Uma vez um amigo disse-me que sou uma pessoa ‘’confusa e nada analítica’’.
A análise da ocasião de nossas falas, para aqueles que se proponham a exercer a função de analista informal, era de uma falha de comunicação tamanha que fazia tempo que não sentia a urgência de despersonalizar, por incrível autodepreciação que me acometeu naquele 483 irradiando suor dos trabalhadores do subúrbio.
A poltrona azul-marinho parecia regozijar-se de entusiasmo para analisar – de modo passado a ferro, com toda certeza – a linguagem corporal que expressava sob seus tecidos quase sintéticos.
A angústia inoportuna realizava-se sob gritos de camelôs e bufos de uma multidão assalariada em seus assentos.
“Você não é analítica, é pretensiosa e confusa.”
“Se concentra no que as pessoas falam, e não no que você acha que elas querem dizer.”
Pareciam períodos de crônicas clichês, mas era a realidade material e objetiva de uma amizade de anos que parecia corroer-se a cada mísera vogal que projetava na tela transparente de um Android.
Considero que a contextualização não tenha sido esmiuçada o bastante.
Vejamos, era uma conversa que revogava qualquer contato mecanicista que outrora tive com meu amigo. Éramos bons amigos, mas eu acredito que nunca tivemos uma projeção de honestidade para com o outro em critérios de personalidade expressada.
Éramos arquétipos estúpidos de uma massificação midiática que conduzia os jovens a serem hedonistas, porém inexpressivos em seus sentimentos e virtudes. Em suma, éramos um montante de personagens que queriam disputar o palco para ter uma autopromoção e aprovação de um e outro.
De um ano para cá, a crise endêmica assola o país – por ironia das casualidades – nosso perfil produtivo de personagens foi para o fundo do poço. Aliás, uma música que pode esmiuçar esse termo seria ‘’Exemplar do fundo do poço’’, do grupo de indie-rock, Violins (eles são bons subprodutos de uma hipermodernidade patológica, aconselho a escutarem após seus jantares). Éramos jovens de 20 anos, mas que parecíamos mais um mesclado de personagens de ‘’Skins’’, célebre e degenerada série britânica.
E essas memórias perpassavam entre várias partes de meu córtex, especialmente o pré-frontal, pois a oscilação de humor tornava-se crônica, como o balançar do 483 na Avenida Brasil.
Pela primeira vez, expus fragilidades de um dia de nascimento e de morte de uma terça-feira, para completar a dualidade jocosa que uma terça-feira evocava. Era de uma considerável humilhação abrir seu tecido emotivo para uma pessoa que, por mais que fosse seu amigo de anos, tenha se tornado seu inimigo que pertencia a um grupo divergente (e sabotador) de seu.
E perpassou, adentrou, erradicou após alguns minutos a discussão que mais parecia que romperia uma longa amizade, para se tornar um reduto de confessionários ético-morais.
O assunto era do fenômeno do individualismo, para ser pertinente à ocasião.
O confessionário alastrou-se da Penha até a Cidade Nova em uma vergonhosa performance de prolactina. Lágrimas brotavam – a este ponto – em meu colo. O sistema nervoso simpático não queria inibir; o confessionário do solipsismo tinha começado, e ele não atentava a contrações das emoções, independentemente de estar situado em uma frota de ônibus com uma aglomeração relativa de trabalhadores.
‘’Eu não sou legal, não, eu sou egoísta. Eu costumo colocar as pessoas em primeiro lugar, e eu, em contrapartida, em segundo espaço. Agora, pois, por que seria egoísta, você me pergunta. Eu não faço isso pelas pessoas, mas sim para não ficar com a consciência pesada, tá ligado.‘’
E ele começava a rir, mas eu tenho quase certeza que era de nervosismo e vergonha individual.
Eu conhecia a peça, igualmente da formação da psique condicionada por uma ideologia de uma classe individualista dominante da sociedade de lucro.
Eu o indaguei, questionei, atordoei, eu o expus – quem sabe, agora, de forma analítica – a gênese desse comportamento que, caso fosse materializado em uma maçã, e alguém fosse, por algum motivo, bater em uma árvore, a fruta iria cair em cada esquina e avenida desse Rio de Janeiro (e por que não falar do mundo inteiro).
Ele ignorou minha argumentação, que agora tinha se tornado um monólogo externo para uma tela de Android.
Porém meu confessionário ainda não tinha cessado, mas sim virado um monólogo – quem sabe, agora, interno –.
O garoto que contemplava os saberes éticos, metodológicos e morais de uma sociedade putrefata por dinheiro e solipsismo me deu um tapa tão forte que eu não me recordava da última vez que alguém tinha me transferido tamanha crítica – e olhe que eu recebo várias e espessas críticas, mas eu não as recebo bem, pois minha patologia moral não me deixa escoar as perspectivas –.
Tinha dificuldades em discernir tais indagações do jovem de óculos que se encontrava a malditos e distantes 21km de meu bairro, a 1h de ônibus. Calculava, agora – pela primeira vez, inclusive – a distância da convergência de nossa amizade no decorrer de quase 5 anos.
‘’Amizade’’.
Era uma condição de relação que não tínhamos aperfeiçoamento.
E talvez a magnitude dessa escassez de condição tão imediata para todos fosse um dos motivos que me afeiçoei a ele.
E por isso, logo, encontrava-me a tremer por uma possível perda.
Era ridículo e quase obscurantista pelo contexto geral de uma nação de adoecidos em suas morais.
Ressoava a porra de uma sirene em minha mente fragmentada, mesclando-se com o falatório do ônibus, que, para completar, estava em um clima quase semiárido pelo descaso.
‘’Você não o perdeu, qual é, é apenas uma projeção de uma possível perda, pois você nunca foi tão humilhada por ele.’’
– Pelo contrário, você o humilhava –
– E a autopiedade do semi míope confirmava a sua condição de fracasso personificada –
‘’Por isso você não o aceitava; pois você estava tão confinada a reter seus conflitos internos em sua condição moribunda, que não percebeu que tinha passado dos limites da fronteira de uma amizade, que somente depois de um ano foi ser de fato uma amizade na prática.”
O que mais parecia assemelhar-se a uma dinâmica de um jogo de simulação de um slice of life (vulgo narrativa do cotidiano), parecia a desertificação de perspectivas de afeição.
‘’Ah, meu ponto chegou. Vou soltar, piloto, para aí, na moralzinha.’’
Sabia, quem sabe, a partir de agora, que eu deveria ter maior autocontrole em minhas interações diárias.
E arcar com despesas desnecessárias com remédios de oscilação de humor desnecessários de uma condição físico-mental desnecessária por uma sociedade desnecessariamente degradante.
E desnecessária.
Desnecessariamente solipsista.
Lorraine Ramos Assis, 22 anos, estudante de sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).Fotógrafa, cujos trabalhos podem ser acessados via Instagram (@catarseoculares).Escrevo para tirar uma sociedade da inevitável zona de conforto.
eu sou bicho
sou cavalo, sou cachorro
sou alce, sou raposa
ando pelos prados e bosques
por ruas e becos
na noite fria
corro pela beira do mar
meu sangue é tinto
meu corpo é quente
a palavra é só um eco.
***
Na praia com pedras
na praia com pedras
dois caranguejos e um cachorro
brincavam
eu era um menino pequeno,
me lembro bem
a onda passava por cima
dos caranguejos
minhas pupilas negras
cheias de ondas do mar
os olhos dos caranguejos
duas bolinhas molhadas
as pupilas escuras do cão
globos sensíveis de lágrimas salgadas
Um casal sacudia a toalha
de praia
mais para trás
por causa do avanço do mar
***
É que hoje não dá mais para
ficar ofendendo
ficar insultando
ficar engolindo
sair atirando
ser racista
ser misógino
ser fascista
ficar incógnito
ser cínico
compactuar
achar que tudo foi lula
quando no gabinete senta agora uma mula
(Sem cabeça)
simular que está tudo bem
crer que o problema é além
fingir que a lama do rio é natural
achar que o loiro é angelical
acabar com a natureza
dar razão ao ministro
confiar num sinistro
não demarcar T.I.
sair cortando mato por aí
roubar verba de escola e universidade
abrir alas para a calamidade
é que não dá mais
não dá mais para
só aliviar a coceira
epiderme cheia de verme
não dá mais a parvoíce.
***
Vazio dentro de mim
vazio dentro de mim
pau-oco, vácuo, limbo
o espaço entre dois vagões de trem
bateria descarregada
me sinto arriada
quando vai passar?
quando vai voltar o ânimo?
não tenho medo do monstro
ele só faz eu querer
vomitar
Não é ensaio
é a cegueira mesmo.
E o que brecht escreveu em 1938
vale agora 2018
poeta alemão me consola e
uma música do tom:
é o fim do caminho
é pau…tanta paulada
***
Poema sobre dor
a foto que vi no jornal
me doeu como um soco
no estômago
o menino de quatro anos
afogado
na beira
de um mar
seu pequeno corpo estendido
sua pequena alma voando
pessoas fugindo
da dor e do medo
em barcos infláveis
cheios de pessoas
fugindo da dor do medo
um soco no teu estômago
topada no joelho, pancada na cabeça
a bomba
e o medo da dor não ter fim
Valeska Brinkmann nasceu em Santos, 1972. Estudou Radio e TV na FAAP (SP). Escreve histórias para crianças, contos e poemas, tem textos em Antologias na Alemanha, Brasil, e Portugal e em sites literários como Stadtsprache Magazin, Literaturabr, escamandro (traduçoes). É integrante do coletivo GLENSE (guerrilha literária espontânea na sala de estar. Publicou em 2016 O livro infantil bilíngue “Pedrina- a perua que queria ser pavão”pela editora Bübül Verlag Berlin.
Ao contrário de sua obra Isto não é um filme (2011), 3 Faces, do iraniano Jafar Panahi (2019), tem todos os ingredientes de um filme: roteiro, câmera externa tradicional, personagens e enredo. Esta observação é essencial para a obra de um diretor que foi proibido de filmar por vinte anos (em 2010), sanção que continua vigorando.
Seus três filmes anteriores, o mencionado Isto não é um filme, Cortinas cerradas e Taxi Teerã jogavam diretamente com esta ambiguidade, a de serem exemplos de cinema de “não filmes”, na fronteira entre ficção e não ficção, entre obra e registro de circunstância.
Em Táxi Teerã (que foi objeto de um ensaio meu aqui nesta revista), por exemplo, o diretor Jafar Panahi é o motorista de táxi que atende a diversos passageiros. O filme é o resultado do registro de câmeras de vigilância comuns nos táxis de Teerã. Uma das passageiras é uma menina que é sobrinha do diretor e que grava a viagem com sua câmera de celular. Ela diz que precisa rodar um vídeo para a escola e faz uma entrevista com seu famoso tio. Porém, ela informa que precisa editar o vídeo com uma normatização do que pode ou não ser exibido de acordo com as regras passadas por sua escola.
3 Faces também abre com imagens de um vídeo captado pela tela “selfie” de um celular. Uma moça de nome Marziyeh Rezaei, moradora de uma cidade no interior do Irã, envia a imagem de seu próprio suicídio a uma atriz iraniana famosa da televisão, Behnaz Jafari. O suicídio se justificaria pela impossibilidade da moça se tornar uma atriz de cinema conforme seu desejo devido a um casamento arranjado. Ela envia em desespero essas imagens de seu suicídio após supostamente ter enviado repetidas súplicas à atriz para que interviesse em seu nome junto à sua família. O vídeo foi misteriosamente repassado ao celular de Panahi, que o envia a Jafari. Ambos partem num automóvel, dirigido pelo próprio diretor, para a cidade da moça a fim de saber o que aconteceu com ela.
Behnaz Jafari, Jafar Panahi e Marziyeh Rezaei / Foto: divulgação
Embora seja um filme bem mais tradicional do que os anteriores, nesta última obra ficcional, escrita e dirigida por Jafar (que ganhou prêmio de melhor roteiro em Cannes, 2018), alguns elementos permanecem da ambiguidade com a não ficção de seus filmes anteriores: todos os atores interpretam a si mesmos e as cenas do interior rural iraniano, com suas histórias curiosas, testemunhos inusitados e repentinos incidentes, se aproximam bastante do registro documental.
3 Faces parece, por outro lado, uma referência ou mesmo uma homenagem a filmes anteriores, especialmente de Abbas Kiarostami, um dos maiores cineastas do Irã, falecido em 2016, com quem Panahi trabalhou como auxiliar. Foi também de Kiarostami o roteiro do primeiro sucesso internacional de Jafar, o filme Balão Branco, ganhador de Cannes e que abriu ao mundo a importante safra do novo e revolucionário cinema iraniano. Em 3 Faces estão presentes várias referências mais ou menos explícitas à obra desse cineasta: Onde está a casa de meu amigo (1987), que se passa no interior do Irã e é a busca por um jovem, A vida e nada mais (1990), que é um road movie em meio aos escombros de um terremoto, O gosto de cereja (1997), que é um filme sobre o suicídio, e Dez, um filme experimental feminista que se passa inteiramente dentro de um carro.
Essas referências todas estão presentes em 3 Faces, o que o transforma num filme de compêndio. Essa homenagem póstuma a Kiarostami, que morreu após o último filme de Panahi, pode ser vista tanto como uma elegia à sua obra, como uma recuperação e defesa de seu legado humanista.
Mas o que acontece nesse novo filme? É um road movie em que Panahi e Jafari vão atrás da moça do vídeo para saber se o vídeo é talvez uma armação montada. Essa dúvida quanto à sua veracidade está sempre presente na história. Num momento da viagem à aldeia, Jafari se lembra de que Panahi havia lhe proposto ser a estrela de um filme do diretor justamente baseado numa história de suicídio. Será que aquele vídeo que chegou justamente através do celular do diretor não faria parte de mais uma de suas encenações meio ficcionais e meio realistas destinadas a confundir o regime político iraniano?
Behnaz Jafari e Jafar Panahi em visita à aldeia / Foto: divulgação
Ao chegarem na aldeia, localizada no Irã Profundo, o casal é recebido num misto de aclamação e uma certa hostilidade, quando o vilarejo descobre por quem ambos buscam. Jafari, por ser estrela televisiva, tem, no entanto, cartaz suficiente na aldeia para conseguir informações. Porém, essa relação é dúbia: persiste no vilarejo certa hostilidade em relação aos “artistas mambembes” e uma lembrança negativa de uma mulher, moradora da vila, que seria mal vista por ter se tornado artista.
Jafari e Panahi ouvem as histórias dos moradores e descobrem os costumes rurais. Ao mesmo tempo em que há um rechaço aos tempos da modernidade e aos artistas, há uma admiração secreta pelas estrelas do cinema e da televisão. Sempre se deslocando de carro acabam por descobrir a história verdadeira da moça (que não sabemos se é ficcional ou baseada em fatos reais) e conseguem intervir nela.
É um filme de conflitos femininos, sobretudo, contra a sociedade patriarcal iraniana que não foi vencida, antes reforçada, pela Revolução. No filme O Círculo, o diretor Jafar Panahi já havia abordado a situação opressiva das mulheres jovens no Irã. Neste filme atual, que retorna a esta questão, ao diretor que interpreta a si mesmo é reservado um papel de testemunha, porém incapaz ou impossibilitado de agir concretamente. Sua função é, antes, narrativa. Embora numa atuação passiva, Jafar Panahi, a exemplo de todos os filmes da era de seu banimento cinematográfico, é um operador entre os mundos da realidade e do imaginário. Sua função é fortemente reflexiva em 3 Faces, acrescentando um inefável viés humanista, um olhar compreensivo e compassivo às tragédias alheias. Como seus demais filmes, 3 Faces também não será exibido no Irã. Porém, qualquer censura a esta obra torna-se imediatamente um ato anti-humanitário, pois a quem ou ao quê esta obra ameaça ou ofende? A vida pacífica, mas por vezes opressiva, é vista sem um olhar de julgamento e sim de entendimento.
Cena de 3 Faces / Foto: divulgação
Mas resta ao final do filme uma dúvida: de quem são as 3 faces do título? Numa primeira análise, elas correspondem às dos três atores principais: Jafar, Behnaz e a moça Marziyeh. Mas a terceira poderia ser também a oculta face da artista proscrita do vilarejo que é filmada rapidamente de costas pintando um quadro. Ou ainda, a terceira face poderia ser a da também oculta câmera, que embora não seja aparente como num documentário, focaliza as cenas exatamente como uma câmera documental, no limiar entre o registro e a encenação. Na última cena do filme, imóvel no interior do carro, ela emula os olhos do diretor e observa fixamente o distanciamento das mulheres ao longo da estrada enquanto se aproximam os caminhões dos trabalhadores rurais para mais um dia de labuta. Não é esta cena aquela que mostra mais fielmente o encontro e a oposição do caminho cotidiano da vida real fechada em si mesma com a estrada sinuosa, porém aberta como uma rota de fuga, da imaginação e da ficção?
Guilherme Preger (1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.
Os poemas a seguir foram inspirados nas colagens dadaístas, na eletronicolírica de Herberto Helder e no cadáver esquisito do surrealismo.
….I. no mundo terá aflições, mas tem bom ânimo,
eu venci este mundo
onde tudo dilacera e emudece,
onde tudo mente e separa
em meu tórax se faz uma ideia de Deus que não gangrena
é fácil recolher as pedras do caminho
é fácil contar o alfabeto em carneiros e amansar
porque eu mesma sou esta devastação inteligente regada
de malmequeres fabulosos
porque Deus chamou-me de filha e eu pude criar
letras que se amam como cordas afinadas de um instrumento celestial: uma harpa esguia de bondade e amor
e um ódio de pura navalha
o coração arrancado do peito
e exposto no balcão do açougue
pulsando, mugindo
….II. a mulher, quando está para dar à luz,
sente tristeza, porque é chegada a sua hora
engole um tenso terço de mãos,
sob um teto escuro de edícula sem estrela
depois de ter dado à luz a criança,
já não se lembra da aflição, pelo prazer de haver nascido um homem no mundo
tudo vive nela, tudo se entranha
ela ama como a estrada começa
quer só andar nua debaixo do vestido
respirando debaixo das saias, pois de sua intimidade saiu
outra vida
e a bexiga próxima do útero já não faz mais sentido
o estômago ardente já não faz mais sentido
só seu coração de mendiga comido pela lepra materna
….III. a carne redonda e perfumada do teu coração
enfrenta um minúsculo regato de silêncio
a garra bêbada do átrio esquerdo tudo quer da vida,
tudo quer da fome!
não preste satisfação de suas loucuras
só abra a porta para estranhos
enfie as 400g de seu coração na bolsa antes de girá-la na esquina
ofereça o ventríloquo direito àqueles homens de terno
e contraia.
….IV. Deus possuiu meus rins e me cobriu no ventre de minha mãe
os meus ossos não foram a Ele encobertos, quando no oculto fui feita, e entretecida nas profundezas da terra
Ele me deu o sangue e o maná e disse-me que era bom
quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar
onde o poema é de sangue: vermelho e espesso
grito de pássaro atravessando a noite
pássaro feito de veias, criaturinha feroz encarnada de bicos e coágulos
um pássaro em sangria absoluta, tingindo as cabeças dos sortudos
arma que se mete para dentro e transborda no sono que vem dos céus
quem morre, morre, tão fulgurante nas mãos e na testa
que ali não há mais noite,
nem a necessidade de lâmpada nem de luz do sol,
os outros ferem nossos corações de moqueca de camarão
nossos corações de cartilagem e Moçambique
….V. Você, que me tem feito ver muitos males e angústias,
me dará ainda a vida, e me tirará dos abismos da terra
há palavras escuras, guardadas dentro de outras arcas
roxura é ânsia, roxo imundo na fissura da rocha,
na fissura da boca
o mar suga essa fenda, essa garganta,
é preciso o revólver de um só tiro na boca
é preciso o amor de repente de graça
o estrídulo o roxo o palavrão o dedo do meio
os poetas imaginam sempre suas próprias rosas
nunca fui senão uma coisa híbrida
aquela que não te pertence por mais queira
a rocha lírica de engasgo na tua moleira
a fina flor de nitroglicerina
….VI. seu coração é uma jaula de luz fechada
um silêncio de alma atormentada
se o seu canto soar bonito,
cuida para que não seja um grito
entre o beijo e a renúncia, tempere com violência
este jantar
nos oitenta buracos de fechadura, aquelas almas subirão ao céu?
não escolha o passo que flutua, mas o cimento que pesa
em seus pés
nessa jaula o coração definha, embora
os laivos de fúria mintam que você ainda é capaz de unguentos
eu sei que suas pernas tristes não te levam
a um palco de amor
por trás destas grades existe um homem vestido de bicho
apenas aguardando o clique do ferrolho
para beber o sangue de quem passa
Priscila Hoffmann Merizzio. Curitibana. Tem dois livros publicados: “Minimoabismo” (ed. Patuá, 2014), semifinalista do Prêmio Oceanos 2015 e “Ardiduras” (ed. 7Letras, 2016). Mestre em Estudos de Linguagens, escreveu sobre os matizes surrealistas num poema de Herberto Helder. É idealizadora e coordenadora do projeto Pulmões Versos.
Estou velha, você sabe, minha memória é traiçoeira, mas posso lhe afirmar com absoluta certeza que a menina morava no Morro das Virtudes, aquele lugar lindo, rodeado por uma mata perigosa. Muitos corpos foram enterrados lá, é o que se diz, naquela época de… Ah, você sabe, Edinalda, o Tuninho mesmo nunca mais voltou para a casa de meus pais. Infelizmente, sobre a menina, não sei quase nada, a não ser o que era do conhecimento de todos, de que era bem bonitinha e educada e não costumava adentrar qualquer lugar sem convite ou permissão. Aliás, mal saia de casa, a coitadinha. A família frequentava uma igreja, a Clara me disse. Lembra da Clara, Edinalda? Enviuvou, está ótima. O marido era uma peste e foi tarde, desta para pior, espero. Bem fizemos nós, Edinalda, não casamos, não criamos filhos, tampouco netos. Pois bem, a Clara foi algumas vezes a tal Igreja frequentada pela família da menina. Ela não gostou, viu, Edinalda, não gostou nadinha do que presenciou por lá. Os fieis caindo no chão, orando pro capeta não tomar conta do corpo, esse tipo de coisa absurda e horrenda que a gente sabe que existe, mas prefere ignorar. Segundo Clara, a menina desapareceu após um culto de desobsessão. Investigaram, procuraram em todos os lugares e não a encontraram. Tempos depois a família informou que a menina estava morando com parentes em uma cidade distante. E as conversas, fofocas e investigações pararam por aí. Muito triste, Edinalda, foi perceber o alívio que tomou conta das pessoas quando encerraram o caso. Sempre foi assim, não é? Desde aquela época…
Ah, você sabe, Edinalda, você mesma nunca mais voltou para a casa de seus pais.
Com todo o meu amor,
(e esta saudade doída)
***
Corte
ele a trinta centímetros de seu corpo. o corpo dela. sobre a frágil mulher. as palavras desconexas protegidas pela respiração pesada do pesado homem sobre seu corpo. de gestos primitivos como convém à estúpida natureza humana. ele tem medo. e ela teme que ele saiba o que ela realmente sabe. de que sempre esteve a mil metros da paixão que mata. da paixão que lhe mete horror. e das facas e seus fios certeiros e nervuras expostas. do sangue escorrendo pelo alvo piso assentado perfeitamente pelo homem que respira sobre seu corpo. o horror a tudo aquilo que não se cumpriu. e da felicidade, esse sonho que ficou para trás, perdida em algum lugar, um minúsculo ponto impossível de encontrar entre o corpo dele sobre o dela. ele arfa. e ela está longe. a gazela livre brinca. ele sabe que ela foi embora há muito tempo. e ela sabe que sob o pesado corpo seu frágil corpo já encomendou a alma.
***
uma tristeza qualquer
não se sabe o motivo, mas num dia qualquer de novembro ela resolveu desfazer o coque baixo e deixou soltos os cabelos finos e mal cuidados, que cruzavam a linha da cintura.procurou desesperadamente pelos cacos que guardara do espelho quebrado havia dez anos. arriscou um batom, presente de sua irmã, a ovelha desgarrada.
─ você está diferente, mamãe, mais bonita.
─ não gostei, vá refazer esse cabelo e não se esqueça de limpar a boca.
ela olhou para ambos ─ seus amores, seus algozes, seus patrões ─ e deu meia-volta. refez o coque, lavou a boca e deitou-se.
nunca mais voltou.
Mariza Lourenço é advogada e coeditora da Germina – Revista de Literatura & Arte e das Escritoras Suicidas. e-mail: marizaclourenco@gmail.com
Uma nesga de sol invade a paisagem enquanto meninos brincam desfilando sua liberdade. Noutro ponto, uma canoa vermelha repousa suas memórias na calmaria da noite que adentra. Do alto de alguma porção litorânea, um pequeno grupo de pessoas é silenciosamente observado enquanto ensaia sua entrada no mar. Um aglomerado de bovinos revolve a poeira de seu confinamento. O menino atravessa a água com seu gesto pueril descortinando dimensões do sabor de viver. As cores e formas passeiam em meio à rotina de indivíduos que transitam por ambientes urbanos diversos.
Tudo o que foi descrito acima é apenas uma pequena parte daquilo que compõe a arte do fotógrafo Almir Bindilatti. E apresentar tal recorte de imagens captadas pelas lentes de seu autor significa prestar atenção para o trabalho de um alguém que, de forma marcantemente poética, consegue fazer da captura do cotidiano algo diferenciado. Por vezes, deixamos escapar inúmeras possibilidades de apreensão do real em razão de que nosso olhar acomoda-se pelas zonas de conforto do óbvio. No entanto, a experiência ganha outro fôlego quando vislumbramos sentidos alternativos para as imagens com as quais nos deparamos.
O grande desafio de Almir Bindilatti com seu ofício de registrar a luz é nos apresentar a pulsação da vida tal como ela é. Haveria, então, algum artifício mágico para obter tal resultado? A resposta é negativa. Daí que o fotógrafo em questão confessa não ser adepto da manipulação das imagens, ou seja, de qualquer tratamento que seja capaz de alterar tudo aquilo que foi capturado com naturalidade. Assim sendo, o artista vai mais além, buscando em seu trabalho um resultado que se pretende orgânico, evidenciando, como ele mesmo nos diz, um elo entre câmera e figuras humanas que atenta para o respeito com as culturas urbanas, principalmente à luz de aspectos étnicos.
Na busca pelo flagrante natural dos gestos humanos, Almir intenta a plenitude abrigada nas manifestações de seus personagens. Tal percepção aponta a todo instante para uma noção de alteridade que implica no respeito e na preservação dos domínios íntimos do Outro, então mostrado pelas lentes. Penetrar na esfera alheia requer também certo tempo de maturação, permitindo com que as pessoas continuem vivendo suas sinas com o crivo da espontaneidade. É um hiato preciosamente marcado pela espera e pelo silêncio, no qual o trunfo do fotógrafo é colocar em evidência o momento que melhor retrate a existência humana.
Foto: Almir Bindilatti
Sem dúvida alguma, o viés antropológico permeia o ofício de Almir, qual seja o que denota o respeito a culturas e modos de articulação do ser e estar distintos na complexa paisagem urbana observada. Cruza-se a linha do Outro primando pela sutileza das investidas, sem que se pretenda a desconfiguração das vivências e práticas imersas na trajetória dos mais variados atores sociais. O saldo das escolhas do artista é deveras significativo na medida em que os diferentes cenários e seus respectivos protagonistas contemplados reproduzem a fluidez ininterrupta da existência.
Nascido no interior de São Paulo, mais precisamente em Tupã, Almir Bindilatti mudou-se para Salvador e lá viveu por bastante tempo, inclusive executando projetos editoriais sobre história, cultura e arte. Desde o começo de 2018 reside em Lisboa, inaugurando uma nova fase em sua vida, o que significou a possibilidade de se dedicar completamente ao seu ofício autoral. Seu trabalho lhe rendeu o Prêmio Leica de Fotografia no Brasil em 2010. É autor dos livros fotográficos Photo Bahia (2008), Mosteiro de São Bento da Bahia (2011), Um Sertão entre tantos outros (2015), tendo participado também de obras coletivas. No ano de 2013, ainda integrou uma exposição coletiva de artistas brasileiros em Xangai, como parte das ações do “Ano do Brasil na China”.
No exercício de captar a vida do modo como ela se mostra, o fotógrafo é testemunha não apenas de um conjunto de rituais e práticas sucessivas ou aleatórias, mas também de revelações associadas ao campo do inusitado. Diante de suas lentes, um pacto constante resta estabelecido: o da coexistência harmoniosa entre a presença do artista e seu objeto. Esse silencioso contrato representa o esforço de não se alterar as rotas contempladas pelo olhar de quem as mira de fora. É com a pungência da poesia que habita os arremessos cotidianos que Almir consolida tal relação.
Foto: Almir Bindilatti
* As fotografias de Almir Bindilatti são parte integrante da galeria e dos textos da 130ª Leva
Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.
Odor.
Revelas-me o mistério do que é táctil.
Do que existe para além de mim,
e que regressa mudo,
entranhando-se na pele,
o maior órgão
do corpo
humano.
Ainda mais humano.
Aqui.
Em contra mão.
Em contraluz.
Ondas.
Sete até ao rebentamento.
Esquecer as listas,
o léxico,
a lengalenga das preposições,
a dor nas mãos
quando havia esquecimento.
Descoberto
O significado último
de apontar para o céu.
Aqui.
na pressão variável
do teu peito.
No ritmo doce
de dois pulmões,
transcreves
a mais cândida estrofe
sobre
ser.
***
Hemofilia
Passar-te nos dedos os papéis em corte.
Deglutir sincera na direcção oposta.
Por um triz levaste nos bolsos um esboço sorrindo.
Uma quase neblina que em raiz perdura.
Estancar-te na ferida que abres ainda,
Na generosa oferenda cálida do magma
antes de explodir,
Em sabor bélico,
Difuso e torto na mucosa efervescente.
Repete-me:
um corpo nunca é apenas um corpo.
É antes um choque em cadeia numa auto-estrada coberta de chuva,
a um domingo.
***
Café Curto
Cortada e sorvida metade da laranja,
passei os dedos na aplicação.
Esquerda.
Direita.
Repeti. Infinitas vezes.
Tu em nenhum quadrado.
Só naquele quadrado tão teu,
tão pendurado no avesso
da nossa interrupção.
***
Ilusão de óptica
O poema surge da justaposição dos corpos.
Das arestas erodidas pelos fluxos em contacto.
Preparo a passagem do testemunho.
Evitando ouvir as tuas mãos trémulas a cair em caixas.
Cantando-te no desaparecimento sôfrego dos náufragos.
Aperto o volume indefinido da estafeta.
Tapo os olhos túrgidos enganando o pragmatismo das listas.
Repetindo a sede paciente do que é inevitável e intemporal.
O início tosco do verso resistirá na penumbra da raiz.
Respirando em segredo segundo os compassos do nosso encontro.
Vai descendo o testemunho pelos teus olhos que se afastam.
Temos apenas um segundo antes de tudo ser já estrofe e harmonia.
Um rasgo subtil de instantânea clarividência.
E aí saberemos.
Sim, somos um novo poema.
***
Linha Mestra
Não sei se da pálpebra,
ou da coxa,
augúrio ou despedida.
misturas,
ou um eco
pálido
das suturas quentes.
linha vermelha.
O alarme dissipa
a óbvia pergunta sobre disparidades.
mão que se pousa,
ou se imagina pousada.
ténue.
segurança proscrita.
linha vermelha.
Não sei se sorrisos,
ou silêncios.
na surpresa só o atraso.
o atraso de ter,
ou de nunca ter tido.
de saber que se foi,
que se demora no regresso,
que na forma se engana.
linha vermelha.
Faz-se da espera um verbo.
Os caminhos são curtos.
Os narizes rectilíneos.
Nem uma sílaba se toca
entre os nomes e os
versos.
A linha não quebra,
nem aproxima.
apenas existe.
e revela.
***
Acto Sétimo
Nos padrões pulsão que paralisa.
Abstraída nos cortes transversais,
ser-se mono ou dicotiledónea apenas.
Puxar lustro a imaginados cones,
Pressentir os dedos húmidos
na destreza lenta das folhas.
Permanecer quieta na certeza de que só cresce
suave.
Ser a rainha do meristema apical.
Dominar assim a latitude e longitude.
Prender amostra na lamela.
Ser-te no corte e fixar-te o meio.
O prazer condensa-se pelo recorte oculto.
um secreto decifrar ambíguo de corantes,
ora parede espessa ora comunicante.
Excitação que cavalga nos contrastes,
labirinto redondo de células côncavas e convexas,
fixar a ampliação e rodar o foco,
soltar a cada mês o acto redondo da origem.
Nem meristema nem membrana vegetal,
toda eu animal
em vertigem compulsiva
de rebobinar e premir play.
Gastar toda a actividade mitocondrial
em overload sensorial
sem conquista ou consequência.
Fascinada pelas palavras e a sua musicalidade e ritmo, Denise Pereira começou a escrever os seus primeiros poemas aos dez anos. Em 2011, começou a publicar regularmente os seus poemas e textos no blog “Janela Inquieta”. É doutorada em História, Filosofia e Património da Ciência e da Tecnologia, pela Universidade Nova de Lisboa, tendo escrito uma biografia do Psiquiatra Luís Cebola (1876-1967), um dos pioneiros da arte-terapia em Portugal. Em 2015, escreveu uma performance músico-poética original – Marioneta Inquieta – que, desde então, já foi a palco inúmeras vezes em Lisboa e em Berlim. Em 2016, mudou-se para Berlim, onde reside atualmente. Alguns dos seus poemas foram traduzidos para alemão pela tradutora e autora Christiane Quandt, a propósito do festival e publicação Stadtsprachen.
Resiliência é uma palavra que, há pouco tempo, entrou em uso comum no vocabulário popular. Segundo o dicionário Houaiss, o sentido figurado do termo ilustra “a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças”. Ou seja, toda pessoa que, apesar das adversidades, vai adiante, encarando a vida de frente.
No entanto, outro conceito, surgido faz tão pouco tempo e que sequer consta nos dicionários, tem a ideia de representar com mais intensidade a resistência humana: a antifragilidade. Não que seja o oposto da resiliência, mas um significado diferente. Uma pessoa antifrágil é aquela que, diante das adversidades, torna-se mais forte. Não importa de quão alto ela caia ou quão profundo possa ser ferida, ela sempre vai crescer na relação com seus desafios e problemas; sempre vai reafirmar seu poder.
É difícil identificar qual desses conceitos melhor se adequa a Lígia Vitalina, protagonista de “Por cima do mar”, de Deborah Dornellas. Em sua estreia no romance, a jornalista, escritora e artista plástica carioca/brasiliense, há sete anos radicada em São Paulo, dá voz a uma mulher negra, filha de um operário e de uma dona de casa, que passou sua infância e adolescência na periferia de Brasília enfrentando dificuldades sociais, discriminação e um estupro que preferiu esconder, de modo a alcançar seus objetivos.
A personagem Lígia estudou com o ensino disponível, entrou para a faculdade e formou-se em História, seguindo carreira acadêmica centrada na pesquisa entre a cultura brasileira e a africana. Numa viagem ao Rio, conhece um professor angolano, com quem se casa, tem filhos e passa a viver na cidade de Benguela.
Certos componentes do enredo refletem a própria vida da autora, também casada com um angolano e com uma carreira acadêmica voltada para o estudo da cultura africana. São fusões entre realidade e ficção que tornam a personagem tão bem delineada em seu aspecto humano, que, na dúvida se sua característica mais marcante é resiliência ou antifragilidade, não foge à certeza de que se trata de uma das protagonistas mais fortes e inspiradoras da literatura contemporânea brasileira.
Prova disso é que o romance foi agraciado, no fim do ano passado, com o prêmio Casa de las Américas, distinção oferecida pela fundação cubana que tem, em seu catálogo, vencedores do porte de Maria Valéria Rezende, Ana Maria Gonçalves, Nélida Piñon e Luiz Ruffato. No comunicado de apresentação do prêmio, os jurados defenderam ser um livro relevante e envolvente, tratando com originalidade e profundidade a vida difícil da protagonista e das mulheres negras que vieram antes dela. E arrematam chamando atenção para o cuidado com a pesquisa histórica e a performance literária de alta qualidade.
Na entrevista a seguir, Deborah Dornellas fala sobre o longo processo de composição do livro, a maneira como recebeu o prêmio e sua visão do meio literário. Além disso, valendo-se das circunstâncias que envolvem sua personagem, toca em temas como racismo, a participação das mulheres na sociedade e a presença de autores negros na literatura contemporânea brasileira, pensando na literatura como um instrumento também capaz de fazer o leitor voltar os olhos para fora do livro. “Não sei se os artistas têm o dever de se manifestar sobre questões que afligem a sociedade por meio de sua arte, mas eu invisto nisso. Acho sim que a literatura tem o poder de conscientizar o leitor de maneira a que isso reflita em suas ações e em sua visão de mundo. Aconteceu e acontece comigo muitas vezes, tanto com a leitura quanto com a escritura. É incrível o que um único livro pode fazer na vida de uma pessoa!”, reflete.
Deborah Dornellas / Foto: arquivo pessoal
DA – Seu romance tem sua força motriz concentrada no aspecto humano da sua protagonista, uma mulher negra, de origem pobre, que, em meio a uma série de fatos ruins e de circunstâncias adversas, supera o passado e, por amor, cruza o Atlântico. Como foi organizar um livro que se desenvolve em várias linhas narrativas, indo e voltando no tempo, para que, a certa altura, o leitor ficasse com a impressão de que toda a história aconteceu de verdade, de que a narração progredisse de forma intuitiva?
DEBORAH DORNELLAS – Foi uma aventura. Entre o primeiro parágrafo e o ponto final, mais de cinco anos se passaram. O parto foi longo. E o livro como uma narrativa fragmentada, com cenas avulsas. Tentei algumas vezes domar o texto, ter mais controle sobre o processo de escrita, mas não consegui. A narrativa fragmentada, indo e vindo na linha do tempo, se impôs. Depois de relutar um pouco, no início, acabei me rendendo. Percebi que esse livro só se escreveria assim. Muitas cenas, inclusive, foram escritas em madrugadas insones, no bloco de notas do celular, no tablet etc. Eu escrevia a cena, salvava, enviava para o meu e-mail e no dia seguinte revisitava, editava. Foi assim até quase o fim do processo. Felizmente, descobri, depois de algum tempo, que isso poderia trabalhar a favor da protagonista-narradora e da história que ela estava contando. Somente em 2017 comecei a montar uma estrutura. Confeccionei uma espécie de escaleta gigante, de cartolina branca, que preguei na parede do quarto. Enumerava as cenas e as colocava numa determinada ordem, para conseguir visualizar melhor. Cada cena tinha uma breve descrição, escrita a lápis, para que eu pudesse apagar e trocar de posição, quando necessário. Mais ou menos como fazem os roteiristas. Aliás, muitas vezes me foi útil o pouco conhecimento de roteiro que tenho. Parecia que eu estava escrevendo um filme de longa metragem. “Por cima do mar” foi minha primeira experiência em prosa longa, e eu não tinha nenhum treino nisso. Na verdade, tive que montar um quebra-cabeça de muitas peças para pôr o livro de pé. Essa primeira montagem não sobreviveu, mas foi fundamental para eu ter um norte. Dali em diante, comecei a trabalhar na costura das cenas, mantendo sempre essa característica da fragmentação, com capítulos curtos, mas já com uma noção de sequência. Em alguns trechos, optei por emendar capítulos que tinham continuidade, porque nesses casos a fragmentação prejudicaria o entendimento. Apesar de ter lido e estudado material sobre técnicas narrativas e de ter tido interlocução desde o início da escrita (o romance nasceu em 2013, como trabalho de conclusão de curso, para a pós-graduação em Formação de Escritores do ISE Vera Cruz, e por isso foi lido e comentado durante as oficinas avançadas), acho que o processo de produção do texto foi um bocado intuitivo também.
DA – Há situações e tomadas de caminhos na vida da protagonista de seu livro que muito se aproximam daquelas que configuraram a sua própria vida. Isso foi algo espontâneo, quase como um flerte involuntário com a autoficção, ou, desde o começo, você teve esse intuito de visitar trechos da sua realidade através de recortes ficcionais?
DEBORAH DORNELLAS – Tive sim o intuito de visitar trechos da realidade de Brasília, do Brasil e de Angola por meio de recortes ficcionais. E também emprestei à protagonista alguns elementos de vivências minhas, de situações que conheci de perto. Acho que muitos ficcionistas fazem isso. Mas não sinto que tenha exatamente flertado com autoficção. Não é uma vertente que não me atrai como escritora, embora como leitora eu aprecie algumas obras que vão por esse caminho. Quanto a mim e Lígia Vitalina, a protagonista-narradora, nossas biografias apenas se tocam em alguns aspectos: somos mulheres, ambas criadas no DF, pertencemos a gerações próximas (ela é de 1967, eu sou de 1959), estudamos na UnB, gostamos de música e escrevemos poesia. Mas me parece que as semelhanças são apenas essas. Não diria que nossos caminhos de vida se aproximam por isso. Na verdade, ao longo da produção do livro, fui criando situações para Lígia Vitalina de maneira a tentar aproximá-la mais de mim, já que somos bem diferentes. Lígia é negra, nascida e criada na periferia do Distrito Federal, numa família pobre. Eu sou branca, de classe média alta, nascida no Rio e criada do Plano Piloto de Brasília. Existe um apartheid geográfico e social entre essas duas experiências, esses dois pontos de vista. Lígia olha para Brasília, para o Plano Piloto, de fora para dentro. Sua trajetória, suas desventuras, as violências que sofre, sua reconstrução emocional, sua travessia de volta à geografia ancestral, seu lugar de fala, tudo é muito diferente da minha experiência. Nós não falamos do mesmo lugar. A meu ver, os cenários e episódios da história coletiva de Brasília são mais relevantes para a história da personagem do que os elementos da minha história que emprestei a ela. Mas, desde que me joguei nessa aventura, eu quis fazer justamente o exercício de me colocar no lugar da outra, de olhar a partir do ponto de vista de uma mulher com uma biografia muito distinta da minha. Para isso, era fundamental que a própria personagem contasse sua história, que tivesse voz. Por isso escolhi a primeira pessoa para narrar. Foi uma escolha arriscada. Imaginei que suscitaria várias questões, como esta do provável namoro com a autoficção, e outras, relacionadas justamente ao lugar de fala. Procurei tomar muito cuidado com isso. Mas me pareceu que a primeira pessoa da narrativa era a única possível, para o livro que eu queria escrever. Desde o começo, Lígia queria contar, ela mesma, essa história. Esse romance só existe porque ela não desistiu dele (e de mim) todo esse tempo. “Por cima do mar” nasceu com Lígia Vitalina da Conceição Brasil e por causa dela, e assim se sustentou até o fim. Impressionante a força dessa personagem. Apesar de ela ser uma personagem completamente ficcional, penso em Lígia como uma pessoa de carne, osso, vísceras e vontade. E, mesmo depois de tantos meses da publicação do livro, às vezes tenho a sensação de que vou encontrá-la numa esquina. Ficamos amigas.
DA – Os personagens de seu livro vivenciam episódios marcantes da história do Brasil, com base no Distrito Federal, a exemplo do incidente do Quarentão (antigo clube da música negra, invadido a tiros pela polícia, nos anos 80) e do enterro do presidente Juscelino Kubitschek, em 1976. Qual o cuidado que você teve ao trazer esses registros históricos para seu livro, contextualizando com a formação dos personagens, sem soar aleatório ou didático? Há alguma regra para se manipular a História?
DEBORAH DORNELLAS – Não sei se há regras para se manipular a História. Acho que precisamos ter muito cuidado com isso. Fiz o possível para respeitar os episódios históricos que trouxe para o livro. Até porque a protagonista-narradora é historiadora e professora de História. No âmbito coletivo, da História do Brasil, de Brasília e de Angola, procurei mesmo reproduzir os fatos conforme os encontrava nas pesquisas, sempre feitas e checadas em mais de uma fonte. Fiquei meio obsessiva com datas, por exemplo. Mas também me senti bem livre para ficcionalizar elementos que servissem à narrativa, no âmbito da micro-história, das histórias do cotidiano, da experiência dos personagens que criei. Colocava o personagem na cena de maneira a que a situação interferisse na ação dele ou dela, e não o contrário. Em alguns trechos, criei cenas completamente ficcionais, mas em cenários e eventos reais, com personagens reais, como a Cássia Eller, por exemplo, que interage com alguns personagens (Lígia, Virgínia, Moscão), mas não ficcionalizei nada da história pública da Cássia. A mesma coisa com o enterro de JK, o baile black no Quarentão, o episódio do “massacre da GEB” e algumas passagens da História de Angola, como a guerra do Huambo. A dimensão histórica fez parte da proposta do livro desde o início, lá atrás, quando eu tinha apenas o conto “Vitalina”, germe do romance. Desde a apresentação do projeto, já anexei os resultados de algumas pesquisas, tanto da história de Brasília quanto da de Angola. Pessoas que leram partes do texto ao longo dos primeiros dois anos, inclusive professores da pós e, posteriormente, membros da banca examinadora, sugeriram que a história da personagem caminhasse, por pouco que fosse, junto com a história de Brasília. E que eu também falasse de Angola e incluísse episódios de sua história recente. Acolhi de cara a sugestão. Gosto muito de História e queria mesmo mostrar Brasília, minha cidade, e Angola, um país tão importante para o Brasil e tão pouco conhecido aqui, infelizmente. Para isso, fiz bastante pesquisa em livros, websites, textos, conversei com amigos brasilienses e angolanos etc. Durante todo o processo de escrita e reescrita, tomei cuidado para não passar dados históricos falsos ou imprecisos. Chequei datas, lugares, nomes, vocabulário inúmeras vezes. Em 2016, viajei para Angola, visitei Luanda e Benguela. Essa viagem foi fundamental para o livro. Mais para o final de 2017, algumas pessoas em Angola e no Brasil leram a primeira versão. Essas leituras foram muito importantes e úteis para mim. A partir das devolutivas desses leitores escolhidos, corrigi muita coisa, inclusive informações históricas e geográficas. E também excluí trechos, por serem didáticos demais, explicativos, ou muito contaminados pela linguagem jornalística – sou repórter de formação, e alguns cacoetes profissionais podem às vezes contaminar a escrita ficcional.
DA – Dois temas surgem com muito impacto na trajetória da sua protagonista, o racismo e a violência contra a mulher. O primeiro, em forma de preconceito e segregação; e o segundo, por meio de uma cena forte de estupro coletivo. Qual a relevância concreta da literatura como canal para se discutir assuntos como esses? Você acredita que a ficção tem o poder de conscientizar o leitor e fazer com que, de alguma maneira, isso se reflita no modo de enxergar a sociedade? E, dentro da temática do racismo, qual o seu ponto de vista em relação às polêmicas recentes envolvendo alguns dos livros de Monteiro Lobato?
DEBORAH DORNELLAS – A literatura, assim como a arte em geral, é sim um canal relevante para discutirmos muitas questões da nossa sociedade. Faço uso desses canais na minha criação. Não acho que temos sempre que produzir “arte engajada”, para usar um conceito antigo e muito questionado. Isso poderia ser uma camisa-de-força para a expressão artística, o que não é bom. Eu pessoalmente gosto de usar minhas possibilidades de expressão para tratar de assuntos que me mobilizam, intrigam, incomodam, sejam eles coletivos, da sociedade ou individuais. Quero ter o direito de fazer isso livremente. Ainda mais em tempos tão sombrios. Não sei se os artistas têm o dever de se manifestar sobre questões que afligem a sociedade por meio de sua arte, mas eu invisto nisso. Acho sim que a literatura (prosa de ficção, poesia) tem o poder de conscientizar o leitor de maneira a que isso reflita em suas ações e em sua visão de mundo. Aconteceu e acontece comigo muitas vezes, tanto com a leitura quanto com a escritura. É incrível o que um único livro pode fazer na vida de uma pessoa! Conheço muitos exemplos. Quanto ao Monteiro Lobato, acho que é fundamental que, ao ler sua obra, o leitor seja informado sobre as posições ideológicas racistas e eugenistas do autor. Até porque acho que ele nunca escondeu suas ideias a esse respeito. Há elementos em muitos de seus livros, inclusive nos mais populares, lidos por crianças há gerações. É preciso que se dê nome às coisas. Nunca fui leitora de Lobato. Talvez não tenha sido apresentada a ela na infância como os brasileiros escolarizados da minha geração foram. Conheço personagens e trechos de seus livros, claro, mas muito por causa de programas de TV. Se tivesse que dar aulas sobre a obra de Lobato hoje, por exemplo, teria que ler tudo, e certamente leria com filtro. O viés racista em sua criação prejudicaria minha fruição.
DA – Outro aspecto fundamental do romance é uma resistência a fazer da protagonista, sufocada pelo sistema, sufocada por seus próprios dilemas, vítima da sociedade. Muito pelo contrário: há um fator de resiliência e de vontade de vencer muito grande na maneira de ela encarar a vida. O quão importante para a construção da personagem foi idealizá-la dessa maneira? E como essa imagem pode se refletir na representação da mulher negra na sociedade de hoje?
DEBORAH DORNELLAS – Nos primeiros tempos de escrita do texto, Viltalina (que ainda não tinha o nome Lígia acrescentado ao seu), era uma mulher melancólica, quase depressiva, muito ferida pela vida. E carregava uma herança de pai e mãe que fizeram dela uma pessoa tímida, contida. Se ela tivesse permanecido assim, teria se tornado uma mártir, uma vítima da sociedade, uma personagem pálida, e eu não queria isso de jeito nenhum. Seria muito pouco para essa personagem. As feridas de Lígia Vitalina a constituem, mas não a resumem. Além disso, seria um desserviço para a luta das mulheres, especialmente das mulheres negras. Com a evolução da escrita do romance, a personagem cresceu, amadureceu, ganhou força e autoestima elevada, até se tornar uma mulher aguerrida. Essa transformação fica evidente ao longo da vida de Lígia. De 2015 em diante, comecei a prestar mais atenção à produção intelectual das negras brasileiras e a seguir várias pensadoras negras, ler seus posts nas redes sociais, conhecer melhor seus pleitos, entender sua luta e de que lugar elas falam. Também procurei ler mais livros de escritoras negras. Essas leituras e essa atenção, mais o material que eu já tinha pesquisado e escrito, trouxeram a Lígia muitas características que ela não tinha antes, e penso que isso enriqueceu muito a personagem, tornou-a mais complexa. E verossímil. Esse crescimento e aprimoramento da personagem foram muito importantes para Lígia Vitalina que resultou, para a heroína brasileira que me desafiei a construir desde que tive a ideia de transformar um conto com problemas de construção numa prosa longa mais trabalhada. O cuidado com a representação da mulher negra na sociedade de hoje foi sempre meu norte na produção desse livro. Principalmente porque sou uma escritora branca que escreveu um livro que conta a história de uma personagem negra. Meu objetivo é juntar forças. Como disse a Ana Maria Gonçalves num programa de entrevistas em 2017, a ideia é “falar junto” e não “falar por”.
DA – A certa altura, a sua protagonista se apaixona, casa e vai morar em Angola, terra natal do seu marido. Você também é casada com um angolano e passou um tempo no continente africano. Nesse caso, o quanto de sua experiência pessoal serviu de matéria para o livro? E, desse conhecimento empírico, consegue traçar paralelos e diferenças entre a cultura angolana e a brasileira, sobretudo no que corresponde à literatura?
DEBORAH DORNELLAS – Lígia se casou muito antes de mim. Na verdade, Vitalina se casou quando a história ainda era um conto, antes de 2013. Quando iniciei a escrita do romance, e logo nos dois primeiros anos, mantive o mote e muitos dos elementos do conto original. Zé Augusto está lá desde o começo. Ele, sua biografia, parte de sua família. Uma das primeiras sequências que escrevi foi o encontro deles no Rio, por exemplo. Nesse momento, eu ainda não conhecia meu marido. Na verdade, foi o trabalho com o livro que me levou a ele, e não o contrário. Em 2013 e 2014, comecei a pedir amizade a vários angolanos e angolanas pelas redes sociais, justamente porque precisava conhecer melhor os costumes de Angola, expressões das línguas nacionais, indicação de fontes de pesquisa. Foi nesse contexto que conheci o Carlos, meu marido. A amizade virou namoro virtual no finalzinho de 2015. Em março de 2016, ele veio viver comigo no Brasil. Nunca nos tínhamos visto pessoalmente. O romance tinha então mais de 100 páginas escritas já. Carlos só conheceu a história de Vitalina aqui, com a leitura do material que eu havia apresentado à banca, no começo de 2015. Até então, eu ainda não tinha ido a Angola. Só pude viajar para lá em novembro de 2016, porque só então tive condições financeiras. E também quem me hospedasse em Luanda e Benguela e me enviasse a carta-convite, que o governo exige para expedir o visto. Quem fez isso foi minha amiga Judith Luacute, que conheci pessoalmente aqui no Brasil em 2014, também a partir de um primeiro contato pela rede. É ela que eu homenageio com o sobrenome da família de Zé Augusto. Pude ir sozinha para Angola – Carlos ficou no Brasil – muito por causa da generosidade da Judith e de alguns amigos do meu marido, que na época moravam em Benguela e me acolheram. Passei apenas 17 dias em Angola. Nunca vivi lá. Essa viagem foi fundamental para que eu pudesse afinar algumas cenas, enriquecer descrições, andar pelos cenários. Muitas cenas do cotidiano das ruas de Benguela, por exemplo, foram escritas depois da viagem que foi muito curta, mas inesquecível. Quero voltar logo. Angola entrou na minha vida há muitos anos, por duas portas: a primeira foi a cultura popular brasileira de matriz africana, especialmente maracatu e congado; a segunda, a literatura africana em língua portuguesa, que conheci para valer em 2004. De lá para cá, tenho lido tudo o que me cai nas mãos e sempre vou atrás de mais livros de autores angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos etc. Pepetela, Agualusa, Ondjaki, Ana Paula Tavares, Gociante Patissa, Mia Couto, Paulina Chiziane, entre outros. Durante anos, entre 2004 e 2007, só lia africanos. Acho que “Por cima do mar” é tributário dessas literaturas, de alguma maneira. Há muitas semelhanças e diferenças entre as culturas brasileira e angolana. Do nosso lado do Atlântico, há sobrevivências importantes, plasmadas ao longo de toda a diáspora: aspectos da religiosidade brasileira, elementos da culinária, da música, das danças, do português brasileiro etc. Mas a Angola que está no nosso imaginário é uma Angola mítica, um lugar parado no tempo, no espaço de uma África oitocentista. Do lado de lá do oceano, a cultura brasileira tem muita influência e há um bom tempo. Nossa música é bastante conhecida, admirada e consumida lá. E nas últimas décadas, acho que dos anos 80 para cá, as telenovelas entraram em Angola com força total. Quando estive lá, assisti a alguns capítulos de duas ou três telenovelas que já tinham passado aqui. Outro fenômeno notável na Angola atual é a presença massiva das igrejas evangélicas neopentecostais, com seus templos enormes e sua rede de TV, mas isso é assunto para outra conversa. Noutras décadas, a literatura brasileira foi muito lida em Angola. Toda uma geração de angolanos leu boa parte da obra de Jorge Amado, por exemplo. Vários escritores brasileiros são conhecidos dos angolanos. Mas infelizmente essa é uma via de mão única. Poucos brasileiros sabem alguma coisa de Angola, menos ainda leem literatura angolana. Dois ou três autores angolanos são conhecidos aqui. Acho que a maioria dos brasileiros nem sabe que Angola é um país de língua oficial portuguesa. E muito pouca gente conhece ou se interessa pela história recente do país. É uma pena que o Brasil seja este país tão autocentrado, ou tão voltado para Europa e América do Norte. África e América Latina têm muito mais a ver conosco do que grande parte da sociedade brasileira imagina e deseja.
Deborah Dornellas / Foto: arquivo pessoal
DA – Sua formação é de jornalista, com mestrado em História, por meio do qual você tem uma pesquisa profunda sobre a influência africana na cultura brasileira. Transportando esse conhecimento para o campo literário, como avalia a representação do negro na literatura brasileira? E, na sua opinião, ainda há pouco espaço para escritores negros?
DEBORAH DORNELLAS – Há pouco espaço para as escritoras e escritores negros na nossa literatura. Se pensarmos em termos de representatividade, menos ainda. Esses dias, li uma entrevista da Conceição Evaristo em que ela questiona justamente o fato de sua obra só ter começado a ter visibilidade muito recentemente, quando ela já passou dos 70 anos de idade. Há décadas ela trabalha, escreve, estuda, luta por espaço. Isso quer dizer muita coisa. Uma obra com essa relevância já deveria estar sendo lida há muito mais tempo. Para ilustrar a representação do negro na literatura brasileira, uso uma fala da mesma Conceição Evaristo, que ouvi numa das mesas da FLIP de 2017. Ela comentava mais particularmente sobre a representação da mulher negra na literatura brasileira. Segundo um levantamento que ela fez, as negras na nossa literatura tradicional em geral são estéreis, não são capazes de ter descendência. Isso é tão cruel quanto revelador. Acho que alguns ventos favoráveis a que isso mude estão começando a soprar, mas ainda é preciso correr muito trecho. E isso os intelectuais negros e negras têm feito muito bem. É nessa trincheira que eu quero estar.
DA – Seguindo esse mesmo raciocínio, uma avaliação superficial do mercado literário deixa claro que o espaço e o interesse por livros escritos por mulheres ainda compõem um percentual inferior a aquele ocupado por homens. Recentemente, a divulgação de um prêmio literário para autores inéditos também demonstrou essa disparidade. Trabalhando também como tradutora, seu olhar de dentro do mercado literário tem essa mesma percepção? Acredita que ainda exista um preconceito e uma “dificuldade” para com os livros escritos por mulheres, tanto dos leitores quanto das editoras e das comissões avaliadoras de originais?
DEBORAH DORNELLAS – Não sou tradutora literária. Talvez um dia me aventure por esses caminhos, que me atraem muito. Mas imagino que o mercado de obras traduzidas aqui no Brasil reproduza o que o mercado literário de livros nacionais faz: o reforço da hegemonia masculina. Isso se dá por várias razões que não cabe elencar aqui, mas principalmente porque o mercado literário de uma sociedade machista é fundamentalmente machista. Tenho muita implicância com o termo “escrita feminina”, por exemplo. O que seria isso? Existe “escrita masculina”? Podemos falar talvez de escrita de autoria feminina, de literatura feita por mulheres, mas só com o intuito de marcar nossa posição num mercado que resiste em abrir as portas para nós. No mais, qualquer rótulo é restritivo. O mesmo serve para escritas de negros e negras, LGBTQs, periféricos, indígenas etc. Tudo que está fora da perspectiva do homem branco, heterossexual, de classe média para cima, euro-centrado é visto como exótico. Isso, além de ser uma bobagem inominável, não é sequer inteligente, porque não leva em consideração o que o tal mercado literário, que eu nem sei bem o que é, poderia lucrar se investisse mais nessas escritas que ele próprio tende a desqualificar. Parece que isso está mudando, mas bem devagar. Em 2018, o Prêmio São Paulo de Literatura, por exemplo, só premiou mulheres em suas três categorias. Isso nos deve dizer alguma coisa sobre a literatura que estamos produzindo. Integro dois coletivos literários, o Martelinho de Ouro, composto somente por mulheres, mas sem perfil feminista, e o Mulherio das Letras, de perfil mais militante. Atesto, olhando de dentro de ambos, que nós temos uma força de produção e realização impressionante. O mercado que fique atento.
DA – Uma parte de seu romance se passa numa comunidade pobre, em Brasília, e é estranho como ainda hoje um autor surgido da periferia, da favela, ainda causa um fascínio pela maneira como interpreta esse ambiente e o transpõe para a ficção, valendo-se de uma linguagem própria. Foi assim, por exemplo, com o livro de contos “O sol na cabeça”, do autor carioca Geovani Martins. Pensando nas características desse tipo de literatura, como você avalia o olhar de fora para esse universo particular? Acredita que ainda exista uma barreira para o que foge da norma culta e traduz esse movimento como algo exótico?
DEBORAH DORNELLAS – É como eu disse aí acima. O olhar de fora é limitado e tende a rotular de exótico tudo que não traduz a perspectiva hegemônica. A periferia é olhada de fora por quem dita as regras no mercado. A ascensão rápida do Geovani Martins é uma exceção a essa regra. Gosto muito do trabalho dele, li “O sol na cabeça” numa noite. O texto tem muita força. Ocorre que quando as coisas começam a aparecer no centro, provavelmente já estão acontecendo há muito tempo na periferia. A periferia pulsa. E é de lá que vem o novo. E não só na literatura. Basta olhar para todos os movimentos que têm acontecido nas periferias do Brasil há décadas para constatar isso. Na área da literatura, há saraus, slams, feiras literárias – como a FELIZS em São Paulo, a Movida, no DF, e FLUP, no Rio, por onde inclusive o Geovani Martins passou e passa –, casas editoriais independentes etc. Mas os caras só enxergam isso pela sua lente. E com delay.
DA – Por falar em linguagem, embora com uma força de escrita descritiva, seu romance traz um teor visível de lirismo no modo como compõe certas cenas e narra a maneira com que a protagonista decifra o mundo externo e o interno. De onde vem essa verve poética, e como ela se encaixa na construção do seu livro?
DEBORAH DORNELLAS – Escrevo poesia desde muito cedo. Foi por essa porta que entrei na escrita literária. Embora seja uma leitora mais frequente de prosa, a poesia é minha forma de expressão mais orgânica. Meu primeiro livro publicado foi uma coletânea de poemas, TRIZ (In House, 2012). Desde 2012, comecei a fazer oficinas literárias. Fiz duas com o Marcelino Freire, antes de entrar na pós-graduação para escritores. Foi nesse ambiente que comecei a arriscar textos em prosa. A coisa se destravou aí, mas foi só no ano seguinte, quando entrei para o Coletivo Literário Martelinho de Ouro, que tive coragem de publicar alguns dos meus contos. Desde 2013, temos publicado coletâneas de textos todos os anos, em formato de livro ou fanzine. Quanto ao lirismo, acho que não sei escrever sem ele. Aliás, acho que não viveria sem lirismo. No romance, ele está por toda parte. A poesia esteve presente desde o início da escrita. Com uma particularidade: poesia e prosa poética funcionam como uma espécie de refrigério para a protagonista. E acho que para o leitor também, em alguns momentos. Descobri que esse é um recurso meu. Quando não dou conta de narrar, por alguma razão, recorro à poesia. Emprestei esse recurso à Lígia Vitalina, e ela aceitou. A poesia entra em momentos muito difíceis ou intensos para ela.
DA – “Por cima do mar” é seu primeiro romance, e ganhou, no ano passado, um dos prêmios literários mais prestigiados do mundo: o Prêmio Casa de las Américas. Eu queria saber como foi sua relação com a editoras, quando estava procurando um selo para publicação, até finalmente o original do romance ser aceito pela Patuá? E se, após a conquista do prêmio, surgiu algum tipo de interesse pelo seu trabalho por parte de outras editoras, talvez alguma daquelas consideradas grandes?
DEBORAH DORNELLAS – Não houve relação com editoras. O Martelinho já publicava com a Patuá. Conversei com o Eduardo Lacerda, dono da editora, dei uma parte do manuscrito original para ele ler e logo em seguida já combinamos a edição. Foi um processo bem rápido. Nossa relação é muito boa e fluida. Consegui fazer o livro que eu quis, no formato que escolhi. E foi o Edu quem sugeriu que eu mesma ilustrasse o romance. Isso talvez não fosse possível se eu estivesse numa editora dessas consideradas grandes. Nenhuma delas veio me procurar ainda.
DA – Qual o grau de transformação você acredita que um prêmio desse porte pode trazer para sua carreira de escritora?
DEBORAH DORNELLAS – Receber o Prêmio Casa de Las Américas, ainda mais com o primeiro romance, é uma grande alegria e uma imensa honra para mim. Acho que as coisas já começaram a mudar. E podem mudar mais ainda, em relação à visibilidade do livro e ao interesse que ele desperta. Qualquer prêmio relevante pode ser uma alavanca para a carreira da escritora ou do escritor. Desde que foi divulgado o resultado do prêmio, pessoas começaram a me procurar para entrevistas, resenhas foram publicadas, convites para participar de feiras literárias começaram a pipocar. Estou adorando, claro, e surfando nessa onda. Afinal todo livro é uma aposta, um sonho e envolve muito trabalho.
DA – Há um momento muito bonito em seu livro, no qual a protagonista percebe que suas escolhas de vida a levaram a se completar no outro. Pensando na literatura como uma escolha para entender a si mesma, de que maneira o exercício da escrita e da criação lhe completa?
DEBORAH DORNELLAS – Que bonita essa percepção. Não tinha pensado nisso, nem em relação a ela, nem em relação a mim. Escrever, poder expressar-se é muito bom, e o exercício da escrita e da criação pode sem dúvida ser um caminho para o autoconhecimento, a autopercepção, o auto-acolhimento. Os momentos mais prazerosos para mim são aqueles em que estou escrevendo, pintando, lendo, pensando sobre um próximo livro, trabalhando numa ideia. Criar, mesmo quando dói, é bom. Descubro isso todos os dias.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
Um ano se inicia. Com ele, sempre depositamos esperanças de mudanças em relação ao movimento das coisas que buscamos. Parece haver a ideia permanente de que outra contagem temporal, por si só, é capaz de encerrar a renovação. Desse modo, pensamos teimosamente que um ano nascente demanda a intenção da novidade. 2019 pode ser muito mais do que índice cronológico de um estado de coisas e situações. Compartimenta um tempo de vivências que ganha significativa importância na medida em que estas remetem ao pensamento humano. No caso específico de um projeto como o da Diversos Afins, as expectativas são movidas pela dinâmica que aflora entre palavras, ideias e imagens. Assim, o ano agora por desbravar não significará muita coisa se não pudermos, através dos comandos da Arte e da Literatura, fomentar expressões daqueles que pensam muito além de seu entorno. O compromisso com o mundo e suas mais variadas questões é algo que perpassa naturalmente as manifestações de muitos criadores. Estes últimos são vetores de um fluxo comunicativo que requer uma lúcida e aguçada observação sobre a vida, delineando temáticas que ultrapassam as fronteiras da mera contemplação estética. Há quem tencione que o fazer artístico deva guardar uma necessária correlação com o tempo no qual se vive, representando tal ato uma incessante vigília sobre o curso da história humana. Nessa mesma linha, evoca-se a noção de que somos todos seres políticos por natureza e, portanto, passíveis da assunção do comportamento crítico dentro do imenso painel que é o exercício democrático do livre pensar. O curioso é perceber aqui que até mesmo quem se recusa a se caracterizar como sendo alguém político já pratica uma espécie de política, mesmo que na via da negação. Discussões à parte, as veredas literárias, por exemplo, são um importante instrumento de exposição de opiniões advindas do universo sócio-político. Além disso, posicionar-se pode ser muito mais do que encampar uma determinada ideologia, ou seja, significa também deixar mais consistente o caldo da participação na sociedade, ainda que surjam correntes antagônicas de ação, o que nos “protegeria” das garras nocivas do pensamento único. Quando a arte movimenta essas nuances do múltiplo que se abrigam em nós, somos convocados ao debate e à reflexão. Movidos pela pluralidade, nosso caminho editorial de então encontra respaldo na expressão poética de Ricardo Escudeiro, Wanda Monteiro, Luísa Gadelha, Elizabeth Hazin e Tito Leite. Somos também embalados pelos contos de Kátia Borges, Zuca Sardan e Floriano Martins. É Geraldo Lima quem nos apresenta o mais novo livro de Claudio Parreira, o romance “A lua é um grande queijo suspenso no céu”. Guilherme Preger analisa as delicadas tramas do filme japonês “Assuntos de família”. No texto de Pérola Mathias, toda a inventividade presente em “Contraduzindo”, disco de Tuzé de Abreu. Elis Matos entrevista a poeta, fotógrafa e performer Ana Mendes. A pesquisadora Maria Lúcia Lepecki celebra a memória do escritor português António Vera. O rock da banda Game Over Riverside é alvo de Emanuel Moreno Pinho e suas impressões sobre o disco “Empty”. Durante toda a edição, somos atravessados pelo impacto das ilustrações de Joana Velozo. Adentrando seu novo ciclo de atuações, a Diversos Afins apresenta a 129ª Leva. Seja muito bem-vindo(a), caro leitor(a)!
Sem saída, empreendi esta fuga. Havia uma ladeira no caminho para o trabalho, e aquelas árvores já conhecidas suas. Passei por elas feito um foguete. Parei rapidamente no mercado para retomar o fôlego e então segui em disparada, sempre em frente. Onde daria, não sei. Só queria estar ainda mais longe. É que, de repente, até minha cidade se tornara sua. E eu já não suportava mais estas paisagens. Nem mesmo o mar, o muro do mar. Foi quando decidi optar pelos livros, onde já me abrigara com sucesso tantas vezes. Olhei minhas estantes de universo, quantos seiscentos e tantos enredos a esperar por este personagem. Tal o desespero, que cabia até em a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Me encaixava em Benjamin sem eixo. Firme em não desistir, ainda que as pernas quase não aguentassem o peso, do corpo que se movia e se movia e se movia. Tal o desespero que cabia em diante da dor de Susan Sontag. Neste, só por ironia. Insone. Lendo e relendo Fante. Autômato do pensamento, rumo às teses que me sustentariam, espécie desajeitada de esqueleto. Pensei criar ali um bunker como o de Hitler. E enquanto as tropas aliadas não o destruíssem, de lá comandaria meu exército. Fechado em mim, sempre correndo, parei numa praça, revi o gramado e as flores. Havia minado o gramado, esmagado com meus pés as flores. Sentei um pouco em um de seus bancos de concreto, neoconcreto, mas sem sintaxe. Talvez ninguém me alcançasse. Ali, invisível, silencioso como se não existisse. Como alguém que prende a respiração para mergulhar e simplesmente esquece. Como quem entra num automóvel, a máquina imóvel segue rumo imprevisível. Confiaria. Em nova pausa, parei ofegante a olhar os folhetos coloridos na vitrine de uma agência de viagens. Para onde? Haveria certamente algum destino. Qual era mesmo o nome da ilha ao meio-dia? Aquela nossa ilha ao meio-dia. Você sabe. Todas aquelas coisas que julgara nossas e que foram apenas minhas. Ilusões pedem perdão. Só assim se consegue ir adiante. Mas sem parar é quase perto, quase. Se mais corresse, é certo, se mais e mais e mais corresse, quem sabe, finalmente me aproximaria. Após cruzar este país inteiro, chegar à rua em que você vivia.
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Um verão invencível
A espera da chuva me comove. A frase soou como se eu houvesse proferido uma heresia antes. Falei que um dia de sol faz esquecer que a morte existe. Pensava nisso aquela tarde, caminhando no condomínio, quando a tempestade veio. Tão forte que parecia que o universo inteiro chacoalhava por dentro. A chuva me deprime, pensei em silêncio, adiando alguma intimidade. Não queria contar a ela sobre a casa da infância. Papai amarrando um plástico com barbante, abaixo do teto de telhas vãs, sobre nossas camas. Ficávamos vigiando enquanto a bolha enchia de água, até os olhos não aguentarem. No dia seguinte, mamãe mergulharia as pernas na enxurrada, tentando salvar os móveis. Sentia vergonha ainda. Nada denunciava minha expertise, quando via famílias que perdem todas as suas coisas. Não havia razão para dizer a ela que fui uma dessas crianças pobres que temem a chuva ou entregar em suas mãos algo que me revelasse. Uma distância sóbria seria nossa ponte, de preferência tão longa quanto Danyang–Kunshan. Que aquela moça ficasse em Xangai e me deixasse quieta em Nanjing. Mas então ela se aproximou da sacada da casa onde estávamos, por um desses acasos imprevisíveis, porque havia um jardim de inverno, e seus dedos finos desenharam no ar, próximo da minha cabeça, o que imaginei ser uma pequena árvore. Observava, lá fora, o céu cinzento, certamente comovida. Logo, logo, choveria. Tristeza, às vezes, é pesada feito nuvem. Um retrato sem profundidade. Era assim que desejava que me visse. Foto impressa em papel, apenas imagem. Como um desses perfis que expõem nas redes sociais. Talvez, no verso, uma frase inteligente, um aforismo de Nietzsche, algo que a impressionasse. Tudo menos que soubesse a penúria das janelas de madeira sem vidro, a fragilidade da porta de madeira, cheia de buracos, por onde imaginávamos espreitar-nos algum olho, e os ratos. Nunca falaria com ela sobre os ratos, sobre como convivera com os ratos. Temia que morresse de medo ou de ternura. Quem sabe o que uma coisa como aquela despertaria? Notei que ria, distraída, diante dos primeiros pingos. Um abismo crescia na forma como víamos a aproximação da tempestade.
Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012), São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Penalux, 2017). Teve alguns de seus poemas incluídos nas coletâneas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Éditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).