Polycarpo são parte integrante da galeria e dos textos da 134ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Maurício Pinheiro

 

LIVIA NERY – ESTRANHA MELODIA

 

 

Pensando sobre o que vem a ser o “estranho”, a partir do espectro psicanalítico, inda que superficialmente, termino por acatá-lo como aquilo que só o é porque, de alguma forma, há nele algo de familiar, traço esse cuja ausência me remeteria ao assustador, ao que amedronta, o que não vem ao caso aqui e agora. Fiquemos, portanto, ligados a esse estranhamento que nos é inquietante, infamiliar, impactante, algo que se apresenta como fora de uma ordem quiçá instituída a partir do Outro ou, mais apropriadamente, a algo que em nós recalcamos e que, de alguma maneira muito particular, se reapresenta a nós nos detalhes do nosso próprio real, quando displicentemente deixamos o disco tocar.

Pensar sobre o sentido das estranhezas nossas de cada dia teve como gatilho a escuta do trabalho de estreia da cantora e compositora Livia Nery, baiana de Salvador, que nos apresenta uma obra para além do universo nagô, diferente dos registros apresentados nas rádios e televisões do Brasil que seguem em direção ao mundo apresentando produtos que identificam uma Bahia onde todos, de algum modo, podem e devem “passar uma tarde em Itapoan”, como num paraíso de verão onde tudo, alegria e felicidade, se torna possível sob a “chuva, o suor e a cerveja”.

Não desejo me deter nas intenções, no sucesso, ou mesmo formular uma crítica ao modo de funcionamento de uma indústria cultural que se baseia na “generosa” ideia de ampliação do acesso ao consumo da cultura de massa, mas desejo sim, a partir do trabalho de Livia Nery, abrir para os mais curiosos as tantas outras Bahias que não foram abduzidas e não se encontram nas prateleiras dos supermercados, mas se afirmam, somente para os mais curiosos, como algo capaz de promover estranhezas próprias e inseparáveis de um fazer artístico autêntico, extracontemporâneo e original.

 

Livia Nery / Foto: Caroline Bittencourt

 

Foi assim que displicentemente me percebi subtraído por uma fala poética e musical, que a mim dizia “eu sou uma macaca/que quer ficar pendurada/no seu tronco nu”. Diante desse espanto, foi como se algo completasse, “pontocompontobr”. Estava dito, ou melhor, estava posto diante de mim a macaca que sou quando faço parte do bom do amor. Nesses tempos de cólera, nos quais o macaco se tornou arma de morte para ferir e amaldiçoar as pessoas de pele negra, a mim, nesse disco, se apresentou como um bálsamo que revela, identifica e reitera como possível aquilo que soa primitivo na arte carnal do amor.

Mas não é só isso, muito sabiamente o disco foi nomeado com o título Estranha Melodia, música que abre esse trabalho e faixa na qual a autora revela seu desejo e nos convida generosamente a brincar nessa sua proposta de melodiar as suas e as nossas estranhezas. Aqui já fica claro o aspecto autoral presente em toda a obra, com exceção de Vinte Léguas, de autoria da inesquecível Evinha e Mariza Correa, mas que, ainda assim, tornou-se pessoalizada pela forma como foi relida, não destoando do todo, cuja autoria é da própria Livia Nery, que contou com o auxílio luxuoso de Curumim nessa singular produção.

Em outras canções, como no caso de Beco do Sossego, de cara surge uma batida que nos pega de jeito, e é desse lugar que se torna possível escutar essa mulher a nos dizer do poder que tem um chamego que não teme revelar seus segredos, enquanto segue docemente metaforizando a visão de balões a voar no céu, quando para mim o assunto é gozar. De fato, um tipo de amor próprio dos becos de todos os sossegos, de fato uma poesia feita para quem o amor importa.

Para além desse balão, tem ainda toda a filharada, a esteira e o credo de meu Deus, a coruja que sai da toca, algo que esmoreceu. Vixe, tem paca e milho verde, tem enxada e tem lajedo, um soneto brasileiro e uma viola encostada ao peito caçando sarna pra se coçar, tem a caça e o caçador a nos lembrar que aqui tudo é sintoma de amor nos dizendo como seria apavorante encontrar, num casebre ou num roçado, tanto faz, são essas as vinte léguas por onde caminham a poesia e a música dessa artista.

 

 

Livia Nery / Foto: Caroline Bittencourt

 

Essa é a Bahia de Livia, possuída e emancipada, uma Bahia que pode ser carioca e paulista. Na verdade, esse é o Brasil de Livia, um Brasil que cabe no mundo inteiro, ou ao menos no mundo daqueles que permitem se reconhecer nos diálogos propostos entre as mais variadas formas de som e a poesia dessa mulher que soa doce e forte, amante e política, branca, negra e amarela, uma mulher cujo trabalho não cede ao rótulo. Mas o grande responsável por fazer dessa Estranha Melodia um modo de se dizer que não cabe numa só pátria é o conjunto de sonoridades presentes nesse trabalho que, ao propor uma forma muito particular de ortopedia musical, termina por desconstruir toda a obviedade que o mercado precisa para categorizar um produto. Aqui não habitam toadas e não cabe o banquinho e o violão, definitivamente esse é um trabalho para quem não está à vontade!

Por fim, se essa inquietação lhe pareceu demasiada, se dê mais uma chance. Feche os olhos por um instante e se entregue à bela Spiritual, canção em língua inglesa que encerra sofisticadamente o disco e nos devolve com força renovada à nossa realidade, que no caso se dá sob à governança de um recalcado! Que trabalhos como este continuem acontecendo para que não percamos nunca o norte do amor, material custoso e raro, que só a espécie humana tem e sabiamente pode usá-lo para continuar e se manter de pé.

 

 

Maurício Pinheiro é psicanalista e vive numa cidade onde todas as coisas ganham grandes proporções.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

André Luiz Pinto

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

Ouvi-los.
Fixa no tempo
a forma
remediando
…………………..o branco.

Guardá-los.
Quantos forem os bocados.
Deixa na planura
um gesto,
mais parece socorro.

Ouvi-los
depois que o repetir
sob o acorde
de aranhas.

Um nexo.
Um corrimão avulso.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Pior, no plano
do cordeiro,
sabendo o homem,
eis o lobo.

O cruel da carne,
acredite,
zero a zero,
imenso o rosto.

Amadurece,
podendo advir
quando um bote
ave de rapina.

E o que retorna
ao sabor das mãos:
livre é o medo
no intercâmbio das coisas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Mas como fugir dessa linguagem
impoluta, sufocada dia após dia,
intercedendo sobre tais minérios?
E como, arrisco-me por conhecer
nenhuma lei, alivia-se a boca
sob a estase dos ventos? Mais se parecem
do que negam, o verdadeiro valor
da conta, cântico dos quânticos
no descortinado meio-dia; aliás,
Sofia engole a cidade, convenhamos
que Sofia é morta e nos atende por Antônio
Gonçalves Dias, nosso primeiro narciso.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Primeiro arrebenta,
desemparelhado em sua fúria.
Um problema comum
ao ministério de todos, até mesmo
em suas abstrações: um galho que venha romper;
depois, no dia seguinte, análogo
ao anterior, você o encontra, naquela posição
inócua, promíscua, reposto ao ministério
da árvore. Como reagiria a esse beco?
Encerra os olhos, ali, na hora
de encontrá-lo, como um galho que pensou.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Quero da palavra sua ruga,
a mancha da camisa sem sossego,
os tempos louros
que só cheiravam a jasmim.
É sempre o mesmo desespero,
o mesmo pé de valsa
sobre o capim.
Quero a palavra ‘carne’,
verbo que ilumina,
labirinto sem Deus.
Quero a palavra ‘morte’
o terreno da sorte
zero à esquerda
até nos momentos de gol.
Inescapável
como a fome
baixo e vil até no nome
é certo que o Rio não é mais.
A regra
é o que reza pedir.
Quero a palavra ‘cobra’
com suas
dobras e rugas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Eu sou o chaveiro, mais do que
a chave de Só se passar por mim

O que atrai
a tantos
ou é tão covarde
que morde os donos?

E tem também
o oráculo de Delfos
esculpido
em tuas mãos.

No canto
da página
como água parada

o amor – sob custódia.

 

André Luiz Pinto da Rocha nasceu em 1975, Vila Isabel, Rio. Doutor em Filosofia pela UERJ, leciona na FAETEC e SEEDUC. É autor de: “Flor à margem! (1999), “Um brinco de cetim / Un pediente de satén” (Maneco, 2003), “Primeiro de Abril” (Hedra, 2004), “ISTO” (Espectro Editorial, 2005), “Ao léu” (Bem-te-vi, 2007), “Terno Novo” (7Letras, 2012), “Mas valia” (Megamíni, 2016), “Nós os Dinossauros” (Patuá, 2016), “Migalha” (7Letras, 2019) e, em parceria com Armando Freitas Filho, “Na rua” (Galileu Edições, 2019). Seus poemas foram tema para os documentários “André Luiz Pinto: Prazer, esse sou eu” e “Autobiografias poético-politicas”, em 2019, ambos de Alberto Pucheu.

 

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

De quantas travessias é feito o caminho com as palavras? Certamente de uma infinidade delas. No entanto, há algo na jornada de um escritor que confere um sentido especial às experiências vividas. Esse algo não está na busca meramente exasperada por melhores soluções criativas; tampouco reside no terreno das exposições de uma personalidade que se mostra incensada e cultuada na esfera pública, arena que também alimenta vaidades de ocasião. Estamos a falar aqui do vigor que uma obra ganha quando volta suas atenções para perceber o humano em suas mais diversas acepções.

A noção de que as paragens literárias são instrumento de comunicação e expressão das nossas humanidades é ponto de destaque para uma literatura que fratura apagamentos sociais. E não somente a denúncia de nossas mais comezinhas e seculares mazelas aflora nesse percurso que incomoda, mas também a ideia de que é preciso mostrar universos de existência que trazem suas peculiaridades, seus modos naturais de ser e estar no mundo sem que tal matéria seja reduzida aos cínicos requintes do exotismo.

Refletir sobre certas invisibilidades e inscrevê-las na pele do texto demonstra ser um relevante objetivo para um alguém como o escritor baiano Itamar Vieira Junior. Dono de uma escrita segura e atenta às questões de seu tempo, Itamar vem construindo sua trajetória literária de modo deveras consistente. Desde livros de contos como “Dias” (Caramurê, 2012) e “A Oração do Carrasco” (Mondrongo, 2017), este último finalista do Prêmio Jabuti, já era possível perceber como o autor acenava com um domínio técnico e criativo afinado com a qualidade.

Se Itamar já nos chamava atenção com seus livros anteriores, é com seu último trabalho, o romance “Torto Arado” (Todavia, 2019), que sua obra parece atingir uma espécie de apogeu das percepções. E falar desse ponto alto não significa apenas abordar a ótima repercussão que o livro obteve, incluindo aí uma premiação internacional, mas referendar a continuidade de um processo que é marca registrada do escritor, sua capacidade de olhar para o povo negro e mostrá-lo protagonista diante das reiteradas investidas de invisibilidade patentes em nossa história. A partir da impactante atmosfera de seu recente livro, pudemos conversar com o autor sobre os processos atinentes à escrita de tão significativa obra, além de transitarmos sobre questões fundamentalmente relacionadas à condição humana e algumas de suas implicações no trato social. De todo o dito, Itamar Vieira Junior é um nome de relevância no contexto atual da literatura brasileira, não apenas pela qualidade de seus escritos, mas também pela propriedade do seu pensamento crítico e desperto diante da realidade.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Lendo “Torto Arado”, é impossível não pensar no Brasil profundo que ali está, principalmente se considerarmos tensões que envolvem as populações quilombolas e seu, digamos assim, permanente desterro. De que maneira você mergulhou no cotidiano dessas comunidades e dali retirou subsídios para a feitura do livro?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Sou geógrafo de formação e há quase 14 anos eu trabalho com as populações do campo. Primeiro no estado do Maranhão, onde conheci comunidades quilombolas, indígenas, ribeirinhos, sem-terra, e depois no estado da Bahia. Anos mais tarde fui fazer meu doutoramento em Estudos Étnicos e Africanos, que estava intrinsecamente relacionado com o meu trabalho como servidor público, e pude aprofundar minha pesquisa. A história de “Torto Arado” me acompanha há mais de 20 anos. O título, inclusive, remanesce dessa minha primeira tentativa de escrevê-lo – sem êxito – na adolescência. A história das irmãs, a relação com o pai que fala com os espíritos, todo esse núcleo central da trama permaneceu. Com o passar dos anos a história incorporou questões de ordem sociológica que refletem a minha formação, a minha ancestralidade e o interesse pela história do Brasil. Ao longo de anos – eu que nasci numa grande cidade -, tive o privilégio de conviver com camponeses, escutá-los, aprender sobre a vida no campo e conhecer suas histórias. Era o que eu precisava para retomar esse antigo projeto de escrita.

 

DA – Nessa sua aproximação com as comunidades, certamente foram inúmeras as narrativas escutadas. Ao mesmo tempo em que você teve contato com esse manancial de depoimentos, percebeu também uma necessidade de visibilizar tais grupos no seu mister de escritor? Indo mais além, diria que “Torto Arado” encerra um clamor consciente?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Primeiro acho que é desejo de qualquer escritor contar uma boa história. Embora esteja previsto no meu projeto literário percorrer caminhos diferentes para refletir minimamente a grande diversidade da nossa sociedade, o que me levou a escrever “Torto Arado” foi a vontade de contar uma história que contemplasse o anacronismo dos nossos processos sociais, a herança da escravatura, a luta pela terra como o direito mais elementar da existência porque sem chão não há vida, movimento, não há alimento. O romance trata de um grupo de trabalhadores que, em contato com outros grupos que travam lutas por melhores condições de trabalho e por terra, se identifica como quilombola. Mas poderiam ser indígenas, ribeirinhos, geraizeiro, sem-terra, qualquer agrupamento humano que detivesse este elo de coexistência com a terra que nós, ocidentais e urbanos, parecemos ter perdido.

 

DA – As irmãs Belonísia e Bibiana são algo emblemáticas na medida em que expressam, dentro de duros enfrentamentos sociais, o vigor do universo íntimo que as atravessa. Pelo olhar de cada uma delas, o livro ganha uma pulsação narrativa diferenciada, evocando o duplo interno/externo a partir do modo como ambas pensam e vivem suas trajetórias. Diria que tal escolha narrativa lhe foi mais desafiadora?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Concebi a história inicialmente narrada por uma única irmã, a Belonísia.  A determinada altura da escrita eu percebi que a diferença e a complementaridade de suas vivências só poderiam ser transmitidas ao leitor de forma plena se conhecemos as suas perspectivas individuais. E por que são as mulheres, as narradoras, e não os homens? Pelo simples fato que nesta região, no interior do Nordeste, encontrei mulheres que pela ausência do homem por diversos fatores – morte por baixa expectativa de vida ou violência, emigração para o trabalho ou mesmo o abandono da família -, as mulheres assumem um protagonismo que precisava ser visibilizado. Por isso são elas a narrarem a história. E são três narradoras que contam as suas perspectivas sobre o que aflige a população de Água Negra: seja pelo olhar infantil e sonhador de Bibiana, ou pelos gestos duros de quem não sabe viver além da terra de Belonísia, ou pelo olhar de quem pôde atravessar a história para contar que o passado não nos abandona, por mais que tentemos nos afastar. Na nossa trajetória social quase sempre iremos alcançar as respostas sobre o presente em um passado aparentemente distante, mas que se perpetua em práticas vigentes que refletem uma segregação secular e colonial.

 

DA – A atmosfera de “Torto Arado” também nos lembra a existência daquilo que podemos chamar de invisibilidade em camadas, ou seja, de experiências de apagamento que, num efeito cumulativo, agregam simultaneamente a condição da negritude, da pobreza, do ser mulher, dentre outras. O que dizer desse delicado território de humanidades?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Com a tecnologia que dispomos acho que essa invisibilidade só persiste porque é interessante ao sistema. A literatura reflete também as diferenças deste mesmo sistema: quem tem acesso à educação de qualidade? Quem pode ler bons livros, escrever conforme a norma culta ou experimentar novas formas? E durante as últimas décadas, com honrosas exceções, a literatura não refletiu a nossa diversidade étnica e cultural. Esteve durante muito tempo voltada para os conflitos da classe média branca. Esse é um ponto crucial quando me proponho a escrever: quero que a literatura se volte para as clivagens sociais, os cantos esquecidos do país. Talvez nessas experiências limites de humanos ocultados por um sistema esteja a chave para entender o todo. É o que eu gostaria de capturar com a escrita: o mais profundo dessas existências, que consequentemente será nossa também.

 

DA – A fixação do homem do campo à terra também levanta reflexões para quem lê seu livro. E estamos falando aqui duma noção de pertencimento ao solo ancestral, mesmo que não se tenha, por sucessivas gerações, a posse formal dos territórios em que tais pessoas habitam desde sempre. Na sua opinião, de que modo continuamos nos equivocando quando o assunto é pensar e viabilizar uma reforma agrária no país?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – O atual problema fundiário brasileiro reflete as questões da formação do país: a primeira diz respeito à exploração do solo brasileiro imposta pela colonização em modelo de sesmarias, que legou grandes extensões de terra a particulares que gozavam de status ante à Coroa. A segunda foi quando esse modelo de sesmarias foi substituído pela lei de terras de 1850, que firmou a compra como a única forma de acesso à terra. E quem poderia comprar? Foi assim que se consolidou parte da nossa desigualdade social, que poderia ter sido corrigida pela reforma agrária, que foi, nos últimos governos, incipiente, e agora se encontra definitivamente abandonada como política pública. Esta é a nossa mais elementar questão social, porque um país não pode prescindir de alimentar a sua população de forma extensiva e ambientalmente correta, protegendo a natureza. Não pode querer que sua população renuncie o direito à terra, porque sem a terra não há vida. Ainda não temos asas para vivermos suspensos na atmosfera, e mesmo os que têm, os pássaros, precisam descer para comer o que nasce do chão. Daí a importância dos muitos movimentos que lutam por seus territórios: indígenas, quilombolas, dos atingidos por barragem e ribeirinhos. Para essas populações, a terra não é um bem econômico, mas, sim, a sua história. É a extensão de seu corpo. É a sua morada. E o modelo neoliberal em curso privilegia as grandes corporações que não têm nenhum vínculo com a terra, que a usa como um recurso sem vida, sem passado ou qualquer esperança de futuro. Não há conciliação quando se tem os graves problemas fundiários, que não são somente fundiários, mas fundantes da nossa desigualdade social.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Nos últimos anos, o meio acadêmico tem sido cada vez mais palco de pesquisas, dissertações e teses que buscam discutir e repensar os diversos apagamentos sociais que enfrentamos cotidianamente. Você mesmo é egresso de um doutorado em Estudos Étnicos e Africanos, por exemplo. De que forma tais esforços podem romper o confinamento universitário e ser algo efetivos na sociedade?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – As pesquisas e o pensamento decolonial que encontraram abrigo nos centros universitários têm chegado de muitas formas à sociedade. A literatura é apenas um dos caminhos que tem sido percorrido. De forma pragmática, essa produção acadêmica tem sido atravessada pelo pensamento decolonial: da arquitetura às ciências humanas e sociais, passando pelas artes. Ela tem possibilitado a construção de uma sociedade menos desigual, onde se discute e se pensa formas de reduzir os danos de nossa própria história. Principalmente quando as pesquisas estão voltadas para fora da universidade, quando não se encerra nos gabinetes e salas de aula, e tenta pensar o mundo com os próprios sujeitos da história. É claro que essa evolução não é permanente, nem mesmo constante, um exemplo é o estado de regressão das pautas sociais em que o Brasil e o mundo mergulharam nos últimos anos. Mas a produção universitária continua, mesmo sob ataque, e será um farol para reconstruirmos o que está sendo destruído.

 

DA – Em escala global, acredita que estamos vivendo um processo de desumanização?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Não creio. Se olharmos a trajetória da humanidade, cercada de violência e grandes calamidades, vivemos uma época de ouro. Houve avanços para os direitos humanos no século XX, muitos surgidos a partir de grandes tragédias, como o holocausto nazista. É claro que vivemos em um mundo conservador, pouco afeito às mudanças, então elas quase sempre vêm acompanhadas de reações, como as que vivemos atualmente com a ascensão política da extrema-direita e dos regimes autocráticos em alguns países. Mas a humanidade tem ganhado consciência, humanidade, e nosso século promete mais avanços em relação aos direitos humanos.

 

DA – Sua carreira literária hoje assinala uma visibilidade bastante significativa, com sua obra sendo reconhecida e atingindo repercussão dentro e fora do país. O que mudou, de fato, em sua trajetória em face dessa projeção? O homem Itamar hoje é sujeito de ânimo renovado em face dos aprendizados? 

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho que o mais interessante disso tudo foi o contato que pude estabelecer com escritores e leitores, seja no Brasil ou em Portugal. E também o fato do livro ter sido editado por um grande grupo editorial me fez conhecer o trabalho dos editores de carreira, as estratégias de marketing e a profissionalização da escrita. Tenho aprendido muito, mas, de fato, pouca coisa mudou. Porque o que continua a me mover é a paixão pela literatura, e para tanto não precisei estabelecer uma carreira ou obter um prêmio, apenas dei liberdade à minha intuição.

 

DA- Há quem sustente que mergulhar nos caminhos da arte seja também uma alternativa para suportar o peso que a realidade das coisas nos impõe em certa medida. É razoável considerar essa espécie de fuga diante do universo oceânico e desafiador que é o autoconhecimento?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Não considero a arte uma “fuga”, ela é parte da experiência humana. Desde as pinturas rupestres, que datam de 40 mil anos, aos nossos dias, o que existe e persiste é a necessidade do homem criar e comunicar a sua existência. Concordo que dentro do conjunto de expressões humanas, a arte talvez seja a que nos permita “suportar o peso da realidade”, porque está intrinsecamente relacionada à nossa dimensão subjetiva. É nela ou a partir dela que nos autoconhecemos: o medo, os afetos, as grandes questões da vida, ainda que num plano subjetivo. Por ser subjetivo, talvez nos permita emular a nossa própria vida e enfrentar os problemas que estejam por vir. A literatura, em especial, é generosa neste sentido: quando pegamos um livro para ler nós estabelecemos um “contrato” com o autor e as personagens de que, durante um período, no processo silencioso e íntimo da leitura, “viveremos” aquelas vidas. Assim, nos colocamos no lugar do outro num denso movimento de humanização. É o que chamamos de empatia.

 

DA – Afinal, por que escrever?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Esta é uma pergunta interminável, porque não se encerra em nenhuma resposta. Lembro de ainda adolescente ter lido uma entrevista da escritora Rachel de Queiroz e fiquei muito intrigado com a resposta à mesma pergunta, onde ela dizia que escrevia porque não sabia cozinhar. Anos depois vi uma lendária entrevista do jornalista Jaime Lerner à escritora Clarice Lispector que devolvia a pergunta com outra pergunta: “e eu sei?”. Eu imagino que esse imenso desejo humano de se comunicar e legar para as gerações futuras um registro é que nos move a ler e interpretar o mundo através da arte. Penso nos homens e mulheres que nos deixaram registros da arte rupestre, quais eram as suas intenções ao pintar as paredes das cavernas que habitavam? Certamente queriam comunicar algo aos seus pares e legar, quiçá, registros para as gerações que viriam. O que me move a escrever é a vontade pessoal de registrar o meu tempo, de comunicar aos que se interessarem o meu olhar sobre o mundo, que reflete por sua vez os olhares dos que me influenciaram. Ao mesmo tempo, escrever reflete uma fé inabalável na literatura, não de que ela possa mudar ou alterar nada, mas de que possa ser um exílio, confortável ou não, para os que buscam conhecer a si mesmo.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Pintura: Canato

 

Aos poucos, mais um ano se despede de nossos domínios. Sem dúvida alguma, é outro ciclo de realizações que completamos no transcurso histórico da revista. É impagável manter a chama acesa, ter vontade permanente de seguir com um projeto editorial dessa monta. Acima de tudo, é incomensurável o retorno que emana como resultado das ações todas. O ânimo se renova cada vez que percebemos o interesse das pessoas em alimentar nosso caminho com colaborações que são fruto de suas vivências e mergulhos no fértil terreno da Arte. E aqui decompomos o termo para abarcar as expressões literárias, cinematográficas, musicais, teatrais, a fotografia, a pintura, as ilustrações e desenhos dos mais variados participantes. Enfim, inúmeras são as possibilidades de atuação no contexto da Diversos Afins. Ao mesmo tempo, notamos que se forma um movimento espontâneo de pessoas em torno do projeto, dinâmica tal que move encontros nos campos da palavra e da imagem. Realizar é preciso. Coisas precisam ser ditas. O pensamento necessita da amplitude dos horizontes. A Arte é instrumento de comunicação. Mais ainda, é território de expansão das nossas humanidades, da consciência do nosso lugar no mundo. Ela também é ferramenta de partilha social em plena contemporaneidade, era que vem apresentando tensões em escala global, seja no aspecto geopolítico, seja no quesito ideológico, para não dizer em outros muitos mais. Cada autor que aqui desfila suas criações é, em última instância, alguém a dividir conosco (editores e leitores) saberes e sabores desse complexo denominado existência. Para além dos instintos mais básicos, de que realmente temos fome? Arriscamos em considerar que temos fome de poesia, dessa a que aludem os versos de gente como Alex Simões, Clarissa Macedo, André Rosa, Bárbara Bittencourt e Pedro Vale. Desejamos também os sinais da perplexidade presentes nos contos de Viviane de Santana Paulo e Rodrigo Melo. Agora somos contemplados com a reinvenção do humano abordada nas pinturas de Canato e que estão dispostas pelas vias da nossa nova edição. É Helena Terra quem nos mostra suas reflexões sobre o livro de estreia da poeta Priscila Pasko, Como se mata uma ilha. Com sua verve analítica sempre atenta, Guilherme Preger fala a respeito do instigante filme sul-coreano Parasita. Numa entrevista, a escritora Lelita Oliveira Benoit expressa reflexões sobre seu novo livro, bem como areja ideias em torno de sua trajetória e outros afins literários. Vinicius de Oliveira discute aspectos do romance Rio Negro, 50, obra de Nei Lopes que traz à tona abordagens históricas sobre a questão racial brasileira.   Apresentando suas observações sobre a peça Nastácia, que é baseada na obra de Dostoiévski, Vivian Pizzinga adentra as vias da seara teatral. Com sua pesquisa musical sempre ativa, Pérola Mathias desfila entre nós as suas sensações para o disco Na Base do Cabula, do cantor e compositor Roberto Mendes. A julgar pelo acervo aqui apresentado, há um conjunto de partilhas disponíveis. E é com grande prazer que anunciamos que ele faz parte de nossa 133ª Leva. Boas leituras e mergulhos!

Os Leveiros