As utopias acabaram
em nome da televisão,
um erro feito
pelo preço do petróleo
Eu te amo, tu me amas
e o verbo já não pode mar
Em nome de Cristo
muitas guerras foram dadas
em nome da dívida
uma tristeza no tronco do país.
Todos os mestres morreram
e na tua carne se desenha
traços que inauguram um título
baralho aberto no avesso da palavra,
asa feita de corpo e de coragem
O mundo agora
cruza um lago sem memória
e em alguns anos
estaremos mais pobres
mais burros
mais tristes
na alma e no prato ( )
Cresce um rasgo
em massa e sem história
na palavra-passe chamada pátria –
essa nódoa, essa traça
esse vazio imenso do nome
no mito de um tempo chamado aflição.
***
Faísca
Ontem havia esperança
toda a esperança do mundo.
Hoje sou um estilhaço
um catálogo de dúvidas
e desejo.
Os pássaros não voam mais
e o dia que nasce
é o luto ordinário, grave,
posto sobre a mesa.
A boca diz o que o coração fala
e a dor é antiga:
chega, se instala
abre ocos na aorta, devagar,
para o aprendizado – ………………………………………do enigma
……………………………………….. da sutura ……………………………………………………..da ferida ……………………………………………………………………..da beleza.
Os fracassos… saúdam uns aos outros;
o que fica é o peso
a humilhação calcada nos olhos.
Digam que perdi:
que faltei às classes de empreendedorismo
e visitei às de angústia e miséria;
que não vou ao shopping
que rasguei os papéis e os comi.
Digam que perdi tudo:
a fé, o sonho, o dinheiro que não sobra
mas amo como se fosse eu o país
essa cavidade aberta
exposta, sangrando até a morte.
***
Versículo
1º Evangelho do Capital, 1, 1º. não derramarás coca-cola
em vão: / tomarás todo o néctar da garrafa não-reciclável;
/ não catarás os meninos e suas tampilhas, / ao risco de
ser apedrejado / ante a primeira vitrine; / patrocínio do
produto cuja etiqueta cobre o líquido do tiro perfurado.
***
Carnê
logo cedo a caminho do trabalho
olho a lista de coisas pregada na geladeira de 10 prestações ……………………………………………………………………………..[que não foram pagas
a mesma que congela ovos e óvulos da casa
a mesma que assiste na tv a cidadã que reza,
corta e mata em nome da moral etc. e tal
e que aparece no outdoor da cidade – esse espelho de ………………………………………………………………………….[simulacros;
geladeira que congela, escorre,
que não refresca a água da casa onde vive quem uiva sem
[presas a lista de coisas e a violência no coração seco do mundo
***
Arado
Nesta contrição feita de nuvem
o seixo que a conforma
é um sortilégio de canções
um sem fim que aflora
e deita à fera
um fio de água
que dos olhos brota
; assim entra no limbo
deixando fora as contas,
o salário baixo, a feira pobre
e até mesmo a nação
– esta que dói
por sangrar o cofre
deixando a nu os que plantam
e não colhem.
***
Rito
Sou uma tripa de pedras
que se escoam na ciclovia
das aves a morder o tempo
e seu desvão de tic-tacs
uma esfinge que choraminga
sem oráculo e sem os cactos
que não dormem;
tudo o que vive
é esta parede sem reboco
que observa, vigilante,
a goteira da sala
e se confunde com meu choro
a tomar as unhas, os canos
o cimento da massa;
quatro cantos
e os signos do calvário.
***
Certidão
Se pudesse
arrancaria meus nomes
um a um
para desbaratar
a lápide que me cobriu
na vida.
Clarissa Macedo (Salvador – BA), licenciada em Letras Vernáculas, mestra em Literatura e doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. É autora da plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra – 2014) e do livro Na pata do cavalo há sete abismos (7Letras – Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia – 2014, em segunda edição pela Penalux, 2017 – 3ª reimpressão, 2019), ambos de poesia. Entende a literatura como ferramenta para um mundo melhor.
Revisito os arquivos do tempo e chego até o ano de 2008. Na ocasião, pude me deparar, pela primeira vez, com as pinturas de Cláudio Canato, artista plástico paulista. Mas esse seria apenas um mero relato de uma descoberta não fosse o impacto que as obras do artista causaram em mim àquela época. Chamava atenção naquele momento o modo como o artista reproduzia as formas humanas, deixando entrever a naturalidade de gestos e expressões das figuras retratadas.
Foi, então, que promovemos na Leva 21 uma pequena exposição com alguns trabalhos de Canato. Era possível perceber ali que havia toda uma peculiar forma de se lidar com as construções figurativas do humano. E como o próprio artista sustenta, ele desenvolveu uma maneira própria de pensar a representação humana em suas pinturas, engendrando um modo de conceber pessoas como resultado direto de sua imaginação, ou seja, sem o uso de modelos como ponto de partida para a criação. O especial nessa atmosfera criativa é pensar que a obra de arte eclode a partir do âmago de quem a cria, dinamismo de epifanias interiores.
Canato não nega o mundo. Ainda que seus corpos e rostos sejam marcados pelo traço inaugural da descoberta, há uma comunhão com signos universais de nossa existência. Por não negligenciar aquilo que também somos enquanto espécie, o artista em questão ressignifica as experiências humanas a seu modo.
Pintura: Canato
A anatomia do corpo tem seu idioma específico no conjunto da obra desse paulistano. São contornos e formas que exalam tensões da natureza humana, revelando também contrastes entre a celebração do gozo das vivências e os embates questionadores da nossa jornada. Mas eis que o corpo, em sutis jogos de luz e sombra, é pensado pelo artista como algo sacralizado não por constituir matéria de perfeição idealizada dos homens, mas como o próprio retrato da dualidade e das oposições entre o físico e a aspiração espiritual. A despeito disso, estão os murais pintados por ele, bem como as obras que compõem tetos de algumas capelas em São Paulo.
Há uma diversidade de possibilidades nas frentes que o artista atua. São exemplo disso não apenas os murais e capelas já mencionados, mas também retratos, desenhos, séries e um olhar voltado para a literatura infantil, na qual Canato ilustra e redige textos de alguns livros. No que tange aos murais, há um em específico que vem se destacando como um dos trabalhos mais significativos do artista na atualidade. Trata-se de “El Quijote”, que foi pintado no Colégio Miguel de Cervantes, em São Paulo. A importância dessa obra certamente está no modo como, num ambiente escolar, a arte se insere de maneira natural na construção do saber, instigando a curiosidade dos alunos não apenas em torno do processo criativo, mas da temática abordada.
Mesmo tendo sido influenciado por componentes estéticos advindos, por exemplo, de movimentos como o Renascimento e o Barroco, Canato não abre mão de pavimentar seu próprio caminho no quesito criação. Para tanto, promove seus mergulhos pessoais nos temas pensados, retirando deles construções que advogam pelo exercício de sua individualidade artística. É de se considerar que rupturas com o passado não são obsessões do artista, tampouco constituem alguma espécie de peso. Com leveza e percebendo seus chamamentos interiores, Canato ressignifica o humano com aquilo que tem de melhor, sua assinatura.
Pintura: Canato
* As pinturas de Canato são parte integrante da galeria e dos textos da 133ª Leva
Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.
Parasita (Gisaengchung ), de Bong Joon-ho, é o filme ganhador da Palma de Ouro de Cannes de 2019. Original da Coreia do Sul, ele repete o sucesso de crítica do cinema oriental que em 2018 fez de Assunto de Família, filme japonês, o vencedor do mesmo festival de cinema (resenha aqui).
Há muito em comum entre o filme de Kore-eda e de Joon-ho. Ambos retratam a vida de famílias japonesa e coreana, respectivamente, pertencentes ao estrato mais pobre da população em seu cotidiano de pequenos golpes por sobrevivência. No entanto, no primeiro filme temos uma família fictícia, enquanto no filme coreano é uma verdadeira família. Em comum, há também o apuro da produção estética. Parasita se utiliza de todos os recursos técnicos da edição contemporânea, incluindo a trilha-sonora pop, numa linguagem cosmopolita e globalizada.
E ambos os filmes também encenam a luta de classes no seio desta globalização estética: a vida das famílias que precisam se virar para poder sobreviver são exemplos do precariado global que sustenta com trabalhos completamente informais, e não raro clandestinos ou ilícitos, o cosmopolitismo estilizado de consumo nas sociedades ricas.
Parasita logo nas cenas iniciais apresenta sua metáfora principal. A família que vive no térreo de uma construção abaixo do nível do asfalto se mostra desesperada pela perda do sinal da rede sem fio que usufrui clandestinamente de algum vizinho, pois este resolveu colocar senha de acesso. Assim, o termo parasita assinala essa figura informática que intercepta uma comunicação que não lhe pertence.
Foto : The Jokers – Les Bookmakers
A família nuclear formada por pai, mãe e dois filhos jovens embala caixas de pizza para um delivery da vizinhança. A perda de acesso à rede é um desastre para a família que depende da internet para poder realizar seus negócios de sobrevivência. O filme se passa na Coreia do Sul que é um dos países com maior densidade de acesso digital. Justamente na Coreia, não acessar a rede é estar fora da cadeia de valor altamente informatizada que fez de um dos países do Terceiro Mundo, com renda menor do que o Brasil nos anos oitenta, grande referência na produção tecnológica avançada.
Mas um lance casual muda a sorte da família. O filho adolescente Ki-Woo é convidado por um amigo refinado a substituí-lo como professor nas aulas de inglês para uma família da classe rica de Seul. Ki-Woo começa então a dar aulas para a filha do casal endinheirado que mora com seus dois filhos menores numa mansão construída por um famoso arquiteto coreano. É então que o jovem vê a oportunidade, através da astúcia e do logro, de inserir toda a sua família para trabalhar na casa. Mas para isso é preciso não apenas enganar a família rica, mas também afastar dois serviçais de confiança, o motorista e a governanta, esta última trabalha na mansão desde o antigo dono. Os dois serão despedidos pelo conluio da família que se insere no cotidiano da mansão.
Assim, a primeira metade do filme se passa como uma comédia de costumes. A malícia da família pobre ludibria a ingenuidade da família rica para usufruir dos confortos dos privilegiados e de seus signos de ostentação. A família pobre então parasita a riqueza da outra família a partir de verdadeiros “golpes de mestre”. O problema é que a perfídia para afastar os também pobres serviçais de seu caminho retorna amargamente para estragar sua gozosa parasitagem. Eles descobrem através da volta da governanta demitida e ultrajada que a casa possuía outro habitante escondido num bunker subterrâneo da casa, construído pelo antigo arquiteto como refúgio de um possível ataque nuclear da vizinha Coreia do Norte. Trata-se do marido da governanta, há anos escondido no bunker, fugindo supostamente da cobrança de dívidas. Como mostra o filme Pietá do também sul-coreano Kim-Ki duk (2012), a cobrança violenta de dívidas é um dos maiores problemas sociais da Coreia do Sul.
Foto: Koch Films
A partir dessa reviravolta, a comédia se transforma em humor negro e macabro. A divisão de classes entre família rica e pobre é transposta para a guerra cruel entre as famílias pobres que toma lugar na mansão durante a ausência da família rica, em viagem de feriado, como um tipo de ocupação política de seu espaço. O enredo escalona vários níveis de parasitagens: o casal formado pela antiga governanta e seu marido também parasitava a família rica, assim como o bunker no porão parasitava a mansão. E alegoricamente a nunca terminada guerra com a Coreia do Norte parasita o imaginário do sucesso econômico da Coreia do Sul.
Ou ainda, de forma mais sugestiva: o sucesso econômico da Coreia do Sul é parasitado por sua condição de país periférico, cuja função é gerar mais-valia para as economias centrais. Os novos ricos da economia coreana são parasitados pela crescente desigualdade social que alinha as economias globais. E aqui se abre então um paradoxo que o filme de Joon-ho articula: não são os ricos que efetivamente parasitam a produção de riqueza dos mais pobres? Quem parasita quem é uma questão de perspectiva.
Parasita então revira através de uma espécie de geo-estética a lógica hierárquica do cosmopolitismo liberal da linguagem cinematográfica globalizada. Para usar um termo do ensaísta Silviano Santiago, há um “cosmopolitismo dos pobres” neste filme sul-coreano. Se por um lado, a Coreia do Sul, com seu novo cinema de sucesso e a linguagem comercial do K-Pop, consolida um eixo hegemônico internacional de consumo estético e figura um novo imaginário cultural para a região extremo-oriental, no filme de Bong Joon-ho a luta de classes é interiorizada como guerra bruta do precariado. Pois, mais do que qualquer outro, o trabalhador precário é o símbolo corporal da nova economia neoliberal. Ele marca a fronteira pela qual essa economia se expande e se globaliza. O filme figura a má consciência, ou mesmo o inconsciente recalcado dessa expansão.
Foto: The Jokers – Les Bookmakers
O cosmopolitismo dos pobres sul-coreanos devora por dentro a perfeição técnica da cinematografia do país emergente com cenas de brutalidade próximas ao pastelão. De fato, a cultura de exportação se tornou um elemento poderoso no PIB oriental que abala a hegemonia estética ocidental. A família rica, no entanto, dá mostras do desejo de imitar e simular os padrões ocidentais. São os pobres que vivem do trabalho cada vez mais informatizado e informalizado que realmente se tornam internacionais. Que sabem inglês melhor do que os ricos, que usam a internet para aprender sobre arte-terapia. A pobreza se globaliza, enquanto a riqueza se torna ridiculamente provinciana. A riqueza parasita o conhecimento de vida dos mais pobres que experimentam o real para além do fetiche das imagens publicitárias. E o real retorna no filme como um elemento intimamente corporal: o odor.
O odor é aqui um sinal do real que insidiosamente penetra as barreiras porosas entre as classes. Num certo sentido, é o odor que traça a distinção entre elas. Entre uma classe “pura” e “higiênica” que se relaciona sexualmente apenas no conforto do lar e uma classe “impura” e “suja” que transa com qualquer um e ainda fede. Iguais em suas próprias ilusões de posição, parasitas de um sistema globalizado que se expande numa lógica algorítmica e automática, a fantasia das classes reduz as pessoas a seus corpos-objetos. E a distinção de classe se marca nesses corpos impuros e vulneráveis. Fora do corpo e de suas emanações, a vida é não mais do que a projeção fantasiosa ou fantasmática do sucesso profissional, da riqueza fácil e da ostentação, fantasias parasitadas pelos sonhos utópicos de reconciliação.
Guilherme Preger é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética Caneta Lente e Pincel (canetalentepincel.art.blog). Escreveu sobre cinema para o site Ambrosia.com.br.
Numa recompensadora jornada que sabe a encontros, leituras e expressões da palavra e da imagem, a Diversos Afins completa 13 anos de existência. Poderia ser um mero marco temporal e numérico, não fosse o impacto grandioso que o conteúdo veiculado em nossas páginas e cadernos produziu. Todo esse conjunto de realizações virou realidade a partir da extensa colaboração de autores e artistas das mais variadas vertentes. Desde a sua fundação, em 2006, a revista vem experimentando cenários múltiplos de potência criativa. Com o decorrer do tempo, inúmeras vozes ajudaram a consolidar um projeto que sempre visou divulgar expressões culturais que tivessem como marca fundamental o transitar sensível pelos enlaces de nossas humanidades. Daí, as descobertas, revelações e surpresas foram se manifestando ao longo do caminho, trazendo até nossas levas o gosto perene do aprendizado. O ideal de diversidade pretendido e alcançado é um dos pontos de êxito da revista e, a cada edição que surge, a certeza de que contemplamos vozes peculiares e singulares vai se consolidando. Estar em permanente contato com criadores e suas produções renova a perspectiva do aprendizado com o engenho editorial, pois nos faz prestar especial atenção para todo um universo não apenas de obras, mas, principalmente, de construção e representação de subjetividades. Por trás do artista ou escritor, há o sujeito, com suas experiências, repertórios de vida, modos de pensar, idiossincrasias, sua bagagem identitária e, o que é melhor, sua verdade pessoal, esta última forjada pelo ato impreciso de existir. A identidade editorial da revista contempla também o exercício da resistência na medida em que viabiliza espaços para novos autores e para aqueles que margeiam o chamado mainstream. E falar do exercício de uma resistência implica também em assinalar a presença de vozes minoritárias marcadas tradicionalmente por pressões de apagamento e exclusão, as quais veem na literatura e nas artes uma ferramenta inalienável de sobrevivência das suas subjetividades. Aliás, o próprio ímpeto de tocar a Diversos Afins adiante pode ser tomado como um ato de resistência na medida em que territórios humanos visitados desacomodam expectativas desbotadas. Assim, cada leva aqui delineada serve de impulso para celebrar os encontros servidos a palavras e imagens, gente que se aproxima e nos ajuda a pavimentar as veredas culturais. Pensando nas aproximações humanas do presente, é, por exemplo, o caso da escritora Rita Santana, poeta cuja entrevista revela a potência feminina de uma criadora em estado constante de poesia e enfrentamentos diante dos desafios do viver. Tomados por ventos provocadores dos sentidos, vemos também agora circular entre nós os versos de Alberto Bresciani, Bruna Mitrano, Stefano Calgaro, André Merez e Mell Renault. Relatando sua experiência à frente do Projeto Profundanças, a poeta e performer Daniela Galdino faz um breve balanço do coletivo que privilegia a produção artístico-literária de mulheres das mais distintas regiões do Brasil. Mantendo uma pertinente assiduidade de questionamentos que transitam entre o social e o político, Guilherme Preger discorre sobre o instigante filme brasileiro No Coração do Mundo. No conto inédito de Sérgio Tavares, o denso e provocativo retrato de uma nação e seus equívocos. W.J. Solha comenta o impacto do livro de contos Espantos para uso diário, de Mário Baggio. Na prosa de Ana Blue, corre solta a ironia que recobre nossos movimentos cotidianos. No caderno de música, Wilfredo Lessa Jr. se depara com o resultado de suas escutas para Jesus Is King, novo e emblemático disco do rapper Kanye West. É Geraldo Lima quem nos conduz pelas incursões narrativas contidas no mais novo livro de Lima Trindade, o romance As margens do paraíso. E coroados estão todos os recantos da nossa edição de aniversário com as fotografias de Luiz Bhering, artista que percebe sentido em cada território sobre o qual seu olhar repousa. Dedicada a todos os nossos colaboradores e leitores das nossas mais distintas eras, eis a 132ª Leva!
eu passo tanto tempo debaixo do chuveiro que eu já bolei um filme inteiro sobre uma mulher que passa muito tempo embaixo do chuveiro. as crianças vêm e se despedem para a escola, a empregada pergunta o menu do almoço, o marido vem atormentar com as contas, mas o tempo todo ela está ali debaixo do chuveiro, com uma cara de quem já desistiu. o chuveiro é o confessionário dos céticos. eu passo tanto tempo debaixo do chuveiro que eu acordei às 7h30 e de alguma maneira já são 9h55. o chuveiro é um abraço
***
o bicho
quando o bicho pega, eu lanço mão das minhas estratégias. eu pinto a unha, pinto o cabelo. às vezes tiro até a cutícula. ouço umas músicas fundamentais, que eu elejo de tempos em tempos. tomo um banho muito quente. faço bolo. faço bolo mais de uma vez. quando o bicho pega eu tento não olhar pra ele. eu varro a casa tantos dias não varrida e reprogramo o ciclo da máquina outra vez. se o bicho pegou muito mesmo, eu lavo o chão da cozinha de fora a fora esfregando cif desengordurante nas paredes. minhas vitórias têm cheiro de cif desengordurante. porque quando o bicho pega eu sei que ou é viver ou é desistir, dormir pra sempre. mães não podem dormir pra sempre, nem filhos. a busca nunca foi, nunca será o caminho da dor. será o do riso, o da carícia, o dos corações que se conectam, se conhecem, se falam. o dos filhos protegidos. e a gente enfrenta um zilhão de coisas todo dia por um pouquinho de amor. o peito não pode doer. nada do que dói é normal. a dor, na poesia e na ciência médica, é pra sinalizar doença. quando o bicho pega, tudo dói. dói minhas costas, dói o pescoço, o ciático, eu nem tenho idade pra saber o que um ciático em crise representa. quando o bicho pega, e eu tenho que decidir viver, e não me deixar ficar doente, ele me pega frágil, na cama, sem fome, não me deixa comer. não me deixa levantar, não me deixa dormir. mas me pega mãe, mulher e resistente. eu lanço mão das minhas estratégias. é hora de vencê-lo, porque quem escolhe viver não entra no caminho da dor. o que dói é doença. quem escolhe viver tem estratégias permanentes pra se fazer funcionar. mesmo as mais bestas. eu tiro os pelos da cara, eu pinto o cabelo. estou em milhares de praças, eu estou toda de preto e vermelho. eu passo batom. eu visto roupa bonita. quando o bicho pega eu sei que é hora de ficar limpa, tomar banho e almoçar e tirar roupa do varal, lavar banheiro. é hora de pensar em ganhar dinheiro e viver de cabeça erguida, pagando limpo. esse bicho me pega e me bota doente, tristinha, magrela. mas eu saio heroína, querendo casa limpa, vida decente, comprar da vitrine sem perguntar preço. se a gente souber dominar e viver com o bicho da gente, a gente vive. a gente sai da merda. eu garanto. eu conheço o meu bicho. ouço o que ele me diz. ele tem razão, a maioria das vezes
***
doida varrida
não sei muito bem com qual intuito, mas minha mãe me contava histórias escabrosas da roça, às vezes até mostrando o local do fato trágico – e, muitas vezes, sobrenatural – ocorrido. tinha a história do menino do rio, torturado e escravizado, e da volta morena. tinha a história da noiva na igrejinha e a da criança que morreu afogada no poço porque a mãe não deu mortadela. todas envolvendo morte jovem e trágica, mas a única que me assustava mesmo era a da simpatia da bananeira. nem tinha morte, mas tinha loucura. perder para a morte é menos cruel que perder para a loucura
minha mãe jurava de pés juntos que há muito tempo uma moça muito ingênua e pobre foi convencida por outras moças, um pouco mais cruéis e abastadas, a fazer uma simpatia para arranjar marido. o ritual envolvia cravar uma faca no coração de uma bananeira à meia-noite
e lá foi a menina, esperançosa, na hora determinada, apunhalar a verde amiga que nada fazia da vida além de parir bananas – ao que as outras aparecem gritando, gargalhando sinistramente na mata escura, jogando ovos nela, fazendo sons animalescos, vestindo máscaras terríveis na cara. dizem que a moça, coitada, nem bem aos quinze anos, ficou doida, doida varrida, traumatizada
a moral da história, pelo que eu entendia da minha mãe, é que no fim das contas, se a gente não abre olho, a gente fica doida varrida por causa de homem
***
amor pra mim
amor pra mim é parar em qualquer barraquinha de comida e agradar a barriga com qualquer dinheiro. amor pra mim é oferecer o casaco quando o meu eu esqueci. amor pra mim é comprar presente besta só porque saiu o fgts inativo. amor pra mim é suportar parente embriagado e farofeiro. amor pra mim é lembrar que se levar coca diet pode dar morte. amor pra mim é caminhar do mesmo lado na rua e ouvir a minha voz entre outras milhares de outras vozes. amor pra mim é fazer cofrinho junto com moeda de um real. amor pra mim é buscar sempre o mesmo alvo com o mesmo olho. e mais que com o mesmo olho, o mesmo olhar. amor pra mim é não deixar de ser o que era antes, mas deixar de ser também, pra ser melhor. amor pra mim é levantar antes e passar o café, buscar pão. amor pra mim é nem brincar com a ideia, deus me livre, de ver amor chorar. amor pra mim é nem brincar com a ideia da falta, da fome, de não ter em quê acreditar. amor pra mim é passear o cachorro. amor pra mim é lembrar que prefiro queijo prato. amor pra mim é jogar o lixo lá fora. amor pra mim é uma eterna adaptação de dois lados, perfeitamente opostos mas equilibrados. amor pra mim é um mundo onde uma pessoa vai ligar e a outra vai atender. e se uma não ligar, a outra liga. e tudo bem. amor pra mim é uma conversa que não termina mesmo se ninguém ligar. amor pra mim é um lugar de respostas, não de perguntar. amor pra mim é não precisar passar pela terrível espera do desconhecido. amor pra mim é comprar chocolate. é saber ganhar também. amor pra mim é uma barriga quentinha
***
pose antipática
eu tive um casal de tios que brigava à beça. ela queria passear com as crianças e comer coisas gostosas, mas ele queria só dormir. não gostava de nada na vida. ela queria exibir as roupas novas e os batons da avon, mas ele nem bem olhava pra ela. não gostava de nada da vida
não gostava do flerte nem das coisas das crianças, não gostava do trabalho que o casamento dá. o tempo todo enfiado no sofá da sala com um ar de quem nem estava ali. vai ver nem estava. era um holograma tradicional brasileiro. várias vezes me assustei de entrar na casa deles e ver ele lá, o espectro de um pai, de um marido, de um homem cansado que não quer nada da vida além de uns tantos maços de derby
separaram, claro, muito bem separadinhos, a separação é o destino inevitável dos homens que não gostam de nada da vida. mas ainda hoje eu lembro que, depois das discussões, eu o flagrei várias vezes deitado no chão, na frente da porta do banheiro, se esgueirando naquele um centímetro e meio de abertura pra ver minha tia pelada tomando banho
ele podia ter a mulher inteira, qualquer hora, se a ouvisse, mas achava melhor perder a mulher que a pose antipática
***
algoritmo
se trombam na rua, do nada
– oi fulane!
– oi cicrane!
– como tão as crianças?
– eu te liguei a semana inteira e só deu caixa postal
– fiquei sem carregador. e bertrane, tudo bem?
– liguei domingo de manhã, domingo de tarde, segunda e ontem
– sei… celular desligado. seu cabelo tá bonito, cortou?
– impossível falar com você, se precisar numa emergência não consegue
– eu não sou muito assim de celular não… e o emprego novo lá, tá curtindo?
– botei crédito só pra ligar pra você
– bom te ver… eu vou andando pra casa, vamo marcar alguma coisa?
– só ontem eu liguei três vezes
***
pote de memórias
doce de leite pastoso. um vício escroto, um vício triste. meto a colher uma, duas, três vezes no pote, absorta. chupo lentamente a colher, fazendo bicos e tudo o mais, de modo que o doce forma um pequeno bolo em cima, um bolo redondo, lambido pelo céu da boca. tem graça assim, comer devagar, sentindo bem o sabor. criança, era obrigada a comer depressa. eram muitas bocas sôfregas em casa
meu vício em doce de leite pastoso me levou a crimes. a assaltar muitas vezes a geladeira da rose, com a colher em punho. e enfiar o produto roubado todo de uma só vez na boca. pobre rose, que morreu dando à luz ao terceiro filho. minha tia levava as sobremesas todas da filó pra gente, um bando de criança esfomeada, eu lembro. comia rápido, pra ninguém tirar o que era meu. eu tenho pressa do gosto. enfio a colher no pote, terceira, quarta vez. doce de leite pastoso é um pote de memórias
ana blue, 32 anos, brasileira, tico-tico no fubá, nascida e domiciliada em nova friburgo, rio de janeiro, brasil, registrada no cpf sob um número de onze dígitos que nem todo mundo, jornalista, cronista e poeta há trocentos anos, mãe de três garotos maravilhosos, declara, para os devidos fins, que qualquer semelhança com a sua vida nesses textos não é mera coincidência, porque sofridos e esperançosos somos todos nós
Ouça, rosto ungido pelo vento
as menores cascas estão secando a umidade dos canais
não era mentira quando disseram que a barreira iria mudar a rota e a construção de nossas casas de areia
mas mesmo assim o hibisco preso atrás da sua orelha representa a sua ordem imperativa de paz
combina suas marcas vermelhas com o dourado cerrando suas pálpebras de ferro
e não se deixe fugir
ouça,
não se deixe fugir como uma forma de medo pela aniquilação
não deixe de ouvir o vento empurrando sua franja para os montes
não deixe de bater os dias com um pé e com as mãos que recolhem as farpas
não deixe fugir sua vantagem
***
roo e agradeço às pequenas coisas
por expulsar os estertores da memória
que deixam num facho os dias congelados
como que de púrpura
e a memória aberta
não estanque……………………ao sol aberto
vendo com olhos semicerrados que uma pessoa é sempre a minha melhor ferida
e por isso tenho vivido sempre entre os seres inanimados e os animais domésticos para ver amar de novo
ver outra cor espraiar do terceiro hemisfério
ver outra cor espraiar dos horizontes
quase sempre semicerrados
mas ainda abertos
***
É chegada a hora que você se espanta com o osso que sai do meu peito
eu confiro a profundidade do seu umbigo com meu dedo fura bolos
por baixo do lençol a história de suas estrias de quando você cresceu rápido demais
por baixo dos meus pelos a história de minhas estrias de quando emagreci rápido demais
a altitude dos meus calos faz novas linhas na tua mão como brancas tatuagens de hena
suas cicatrizes que se encontram nas mesmas partes que as minhas cicatrizes se encontram
a sua mancha de limão na barriga formando um mapa da américa latina
Você vê agora até que ponto aguentam meus cabelos
corpo a corpo
medindo as travessias e até que ponto aguentamos as distancias a nado à ausência e à euforia
enquanto cambiamos entre a primeira a segunda a terceira pessoa
como alguém que é e foi e já não é
e vemos que parte é inteiramente nossa
irreproduzível
em todos os corpos que achamos ao longo de nossa curta vida até aqui
o meu arrepio o teu arrepio se encontram
seremos os desconhecidos mais íntimos que já pousaram os olhos nesta terra
serei muito em breve a tua sombra indômita
***
Aos que herdaram essas terras
deixaremos buracos e sustos
ensurdecendo seus talhos em nós
lasseia agora o amor esquecido
pelos sismos diários e uma jornada
mal posso acreditar que sobrevivi ao domingo
mal posso acreditar no ruído acoplado à candura
deixaremos um dilúvio
para o planalto
e um alívio
para as moscas
e com nosso peito exposto
saberemos que este amor
fabrica nossas armas
e o nosso grito plana nas ruas
avisando
***
Sinto que quando falamos medo
Tem sempre alguma outra coisa em que estamos esquecendo
***
acha-se em farpas como um dom que não sabe por onde irá romper
quando os obeliscos nos apontam feridas as estradas virgens
não é nenhuma má intenção perguntar dos quatro compassos que já não são
rompo as levadiças para ver se acham nessa cidade o que buscam em outra
só para então forçá-los para fora do meu sistema e do meu canal
aqui nenhuma peça está faltando
o mais difícil mesmo será correr olhando os anúncios
achar o pulso pensando se há sangue pelo lado de dentro e de fora
e se já não é mais o mesmo do que corre por dentro
já é um sistema externo um passado
já não tem um ritmo
eu deveria me preocupar com a minha dieta e comparar com a dieta de alguns mamíferos em particular …………..da baleia e do morcego
por que cantam e fluem
por que espremem a espinha dorsal às cores
por que precisam de um meio.……………e de um som
Stefano Calgaro (1991) nasceu em Porto Alegre e vive em São Paulo. “Pequena volta” (Pátua, 2019) é seu primeiro livro.
Uma pequena-grande amostra da condição humana: o originalíssimo impacto do conto “A História, um pouco de blush nas bochechas e um número tatuado no braço”, de Mário Baggio
Por W. J. Solha
O ancião que acaba de receber o Nobel de Literatura vai dar entrevista na TV, pelo que, antes, é encaminhado à maquiadora do canal. “Ela o cumprimenta, olha-o de maneira profissional e avisa que lhe aplicará um pouquinho de base no rosto e tirará o brilho da cabeça pelada e das mãos, ´porque em televisão uma pele oleosa fica horrível e desvia a atenção do que realmente importa´”.
Ponto pra ela: lembro-me – e o velho escritor também deve se lembrar – de que Nixon começou a perder a eleição pra Kennedy , em 60, pela pele oleosa, o descuido da aparência num debate em que teve de enfrentar o outro . Os que acompanharam a coisa pelo rádio acharam que ele fora o melhor. O outro foi eleito pelos que viram o confronto pela TV.
Bem.
Colocados Nobel e maquiadora em cena, Mário Baggio dá um show no diálogo.
– Sobre que assunto o senhor vai falar no programa?
– Perdão?
Você, como eu, vê surpresa e ironia na resposta à pergunta infame. Mas é apenas um problema de audição do gênio. Ela capricha na dicção:
– Qual será o tema da entrevista?
– Ah, isso. Será sobre um livro que escrevi, eu acho – e sorri, embaraçado.
– O senhor vai vender bastante, esse programa tem muita audiência.
Quando ela quer saber quantas obras ele já publicara, ele, pra simplificar a coisa, diz “muitos”.
– Mais de quatro? Mas então o senhor é profissional. Como se chama?
– Alberto – gagueja – Gerber;
– Gerber, Gerber. Acho que já ouvi falar.
O conto já nasce curta-metragem. Um bom ator maduro e uma grande atriz ainda jovem matariam o público de rir, a princípio, de emoção, em seguida. Principalmente porque tudo é extremamente real, convincente. José Saramago soube que ganhara o Nobel por uma TV de aeroporto. Olhou em volta: ninguém – fora ele – prestara atenção na notícia.
– Agora um pouco de blush – diz a maquiadora -. Pra mim, o blush é a maior invenção da humanidade.
Ela é uma figura antológica.
Mas vamos ao final, que só conto por que é um dos 63 do volume e já está no título. Como já vira até degola de crianças, nos outros, eu esperava, qualquer um esperaria algo na mesma linha – mas Mário Baggio mereceria estar no lugar do Alberto Gerber, por ele.
– Agora vou maquiar um pouquinho as mãos. Pode arregaçar as mangas? Assim não mancho os punhos de sua camisa.
– Ah, sim, claro – o escritor levanta as mangas até os cotovelos. Tem as mãos trêmulas. Bia percebe e o ajuda. Interrompe o gesto, admirada.
– Ah, olha só. O senhor tem uma tatuagem, que moderno! O que é? Simboliza alguma coisa?
– É só um número… – o escritor responde, com um fio de voz.
Baggio resume toda a tensão do Nobel com aquele “tem as mãos trêmulas” ao arregaçar as mangas e, agora, ante a total desinformação da moça a respeito de uma enorme tragédia humana, ainda com sobreviventes: “É só um número… – responde, com um fio de voz.”
Depois do punhal enfiado, o contista revira-o no peito do leitor e do personagem:
– Um número. Que original! Eu também tenho uma tatuagem, pequenininha, no ombro – afasta a alça do sutiã e mostra a ele.
Batido o prego, o reviramento da ponta:
– Se eu fosse o senhor, faria uma igual, no braço esquerdo, pra ficar simétrico.
W. J. Solha nasceu em 1941. Escreveu romances e poemas longos premiados nacionalmente, trabalhou em filmes como O som ao Redor, pintou cento e tantos quadros, montou peças de sua autoria, foi parceiro de grandes compositores, continua na ativa.
Tudo isto é dor:
o que falta,
a miséria do mundo,
a miséria do homem.
As horas longas entre as luas,
uma luz absurda que absorve
a calma dos meus olhos vivos
e fia com uma agulha essa dor.
Sim, tudo isso é dor.
Toda essa cor de faltas
e de vazios, cor nada, cor nunca,
a cor incompreendida das horas.
Nenhuma cor em meus olhos
nenhuns olhos nesse rosto,
só uma dor perene sem cor,
só uma figura distorcida pela dor.
Próxima, inteira, latente e fixa.
Dor por ser dor em estado real,
aquilo que é acumulado aqui
onde não sei bem se o acaso
ou se a vida tratou de manter.
Porque a carne dói,
dói viver em silêncio,
dói a vida cotidiana,
quando escorre dos olhos a dor
e sua solubilidade
resulta em analito,
sem medida exata.
***
um dia vai alto
O dia vai alto
vai alta a rua,
ladeira longa que se vai
marcada no sem tempo,
memórias antigas,
varanda encerada
de chão vermelho.
Um homem sobe a rua,
um homem anda lento,
todo o seu corpo é sombra e alumbramento.
Casas olham indiferentes,
indiferente o calçamento
de pedra resiste ao vento,
nada é mais justo que o dia alto sobre a rua alta,
na ladeira alta em que um homem caminha lento.
Casas e pessoas se misturam,
vozes vindas de lá de dentro
anunciam um futuro estranho e cheio de dúvidas.
Fosse a vida só contentamento,
fosse tudo o que fosse esse pó
que vai cobrindo casas e pessoas na lida do tempo.
O homem ainda vai lento,
não há pressa. Todos os homens anunciam o dia alto.
É realmente um dia alto, dia pleno de acontecimento.
Sim, é um homem e suas pernas e braços e ventre
estão deslizando sobre as pedras desse calçamento.
Há silêncios e vozes no vento, misturados à rua alta,
misturados ao que um dia foi a rua
agora coberta de pó no sem tempo.
***
na última sessão do dia
Dorme,
dorme tudo o que se retira,
a fatia do dia, a faca, a fala
e o que é da vertigem real.
Dorme,
dorme o que queria, alçava,
a morte esquecida na tarde,
a triste tarde de sonolências.
Dorme,
Morfeu versado em Tânato,
esquece o dia, abraça a noite,
a sua mãe desesperada e fria
também dorme e, ao dormir,
alcança a eternidade desejada.
Como jamais se dormiu,
dorme todo, dorme inteiro,
fecha esses olhos definitivos,
encerra o mundo e seus ares,
encerra a fome de vida, a lida
e vai descansar de si mesmo.
Procura no sono absoluto
a absoluta ausência de si,
habita o longe, o longo e
vive esse mistério póstumo.
Medita, monge transfigurado,
na última sessão do seu dia e
no lótus perdido já reclamado,
dorme ………e morre ……………….e descansa ……………………………e mais nada.
***
do que é perdido
Mas fica esse silêncio,
o desdito, a ausência.
Fica o que não ficou
jamais entre as horas,
essas horas absurdas,
horas passadas a fio.
Fica o que nunca foi,
o suposto, imaginado.
Aquilo que seria mais
se não fosse passado.
Mas não foi, não era.
Ora ora, minha bela,
que dizer do perdido?
Que o jamais havido,
depois não se perde,
não há o que perder.
Nunca houve, não foi,
nem resto me restou,
nem o acabar acabou.
Nada,
ou quase nada,
só esse silêncio
ficou.
***
a fonte de Orides
para Orides Fontela
A fonte de Orides
seca
coberta de folhas
secas.
Resto do respiro
a um passo
do pássaro:
Orides resseca.
Deixa a tua mão
bater dura a tecla
-num tec tec tec-
de tudo um tanto.
Deixa, Orides,
que eu te engulo
como se engole
outra verdade.
***
Valor
Vazo de mim
e espalho-me
no chão seco.
Escolho olhares,
seleciono vozes,
avalio as dores.
Violentamo-nos
e tristes vamos
ao ato insensato.
Apenas o valor
esse ditador, e
sempre a injustiça,
essa triste puta,
seguem protegidos
à sombra do gigante
morto que putrefaz
na Avenida Paulista.
André Merez cursou Letras e fez pós-graduação em Língua Portuguesa na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Leciona Teoria da Literatura e Gramática há mais de 18 anos e desenvolve pesquisas sobre música, artes plásticas e poesia. Autor dos livros Vez do Inverso (Editora Patuá, 2017) e Perfeição Acidental (inédito). Também teve seus poemas publicados nas revistas Mallarmargens, Poesia Primata, Gueto, Germina e Poesia Avulsa.
Kanye West é o mais importante artista para compreender o nosso tempo, uma controvérsia ambulante, o supremo idiota, gênio multimídia, trendsetter supreme, traíra, tudo ao mesmo tempo. Ye é o hip hop (dividido entre ativismo e o bling), é o “palmiteiro mor” que pegou a Kardashian da sex tape e casou. É o cara que pulou de Nike para Adidas e criou a percepção da Sneaker Culture pro mainstream. Sem ele não haveria Drake e dezenas de outros. O rapper não gangsta que dividiu um disco com Jay Z e o traiu, o homem negro que admite seus problemas mentais, que chora em praça pública, que se diz Deus e põe o boné do Trump. Judas, Exu e Hermes ao mesmo tempo. Kanye é o troll do século.
No meio de mais uma reinvenção, ele volta à sua Chicago natal e começa a fazer missas cantadas nas igrejas locais. Cercado de ótimos músicos e um coral, vai de Gospel (raiz da música negra americana, fonte de Aretha e Sly, entre tantos outros), atitude recebida com cinismo e desconfiança por parte dos fãs e críticos (me incluo aqui). Resisti a ouvir Jesus is King, mas a curiosidade venceu o ranço e o disco é tão gostoso, tão… pop que tocaria em qualquer lugarzinho “muderno” sem que se note sua temática, afinal, gospel por aqui soa chato e careta.
Foto: : Kevin Winter
O álbum abre com “Every Hour”, a faixa mais típica do Gospel, uma “abertura de terreiro” com o coral e a vibe da Igreja negra dos Blues brothers, faixa curta e que te coloca no mindset das intenções do disco. Em seguida, temos “Selah”, com seu órgão, e onde Kanye começa seu sermão com a frase “… God is king, we the soldiers…”, evocando grandeza e a beleza clássica. Quando o coral entra nos “Aleluia! Aleluia!”, esperei o beat dropar e a gente cair num house. Mas ele vai de colagem e deixa esse crescendo tomar conta, faixa poderosa.
Em “Follow God”, um rap com um flow estrito e direto, daqueles pra tocar no carro ou no fone saindo para a batalha, daqueles que movem o peão. “Closed on sunday”, canção leve com cordas, baixo pesado e aquela sensação de oitenticidade que Ye capta desde faixas como “Get by”, que ele produziu para Talib Kweli, citando o Chick a Filet, rede fast food de donos evangélicos (polêmica calculada), na qual o tema é o amor e a família. “On God” é mais uma faixa altamente influenciada pelos 80 com seu tecladinho fazendo uma base e bateria eletrônica, caberia no Arcade Fire fácil.
“Everything we need” (com Ty Dolla $ign e Ant Clemons), outro rap com lindos vocais de Clemons e Ty, é curtinha (uma característica do disco, que foge da estrutura do Gospel e se integra ao déficit de atenção do nosso ambiente hiperconectado), tem batida trap e uma mensagem de gratidão. Em “Water” (com Ant Clemons), Kanye se utiliza da imagem da água, tanto como símbolo da uma pureza batismal, como da nossa busca com o cloro (elemento externo) por essa mesma pureza, faixa que evoca e reafirma o disco como pop fundamentalmente. Por sua vez, “God is” remete ao início do disco, a canção é um soul puro, soa como “Crazy” do Gnarls Barkeley, podia ser cantada pela Amy Winehouse e tocada pelo Dap kings, básica e focada na emoção tosca da voz de Ye.
Foto: Rich Fury
Em “Hands On”, voltamos ao ano de 2019, com o vocoder e Ye soltando os versos calmamente, indiciando os supostos “cristãos” que julgam primeiro. Mas na suave, claro. Na canção “Use this Gospel”, Ye reforma os mesmos teclados e convenções do seu último disco, com Pusha T tacando os versos com força em contraste com o minimalismo. É “Jesus is Lord” que fecha o disco numa coda imensa, hora dos abraços.
Gospel é Bob Marley, Bob Dylan (fase linda) e Take 6. Kanye traz o gênero pro século 21, explorando os temas que já trabalhava desde seu disco passado (insegurança emocional, solidão no sucesso etc.) e resolve seus medos tão nossos, com uma simples fórmula: Louvor + Humildade = terapia.
Não sei se essa fórmula funciona, se é um golpe de pastor, mas sei que funciona nos ouvidos e que o Papa é pop…
Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.
No coração do mundo, de Gabriel Martins e Maurílio Martins (2019) é a afirmação de um acontecimento de grande magnitude: no cinema e na cultura brasileira. Este acontecimento é o cinema de Contagem. Este filme se junta a Temporada, de André Novais de Oliveira (2019), e Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans (2018), como algumas das melhores produções cinematográficas nacionais dos últimos anos.
O crítico Ismail Xavier já observou que por mais revolucionário o movimento, o Cinema Novo ainda era a classe média (em geral branca e masculina) filmando o Brasil profundo. Pode ser o Brasil sertanejo ou o Brasil favela, mas em todos esses filmes o cinema foi a busca pela imagem do outro. O “outro” é o subalterno, mas caberia perguntar, como fez a teórica Gayatri Spivak, pode o subalterno falar?
Essa é a tendência ainda de um filme “humanista”, porém branco e idealista, como Central do Brasil (1998). E permanece assim quando as objetivas mudam o foco para as periferias urbanas, num filme emblemático como Cidade de Deus (2002), com sua montagem pop.
Mas em Contagem, cidade de Minas Gerais, na grande área metropolitana de Belo Horizonte, sobretudo com as criações da produtora Filmes de Plástico, o que temos são filmes da periferia filmando e deixando falar a periferia.
Há nisso mesmo um conteúdo estratégico: No coração do mundo abre com a canção BH é o Texas do MC Papo, um rap mostrando os moradores da cidade, alguns deles encenando diretamente para a câmera. A canção diz que Contagem é o “mother fucking Texas”. A relação com o Estado norte-americano é casual e não é. Seu autor, DJ local de sucesso, diz que o uso dos chapéus entre os habitantes da cidade lhe lembrou o Texas, mas há também uma relação cinematográfica: o filme Minas-Texas, de Carlos Alberto Prates Correia (1989).
Foto: divulgação
No coração do mundo é com certeza um filme de contexto. A intenção estética de seus diretores foi realmente filmar a vida, o cotidiano, a fala, os problemas e as esperanças dos moradores de Contagem. Há uma mistura entre atores profissionais, como as consagradas Grace Passô, Kelly Criffer, Karine Teles e Barbara Colen, com não profissionais moradores do local, tais como Leo Pyrata, que faz Marcos, um dos protagonistas.
O filme abre com uma cena a princípio romântica: numa praça da cidade, a locutora de um programa de rádio local (vivida por Karine Teles) oferece um presente de aniversário ao rapaz Marcos, dado por sua namorada Ana (Kelly Crifer). Os dois se beijam com música romântica ao fundo, mas o idílio amoroso é subitamente cortado pelo barulho de um tiro.
O tiro é a ponta de um fio narrativo que conduz a história e liga vários personagens. No Coração… é um filme de gênero, mais precisamente um “filme de assalto”. A personagem Selma, vivida por Grace Passô, não é uma pessoa do lugar, mas se estabeleceu em Contagem de passagem, esperando sempre por uma oportunidade de melhorar de vida em qualquer lugar. Personagem nômade, ela circula por várias classes sociais na cidade e lidera a trama que reúne personagens diferentes, entre eles Marcos. Este, ao contrário de Selma, é um personagem totalmente enraizado em seu local, jovem malandro que não estuda nem trabalha, vivendo de bicos, e a princípio parece não visualizar nenhum futuro, embora isso não lhe gere nenhum tipo especial de angústia (que, na verdade, sente o espectador), apenas uma relação tensa com sua mãe que, mesmo idosa, percorre a pé a cidade vendendo essências.
Foto: divulgação
É do contraste entre esses dois personagens principais que o filme é conduzido, ou seja, na oposição entre partir e ficar. Na cena mais emblemática do filme, Selma, que faz o trabalho de fotógrafa de escolas, fala para a objetiva de Marcos (e dos diretores), emoldurada por um painel com uma paisagem idílica, e diz que o coração do mundo é qualquer lugar que ela possa estar sem preocupações. O coração do mundo é algo como uma utopia, ou mesmo uma atopia: não é nenhum lugar específico, mas um lugar de fuga, onde o bem estar (não provido pelo Estado) pode ser encontrado.
Outro par de personagens que dialoga é composto por Ana (Kelly Crifer), namorada de Marcos, e Rose (Bárbara Colen). A primeira é trocadora de ônibus e cuida de um pai senil; a segunda já foi trocadora, agora é manicure de um salão, mas sonha mesmo em comprar um carro para trabalhar de Uber durante a noite. Ana está presa à cidade como à sua cadeira de trocadora, enquanto o sonho de Rose é ganhar mais dinheiro, mas sem sair necessariamente da cidade. Em torno desse quarteto giram os demais personagens, como o marido de Rose (vivido por Robert Frank). Ele trabalha numa loja de roupa e briga com o irmão que escolheu o caminho do crime e pelo qual pagará um preço. Além desses atores, há as participações especiais de MC Papo, num papel coadjuvante e da funkeira MC Carol. Esta faz o papel de uma ex-presidiária metida no pequeno tráfico que, no entanto, termina o filme com um emprego de cuidadora.
O interessante é que Marcos, Ana e Rose, com seus mesmos respectivos atores, já figuravam no curta-metragem Contagem, realizado em 2010 pelos mesmos diretores, na mesma produtora. Esse curta é a semente do longa-metragem atual. O motivo principal do roteiro do curta é apenas intuído no longa, como se fosse uma vida paralela (na verdade, para se chegar a essa conclusão é preciso ver o filme anterior, de 18 minutos, disponível aqui). Os atores esperaram nove anos para reviverem seus mesmos personagens. No entanto, além dos atores e do ambiente, há algo de comum que une os dois filmes: a cena do casal curtindo romanticamente o sol na laje de casa, numa espécie de praia de concreto urbana, onde é possível viver a tranquilidade efêmera apesar da precariedade do espaço. Como indica o título do curta-metragem, o principal personagem do enredo é a própria cidade.
Foto: divulgação
A principal virtude dos filmes de Contagem é realizar a radiografia audiovisual do chamado “precariado” brasileiro na fronteira entre trabalhos extremamente precários (e explorados) e o crime. Aí a distinção entre ficção e não ficção parece ser totalmente ultrapassada, assim como a distinção entre lei e crime, ou entre trabalho e não trabalho. Os personagens vivem no distrito de Laguna, que pertence à Contagem, e representa então a periferia da periferia.
É preciso pensar então como se dá também a relação entre esse registro audiovisual hiperrealista e a própria ideia política do cinema. O gênero do filme de assalto tem algo da inevitabilidade trágica e violenta dos filmes de Tarantino. Talvez o tema da antropofagia modernista, que durante tanto tempo marcou a relação entre o filme da colônia com a da metrópole, seja excessivo para caracterizar esse filme. O registro estético produzido pela própria periferia recusa todo idealismo e aposta numa relação mais horizontal e co-criativa. A própria canção do MC Papo que abre o filme parece ser uma afirmação altiva dessa situação de interdependência.
Foto: divulgação
O filme desafia a invisibilidade abissal dessa periferia. A decisão por filmar filmando-se é um gesto político. A visibilidade produzida é autorreferencial. O mote do filme de assalto, ao ser um pretexto para a história, um verdadeiro mcguffin, agrega e organiza a relação entre os personagens e o ambiente periférico. Há, sem dúvida, uma devoração do mote do filme de ação, mas longe de ser uma linguagem do outro, o assalto, com sua lógica de violência é também uma linguagem do lugar. O filme celebra um internacionalismo periférico e não a relação metrópole-colônia, recusada porque hierárquica e insignificante para os jovens.
As distâncias já não são mais aquelas que cruzam os oceanos. A autorreferência da imagem aponta o fato de que Contagem é o Texas e é o coração do mundo. O Texas, o mundo, o sofrimento, o amor, a violência, o abandono, a vida, a periferia, o trabalho precário e explorado, é tudo Contagem. Há uma urgência no filme de Gabriel Martins e Maurílio Martins que nos conta imageticamente que o cinema está no coração do mundo, aqui e agora. Esta é a definição de acontecimento, aquilo que não tem tempo nem lugar que não seja o seu próprio, o espaço-tempo que a obra mesma inventa.
Guilherme Preger é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética Caneta Lente e Pincel (canetalentepincel.art.blog). Escreveu sobre cinema para o site Ambrosia.com.br.