conquanto comece, exija o perfil
mártir, catella, de hermética ou rés
seu molde revira, perfaz-se em til
amiúde, avessa, reviça, revés
18
perdoe-me leitor se cá me extravio
abuso das figuras pra aduzir
mas é flama a memória, ou um pavio
ora compraz-me o fluxo e faz luzir
19
crua, devassa, nessa contradança la bruja vislumbra, desfere o fel
de lua, dourada, a bátega, avança
o tédio da última, oblitera, o mel
20
harpia, vampir, agita o chicote
agarra, rebuça, esgatanha o osso
oblíqua, carmina, a própria sorte
cava, retrava, profondo rosso
Canto 3
21
antes d’ seguirmos cabe explicação
ao uso dum termo citado acima
porventura não seja obrigação
contudo dou versão q’ qro que exprima
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se “obscoso” nd encontra, em lugar nenhum
é devido seu viés ‘xtraordinário
obscuro e viscoso agrupados num
neologismo pro vocabulário
23
prossigo nesse instant donde parei
co’ a femme fatale a minha frente
que, em frenesi deixou-me, na sua lei
miragem, substância evanescente
24
nessa forja onde a pedra amarra o sol
e a legião celebra o próprio fim
ta’ o sábio que na montanha é farol
condenado o dragão ressurge em mim
25
este tão logo se manifesta
“venho a ti, e ‘tu deves’ é meu nome”
grito “satã! diabo! mal que infesta!
belzebu! levai p/ lá a vossa fome!”
26
ao que sorri e, soberbo, assim me diz
“ouve, compreendo essa tua precaução
porém os que compõem minha matriz
são os mesmos que povoam teu coração
27
mil faces tenho e mil faces há em ti”
conclui dessa maneira a sua língua
reajo, então, “vós, de mim, ide, parti!”
“inútil é a ação, nada se míngua
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hidra sou, dessas testas que possuo
fulguram os preceitos que as sustêm
se uma é decepada, duas, sem recuo
crescem no lugar e o ocaso detêm”
29
qual dura sonora onde o índio clama
soa, ressoa, atirado sou àquela voz
retorno, a visão imersa em lama
para a mulher que é xama, bruta foz
30
mas nesse imo, fragílimo cristal
zona cujas piras não são breves
áspero, esse monstro, sua digital
troa, “tu deves, tu deves, tu deves…”
Canto 4
31
saliva a besta ao desiderato enqnto, espreita, essoutro d’ várias tranças
caos sobre caos, causando o substrato
menocchio, sua gênese às lembranças
32
degola a mãe, pierre, por compaixão
eu, de mim, um maço que reprime
todavia para ambos a maldição
no cáucaso à ave pelo meu crime
33
tecem as irmãs nosso destino
nós, amalgamados, feitos em ser
consoante d’ parmênides o atino
indiviso, omnis, perpétuo haver
34
de maneira diferente o devir
heráclito crê real, legifera
conceito que introduz ao perquirir panta rei, fogo, tudo se altera
35
pra tales entretanto em início
a água, da natureza, se traduz
igual fêmea, bravio mar, um vício
líquida nave gera e nos conduz
36
já anaximandro o ápeiron insere
valsa invisível como proposta
infinito q’ derrama, (re)ingere
pasta donde a physis é composta
37
razoável o ar remeter outrossim
àquilo que transmuta a matéria?!
segundo anaxímenes faz-se assim
o antropo, o mineral, a bactéria
38
empédocles afirma por sua vez
que é das quatro raízes essa função
unas com o amor e o ódio em lucidez
tramam da nascença à putrefação
39
pitágoras idem inaugura
o número indubitavelmente
p/ xenófones é a terra, assegura
a demócrito, o átomo, “somente”
40
inobstante, seja enfim essa arqué
não o noûs de anaxágoras q’ move a idea
destart’, qual dorso daquela em mim é
paisagem, pasto, ninfas ou medea
Canto 5
41
a manceba amante inda que tele
pois alfim só plantou grave espectro
fere-me a boca, a boca à mia pele
conserva-se acre, látego plectro
42
tal perenelle flamel, lendatriz
logrou longa vida com a magia
crepita, velada pua ou beatriz
ora turra dulcis, ora em algia
43
águia de sangue, rebenta o fruto
seiva nossa, das escápulas, voa
xenomórfico ose, dissoluto
morta madre na des-figura ecoa
44
nobre sal, item oma signo seu
pela treva age, prodigioso orbe
da abóbada, entona sina, androceu
sua vinga prepara nesse alforbe
45
“eu que de mary à cria me assemelho
largo orto em serro da calipígia
sou, de hades, rei, sacro escaravelho
ou vulgo um, verbero desta lígia?!
46
de ifigênia, a forte, rubro manto
que avulta-se algures pra deidade
ou o bico, à turba, do falsanto?!”
vão… verbo é impossibilidade
47
entre bósons, estelas, onde o grão
a prima obra, ny, raro etimodeus?!
por grossa fuga pulsa seu cifrão
em sólitons verte neuroproteus?!
48
oumuamu’alto e silente cetáceo
paz nenhuma demonstra esse enigma
traspassa o céu, infausto rubiáceo
rangem consigo as almas do origma
49
suspenso negrume ao sono induz
cobre de angkor frontes impassíveis
quem fácil não cede luna seduz
mas uivam em mim coisas horríveis
50
das vespas a peçonha igualmente
quos ortópteros cativos torna
envenena, a solidão, seu cliente
abasta essa raiva que, o senso, orna
Canto 6
51
ouabaína aplaca e regenera estro
quebra espada, esfaz a malfazeja
asperge o falcão sua febre, destro
molesta, circunda, ankou solfeja
Sel é poeta e artista visual. Possui textos publicados nas revistas literárias Arcana, Diversos Afins, euOnça e Benfazeja. É autor dos livros: Autopse (ed. Multifoco – 2012) e [Sel]vageria (ed. Urutau – 2016). Ambos de poesia.
A obra “diário: a mulher e o cavalo”, da autora Julia Raiz, é um ser de dois corpos que se fundem em plena corrida. Na dualidade entre interno e externo, tanto na forma quanto na narrativa, forja-se o elemento que conduz à unidade no grau confessional e literário. Trata-se da mudança de totem para o arquétipo, o sagrado que se torna um princípio platônico. A superfície vislumbra ideias complexas em uma linguagem direta e cuja abordagem determina uma eventual reformulação da mesma. Em um exame minucioso, encontra-se uma investigação através do tempo: a cronologia pelos movimentos executados a cada trecho, em que musicalidade é uma coautora, no lugar de uma medição acumulativa. Sem exibicionismos, experimenta como as sensações, por mais comuns em descrição, são únicas quando aplicadas à individualidade. Assim, como a pessoa que lerá decodificará estas percepções não é o importante. Tudo está no texto, através de ritmo e símbolos.
O fio-condutor está presente no título: em um diário, a mulher investiga a si e o que a cerca, a partir de um veículo, o cavalo, um guia hostil para reflexões. O fascínio se desenha na gradação em que estes objetos de estudo se organizam a uma condição de autodescoberta. A visão de fora da narradora para os dois seres, civilizada e selvagem, cujo enlace em uma criatura própria é tão imprevisível (à primeira vista) quanto inevitável (ao fim). A mulher e o cavalo se unem no enfrentamento ao cotidiano que busca domesticá-las. Pode-se citar dois trechos do capítulo 5 de “Mulheres que correm com lobos”, de Clarissa Pinkola Estés: “… se quisermos ser alimentados por toda a vida, precisaremos encarar e desenvolver um tipo de relacionamento com a natureza da vida-morte-vida” e “O que se teme pode fortalecer. Pode curar”. Essa está presente na epígrafe que sintetiza miopatia como o efeito colateral de uma força que não pode ser contida, pois seria mortal. Ela retoma esta ideia de forma mais explícita no trecho: “Depois, se este fosse um grande romance, o escritor escreveria que os cavalos se reúnem à noite, de costas para a fogueira e cantavam baixinho pedindo paz aos espíritos enganados”. Aquelas que matam, como a mulher do pm, ou mulheres que se matam, como Sylvia Plath, olham para seus pares em sua jornada por uma individualidade em que matadores montam cavalos.
Remete-se a Jung, quando se refere ao cavalo como símbolo do irracional mágico, cujos impulsos ocultam sua incapacidade de consciência: “Assim sendo, o “cavalo” é um equivalente de “mãe”, com uma tênue diferença na nuança do significado, sendo o de uma, vida originária e o de outra, a vida puramente animal e corporal. Esta expressão, aplicada ao contexto do sonho, leva à seguinte interpretação: A vida animal se destrói a si mesma”. Julia Raiz propõe uma releitura, em que a vida animal se reconstrói a partir do conhecimento de sua condição de oprimida e opressora para então construir uma nova e única consciência. Em outro trecho do livro: “A menina que encontrei na lanchonete falou que as mulheres têm que fazer que nem os cavalos na umbanda: transmitir. Eu não entendi. Mas eu sei que as mulheres estão interligadas, nossas mentes formando uma grande rede”. Esta grande rede só pode ser acessada através de uma leitura particular.
A técnica é honesta, com pontuais intervenções em seu formato, como na entrada em que a autora interpõe a narração com observações de cena. Desta forma, reitera sem se repetir a mensagem que permeia cada capítulo: a narradora e sua expressão não são distanciadas. A honestidade reside que cada fator do texto é utilizado para aprofundamento psicológico. Por mais disperso que soe em momentos, ao mencionar personagens e situações que aparentemente não pertencem, trata-se de como o jogo entre autora e quem lê é estabelecido. O fluxo é o bilhete de embarque para o universo mental da personagem. A cada associação a narradora dialoga consiga mesma e quem lê. Essa pessoa, no entanto, não tem participação passiva, pois as indagações do texto buscam estabelecer outra terceira e indireta identificação ou constatação. A brincadeira metalinguística, literária e confessional se faz aí. Como escrito acima, não é interessante uma leitura engessada, mas a transmissão de sinais suficientes para que a pessoa que lê preencha as lacunas propositais.
É um grande romance pessoal dentro de uma pequena novela de dispersos que confluem em linguagem e em tema. Um fluxo com trote incerto, mas cujo caminho está traçado. Como Julia Raiz traduz na entrada do belo “selo”: “Existe sempre uma coisa mais verdadeira acontecendo fora do nosso alcance de visão, no momento que uma estrela se apaga é porque ela já não existia e não existia o fim de uma luz, existe apenas a transformação que escapa à nossa percepção, existe o presente que nunca fomos capazes de captar”.
Daniel Russell Ribas é membro do coletivo literário Clube da Leitura, no Rio de Janeiro. Escreve crônicas quinzenais no site RUBEM. Organizou e participou de diversas coletâneas de contos. Ganhou o Prêmio Argos pela edição de “Monstros Gigantes – Kaiju”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez.
Uma noite de 12 anos (La noche de 12 años). Uruguai/Espanha/França/Argentina. 2018.
Uma noite de 12 anos, do uruguaio Alvaro Brechner, relata a história de três militantes do grupo guerrilheiro Tupamaros, que foram feitos “reféns” do governo militar uruguaio durante 12 anos da ditadura naquele país. Os guerrilheiros são Mauricio Rosencof, Eleuterio Huidobro e José Mujica, que vem a ser el Pepe Mujica. Trata-se da recriação ficcional do relato autobiográfico dos dois primeiros guerrilheiros em seu período de confinamento.
É a história de um sequestro de Estado, assumido na própria designação dos prisioneiros como “reféns”. Eles ficaram presos, isolados em solitárias durante 12 anos, sem direito a julgamento, ou sem conhecer as acusações. O filme abre com um trecho extraído de A Colônia penal, de Franz Kafka, quando o prisioneiro pergunta qual a sua sentença, e seus algozes lhe respondem que ele saberá em sua própria carne.
O filme apresenta justamente a história de como os corpos dos prisioneiros suportaram a desumanização de 12 anos de confinamento. É um filme sobre a resistência da carne e dos corpos. E também da fala e da linguagem, em ambientes quando a comunicação ou era proibida ou impossível.
Cena de “Uma noite de 12 anos” / Foto: divulgação
A película de Alvaro Brechner é o que chamaríamos de “tour de force”: como fazer um filme do confinamento, do absoluto isolamento social, da incomunicação, da inação dos personagens silenciados. Nesse esforço estético reside sua principal força cinematográfica, vinda da contenção, da sobriedade e da justeza emocional.
Essa força estética nasce do desdobramento de um paradoxo: os reféns foram presos para que fossem silenciados, invisibilizados e esquecidos. A câmara cinematográfica de Brechner traz a luz ao presente desse período de sombras, de escuridão e terror. Tal luz nos deixa ver, através da ficção, o que foi negado aos olhos do público e do povo, uruguaios e internacionais.
Essa é a questão que se sobressai nas raras oportunidades em que os presos tiveram de falar com “o mundo exterior”, como com seus parentes, depois de intervalos longos. Nessas ocasiões eles não podiam demonstrar seu sofrimento, sua degradação e a opressão absoluta sobre seus corpos.
Assim, na entrevista com a Cruz Vermelha, quase dez anos após a prisão, os presos não têm o direito de testemunhar sua verdadeira situação. Tratava-se apenas de uma encenação, onde a organização humanitária apenas corroborava a violência do regime.
Por isso, a exibição cinematográfica desse pesadelo histórico 30 anos após sua ocorrência tem uma potência estética e política. Pela linguagem da ficção audiovisual o espectador é levado a experimentar a tortura existencial do confinamento absoluto. E a violência do regime se torna existencialmente demonstrada.
Nesse aspecto, a força política da película não necessita de discursos. Basta que a câmera encaminhe a sensibilidade do espectador para esse mundo sombrio e desumano dos “porões da ditadura”.
Antonio de La Torre em “Uma noite de 12 anos” / Foto: divulgação
Nenhum filme histórico e autobiográfico é um registro mais ou menos fiel do “que se passou”. Não é um encontro com o passado. O espectador, na sala de cinema, tem um encontro presencial com as imagens do filme. Os eventos se passaram como passa qualquer evento, mas a história ficcional se desenvolve no aqui e agora do cinéfilo. O filme é um acontecimento e como tal ele é a figura de um instante. Cada um lida com sua surpresa, estranheza e absurdo a seu modo e recompondo um mundo.
No filme de Brechner, para poder sobreviver, os prisioneiros, que se encontram isolados, desenvolvem uma linguagem sonora através de batidas na parede para poderem se comunicar. É uma linguagem inventada e através dela eles são capazes de criar um mundo, pois não há mundo sem linguagem e não há existência sem mundo. Assim, o filme pode ser interpretado como a invenção de uma linguagem para que tempos ilhados se comuniquem através dos muros espessos do esquecimento e do silêncio.
Talvez o momento mais pungente de Uma noite de doze anos seja a cena do banho de sol dos prisioneiros depois de anos sem ter acesso ao ar livre, na qual se ouve a voz da intérprete Silvia Perez, cantando a canção The Sound of Silence, de Simon & Garfunkel. Em outro filme seria essa uma cena melodramática. A música nos alerta que vivemos uma ficção. Mas neste filme ela se torna a demonstração de como o silêncio tem uma potência. A história deve ser vivida ficcionalmente para que não se repita como farsa.
Guilherme Preger (1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.
A velha mais velha do asilo. Mesmo banco de todas as tardes. Fundo sombrio da varanda, últimas luzes cinzentas do crepúsculo. Fala pouco, quase nada. Quando se dirigem a ela, responde cumprimentos, agradece gentilezas e diz amém (se for necessário). Falar cansa. Resta ficar pensando, o tempo todo.
Puro engano, a ideia de que o tempo é livre e democrático. Parece que todos têm direito ao mesmo tempo, que cada um usa como quiser. Não é bem assim. É muito além das medidas conhecidas. Tempo não é coisa única que se divide, igualmente, entre as pessoas. O tempo corre em velocidade íntima e penetra nos espaços vazios de cada vida. Minutos, segundos, horas ou anos podem ter durações diferentes para cada indivíduo – e demorar o tanto que a subjetividade exige no momento.
Três anos no asilo. Professora aposentada. Viúva de oficial do exército – metódico e previsível. Vida programada. Casamento de 52 anos. Relação amiga, respeitosa e equilibrada com o militar da artilharia. Muito tempo. Não teve filhos. Nenhuma grande paixão. Prazeres mínimos – nunca teve oportunidade para transgredir. Não havia grandes traumas ou tragédias para lamentar, mas também nada espetacular guardado na memória. Vida neutra, regular, correta, bem traçada (como os cálculos de balística do coronel). Vida repetitiva (como a cadência do batalhão no desfile da independência, que o marido comandava com tanto orgulho). Estudo e trabalho: únicas razões que preencheram a vida da mulher. Poucas emoções fortes para recordar. As melhores lembranças vinham das aulas de física, trabalho de décadas, no colégio e na faculdade. Considerava um privilégio a missão de ensinar o funcionamento do mundo.
O tempo mora na alma. O tempo moral, temporal, é tempestade, besta, vendaval. O tempo não é infalível. Errado pensar que o tempo é exato e não falha. Falha e falta, porque nasce e morre dentro da gente. Enquanto escorre, tem o tamanho que quiser. É música silenciosa que embala o curso do universo. Compasso e ritmo definem sua existência. O tempo é invenção desvairada de cada pessoa, na dança consigo mesma. Não é coisa geral. Tempo universal (organizado em fatias) é como cena parada de um filme – cinema que vira fotografia.
Poucos parentes, a maioria já morreu. Sobrinhos e fiéis agregados apareciam vez ou outra – no aniversário, páscoa, véspera de natal e coisas assim. Sempre apressados, constrangidos, tentando demonstrar que tinham algo mais importante para fazer. A única visita que lhe fazia bem era Ester, ex-aluna que reencontrara, por acaso, no asilo. Duas vezes por mês, Ester passava lá para ver o avô e dedicava um bom tempo para conversar com a antiga professora. Ester – a única que não inventava motivos para dizer que estava na hora de ir embora. Só saía quando a velha dizia que precisava descansar.
Há séculos, o terrível vício das horas aflige a humanidade. Desde que foi criada a civilização do relógio (para facilitar a divisão social dos talentos e reprimir excessos de velocidade de imaginação), a desconstrução do tempo é considerada insulto científico ou distúrbio pessoal. Difícil fazer entender aos viciados em calendários e agendas que é impossível regular os momentos e a cadência da vida. Tão esdrúxulo como tentar disciplinar o vento. Ou pensar a sucessão das eras como uma sequência contínua em direção a um futuro fixo (como se só existisse o presente, cuja função seria apagar o passado).
Lembrou orgulhosa dos exemplos poéticos que construía para explicar fenômenos misteriosos com as forças da natureza.
A velha professora detestava os livros que ganhava. Histórias tolas, manuais de autoajuda, meditação, pensamento positivo ou mensagens religiosas de preparação para a morte. Preferia ficção científica, aventuras que desafiavam a inteligência e propunham novos pensamentos. Gostava mais dos clássicos. A imaginação dos autores da atualidade ficava cada vez mais tecnológica do que científica. O desastre estava aí: pouca ciência para muita tecnologia. Ultimamente, mantinha no colo o pequeno volume que Ester trouxe de presente. Os Crononautas (tradução horrível), que narra viagens no tempo de um grupo de cientistas, que descobre equações mentais que permitem deslocamentos no espaço com a força do pensamento.
Não se deve acreditar que o tempo só caminha para frente. Nada mais falso. O tempo é etéreo e volátil. Pode andar para frente, para trás, para cima, para baixo e para qualquer lado. O tempo é invisível. Lugar móvel, abstrato, onde fica guardado tudo que existe, existiu ou existirá. Voa, na velocidade total de todas as galáxias, sendo capaz de atingir qualquer distância cabível no universo. Às vezes, fica entupido num canto sem saída. Como dentro da garganta daquele velho com cara de monstro.
O avô de Ester não gostava da velha. A neta parecia mais interessada na professora maluca do que nos problemas de saúde que ele relatava com profundo sentimento de carência e abandono. Maldizia a tarde que Ester reconheceu a professora, solitária, no canto da varanda. Foi ele que começou a espalhar que a velha era um perigo.
– Minha neta contou que ela é um gênio. Sabe tudo sobre energia nuclear. Foi até convidada para trabalhar na Nasa, mas o marido não concordou. Cuidado com ela! É meio desequilibrada. Tenho certeza que está aprontando alguma coisa. Olha a cara dela: parece que vive com raiva da humanidade. Gente assim é capaz de tudo. Já imaginou se ela resolve fabricar uma bomba? Provocar uma explosão, causar um curto, um incêndio…
O mundo perde vida com a ideologia do tempo aprisionado. Inteligências criativas são bloqueadas e se atrofiam. Tempo expresso em números; tempo vigiado em tabelas e prazos; tempo apertado em competições de sobrevivência. Na vida corrida, condicionada a datas e compromissos marcados, sentimentos fraternos e respeito solidário são rebarbas de excessos. Tempo engarrafado, paralisante, epidemia de angústia, destruição da harmonia natural e ilusão de um futuro salvador. Droga pesada.
Tempo é liberdade! Abaixo opressores e compressores do tempo! Tempo livre. Solto e vago! O tempo é leito de luz e usina de memória – confinado, compromete competências do espírito e altera a hierarquia dos desejos. Cada espécie é especialista em saber viver – entender o tempo que tem. Vida e morte, no mesmo trampolim. O mesmo ponto pode ser princípio ou fim. Depende da convenção. O amarelo é a menor distância entre o verde e o azul. Quantos tons existem entre os dois? Cor é luz diluída no calor do tempo. Enquanto existir fusos horários, cronômetros e formas de medir o tempo, as pessoas não serão livres para perceber as verdadeiras variações das cores e as pulsações mutantes das estrelas. O tempo limitado no ciclo das horas aprisiona a humanidade na periferia da terra. Por isso, ficamos isolados de outras civilizações extraterrestres. É preciso libertar o tempo.
O velho implicante foi quem ficou mais alegre, quando o diretor do asilo avisou que a professora não podia mais ficar interna na casa. Cleptomania. Encontraram diversos relógios, desaparecidos dentro do asilo, escondidos no quarto da velha. Só não entenderam por que tinham sido destruídos com tanta violência.
Ramayana Vargens é escritor, jornalista, professor de literatura, diretor teatral e membro da Academia de Letras de Ilhéus.
Café da esquina
Pouca temperatura
agora muita temperatura
quem chega e quem está indo
quem desmonta e se monta
mantém a compostura
finge não ser
a podridão do século
festival de cremes hidratantes
clareamento dos dentes
um amontoado de desamores bem resolvidos
próxima esquina
tira esse outono de mim
tira minha roupa
tira minhas escamas
me pesca sem isca
próxima esquina me fazem de isca
todo mundo morde
todo mundo morde e morre
a isca continua viva
próxima esquina: não vira.
Encosta e finge que
por enquanto
***
Contos de fadas parte dois
Nada foi real,
mas doeu como se fosse.
E aí o silêncio.
Eu não quero silenciar
Mas o primeiro grito
Sempre sai de mim
Na torre da gente
Na serpente que diz
Que o fruto do conhecimento
É atrevimento sem volta.
***
Um disparate:
atirar-me contra o vidro. atirar-me no teu colo. atirar-me meio tiro e meio pétala. atirar-me numa curva, numa selva de seca e terra. atirar-me contra o amor romântico amando e me atirando. Atirar-me repetidas vezes em diferentes cores e coisas. atirar-me em teu sexo, no seu intelecto e não sair de mim. atirar-me numa tela de tinta e lubrificação do que se vê mas não se toca. atirar-me agora fora do meu juízo. atirar-me para fora do golpe como se fosse possível, como se o estilingue pudesse me arremessar e me colocar fora para que eu possa olhar tudo por dentro.
atirar-me em outros corpos e copos
atirar-me em outras camas e lamas
atirar-me dentro de um filme ao vivo
atirar-me ao vidro
e como estilhaços
ir pra todo canto.
***
Degraus:
é que eu me sentia cair degrau por degrau
sentia a nutrição de força por força
sentia desejo de corpo por corpo
é que eu não sabia sentir e ter que sair de mim
era tudo aqui dentro.
Adicionar legenda
e secreto.
Tão secreto que qualquer um poderia entender
era notável, pegajoso, sujo.
Essa coisa de me sentir caindo
foi me dando altura
noção de espaço
noção desesperadora dos espaços que eu posso
noção de dor. Noção de dor é umas das piores noções que se pode ter.
Sei que dói
e caio pra me valer da dor
pra manter distância dos que não caem nunca.
***
Balança devagar
Me assaltaram a alma
Numa esquina entre o que eu acho
e entre o que eu penso.
Coloco na balança tudo
olhares, cartas, enigmas, chuva, cabelo bagunçado
sorrisos, bom dias, cuspe, beijo, penetração, fracasso
desejo
coloco na balança tudo
espera:
balança tudo.
Balança o mundo
e a gente não supera
coloco na balança a falência do estado
a falência do meu estado
o socorro cochichado
um pé estalado
corrida
medo coragem vontade
colidimos no tempo,
quando olhei pra tudo
já era 64 de novo
a balança quebrou
dividimos os ombros pra pesar
dividimos os ombros em pesar.
Meu coração agora tem pressa.
Sem metáforas
é
pressa
de balançar pra demolir.
***
Nós somos os potes de ouro
Seremos nossos próprios potes de ouro no fim do arco-íris,
ou no fim de um disco,
nas últimas sílabas das palavras que quase foram ditas.
Seremos o rebuliço causador,
os primeiros desejos ainda que antigos, esses dias simbolizam o nosso número da sorte ainda que golpeados, ainda que exaustos, ainda estamos excitados pela vida, inundados, molhados, aquecidos, um dentro do outro, nós dentro de todos, beijos, lascívia e umas esquinas.
Fumamos um cigarro depois do estrago.
Isabella Ingra ( Brasília, 1993) escreve poesias desde que leu seu primeiro poema (quadrilha, Drummond) na escola. É professora de literatura, atriz, contadora de histórias e poeta. Publicou dois livros infantis e agora se prepara para publicar seu primeiro livro de prosa e poesia. Suas maiores inspirações nasceram da poesia marginal e da escritora lendária Clarice Lispector. Acredita que poesia é pura bruxaria e não há inquisição que a pare!
Num recanto qualquer do mundo, a vida acontece e se expande em seus microuniversos. São possibilidades de existência que emanam das faces múltiplas do cotidiano. Enquanto estas linhas são escritas, o aqui e o agora são delineados pelo olhar de alguém e revestidos com a propriedade de observação diferenciada que cada artista carrega consigo. Diante da oportunidade de se mirar potenciais cenários, o ofício de fotógrafo engendra muito mais do que percepções flagrantes. Ousa além: oferta-nos revelações.
Mas por qual razão nos embalamos às multidões do dia a dia e deixamos de ver muita coisa? Há um sentimento perene de dissipação quando vemos as imagens de nossa real existência no mundo se confundirem com pontos perdidos e quiçá genéricos de observação. É como olhar para tudo e nada ao mesmo tempo. Na tentativa talvez de absorvermos freneticamente o rumo acelerado das coisas que nos são apresentadas, a sensação de se esvair numa torrente informe parece não passar.
A arte é capaz de fazer frente à ideia de que somos uma turba desorientada e, portanto, avessa aos pormenores mundanos. E falar aqui de detalhes significa remontar à perspectiva de se poder olhar e sentir a dinâmica da vida sem perder experiências relevantes de serem vivenciadas. Mesmo que não haja interferências por parte do artista que está a mirar os cenários, ainda assim ele se fez personagem do que acaba de testemunhar e reproduzir em sua obra.
No trabalho de um fotógrafo como Adelmo Santos, temos a percepção de que as revelações dispostas nos ambientes retratados emergem em meio ao caos urbano que, teimosamente, tenta desviar nossa atenção. Apartado da noção de um mero flagrante, o empenho artístico de Adelmo é no sentido de atenuar o efeito de dispersão do olhar que nos alça a obviedades. É marcante em muitas das imagens do artista o captar de um sentimento poético que se esconde por trás da rotina de homens e lugares. Mergulha-se, por escolha, no âmago das coisas.
Foto: Adelmo Santos
O fato é que Adelmo privilegia registros de dimensões da vida que passam despercebidas por muita gente. Evidencia delicadamente o canto quase que inaudível do povo de algum lugar, a rica simplicidade das pessoas, seus gestos e ritos. Nas suas fotografias, vemos uma clara tentativa de enaltecer o protagonismo às avessas que gente ocultada pela rotina exerce em seus espaços de sobrevivência. Na contramão dum complexo processo de invisibilidade, há vez e voz para os representados diante de imagens que potencializam uma possibilidade renovada de afirmação social e cultural. Nesse ínterim, todo um painel de feições populares deixa impregnadas as suas peculiares marcas.
Outro traço marcante do trabalho desse fotógrafo baiano está no modo como a dinâmica urbana é pensada e reproduzida. Fazendo transitar o seu olhar por lugares de passagem e pelas mais distintas vias de acesso, Adelmo testemunha e nos apresenta indícios humanos de transformação dos espaços. Alveja a configuração arquitetônica das cidades e nos põe a refletir sobre as variadas formas de intervenção espacial propostas pelos sujeitos que se movem e se deslocam através dos mais difusos ambientes.
Quando se utiliza da técnica de superexposição de imagens, Adelmo traz à tona uma curiosa coexistência entre mundos. Nesse aspecto, é como se uma interação entre o vivido e o imaginado pude se estabelecer de tal maneira que um efeito de realidade se fizesse determinante.
Impera na arte de Adelmo Santos a procura um tanto visceral pela construção de seus temas. No início do texto, falou-se em revelações, palavra que pode até mesmo abrigar uma infinidade de alternativas. Mas importa destacar que dar vazão a faces e cenários marcados por certa clandestinidade é também rasurar a imagem limitada que se tem sobre pessoas e seus entornos. Por entre vestígios do labor humano captados em luz e sombra, resistem vigorosos modos de existir.
Foto: Adelmo Santos
* As fotografias de Adelmo Santos são parte integrante da galeria e dos textos da 128ª Leva
Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura.
Na mesma proporção que uma boa escrita carece de técnica e imaginação, é preciso que o escritor tenha sensibilidade para capturar e decifrar o espírito do seu tempo. Em seu mais recente livro de contos, a mineira Eltânia André processa os códigos que representam, cada vez mais, a sociedade contemporânea, em especial a brasileira. “Duelos” trazem narrativas que se constroem a partir de disparos de violência, crimes de ódio, agruras urbanas, desmazelos e injustiças sociais. São retratos muitos claros e contundentes do nosso cotidiano, que revelam o quanto perdemos o senso de absurdo e a capacidade de reação, por exemplo, diante de mortes de crianças pelas chamadas balas perdidas. “Há mais homicídios no Brasil do que nos anos do conflito no Vietnã e atualmente na guerra da Síria, mas, em nosso país, esse passivo recai, em sua imensa maioria, sobre as populações desassistidas da periferia”, lamenta a autora.
Em entrevista exclusiva à Diversos Afins, Eltânia conta sobre o processo de composição de seu livro, ao mesmo tempo que reflete sobre o Brasil de hoje, repartido por conturbações sociais e político-partidárias, e sobre o real poder da literatura em se oferecer como um instrumento de recondução coletiva. “Melhor seria se os livros fossem objetos íntimos habitando o imaginário do nosso povo, mas tantos ainda precisam do básico e do urgente: saúde, alimentação, escola, dignidade”, alerta.
Morando em Portugal há cerca de dois anos, a escritora ainda traça um paralelo entre a produção literária feita no Brasil e na Europa, constituindo um painel de pequenos detalhes que espelham a realidade atual do mercado do livro no Brasil e a sua própria relação com a escrita e a publicação. “Seria bom se meus livros tivessem distribuição e fossem mais lidos, mas não houve nenhuma abertura. Não gosto do silêncio que se instala sobre os pedidos que lotam as caixas das (chamadas grandes) editoras, acho cruel e desrespeitoso a indiferença ou as cartinhas com negativas automáticas e burocráticas”, declara a autora.
Eltânia André / Foto: arquivo pessoal
DA – Seus livros anteriores são marcados pela exploração do território da memória, no esteio de uma escrita com tendência poética. “Duelos”, por outro lado, trata de uma realidade atual, regida por temas agudos e contundentes que ilustram o caos da sociedade brasileira. O que motivou tal mudança?
ELTÂNIA ANDRÉ – Aconteceu naturalmente. Quando percebi, a violência estava posta em vários contos. O que fiz foi ceder à temática e seguir produzindo com o título, “Duelos”, eleito. A severidade da vida e a realidade que nos circundam me guiaram na busca de personagens e histórias, porém tentei através da linguagem levar um pouco de ternura, não sabendo se havia possibilidade do paradoxo ou se seria possível suavizar a brutalidade. Mesmo assim arrisquei. Quanto à memória de longo prazo, ela também está presente em vários contos, com sutileza, talvez. Os contos estão circundados pelo horror ancestral, mas também pelo crescimento da violência urbana, circunstâncias que recheiam gráficos: há mais homicídios no Brasil do que nos anos do conflito no Vietnã e atualmente na guerra da Síria, mas, em nosso país, esse passivo recai, em sua imensa maioria, sobre as populações desassistidas da periferia, sobretudo jovens negros.
DA – “Uma das mil e uma noites”, conto que abre a coletânea, acompanha uma cena chocante em que um jovem gay é espancado por conta de sua orientação sexual. Até que ponto, você acredita, a literatura é capaz de transcender seu valor artístico e servir como instrumento de alerta social?
ELTÂNIA ANDRÉ – O narrador desse conto é surpreendido pelo desejo de salvar a personagem, mas ele não tem o antídoto para salvar o homem do veneno da estupidez. Assim, instala-se no texto a angústia que paralisa a história e que faz a narração se dilatar em múltiplas vias, exigindo do leitor a saída brusca do cenário de horror e deixando, imediatamente, o convite para a pausa reflexiva. É a angústia da autora também, pois tenho em mim tantas dúvidas e, por outro lado, tanta fé na arte. Mas, sim, a literatura é um dos instrumentos de alerta social, mas suspeito que não seja apenas isso. Há uma potência, que eu particularmente sinto, de que a literatura me permite estar em contato com o silêncio para ouvir outras vozes, sem reservas, sem receios – personagens e mundos múltiplos. Paro para ouvi-los, contemplo-os e, em alguns casos, torno-me íntima deles, outras vezes me torno outra(s) e assim fico mais próxima de mim. A literatura produz empatia, produz proximidade, arrisco a dizer que possa produzir novos sentidos; somos atravessados pelas palavras e num determinado momento essa força produz mudanças. Tudo isso pode mobilizar individualmente ou coletivamente o universo social, mesmo que nos pareça imperceptível. Melhor seria se os livros fossem objetos íntimos habitando o imaginário do nosso povo, mas tantos ainda precisam do básico e do urgente: saúde, alimentação, escola, dignidade.
DA – Numa outra chave narrativa, alguns contos tratam de mecanismos de violência, que não se fortificam na brutalidade, mas que não deixam de ser violência, a exemplo do descaso público com a saúde, a educação, a aposentadoria pública. De maneira geral, são temas poucos explorados pela literatura brasileira. Você acredita que falta, aos escritores contemporâneos brasileiros, um olhar mais penetrante para esses problemas cotidianos, que parecem menores, mas não são?
ELTÂNIA ANDRÉ – Talvez esses temas estejam diluídos na literatura contemporânea, implícito na realidade das personagens, porque não é possível testemunharmos nosso tempo sem observarmos esses fenômenos que trituram nossas vísceras.
DA – A violência contra a mulher é outro tema recorrente. Mulheres abusadas, oprimidas, inferiorizadas. Traçando um paralelo com a literatura, e levando em conta o último prêmio São Paulo de Literatura, que elegeu três escritoras campeãs, como analisa a participação das mulheres no mercado literário? Percebe que ainda há restrições por parte das editoras, dos leitores, comparado aos espaços permitidos aos homens?
ELTÂNIA ANDRÉ – Comemorei o resultado do Prêmio São Paulo, três mulheres vencedoras, mas gostaria que um dia fatos como esse não necessitassem de comemorações ou fossem alvo de uma visão pitoresca, entre críticas e deboches, porque se pensarmos na quantidade de vezes que somente homens venceram prêmios, isso ocorreu sem nenhum destaque ou suspeita. Gostaria que um dia nós tivéssemos naturalmente esse espaço; a escrita como processo, como exercício e resultado de esforço combinado com talento. Há tanto tempo as mulheres escrevem, o que deveria importar? A força da escrita, não a hierarquização ou os rótulos. Seria mesmo bom se assim fosse! O mercado literário nunca foi imparcial, não só com relação às mulheres, nem mesmo justo com as escolhas das obras, pois nem sempre a qualidade é o farol. Claro, percebo que há restrições e há tratamentos desiguais. Mas não vamos nos calar. O Mulherio das Letras, que surgiu sob a batuta da escritora Maria Valéria Rezende, tem mais de 6.600 mulheres. Um número expressivo, não acha?
DA – O conto “Matança de passarinhos”, que integra seu novo livro, originalmente faz parte da coletânea “Perdidas – Histórias para crianças que não têm vez”, que reuniu textos de autores em protesto aos casos repetidos de crianças mortas por balas perdidas em comunidades carentes do Rio de Janeiro, no ano passado. Como foi o processo de composição desse conto, e de qual maneira ele serviu de norte para a ideia central de “Duelos”?
ELTÂNIA ANDRÉ – Na verdade, eu já estava quase terminando o “Duelos”, quando Alexandre Staut me convidou para participar da antologia “Perdidas – Histórias para crianças que não têm vez”. Mas é sempre difícil enfrentar essa guerra em que as nossas crianças são alvo, ao invés de receberem proteção e direitos, como os que estão inseridos no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). A realidade é rude, meu amigo: Maria Eduarda tinha 13 anos, cursava o sétimo ano do Ensino Fundamental e estava participando de uma aula de Educação Física, numa Escola da Zona Norte do Rio de Janeiro, no momento em que foi beber água e recebeu em seu corpo os disparos de fuzis. Muitas outras crianças e adolescentes foram vítimas de histórias trágicas. “Matança de passarinhos” foi escrito com muita tristeza, e confesso que gostaria que fosse totalmente ficcional e distante da realidade, mas é uma fotografia do Brasil, infelizmente.
DA – Há uma frase muito emblemática no conto “Poesia que ninguém lê”, que diz: “Os versos inacabados estarão sobre as contas a pagar na segunda gaveta do criado”. É uma imagem muito representativa da relação entre vida comum e a literatura; do quanto escrever, no Brasil, pode ser comparado a uma obsessão diante da ausência de qualquer recompensa associada, sobretudo a financeira. Por que, então, seguir escrevendo? E, principalmente contos, que é um gênero mal visto pelo mercado?
ELTÂNIA ANDRÉ – Também insisto em me questionar. Não é mesmo fácil enfrentar as contas na gaveta e o poema que insiste em sobrepor-se à matemática e às obrigações diárias. A maioria de nós precisa se dedicar a outro trabalho para sustentar também a própria produção literária. Mas o que mais me incomoda é ter que ser a caixeira-viajante, mascate da minha obra, isso é bastante desconfortável. Escrevi o artigo “Por que escrevemos”, que foi publicado em dezembro de 2017, na revista Caliban, de Lisboa, para tentar encontrar algumas pistas para essa interrogação que me assalta frequentemente. Não encontrei uma resposta justa, mas não consigo parar de escrever (algumas vezes penso que deveria). Encontrei esse modo de comunicação comigo mesma e com o mundo que teima em não cessar. Quanto ao gênero do conto, eu não me importo com o tratamento do mercado, tenho muitos contos ainda para produzir, e quer saber: dane-se a ditadura do mercado, o conto é soberbo e valente.
Eltânia André / Foto: arquivo pessoal
DA – Seus livros foram publicados por editoras de médio e de pequeno porte. Isso se deve a uma escolha sua, pensando em ter mais gerência sobre a preparação de suas obras, ou chegou a tentar contato com editoras de maior circulação e não obteve êxito? Qual sua relação com o mercado do livro?
ELTÂNIA ANDRÉ – Ainda não tentei encaminhar meus livros para editoras de maior circulação, desacredito que serei avaliada. Seria bom se meus livros tivessem distribuição e fossem mais lidos, mas não houve nenhuma abertura. Sou orgulhosa, não gosto do silêncio que se instala sobre os pedidos que lotam as caixas das editoras, acho cruel e desrespeitosa a indiferença ou as cartinhas com negativas automáticas e burocráticas (não creio que leiam os textos sem que haja indicações). Admiro o trabalho das pequenas editoras, como a Patuá, que publicou meu romance “Para Fugir dos Vivos” e “Duelos”. Reconheço que vem apresentando ao mercado livros excelentes, com primoroso trabalho estético e, além disso, há a abertura do diálogo com os editores. Afinal, justiça seja feita, são esses laboriosos pequenos editores que nos dão vez e voz num cenário tão viciado, e já algum tempo temos visto autores dessas casas serem contemplados com prêmios nacionais.
DA – Você é natural de Minas Gerais, mas já morou em São Paulo e agora está radicada em Portugal. O quanto a existência por essas cidades trouxe de enriquecedor para a captura de temas e o desenvolvimento de sua escrita?
ELTÂNIA ANDRÉ – Nasci e vivi durante 24 anos em Cataguases, e foi convivendo com meu irmão (que se encantou com a poesia, publicou um livro artesanal e, meses depois, morreu precocemente, aos 19 anos, vítima de um acidente) que o desejo insólito de ser futuramente uma escritora foi despertado e ficou hibernado por anos. Em 1990, decido viver em Belo Horizonte e lá permaneço por uns 15 anos. De 2004 até 2009, permaneço em Barbacena, para estudar Psicologia. Em 2007, começo a escrever e publico, apressadamente e de forma independente, meu primeiro livro de contos, ”Meu nome agora é Jaque”. Depois de minha formatura e de meu casamento, parto para São Paulo e lá fico por muitos anos. A escrita passa a fazer parte de minha rotina e finalizo os livros “Manhãs Adiadas”, contos, selecionado pelo PROAC e publicado pela Editora Dobra, em 2012; “Para fugir dos Vivos”, romance, publicado pela editora Patuá, em 2015; e “Diolindas”, romance escrito em parceria com Ronaldo Cagiano, que saiu pela Editora Penalux, em 2016. Em janeiro de 2017, saio do Brasil, passo a viver em Lisboa e continuo a escrever e revisar “Duelos”, que, em agosto deste ano, é lançado pela Patuá. Sair do território natal foi o primeiro e fundamental passo para minha formação e experiência existencial, pois o deslocamento nunca é apenas geográfico. É um trânsito filosófico, é tornar-se outro, é a metáfora da errância no sentido de desviar-se do caminho original, espalhar-se em outras direções e, ao mesmo tempo, carregar em si e na memória o que fomos na representação do passado com todas as suas complexidades. Só consegui começar a escrever depois de muitos rompimentos: com o mercado, com Deus; com valores que introjetei da cultura e do senso comum. A literatura exigiu um enfrentamento comigo mesma. O deslocamento físico acaba refletindo no subjetivo e tudo isso implica na linguagem, na vida.
DA – Falando em Portugal, do tempo em que você reside na terra-mãe, qual a sua impressão sobre a relação dos portugueses com a literatura? Especificamente, no que diz respeito ao interesse pela leitura e por eventos associados ao contexto literário, levando em conta também a maneira que enxergam a literatura brasileira?
ELTÂNIA ANDRÉ – Como disse acima, cheguei a Portugal em janeiro de 2017. Desde o início, comecei a ler autores portugueses; muitos dos quais não temos acesso no Brasil. Durante um período li com intensidade escritoras portuguesas de uma prosa visceral, entre as quais Maria Velho da Costa, Hélia Correia, Agustina Bessa-Luis, Gisela Ramos Rosa, Maria João Cantinho, Teolinda Gersão, Lídia Jorge, Maria Teresa Horta, Maria Gabriela Llansol, Inês Lourenço, Maria do Rosário Pedreira, Sophia de M. B. Adrensen, Maria Judite de Carvalho e Ana Margarida de Carvalho. A literatura portuguesa é riquíssima, e ainda há um fértil terreno ficcional e poético a se explorar. Percebo que a Clarice Lispector foi eleita como um cânone da literatura brasileira. Encontramos nas livrarias de Portugal os nossos clássicos e alguns contemporâneos, mas poderia haver um interesse maior já que falamos a mesma língua. Percebo que o acesso à literatura brasileira, em Portugal, ainda é pontual. A música brasileira, sim, é muito apreciada pelos portugueses e tem histórica difusão.
DA – Seu marido, o escritor Ronaldo Cagiano, acaba de lançar seu segundo livro por uma editora portuguesa. Como funciona essa relação de autores brasileiros com selos de livros em Portugal? É mais fácil, para um escritor brasileiro, lançar um livro em Portugal que no Brasil?
ELTÂNIA ANDRÉ – Mais fácil no Brasil. Não acredito que haja uma boa abertura para os autores brasileiros, as editoras portuguesas não estão de braços abertos para a literatura do Brasil, há resistência ou desinteresse, que não é de hoje, uma espécie de mecanismo de defesa contra a bibliografia brasileira, que é enorme. Há algumas pequenas editoras que têm publicado brasileiros, sobretudo na poesia, mas são poucas. Caso o livro tenha tido uma boa repercussão no mercado nacional, a possibilidade é maior. Em editoras de médio e de grande porte é conveniente que o autor tenha contrato com algum agente literário, pois na Europa são esses profissionais que induzem os editores a publicá-los, diferente do Brasil, onde ainda funciona o contato autor-editor. A figura do agente literário no Brasil é quase dispensável para os autores novatos ou ainda não reconhecidos pelo mercado; funciona bem para os já estabelecidos. Por outro lado, a publicação de portugueses no Brasil tem sido facilitada, porque há incentivos, como a DJLAB (Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas), que apoiam e incentivam a publicação no Brasil de obras de autores portugueses e de países africanos da mesma língua. Há também o nosso franco interesse pela literatura portuguesa.
DA – Na condição de autora, e também de leitora, o que mais lhe impactou na maneira de tratar o escritor e o livro no continente europeu?
ELTÂNIA ANDRÉ – Ainda me sinto prematura para responder esta questão. Mas notei pequenos detalhes, por exemplo, quando ocorrem os lançamentos, os livros são analisados e apresentados para o público e para o autor. É um momento de muito respeito e de celebração da literatura. Não é apenas um encontro para autógrafos. Essa é uma prática tradicional, em que um livro não é apenas um acontecimento social, mas uma oportunidade de se conhecer autor e obra e, para tanto, antecede-se uma mesa, com algum convidado apresentando a obra do autor em lançamento. Nas Feiras do Livro, os autores põem-se disponíveis e próximos dos leitores, é fácil o acesso. Outra observação importante é que frequento muito as bibliotecas, estão espalhadas pelas freguesias, e é muito bom vê-las sempre cheias, principalmente de estudantes.
DA – De volta aos debates que estimulam seus contos, recentemente tivemos uma eleição para presidente do Brasil, na qual muitos artistas abriram seus votos via rede social. Você acha que é dever do escritor se manifestar publicamente, defendendo uma bandeira ideológica, ou a política pertence mais ao cidadão que ao artista?
ELTÂNIA ANDRÉ – A arte acaba exigindo um embate com o mundo e sabemos que a política interfere diretamente na vida das pessoas. Na verdade, a literatura também é um ato político. Não estou falando de política partidária. Quanto aos autores, admiro os que estão ao lado dos direitos humanos, da igualdade social, da diversidade, admiro os que lutam, os que se expõem. E estranho os que se isentam ou aqueles que escolhem ficar ao lado contrário, como o do fascismo. Cidadão e artista, em sua essência, são os mesmos, não há como separar um do outro. Respeito, entretanto, o modo que cada um encontra para se manifestar.
DA – Dos dramas tratados em seu livro, como o poder da leitura pode incidir de maneira a pôr um fim?
ELTÂNIA ANDRÉ – Não há como pôr um fim, esse ideal seria uma utopia. Há retrocessos que avacalham com a civilização e a humanidade – já era tempo de igualdade e paz, mas a irracionalidade do homem não deixa. No Brasil, o desafio é enorme e há um longo caminho pela frente. Muitos dos dramas podem ser tratados com adequadas políticas públicas, como por exemplo a violência urbana. E o acesso ao conhecimento e aos livros são ferramentas poderosas. Mas diante do golpe de 2016 e o resultado da eleição deste ano, como ser otimista?
DA – Qual o maior duelo em ser um escritor no Brasil? É possível sair vencedor, de alguma forma?
ELTÂNIA ANDRÉ – Os meus são vários, e todos passam pela angústia. Primeiro e constante é luta solitária com o que borbulha desordenadamente dentro e o que respinga na folha branca, depois burilar, lapidar – sempre fica um resto que não sabemos bem se terá fim, mas tudo bem, ele é ameaçador, mas produtivo. Desse duelo pessoal, passamos a ansiedade pós-criativa: encontrar editora, prazos que se prorrogam, lançamento, expectativas quanto à receptividade e um montão de eteceteras. Não há vencedores muito antes de Auschwitz.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
São tempos duros estes em que vivemos. Era de discordâncias que perpassam de forma avassaladora o espectro político do país. Diante da instabilidade instaurada pela guerra de narrativas midiáticas, é preciso que tentemos buscar algum resquício de bom senso e lucidez. A fissura que nos abala enquanto nação tem raízes bastante profundas, muitas delas fruto de um pensamento anacrônico que insiste em nos empurrar abismo adentro. Assim, nossa descrença em melhoras faz sempre aniversário. Ano a ano repetimos os modelos de enfrentamento das questões, exaltando os problemas e deixando de refletir sobre soluções efetivas. Esquecemos de confrontar ideias e, em seu lugar, privilegiamos conflitos desarrazoados e por vezes distantes de qualquer equilíbrio. Se a pauta que aborda temas como educação, segurança, economia e o social já se encontra absorvida por tensões extremas e bem distantes de um entendimento harmônico, que dirá o tocante à cultura. E quando artistas são reduzidos a uma classe de desocupados ou aproveitadores de programas de fomento público, sentimos que algo grave nos ronda. Tal classificação odiosa atribuída aos trabalhadores da cultura mais parece uma profunda ignorância sobre o papel que estes exercem efetivamente no front artístico do que qualquer outra coisa. Some-se a tal perspectiva o fato de que tentam insistentemente relegar a cultura a uma condição secundária, como se esta não fosse algo prioritário para o desenvolvimento de um país e das pessoas que dele fazem parte. Através de sua obra, um autor pode refletir sobre seu tempo, colocá-lo em discussão para que outras pessoas também exercitem seu senso crítico a respeito do que está sendo sugerido ou mostrado. Mais uma vez, toda essa formação crítica voltada para o consumo da arte não pode vir dissociada de um embasamento propiciado pela educação. Não somente criadores, mas também os destinatários de suas obras, necessitam compreender em que tipo de sociedade estão inseridos. A fruição da arte enquanto reprodutora de uma alienação político-social pode representar um território morto para a expansão do debate sobre quem realmente somos. É preciso ficarmos atentos para que o antigo costume de relativizar as coisas não assuma o controle dos rumos. Diante disso, espera-se do artista que não oculte a sua verdadeira face quando provocado a vislumbrar os sintomas do seu tempo. Num cenário em que tentam mitigar vozes através de intenções claramente autoritárias, produzir arte é um legítimo ato de existência. Hoje, uma nova leva da Diversos Afins surge em meio ao conturbado ambiente em que vivemos. Ainda assim, resistimos em manter acesa a tão necessária chama da liberdade de expressão. E não recuaremos. Por tudo isso, tocamos a nau trazendo à lume os poemas de Sara F. Costa, Marcelo Benini, Matheus Arcaro, Julia Bac e Vítor Teves. É instigante ver a lúcida entrevista concedida pelo escritor Bruno Ribeiro a Sérgio Tavares, conversa que evoca reflexões críticas especiais sobre o fazer literário. No caderno de teatro, Vivian Pizzinga propõe densos mergulhos no espetáculo “Aqui jaz Henry”. O poeta e performer Alex Simões adentra as searas íntimas de “Espaço Visceral”, novo livro da também poeta e performer Daniela Galdino. Nos contos de Dheyne de Souza e Silvana Guimarães, pulsam vidas à mostra. É Guilherme Preger quem nos convida a ver o filme “Benzinho”, produção brasileira que aborda delicados percursos em torno da família. Nas linhas de Daniel Russel Ribas, leituras possíveis para “Retas oblíquas”, novo livro da poeta Roberta Lahmeyer. Por aqui, há também a importância de se falar em “Um Corpo no Mundo”, disco de estreia de Luedji Luna e que revela uma consciência identitária a resistir às investidas cruéis do silenciamento. Nossa atual edição é percorrida pela exposição das ilustrações de Ana Matsusaki, artista plástica paulista. Resistiremos pela arte a qualquer ameaça que nos tire a possibilidade de pensarmos e sermos. Eis a nossa 127ª Leva!
Eu sempre quis ter uma casa. Mentira. Na verdade sempre tive pavor de geladeiras fogões sofás essas coisas pesadas que querendo ou não atrapalham a gente a mudar. Se eu pudesse, se eu pudesse mesmo, era outra. É o que tento fazer todos os dias. Do mesmo jeito que todos os dias vejo as pessoas fazendo isso. Feliciando-se. Feliciando-se é quase que como emulando-se, estuprando-se, niilando-se, só que com a boca levemente curvada não rindo mas sorrindo. Aprendi na tv. Foi mesmo. Não vejo muito tv. Mas às vezes aprendo. Já fiz arguição sobre isso.
Eu quase nunca me apresento, não é uma falta de gentileza ou um esbanjar de arrogância, só. Odeio justificativas. Mas meu nome é Ana. Como sempre, vocês já devem estar sacando. Estou na verdade pensando que história conto ou invento sobre a minha vida. Há pontos de vista demais em mim.
Quando me pego pensando, acaricio meu lábio. Na verdade esse não é um hábito meu. Nunca fiz até então. Mas vi um dia. Um apartamento de Santos. Ela olhava o mar pela pequena fresta dos prédios. As pessoas conversando bebendo fumando rindo muito ao redor. Mas ela estava sozinha, com um ar francês. Ela de fato era da França. E eu do sofá fiquei olhando. Ela tinha as curvas bem finas dos lábios. E essa paisagem era realmente um campo no outono em algum lugar da minha memória europeia de películas. O olhar cor de nórdicos levemente parado. Quero dizer que se movia lentamente como se estivesse sugando não o mar da noite, mas subindo sorrateiramente pelas curvas das janelas. Às vezes inventava obstáculos nos lábios, acariciava-os com força e depois com leveza. Raramente o sentido anti-horário. Depois de um tempo, soltava a mão das montanhas finas. Parava no ar como se segurando entre os dedos um fio de ar. Exatamente isso porque eu podia ouvir dali seu som, um vento. Ela também levantava o pescoço. Digo, o queixo. Porque era mais belo. Às vezes alguém chamava seu nome. Ela virava a cabeça de lado, abaixava até o ombro e sorria, mas estava mais sentindo o cheiro do amaciante da roupa. Mas não me lembro como se chamava. Levemente da sua voz dizendo uma coisa que até hoje tento entender por que, e me arrependo de não ter perguntado. Nunca mais vou saber. Tinha um som de leite a voz dela.
Talvez assim funcione bem. Contando desse jeito, vocês entenderam, não foi? Posso fazer um trato, prometer a verdade, ainda que o caminho seja bem mais longo e com fissuras nas pontuações.
Esses momentos são mais tensos, não gosto. Vou pensar em uma história pra contar. Depois volto. Engraçado que quando voltei fiquei pensando um bom tempo se voltava e apagava um pouco ou se não. Idiota isso, mas sincero. Se é que se dá crédito ao mas depois de vírgula, hoje em dia. Quem é que sabe correr de justificativas.
As coisas ficaram mais difíceis. Minhas histórias das histórias diminuíram com o tempoa vidaacontaalamaoremoacamaaporradacultura.
Como as pessoas conseguem escrever fumando, me pergunto.
Eu digo, na minha cabeça mesmo. Eram mais ramificadas, digamos.
Não que eu não lembre. Assim, não muito cronológica e ordenadamente. Muitos buracos. Há espaços em branco impenetráveis. Talvez nem com a psicanálise. Aprendi muito bem como cerc(e)á-los.
Hoje, especificamente, não é um dia muito bom.
Uns dias atrás alguém buzinou e não soube se era para mim. Esse tipo de não resposta que fico guardando na memória. Não exatamente nessa proporção. Tentei ilustrar. Preciso pensar em alguma coisa rápido.
Às vezes me pego pensando que, se não fosse a Bíblia, eu teria me suicidado na adolescência.
Menos, bem menos.
Meu nome é Ana. Não tenho filhos, não tenho ninguém. Quase um aforismo.
Quem sabe na próxima tentativa eu possa ser melhor.
***
Cidade quente
A cidade quente gemia. Madrugada de final de agosto. A Avenida Goiás. Rua de sombra, de vapor, de um galho quebrado. Outro. Mais perto. O vento, ela pensava. O vento, na verdade, ia se aposentando aos poucos nessa época do ano. As folhas ao vento, dizia bem baixo. Quebrando galhos? Poderia parar, mas a possibilidade de ouvir o som mais perto, o som mais rápido, o som mais real, não. Uma moto passou tão devagar que escondeu o grito do galho. Mas foram instantes. Ela sequer olhou. Não estou com medo, tremia. O frio da madrugada na cidade quente é uma espécie de hálito móbil. Arriscou levantar os olhos do all star preto puído para uma fachada de prédio art déco. Se fosse outra cidade, todos tirariam fotos. Mas na cidade quente a gente se acostuma a olhar sapatos, anúncios, smartphones. Ela apertou a mão no bolso da calça jeans, mas desistiu das horas. Perdeu a contagem da proximidade do som do galho. Mas ele vinha. Sem certeza, atravessou a rua. Os bancos da avenida chamavam. Foi uma das primeiras avenidas que conseguiu identificar quando se mudou. Tinha 16 anos? Foram os bancos da Avenida Goiás. Os transeuntes da Rua 4 empatando os sebos. O Eixo Anhanguera cavando o sol no asfalto. Mas agora era madrugada e o asfalto urrava mudo. Tivesse coragem, molhava a mão na fonte onde tanta gente já se banhou. Mas faltavam só quatro quarteirões para subir pro apartamento, fumar um cigarro, tomar uma tequila ouro e fotografar da janela a memória do medo do som do galho na velha Avenida Goiás. Tinha o hábito de olhar o chão, o resto que fica no chão. E na cidade quente o chão é rico de história. Já descobriu pilhas, anéis, tickets, moedas, suores, seus relicários. Por isso cometeu o deslize de diminuir demais o passo. Era o braço de uma boneca. Não se abaixou para pegar porque sabia que estava muito perto tanto quanto não sabia que. O acaso? A última lembrança poderia ter sido o braço da boneca. Mas a mão no seio na calça em todos os seus buracos acordou de gritos alguns galhos que ainda não pegaram no sono no alto dos prédios cansados. Na Avenida Goiás, que lástima, logo agora que estava a dois quarteirões de casa.
Foda-se. Era só no que ele pensava enquanto andava mais rápido. Atrás da garota de blusa de alça. Poderia correr, mas. Foda-se. Uma moto quase. O cabelo dela tremia. Era bonito isso de os braços se abraçarem como se fosse frio naquela cidade de fogo atravessando a rua. A madrugada é uma solidão sem fome. Quando o braço da noite desliza. Se Deus quiser que assim seja, ela vai diminuir o passo.
Uma garota na Avenida Goiás sendo seguida, mas isso são horas. Vou devagar. Se ela estiver sem sutiã, não posso fazer nada, as pessoas precisam aprender a viver. Ela não tem a capacidade de olhar pra mim e pedir ajuda. O cara também nem me parece uma má pessoa. Agora quem procura acha. Quer saber foda-se.
Até pensei em chamar a polícia quando vi lá embaixo na Avenida Goiás aquela moça que parecia uma boneca quebrada, devia estar com um medo enorme, se fosse eu correria. Ou eu mesma vou. Mas com a dor que estou nas pernas até eu conseguir descer não vou sequer ver o que aconteceu. Ai meu deus uma moto. Hoje em dia moto é uma coisa que não dá pra aguentar nessa cidade. Se eu estou na rua à noite, mas não tão tarde, e passa uma moto, eu já mudo meu destino, sei lá. Nunca se sabe. Antes prevenir. Ela atravessou a rua, graças a deus vai dar tudo certo. Espera. Como assim, minha filha? Agiliza. Sai daí, sai. Ai meu deus do céu, misericórdia. Carlos André, acorda, me dá o remédio, corre! Esse calor do cão.
Adolescente é estuprada e morta na Avenida Goiás na madrugada desta terça-feira. Sem testemunhas no local, polícia segue investigação. Prefeito promete reformar asfalto. Os ipês-rosas estão morrendo enquanto florescem os ipês-amarelos. Bala perdida mata motociclista no centro. A temperatura continua alta na capital.
Dheyne de Souza está em Goiânia-GO. Tem um livro de poemas publicado (“Pequenos Mundos Caóticos”, PUC/Kelps, 2011). Em breve, lançará o livro, também de poemas, chamado “Lâmina”s (Martelo Casa Editorial). Publica poemas, prosemas e e-books no seu blog. Tem um canal no YouTube, em parceria com Helô Sanvoy, com leitura e vocalização de poesia.
A incompletude
inunda a vida
de tal modo
que o pasmo
esconde o rosto
sob o silêncio do instante.
A fresta de cada frase
o hiato do amor
o vácuo do olhar
engolido a seco.
Todos os sentimentos
acumulados na curva da alma:
lama tóxica que enrijece
a dança do tempo.
***
Silêncio
Não fere os amantes
as frestas
entre as frases.
Na língua em repouso
o desejo se dilata
até tocar o incontestável.
A ausência das palavras
é o palco dos olhos,
dos hálitos,
dos hábitos despidos.
Peles, pelos e peitos
entrelaçados,
bêbados de presente.
Um espetáculo
em que as proposições
são espectadoras.
E aplaudem atônitas
a eloquência dos corpos.
***
Temporais
Há os que estão sentados na esperança,
aguardando o fim de semana,
o mês seguinte,
o ano em que os astros se alinharão.
O alívio dos dias úteis.
Na casa das máquinas ao lado,
há os acorrentados.
Mastigando as migalhas
endurecidas de Cronos.
Suspirando pela ferrugem dos ponteiros.
Há, por fim,
os que intuem o instante.
Os que dançam
sobre a mortalha da eternidade.
Há os que vivem.
***
Despedida
Senti o perfume da saudade nos teus olhos.
Pressenti que não passaríamos de um passado
desprovido de peso,
nos teus beijos empoeirados,
nos teus abraços em branco e preto.
No lençol,
ato consumado,
eu não era mais do que um retrato,
um fato
avesso a argumentos.
Tu sabias que eu sabia.
Mas sempre preferiste os palcos à ciência.
Eu também.
Que bem nos fez esse fingimento mútuo:
o que é o amor, senão uma farsa partilhada?
O sol subiu e afundou meus minutos:
era tempo, tinhas que ir,
fazer-te completa como uma libélula.
Saíste sem mala
sem palavra,
sem sorriso,
deixando-me aos vãos da vida.
Desde aquela noite,
Evito pensar em ti.
Talvez,
Pra não gastar as lembranças
que tenho de mim.
***
A criança é uma noite
seca
na veia da cidade.
Com o vazio
encostado na vitrine,
derrama o futuro
pelos olhos:
Quando terá,
em seu estômago,
um pedaço mísero
daquela padaria?
***
Poesia Pura
Não aprendi a roubar do outono uma tarde virginal.
Não encontrei a organicidade da pétala no sorriso da mucama.
Não percebi a puberdade incrustada em cada amanhecer.
Por isso não faço poesia.
Procuro por causas e efeitos
e deslembro dos defeitos,
dos hiatos
que impulsionam a criação.
Sou filho da definição,
súdito do porquê,
dependente sintomático do juízo.
– Doutor, e o tratamento?
Não há desintoxicação.
Não há antídoto.
Não há haverá.
É tarde. Tardíssimo!
A criança que me habitava
esvaiu-se no labirinto da certeza
sem saber como cobrir o verbo de cor.
Não sei fazer poesia
porque cadaverizo os sentimentos
numa página pálida.
Matheus Arcaro é mestrando em filosofia contemporânea pela Unicamp. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, artista plástico, palestrante e escritor, autor do romance “O lado imóvel do tempo” (Ed. Patuá, 2016) e dos livros de contos “Violeta velha” e “outras flores” (Ed. Patuá, 2014) e Amortalha (Ed. Patuá, 2017). Também colabora com artigos para vários portais e revistas.