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129ª Leva - 01/2019 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A Literatura que não economiza no humor e na fantasia

Por Geraldo Lima

 

 

Claudio Parreira é desses escritores que enxergam a realidade pela ótica da zombaria, do humor, do escracho. Sua crítica aos poderosos ou ao comportamento humano passa sempre pelo rebaixamento ou pela ação de despir qualquer gesto grandioso da sua aura de importância. Na sua narrativa não cabem a sisudez, a dramaticidade ou o discurso grandiloquente. Não que ela seja marcada pela frivolidade, muito pelo contrário: esse seu caráter de desconstrução do que se determina como sério aponta exatamente para a descrença do autor na ideia de redenção do ser humano por intermédio de um discurso edificante. Claudio Parreira é, nesse sentido, um pessimista. Daí o modo zombeteiro com que trata literariamente as aflições humanas. É esse modo de narrar irreverente que o leitor encontra em A Lua é um grande queijo suspenso no céu, romance que o autor publicou, em 2017, pela Editora Penalux.

Para os que leram Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, fica mais fácil entrar no clima fantástico e irreverente desse romance de Parreira. Não que isso se imponha como exigência para se entender a história contada por ele, mas, com certeza, os que leram a referida obra de Machado vão sacar de imediato que o romance A Lua é um grande queijo suspenso no céu dialoga diretamente com ela. Não só dialoga, como traz, para dentro da sua narrativa, a figura do Bruxo do Cosme Velho.

“Sem considerar o absurdo de estar conversando com alguém, digamos, tecnicamente morto, mandei uma pergunta:

– O que é que você, senhor…

– Assis. M. Assis ao seu dispor – ele respondeu, o cigarro lançando uma fumaça preguiçosa para o alto” [pág. 35].

À semelhança do livro de Machado de Assis, o romance de Parreira traz também um defunto-autor [que faz constante uso da metalinguagem e da intertextualidade]. Só que, neste caso, um defunto-autor que está escrevendo um diário, cujos eventos dão-se entre os muros de um cemitério. O livro abre, na verdade, com um prólogo narrado em terceira pessoa. Nesse prólogo, sabemos que um corpo está sendo levado para o IML, numa ambulância, acompanhado por um médico e um enfermeiro.  Junto ao corpo encontra-se um caderno. E é através da leitura, feita pelo médico, do que está escrito nesse caderno que somos conduzidos à história que se passa no interior de um cemitério. Essa história, para espanto do leitor, ainda está sendo escrita pelo protagonista, que, inicialmente, denomina-se Pafúncio [a questão do duplo é uma das tensões presentes na narrativa]: “– Admiro a sua determinação. Não é nada fácil viver uma aventura e escrevê-la ao mesmo tempo” (pág. 109). Essa trama pode parecer absurda e inverossímil num primeiro momento, mas, durante o desenrolar da narrativa, somos constantemente alertados de que, ali, no reino dos mortos [e no reino da fantasia, também!], tudo é possível. O engraçado é que, assim como a protagonista da peça Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues, o tal Pafúncio não se reconhece como morto. E vai levar um bom tempo até reconhecer a sua nova condição, apesar de todas as evidências de que já não se encontra no mundo dos vivos.

Se Brás Cubas, no além-túmulo, decide escrever suas memórias com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, o personagem de Parreira não fará muito diferente: com a caneta da galhofa e da fantasia, ele, instigado por outro personagem, o misterioso Bernabé, dá início às suas idas e vindas em busca da panaceia, neste caso, pela cura do grande mal que aflige a humanidade: a Miséria. A partir daí, o que se vê é o nonsense, o fantástico, a irreverência, num universo em que se misturam vivos e mortos. Esse jogo entre vida e morte, entre o anseio pelo conhecimento e a dúvida de que se vale a pena mesmo buscá-lo, cria uma certa tensão entre o protagonista e aquele que o instigou a procurar a panaceia. Mas nada aí se propõe a criar discussões muito engajadas ou climas dramáticos. Quando a narrativa se encaminha nessa direção, o defunto-autor trata logo de desconstruí-la, apelando, até mesmo, para o juízo crítico do autor de Memórias póstumas de Brás Cubas:

“Poucos fatos, é verdade, mas ainda assim. Esta seria, portanto, a minha salvação (e a de Bernabé também) e, paradoxalmente, a minha maldição. Ó!

– Larga mão de ser dramático!

O forte cheiro de cigarro não deixou dúvidas: era o tal M. Assis de novo…” (pág. 107).

No esforço de afastar o discurso de qualquer tom solene, o autor procura manter a linguagem num nível menos elevado, apelando, às vezes, para a linguagem chula, coloquial. “Em busca da fórmula de porra nenhuma, de uma panaceia tão concreta quanto um unicórnio” (pág. 53). “Estava sobre uma laje de mármore fria pacarái” (pág. 99).  Assim, qualquer palavra mais sofisticada ou expressão mais poética da linguagem que apareçam, como que por descuido do narrador, eis que são logo sacaneadas, rebaixadas, usando-se, para isso, divertidas notas de rodapé. “– Bobagem – pensei enquanto o vento chicoteava meu rosto e cabelos com a fúria das suas carícias.”²9 E a nota de rodapé: “29. Deusolivre! Que expressão…” (pág. 81).

O tom da narrativa de Claudio Parreira é esse. E nessa narrativa marcada pelo gracejo impera a constante desconstrução do sentido elevado da linguagem. Cabe então ao leitor desconstruir-se também e entregar-se ao clima de gozação que a permeia. Muitas vezes, somos alertados pelos autores sobre os riscos ou consequências da leitura da sua obra [o que só nos instiga mais ainda a lê-la].  Assim o faz Lautréamont [ou o eu lírico/narrador dos seus Cantos de Maldoror] logo no Canto Primeiro: “Não convém que qualquer um leia as páginas a seguir; só alguns conseguirão saborear este fruto amargo sem maiores riscos. (…) Ouve bem o que te digo: dirige teus passos para trás e não para frente, assim como os olhos de um filho que se afasta respeitosamente da contemplação augusta do rosto materno” (pág. 31). Ou o próprio Brás Cubas, em tom bem debochado: “A obra em si mesma é tudo; se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus” (pág. 12).  Parreira, ou seu defunto-autor, só vai se dirigir ao leitor, nesses termos, lá para a página 41, quando percebe que a sua narrativa circular, ou seu eterno retorno ao ponto de partida, pode enfastiar o leitor mais impaciente: “Mas aqui, cá entre nós, já percebi uma coisa: esta narrativa vai e volta, se enrola sobre si mesma, não fode nem sai de cima. Acho que é bom dar logo um norte a esse negócio, senão vocês aí podem ficar entediados e fechar o livro, o que não é bom pra mim e muito menos para a editora. Sigamos então!” (pág. 41).

Então, caro leitor, mergulhe sem medo nas páginas fúnebres e delirantes dessa obra de Claudio Parreira e se divirta um bocado.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Wanda Monteiro

 

Ilustração: Joana Velozo

 

 

o pensamento não completa o voo no corte das asas
no calar do nome a palavra vagueia esparsa
esmaece névoa-memória
sem nome tudo se esvai
no traço perdido
do não dito

esquecer é silenciar o ser

 

 

 

***

 

 

 

na janela o espelho
no espelho o tempo
preso no silêncio da imagem
vítrea imagem
que no átimo do olhar
não nos reconhece

 

 

 

***

 

 

 

de súbito
lhe corto o curso à foice
meço a inteireza de seu propósito
lhe enterro estacas
para cegar vindoura estação
jogo-lhe a inerme isca da palavra

inútil intento domar o tempo
ele sempre volta ao cume
conjuga-se à revelia
de minha desmedida vontade

com olhos de escárnio
mira-me
de dentro da areia
como irrefutável sentença

 

 

 

***

 

 

 

em campo aberto de afetos
ferir-Se
no deslimite

sob
êxodo
transpor fronteiras

===

pisar no auto-exílio

 

 

 

***

 

 

 

paredes opulentas de vazio
sobre portas e janelas – o mofo das ausências
no rodapé – a poeira dos afetos
no limo dos azulejos – o pretérito das cotidianas tarefas

no-mínimo-círculo-de-calor-da-ultima-lâmpada-acesa
insetos dançam e fenecem em queda espiral

um feixe de malograda luz
tenta atravessar o vidro rachado
com intento de irromper o vão da sala

já é tarde para o sol
tudo se cala ao abandono

lá fora a história seca na casca da cigarra

vai chover

 

 

 

***

 

 

 

Há um movimento frio e feroz movendo-se na história da humanidade. O humano apartado do céu e da terra, portanto, apartado de si mesmo. O humano rendido e preso em sua dissonante esfera – num viver distanciado das significâncias da vida.

 

Wanda Monteiro, advogada, escritora, uma amazônida nascida à margem esquerda do rio Amazonas no Pará, tem seus textos publicados em várias revistas literárias, virtuais e impressas, tais como: Acrobata, Diversos Afins, Gueto, Ruído Manifesto, Mallarmargens, Zona da Palavra, Intacta Retina, Relevo, In Comunidades, LiteraturaBr e outras. Obras publicadas: O Beijo da Chuva, Ed. Amazônia, 2008; ANVERSO, Ed Amazônia, 2011; Duas Mulheres Entardecendo, Ed. Tempo, 2015; Aquatempo, Ed. Literacidade, 2016.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Elis Matos

 

Ana Mendes nasceu em São Paulo do Potengi, interior do Rio Grande do Norte, em 1994. Graduanda em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, escreve desde os 12 anos e declama desde 2014. Teve poemas publicados na coletânea Profundanças 2, publicou nas antologias CidaDelas (2017, Sebo Vermelho) e Blackout (no prelo), participou do grupo de declamadores Dirocha, assina a fan page Erro Errante, no Facebook,  e o blog Pensamentos avulsos. Utiliza-se ainda de zines, como forma de publicar seus escritos, tendo publicado: Birgona, diário de um Cego; Prazer Pega Mate e Come e Terno. Seu feito mais recente foi ganhar o Concurso Othoniel Menezes, com a antologia poética intitulada Bélica. Os traços desencontrada(mente) brilhantes que marcam a identidade poética da potiguar falam muito sobre seus embates com o mundo, ao passo que geram o encontro perfeito da inspiração com a palavra. De olhar emblemático e postura crítica, Ana Mendes denuncia em seus escritos vários dos problemas sociais brasileiros e mundiais. Para além das lutas identitárias, percebe-se certa agudez nos versos que instigam reflexões variadas aos leitores. Mulher lésbica, poeta, declamadora e educadora, é no encontro com o papel que o brilho de Ana se faz forte. Quando Ana declama, aí sim, é Açofrio entrando pelos olhos e ouvidos e significando ainda mais do que se pode denotar, no aqui e agora da arte!

 

Ana Mendes / Foto: Talne Freitas

 

DA – Captar os múltiplos sentidos que a palavra assume, tanto no momento da feitura, quanto na emissão e recepção da poesia, cremos ser uma das sensações mais intensas vivenciados pelos poetas. Quando a poesia é impressa em livros, esta troca se dá com um intervalo de tempo mais espaçoso do que quando a obra é declamada! Você participa junto com outros sete poetas do Coletivo itinerante Di Rocha, cujo lema principal é: “Poesia pede rua!”. Conte-nos um pouco sobre a experiência de declamar seus poemas para o público, no aqui e agora da arte.

ANA MENDES – Grata pelo convite, esta é uma linda oportunidade de me aproximar das pessoas que possam vir a ler meus poemas.  Anterior ao Di Rocha, eu já me experimentava declamar na cidade de Natal, mais ou menos desde o final de 2014 para cá, pois o Di Rocha é de 2016 e encerrou as atividades no mesmo ano. Então, antes disso, eu já declamava em saraus improvisados ou organizados, festas (tipo “invadir a programação” e irromper nas brechas, entre uma atração e outra, com um poema), eventos culturais de modo geral. Declamar foi um desses acontecimentos ébrios e espontâneos, fui percebendo sua potencialidade através das reações das pessoas, a princípio, e pelas sensações que performar me suscitavam; não necessariamente nesta ordem, mas achei curioso dizer assim… Como todo acontecimento, não sabia ao certo tudo o que o impulsiona, mas sempre tentei refletir o que eu queria com isso, além de gostar da adrenalina (risos), isto é, o que fazer disso, a ponto, inclusive, de precisar dar uma pausa para pensar sobre.  Apesar de comunicativa e fazer um curso (Filosofia), que dá uma boa base argumentativa, eu me percebi silente em alguns espaços de debate (ou do cotidiano mesmo) por ene motivos. Assim, compreendi a voz-palco como a guisa de me projetar no mundo, ou, pelo menos, na cidade de Natal, já que sou uma interiorana estudando na capital, acredito que foi também a forma que encontrei de conhecer a cidade e me fazer conhecer. Sobre a experiência em si, para mim, é ato puro, pois tenho impressão que minha mente/pensamento, por alguns minutos, está em suspensão. Acredito que declamar, no hoje, é um manifesto de liberdade, seja qual for a forma/estilo ou conteúdo do poema.

 

DA – Em seus poemas há algumas menções a palavra erros, como no zine independente Bigorna – diário de um cego, onde, ao final, você assina: “diagramação e todos os erros sobrepostos: Ana Mendes”, além disso, você é autora da página erro errante, criada em 2017, na rede social Facebook, que funciona como uma vitrine com parte de seus escritos. Qual a acepção do ritmo errante em seus textos? Há alguma relação existencial? A seu ver, em qual medida o erro é importante à existência humana e qual sentido eles tomam em seus poemas? 

ANA MENDES – Birgorna foi minha primeira zine, a versão que te passei foi a primeirinha.  A frase no final era uma ironia aos possíveis erros gramaticais e de estrutura, que eu poderia ter deixado passar. Não apenas ironia, porém assumindo os “erros” que são próprios de escritos de diário, uma vez que fiz uso de “automatismo”, isto é, deixar me levar pelo subconsciente.  Em outra versão, tem a revisão de Ayrton Alves (risos). Bom, creio que Bigorna é um marco. Porque eu tive muita resistência de criar um material físico, pois era um tipo de “exposição”, que foge do meu controle, ao contrário do blog, da página no Facebook. Mas é marco não apenas por isso, porque também é uma transição na minha forma de escrever, aqui assumo a prosa e certo surrealismo. Apropriei-me de erro e errância, refletindo sobre como me sentia na época e ampliei isso para uma perspectiva mais “universalista” sobre a vida. Então, sim, possuía uma veia existencialista nesse movimento. Apropriei-me das palavras também, como que relembrando a mim do engodo da perfeição, dessa busca obsessiva que, por vezes, caio. Quando criei a página era a fim de dar mais visibilidade aos textos, de perder o medo de me expor, pois até então utilizava apenas no blog e num grupo de Facebook. Mas, com o passar do tempo, fui percebendo que erro errante se tratava de um projeto, de me tornar mais íntima de mim mesma e da minha escrita, a tentativa de romper com minha própria maneira de escrever, fazendo uso do automatismo e depois “lapidando”, retirando vírgulas, maiúsculas, quebrando a sequência das orações, por exemplo, e, contraditoriamente, empreender a busca por uma identidade. Sobre a importância do erro: acredito que quando não o confundimos com a perspectiva cristã de pecado, é uma delícia, pois é abertura aos múltiplos significados na literatura e, também, se atentarmos mais aos processos do que à finalidade (o certo), iremos perceber o quão plural foi o aprendizado sobre algo (na educação). Então, meu exercício é me voltar mais ao movimento de cada “estilo” de escrever (quando observo meus poemas antigos) do que uma execução fidedigna do que projetei – isso quando o escrito tem uma intencionalidade “traçada”. Não sei se expliquei direito (risos). Hoje, acredito que estou muito mais analítica do que errante, mas gosto de relembrar os processos pelos quais passei…

 

DA – Falando em processos, conte-nos: como ocorrem seus processos criativos? Muito da abordagem estética dos poemas decorre das influências e vivências dos seus criadores. No poema “Escrever poemas é…”, você deixa escapar algumas dicas de como sua criatividade passeia por um eterno pique esconde / de enxergar o olho ocultar o choro. Seu locus social enquanto mulher lésbica influencia em sua poesia? De que maneira isso reverbera?

ANA MENDES – Acho que não sei responder a estas perguntas, acredita? Mas posso tentar pensar aqui e agora alguns elementos: sobre processos criativos, quando os mencionei, é como um olhar em retrospectiva, de ter me percebido mudando. Mas há algumas intenções que sempre me permearam, como, por exemplo, intentar poemas concretos e poemas cada vez mais concisos e precisos, ainda que sempre me parta de um “descontrole”, quando bate a vontade de escrever, isto é, não tenho muito controle no exato momento que tenho vontade de escrever. Às vezes, parto de palavras específicas, que vejo se repetirem nas minhas leituras. Talvez muito do meu processo criativo se dê por repetição, ou seja, aquilo que sempre me visita, em sons/gestos, ideias, imagens. Fico intrigada quando estou “perseguindo” a mesma coisa, por certo tempo. Ultimamente, tem sido elementos bélicos. Sobre ser mulher lésbica, creio que sim, reverbera, só não sei descrever como na poesia ou em processos criativos isso se dê. Mas faço questão de declamar um poema que tenha algum conteúdo explícito sobre minha sexualidade, o amor por uma mulher, entre outros. Inclusive, a primeira coisa que tentei escrever (acho que aos doze anos) foi uma música que eu falava que gostava de uma “pessoa”. No começo, eu ocultava os pronomes femininos para que ninguém soubesse. Mas acredito que parte de não saber responder tua pergunta também seja porque estou refletindo muito sobre meu gênero, e isso perpassar, experimentar a minha feminilidade e masculinidade, ou algo entre os dois. O que ainda posso comentar sobre ser lésbica e a poesia é que fico puta em ver que quando nós temos espaço na literatura, ou quando somos reconhecidas em certos espaços, é sempre através da poesia erótica, que, para mim, só escancara o quanto há de fetichismo e hipersexualização.

 

Ana Mendes / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Na sua fala “quando somos reconhecidas em certos espaços, é sempre através da poesia erótica, que para mim só escancara o quanto há de fetichismo e hipersexualizaçãohá uma clara denúncia à construção estereotipada da mulher lésbica dentro do campo editorial. Estereotipação essa que condiciona a escritora a uma temática específica: a erótica. Qual o mecanismo utilizado por você para se desvincular dessa armadilha? Além disso, há entre os seus escritos textos que problematizem estas questões? Se não, quais os perigos em se abordar estas questões de identidade do mercado literário?

ANA MENDES – Sendo curta e grossa: eu não escrevo mais poemas eróticos, e, se escrevo, não publico online e tento experimentar passear por estilos de escrita de tempos em tempos. De imediato, não foi uma escolha consciente, mas, quando li sua pergunta sobre quais mecanismos utilizo, me veio essa resposta súbita. Sobre a segunda pergunta, acredito que, quando voltei a escrever em 2014, eu problematizava muito sobre a questão da gramática, não apenas como crítica, mas foi também a guisa de expurgar a ideia de não ser “boa”, por não dominar tudo da gramática e da história da literatura. Sobre os perigos, eu não saberei responder a essa questão porque, sinceramente, não penso a respeito do “mercado literário” convencional como um risco ou obstáculo para mim. Por que eu estou no mundo, sabe? A melhor publicidade é estar na rua, trocando com as pessoas, e outra, estou atenta às micro editoras e pessoas que desenvolvem seus trabalhos alternativos e afetivos em suas produções, como a Muganga Edições (RN), Sol Negro (RN) Padê Editorial (DF). Numa perspectiva mais crua, empoderamento e questões identitárias ganham cada vez mais força, portanto, vendem. Então, acho que o mercado deva se adaptar (suponho que já esteja, pois capitalismo é isso (risos)). No mais, boto fé em micropolíticas; por isso, minha atenção voltada para essas editoras.

 

DA – No que toca as temáticas, quando analisamos a história da escrita das mulheres, notamos que existe uma grande luta no sentido de colocar a voz da mulher enquanto uma voz humana, capaz de falar sobre mais variados temas. Isso porque, durante muito tempo, os temas ditos universais eram reservados aos homens, enquanto às mulheres foi oferecido o recorte “literatura feminina”. Nesse sentido, também caminhou o espaço reservado às escritoras lésbicas. Como você enxerga o comportamento do mercado literário com relação a sua literatura? Qual importância tem a coletânea Profundanças 2, que utiliza selo online, como forma de driblar a dinâmica desse mercado?

ANA MENDES – Huumm…  fiquei surpresa e grata com o convite da Daniela Galdino. Um convite como este, que integra uma diversidade de mulheres e de conteúdos – pelo modo que foi e é manejado (muito dialogado e articulado para dar visibilidade a singularidade da todes) – amadureceu minha visão sobre produção e divulgação da literatura, como também me pôs a refletir sobre o meu ser escritora e o que eu queria disso, ou seja, amadureceu minha confiança, pois alguém (que admiro o trabalho) gosta e confiou naquilo que produzo. Assim, creio que a importância e o diferencial do projeto é o diálogo que a coletânea Profundanças 2 estabelece entre ela e o social, a fim de resolver o problema  que é a invisibilidade do nosso trabalho literário e intelectual. Sobre o mercado em relação à minha literatura, irei me ater a minha cidade e como tenho visto a dinâmica por aqui, pois minha vivência sobre publicações que envolvam outrem é muito restrita, já que produzo independentemente meu material (zines). No geral, vejo que há poucas editoras interessadas numa troca sincera para além do lucro. Será que beiro a ingenuidade descrevendo assim? (risos). Percebo como há um movimento de usura, de apropriação de algumas lutas para obter vantagem (financeira) apenas para si, uma vez que o “apoio” às pautas é apenas pontual e não sistemático.

 

DA – A autopublicação pode guardar duas faces distintas, por um lado o autor tem a liberdade criativa garantida, por outro, a responsabilidade sobre o processo de distribuição aumenta significativamente. Você disse que produz independentemente o seu material (zines). Explique sobre esta forma de auto publicar. O que é uma zine? Qual a dinâmica da produção e da divulgação?  Aproveite e fale um pouco sobre as temáticas abordadas por você nestes materiais.

ANA MENDES – Ah! Zine, a palavra é um diminutivo de fanzine, que consistia numa revista improvisada (não profissional) e de baixo custo de produção, feita por fãs, sobre bandas ou outro conteúdo, que surgiu nos EUA no século 19. Foi largamente utilizada com diversas intenções, tanto no movimento punk, literário e de artes gráficas, como é o caso dos quadrinhos. No Brasil, é conhecida como qualquer produção independente e muito usada pelo movimento literário. Sobre a dinâmica de produção e divulgação, sigo intuitiva e orgânica. Produzo conforme vai me batendo a vontade de ir a algum evento cultural da cidade; no geral, sigo escrevendo e “guardando” material e, quando vejo ali um padrão de narrativa, passo a organizar para impressão. Assim, por ser uma produção/escrita espontânea, não há uma temática escolhida de antemão. Mas sobre os temas nos zines já publicados: Bigorna, diário de um cego é um relato em prosa, em micro textos, de sonhos; Prazer, Pega Mata e Come são pequenos poemas eróticos; Terno, concisos poemas sobrepostos como cílios, escritos movidos pelo tom terno de conteúdos diversos.

 

DA – Nas imagens contidas na obra Profundanças 2, você tem um olhar bem emblemático, forte, além disso algumas delas estão em preto e branco. Fale um pouco sobre o processo criativo dessas fotografias. Você pôde dar sugestões ou aprovar as imagens? Outra coisa, o quanto de Ana Mendes há naqueles frames? Conte um pouco de sua trajetória enquanto intelectual e escritora fazendo uma correlação com as imagens da coletânea.

ANA MENDES – Ah! Adorei a ideia de uma antologia literária e fotográfica, as fotos deram corpo e cor à diversidade literária ali. Inclusive, nunca tinha feito um ensaio antes. Sobre o processo criativo das fotografias, foi algo bem dialogado entre nós, eu e Josi Oliveira, a fotógrafa. Ela captou bem as características recorrentes nas minhas fotografias pessoais postadas no Instagram, como também daquilo que, por vezes, se faz intenção nelas, que é propriamente esse jogo de luz (claro e escuro). Também tentamos aproveitar o espaço que tínhamos disponível, utilizando como cenário alguns bairros que gosto muito na cidade de Natal, a Ribeira Cidade Alta e Alecrim, por exemplo. Sobre o que há de Ana naquelas fotos, hoje, talvez uma objetividade mais concreta a respeito desse jogo de luz: comecei a fotografar e filmar, neste ano, com uma câmera mesmo (antes só por celular). Minha trajetória intelectual… Bom, acredito que comecei a pensar mais sistemática/filosoficamente sobre o entremeio da filosofia e poesia, porém “performando” não apenas com a declamação, mas utilizando de recursos audiovisuais, nos quais não sou a protagonista, a princípio.

 

DA – O seu poema sem título publicado em Profundanças 2 é uma criação muito forte, com imagens e  mensagens bem diretas: “Sempre que resisto/ Sou arrastada, esfolada, pisoteada. (…) Quem eu sou?/ Sou o sonho da Humanidade/ Que vocês esquecem e perseguem”. Acreditamos ser uma poesia de protesto. Fale um pouco sobre as denúncias pretendidas por este poema. Em qual lugar de sua identidade ele toca?

ANA MENDES – Este é o poema que acho muito “completo” e o que uso de front em todo espaço novo, portanto, é um poema para ser declamado.  Foi escrito em 2016, após o rompimento da barragem da Samarco (empresa da Vale) de Mariana, num período no qual estava acontecendo muita coisa e eu estava muito atenta. Ah! Enquanto recorte, este poema é medo e violência, por esta mulher, LGBTGI+, baixa renda e também fala sobre muitos dos meus, em outros recortes de situação de vulnerabilidade social.

 

DA – O poema é uma catarse que denuncia a situação de medo e vulnerabilidade vivenciada pela comunidade LGBTGI+, no Brasil e no mundo. Mas um trecho chama a atenção pela sua menção à parte oriental do globo: “Afogam-me na lama/ Me bombardeiam no oriente / Às vezes, caminho com um fuzil / Que me pesa mais que meu corpo/ E a fome, minha companhia inseparável”. Se possível, fale-nos um pouco mais sobre o processo criativo e a rede de significados presentes em seu poema. 

ANA MENDES – Confesso que receio dissecar demais o poema, mas tendo em vista seu conteúdo, acho necessário discutir sim. Bom, como foi escrito em 2016 não recordo muito bem, mas lembro de ter escrito de uma vez só e precisei fazer pouquíssimos arranjos, de tão súbito. Deu-se a partir de diversas imagens, que ora oscilam sobre o oriente, ora quanto às periferias do Brasil. Intentei uma diversidade.

 

DA – Por fim, estamos em um período de transição presidencial bastante delicada, favorecida por uma onda conservadora bastante forte. Como você analisa a atual conjuntura? Quais seus sentimentos e prognósticos para os próximos anos, no Brasil? Qual papel assume a arte nos processos de resistência? Quais reflexões imediatas que movimentos de repressão provocam em você, enquanto escritora?

ANA MENDES – Uau… Muitas questões. Então, há um tempo venho no autocuidado de me preservar e fortalecer, filtrando pessoas, ambientes e discursos. Apesar de uma sensação de maior sobriedade, de perceber todos esses movimentos individuais e políticos, não me sinto hábil para fazer uma explanação sobre a conjuntura de modo geral, porém, me vem uma palavra: estreitamento, de direitos e oportunidades, portanto, de realizar sonhos, sim, sonhos, projeções de nós mesmos em outro espaço-tempo, em plenitude e com dignidade. Em 2019, me formo, sem perspectiva de atuar como professora de Filosofia (algo que descobrir que gosto e quero, de fato). Porém, em 2018, quando precisei repor a grana da bolsa do PIBID (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência) do qual participava (foi então que trabalhei num sebo, desde abril), então eu percebi o quão é improviso e também possível delinear estratégias a longo prazo (dentro de um ano?!). Precisamos nos lembrar da experiência de ver pessoas fora da bolha da universidade, tanto em coletivos como também individualmente (minha mãe), que se fazem de improviso-estratégias, desde sempre, não se encerrando numa perspectiva de medo. Assim, atentar o olho para o que acontece em minha cidade e atuar cotidianamente-vivendo, habitando a cidade, em toda sua confusa interação. Desde eventos culturais às economias criativas, intercâmbio de conhecimentos e autocuidados em práticas. Como exemplo, pretendo dividir, junto ao Ateliê Sunsarara, uma oficina/minicurso de argumentação lógica, o ateliê da artista visual (grafiteira) Solar Shana Precária, que visa criar um espaço, no qual se reúnam mulheres, para trocar conhecimentos e artes, regularmente, em 2019. Então, acredito que a arte, pelo menos em minha vida, enquanto catarse me provoca uma “força-cuidado” criativa de me projetar no mundo, é minha espinha dorsal. Desse modo, enquanto escritora/performer/educadora, estou atenta aos improvisos-estratégias que possam me desviar. Desejando que as repressões não alcancem meu íntimo e oferecendo, no diálogo com o outro, a mesma brecha.

 

Elis Matos é “cria” da Universidade Estadual de Santa Cruz, licenciada em Filosofia e bacharela em Comunicação Social, especialista em Gestão Cultural e mestranda em Linguagens e Representações. Trabalhou enquanto Coordenadora de oficinas, workshop e mesa do Festival de Cinema Baiano, nas suas IV, V e VI edições. Pesquisadora, cronista e palestrante feminista, lançou a tag #ondeofeminismomechamaeuvou e vai!  Aprendeu a sonhar uma vida justa até as últimas consequências…

 

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128ª Leva - 06/2018 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Adelmo Santos

 

Com o desfecho de mais um ano de publicações, a Diversos Afins reafirma seu propósito de disseminar ainda mais a produção literária e artística independente. Ao longo dessa última temporada, novas vozes puderam se aproximar do nosso projeto e ofertar aquilo que de melhor possuem: a expressão genuína de seus esforços criativos. Foi fundamental para tal processo a descoberta de autores e artistas que agregam valor à ideia de diversidade que se amolda à revista desde a sua gênese, em 2006. Se descortinarmos cada uma das levas pretéritas, perceberemos que um rico e vasto painel de possibilidades se instaurou. É, na verdade, um verdadeiro mosaico de expressões distintas, caracterizadas por pessoas dos mais diferentes lugares e perfis identitários. Cada uma delas traz à tona o traço que faz da sua produção algo singular, pois, por maiores que sejam as influências e semelhanças com outras obras, ainda assim há a evidência de uma marca pessoal em voga. E os peculiares olhares sobre o mundo alimentam em substância as criações literárias e artísticas aqui propagadas. Basta vermos o modo como poetas, contistas, artistas plásticos, fotógrafos, entrevistadores e entrevistados, ensaístas ou resenhistas abordam o objeto de seu trabalho. Ao mesmo tempo, os aspectos de distinção apontam para uma necessidade de compreensão da alteridade, daquilo que repousa no Outro enquanto instrumento de afirmação de sua personalidade e modo de ser/estar no mundo. Daí, ler o Outro é também perceber que a vida carrega em si um viés marcantemente dialógico, janela de interação da qual não se pode abrir mão. Na projeção da alteridade como elemento de expansão, emprestamos escutas e leituras aos poetas Isabella Ingra, Marcelo Ariel, Camila Assad Quintanilha, José Pascoal e Sel. No trilhar de caminhos que evidenciam o diálogo, Sérgio Tavares entrevista a escritora Eltânia André, sendo uma conversa pautada nos trânsitos literários e suas complexidades. É de Vivian Pizzinga o descrever de sensações para o musical “Contos partidos de amor”. Nas linhas de Mayana Rodrigues, sensíveis e aguçadas percepções sobre o novo livro do poeta Alex Simões. Os cadernos de prosa estão tomados pelas precisas narrativas ficcionais de Ramayana Vargens, Gustavo da Rosa Rodrigues e José Carlos Sant Anna. Na esteira do cinema, Guilherme Preger explora as delicadas nuances do filme “Uma noite de 12 anos”, produção que evoca as agruras de um duro período histórico experimentado pelo Uruguai. É de Daniel Russel Ribas a atenta leitura para “diário: a mulher e o cavalo”, romance de Julia Raiz.  Na interface entre palavras e imagens, a Leva 128 expõe alguns trabalhos fotográficos de Adelmo Santos, artista que nos brinda com criações oriundas de uma busca visceral. É tempo de agradecer, caros leitores, por mais uma jornada cumprida! Para tanto, eis um novo momento de leituras. Sejam bem-vindos!

Os Leveiros

 

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128ª Leva - 06/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

José Carlos Sant Anna

 

Foto: Adelmo Santos

 

Pela janela aberta

 

Se um peixe entrar em sua casa sem bater, não estranhe ou fique nervosa, é porque, pé ante pé, ele resvalou o corpo para fora da tarde e porque claramente cansou do lago artificial em que vivia enclausurado. Há sinais e testemunhas do licor evaporado do seu hálito quando ele passou pelo átrio da igreja e o andar era um bálsamo para aquele espírito inquieto. Antes, ao passar pela porta, exclamou “que lugar maravilhoso”, e sorveu um pouco de paz com os belos vitrais que se realçavam em ambas as laterais da igreja. Parou, pensou e concluiu que o ar era solene e a igreja (talvez) seria pequena para remoer as inquietações metafísicas que sacudiam a sua cabeça na deambulação vespertina.

 

 

 

***

 

 

 

Minhas ostras

 

Vira e mexe as ostras desfilam pela calçada da praia do Bogari, calçando sapatos coloridos, como se nunca tivessem sido colhidas pelos meus apetrechos de pesca nos arrecifes. Quando tal acontece, quase sempre, remexem no meu antigo baú. São meus espantos guardados, sem chave, justo quando finjo não pensar em nada. As ostras giram o tronco em minha direção e, solícito, digo-lhes que se acomodem ao meu lado, no banco de areia da praia. Sentadas, me falam do que viram e ouviram, quando presas nas formações rochosas, próximas à costa, tornando-se muitas vezes cúmplices de algumas histórias. E ficamos, então, eu e elas, sob um céu estrelado, à beira de outro instante. No meu íntimo, uma estranha magia. A casa dos meus pais, a poucos passos. É do útero do tempo que elas ressurgem, que brotam. A pele arrepia, a alma cintila. E as ostras passam, ficam e se fincam em mim, pois, ainda que mortiça, trazem sempre uma claridade, como se fosse a luz de uma vela. Pedaços de saudades da ponta do mar, da península de ontem, cirandas de histórias que nunca chegam ao fim, um show de vaga-lumes por todos lados que estilhaçam o ar, abrem o armário e vão aquecendo, sem pressa, as esquecidas paredes da memória. Aproveito a lassidão que nos acolhe e vou também abrindo os olhos, as mãos, o corpo, enquanto elas parecem dizer-me que já não preciso correr contra o relógio. Contra o tempo. Aquecidas, as ostras ensaiam uma canção praieira do Caymmi para a noite que avança madrugada a dentro. Suspiram e se afastam. Não consigo desviar meu olhar dos moluscos que se distanciam lentamente, tampouco me ocorre o que ainda queria dizer…

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Quase triste

 

Como se eu ainda tivesse o alaúde. São outros os tempos. E rubro ou incolor são os pingos da memória, sem pés ou asas para sustentá-la. Um eclipse. Pular da cama sem fazer nenhum escândalo pode safar o véu da boca de Madalena. Melhor é que não o faça. Seria como, a contragosto, apanhar um viscoso metrô, sem conhecer as linhas e perder-se nos atalhos das begônias no meio da clorofila dos executivos da classe média, bolinando os rastros no teu corpo salgado. E estão perdidas as fagulhas da piscadela, como um voo da infância? Esqueceu? E a minha alma reserva, entre copas, pergunta: “O que é que houve, Madalena?” “O que é  meu não se divide”. É o olfato que irriga meus países baixos, por isso me falta talento, incenso e girassóis para este desespero nas ruas vazias sem o meu amolador de facas. E quanto o velho poeta ficaria surpreso ao ver-me atritando as nuvens ou na vertigem dos pés em botão nas míseras cadernetas do armazém da esquina. O filho da mãe, no pasto das estrelas, sempre acrescentava um pouco mais nas contas da semana. E como ainda somos precoces na hora do choro da saudade, para depois tudo perdermos na aposta. Me espera, vai, me espera! Ainda podemos gozar juntos, Madalena, como uma pele de orvalho na madrugada. Ou como num poema bem resolvido! Ou então durma! O desamparo é uma traição das marés, e o teu médico, cubano, não fala bem o português. E tem mais, sem a luz do teu sol, confesso este meu fado de poeta a emoldurar o fugaz, enquanto a fumaça do cigarro sobe e se perde pelas frestas das telhas da cumeeira da casa.

 

 

 

 

***

 

 

 


Desamparados

 

Acabamos por nos acostumar com tudo, mais cedo do que esperamos, dizia Joaquim para si mesmo como um pragmático pensador, primeiro enrolando um cigarro com as folhas da sua estufa particular, depois com a lupa do seu tempo de estudante nas mãos, mergulhado nas águas fundas da antiga convivência, como se o mar, que sempre o apetecera, andasse no ritmo da cadência do mundo por entre as árvores toldadas por estranhezas humanas, enquanto ele examinava, inata curiosidade, um inseto que tecia no espelho uma canção inspirada num poema de Drummond. Verdades que se escondem mal finda o arrepio da tardança e da solidão, sem que Joaquim saiba o motivo das aparências das coisas porque não consegue desprender-se dos ferrões feitos do nada que sangram a sua pele. A cadela destrambelhou a vida da casa, tal qual um incêndio num açude em noite de tempestade. A cantoria das crianças, alegrando a casa, bem poderia ser uma esperança, uma aurora, que coubesse no céu daquele homem no colo do dia, mas, ao contrário, provoca náuseas, um tremor nas mãos que o engole aos poucos, levando-o para bem longe de si mesmo. Folha levada pelo vento. E a cadela parece segui-lo. As mais fundas águas e o bicho a segui-lo no jeito de ser sem jeito, desencanto da vida. E quanto mais se revela esse jeito cambaio dele ser, se vê mais longe, sem descobrir as verdades avaras ou que outro nome tenha as intempéries que amanhecem sob os túneis da escuridão completa. E chama a cadela para a vida que ainda não viveu, para as estrelas que não se cansaram de riscar o céu. Para as sobras da infância. Joaquim molda os músculos na barra de ferro que o seu pai instalara no meio do corredor para este fim. Vapt-vupt, enfia as calças, veste uma camiseta e sai para abrigar-se na amurada do mar anilado olhando os surfistas se empinarem nas pranchas nas primeiras ondas da manhã e os cães desamparados que rosnam com a orla negra lambendo suas patas ao expandir e retrair-se no seu fluxo contínuo sobre a areia da praia. E nenhum pormenor da boca da manhã escapa aos olhos de Joaquim que virgulam os matizes azulados do horizonte que não se escrevem com palavras.

 

José Carlos Sant Anna é professor aposentado da Universidade Federal da Bahia. Atualmente é o editor da  Quarteto. E já andou publicando os seus alfarrábios pela vida afora.

 

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128ª Leva - 06/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Camila Assad Quintanilha

 

Foto: Adelmo Santos

 

O que não está aqui não está em lugar nenhum

 

A injunção do cronômetro
nos faz esquecer
que o tempo linear é
uma abstração
recente
e insidiosamente deletéria

O calendário ordena
e materializa o passado,
o relógio faz tic tac
ornamenta a cozinha,
conta os segundos que eu passo
a espera de sua ligação
mas de que morremos,
senão de tempo?

E toda a areia dessa minha ampulheta
corrói nossa vida
antecipa a desordem
arremessa nossa cara
contra a parede
sem reboco.

Nada aqui é limitado
E é sempre mais tarde do que você pensa.

 

 

 

***

 

 

 

Tudo o que está aqui está lá

 

eu me abaixei entre as pernas de
um camelo
esculpido em um
pedra gigante
que emergia de
um muro
deixando a onda passar
a onda infernal
me revelou um novo aspecto
completamente íntimo
da morada dos deuses:
– não há ninguém em casa

 

 

 

 

***

 

 

 

[poema do porto ao tibete – terceiro movimento]

 

não era água. era areia.
talvez fosse só o tempo.
talvez fosse muita coisa porque era o tempo.
eu fiquei sedenta, mas resignada.
quem ousou encarar o tempo não retornou à margem.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

[um pasito bailante]

 

seu coração na altura exata das minhas orelhas
pra ouvir a nebulosa dos que andariam a pé
por todo o campo
em busca de uma flor rúbea,
dos que anseiam a revolução
& repartem pão e ideias
multiplicando líquidos e conceitos
nessa cidade catatônica
pedindo esmolas
de tempos mais brandos
que nunca vão chegar.

ontem nós dois vimos
o mesmo desenho
numa mesma nuvem
e isso é a mais profunda troca que pode haver
entre dois seres humanos

 

 

 

***

 

 

 

[poema pra driblar o inferno]

 

eu construo uma antessala
com balões de gás hélio e reciprocidades
fico apanhada ao seu dedo mindinho
como se um furacão nos cingisse
e você é esperança derradeira;
as mesas estavam postas mas foi tudo derrubado.
bagunça, tingiu meu coração com manteiga e mel
e na boca gosto de fim de feriado.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

[notas sobre o sutiã de renda preto]

 

Simetrias rendadas que se bifurcam ao centro. Hipocrisias rendidas que sustentam prazer e alimento. Ele segura um par de estrelas, astros que orbitam em cabeças mal-intencionadas, mesmo sendo sempre estáticos (desafiados apenas e inevitavelmente pela gravidade que faz com que tudo amaine). Aperta a anatomia, oprime desejos, amarga sentimentos. Limita, esmaga, maltrata; por vezes empina, levita pomos sobrepondo volúpias carnais ao mantimento sagrado. É feito de panos, aros, bases, bojos. Mundanos desejos repousam em suas camas semicirculares. Duas medialunas cingidas comprimindo lunas llenas perfeitas.

 

Camila Assad Quintanilha nasceu em Presidente Prudente/SP, Brasil, em 1988. Escreve, traduz, desenha e pinta. É autora do livro de poemas Cumulonimbus (Quintal Edições, 2017) e do Desterro, projeto comtemplado pelo Programa de Ação Cultural (ProAC) da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo/2018, a ser lançado no próximo ano. Já publicou em diversas mídias literárias no Brasil e em Portugal.

 

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128ª Leva - 06/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

O mundo é uma roda e nós no meio ou como se deu minha Trans forma são

Por Mayana Rocha Soares

 

 

Platão tinha mesmo razão em temer a presença de poetas em seu projeto de pólis. É gente perigosa, que faz movimentos curandeiros com palavras. É brincando de transmutar que o poeta Alex Simões ginga formas, palavras e sentidos, em seu recente livro de poesia Trans Formas São, lançado em 2018, pela editora soteropolitana Organismo. Esses giros de poesia não foram por mim lidos na racionalidade pretendida de uma crítica literária, mas atingiu o corpo. Taí o seu perigo! Atingindo o corpo, ela (a poesia e seu efeito alucinógeno) tem o poder de agir como feitiço e reorganizar sentidos, desejos, gestos de afeto. Alex nos deu um roteiro de transmutação. E mudar é perigoso para os desejos da nação. Há sumários por todos os lados como bússolas para gente poder se perder à vontade. Há o sagrado “no meio do caminho, entrelugares”, entrecaminhos, encruzilhadas tecnológicas, cantos, sons, Exu, ebó, padê. Sem eixos centrais de sustentação. “Mas há um centro?” Só o habitar do fora.

Alex Simões é poeta, professor e performer baiano. Além de muitas outras publicações em livros e coletâneas, realiza no próprio corpo a experiência literária, através da performance. O livro é composto de 37 poemas. Por meio destes, Alex Simões expõe o mundo através dos olhos apaixonados de quem não apenas observa a vida passando, mas a vive. Por quem atravessa a vida transformando e sendo transformado por ela. Trans Formas São é um livro de performances artísticas das palavras, das formas e sentidos todos, reorganizados a partir do que sentimos, de como amamos e de como seguem nossos desejos e afetos.

O poeta admite fingir, mas não só como o Pessoa, o português. Melhor. Não finge só a dor. Ele diz: é que “me faltam boas ideias e tendo a apelar para grafismos”, há que “fingir que já li muitos calhamaços, roubar, plagiar, sempre negar”. É que “a vida sem sentido dá avisos / há vida pulsando / o tempo urge e às vezes dói lembrar”. Eu também roubo suas palavras agora, mas não sou poeta. Me permito transbordar nessa lama de palavras. Mergulho nela e me transformo também. Aquela mulher que abriu a primeira página do livro não é a mesma quando encerrou a leitura. Alex é modesto. “embora não despreze o métier, e seja mau poeta, é de outra subárea: dos que temos alguma vocação, não pra poesia, mas pra gambiarra”. Acha que é um poeta ruim. Se ser ruim é cumprir essa difícil tarefa de trans forma são, sem controle de como isso é possível, sem reconhecer seu alcance, então, fique satisfeito: você é muito ruim nisso! A gambiarra é que salva! “Toda/o poeta é experimental / obcecado por buceta” [de minha parte, também gosto] / transgênero por vocação / híbrido por definição / fundado na incerteza”. A gambiarra é essa arma que faz da literatura ser aquele menor, conforme Deleuze e Guattari nos ensinaram.

As certezas todas foram embora. Em Trans Formas São nos instalamos no oblíquo, na experiência do quase. “é quase um manifesto / por um quase negro / que é quase um homem / quase filho caboclo eké orixá santo sem base”. “O mundo é uma roda e nós no meio” e a “minha vida é um baile entre seus braços”. Transmutei seus versos para senti-los, novamente, dentro de mim de outros modos, em outras velocidades. Eu também não sei ao certo “que porra é mesmo o contemporâneo”. Mas sei que a poesia underground não tem limites temporais, porque vive nos subterrâneos. Depois discutimos “se houve mesmo uma autoria ou criação coletiva”.

Walter Benjamin, sabiamente, uma vez disse assim: “Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie”. Ainda bem que não estamos tratando de um documento, mas dá sua potência significativa, da poesia em seu estado de resiliência. Em sua formulação viva e pulsante nos corpos. “então pergunto: memória e corpo / há distintos um do outro?”. Recortes palavreiros de uma nação colonial em ruínas. Alex dispara um ciclo de notícias: das desalianças internacionais à barbárie da civilização. Em terras brasilis, “Aqui tudo parece que era ainda construção, e já é ruína”, como cantou Caê. Alex nos joga na parede e nos constrange a pegar visão: “em suspenso ninguém vive nem se acerta sem medida”. Vê isso? É o sangue das ossadas da barbárie ainda fresco batendo nas paredes da memória. Afrodiasporicidade. Ancestralidade. Abre o olho, é preciso ver: “escravizados desembarcaram de navios negreiros / morrendo por maus tratos e/ou de orgulho, talvez numa recusa por servir, morrendo como parte de um processo histórico e de resistência em luta”. Marielle, quem matou? David? Luana? Dandara? “escondemos de nós mesmos trezentos anos de escravidão”. Mas de lá dos escombros nos assombram com seu sangue, sua ossada e sua vingança, “enquanto segue o porto maravilha / com o futuro museu do amanhã / o que fazer dos crimes insepultos?” É verdade, “a gente tem de dar uma de louco porque senão ninguém presta a atenção”. É Grada Kilomba que diz “corpos brancos são sempre corpos que pertencem a algum lugar”, posto que nossos corpos negros foram desterrados e mal enterrados pela colonialidade. Acredito que Trans Formas São territorializa, em alguma medida, esse nosso cuíerlombo, para usar uma expressão de Tatiana Nascimento, de gente preta, insubmissa, dissidente e selvagem.

Trans Formas São também são formas trans, trocadilho barato, mas tem seu efeito. Entre cores e amores, essa poesia carrega uma inquietação, um não sei bem o que de agonia. É por isso que “meu coração não tem memória / nem sabe decorar / então decola”. Corpos trans que nos transmutam, pois se “a moda agora é ser sóbria, nós não podemos ser”. É porque “é uma questão política: o contraste é estratégia de quem milita a alegria”.

Trans Formas São é também leveza e beleza, “com os dois pauzinhos, que às vezes se esfregam aligeirados e outras que se atravessam como pontes”, criando conexões, rasuras e misturas no “perder-se entre outros corpos”. Sem esquecer de “respeitar o tempo”, lograr o tempo e aquela “puta censurada suposta martelada”.

Bom, nem todos os poemas couberam nessa leitura, mas como abarcar toda essa imensidão?        “e para amarrar essa corda / andorinhas passarão” – Mas #elenão!

 

Mayana Rocha Soares é feminista interseccional, decolonial e sapatão. Doutoranda no programa de pós-graduação Literatura e Cultura (PPGLITCULT/UFBA). Mestra em Estudo de Linguagens. Graduada em Letras e Ciências Sociais.

 

 

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128ª Leva - 06/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

José Pascoal

 

Foto: Adelmo Santos

 

LUTO ANTECIPADO

 

Reina suave tumulto
No meu cérebro cansado
De funerais adiados
E tenho medo dos mortos
Com longos avisos prévios
E abro os livros com facas
Em protesto piedoso,
Frágil e silencioso,
E vejo-me de fugida
No espelho dos teus olhos.

 

 

 

***

 

 

 

O BENEFÍCIO DA DÚVIDA

 

Dai-me o benefício
Da dúvida
Metódica
E farei com ela
Uma certeza instável:
Casa desabitada,
A ruir
Lentamente,
Em silêncio,
Como um barco a afundar-se.

 

 

 

***

 

 

 

AS MÃOS DO VENTO

 

As mãos do vento agarram-me pelo pescoço
E obrigam-me a ver
O mar morto de fome,
A cidade incivil,
O campo infértil,
O fumo do fogo que não arde,
O fumo do forno crematório,
A cama onde me vou deitar
Para depois ficar acordado
Com medo do escuro.

 

 

 

***

 

 

 

EXCESSO DE VELOCIDADE

 

Corres para a desgraça dos mendigos,
Dos que vivem debaixo de lusíadas
Pontes, dos que vivem as ilíadas
A olhar para os seus pobres umbigos,
E vais rapidamente, como um atleta
Dos cem metros, desmedidos, tal a pressa
De chegares não sabes a que meta,
Sentes que vais cumprir uma promessa
A uma virgem louca sem altar
E vais, desalinhado, sem parar.

 

 

 

***

 

 

 

CONTAGEM DECRESCENTE

 

Não é da minha conta
O que acontece
Nos bairros periféricos,
Nos bares alternados,
Nos becos esotéricos,
Nos barcos encalhados;
Não é da minha conta
O sal rosa dos muros,
O sol rubro dos túneis,
O sul roxo dos túmulos.

 

 

 

***

 

 

 

SEM TIRAR NEM PÔR

 

Não tiro uma vírgula,
Não ponho um acento a mais,
Tenho de ter cuidado
Com as cordas vocais
Com que enforco
As palavras mais banais,
Vida, morte, amor,
E, acreditem-me,
Faço um esforço danado
Para sobreviver a tudo isto.

 

José Pascoal, 1953, Torres Vedras, Portugal. Bibliografia poética activa: Sob Este Título, 2017, Antídotos, 2018, Excertos Incertos, 2018, Ponto Infinito, 2018, todos na Editorial Minerva,Lisboa.Inéditos em várias revistas digitais e impressa. Mantém o blogue Gazeta de Poesia Inédita.

 

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128ª Leva - 06/2018 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Entre ciúme, encontros e desencontros

Por Vivian Pizzinga

 

Contos Partidos de Amor: Diego de Abreu, Isadora Medella, Luciana Balby,Tiago Herz / Foto: Rai Junior

 

“O quereres e o estares sempre a fim/ do que em mim é de mim tão desigual/ faz-me querer-te bem, querer-te mal/ bem a ti, mal ao quereres assim”, como diz Caetano Veloso, em O quereres, poderia ser uma música que logo nos vem à cabeça quando assistimos ao espetáculo encantador Contos partidos de amor. Isso porque o espetáculo vai tratando, de modo cheio de beleza, perspicácia, filosofia e humor, das incongruências, dos encontros-desencontros-reencontros e novos desencontros, do vaivém de afetos em que o amor se dá, em que se cria, mas no qual se esvai, por ciúme, por “carência” (novo sinônimo de ciúme), controle, insegurança e outras palavras que nem fazem parte do texto do espetáculo e são especulação da autora da resenha, mas que, certamente, fazem o recheio das histórias que ali se passam.

O sedutor e, em alguns momentos engraçadíssimo, sobretudo no começo e nos percursos em busca de uma fita azul perdida, Contos Partidos de Amor é um musical infanto-juvenil de 60 minutos para mães, pais, tios, avós, irmãos mais velhos, crianças, meninada: o texto, eu diria (e gosto de texto), é absolutamente genial. Não vai ter adulto que não o ache sensacional, pelas fantásticas jogadas de palavras que traz e que explicam tudo, ou melhor, permitem que a plateia se aproprie do que está sendo dito sem, necessariamente, precisar conceituar cada coisinha (que talvez fosse o mesmo que explicar uma piada ao final). Aliás, fala-se disso na peça: a metalinguagem que é típica de um casal discutindo sobre a sua discussão ou sobre sua (in)capacidade de comunicar-se. Sobre a conversa interrompida ou interrompendo-se no diálogo para situar cada senão, cada vírgula, cada silêncio, cada detalhe que gere detalhes que gere interpretações de detalhes e que, infinitamente, leva a desvios enormes de comunicação.

 

Contos Partidos de Amor: Diego de Abreu, Luciana Balby, Tiago Herz e Isadora Medella / Foto: Rai Junior

 

O texto, que é de Eduardo Rios, inspira-se na obra de Machado de Assis (1838-1908) e, associado à belíssima direção e ao roteiro de Duda Maia, fica à altura do criador de Capitu e o ciúme terrível de Bentinho, no paralelismo possível entre dramaturgia e literatura. Encantamento é o que acontece logo que o espetáculo começa, com a iluminação excelente de Renato Machado, que faz toda a diferença na peça inteira, dando cor e vida às cenas e às temáticas (mais avermelhada nos momentos de apaixonamento, mais amarronzada nos momentos de tensão, e às vezes azulada, outras, esverdeada), o figurino de Kika Lopes, que se utiliza do branco para dar mais vigor à luz e aos corações apaixonados que se colam no peito dos personagens, além de algo infantil que permite a identificação com o público mais jovem, fazendo referência, ao mesmo tempo, a certo eterno aprendizado do amar, do relacionar-se, do desapegar-se, do respeitar-se etc, e, finalmente, o belo cenário de Diogo Monteiro. Para não perder o fôlego (isso que peça e atores têm de sobra e demonstram logo de início), começo nova oração para dizer que o cenário se utiliza de grandes corações acolchoados (ou dando essa impressão), feitos de fuxicos, que, pendurados dos lados direitos e esquerdo do palco, somando 6 em cada lado, dão a atmosfera de paixão que o espetáculo requer e dando livre espaço para a rica movimentação dos atores e a presença de rosas e instrumentos musicais no palco. A trilha sonora original e arranjos de Ricco Viana e as canções de Eduardo Rios e do próprio Ricco são belíssimas, dando humor, lirismo e certa descrição de momentos embaraçosos das emoções, da falta de comunicação e dos sentimentos. Contos Partidos de Amor até poderia também se chamar Contos Partidos de Ciúme, temática que permeia as histórias que se imbricam na peça, a partir de dois contos de Machado de Assis.

O espetáculo esteve em reestreia no Rio de Janeiro, tendo passado pelos CCBBs de SP, Brasília e BH, ficando em cartaz até 16 de dezembro. Foi premiado nas categorias de Melhor Direção e Melhor figurino no 12º Prêmio Zilka Sallaberry de Teatro Infantil – 2017/2018. As inspirações principais para a dramaturgia de Eduardo Rios foi o poema Círculo Vicioso e os contos “A história de uma Fita Azul” e “To be or not to be”, este último da coletânea Contos de Amor e Ciúme, que Gustavo Bernardo organizou, pela Editora Rocco.

 

Contos Partidos de Amor: Isadora Medella, Tiago Herz, Luciana Balby, Diego de Abreu / Foto: Rai Junior

 

Já o elenco polivalente (a polivalência, na arte, é sensacional, mas em outras profissões é um horror, que fique o parêntesis) está muito bem e ensaiadíssimo, porque erro, nem que eu quisesse encontrar, não haveria (como não houve): Diego de Abreu, impagável nas apresentações do início da peça, Isadora Medella, Luciana Balby e Tiago Herz, que são também, os quatro, cantores e músicos. Ricco Vianna, com sua trilha sonora ora instrumental, ora de músicas cantas e tocadas ao vivo pelo elenco, tem, em uma delas, inspiração no poema “O Verme”, em que Machado descreve o ciúme como “um verme asqueroso e feio”, publicado em Falenas (1870). Nem tão bom na poesia como foi na prosa (ficcional e crônicas sensacionais), Machado de Assis não deixa de ser memorável até mesmo no campo literário que não lhe era o melhor. Para quem gosta do autor, é possível perceber palavras que permeiam a obra do escritor e que ficaram famosas, como o uso do adjetivo “oblíqua” para descrever, no caso do espetáculo, uma boca, “na verdade torta, cheia de porquês”, como diz a personagem. Alguns diálogos de briga são tão bons que suscitam aquela vontade de reler Machado ou ir até os teóricos da comunicação de Palo Alto, que escreveram a Pragmática da Comunicação Humana, livro de 1973 de Watzlawick, Beavis e Jackson, que poderia ser traduzido artisticamente por essa obra. A pesquisa dos autores mostra que tudo é comunicação, toda linguagem comunica, e é disso que trata Contos Partidos de Amor e é também desse saber que qualquer boa dramaturgia se utiliza ao fazer seu espetáculo.  É possível notar o quanto a comunicação (ou sua ausência ou fragilidade) é fundamental para que um relacionamento engrene ou não engrene, continue ou termine, volte ou dê adeus. O espetáculo encerra com uma ideia simples, que pode complicar o outro, porque, como assinala o texto, às vezes é simples ser complicado e é complicado ser simples: deixar o amor amar significa não alimentar o verme asqueroso do ciúme. Simples? Complicado? Nem Freud saberia abordar a questão tão bem.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes, Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.

 

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128ª Leva - 06/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Gustavo da Rosa Rodrigues

 

Foto: Adelmo Santos

 

Deus ao mar o perigo e o abismo

 

Ele vai explodir o avião. Eu sabia. Desde o começo, sempre soube que o meu destino era morrer agarrado a uma mesinha de polietileno com fogo cegando os olhos míopes enquanto crianças afogadas passam do meu lado, boiando, de coletinhos laranjas, indo pra uma colônia de férias no céu. Se o avião cair na água, já era. Na terra, talvez o piloto tenha uma chance de fazer um pouso forçado, ou então cair em cima de umas árvores e aí dá pra tentar achar uma das oito saídas de emergência, que não serviriam de nada porque o avião já estaria todo arrebentado, e teríamos que engatinhar até a abertura mais próxima passando por cima, isso é certo, de pedaços de pessoas pelos cantos como se fosse uma piscina de bolinha versão hardcore; o negócio é ficar no fundo, sempre no fundo, porque é a parte que bate por último, e tem uma estatística que diz que 90% dos sobreviventes de avião sentaram nas últimas fileiras. Mas, nesse caso, acho que não tem saída. Ele pode levantar durante a noite, ir lá no cockpit e anunciar o sequestro, afunde esse avião no mar, ou, quando estivermos nos aproximando da costa da África vá direto para as Pirâmides do Egito, melhor acabar com aquilo, que se fodam os faraós e a especulação turística, ou, dê meia volta e arrebente o Christ the Redeemer — mas por que alguém iria sequestrar um avião no Brasil? Pra bater aonde? Vai ver o Brasil agora é um novo alvo do Estado Islâmico, ou Al-Qaeda, e eles estariam mandando uma mensagem afirmativa reconhecendo que os países economicamente emergentes mas nem tanto também entram na conta? 12 horas de voo, 7 horas só em cima do Atlântico, sem mapa de voo. A companhia é tão chinela que não tem nem o mapa do voo pra pessoa saber onde vai morrer.

Ele se vira de um lado pro outro no assento desde que sentou e fica praguejando alguma coisa em árabe, ou é francês? não dá pra saber, fala sussurrando, pra dentro, como se rezasse. Quando chegou na minha fileira e apontou pro assento da janela efusivamente dizendo hã, o cabelo comprido e a cara imberbe, perguntei em português aqui e ele não respondeu, só apontou, mas quando se sentou disse obrigado, achei que fosse brasileiro. Tinha que chover, sempre decolo com chuva durante a noite; pela janela oval só as luzinhas vermelhas e verdes em rotação universal, 24 de dezembro, deve ser isso, e os risquinhos da água na janelinha fake de plástico ou acrílico anunciando a ressurreição, tears of joy; agora ele pegou a revistinha da companhia, o cara parece que é de boa, tô até viajando, lê revistas de turismo e tal; folheia o negócio recheado de imagens profanas por dois segundos e, num som abafado, socando a revista atrás do assento da frente, sussurra pra dentro de novo, árabe ou francês, vai saber, e se inclina na janela pra tentar ver alguma coisa; certo que ele pode ter colocado a bomba na mala e tá com um detonador na calça, escondido; lá fora, as luzinhas fuzilantes das asas, revestidas de polietileno, que não servem pra nada, e os funcionários caneta marca texto tocando a vida das pessoas pra dentro; ele deve tá tentando conferir se a mochila com os explosivos já entrou, calça jeans rasgada no joelho; telinha do entretenimento, ele liga e seleciona filmes, dá pra ouvir o ronco da gasolina fluindo, e se eles se enganam e colocam menos do que precisa, ou se tem um vazamento tipo a Apollo 13 e estamos no meio do oceano sem o Gary Sinise pra nos salvar, aí já era, a única coisa boa é que o avião não explode, a não ser que o cara queime tudo, claro, e quando vê eles conseguem pousar e passar as instruções de segurança corretamente pra galera sair show, infle o colete só fora da aeronave, não corre, senhor, mantenha-se calmo, porque todo mundo tem que sair em fila, se bem que não vai dar pra saber, e no impacto, metade já morreu; o negócio é touch-screen, ele rola rola a lista de filmes oferecidos durante o périplo de 12 horas dentro de uma lata de sardinha que voa e ninguém sabe como; dá duas batidinhas na tela, o filme não entra, paraísos perdidos, talvez ele nem seja um terrorista, só tá meio puto porque tem que viajar às pressas e queria continuar no Rio, entendível, ou alguém ligou dizendo que a mãe dele morreu e agora precisa voltar pra pagar pelo caixão e tudo mais; não entra, ele dá um tapa bem dado na tela esbravejando alguma coisa em árabe, é árabe, não francês, e solta uma bufada; que merda, o cara tá ficando puto e ainda nem decolamos, vai estourar essa porra aqui mesmo no chão; tenta desligar o negócio, mas a bosta nem desligar desliga, travou; ele inclina o banco pra trás e outra bufada, murmura de cabeça baixa e olhos na cintura, analisando a estratégia de ação e pedindo a última bença pra se vingar da companhia que não consegue nem oferecer as mínimas distrações antes do encontro final com o profeta; ele sabe, ele sabe de tudo. Luzinhas, as luzes das asas, me deram perto das asas de novo, se cair, já era; a chefe de cabine anuncia que as portas foram fechadas, embark completed, ligo a minha telinha, english, deutsch, français, italiano, desenhinhos, português, filmes, música, televisão, joguinhos — sem árabe sem mapa de voo; uma das aeromoças me entrega um saquinho plástico, dois, entrego um pro cara e ele faz um sinal assertivo com a cabeça, não deve ser terrorista, é gentil; pega o saquinho e nem olha, atira no chão e dá uma risada, uma cobertinha de poliéster dourada e um travesseirinho de bebê, tá de manga curta, sabe que não vai precisar de coberta nenhuma, não sente frio porque vai explodir tudo e o avião vai virar um fogo de artifício gigante celebrando nossa libertação eterna e a cessão de todos nossos pecados ocidentais; ele tira a bunda do assento e bota a mão no bolso com dificuldade fazendo questão de não encostar em mim, latino, e tira um pacotinho de chiclete, o Trident que parece uma mini carteira de cigarro, certo que o detonador tá escondido na caixinha, é agora; ele coloca o chiclete na boca sem tirar o papelzinho e vira de lado, juntando as mãos, com frio. O avião começa a andar, o comandante, preciso avisar o pessoal, anuncia naquela voz robótica cabin crew prepare for the take off please, só a companhia das luzinhas vermelhas, não tem mais volta, talvez se eu der um grito e pedir pra descer, que tô passando mal, ou que deixei o fogão ligado, ou que minha mãe tá morrendo ligaram do hospital, mas não; o cara tá puto, uma das mãos pressiona o rosto colado na janela, os olhos bem abertos, vendo o quê, as luzinhas vermelhas e o breu; vai ver na real ele só tem medo de voar mesmo, é isso, sou um merda, coitado do cara, tá inquieto porque viu que não tem mapa de voo nem uma mísera indicação de altitude ou tempo até o destino e tá apavorado; as luzinhas vermelhas se apagariam no primeiro impacto, nunca ninguém nos acharia, o foda é só o mar, depois que passar o mar tá tranquilo; ele se revira no assento, quem sabe o negócio é imitar o cara, colocar as mãos no rosto e fingir uma reza sussurrada pra ele ter compaixão de mim e não explodir nada, vai pensar que merda o cara do meu lado tá fodido que nem eu, não vou explodir nada, deixa quieto, desculpa meu Deus, esse cara não merece. Decolou, não tem mais volta mesmo, só daqui 12 horas, ou até a explosão; ele olha pra fora, as luzes das favelas da cidade do Rio de Janeiro mais próximas do céu, deve ter deixado um amor aqui, um grande amor no Rio.

Duas horas de voo, nada de explosão. O cara já ligou e desligou a tv umas quinze vezes, não para de se virar e volta e meia ainda resmunga, olhando sempre pra cintura, pro cinto de explosivos. Cinco minutos depois da decolagem e o cara já tinha tirado o cinto de segurança, com o aviso luminoso ainda aceso; já dá pra sentir um cheirinho de comida, o avião balança, pauso o filme, Trapped, o sinal do cinto acende; e se eu puxasse conversa, e aí meu da onde tu é, gostou do Brasil? sim, lindas, é, pessoal muito amável, e tu tá fazendo o quê? ah negócios, sim, eu tô indo visitar minha namorada, é, sim, morei na Europa um tempo, agora tô indo pra passar o inverno, sim, que merda, aqui tá muito bom né, é, não conheço o Rio muito bem, mas é lindo sim. A aeromoça se aproxima com o carrinho, sr. would you like something to drink? o cara nem baixou a mesinha de polietileno boia-salva-vidas que o pessoal avisou antes, o colete tá embaixo do assento, e as máscaras vão cair automaticamente, ninguém em pânico, de boa, se mantiver a racionalidade, 75% sai vivo daqui e vai escrever um livro de autoajuda; ele diz chicken water, comedor de bicho morto, and a coke. Olho pra minha mesinha esperança, uma bandejinha de papel alumínio com massa, um potinho de plástico com duas rodelas de tomate e uma folha de alface entocado do lado, um bolinho de chocolate, um pãozinho redondo, um potinho de geleia de goiaba, dois pacotinhos de polenguinho e talheres de plástico enrolados numa embalagem de plástico e um guardanapo de papel enrolado em outra embalagem de plástico. Tomo meu suco no guti guti, quente, mas tá valendo; ele pediu coca, olha praquela lata como quem olha pra uma perna irremediavelmente gangrenada, ou uma carta de amor de despedida, e balança a cabeça; acabou se ocidentalizando nesse tempo no Brasil, sabe que uma coquinha é contra os ensinamentos e doutrinas, mas força e a tampinha do alumínio se rende, o som da explosão do gás finalmente liberto depois de dias, meses, expandindo felicidade; em dúvida, olha pra janela, breu, gotas no acrílico, toma direito da lata e solta um arroto seguido de um grande puxada de ar, tava com sede, sabe que é a última coca da vida antes de explodir o avião, a culpa tá batendo forte, não poderia ter feito isso tão perto do céu; talvez o cara gosta mesmo de coca, que merda, e os dois quilos de açúcar vão fluir a serotonina providencial pra que ele decida não sequestrar nada; deixou metade do frango e nem encostou na água, dá mais uma golada; o cara tá de boa, deve ter problemas com colesterol alto, mas é magrelo; coloco o fone de ouvido de novo e dou play no filme com o dedo sujo de polenguinho. Desligaram as luzes pro pessoal não saber que vai morrer, não vou dormir enquanto ele não dormir; qualquer coisa ele vai ter que passar por mim se quiser ir no banheiro pra estourar a bomba, ou invadir a cabine, se ele levantar agarro as pernas e grito por ajuda; a luzinha da asa, incessante, falha a qualquer minuto, pegar um livro e ler, não dá, não vou ligar a luz aqui na cara do cara pra ele ficar mais puto e explodir tudo de uma vez sem compaixão, não, coloco o fone, pela hora, em cima do Atlântico, o avião vai até o nordeste por terra por uma razão, todo mundo sabe, a lua, do mesmo tamanho, nada de especial; finalmente o filhadaputa pegou a cobertinha, ainda bem, a última cochiladinha antes do sono eterno. No filme o cara sai atrasado de manhã pra trabalhar e quando tá descendo as escadas lembra que esqueceu o celular; volta correndo pra buscar o negócio no quarto só que nesse meio tempo a porta de metal bate com a chave do lado de fora e não abre por dentro de jeito maneira; o cara tá trancado num apartamento sem comida sem água sem bateria no celular, ninguém ouve, e pra piorar é um prédio abandonado, ninguém mora ali, o pico não tem nem energia elétrica direito, tudo gateado; ele gasta todas as energias gritando e tentando quebrar a porta, mas não rola; aí ele tem a brilhante ideia de rasgar o sofá e as roupas de cama e pendurar nas grades da sacada a palavra H-E-L-P e atear fogo, só que o negócio meio que foge do controle e o fogo se espalha pra dentro da casa e o cara quase morre asfixiado. O fera acordou, tudo escuro; alguém bate no meu ombro no caminho do banheiro, um cara gordão só de meia, bigode, camisa de flanela; o nutrido apoia as mãos no bagageiro perto do banheiro e sufoca a menina que tá na poltrona da frente; ele acordou mais puto que antes, se inclina pra frente, o cabelo comprido e fino encosta de leve na tela e ele volta a olhar pra cintura, agora com as mãos entrelaçadas; tá aí, chegou o gran momento, o gordão é comparsa dele, sim, levantou e fingiu que ia banheiro pra dar o sinal, uma encoxada abdominal na cara da moça; agora ele vai fazer a última reza e pedir perdão pela coca-cola antes de apertar o detonador Trident; o foda é que se ele levantar, não posso simplesmente dizer ô malandro onde tu vai, o cara vai achar que sou maluco, ou, pior, vai ficar ainda mais putaço que vai querer me explodir primeiro; aviso luminoso, please remain seated with you seat belts fasten, we are going through an area of turbulence, eh, pelo menos agora ele não vai poder levantar, turbulência; eu sempre soube que ia morrer num avião, sempre, janelinha quatro camadas de plástico não segura porra nenhuma, uma criança começa a chorar algumas fileiras na frente, pessoal tá acordando, do outro lado tem duas mulheres apagadas desde que a gente saiu do Brasil, certo que elas tomaram lítio ou dramin, água escorre pela janelinha, o cara ainda tá abaixado, rezando, a asa do meu lado parece uma trampolim com sete crianças em cima sem coragem de saltar, chocalhada, tão baixando de altitude, tá caindo essa merda; olho debaixo da poltrona, pressão nos ouvidos, não tem colete nenhum, lembre-se de inflar o colete apenas quando estiver já fora da aeronave, nunca dentro, ok, discernimento nas horas extremas é o que nos trouxe até aqui, Santos Dummont apertando a mão do alfaiate voador e dizendo vai malandro, que merda, por que eles dizem coisas do tipo em caso de um improvável pouso na água, que pouso, velho, não tem pouso, nem muito menos improvável, é provável, sempre foi provável, o avião tá baixando, fugir da turbulência, quebra-molas, os morros do ar, 200 quilômetros de ar, as luzinhas vermelhas, lindas, morrer no Natal no meio do Romanche Trench, um everest de profundidade com uma temperatura de 1 grau celsius e, com sorte, enroscar num cabo de internet submarino e acabar com a internet do mundo; sempre soube, amanhã vai ser notícia e todo mundo vai pensar, ufa, caiu um agora, então demora mais uns três meses pra cair outro, e meu corpo trucidado sendo levado para as profundezas oceânicas até que algum peixe mais faminto resolva se alimentar das minhas orelhas e se lambuzar com o sangue ainda quente de um dos braços de uma mulher, finalizando, de sobremesa, com pedaços do vestido de uma outra, florzinhas roxas e amarelas; mesinha do desespero tremendo, zumbido, o cara ainda tá abaixado, pode tá morto já e ter programado o dispositivo, ou a reza tá demorada mesmo, depois de tudo, se ele não explodir, mais chance de sair de vivo, please remain seated, tá baixando, vai cair certo, na próxima vou tomar dramin, sempre digo isso, mas é igual um amigo me disse uma vez, mesmo que tu teja lá no quinquagésimo sono, se o avião tiver caindo sempre vai ter alguém pra te acordar e dizer que o avião tá caindo, o cara levantou a cabeça, é agora, o pessoal do serviço de bordo sentou e tá colocando o cinto, nenezinho em prantos, please remain seated we are going through an… tá perdendo altitude, GPWS, seguro no encosto da poltrona, rígido, aperto os olhos, vai cair, sempre soube; tudo escuro, me inclino pra trás e sinto uma mão suada na minha; abro os olhos no susto, ele aproxima os lábios do meu ouvido e, segurando meus dedos com força, sussura numa voz adocicada — amigo, no tenemos apuro.

Gustavo da Rosa Rodrigues tem 26 anos e mora em Porto Alegre-RS. É escritor, poeta, tradutor e estuda Letras (Tradução) na UFRGS.