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126ª Leva - 04/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Natasha Lins

 

Foto: María Tudela

 

Aprende novos truques. O ritual do
chá, o ikebana. Pratica o silêncio.
Prepara o ofurô, espalha as pétalas,
veste um quimono. Observa como
a gueixa massageia o mestre. Como
ele rende-se, relaxado, à pressão
dos dedos. É um domínio a entrega.
O guerreiro repousa, e escala o monte Fuji.
Akira nas Alturas. Arqueira das artes do tatame.

 

 

 

***

 

 

 

Jogam sobre ti uma névoa.
Dissuadem, maquiam. Mas são
como marionetes de ambições
e fetiches estranhos. Qualquer
desculpa serve a um tirano.
Porém não sabem dos porões
onde estiveste, e de como fugiste,
condessa-menina, com o íntimo
Intacto e os pés alvíssimos.

 

 

 

***

 

 

 

Para bunny rope não nasci, mas se
quiseres, suspendo-te de bom grado
num shibari. Serei tua rigger. Tenho
prática, minhas cordas são de seda.
Prazer igual nunca tiveste. Tantas
submissas no mundo, e encontras
uma dominante, não é sorte? Pois
hoje eu irei polir meu látex. Visto-me
de ringmaster e conduzo a cerimônia.

 

 

 

***

 

 

 

Fingir não perceber o corte, o talho nas costas, o mesquinho gesto. Há silêncios violentos, mais sinceros que sorrisos falsos. Há adiamentos. Há esquecimentos. Aperta o corpete para proteger-te. Endurece. A era é medieval.

 

 

 

***

 

 

 

Pois espreitava seus escritos para debochá-los, com ar de soberana.
Despudorada, sua íntima armadura camuflava uma cínica solidão.

 

Natasha Lins nasceu em Curitiba, cursou Letras, e vive há muitos anos na Europa. Trabalha com turismo. Vive entre o Algarve e a Sícilia. É inédita em livro.

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Rodrigo Melo

 

Foto: María Tudela

 

UM MOEDOR DE CARNE NO LUGAR DO CORAÇÃO

Ele se escorou no muro, acendeu um cigarro e por algum tempo apenas ficou por ali, olhando para a casa como se olhasse para um velho inimigo. Passavam das duas da manhã. De tempos em tempos um carro cruzava a rua e, a alguns metros, dois mendigos discutiam por causa de uma garrafa de corote. Por algum motivo, pensou na velha estrada margeada por brejos que levava até as serras, lá onde tinha crescido, e em como ela era íngreme e cheia de pedras em algumas partes. Mesmo hoje ninguém andava muito por ali.

A casa estava cercada pelo mato e uma trepadeira cobria a janela de um dos quartos. Quem passasse certamente imaginaria que ninguém mais vivia naquele lugar. Mas ele tocou a campainha e, não demorou muito, uma luz se acendeu lá dentro. Escutou os passos sobre o piso de tábuas. O branco do olho mágico ficou negro. E a porta se entreabriu.

– O que você quer? – a mulher perguntou com a cara amassada.

– A gente precisa conversar.

– Não quero que ninguém te veja aqui, vá embora. Não temos mais nada para conversar.

– Não soube do que aconteceu?

– Não, não soube. Que história é essa?

– Deixa eu entrar. Você vai gostar de saber.

– Que merda! – ela resmungou, tirando a corrente da porta e a abrindo.

Por dentro a casa parecia ainda pior. Os quadros tortos nas paredes rachadas e com teias de aranhas, os móveis empoeirados, o chão sujo. No ar, um cheiro entorpecedor, a mistura do mofo e de algo apodrecido. Talvez fosse o corpo de alguém. Sentou-se numa das poltronas da sala e uma pequena nuvem de poeira instantaneamente subiu, como se há tempos ninguém se sentasse ali. Ela estava de pé à sua frente, com os braços cruzados. Devia ter envelhecido uns vinte anos e engordado pelo menos quinze quilos. O rosto estava cheio de vincos.

– Diz logo.

– Posso fumar antes? – ele tirou o maço de cigarros do bolso da camisa. –  Se não for um incômodo.

Ela não respondeu. Ele acendeu o cigarro e tragou forte e lentamente, soltando a fumaça em seguida.

– Você está bem – ele falou. – Quer dizer, imaginei que estivesse pior. Ainda tem aquele olhar.

– O que é que você tem para me falar?

– Ah. Pensei que já soubesse. Não lê os jornais?

– Às vezes.

– Bem, saiu hoje no jornal da cidade. Estava lá, na penúltima página.

– O quê?

– Eles encerraram o caso. Nenhuma pista nova nos últimos anos. Crime sem solução.

Ela permaneceu alguns segundos calada, olhando para ele. Então se sentou, cruzou as pernas e acomodou os seus pesados braços sobre os braços empoeirados da poltrona.

– Nossa.

– É.

– Puxa, e todos aqueles interrogatórios, detectores de mentiras e o caralho a quatro, pra nada… Em alguns dias cheguei a pensar que não aguentaria…

– Eu também cheguei a me arrepender. Quando comecei a pensar.

Ela o encarou, e o seu rosto parecia bruto e indecifrável como naquele dia.

– Deixa eu te dizer uma coisa sobre arrependimento: não existe, sobre toda essa terra, um único filho da puta que se salve, que tenha o coração limpo. A não ser as crianças, claro. As crianças herdarão o reino dos céus. Tenho certeza disso. O resto não presta, são bichos soltos numa selva. E no meio dessa selva, aquele cretino foi o pior e mais impiedoso animal que já conheci. Não tinha alma, o desgraçado. No lugar do coração, carregava um moedor de carne enferrujado… Uma hora ele ia acabar me matando.

– Mas você foi mais esperta. Tem uma mente e tanto pra coisas assim.

– Que porcaria de conversa é essa? Você também ia receber a sua parte se o seguro pagasse.

Ele sorriu e um buraco negro abriu-se em um dos caninos.

– Não tem um café? Um daqueles. Pra gente brindar.

Enquanto esperava a água ferver, ela levou as mãos às costas e tirou da cintura o revolver 32 que pegara quando a campainha tocou. Girou o tambor e ficou olhando para ele, para as balas acomodadas ali dentro. Calculou que de alguma forma o passado sempre seria uma presença hostil. Mesmo agora, com aquela notícia no jornal. Ela sabia que nunca esqueceria das coisas que precisava esquecer. Pegou a lata de café e despejou três colheres no coador, depois colocou dois dedos de conhaque em cada copo.

Ele estava reclinado sobre a poltrona. Havia cruzado as pernas e fumava outro cigarro.

– Ele está em algum lugar aqui perto, não é? – perguntou assim que ela lhe entregou a xícara.

– Que importa?

– Eu sei. Já não faz diferença. Nunca fez. Mas é que às vezes eu ficava pensando. Acho que é por isso você nunca se mudou daqui.

– Está enganado.

– Estou? Sabia que sonho com ele todas as noites?

– Sério?

– Sim. Quase sempre estou aqui, no meio da sala, mas é ele quem tem a porra da arma na mão. E aponta pra mim e diz, “você precisa me dizer em que lugar ela me enterrou!…”, e então atira. E é nessa hora que eu acordo. Às vezes a gente está lá fora, no quintal, e ele vira pra mim e pergunta, “é aqui?”, e, como eu não sei responder, ele atira.

– Que besteira isso.

– Pode ser.

Os dois ficaram em silêncio. Havia uma espécie de fio invisível cruzando a sala, o fio que ainda ligava os dois. Uma década antes, à sombra de uma paixão, eles haviam tramado e executado a morte de um homem. Mas, jovem e inseguro, ele se assustou e o corpo ficou ali, no corredor que levava aos quartos. Nunca soube o que ela fez.

– Tem mais conhaque?

Ela foi até a cozinha e trouxe a garrafa.

– E agora? – ele perguntou.

– Agora o quê?

– Que vai fazer? Pode ir embora, se quiser. É o que pretendo. Já estou de saco cheio dessa bosta de lugar.

– Acho que vou ficar por aqui. Já me acostumei. E ninguém compraria esta casa.

Ele deu um gole no conhaque e pensou em acender outro cigarro, mas sabia que não poderia ficar por muito tempo. Olhou para ela e perguntou:

– Ele está no quintal, não é?

– Você é insistente. Não sei por que quer saber.

– Curiosidade. Sabe que mergulhei tão fundo quanto você.

– Está – ela respondeu. – Perto da cerca, bem embaixo da amendoeira. Está satisfeito?

– Perto da amendoeira?

– Sim. No lugar em que ele enterrou os cachorros.

Falou aquilo e achou engraçado, tanto que quase sorriu. Pensou que não enterrara apenas a ele, mas também a si. Os dois e os cachorros. Para sempre. Mas então havia aquela notícia no jornal, ela que lhe trouxe algum alívio. Enfim tinha a certeza de que acabaria ali, dentro daquela casa, cada vez mais só. Pensava nisso e também em como tudo aconteceu, no que veio depois, naquilo em que se transformou, quando de um instante para o outro a porta da sala veio abaixo e aqueles homens entraram, todos vestidos de preto, armados. E, instantaneamente, ela teve consciência de tudo – de que nunca houvera sonho ou notícia no jornal. Puxou o 32 da cintura e apontou para ele, ainda sentado no sofá. Encheria aquele filho da puta de balas, era o que merecia. Antes que atirasse, no entanto, levou três tiros, tombou para a frente e caiu morta no chão.

Eram quase quatro e meia da manhã e cinco ou seis homens cavavam a terra ao pé da amendoeira no quintal. Depois que lhe tiraram o pequeno microfone grudado com uma fita em seu peito, ele foi liberado. Não desapareça, um dos homens disse. Ele atravessou a rua e caminhou pelo passeio até a velha caminhonete estacionada do outro lado. O céu, completamente escuro quando havia chegado, agora tinha pequenos riscos cor de rosa e azul. Tornou a pensar na estrada que levava às serras e em como eram bonitas e iluminadas aquelas noites quando era somente um moleque. Quem sabe voltasse para lá. Era um bom lugar para recomeçar, assim como para desistir. E ele poderia ficar sentado numa varanda, observando as estrelas no céu, acompanhando-as mudarem de lugar. Apenas ele, o barulho dos grilos e um cachorro qualquer.

Ligou a caminhonete, conferiu se vinha algum outro carro e saiu.

 

Rodrigo Melo escreve prosa e poesia. Tem três livros publicados. Vive em Ilhéus, no sul da Bahia. Este conto foi publicado na coletânea “O outro lado da notícia” (editora @link), organização de Daniel Lopes e Marcia Barbieri.

 

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126ª Leva - 04/2018 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Arábia. Brasil. 2018.

 


 

Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans, foi o vencedor de melhor filme do Festival de Brasília de 2017. Chegou às salas brasileiras em 2018, com pouca divulgação. Trata-se de um dos melhores filmes da recente safra de cinema que, no entanto, teve pouca atenção do público.

O filme abre com a cena de um rapaz adolescente (interpretado por Murilo Caliari) dirigindo sua bicicleta na paisagem montanhosa de Minas Gerais, ao som de uma canção de rock de Steven Van Zandt. Em breve, vemos uma usina de mineração ao fundo. Ele se dirige à sua casa onde seu irmão mais novo o aguarda. Mais adiante, saberemos que esse irmão tem um problema de saúde e que ambos os irmãos estão com os pais distantes por um motivo desconhecido. Eles são visitados por uma tia que trabalha como enfermeira na empresa de mineração. Os irmãos, embora menores, moram aparentemente sozinhos.

A vida dessas crianças é misteriosa. Onde estão os pais? Por que as crianças moram sós? De que doença sofre o irmão mais novo? Ele tem tosse, talvez tenha a ver com a indústria de minério da região de Ouro Preto, onde se passam as cenas. Os espectadores começam a se interessar pela história intrigante. O problema é que a história sugerida pelas cenas iniciais não é o verdadeiro enredo do filme. Trata-se de um mcguffin, uma pista falsa. Talvez esse início de roteiro desse outro bom filme.

As cenas seguintes mostram a tia enfermeira atendendo um operário da usina que teve um desmaio e entrou em coma. Ela procura, mas não há registros de parentes. O operário parece não ter família. Ela pede ao sobrinho, o mesmo adolescente da primeira cena, que vá à casa dele buscar mudas de roupa. O jovem vai até lá e, ao procurar as roupas, se depara com um caderno manuscrito pelo qual se interessa. Ele senta e começa a ler. E é aí que finalmente o filme começa, com a cartela do título Arábia aparecendo na tela.

Com esse início tardio, o filme muda de registro e adquire uma narrativa em off em primeira pessoa. Quem narra dessa vez é Cristiano, vivido por Aristides de Sousa. Este é o verdadeiro protagonista de Arábia. Ele conta que, quando mais jovem, foi preso por envolvimento em drogas. Depois, já livre, trabalha em vários serviços em cidades diferentes do interior de Minas Gerais. Catador de mexerica, pedreiro, carregador de cimento, operário de construção civil de rodovia, operário de indústria têxtil e finalmente operário de mineração em Ouro Preto. Ele vai de cidade em cidade em Minas, travando contato com gente diferente, todos trabalhadores como ele. Os serviços em que trabalha são todos precários.

 

Cena do filme Arábia / Foto: divulgação

 

O filme lembra uma espécie de Grande Sertão, Veredas contemporâneo, só que as veredas são rodovias. Há menos poesia na fala de Cristiano do que de Riobaldo, no entanto, sua narrativa é simples, direta, franca e passa um grau de honestidade e verdade. Na verdade, sua narração lembra mais a de Irandhir Santos em Viajo porque preciso, Volto porque te amo, de Marcelo Gomes e Karim Ainouz. Toda a narração de Cristiano é acompanhada cena a cena, imagem a imagem pelo espectador. O filme se constrói por essa trama entre as imagens e a voz do narrador, cuja melancolia atravessa cada fotograma.

Na Indústria têxtil conhece Ana (Renata Cabral) com quem começa uma relação. Após um aborto natural, o casal se separa e Cristiano vai procurar trabalho na mineração. Na usina mineradora em Ouro Preto participa de um grupo de teatro, uma atividade cultural proporcionada pelo ambiente profissional, e é incentivado a contar histórias. É por isso que começa a escrever suas memórias nas notas manuscritas que estão sendo lidas pelo rapaz adolescente e cujas palavras compõem a narração que ouvimos na tela de cinema.

Por que o filme se chama Arábia apesar de se passar no interior mineiro? Não há uma indicação clara, mas há pistas. Por um lado, há a estrutura de uma narrativa dentro de outra, típica do modelo de As mil e uma noites. A história de Cristiano está dentro da história do rapaz adolescente que abre o filme. Assim, a história a que assistimos na tela, contada oralmente pela voz em off de Cristiano mimetiza uma narrativa oral no interior de uma narrativa visual. Como nas histórias de Xerazade, também somos atraídos para a narrativa do jovem trabalhador através do interesse na narrativa do jovem adolescente. Em nenhum momento, porém, o filme retornará à história original, de modo que esta última permanecerá um mistério não concluído.

Há também uma anedota contada por um dos personagens ao longo da história, um dos colegas de trabalho de Cristiano na construção civil. Em tom de piada, ele conta sobre um empresário árabe que veio ao Brasil atrás de mão de obra barata para uma construção. Ele seleciona alguns empregados para trabalharem no Oriente Médio. A viagem de avião para lá, no entanto, é obrigada a um pouso de emergência no meio do deserto do Saara. Ao descerem no deserto, os trabalhadores se assustam ao ver as dunas infinitas: com tanta areia, diz um deles, imaginem quando o cimento ficar pronto…

Essa anedota nos dá a dica sobre a atualidade urgente do filme dos diretores Uchoa e Dumans: trata-se de uma fábula cinematográfica sobre o ambiente de trabalho – explorado, extenuante, mal remunerado, precário – do Brasil contemporâneo. E que não oferece redenção, como o deserto não oferece fim.  Em tempos de uma brutal reforma trabalhista, que agravou um quadro de exploração laboral já presente, Arábia nos traz as imagens vivas desse contexto violento, desesperançado e deserto de humanidade. Nesse aspecto, esse filme da dupla de diretores se parece com Corpo elétrico, de Marcelo Caetano, que narra a história de trabalhadores de uma confecção de moda da cidade de São Paulo. O filme de Caetano, cujo título é tirado de um poema de Walt Whitman, é um filme sobre corpos eletricamente livres nos períodos de folga, mas encarcerados no ambiente de trabalho. Corpo Elétrico, ao contrário de Arábia, mostra como a alegria e o prazer desses corpos se contrapõem à experiência rotineira e banalizadora da violência da exploração do trabalho.

A narrativa de Cristiano é mais melancólica e afetiva e se mantém forte e comoventemente digna, embora sem uma alegria imediata. Ambos os filmes trazem as imagens das relações trabalhistas em mutação em um país periférico que está destruindo os fios frágeis da precária rede de proteção social que havia sido criada e no qual o trabalho está se tornando mais e mais apenas um meio de alienação, sofrimento e espoliação.

 

Cena do filme Arábia / Foto: divulgação

 

A trajetória melancólica de Cristiano é uma passagem da prisão à consciência, que chegará a um custo dolorido. Ele é, aliás, um personagem que, como o protagonista de Guimarães Rosa, faz de suas palavras um instrumento de autoconsciência. Se Riobaldo era um jagunço, Cristiano é um típico trabalhador precarizado, trafegando numa fronteira limítrofe entre o trabalho formal e o informal. Ele é, sobretudo, um viajante desenraizado. A trilha sonora de Raul Seixas (Cowboy fora da lei) ou os Racionais (Homem na estrada) ilustra a sua vocação de caminhante solitário em busca de sua própria verdade.

Arábia segue a linha de mistura entre o ficcional e o documentário e a ambivalência entre esses dois registros. A maioria dos personagens é vivida por não atores. As cenas de descanso da jornada são compartilhadas com verdadeiros trabalhadores em seus momentos de lazer e descontração. O próprio Aristides de Sousa, que já estava presente no filme anterior da dupla de diretores, é um ator semi-profissional. Essa ambivalência entre real e ficcional acentua um sentido, que não é apenas de verossimilhança, mas de vivência de um mundo comum, entre homens e mulheres comuns.

Assim, as palavras escritas trazem a voz e esta as memórias de um homem comum que chegara ao trabalho praticamente sem identidade e raízes. Sua narrativa corresponde a uma reconstrução da memória pessoal. Sua experiência amorosa com Ana, apesar de ser uma história de amor simples e comum entre um homem e uma mulher, guarda simbolicamente um sentido sublimatório e libertador. Num momento climático, como no poema Operário em construção, de Vinícius de Moraes, durante o trabalho industrial, Cristiano tem uma súbita iluminação, na qual ele adquire “a dimensão da poesia”, como dizia o poeta carioca em seu poema. No entanto, igual também aos versos, ele percebe que essa experiência poética é intransmissível e só o silêncio lhe resta.

O paradoxo está no fato de que, apesar de não poder dividir sua experiência com seus colegas, esta mesma é compartilhada com os espectadores do filme através de sua narrativa oral e visual. E também com o jovem que a lê no caderno manuscrito. Assim, Cristiano é também um “operário em construção” como no poema de Vinícius e também, como o personagem de outra canção de Chico Buarque, Construção, suas memórias, traduzidas em imagens e palavras, atrapalham o “tráfego” das coisas que correm em direção à ruína do país, em especial no mundo do trabalho. Feita da mesma matéria dos sonhos, a ficção-documental de Affonso Uchoa e João Dumans é um dos testemunhos mais definitivos da potência da arte que guarda o que resta da esperança em meio à catástrofe de uma nação em colapso.

 

 

Guilherme Preger (1966) é escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema lírica (Oito e Meio, 2014). É um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro coletâneas do coletivo. É mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Literária pela UERJ, com pesquisa sobre as relações entre ciência e literatura.

 

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126ª Leva - 04/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Matheus Guménin

 

Foto: María Tudela

 

INÚTIL

 

Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo
………………….[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio
…………………………. [e próprio

Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente

e essa vontade de amar.

 

 

 

***

 

 

 

o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

 

 

 

***

 

 

 

PRIMEIRO

 

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

 

 

 

***

 

 

 

CANTO DE DISSOLUÇÃO

 

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

 

 

 

***

 

 

 

CANTO APAZIGUADO

 

O que sobra das mãos são as sombras de gestos
que, já feitos, nos jazem nas mãos sepultados.

O que sobra de olhares: o breve relance
que, de breve, se perde entre o feito e o lembrado.

O que resta de risos são luzes de dentes
entrevistos por entre a cortina do lábio.

O que resta da vida é a vida que fica
e ficando é que parte ao eterno adiado.

 

 

 

***

 

 

 

POEMA EXTREMO

 

Pega na mão a pedra
pega na mão a cadeira
pega na mão o pão
mesa escada copo d’água
pega
puxa pro lado
………………………..e descobre ali

a poesia.

 

 

Matheus Guménin Barreto (1992) é um poeta e tradutor brasileiro. Nascido em Cuiabá, é doutorando da USP. Estudou também na Universität Heidelberg. Traduziu Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. É autor dos livros de poemas “A máquina de carregar nadas” (2017, 7Letras) e “Poemas em torno do chão & Primeiros poemas” (2018, Carlini & Caniato, no prelo). Foi publicado no Brasil e em Portugal (Escamandro, plaquete do “Vozes, Versos”, Enfermaria 6, Revista Escriva e Diário de Cuiabá; entre outros). É um dos editores do site cultural mato-grossense Ruído Manifesto e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

 

 

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126ª Leva - 04/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Copa do Mundo de Futebol na Rússia, 06 de julho de 2018. Nas quartas de final, o Brasil é eliminado pela Bélgica, pelo placar de 2 a 1. Agora imagine uma outra situação. Aos 48 minutos do segundo tempo, a atacante Roberto Firmino é derrubado na pequena área. Com o auxílio do VAR, o árbitro sérvio marca a falta. Neymar, então, pega a bola e se encaminha para a marca do pênalti. Se fizer o gol, a seleção brasileira empata e segue viva na prorrogação. Se perder, o Brasil volta para casa, desmoralizado. O craque do PSG se concentra, mas antes de decidir em qual canto chutar a bola, vem à sua mente as intermináveis chacotas, as memes escarnecedores, o apelido de eterno cai-cai. Será que vale a pena fazer o gol para o país que o trata com tamanha zombaria ou agora é o momento de dar o troco?

Tomando as devidas proporções, Saúva, o protagonista de “A cobrança”, primeiro romance do pernambucano Mário Rodrigues, passa por um dilema parecido. O cenário é o mesmo: a Copa do Mundo de Futebol na Rússia. Na final entre Brasil e Alemanha, o capitão da seleção brasileira está diante da marca do pênalti, que poderá dar o hexacampeonato ao escrete canarinho. Ocorre que o jogador, de origem humilde, com a infância marcada pela pobreza extrema e por traumas familiares, nunca foi bem tratado por esse país que agora depende de apenas um chute certeiro para alcançar a glória. Está aí, portanto, a chance de ele se vingar da pátria (nada) amada, Brasil.

Ao contrário do que se disse por aí, Mário Rodrigues, sim, usa do futebol para se falar de política. Mostra os efeitos da corrupção no alto escalão e nas profundezas mais ordinárias. Os governos que se alternam sem nunca, de fato, mudar o quadro das mazelas sociais, dos marginalizados, dos abandonados de tudo. Dividido em três eixos narrativos, o romance se constrói dentro da história mental de seu protagonista. O menino moldado pela miséria, por abusos e ausências, que acompanhou o pai ser quebrado pela Era Collor e, agora, enquanto aguarda o árbitro autorizar a cobrança do pênalti, avalia se conceder a vitória seria justo ante tudo que passou, ante o que ainda passam milhares de brasileiros.

Na entrevista a seguir, o autor, cuja obra de estreia conquistou o Prêmio Sesc de Literatura, revela os bastidores de seu livro. O processo criativo, as motivações, a influência do famigerado 7 a 1 e o interesse em tratar o futebol em sua vocação metafórica e como instrumento para se deslindar os contrastes que configuram a sociedade brasileira. Com mesma incisão e clareza, Mário Rodrigues ainda fala sobre mercado literário, prêmios, educação, leitores, literatura nordestina e o ofício da escrita. “Em países periféricos como o nosso, ser escritor é uma afronta. Uma excrescência. Uma aberração”. Pelo visto, não só Saúva vive um dilema.

 

Mário Rodrigues / Foto: arquivo pessoal

 

DIVERSOS AFINS – “A cobrança” se passa durante a partida final de uma Copa do Mundo, na Rússia; exatamente como acabamos de presenciar nos últimos dias. Como nasceu a ideia para a construção do livro? Houve um planejamento para que estivesse pronto e fosse lançado juntamente ao mundial?

MÁRIO RODRIGUES – Sempre apreciei o esporte. É também do meu interesse a relação do futebol com a sociedade brasileira, como marca relevante de nossa construção social e cultural. Após a Copa do Mundo de 2014, a mim ficou patente que uma página significativa foi virada nessa relação entre a seleção, como herança cultural, e o povo brasileiro. Era algo gestado já há um bom tempo com a expatriação muito cedo de nossos bons jogadores, criando um abismo de interesse entre os torcedores e os atletas. Uma torcida sem empatia, sem reconhecimentos. Porém, o que aconteceu em 2014, com os 7 a 1, foi mais profundo. Há duas rupturas ali: a seleção brasileira se afastou em definitivo (não do torcedor iniciado, com este isso já ocorrera), mas, sobretudo, se alienou daquele torcedor ocasional, o típico torcedor de Copa do Mundo. Nossas avós, que só assistiam aos jogos da Copa, mesmo elas perderam a sintonia com a equipe. Além disso, o próprio jogo mostrou que, sim, éramos vulneráveis, vencíveis – e vencíveis com grau de humilhação inédito. A Copa de 2014 partiu a relação entre povo e a seleção. O futebol saiu do campo cultural e social para ser um fator meramente esportivo: isso é significativo em excesso como dado histórico. “A cobrança” tem a pretensão de capturar esse momento. Com uma diferença: como se fosse um movimento de dentro para fora. Que a ruptura ficasse latente a partir do campo de jogo e se dispersasse pela vida pública. E que no ponto mais sensível do esporte – uma disputa de pênaltis na grande final – nós pudéssemos refletir sobre o aspecto mais íntimo desta relação: querer cortá-la. O livro ficou pronto em meados de 2017, o que tornou viável sua publicação em 2018, no primeiro semestre. Claro que comercialmente seria interessante essa data, pois aproveitaria o fluxo da Copa. Foi isso que fizemos. Obviamente, porém, há o desejo de que a força dessa história extrapole esse período. As leituras que vêm sendo feitas me deixam muito feliz. Percebo que o livro levanta várias questões pertinentes e aponta para inúmeros destinos – o que provavelmente lhe dará uma vida útil para além do período de Copa.

 

DA – No seu livro, temos um jogador de futebol brasileiro diante de um dilema. Se fizer o gol de pênalti, ele dará o hexacampeonato ao Brasil; se perder o pênalti, ele se vingará do país que virou as costas para ele durante toda a vida. Na sua opinião, qual a melhor leitura para esse drama? A maneira realista ou a alegórica?

MÁRIO RODRIGUES – É de Nelson Rodrigues a famosa tirada: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”. Imaginemos, portanto, a final de uma Copa do Mundo disputada com penalidades máximas – seria o auge dessa dramaticidade. O livro trabalha com um olhar muito próximo, sobretudo na caminhada do jogador até a marca do pênalti. Cada detalhe – gramado, braçadeira, bola – vai ganhando ressonância. Detalhes trabalhados, às vezes, de modo claustrofóbico. Isso, pretendo, dá uma dimensão quase palpável e real daqueles passos. Mas, como se espera da literatura, a alta, esse cenário é feito para acessar outras instâncias da história de Saúva e da experiência do leitor. No fundo, o jogador que tem que tomar a decisão de se vingar do seu país ou não. É metáfora sobre cada um de nós e sobre todos nós. Dentre as várias caminhadas, como humanos e cidadãos, essa alegoria nos é oferecida: o prazer egoísta da vingança – mesmo justificada – está acima do bem estar coletivo (mesmo que este seja ilusório e não reconhecido)? No país que herdamos, é justo basearmos nossas escolhas e nossas éticas pessoais na vantagem individual ou ainda há espaço para pensarmos na coletividade? Um único momento de glória pode justificar a vida de um homem e um único momento de vingança poderia ter o mesmo efeito?

E um último reflexo: não estamos nós, a cada dia, diante deste mesmo pênalti? É no meio dessas angústias que encontramos Saúva. Diferente dele, porém, não estamos acompanhados por bilhões de espectadores. Estamos sozinhos.

 

DA – A partida em que se ambienta a história é uma final de campeonato mundial entre Brasil e Alemanha. A escolha do adversário tem a ver com o famigerado 7 a 1, que tomamos na Copa de 2014? E como você desconstrói aquele resultado, sabendo hoje de toda a corrupção que envolveu a preparação daquele evento?

MÁRIO RODRIGUES – Na verdade, vejo a Alemanha como o grande rival futebolístico do Brasil (mais do que a Itália – e nem cito a rivalidade com a Argentina tão artificialmente forjada pela Rede Globo). Em números de conquistas e participações, em quantidade de gols marcados, em história, em peso de camisa, são essas as grandes potências. Mas há algo além: a espécie de jogo, a forma como se pratica o futebol. As escolas. Mesmo os alemães tendo nos últimos anos se aproximado de um futebol mais suave, é impossível fugir do próprio DNA. Sintetizando: o futebol alemão é o método; o nosso, improviso. São opções estéticas, as duas melhores já feitas nesse esporte. Mas é impossível fugir do 7 a 1. A maior vergonha da história do futebol. A possibilidade de uma catarse não poderia ser descartada. Como tudo no livro, todavia, é uma catarse módica, nos pênaltis. Mas só teria sentido contra a Alemanha, nosso algoz. Para o bem e para o mal, o esporte espelha a vida. Por mais que, com o tempo, os aspectos extracampo possam contribuir para certas explicações, é o resultado que fica para a história. Podemos pensar no acaso que foi o Brasil de 1982 perder para a Itália com três gols do corrupto Paolo Rossi; podemos pensar no craque Zico perdendo um pênalti em 1986, porque não estava plenamente recuperado de contusão; podemos pensar na água batizada que os argentinos deram a Branco na copa de 1990; e na misteriosa convulsão do “Fenômeno”, em 1998. Tudo isso, porém, orbita sem relevância diante do astro significativo: o placar e a eliminação. Por mais que o negócio futebol tenha se corrompido – e se corrompeu de modo imperdoável em todos os seus patamares –, o esporte continuará. E será efetivamente o que foi feito em campo que será lembrado. De modo que para sempre o 7 a 1 representará uma vergonha inapagável.

 

DA – O protagonista do seu livro é um jogador de futebol que teve uma infância miserável, como é comum a milhares de jogadores brasileiros que vieram dos espaços marginalizados das grandes cidades. Um menino ruivo, de apelido Saúva, com um drama familiar bem pesado, que encontrou na bola um instrumento de salvação. Como foi dar vida a este protagonista? Foi inspirado em aspectos da realidade ou é produto estritamente da ficção?

MÁRIO RODRIGUES – É preciso antes uma nota técnica. Em ficção, acredito que o personagem é essencial, tudo emana dele. É o personagem que dá vida à narrativa. Para que o argumento de “A cobrança” funcionasse, seria preciso um protagonista com várias especificidades. Não poderia ser um zagueiro-brucutu que daria um bico para fora na hora do pênalti nem tampouco o craque-instagram que daria uma cavadinha humilhando o goleiro desesperado. Deveria ser um volante: o elo entre a defesa e o ataque. A mais ambígua das posições do futebol: aquele que pode ser a síntese do que de mais fino já foi apresentado no futebol (Beckenbauer) com o que mais bruto foi apresentado (Dunga). Depois, entra a composição física: Saúva é ruivo. É um alienígena, um estranho no futebol brasileiro. Quantos atletas ruivos defenderam a seleção brasileira? Esse aspecto físico deixam inseguras nossas conclusões. Esse sujeito seria capaz de tudo. Além disso, Saúva é o capitão do time (a formiga que trabalha pela coletividade). A bússola moral. Guarda em si uma obrigação: ele é farol não pela técnica, mas pela seriedade, pela entrega que demonstra em campo. E é exatamente essa entrega que justifica qualquer atitude tomada por ele. Fiquei muito feliz com a maneira com que esse personagem descambou para as páginas. É difícil esquecê-lo e esquecer seu drama depois de habitar sua mente naqueles segundos que o levam ao pênalti, naquelas páginas que levam à cobrança. Porém, seria necessário que Saúva tivesse uma história que oferecesse verossimilhança às suas possíveis escolhas diante do goleiro alemão. Então, colocamos aquele menino em seu processo de formação – como dito: nem um pouco fácil. Entram aí a fabulação e a invenção, o caráter mesmo da literatura. Manusear como títeres aqueles infelizes personagens, o pai e a mãe, para que eles fornecessem a matéria humana complexa que gerou nosso capitão, Saúva. E, claro, minha posição preferida em campo, até hoje, é a de volante.

 

DA – A literatura ficcional brasileira tem um histórico de bons livros sobre futebol. Eu cito Nelson Rodrigues, Moacyr Scliar e Sérgio Sant’Anna, por exemplo, como grandes autores que se debruçaram sobre o tema. No caso da preparação de “A cobrança”, você chegou a criar uma bagagem bibliográfica para estruturar seu livro ou não precisou, pois imaginou o futebol mais como um dispositivo para dar forma ao seu enredo?

MÁRIO RODRIGUES – Minha relação com o futebol sempre foi muito próxima, tanto praticando quanto assistindo. Acho mesmo que há algo de especial, de superior, neste esporte. As mesmas palavras e impressões podem ser aplicadas à literatura. Acho mesmo que há algo especial nesta arte. De modo que livros sobre futebol – sobretudo de grandes autores – foram sempre um interesse meu. Além dos citados, ainda lembro com destaque de contos do Marcelo Moutinho, do Rubem Fonseca, o livro do Laub, os ensaios do Wisnik e do Hilário Franco. Assim, naturalmente, ao longo da minha formação de leitor, essa bagagem, de modo natural, vinha sendo montada. Essas leituras – embora prazerosas – pouco influenciaram na escrita efetiva de “A cobrança”. As maneiras como as engrenagens do livro foram dialogando pediam certas escolhas técnicas e formais muito específicas, exclusivas desta história.

 

Mário Rodrigues / Foto: arquivo pessoal

 

DA – No seu livro anterior, “Receita para se fazer um monstro”, os contos também tratam de personagens com infâncias fraturadas, convertidas numa fase de desarranjo emocional, de falhas e de crueldades sofridas e infligidas. Você consegue estabelecer uma ligação entre seus dois livros? E há, em seu estímulo criativo, uma preocupação permanente em dar voz a personagens marginalizados?

MÁRIO RODRIGUES – É do Paulo Mendes Campos aquele belo verso: “Sou restos do menino que passou”. Há também aquela frase-clichê do Brás Cubas: “O menino é o pai do homem.” É impossível fugir da infância – e lá estão receptáculos de boa parte da ficção que foi produzida. É para mim um espaço essencial à criação. Na minha biografia, há um dado que é importante. Tive infância sem traumas: família estruturada, lar sem violência, financeiramente sem pobreza extrema e sem riqueza ostentosa. Isso me deu, creio, o distanciamento necessário para pensar e refletir sobre as outras infâncias, alheias a minha. E que tipo de repercussão infâncias disfuncionais gerariam na alma e na índole e nas ações desses personagens quando na vida adulta. Tanto o protagonista sem nome do “Receita…” como o Saúva de “A cobrança” são resultados diretos de suas infâncias torpes – e que, agora, estão diante de momentos crucias de suas trajetórias. Há algo neles, contudo, que é muito caro a mim. Longe de qualquer tipo inescapável de determinismo, eles seguram as rédeas de suas vidas, de suas escolhas. Eles próprios asseguram que têm o poder de escolher, o prazer e o ódio lhes pertencem, a responsabilidade é deles – e não fogem disso. Esses seres humanos no limiar de suas decisões me interessam. E acho que devem interessar à literatura. Nesse ponto, os livros dialogam muito. A literatura é a maior lente de aumento que existe: não dá para desperdiçar essa ferramenta – mesmo, como se sabe, tendo ela perdido relevância social no último século. Acho enfadonha essa literatura ensimesmada que vem sendo feita no Brasil (uma ressalva: feita e incensada; porque há outra literatura, fortíssima, pujante e original – e que passa ao largo desse patético mainstream literário brasileiro). Então, realmente, não me ocupo com escritores-personagens que passam uma temporada macambúzia em Paris e acham que isso é matéria de interesse para a literatura e leitores. O abismo é o que me interessa.

 

DA – Embora tenha esse apelo do futebol, seu livro problematiza alguns assuntos sempre atuais acerca do contexto social brasileiro, como a pobreza, o descaso total do Estado, a corrupção, a ineficiência dos mecanismos de serviço público. Você é a favor do uso da literatura como veículo de denúncia? Acredita que, por fatores que estão além do pendor artístico-criativo, falta engajamento para grande parte dos autores brasileiros?

MÁRIO RODRIGUES – Em primeiro lugar devo dizer que não há nada de errado em um autor ter consciência política. Aliás, o ideal é que ele a tenha e seja ético e coerente com a defesa da mesma. Militante até, se for o caso. O Rubem Figueiredo diz taxativo: “A literatura é política”, algo que endosso. E mais: uma obra literária pode mudar (antes mais do que hoje, em virtude do esvaziamento social do discurso literário) os paradigmas de um povo. Vejamos a obra de Graciliano Ramos, meu escritor favorito. Vejamos a foto do García Lorca recitando poemas contra os fascistas que o fuzilariam: é das coisas mais forte feitas por um ser humano. Porém, é preciso cuidado: uma vez eu (escritor) descobrindo uma demanda social, a necessidade de um determinado grupo de pressão, uma vez determinada uma pauta politicamente correta, então eu (escritor) montaria uma obra ficcional para afagar esses nichos e por eles ser aceito e endeusado e reconhecido e a partir daí ter minha literatura (duvidosa) apreciada e circulante. Isso é falho. Já o é do ponto de vista estético, do ponto de vista ético é um acinte. Ocorre que, na minha concepção de arte, a literatura está acima, não necessariamente dissociada, mas acima de discussões e contingências políticas. A literatura é maior, simples assim. Como Goya, na Espanha deflagrada, que colocou sua arte acima da politicagem. E, no entanto, será “Os desastres da guerra” o testemunho mais visceral e pungente de sua época e a crítica interminável dos desmandos dos poderosos. “A cobrança” não é um livro pusilânime. É livro corajoso. Que não se esconde do zeitgeist em que vivemos. Mas eu não aponto caminhos em minha literatura. Proselitismos. Não há didatismo, beletrismo e autoajuda. Minha obra é labirinto. Joga o leitor nos canais e corredores. Há a direita e há a esquerda e há o centro. E, neste labirinto, está Astério, o minotauro.  Se você vai escapar dali com um fio de ouro na mão e a lâmina banhada pelo sangue antropobovino ou se terá seus fatos eviscerados pelos chifres pontudos do boi-real é, mais do que escolha, competência de cada leitor.

 

DA – Estamos num ano interessante, em que tivemos uma Copa do Mundo de Futebol seguida de uma eleição para a presidência do Brasil. Nos anos 70, no auge da ditadura, a conquista do campeonato mundial foi intensamente utilizada como peça de propaganda pelos militares. Traçando um paralelo com seu livro, qual o perigo que o futebol pode oferecer quando visto sob o prisma político? E parafraseando Nelson Rodrigues, futebol é mesmo o ópio do povo brasileiro?

MÁRIO RODRIGUES – O poder de penetração emotiva na alma coletiva de um povo que o esporte possui já foi inúmeras vezes aventado e aplicado. Vejamos, por exemplo, Mandela e o rúgbi na África do Sul pós-apartheid, os panteras negras nas Olimpíadas de 1968 e ainda Muhammad Ali. É dado da natureza, também, que autoridades se apropriem disso para adaptá-lo a seus discursos, sejam eles nacionalistas, partidárias, xenofóbicos etc. Capitalizar em cima de vitórias esportivas é algo a sempre ficarmos atentos. A Copa de 1970 foi emblemática nesse sentido, sobretudo quando lembramos que Médici realmente gostava de futebol e entendia de seus meandros. Porém, esse perigo já foi mais real. Hoje, como disse, a relação do brasileiro comum com o futebol mudou sobremaneira. Durante a Copa da Rússia, poucas ruas foram decoradas com as cores da seleção; houve alunos meus (portanto, a nova geração) que perguntaram por que não haver aula durante o jogo da seleção brasileira? O número de pessoas realmente apaixonadas pelo futebol, aquele futebol do dia a dia, no Brasil, é relativamente pequeno. Mesmo um hexacampeonato terá pouca influência nos caminhos políticos da nação. Como Saúva, será a revolta íntima e individual, somada às revoltas de cada um, a única força transformadora deste país, se a apatia não nos vencer a todos. A metáfora do Nelson envelheceu. Assim como o ópio e a heroína deram lugar a outras drogas, o que nos aliena hoje, como povo, já não é mais o esporte.

 

DA – Com o seu primeiro livro, você conquistou o Prêmio Sesc de Literatura, na categoria Contos. Diante da realidade do mercado literário brasileiro, qual o maior benefício de se ganhar um prêmio de literatura e qual a maior ilusão que um autor premiado pode ter? 

MÁRIO RODRIGUES – Sou um defensor e admirador ferrenho do Prêmio Sesc, antes mesmo de tê-lo conquistado. É a maior iniciativa para os escritores iniciantes da literatura brasileira. O Henrique Rodrigues e o Fred Girauta, que encabeçam o projeto, são dois sujeitos que tenho na mais alta admiração pelo belo trabalho que fazem, pelos nomes que têm revelado, pelos livros que surgiram a partir desse prêmio. E, claro, faço menção à Editora Record, que acreditou no projeto lá nos idos de 2003. O prêmio se bifurca em dois grandes benefícios. Primeiro, o selo de uma grande editora. Embora isso não chancele sua obra em relação a você mesmo (afinal, subtende-se que um escritor deva ter a autocrítica necessária para saber quando seu trabalho tem força ou quando é franco, sem necessidade de chancelas externas), impressiona a maneira diferenciada como o mercado, os leitores e a mídia veem um livro publicado por uma grande editora. E inevitavelmente isso abra portas – falando de maneira madura, é uma mudança de patamar para o escritor (volto a dizer: não uma mudança de seu talento, mas da visibilidade que esse possível talento recebe). O outro benefício: o circuito que o Sesc faz com os ganhadores, estes participando de palestras e mesas pelo Brasil afora: a quantidade de pessoas com quem você dialoga neste ano que compreende o prêmio é incrível. Aprende-se muito. Alguns funcionários do Sesc são artistas brilhantes e o convívio com eles é muito interessante. E há o contato com os leitores. Pessoas que efetivamente leram seu livro, sem o ranço intelectualóide de certas leituras. Leram pelo prazer da imersão em um personagem e em um mundo, seu mundo e seu personagem. É sempre uma troca muito rica. Por exemplo: tive a honra de participar em Paraty de um clube de leitores – pessoas que leram e debateram meu livro durante um mês e, no final do período, fui até eles para conversarmos sobre a obra. Imagine-se a quantidade de coisas que descobri sobre meu próprio livro… além disso, fizeram aqui em Pernambuco uma amostra de teatro onde as histórias do “Receita…” foram encenadas e então vi o personagem pular das páginas –  sem dúvida, experiências que não têm preço. Sem o Prêmio Sesc, simplesmente elas não iriam existir. Quanto à principal ilusão: acredito que tudo decorre de uma visão equivocada sobre o ofício de escrever e sobre o mercado literário. Alguns escritores colocam o ofício no mundo do showbizz, encarando a si mesmo como popstar, uma diva. Esperam camarotes com infinitas toalhas brancas, paparazzi, contas milionárias: é a paulo-coelhização da literatura. Não é por aí que a escrita caminha. A literatura é a confecção lenta e silenciosa de uma obra. É o principal patrimônio de um escritor. O prêmio, seja ele pecuniário e de outra ordem (dar visibilidade), é apenas um incentivo, por vezes módico, para que essa obra seja construída. Aparecer na TV, ser popular no Facebook, frequentar certa cena literária, coisas que prêmios proporcionam, não devem ser nunca a razão de ser de um escritor. E não é. A vela do escritório de Flaubert servindo na madrugada de pequeno farol para os barcos de Rouen é o melhor símbolo para um escritor.

 

DIVERSOS AFINS – Ainda em relação ao prêmio, você é um autor do Nordeste do país, que atingiu visibilidade nacional em razão de o seu livro ter sido publicado por um grande grupo editorial. Olhando com distância essa realidade, você acredita que teria chance de publicação com tamanha amplitude, caso não tivesse sido premiado? Ainda é necessário o autor estar no eixo Rio-São Paulo para que seu trabalho consiga ser enxergado?

MÁRIO RODRIGUES – Não. Não haveria a menor chance de publicar por uma grande casa editorial sem o caminho aberto pelo Prêmio Sesc. Não é que o mercado literário brasileiro seja fechado. É simples: não existe efetivamente o mercado literário no Brasil. Ninguém está interessado em descobrir o grande romance brasileiro. Naturalmente, existem os autores estabelecidos que interessam às casas editoriais (mesmo que seus livros atuais não tenham nenhum valor efetivo) e outros autores novos que, por um motivo ou outro (um agente literário mais influente ou se enquadram em certos nichos de cor, opção sexual e classificação social-financeira), fazem parte desses portfólios. Mas uma política de fomento à nova literatura não existe. Tornou-se muito fácil no Brasil imprimir um livro, mas publicar um livro é das coisas mais difíceis. Explico: contratar um serviço de uma gráfica ou de uma gráfica camuflada de editora é fácil. Mas o escoamento desse material é sempre muito angustiante. É o momento em que se percebe que você não tornou pública sua obra, não houve a publicação. Você apenas imprimiu seu texto. Estar no eixo Rio-São Paulo também não ajuda muito. Com minha personalidade, se eu morasse em Ipanema ou nos Jardins, no Complexo do Alemão ou em Itaquera, não publicaria meus livros senão através de um prêmio como o Sesc. A mera situação geográfica não ajudaria em nada. O que ajuda – e agora nós entraremos num terreno mais capcioso – é o que chamam, termo horrível, de network, sua rede de trabalho. É você estar disposto a fazer o jogo. Como se diz no esporte: “Jogo é jogado, lambari é pescado.” Se o sujeito estiver disposto a mendigar amizade de grupelhos de escritores com certa influência sobre certos grupelhos de editores, paparicá-los em oficinas literárias pagas ou acompanhá-los em eventos esvaziados de público nos quais eles participam e ser aquele seguidor ferrenho em suas redes sociais, forjar talvez uma amizade artificial (ambos sabendo dessa artificialidade), o sujeito assim pode receber, um belo dia, algum tipo de convite, uma inserção no famigerado mundo literário. Mas é preciso ter a índole necessária para isso. Nem todos têm. Eu não tenho. Grupelhos autorreferentes são aquela imagem do Paul Auster: a fachada bonita de um castelo, mas quando você se aproxima é de papelão. Ao atravessar a fachada, não há nada lá.

 

Mário Rodrigues / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Você trabalha com escrita e literatura, ensinando redação para adolescentes. Constantemente, pesquisas dão conta de um número ainda inexpressivo de brasileiros que leem ou mesmo que se envolvem com a literatura na condição de hábito e de lazer. Da sua experiência diária, como enxerga esse panorama? Os jovens estão lendo de fato, demonstrando interesse pela literatura, ou ainda estamos longe de uma geração efetivamente de leitores?

MÁRIO RODRIGUES – A resposta varia. Meus alunos são bons leitores. É comum vê-los com livros nas mãos – mas é preciso fazer um recorte específico. Acabo dando aula, na maioria das vezes, para alunos de certa classe social mais privilegiada, onde o acesso ao livro não é algo exótico, poderia dizer que é algo natural. Há livros no seu cursinho em abundância e disponibilidade, há livros em casa. Os pais têm condições, se os meninos assim quiserem, de bancar a aquisição de livros para que seus filhos os leiam. Porém, mesmo nesse caso raro, a literatura consumida é muito específica. Não há aí nenhuma crítica, mas são séries superficiais e há pouquíssima transição dessa literatura para algo mais apurado artisticamente ou temas mais sofisticados e camadas mais profundas. Em resumo, há um momento em que o jovem perde esse ímpeto leitor. O papel do professor é fazer essa ponte. Muitas vezes, contudo, os josés de alencar inviabilizam o diálogo e a sensibilidade dos jovens leitores com o potencial da literatura. O professor atento faz a mediação, ganha leitores. Mas há poucos desses professores. Saindo desse nicho socialmente privilegiado, a situação é díspar. É deprimente. Não teremos uma geração de leitores. O livro é inacessível para a maioria dos jovens brasileiros. Os poucos que têm acessos a eles não têm o nível de leitura capaz de lhes fornecer a abstração. Não há leitura: há decodificação de letras e fonemas, apenas. Existe uma luta, em boa parte da nossa sociedade, pela sobrevivência imediata. Nesse mundo, o livro e a literatura não são realidades distantes, são realidades inexistentes.

 

DA – A educação está na literatura na mesma proporção que a literatura está na educação?

MÁRIO RODRIGUES – Infelizmente, não. Há muito pouca literatura na educação. De modo geral, as aulas de literatura são sucateadas, mecânicas, decorebas. O currículo escolar é anacrônico, e não adaptado às necessidades etárias e de maturidade dos alunos. Parece mesmo que a literatura na educação, na escola, é forjada de tal modo a afastar leitores. Nos vestibulares e no Enem, que poderiam servir como farol para o que é feito em sala de aula, cada vez mais a literatura se encontra subalterna – mesmo em provas essencialmente de interpretação de texto. Nestas, textos técnicos, científicos e jornalísticos predominam. É realidade: a literatura está esvaziada – e a escola reflete a sociedade (não o contrário). A visão jesuítica de educação, que não estimulava a criatividade e apenas a apreensão nos fez muito mal. E literatura é criatividade. Por outro lado, quanta educação e quanto ensinamento guarda um bom texto literário! Quanto a literatura nos educa! Como pessoas, como cidadãos, como críticos. Como transformadores de uma realidade individual e, quiçá, social. Milton Hatoum: “Se não fosse a literatura, eu seria um bobalhão” – é uma verdade. Não há forma melhor de aprender sobre o Norte deste país do que num livro como “Eu receberia a pior notícias dos seus lindos lábios”, de Marçal Aquino, nem sobre o Nordeste num livro como “Emissários do Diabo”, de Gilvan Lemos. Como não aprender tudo sobre a sombra do nazismo depois de ler Bruno Schulz e sobre a colonização da África depois de “O coração das trevas”? O paraíso é uma espécie de biblioteca, diz o poeta. Mas não podemos obrigar ninguém a entrar nele.

 

DA – Muito se fala do esporte, entre os quais o futebol, como ferramenta elementar para oferecer um futuro melhor para crianças oriundas de comunidades de baixa renda, em muitos casos dominadas pelo crime. Na sua opinião, a literatura pode ter ou tem esse mesmo poder de transformação social?

MÁRIO RODRIGUES – Em teoria, sim; na prática, não. A literatura perdeu sua função social (não quer dizer que um dia, no futuro, não possa ser reconquistada, embora não acredite nisso). Ela interessará cada vez mais a um grupo menor de pessoas. Imaginemos a matemática e o xadrez, ramos do conhecimento apaixonantes, mas deslocados da realidade, embora sideradores de grupos específicos. Este é o futuro da literatura: tornar-se cada vez mais o conhecimento de um grupo, uma seita de iniciados. Há, inclusive, quem defenda que a literatura só sobreviverá assim. Se arvorar a um papel de transformadora dos hábitos sociais e culturais, é erro. O viço estaria exatamente em sua introspecção. Não há lamento nessa visão. Perdemos muitas oportunidades. Afunilando para o Brasil, em vários anos de relativa estabilidade econômica e política, não soubemos transferir para a educação o protagonismo. Preferimos consumir celulares em vez de cultura, bibelôs em lugar de livros… Poderíamos estar vendo, agora, a aurora de uma nova geração leitora, crítica e consciente, mas observamos o nascer de pensamentos ainda mais retrógrados. É o preço que pagamos. Há livros transformadores. Mas estão lacrados, perdidos em alguma prateleira empoeirada de raríssimas bibliotecas públicas – que nunca estão abertas.

 

DA – No Brasil, é mais fácil ser escritor ou jogador de futebol? 

MÁRIO RODRIGUES – Houve tempo em que ser jogador de futebol era coisa de malandro, de vagabundo, de quem não queria trabalhar. Hoje, essa visão mudou radicalmente. Há pais que fazem disso a meta de vida de seus filhos, mesmo antes destes aprenderem a caminhar direito. O irmão do Ronaldinho e o pai do Neymar são prova disso. De modo que difícil mesmo é ser escritor. Em países periféricos como o nosso (mas isso acontece em menor grau em várias partes do mundo), ser escritor é uma afronta. Uma excrescência. Uma aberração. Meu amigo (e um dos melhores contistas em atividade no país), Nivaldo Tenório, tem uma imagem perfeita: o escritor está em seu escritório compondo o livro que vai mudar a literatura brasileira, então a mulher o recorda de que é preciso limpar as bostas do cachorro no quintal. A literatura é menos importante do que as fezes a serem recolhidas. Ser escritor, no Brasil, é tentar compor uma obra, mesmo rodeado de fezes.

 

DA – Se você estivesse no lugar de Saúva, marcaria ou perderia o pênalti? Por quê?

MÁRIO RODRIGUES – Eu perderia o pênalti. Pois quem não reage, rasteja.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

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126ª Leva - 04/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Rita Santana

 

Foto: María Tudela

 

ANDORINHA

 

As andorinhas existem!
Saíram das páginas do livro
E resolveram viver
Nas alvenarias
Do invisível.

Mas a tua ausência dentro de mim é puríssima dor.
Não há voo que dissipe minha esperança.
Nem vento, nem rosa, nem crença
Que suavize a melancolia parasita nos ossos.

Alheios desejos nos levaram
Para ilhas opostas:
Tu foste para Creta.
Eu, para o Crato.
E do anonimato dos dias
Tenho feito poesia secreta
E prosadura.

 

 

 

***

 

 

 

CÂNHAMO

 

O tempo envelhece o telhado
E desola os meus ovários.
Teço cânhamo em São Luís.
Teço o dia inteiro,
Teço a noite inteira,
Teço em todas as horas do meu dia
O tecido que não vestirei.

Invado rios em busca
Das dunas e me acanho diante
Do teu nome de assombros
Diante da tua boca de veleiros
Que não me deixa falar
Diante da tua presença
Que não me deixa existir.

Minha terra tem buritis
E no meu coração
Há um curso de cicios silenciados.
Discursos emudecidos.

Há emaranhados de maranhões em mim.

 

 

 

***

 

 

 

LANGOR

 

Há sol demais na paisagem.
Moinhos de vento
Atormentam meu dia.
O casario recolheu o rutilar
Da minha vontade,
E eu, à sombra, deitei minha vocação
De campesina.

Minha boca pede água,
Somente meus pés pedem língua.
Tenho cansaço nas veias
De tanto deixar tecidos
Soltos no caminho.

Pescoço dança violoncelo,
Cintura requebra em violinos,
O meu vagar já é tão certo
Quanto a infelicidade dos dezembros.

Vem! Rega meu baixo ventre
Com aquilo que, em ti, é abundância.
Mas não venhas com esperas!
Estou mole, mole.
Quero abrir-me as pernas ao vento.

 

 

 

***

 

 

 

RECEPTÁCULO DA BONDADE

 

A minha infelicidade vem da tua casa à beira-mar
Vendo-me correr o meu vagar pela praia.
Sei da tua ausência pelo cheiro,
Pela falta de vida nas ondas.
Eu, cega em antigas saídas da alma,
Não quero meus textos frouxos na tua película
De vinhática virilidade servil.
Tampouco quero o teu francês na minha língua,
Tramando aturdimentos.

Não quero a tua delicadeza fingida
Dedilhando minha vagina expressionista.
Bem certa estou de que tu és
O delator dos meus delitos.

Não quero o teu anel roçando
O meu desejo lírico com promessas,
Nem profecias proféticas
De outra vez amar,
Amar o mar da nossa terra.

Não quero meu livro de versos íntimos
Entre teus dedos,
Imunes à eternidade das ostras negras,
E aos lírios lilases do meu quintal.
Nem quero saber dos teus dias de suntuosidade,
Durante a minha ausência paladina.

Sou a mulher por quem a tua esfinge procura
Nos pesadelos cheios de gozo e fortuna de afeto.
Sou toda brusquidão e rudezas de amor,
E rezo por nós dois à toa, sem estações,
Sem toadas nem eras, nem bolos de carimã.

Quero pousar no teu dia vez ou outra
Para assoprar tua gravata,
E desatar os nós do teu sapato lustroso.

És bárbaro,
Na arrogância dos diamantes
Que escapam do teu palato duro.
Deixa-me dormir em paz!
Sem que interrompas o meu sono
De exaustão operária.
Dez horas depois,
Está a acariciar meu sono de menina eterna,
Ao som da tua desgraça de poeta sem portas,
Sem machados nem cancelas.

Quero ofertar minhas soluções e meus soluços
À face do que em ti é Absoluto e é Eterno.
À face do que em ti é Amatividade e Amavios.
Apesar das derrocadas, das implosões,
E dos mistérios escolásticos da penitência.
Quero, hoje, ter saudade de qualquer vertigem
Que tenha sido nossa,
Qualquer ilusão
Que tenha saído da tua honradez absoluta
De macho curioso por meu mutismo.

O meu pai morreu sem te ter à mesa
Ofertando ao velho a minha condição de ser tua,
E de querer de mim o meu grande ventre
De mulher bem parideira e fazedora de sonhos.

Deixa-me dormir nas calçadas,
Sem teu ódio vencido
De macho traído
Mil vezes por esta fêmea que te adora.
E que por isso busca em teus pares
Relíquias do teu cheiro.
Busca em teus pares a tua pele nobre de rei etíope.
Busca, na verve dos teus discípulos,
Vestígios de tua fome sobre o meu corpo exausto.
Por isso, busco nos teus consanguíneos
Alguma razão para o caos da tua inapetência
Diante dos meus propósitos de mulher.

Eu, este receptáculo da Bondade.

 

 

 

***

 

 

 

BÊNÇÃO

 

Apeio o peito sobre a saudade que arde a carne,
Sem consolo possível no solo das desesperanças.
Herdei de meu pai pujanças, bravezas,
E de minha mãe a fragilidade animal das fêmeas.
Por isso tenho tudo!
Posso despregar o afeto como macho cansado faz,
Posso abandonar as armas, trêmula, porque morro.
Tenho grandes, pequenos e verdes medos,
Sou mulher de agora, de hoje,
Tenho hábitos de galo e caprichos de galinha.
Falta o dicionário farto em suas doações doces de fonemas,
De raízes, arcaicas presenças de verbo.
Doarei o dia à paz, ao abandono das preocupações.
Tratarei da poesia, minha parceira de demolições e alvenarias.
Quem me dera só ser, sem bruscas mutações,
Mas o corpo oscila na regularidade do ciclo.
Endoideço alguns dias porque virá a sangria
E entrarei no templo das penitências,
Fitando meu Deus com acusações humanas.
Sou esse fruto peco das diásporas,
Minha veemência é minha mordaça,
Assim têm sido meus dias de santa, casta, pacata,
Senhora de um Deus-homem.
Desacato porque sorvo substantivos, substâncias,
Essências de nomes, dores, fantasias.
Desacato porque sou poeta.
Tenho língua de fontelas, hildas.
Sou muito brava para donos
E afeita a clamores de desprotegidos.
Tenho tudo sob meu viaduto-castelo.
Sou rata e rainha.

 

 

 

***

 

 

 

LIVRO

 

Lanço-te, marujo!
Urge o arremesso do desbravamento,
O amansar da fúria contida nos dicionários.
Estende o teu olhar pras gentes e vê o que querem.
Vê o paladar apurado do povo,
Agita os braços ante o infante de leituras.
Dou-te todo o meu mar salgado,
Minhas mulheres que choram e riem alto,
Minhas noivas dispostas ao divórcio das prendas,
Arquétipos da minha avó cabocla.
Vai, marujo!
Arrisca teu perfil às tintas, ao incesto das editoras,
Aos naufrágios à beira da porta,
Aos críticos que rasgarão teu ofício de dias.
Vai, portuoso!
Beija na boca todas as mulheres que querem teu beijo,
Todos os homens dispostos ao risco,
Abre teu pórtico de páginas aos servos, aos escravos,
Aos que vivem sob vigências de feudos modernos.
Vai, marujo! Gruda nas casas novo ato de liberdade,
Conspira com os nossos,
E toma da noite sua embriaguez,
Sua inspirada subversão de Musa.
Vai, marujo!
Lança-te ao Mar com tudo que nele há
De Pessoa, de Neruda, de Carlos, de Adélia,
De Cora, de Bandeira, de Clarice, de Lorca.
Vai! E afoga meus navios velhos, viola minhas certezas,
Viola minhas mentiras, meus fingimentos de Poeta,
Viola minha caixa de Pandora,
Meu anonimato, meu suicídio diário,
Minha textura de negra, minha candura de puta.
Vai! Antes que eu me lance sem âncoras,
Pois que deixo velas, remos e medos muitos.

Rita Santana é atriz, escritora e professora de Língua Portuguesa na Rede Estadual de Educação do Estado da Bahia. Em 2004, foi uma das premiadas no Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos Tramela. Logo depois, o seu livro Tratado das Veias (poesia) foi publicado pelo extinto selo Letras da Bahia, em 2006. A Editus publicaria o seu Alforrias (poesia) em 2012.  Participa da antologia Outro Livro da Estante organizada por Herculano Neto e publicada pela Mondrongo em 2015, com o conto Ondas, Trânsitos e Trilhos, além de ter o seu poema Adusto publicado na revista organismo, projeto do Editor Jorge Augusto, organizada por Ederval Fernandes e Alex Simões.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Sadrie

 

É sempre tempo de novas colheitas aqui na Diversos Afins. E o momento atual não renega tal condição. A continuação dos caminhos depende sempre da possibilidade dos encontros em torno das investidas culturais levadas a cabo pelas mais distintas vozes que aqui buscam pouso. Ao longo do tempo, autores e artistas inauguraram suas participações na revista e tal dinâmico fluxo, para nossa melhor recompensa, ainda persiste em se dar. Cada expressão que a nós se soma vem imbuída de mostrar ao mundo a inteireza de suas manifestações. Quando isso se dá, vemos se cumprir todo um ideal que temos em vista de propagar as mais distintas criações num mesmo ambiente de diálogos possíveis. O que torna ainda mais rico o propósito de diversidade é o fato de testemunharmos diferentes formas de pensar o mundo. Eis a grande recompensa de quem labuta num território editorial como o nosso, esse mesmo que se afigura complexo e colossal dentro do universo conhecido como ciberespaço. E para encontrar criadores relevantes e suas obras, nada melhor do que fomentar a pesquisa e as conexões com valiosos interlocutores culturais. E assim vamos seguindo, construindo edições em bases autorais sólidas feitas por pessoas comprometidas em colaborar com o panorama literário e artístico do nosso tempo. Por falar em arte conectada às demandas do presente, nossa mais nova leva traz uma entrevista especial com a banda OQuadro, grupo baiano que, ao longo de seus pouco mais de 20 anos de trajetória, foi capaz de construir um trabalho diferenciado pelas vias do rap. Nos nossos cadernos de poesia, contamos com os versos de Carolina Spyer, Leonardo Bachiega, Ana Paula Olivier, Geraldo Lavigne de Lemos e Renata Ferreira. É Marcelo Labes quem nos apresenta “Contações”, novo livro do poeta Tiago D. Oliveira. Na seara cinéfila, Guilherme Preger escolhe cuidadosamente o filme japonês “Esplendor” para ser o centro de suas análises. A peça “Rose” nos é mostrada em detalhes pelas anotações de Vivian Pizzinga. Nos espaços de prosa, Carla Diacov e Caio Russo desfiam suas densas narrativas. Saulo Dourado fala sobre a riqueza contida no disco ao vivo do grupo de samba de roda Esmola Cantada. O romance “Felicidade”, mais recente livro de Wellington de Melo, é alvo das palavras de Gustavo Rios. Em meio a todos os recantos de nossa nova edição, estão também as ilustrações de Sadrie, artista que narra mundos através de seus trabalhos. Eis a nossa 125ª Leva. Boas leituras!

Os Leveiros

 

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125ª Leva - 03/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Caio Russo

 

Ilustração: Sadrie

 

Aquário

 

Para Marceli Andressa Becker– minha terna “Beck”, neta da filha que não tive.

 

Do beiral a menina se escora na janela do décimo primeiro andar, amanhecidas desde a madrugada as pernas, dobradas sobre joelhos de sereia, como a escultura de proa num navio vertical em concreto armado, hora ou outra a ouvir nas barbatanas o trinar do elevador, chegando e saindo do andar, submergindo nas escotilhas opacas, acima, abaixo, apreende lições sonoras de mergulho.

Não nasce o dia sem uma lasca de falta trágica.

Lançar-se desde o alto ao lago de asfalto morno, desde a respiração refez incontáveis vezes o salto aquático, fecha os olhos feito Tirésias e vê-se com braços e pernas de nadadora experiente perfurando a atmosfera. Um mínimo oráculo do destino estatístico, daria no jornal numa das páginas subalternas, talvez nem nelas, em algum site lado B desses que trabalhara na época do namoro com Roberto.

Vem serpentino, de um dos tantos e tantos apartamentos sem face, aquele gesto de café recém-feito lhe acolhendo pelo olfato, como o pai quando chegava do serviço lhe dando um pequenino piparote na ponta da narina.

Não é bem o café café, esse café, é outro café, outro odor do fundo recordado, ternura feita em novelo de lã, ternura de sopro cálido sob as costas da orelha amante, ternura na espuma da quietude magra. Escondida sob indiferença urbana, como seu par de meias lilás embaixo da coberta cinza, o lírico que lhe apalpa as miúdas pestanas pisca sorrisos de querer vez outra ainda hoje.

 

Silvia Szymanowisky, 13 de março de 2010

 

 

 

***

 

 

 

Tratado sobre a velhice

 

Dos últimos anos para cá fiquei obcecada por imaginar aterros. É velhice, sei disso e não precisa avisar.

Penso naqueles mineiros, não os nascidos em Minas, claro. Homens e mulheres descendo diariamente para colher carvão. É isso que vejo diante de mim.

A velhice é uma doença, menos grave que a da juventude, mas é.

Jamais me chame de idosa, isso não aceito porque estou na idade de não aceitar nem o aceitar. Quando a menina me disse querendo ser caridosa: “mas a senhora não é velha, é idosa”, dei-lhe várias bengaladas na cabeça.

Gastei quase quatro idades daquela garota para que me chame de idosa? E esse ideograma chinês feito por um bêbado igualmente chinês na minha cara? Tente apagar essas rugas todas então, minha filha.

Não, não é isso, inveja por já ter consumido quatro idades, é por olhar a moça e pensar que somos tão parecidas, se tivesse mais quatro idades dessas guardadas na poupança faria o mesmo que fiz, pouco, muito pouco.

Talvez começasse a beber chá antes e mais nada.

Ranzinza? Claro que sou, estou no direito consuetudinário de sê-lo, amargada pelo excesso de chá de tília tomado ao longo de duas décadas!

E os homens e mulheres descendo diariamente nas minas. Logo estarei lá pra baixo sem saber subir.

Preparada para morte? Só os velhos mais idiotas dizem isso, tomando 25 comprimidos diferentes se souberem que no Camboja há uma epidemia de gripe.

Esses velhos preparados, prontos, são os mais histéricos quanto à morte, tanto medo que já levam uma lápide no lugar da cara.

Que os jovens são idiotas, todos, sem exceção, é sabido, mas dizer que velhos são sábios, oráculos que acumularam experiência, isso sim é idiotice das brabas.

Não tenho gatos, não sou nenhuma velha clássica de filme ruim. Tenho plantas porque são mudas no meu idioma, ainda bem, a presença de algo humano me dá urticárias.

Ora, para quem escrevo então? Escrevo para as paredes, e um pouco para que as dores de minhas juntas fiquem quietas lendo.

Aterros, minas de carvão, bueiros e buracos.

Medo da morte? Não tenho. Meu medo é que lá, sabe-se onde, não tenha chá.

E comecei há anos a aprender o silêncio, assim, quando não voltar de lá, ao menos irei sabendo a língua deles.

 

Clara de Almeida Corbin , 05 de setembro de 2003

 

Caio Russo é escritor, historiador e pesquisador em Estética, História da Arte e Teoria da Imagem. Nas horas vagas, passa seu tempo esculpindo ausências.

 

Silvia Szymanowisky nasceu em Frutal do Campo, num verão qualquer, perdido amarelado do céu sob terra roxa de viço. Tem 67 anos de idade e reside na capital paulista, desde sua viuvez, há 22 anos. Este é seu primeiro texto publicado.

 

Clara de Almeida Corbin nasceu numa cidade feia, feia mesmo, de dar dó, quase mais feia que enfeite de natal feito em plástico reciclado: Primeiro de Maio. Professora de filosofia aposentada que não conta a própria idade tem uns anos. Sabe fazer chá e gosta de ser velha porque a juventude é tonta – não há exceções, é um fato ontológico, diriam os filósofos, igualmente tontos.

 

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125ª Leva - 03/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Ana Paula Olivier

 

Ilustração: Sadrie

 

Deixou o raio
o quarto
o risco

e se foi com a dança
de apanhar gravetos

Deixou o raio
o quarto
o risco

E esse vício tão sublime
De brincar de abismos.

 

 

 

***

 

 

 

Cordas no grito da chave
que o corpo que nada
sabe do pulso que pulsa
e que passa

Deixa o brilho do canto
que a gente grita
suaviza a corda
que não mata

Belezas não se acalmam.
Verdades são caladas.

 

 

 

***

 

 

 

O amor ri das glórias e dos insones.
Multiplica o tempo,
abre as portas,
brinca de esconder-se
em altas horas.
O amor gargalha,
estanca as mágoas.

 

 

 

***

 

 

 

Quem quer viver faz mágica
Levanta mortos, junta luz
Lambe corpos, lambe escrita
Devora anjos, perdoa lobos.
Nas labaredas do intenso
Nas cadeias do gozo.

 

 

 

***

 

 

 

SOPHIA

 

Ela vai deixar os cabelos brancos, brancos
vai se deixar
estriar, enrugar, desbotar

Vai deixar a pele sinalizar
pontos, peitos, prantos

Vai cansar
vai deitar
vai deixar
Deus falar.

 

 

 

***

 

 

 

ORAÇÃO

 

É vício a palavra
com que falas
de crueldades
delicadezas
É vício a palavra
no meu corpo
minha escrita
que não te rouba
É vício a palavra
com que calas
no meu invento
minhas feridas
É vício que eu volte sempre
De delicadezas
Crueldades
É vício, amor
“Deuses só comem palavras”.

 

 

 

***

 

 

 

PRIMEIRO PASSO

 

Caminhei, caminhei, caminhei
mudei os móveis de lugar
sem pedir conselhos
eu mesma cortei
unhas e cabelos
e as cortinas
eu mesma pintei
a casa de branco
e as unhas de vermelho
tudo para afogar
tuas iniciais
nos meus lençóis tão brancos
tuas iniciais
sibilantes e serpentinas
no meu sacrossanto peito.
E perdoei.

 

Ana Paula Olivier nasceu em Natal (RN) em 1971 e está radicada em São Paulo (SP) há dezesseis anos. É licenciada em Letras pela Universidade Potiguar (UNP-RN) e é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC (SP). Também é atriz e escritora, com diversos prêmios literários e participação em antologias poéticas publicadas no Brasil. Atualmente é professora de ensino superior (Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira, Produção Textual e Formação de Leitores – Letras e Pedagogia) e doutoranda em Ciências Sociais pela PUC (SP).  “Infinito sobre o peito” é o seu primeiro livro de poesia.

 

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125ª Leva - 03/2018 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Abismos entre ética e moral

 Por Vivian Pizzinga

 

Rose / Foto: Paula Kossatz

 

O espetáculo Rose tem texto de Cecilia Ripoll e foi eleito como a melhor dramaturgia escrita durante as atividades da turma de 2017 do Núcleo de Dramaturgia SESI cultural (Rio de Janeiro), coordenado por Diogo Liberano. A direção de Vinícius Arneiro, excelente, e a atuação do elenco, à altura do texto, dão vida a esse drama que tem um viés político com moderação, no que diz respeito às questões mais abrangentes de distribuição de renda e desigualdade social (sem ser panfletário, sem ser chato, sem ser didático e sem ser raso) e a fatos específicos da política nacional. É sempre o ato, o gesto e o acontecimento que norteiam o viés político que a peça carrega, necessário e na justa medida, com lances de humor que os atores, conferindo personalidade e trejeitos a seus personagens, ajudam a construir (vide Ângela Câmara e sua afetação para sentar na cadeira, ou Márcio Machado e a voz empostada quando interpreta o deputado ou seus falsos brios quando assume a função de novo diretor da escola a moralizar o espaço escolar onde a protagonista trabalha).

Rose é merendeira de escola pública e sofre vendo que a comida não é suficiente para as crianças que lá estudam. Além disso, a comida que vem é inconsistente, o feijão é ralo, a qualidade não é boa. As crianças sentem fome. Então, ela começa a adoecer e tira licença, indo trabalhar na casa de dona Celina, sem carteira assinada, protegendo o filho da patroa e mantendo sua filha escondida no quarto. Rose é um mistério para esse filho, curioso com a porta fechada de seu quarto e com as banhas da funcionária. Maria Juliana, a filha de Rose, interpretada por Natasha Corbelino (cheia de carisma), é uma figura à parte. Sua indignação por ter de ficar escondida e pelas desigualdades que observa com perspicácia, como a comida que sobra e vai fora após as festas no apartamento e a comida que falta na escola onde Rose é merendeira, expressam-se em uma mistura engraçada de sarcasmo e cinismo. Para completar o elenco, há ainda o diretor Renato, que expressa a contradição entre o legal e o legítimo, ou a moral e a ética: nem tudo o que é legal é ético ou legítimo e vice-versa. Isso fica evidente no diálogo que ele tem com Rose sobre a estratégia (clandestina) utilizada pela protagonista para resolver o problema da merenda na escola.

 

Rose / Foto: Paula Kossatz

 

O espetáculo vai num crescendo, como se um percurso para que os absurdos explodam e aconteçam fora do terreno da sutileza e se escancarando como deve ser necessitassem mesmo de um processo, de certo metabolismo: há várias relações acontecendo paralelamente, núcleos de tensão e afeto são despertados como se pequenos mundos que ora se afastam, ora se tocam e diversas vezes se interpenetram durante a trama. Há certo hipnotismo do menino (atuação de Thiago Catarino), que tem medo de descansar e morrer, pela filha de Rose, e todas as emoções que transbordam desse afeto inédito para ele. Há a estratégia de Rose para fazer justiça e levar comida da casa de dona Celina para a escola e o desconforto moral (e desprovido de ética) do diretor da escola, que usa todas as oportunidades para exercer e demonstrar porções fartas de demagogia, dramas tolos e falsos dilemas. Há a incomunicabilidade de dona Celina com seu filho, o pavor do toque e do abraço, a distância que se alarga entre eles e, por outro lado, encurta entre ele e Rose. Há o ciúme da filha de Rose e, finalmente, a preocupação de dona Celina em agradar o deputado que desvia merenda, na festa em sua casa, em paralelo ao ódio de Rose em relação a ele.

Entre outras possibilidades que a peça oferece para discussão e produção, temáticas variadas que margeiam a questão principal, o cerne é mesmo de doer: afinal, ninguém acha ruim o suficiente o desvio de verbas públicas que seriam destinadas à merenda escolar, mas se torna questionável uma funcionária levar a comida que sobra da festa da madame para as crianças da escola. Ninguém acha ruim o suficiente porque, se fosse suficiente, já não seria possível continuar acontecendo. Mas Rose, a quem Dida Camero empresta brilhante atuação, protagonista que não tem papas na língua, acha ruim o suficiente e não espera que outros venham resolver o problema da forma que se apresenta diariamente diante de seus olhos, em um sofrimento ético capaz de adoecer qualquer trabalhador que estivesse em seu lugar.

 

Rose / Foto: Paula Kossatz

 

Os paralelismos desdobram-se: num apartamento de 400 metros quadrados, o quarto da empregada tem 4 metros e é ali que a filha tem que ficar o dia inteiro. Esse é o território que lhe é destinado: o espaço é escasso, a comida é rala, há uma classe que recebe sempre menos (e não se trata de maniqueísmo barato, a realidade é exatamente essa). O aluno da escola pública não pode provar salmão e a empregada não pode querer fazer curso de inglês: isso poderá soar absurdo (o salmão na boca do pobre) ou se tornar risível (o inglês na boca da trabalhadora doméstica).

Finalmente, o cenário é também ótimo e simples: diversas carteiras escolares são posicionadas como numa sala de aula, e é por entre elas, sobre elas, por baixo delas, desviando-se delas e as embaralhando que as cenas vão acontecendo. A maneira como as cadeiras são posicionadas e reposicionas e ajustadas e novamente deslocadas se torna uma pequena expressão do caos e do cinismo que se alternam no palco.

 

Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.