O que se decompõe
também conta uma história.
Outra:
pelo avesso.
As cores que esmaecem
têm brilho próprio.
Outro:
lusco-fusco.
As paredes trincadas
reverberam suas nervuras.
Outras:
cicatrizes.
O tempo que se contorce
se ergue em ruínas.
Outro:
natimorto.
***
LA CITTÀ
Percorrer uma cidade, derrubar seus muros, furar suas paredes, arrancar sua pele, até que, núbil, ela se curve como o mapa roto que se dobra e se guarda.
***
CROMOTERAPIA
Por todos os lados,
um verde incrédulo
atravessa janelas e paredes.
Come traças e ruínas,
deita luz
em corações silentes.
E grita uma alegria
espantalha.
***
AMPULHETA
Para o que tarda,
não há mais tempo
no célere deslizar dos dias.
Tempo não há para esperas.
O amanhã sempre chega
antes.
Parem os ponteiros.
Quebrem os relógios.
Clamem o tempo da gestação.
Não roubem da fruta
nem da flor
sua delonga.
Deixem que o remoto e o ermo
comam da estrada
a poeira.
***
ABRACADABRA
Na parede branca e lisa,
a realidade
escorrega
sem contornos,
inexistente.
Dentro da moldura,
na parede branca,
a realidade
se ergue
outra.
A que é entrevista
pela janela,
essa,
não a inventamos.
Mas a que aprisionamos,
em cores e linhas,
é a que nos inaugura
a vida e os desejos.
***
MAGIA
O traço na página em branco
cava a palavra,
que tomba em gruta
profunda.
O eco da palavra escavada
distorce o sentido.
Inventa uma outra
vertigem.
A página em branco é caverna
de paredes e ásperas entranhas.
Precisa da teima e da urgência
de quem a percorre.
A sombra do traço entrevisto
ganha a cor do desejo imaginado.
Eis a magia que propicia
a coisa.
A coisa que – sólida –
o desejo inventou,
e o traço riscou
na parede branca e muda.
Analice de Oliveira Martinsnasceu em Campos dos Goytacazes (RJ), é Doutora em Estudos de Literatura pela PUC-RIO. Leciona Literatura Brasileira e Literatura Comparada no IFF campus Campos Centro e atua também, como professora e orientadora, nos Programas de Mestrado e Doutorado em Cognição e Linguagem da UENF. Pesquisadora e ensaísta, é autora do blog Rumores e Ruídos, no qual publica crônicas e poemas.
Preto, novo projeto da companhia brasileira de teatro, com direção de Marcio Abreu e dramaturgia dele, Grace Passô e Nadja Naira, se inicia a partir da fala pública de uma mulher negra e é fruto de uma investigação sobre as formas de lidar com a diferença e, mais do que isso, sobre as formas de recusá-la em nossas sociedades. E o fruto dessa investigação está bem longe de ser um espetáculo qualquer, no que traz de riqueza de linguagens, arrojo na montagem e, sobretudo, importância do assunto tratado. Os desdobramentos do trabalho do grupo no espectador são impacto e reflexão, para dizer o mínimo.
Há uma fala de Angela Davis, em uma conferência realizada em Salvador, Bahia, em 2017, reproduzida no texto de Marcio Abreu no programa da peça, que vale a pena repetir aqui, pois ela é a síntese do que Preto consegue promover: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se a base do capitalismo”.
A observação de Angela Davis é certeira, e talvez sirva para todas as outras bases de pirâmides sociais mundo afora, e para todos os demais pensamentos que enxergam na luta no coletivo – e somente no coletivo – a maneira de mudar radicalmente os alicerces de sistemas habituados ao cacoete da injustiça e da desigualdade social, em todos os seus aspectos. E é interessante como se pode fazer uma transposição dessa fala ao espetáculo, como se este último conseguisse, em sua dramaturgia, expressar exatamente o que ela aponta, traduzindo a ideia para a linguagem teatral: no início, uma mulher negra se movimenta, é a fala de uma mulher negra, como a introdução de uma conferência ou um seminário, que começa questionando a posição da mesa e do microfone. Os espaços que as coisas ocupam direcionam também os espaços que as pessoas ocupam, a arquitetura dos lugares tem influência sobre comportamentos (Foucault já observava isso ao estudar o hospital, os manicômios e os presídios). Mudar os móveis, as posições, os lugares, as funções, os papeis provoca, necessariamente, outras mudanças menos concretas e que têm grande chance de atingir as atitudes e a cultura. Da mesma maneira, nesse início de espetáculo, tudo começa aparentemente de modo obediente, cada coisa no lugar onde se espera que esteja, e a fala da mulher aponta a problemática desses lugares. A partir daí, o desenrolar do espetáculo é então uma espécie de furacão crescente, de ampliação das ideias em forma de fala, dança, música, tal como as mulheres negras que, ao se movimentarem na base da pirâmide, movimentam a pirâmide inteira. E tudo isso é acompanhado pela trilha sonora que Felipe Storino executa ao vivo.
A força e o arrojo perpassam a peça integralmente, desde a delicada e envolvente cena protagonizada por Grace Passô e Renata Sorrah, em que, muito próximas fisicamente, dividem um mesmo microfone para ir descrevendo uma aproximação afetiva e corporal entre mulheres, cujo desfecho brilhante da cena não comentarei para não estragar, até a fantástica dança com Felipe Soares e Rodrigo Bolzan, numa espécie de duelo corporal e coreográfico – o homem branco e o homem negro dançarinos – com enormes cabeças que são suas caricaturas, promovendo o contraste entre a expressão da dança e a inexpressividade da máscara.
Renata Sorrah e Grace Passô / Foto: Nana Moraes
A cena em que Cássia Damasceno se apresenta prometendo sambar, para depois prometer cantar, e depois prometer ficar sozinha para o público, traz também uma palpitação qualquer difícil de explicar, talvez por gerar a expectativa de que algo supostamente óbvio vai acontecer, a mulher negra com voz potente e gingado prestes a entreter uma plateia: ela vai, volta, abre a boca como quem está na iminência de um grito ou uma nota ou um protesto, sai e retorna, e nada acontece do que se espera acontecer, embora tudo aconteça do que não se espera acontecer. Essa cena, como a peça inteira, promove um desarranjo nas expectativas tradicionais, nas ideias prontas, porque cutuca uma questão primordial: como lidar com a imagem e o que esperar da imagem? A imagem do branco, a imagem do negro, a imagem do artista, a imagem da mulher brasileira que samba e rebola, a imagem do prazer, a imagem que o outro faz de nós e sobre a qual não temos a menor possibilidade de ajuste, retificação ou controle, como lidar com isso?
Perguntas sobre “como você se vê” ou “como é carregar a sua imagem por aí” ou “você tem problema com a imagem” ou “posso então tirar uma foto” geram desconforto e reflexão por parte dos atores-protagonistas, cujas contradições ficam explícitas na discrepância entre respostas dadas e comportamentos.
Ao final da apresentação a que tive oportunidade de assistir fascinada e capturada, observei que, após os aplausos, a plateia foi se retirando do Teatro III do CCBB de modo silencioso. As pessoas pareciam impactadas, e em vez de interagirem entre si comentando sobre a peça ou o que quer que fosse, saíam um pouco mudas, talvez porque a montagem seja mesmo de tirar o fôlego e o chão, gerando certa dose de fascinação que é preciso mais sentir do que falar.
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.
Há uma poesia
de tal tamanho
querendo pôr
meu corpo em movimento
Que saio
sem rumo certo
para a rua
por esta tarde
agradável de inverno
onde algumas folhas
balançam
orelhas ao vento
***
SUBURBE
A tarde tinha um ar grisalho ao terminar
Onde as lâmpadas mais altas
Acendiam cabeças
De vaga-lumes pálidos
Eram os pescoços desta cidade baixa
Que se esticavam nos postes
Talvez para ver além dos telhados
Presos que estavam na borda da calçada
Se pudessem se lançavam
Por cima do chapéu do morro
Para o céu estrelado que à noite
O teto das metrópoles usa
Para iluminar com os poetas
Os vultos que a lua projeta
Os vãos escuros entre os edifícios
E a sombra da miséria sob os viadutos
***
PHATO
Fato exposto (FRATura)
TRACtor feito feito TRACto
faTOR-faTURA
PRAto posto
R
uralmente
rURp
***
O VOTO DO SILÊNCIO
Escute um discurso contemporâneo
O verdadeiro nadador
é aquele que cruza os braços
diante da água.
A estrela mais bela
ainda está por ser descoberta.
O grito
que vale a pena ser ouvido é o do mudo.
Incorre em erro
aquele que diz o que acha que sabe
porque a verdade está escondida
e em constante movimento.
Se você repete estas frases, você tem alguma chance
***
OS PEIXES
Tocando com os dedos no vidro,
Os peixes dentro do aquário
Se movimentam, seguindo-os.
Ao contrário, com peixes dentro,
A um toque invisível no monitor
Se movem os peixes do lado de fora.
***
TURVBILHÃO
O ventilador olhou dois lados
Eu dormi
Ele virou pro outro
E enterrou fundo
As hélices pela janela
Numa nuvem de chuva
Adrian’dos Delima (Canoas, RS), pseudônimo para Adriano do Carmo Flores de Lima, é poeta, tradutor, teórico de poesia e compositor. Cursou Letras, habilitação Tradução na UFRGS, onde não se graduou em função de dificuldades econômicas. Publicou em revistas impressas e online, como a Germina, a Babel Poética e a Sibila. É autor dos livros “Consubstantdjetivos ComUns (Vidráguas e Gente de Palavra, 2015)” , “Flâmula e outros poemas (Gente de Palavra, 2015)” e “Aqui fora o olholhante (Vidráguas, 2017).
Prometi que nunca mais iria ficar preso por causa de uma mulher: podia ser a Vivi Fernandez, a Mônica Mattos, a Morgana Dark ou a Fernanda Corrêa que ia cagar para ela. Foi o que decidi na prisão. E não só isto: quando saísse, iria viver uma vida honesta, sem feitiçarias, assassinatos. Mas, ao ver a boazuda da Ana Rita saindo da casa de minha mãe, não pensei duas vezes para correr atrás dela, para me enfiar em mais uma roubada em troca do amor de uma mulher.
Ela entrou em seu carrão, bati na janela, Ana Rita abriu. Olhei para seus olhos e por um instante pensei estar olhando o céu. Nunca havia visto olhos azuis tão claros como os dela, era linda mesmo, Ana Rita dava de dez a zero nas mulheres das revistas que eu vivia folheando quando estava na prisão.
– Eu faço o que você quer, é só me pagar – eu fui logo dizendo.
Ela abriu a porta e eu entrei, sentando-me no banco do passageiro.
– A sua mãe não quis fazer o trabalho para mim…
– Que trabalho?
– Matar meu esposo…
– Olha, dona, faz mais de um ano que minha mãe não faz mais este tipo de trabalho, ela fez o santo… E quem é do santo não pode fazer o mal, só o bem… Ainda mais quem é de Omolu, santo que abomina a maldade… Mas eu faço… É só pagar bem que faço! – falei olhando para as suas pernas e depois para os seus olhos.
– Interessante. Como é seu nome mesmo?
– Zeca.
– Zeca, você falou que mata meu esposo. Do que você precisa? – disse ela, arrancando com o carro.
Falei para Ana Rita tudo o que precisava.
– Quanto vai dar tudo isto?
Disse o valor e ela parou o carro perto da ponte, para preencher o cheque.
– Quantos dias, Zeca? – ela quis saber.
– Dentro de um mês no máximo ele estará morando com o diabo.
– Precisa de mais alguma coisa?
– Só o nome do infeliz e uma foto 3×4, se tiver.
Chamava-se Ramão.
Ana Rita tinha uma foto 3×4 do marido na carteira, puxou-a e me deu. Olhei para o indivíduo: era um homem branco de bigode e sobrancelhas bem pretas, olhar sério, estava de terno e gravata.
– E se ele não morrer? – Ana Rita perguntou.
– Se ele não morrer na macumba, eu mesmo o mato na paulada. Não será o primeiro…
***
Tal como minha mãe antes de fazer o santo, na segunda-feira não tinha nem para o cigarro. É o que diz a Bíblia – se tinha algo que me fazia passar o tempo na prisão era a Bíblia, a Bíblia e as revistas de mulheres peladas –: “todo presente e todo bem mal adquirido perecerão.” Isto está no livro do Eclesiástico. No livro do Eclesiástico a gente encontra todas as respostas da vida. Nele diz também: “o trabalhador dado ao vinho não se enriquecerá, e aquele que se une às prostitutas é um homem sem valor algum”. Eu era assim. Um homem sem valor algum, sempre entregue à cachaça e às prostitutas de toda estirpe.
No mês seguinte, Ana Rita apareceu. O carro dela estava todo sujo, com a lama da favela.
– Sujei todo meu carro…
– Mas não é só o carro que está sujo não, dona. Você também está…
– Onde? – disse ela, olhando para a sua roupa.
– Esqueça. Diga…
Ela me olhou nos olhos:
– O homem está mais vivo do que antes…
– Droga!
– E agora?
– Agora vou ter que fazer outro trabalho no cemitério, para um exu pagão. O problema é que acabou o dinheiro, preciso de mais algum.
Mesmo contrariada, Ana Rita me deu mais dinheiro. Fui num cemitério bem assombrado, à meia-noite. A lua estava minguante. Se você deseja acabar com a vida de uma pessoa, tem que ser nessa lua. Porque a lua estava minguante não dava para ver quase nada na minha frente. Me cuidava para não acabar tropeçando numa tumba.
Desta vez não levei um bode, só um galo preto, uísque e charutos. Fui indo. Eu precisava chegar lá no fim, onde os trabalhos são feitos. De vez em quando encontramos alguém no caminho, mas desta vez não tinha ninguém, nem o coveiro cuidando das covas. Olhei para os lados, acendi as velas e fiz o trabalho. Terminei tudo rápido e saí daquele cemitério assombrado. Depois fiquei em casa, esperando notícias de Ana Rita. Passou uma semana e ela apareceu novamente, mas desta vez irritada porque o feitiço não tinha vingado:
– O santo de seu esposo é muito forte, ele deve ser de Ogum ou de Xangô. Na macumba não vai ter jeito. Vai ter que morrer na paulada mesmo. Mas vou ter que cobrar por esse serviço…
– Vou ter que gastar mais dinheiro, Zeca?
– Sim.
– Quantos desta vez?
Falei o valor e Ana Rita concordou.
– Mas é o seguinte. Eu tenho que prestar algum serviço na casa, para bolar o melhor plano.
– Vou dispensar o jardineiro. Você entra no lugar dele, na segunda-feira.
– Ok.
Ana Rita estava indo embora quando lhe pedi um dinheiro adiantado. Ela reclamou, mas acabou me concedendo. Passei o sábado e domingo bebendo, fumando e me deitando com as prostitutas de um bordel bem fuleiro perto de casa. Na segunda-feira pedi dinheiro emprestado para minha mãe, para comprar um passe de ônibus e uma carteira de cigarros. Ela me olhou com o olhar atravessado, sabia que eu estava tramando o mal.
– Pode ficar tranquila, minha mãe, arrumei um trabalho, de jardineiro.
– Você não me engana, filho. É na cadeia que você quer passar a maior parte de sua vida?
Minha mãe tinha uma intuição extraordinária, como a maioria dos filhos e filhas de Omolu. Muitas vezes ela nem precisava abrir as cartas ou jogar os búzios para saber o que seu cliente precisava. Eu sabia se era coisa boa ou não conforme o tempo da consulta: quando o cliente queria algo mal, ela já o dispensava, quando o cliente queria algo bom, a consulta demorava. Eu sabia que Ana Rita não queria algo bom porque do mesmo jeito que entrou, saiu. É impressionante ver o quanto que a beleza não define o caráter de uma pessoa: quem iria dizer que uma mulher angelical como Ana Rita não passava de uma bandida? A beleza física é a maior das ilusões, toda ilusão é uma prisão, como eu era um sujeito que vivia iludido, vivia preso.
Cheguei sete horas da manhã na casa da Ana Rita. Casa não, uma mansão! Ela me deu o macacão de jardineiro e me mostrou a dispensa com as ferramentas de trabalho: tinha enxada, pás pequenas e pás grandes, picaretas, serrotes. Era ali também o meu canto, onde eu devia almoçar e descansar. Queria me ver trabalhando, para não levantar suspeitas. Eu odeio trabalhar, ainda mais debaixo do sol. Na cadeia recusei todos os trabalhos que diminuíssem a minha pena. Mas fazer o quê? Trato é trato e eu iria ter que trabalhar debaixo daquele sol que às sete da manhã já estava forte pra cacete.
Foi o que fiz até o meio-dia, quando Ramão chegou, em sua BMW branca. Estava vestido tal como na foto 3×4. Não suava, é claro, quem vai suar dentro de uma BMW? Ao me ver me cumprimentou, mas fez com um desinteresse próprio de quem não gosta da ralé. Me deu mais vontade de matá-lo. Fiquei pensando na origem de Ana Rita: de onde ela veio, da vida honesta ou das calçadas da vida? Por que queria matar seu esposo? Só pelo dinheiro ou por ódio?
Ramão era um político corrupto, um deputado. Um ímpio. O ímpio que pensava da seguinte maneira, com seus comparsas: “tiranizamos os justos na sua pobreza (o pobre), não poupemos as viúvas (e as mães solteiras) e não tenhamos consideração com os cabelos brancos do ancião (os aposentados)”. Ele diz: “que a nossa força seja o critério do direito, porque o fraco, na verdade, não serve para nada!”. É assim que pensa o político corrupto, era assim que certamente pensava o deputado Ramão.
Na hora do almoço Ana Rita mandou a Luana, sua cozinheira, trazer um prato de comida: seria o mesmo que foi servido em sua mesa? A cozinheira era uma mulher negra e bondosa, carregava uma corrente bem fina no pescoço, com um pingente do Cristo Crucificado. Ela era simpática, não muito bonita, mas uma mulher que pelo jeito parecia saber colocar o homem no caminho estreito, no caminho correto.
Conversamos um pouco. Gostou de conversar comigo. Toda vez que ela vinha me trazer o almoço, conversávamos. Ela me falava passagens bíblicas que eu já estava cansado de saber, contudo com um sentido diferente, com um significado diferente: enquanto eu lia procurando a lei, ela lia buscando o amor. Me envergonhei. Comecei a me interessar por Luana. Ela era um anjo que Deus havia enviado em minha vida, a melhor coisa que podia fazer era casar com uma mulher feito a Luana.
Pensando assim, veio a vontade de desistir do plano de matar Ramão, de me arrepender, de trabalhar honestamente e de devolver à Ana Rita todo o dinheiro que tomei dela. Pensei em me converter, em deixar esses exus pagãos que eu me envolvia de lado e colocar Jesus no altar da minha vida, tornar-me um justo, andar lado a lado com as entidades de luz, com os anjos e os apóstolos. Ainda dava tempo. O ladrão que foi crucificado com Jesus se arrependeu antes de morrer e Cristo o perdoou. Não sei se ele teve uma grande recompensa nos céus, mas com certeza entrou ao lado do Filho de Deus e, portanto, protegido. Era melhor fazer o mesmo. Chegar em Luana e dizer: case comigo! Foi o que fiz. Quando ela entregou o meu prato de comida lá naquela dispensa escura, eu peguei em sua mão e a pedi em casamento:
– Casamos em tua igreja, Luana, e seremos felizes, com a bênção de Deus!
– Está bem, Zeca.
Mas Ana Rita era uma mulher astuciosa e malvada. No Eclesiástico está escrito que “a mulher maldosa é como um jugo de bois desajustado; quem a possui é como aquele que pega um escorpião”. Seu esposo e eu estávamos nas mãos de um, pronto para nos ferroar sem dó. Falei com ela, disse:
– Ana Rita, não quero mais matar ninguém nesta vida. Por mais que seu marido mereça morrer, que seja pelas mãos de outro justiceiro, não eu.
Falei-lhe que iria arrumar um emprego e que iria devolver todo dinheiro que me deu, centavo por centavo. Mas Ana Rita, como disse, era uma mulher astuciosa e malvada. Disse-me que não confiava que longe dela pudesse lhe devolver o que devia, que seria mais correto de minha parte ficar e pagar com meu trabalho. Todo mês ela descontaria a metade de meu ordenado. Em três meses estava livre.
Miseravelmente, aceitei. “Toda malícia é leve, comparada com a malícia de uma mulher”, já dizia Eclesiástico e eu caí na sua malícia. No fim de um expediente, quando Ramão estava viajando, Ana Rita me ofereceu um copo de vinho. Eu teria rejeitado tranquilamente se não tivesse visto pelo decote de sua blusa seus seios brancos bem redondos e soltos, desprotegidos. Eram como maçãs suculentas.
Não resisti, esqueci meu compromisso com Luana e tomei num gole só todo o copo de vinho. Bebi outro copo cheio e mais outro. O vinho reacendeu o fogo de minhas paixões e quando vi estava na cama da pecadora. Entrei nela como um animal, virei Ana Rita de um lado, de outro, fi-la segurar firme nas barras de ferro de sua cama! Quando caí estremecido de gozo, ela pediu:
– Mata ele para mim, meu homem, mata?
– Mato sim!
Dois dias depois Ramão estava de volta. Quando deu meu horário, saí da casa deles e fiquei lá fora, esperando o telefonema de Ana Rita, me informando se Ramão já dormia. Luana saiu um pouco depois, mas não me viu, pois eu estava atrás de uma árvore. Onze da noite Ana Rita ligou. Pulei o portão da casa, fui até à dispensa, peguei uma pá e entrei na casa. Ana Rita, com uma camisola vermelha, abriu-me a porta. Ramão roncava. Cheguei perto dele e comecei a desferir os golpes com a pá.
Ele deve ter morrido na primeira, que acertei em cheio em sua cabeça. Fui para cima de Ana Rita, para beijá-la. Ana Rita não quis meu beijo, escapou dos meus braços, sacou o celular e ligou para a polícia. Tive vontade de matá-la, mas o desespero de ser preso foi maior, saí correndo. A polícia me pegou a dez quadras da casa dela. Fui preso e enquadrado no artigo 157 seguido pelo 213. Hoje, aqui na cadeia, cada vez que vejo uma de minhas revistas de mulheres peladas, faço a mesma promessa de sempre: nunca mais volto para a cadeia por causa de uma mulher! Nunca!
Glauber da Rocha é escritor e professor. Formado em filosofia e em pedagogia, com pós-graduação em educação especial inclusiva. Mora em Campo Grande, MS. Publicou “Pelas ruas de tua cidade, ó morena!” (poesias/2018) e “Crônicas Para o Face” (crônicas/ 2018). Para 2018, pretende lançar dois livros de contos: “Com os dentes que ainda me restam” e “matando anões”.
O livro de estreia do autor César Manzolillo, Angústia e outros presságios funestos (Gramma Editora, 2017), possui as marcas de uma obra iniciante. Sem esconder suas referências literárias, também demonstra uma visão própria para as mesmas. Como em projeto “Mix Lit”, que promove a construção de um novo texto através dos trechos previamente conhecidos, Manzolillo relembra seus ídolos em luz própria. No caso, sua interpretação se sustenta acima dos gigantes em que se apoia.
O estilo breve, quase telegráfico de alguns contos, remete a Rubem Fonseca. Contos como “Cibele”, “Gabriel” e “Gilmar”, inclusive, referenciam imediatamente o universo de submundo e violência exposto no seminal “Feliz ano novo”. Entretanto, são exceções na maneira como o autor se apropria de sua fonte. Se a secura de Fonseca servia a um propósito realista e de choque, Manzolillo reutiliza esta artimanha como uma forma de conduzir o leitor às entrelinhas das narrativas. Ele insinua, no lugar de situar seu receptor. No caso, ele opta por uma desconstrução. Quando mimetiza na superfície o mestre, abre o espaço para a análise de seu uso. Manzolillo, então, oferece uma interpretação labiríntica, em que o narrador descreve uma cena que não se apresenta como uma saída, mas uma nova passagem para a compreensão íntima de seu leitor. O leitor é provocado a criar sua versão, como um novo escritor. O autor mostra as ferramentas e oferece as reticências entre as frases.
Estruturado em relatos breves, todos em 22 linhas, com os nomes de personagens como títulos, há um instigante experimento sobre a função da informação. O fato de não se tratar de contos fechados é a isca para que o ato da criação seja a força motriz. Mais do que a psicologia e o cenário, é a interpretação dos elementos o protagonista frequente do livro. A falta de localização dos atores neste palco, cujas escolhas e vidas são questionadas em múltiplas vozes, forma uma colcha opaca. O resultado é irregular, mas segura o interesse.
Os contos variam em gênero e alcance. Enquanto alguns são simples em sua estrutura, outros arriscam em uma miscelânea de vozes cujo atrativo é o impacto. Como em Dalton Trevisan, outro grandioso a que o livro presta homenagem, não é necessariamente o ato final o ápice dramático. A virada pode surgir logo na metade, um efeito que mexe em toda a compreensão do resto da história. O conto “Bianca” é um ótimo exemplo. A princípio um texto inofensivo, torna-se voraz após uma frase específica inserida em meio às cartas que a protagonista recebe. É um ótimo exemplo de como o minimalismo pode abrir o portal para uma nova visão sobre as ações de seu personagem. O que Bianca fez?, o leitor pode se perguntar.
Já em contos como “Arnaldo” e “Rita”, as narrativas são diretas, cujo propósito é o punch line. Embora sejam seguros, funcionam dentro do corpo da obra. O livro forma um padrão em que estes contos funcionam como alicerces, ou “respiros”, para mergulhos mais expressivos na metalinguagem. Manzolillo os intercala, de modo que a leitura de cada unidade passa ligada a uma anterior, mas com um todo que busca a surpresa do leitor. O autor é bem-sucedido neste aspecto, pois não é fácil adivinhar o que virá em seguida. A sensação de “caos organizado” carrega uma vitalidade que sustenta o espetáculo. Mesmo em contos que não alcançam seu potencial, como “Saulo” e “Clara”, há uma indagação preciosa para manter o interesse. A construção, o caminho, vale mais do que a jornada. Se em textos como esses a proposta torna-se mais óbvia, é quando se arrisca na seletividade de informações que funciona a contento. Matérias crípticas, como “Helena” e “Bartolomeu”, mostram que os personagens são o que menos importa na tapeçaria. São meios para um fim.
A que se destina, então, Angústia e outros presságios funestos? Com seus altos e baixos, é um inteligente exercício sobre escrita iniciante. Não ironicamente, diversos textos lidam com escritores em começo de carreira. Ao mesmo tempo que mostra uma voz ainda presa a seus ídolos, o efeito final é de uma reconstrução, jamais imitação. Há uma relevante questão que permeia o livro: o que torna um material único: originalidade ou uma maneira como nos debruçamos sobre o passado? Como encaramos o que se passou, expandimos nossa visão de mundo e acrescentamos ao jogo da literatura uma possibilidade refrescante. Nossos mestres não precisam ficar presos numa cápsula. Podemos resgatá-los com uma voz nova. A angústia da desconstrução é o que surge no livro de César Manzolillo, cujo presságio e a apreciação literária formam a cumplicidade criativa entre autor e leitor. Se nada é o que parece, cabe ao próximo elemento na cadeia completar os espaços em branco.
Daniel Russell Ribas é membro do coletivo literário Clube da Leitura, no Rio de Janeiro. Escreve crônicas quinzenais no site RUBEM. Organizou e participou de diversas coletâneas de contos. Ganhou o Prêmio Argos pela edição de “Monstros Gigantes – Kaiju”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez.
Palavras parecem domar o tempo com a astúcia de suas investidas. Talvez por tal razão não sejam menos importantes que a sina dos seus criadores. Elas, as palavras, ousam mais do que representar o mundo de quem as profere, imersas que estão nas profundezas do humano. Revelam-se a complexa ponte entre o íntimo e aquilo que está exposto cotidianamente nas travessias mundanas, bem ali na face desnuda da vida.
Quem engendra o verbo tem a consciência de que sua expressão criadora não se encerra dentro de um único domínio exclusivamente pessoal. Pelo contrário, intenta o encontro com o outro, trajeto comunicativo que, podemos desconfiar, não cessa jamais. Desse modo, levar a cabo uma obra é crer que na outra ponta outros sujeitos poderão consolidar sua permanência, conferindo-lhe uma gama de sentidos multifacetados. Por certo, um escritor fica exultante quando seus leitores mantêm vivo o seu legado dadas as mais distintas possibilidades de vivência, interpretação e apropriação do conteúdo concebido.
Assim como não se passa impunemente pela vida, com a literatura ocorre o mesmo. É salutar pensar um autor como alguém que mergulha nas questões de seu tempo e delas retira elementos construtivos para seu ofício. Quem se depara com a obra de um escritor como Itamar Vieira Junior, percebe um criador de olhares atentos aos fenômenos que constituem e demarcam sua condição de estar no mundo. Mas eis que tal característica tanto se baseia num fluxo de criticidade quanto no de uma vivência que permeia uma perspectiva de fruição estética. Assim, vemos um Itamar a construir sua obra com os requintes da lucidez, mas também sem negligenciar as possibilidades de criação inerentes a um viés de assunção das coisas intangíveis.
Com dois livros de contos na sua trajetória, Dias (Caramurê, 2012) e A Oração do Carrasco (Mondrongo, 2017), além do romance Paraíso (Câmara Brasileira do Livro, 2008), Itamar Vieira Junior pode ser considerado um dos nomes relevantes do atual cenário literário brasileiro. Grande parte disso se justifica em razão de que sua escrita madura e bem construída assinala um valioso lugar de reflexão, sobretudo quando se trata de atentar para o território das alteridades.
Doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia, Itamar revela-se um escritor profundamente envolvido com as temáticas que denunciam a invisibilidade do povo negro. Na entrevista que agora segue, o escritor toca em certos lugares de incômodo social, reflete sobre a representação do racismo na literatura, o papel dos novos escritores, além de lançar luz sobre o panorama editorial brasileiro contemporâneo. O resultado do diálogo mostra-nos não somente um intelectual a expor seus consistentes pontos de vista, mas um indivíduo intensamente marcado pela necessidade de mergulhar fundo na dimensão humanista da existência.
Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal
DA – Há tantos grilhões na condição humana e certamente aqueles que se referem à opressão do homem pelo homem são dos mais cruéis. Em “A Oração do Carrasco” você traz um deles à tona, qual seja a marca histórica do racismo, fantasma que nos ronda incessantemente. Diante de um contexto de tal natureza, como você concebe a literatura enquanto instrumento de exposição e debate desse tipo de incômoda temática?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – A literatura como expressão artística acomoda, involuntariamente, a narrativa da experiência humana. Atravessando os séculos – de Dom Quixote ao romance contemporâneo – ela sempre trouxe como sua razão de existir o descortinar de nossa condição. Hannah Arendt em sua obra “A condição humana” diz que a política é um dos três pilares da vita activa do homem. Tanto o trabalho quanto a obra – os outros dois pilares – são executados pelo homem em sua solidão, a partir das acepções que Arendt apresenta sobre trabalho e obra. Mas a política só se dá através do homem e entre os homens. Ou seja, somos seres essencialmente políticos e a literatura carrega, invariavelmente, a exposição do que um escritor é e pensa sobre o mundo a sua volta. Sem a política seríamos amebas vagando no mar do nada.
Vamos lembrar que a literatura abriga a diversidade do pensamento humano. Que há obras como “Escola de cadáveres”, de Louis-Ferdinand Céline, ou “O presidente negro”, de Monteiro Lobato, com um teor racista inquestionável. E que muitas outras, da mesma forma, vão se debruçar sobre as nossas mais primevas questões existenciais, dentre elas o preconceito baseado na diferença de origem ou de cor. “Amada”, de Toni Morrison, ou “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, por exemplo, abordam o racismo pelo viés histórico e social do colonialismo. É incômodo perceber que são obras que tratam o preconceito numa perspectiva histórica e que, ao se confrontar essas narrativas com o mundo contemporâneo, percebe-se que as mudanças são sutis e as formas de discriminação resistem apesar dos avanços.
Há algo incômodo na literatura contemporânea – e digo especialmente sobre a literatura produzida no Brasil. Como é uma atividade de uma classe privilegiada, ou pelo menos os autores que estão em evidência fazem parte dessa classe, os temas são majoritariamente afeitos aos dramas da classe média branca. Proporcionalmente, há um número menor de obras com personagens que representem a imensa diversidade da nossa sociedade. O racismo também existe no próprio fazer literário, não poderia ser diferente. Isso revela que há algo brutal em nossa história se repetindo, quando vemos persistir a discriminação ao senegalês ou haitiano que chega ao Brasil contemporâneo. Ou quando as relações entre patroas e domésticas nos fazem lembrar as relações de subalternidade mais vis do Brasil escravocrata. Ou quando abrimos um livro e não encontramos representações de nossa diversidade. Esse incômodo é que me fez conceber “A oração” como um painel, não de simples histórias distintas, mas capaz de apresentar um encadeamento de narrativas que nos lembrasse de que a história se repete. Não é por acaso que “Alma” abre o livro e é impossível pensar sua história desconexa das histórias de “Foi” e “Dominique” do conto “Meu mar (Fé)”, ou de Doramar. A imigração empreendida pelos ancestrais de Alma se repete da mesma África para o Brasil do nosso tempo. Esses imigrantes estão fadados a uma história de subserviência não muito diferente dos imigrantes do século XVII, XVIII. O papel de submissão dado pelo mundo a Alma se repete com Doramar, uma empregada doméstica que vive nos dias atuais, ou com “Foi”, a imigrante que vive deslocada em um país que não consegue acolher a diferença.
DA – No conto “Alma”, apesar das agruras vividas pela protagonista, notamos que paira nela um ímpeto que a encoraja a crer numa perspectiva de que algum dia sua existência cumprirá um sentido, digamos assim, mais pleno de liberdade. Há na narrativa a presença viva dos contrastes entre o pensamento colonizador e o colonizado. Diria que essa construção textual evoca uma necessária provocação, sobretudo para o que ainda testemunhamos em sociedade?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho que o sentido a que você se refere é uma premissa humana. Ou talvez seja uma premissa dos seres sencientes, se estendermos o desejo de liberdade aos animais. Há muitos anos trabalho com as histórias de comunidades negras rurais que estão passando por processos de regularização das terras que habitam. Em um desses lugares, encontrei a história de uma mulher escravizada que caminhou de Salvador até o Sertão Baiano – quatrocentos quilômetros de distância. Ela se tornou matriarca e fundadora de um agrupamento humano que resiste por quase duzentos anos. Só se sabe isso sobre ela. Não há registros além da história oral. Uma narrativa fabulosa, a princípio, e a ficção entra para preencher o que não se sabe sobre essa mulher: as motivações de sua peregrinação e o que encontrou pelo caminho. O que faria uma mulher cativa caminhar por um ambiente hostil, desconhecido, com possíveis perigos? A revisão da história social de nosso lugar indica as circunstâncias dessa migração. E a minha experiência humana, aquilo que nos une, incluindo a personagem Alma, permite emular esse sentimento supostamente universal de não estar subjugado e ser livre. É uma narrativa em primeira pessoa que opta pelo fluxo de consciência. Alma é a voz que narra personagens, episódios históricos e ações que marcaram sua trajetória. Essa foi a forma que encontrei de trazer à literatura a contundência da oralidade, do que pode ser narrado por gerações, resistindo e se transformando, quando as circunstâncias sociais e econômicas não permitem que haja registros documentais. A oralidade é uma forma de comunicação que antecede à escrita. Transmutada, é capaz de denunciar os incômodos que a humanidade, em seu processo civilizatório, não conseguiu transpor. Recentemente, fotografias de um mercado de escravos na Líbia se propagaram nas redes sociais. Em pleno século XXI nos deparamos com imagens que poderiam ser quadros de Rugendas representando a aflição de algo que talvez julgássemos ter acabado. Pelo contrário, os fantasmas continuam a nos atormentar. Escrever sobre uma mulher que precisou interromper o ciclo de violência que sofria, devolvendo a violência àqueles que a subjugavam, reflete essa provocação. Desmistifica, inclusive, que essa subserviência foi pacífica. No Arquivo Público do Estado da Bahia há importantes referências sobre crimes cometidos por trabalhadores escravizados.
DA – Há toda uma literatura dedicada às questões da negritude e que, no entanto, permanece ainda desconhecida por muita gente. Destacaria aqui, sobretudo, obras que se enquadram na perspectiva pós-colonial, cujos autores nos falam de mundos com suas narrativas e ambientações próprias, com o vigor que demonstra que não podemos olhar a África de modo homogeneizante. Na sua visão, que universos são esses que precisam ser vistos e lidos?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Os universos autóctones e da diáspora. Porque não basta ler a vasta literatura produzida no continente africano, é preciso compreender o seu legado para o mundo, principalmente para o continente americano e, mais recentemente, para a Europa Ocidental. A literatura pode ser um caminho para alcançar a história e o pensamento humanos a partir da perspectiva de nossa diversidade étnica. Tanto a literatura pós-colonial com seus mais diversos temas, desde o nefasto poder do colonialismo que vislumbramos na obra de Chinua Achebe e Chimamanda Adichie Ngozi até o trágico apartheid, tema recorrente nos romances de Coetzee e Nadine Gordimer, quanto a literatura diaspórica que pulsa de norte a sul do continente americano, são narrativas que confrontam o passado com o presente e nos despertam para a crise e o fracasso, em termos, de nossa civilização. Principalmente quando permitimos que as diferenças se tornem os mobilizadores das relações de poder que estabelecemos com nosso entorno. Nesse contexto a ficção pode comunicar a universalidade da experiência humana pela simples possibilidade de nos envolver numa trama de afetos onde somos convidados a todo o momento a ler o mundo a partir da perspectiva das personagens. Sem dúvidas é um interessante exercício de se transferir para o lugar do outro e conhecer suas vivências e experiências.
DA – Nesse conjunto de representações de mundos que precisam vir à tona através de uma arte como a literária, surge um componente de alta relevância, que é o das afirmações identitárias. Como tais sujeitos podem vir a se tornar efetivamente seres de ação no quesito que amplia uma via marcantemente humanista?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – A identidade é e sempre será relevante em contextos onde seja preciso realçar a alteridade. Já estive em comunidades negras rurais em que o racismo não era um problema aparente em suas vidas, a não ser quando precisavam resolver algum problema na cidade. Não fazia sentido um debate entre eles sobre a negritude, a não ser quando precisaram se confrontar com o Estado ou com outros grupos. Eu prefiro não tratar a identidade como um constructo fixo e imutável. Gosto mais do conceito de identificação que coaduna com a perspectiva do devir humano. Não somos seres imutáveis. Somos devires porque existe um movimento vital no homem, no mundo e no homem através do mundo. Esse movimento é fonte de transformações constantes. A identificação está baseada na diferença, e afirmar essa diferença como legítima e parte da diversidade humana é o que mobiliza as performances identitárias. Nenhum ser humano é composto de uma única identificação, nós somos muitas identificações sobrepostas, e algumas delas certamente se relacionarão com a de alguém a sua volta. Somos mulheres, homens, homossexuais, negros, índios, ateus, católicos, candomblecistas, e na trilha de nossa existência através do mundo nos reconheceremos. Agora, imagine que na trilha da vida, sem os artifícios que dispomos para o conhecimento, isso possa levar bastante tempo. Às vezes um longo tempo se pensarmos que nossos problemas são urgentes. Imagine também o poder da literatura, da música – e enfatizo o hip hop, o funk, o samba, ritmos que têm um forte apelo popular – da televisão, do cinema, das séries estrangeiras, que chegam com uma velocidade incrível na era da informação. A arte pode ser um valioso instrumento, não o único, mas certamente o que nos envolve com mais afeto e é capaz de comunicar nossa humanidade com grandes chances de êxito. Já que falamos de literatura, imagine o poder de “Stella Manhattan”, de Silviano Santiago, para comunicar a existência queer, ou “A pianista”, de Elfriede Jelinek, sobre a violência que cerca a existência da mulher. Ou o maravilhoso The Underground Railroad, de Colson Whitehead, que acabo de ler, para expor as agruras do racismo no continente americano. São obras ficcionais capazes de gerar empatia por nos permitir interagir no campo da imaginação com essas personagens. Ninguém sai delas indiferente ou ileso.
DA – É insuficiente considerar o papel da literatura por um viés de mera fruição estética?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Gosto muito do Milan Kundera ensaísta, além de ser um ficcionista excepcional, justamente porque seus ensaios estão despidos de um viés analítico e acadêmico. Precisamos dos artigos e pesquisas acadêmicas para o conhecimento. Mas seu alcance é limitado. Diferente dos ensaios de Kundera que primam por uma abordagem estética e humanista da literatura. Em “A cortina”, Kundera apresenta a literatura (romance) como a arte do conhecimento que existe e sobrevive por se debruçar sobre a experiência humana. Parte dessa existência e sobrevivência deve-se à fruição, uma característica que diferencia a arte literária de outros gêneros de escrita. A fruição estética abre um leque de possibilidades que permitem interpretações e reinterpretações sobre um mesmo texto. O leitor é peça-chave nessa engrenagem por ser afetado, na experiência pessoal e intransferível da leitura, de maneira distinta. Por ser fruição estética, sem nenhum demérito, é que a literatura tem seu alcance expandido e se torna um instrumento de conhecimento do mundo-tempo que vivemos.
DA – Diria que a sua escrita reflete um processo consciente e permanente de engajamento com as questões de seu tempo?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho inevitável que quem se debruça sobre qualquer atividade intelectual, sem a arrogância ou o peso que o termo intelectual possa evocar, está refletindo de alguma forma sobre seu tempo. Desde os primórdios tem sido assim. Não escrevemos para nós mesmos e muito menos sem a esperança de que o que escrevemos altere qualquer coisa. Escrevemos porque desejamos comunicar algo. Desejamos provocar emoções. A comunicação parece ser um atributo muito caro à espécie humana, desde a pré-história com a arte rupestre até a era da informação e a revolução digital. O que não cessou durante nossa história foi a nossa urgente necessidade de nos comunicarmos. Tenho uma visão muito dessacralizada do ato de escrever e, mesmo nutrindo um profundo interesse pela literatura e por quem a faz, não creio que seja diferente, na essência, das muitas formas de comunicação que o homem elaborou ao longo de sua história. Sei também que nem todo escritor terá algo relevante para comunicar, mas ainda assim sua obra será acolhida ou não a partir dos valores que os leitores e estudiosos irão lhe atribuir. Acho que quem se debruça sobre a escrita, ou qualquer construção artística que tenha a possibilidade de resistir ao tempo, deseja no fundo comunicar e provocar a reflexão, seja da mais íntima questão humana aos problemas mais complexos de nossa civilização. Uns superficialmente, outros detidos de forma mais profunda sobre essa experiência. Não vejo a minha escrita dissociada da minha própria experiência. Pretendo-a consciente, talvez por isso engajada. Mas há arte inconsciente e que não seja engajada em seus próprios parâmetros? Essa é uma questão, não tenho a resposta. Atribuí a mim, como creio que fizeram os meus pares do passado e do presente, a intenção de dar um testemunho pessoal sobre o meu tempo. Um testemunho pequeno, mínimo, da história em face à nossa grande diversidade enquanto espécie. O que seria minha vida, e a de qualquer escritor, dentro do grande tempo da história humana? Talvez possamos narrar um átimo dessa longa jornada. Fiz essa escolha por circunstâncias que não seria capaz de explicar. Ao mesmo tempo pode parecer uma presunção considerar que somos capazes de aprisionar em uma narrativa uma versão de nosso tempo. Pode parecer soberba assumirmos esse lugar de narrar uma história. É e sempre será uma posição delicada, ainda que estejamos autorizados por nossas convicções a escrever.
Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal
DA – O grande afluxo de novos escritores parece instaurar um outro momento para a literatura brasileira. Nesse percurso, as plataformas digitais assumem um papel fundamental como viabilizadoras de espaços dotados de considerável autonomia criativa. As produções não cessam e se avolumam num ritmo até certo ponto frenético, algo que pode comprometer a qualidade do que é escrito, pois, em alguns casos, o desejo urgente de ser publicado ignora todo um processo de maturação e profundidade necessários a uma obra. São tempos de pressa estes em que vivemos?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – São tempos urgentes, não só para a escrita. Talvez seja cedo para esboçar uma reflexão sobre o que está ocorrendo. A princípio vejo a democratização do acesso à publicação como um avanço por permitir que obras que não seriam acolhidas pelas grandes editoras cheguem ao público, ainda que essa circulação seja restrita. São livros que, graças às plataformas digitais e às pequenas editoras, têm tornado possível a construção de uma bibliografia que é ainda um pequeno panorama da nossa diversidade enquanto sociedade. Sobre isso não há dúvidas: obras de qualidade têm encontrado espaço no segmento das pequenas editoras. Basta observar as últimas premiações. Em contrapartida, vivemos um tempo de exposição de ideias e imagens de forma instantânea nas redes sociais. Somos a imagem que projetamos para essas janelas de comunicação. Há, sem dúvidas, uma glamorização da atividade do escritor e isso faz com que qualquer um, tendo habilidade ou não, se proponha a exercê-la. Mas isso não chega a preocupar porque se forem muito ruins não resistirão ao crivo das primeiras críticas de leitores e especialistas. O que persiste é que estamos num país com baixos índices de leitura comparado a outras nações em desenvolvimento. Dentre os possíveis leitores há ainda um grande caminho a percorrer. É preciso construir uma política pública que fomente a formação de leitores.
DA – Somos um país de leitores subestimados?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Somos um país em que a educação, até o presente momento, não foi encarada como um propulsor de desenvolvimento humano. Fôssemos um país que levasse a sério a educação, teríamos certamente mais leitores. Segundo pesquisa do Instituto Pró-Livro, quase metade da população não tem o hábito de ler. Um terço nunca comprou um livro. Mas quase todos carregam um smartphone, correto? Estão conectados às redes sociais e à internet. E como dispõem do tempo e da tecnologia? Certamente essas “escolhas” explicam em parte nosso retrocesso em questões de direitos humanos e nossos persistentes problemas sociais. Uma população não educada tem menos chance de participar e colaborar ativamente das instâncias de decisões. Tem menos chance de refletir criticamente sobre o mundo e seu tempo. Pode ser facilmente manipulada. Vamos lembrar, para não perdermos o hábito de falar de literatura, de “O conto da aia”, de Margaret Atwood, e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury. Onde foram parar os livros na República de Gilead? Para onde a supressão da circulação de conhecimento pode levar a humanidade? Além dos nossos problemas estruturais de educação, há um particular desinteresse do poder público em investir em políticas de formação de leitores. Num país com mais de 200 milhões de habitantes, onde quase metade da população não tem o hábito de ler, o que poderíamos ser se compartilhássemos leitura, interesse e conhecimento de forma democrática?
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas ao qual chamamos de pós-modernidade?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Sou um espectador, com participação mínima na vida ativa de meu país. Pior, sou um espectador desatento, alterno horas de pretensa atenção e horas de devaneios. Não é um lamento, digo isso conformado. Sou um leitor em primeiro lugar. Para cada mil livros que leio deverei contribuir de forma tímida com um que escrevo. E observo nosso tempo com muita confusão e poucas conclusões. Reflito diariamente, mas sem exigir de mim mesmo uma definição sobre as coisas. Sabe como vejo o mundo? Como observo nossa jornada através da história? Como se lesse algo que acabo de escrever e que vou modificando, entendendo de uma nova forma, percebendo as movimentações de palavras e sentidos numa frase, num parágrafo. Mesmo depois de ter revisado doze vezes e receber o livro da editora, se não quiser sofrer, não o lerei para não querer reescrever depois de impresso. É como leio traduções ou um livro qualquer: começo a arrumar as sentenças como se fossem minhas. Quando percebo minhas divagações retorno para meu papel de leitor novamente. Observo essa fluidez e velocidade próprias de nosso tempo com espanto. As transformações são vertiginosas e na vertigem perdemos momentaneamente o autocontrole. É como um livro novo que faz você ler e subverter todas as coisas que aprendeu até aqui sobre escrita e leitura. Mas penso que esse estranhamento deve ter existido durante toda a jornada humana com intensidades diferentes. Quando leio Lima Barreto, penso nas inquietações de seu tempo, que transparecem em sua obra, e o que remanesce até o nosso tempo de tudo que ele possa ter refletido ou não. Estar no presente, engolido pelo caleidoscópio da história e do tempo, não garante o distanciamento necessário à reflexão.
DA – Quando poderemos dizer que um autor obteve sucesso com seu ofício?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Quando um único leitor vier até ele para dizer que um parágrafo do que escreveu lhe provocou alguma reflexão. Isso é o que espera quem publica, quem compartilha pensamentos e escritas com o público. Quando publicamos algo, por qualquer meio, não sabemos em que mãos irá parar. Mas se alguém que lhe desconhece escreve um e-mail ou indica a leitura de seu trabalho é porque algo pode ter ocorrido na experiência entre narrativa e leitor. A vida de uma obra só se ilumina nesse espaço “entre”. Uma obra não tem vida ao ser escrita ou enquanto está na imaginação de um único homem ou mulher. Ela ganha vida a partir do contato. É um espaço mágico onde a paixão pela experiência humana irá ocorrer. Imagino o que diria se encontrasse os escritores que me incendiaram de paixão pela leitura e escrita. O que diria sobre suas obras que não me abandonam mesmo passado tanto tempo. Como elas contribuíram para o que sou. Sei também que virão muitos autores, talvez alguns ainda por nascer, que me trarão essa mesma paixão. Um autor só obtém êxito com seu ofício quando consegue iluminar esse espaço entre a obra e o leitor.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
que espetáculo é a palavra crepúsculo!
labirinto-oceano
estrela cadente que valsa céu abaixo
segredos de água-viva
do navio projeto-me em concha, um par de mãos dadas
vieira-vênus: ……………………(explosão da aurora)
que palavra é estrela senão chuva?
***
LOVE SONG
quando você me aperta o coração
cortando da gaivota
o silêncio
da solidão, o frio
aprendo aos poucos os acordes de “La Vie en Rose”
te dou metade da palavra amor
e espero do caminho, ……….a outra metade
***
TROCO EM BALAS
Para Angélica Freitas
hoje troco quase tudo por açaí
e tranco a chave
hoje troco a vereda pela exaustão do caminho mais longo
troco a corneta pela flauta doce
hoje troco farpas por gentilezas
e deixo anotado na porta da geladeira
hoje troco quase tudo por bala
troco a dieta por milk shake
troco o reiki por haicais
hoje troco passeios em Vênus por meias voltas pela casa
deixo o vento ser uivo em meus cabelos-redemoinho
hoje troco quase tudo por nada
troco nada por açaí e balas
hoje troco arqueiros por flamingos
e ensino o alvo
troco a Via Láctea por farinha láctea
hoje troco quase tudo
e passo o troco em balas
***
TOTALIDADE
I
abrir a porta quieta
ouvir o choro violáceo da viúva
o coro do breu
aqui comigo
uma aliança
a infância revestida inflama
cintila o inconcebível fim
posto que o vento perturba
mexiam também as pétalas
separando-se do botão
diminuída em si a ternura
abro a boca que desde a aurora silencia
trago-o de volta
percebo num instante a demora
em um sonho revela-se
a carta da morte
a totalidade do corpo
II
a floresta de noite em
compasso
de longe a chuva
quebra gravetos
fora de mim, há
pessoas chorando de medo
a hipnose é um veneno
miosótis
há pessoas morrendo lá fora
muitas
III
o sol quebra por trás dos prédios
desmaiando em cinza inglória
a morte silenciosa
IV
onde estaremos amanhã?
V
deitados
na grama
olhando
a chuva
se aproximar
de repente
***
POEMA DO INFINITO
Para Fabiano
tâmaras maduras em teus quadris
corpo em flor de anis
escapa vivo num torso místico:
todo o profano
Aruanda é aqui
nesta cama
o tempo, naquele instante
um tear
vislumbrando no outro a própria estranheza
(carne e cios duros)
castelã com unhas de gatos
costas arranhadas
hímen e rins como animais em asas
falena volteia erguido libertino
não coma a borboleta
(veneno e lua lambem a mesma boca)
sinédoque doce Shiva
num toque de chuva
abraça vísceras sem palavras
por último, lâmina-lança
bruta serpente calada
(Aruanda, nossa eternidade)
éter, clarim
todos os sentidos
chama
e chuva
Natália Agranasceu em Maceió, Alagoas, em 1987. É poeta e jornalista. Acaba de publicar seu livro de estreia: “De repente a chuva” (Corsário-Satã,2017).
Era uma cidade no meio do mato. Um desses fins de mundo onde você não encontra outdoors, flanelinhas, engarrafamentos, nem o M da McDonald’s. Lugares assim a solidão chega antes da novela das oito. Então perguntei ao vendedor de algodão-doce. Ele me garantiu a localização exata do puteiro.
Eles chamavam o lugar de Castelinho. De um lado, uma borracharia. Do outro, apenas mato e uma cerca torta. Nenhuma lâmpada acesa do lado de fora. Mas era possível escutar alguma música tocando fogo lá dentro. Havia esse tipo com boné sentado numa bicicleta. Apoiava-se entre uma Kombi e o portão de entrada.
– E aí, campeão – eu disse – as meninas estão no serviço?
– Estão. Você é de Salvador?
– Sou. Desculpa qualquer coisa.
– Quer ovo?
– Devagar, que história é essa de ovo?
– 7 reais, a dúzia. Galinha de quintal.
– Parece bom. Mas hoje só quero uma xotinha caipira.
– Mas se quiser ovo, meu nome é Zé da Monark.
– Tudo bem, Zé.
O cheiro de buceta parecia grudado nas paredes do Castelinho. Havia pouquíssima luz, mas achei uma mesa no canto. Do outro lado, um grupo apostava a vida e a morte numa mesa de sinuca. Incrível como esses caras do interior manjam de sinuca. De sinuca e de fazer cálculos rápidos. Havia também um pequeno salão onde dois casais dançavam uma versão brega de One, do U2. Apesar da música, eu escutava o choro de uma criança chegando de algum lugar daquele inferno. Claro, havia também as mulheres. Putas feias e mal vestidas. Sentadas no colo da rapaziada, bebericavam cerveja, riam das desgraças. Já que eu estava por ali, pensei em procurar a dona do Castelinho. Sempre achei que trepar com a dona de um brega era como chegar à fase final e encarar o chefão de um videogame. Então esse sujeito se aproximou. Alto, branco, pele avermelhada, quase careca. Parecia muito puto com a vida que Deus lhe reservou. Não sei dizer se era canhoto, mas não tinha o braço direito.
– O QUE VAI QUERER? – disse.
– Me diz uma coisa. O estabelecimento tem um proprietário ou uma proprietária?
– MINHA MÃE.
– Ah…
– O QUE VAI QUERER?
– Vodka.
– SÓ TEM CACHAÇA.
– Serve.
– MAIS ALGUMA COISA?
– Desculpa perguntar, mas sua mãe parece com você?
– PARECE. MAS O NARIZ É DE MEU PAI.
– Então me vê só a cachaça.
Logo o herdeiro do castelo trouxe meu copinho.
– Cara, acho que tem alguma criança chorando por aí – eu disse.
– É MEU FILHO.
– Então tá em casa…
– MAIS ALGUMA COISA?
– Tudo certo, chefe.
Lá se foi o paizão. Dei o primeiro trago e fiquei ali tentando lembrar como a vida me trouxe até aquela mesa. A minha falta de adequação. A falta de grana. As escolhas erradas. Os anos que passavam. A vida encolhendo e se escondendo no meio do mato. Então dei mais um trago e notei aquela puta sentada no fim do balcão. Ao contrário das outras, estava só. Não bebia, não ria. Só estava ali, no escuro. Esquecida. Essa mania de me identificar com os desprezados me fez levantar e me aproximar do balcão. Morena. Cabelos longos. Um pouco magra além do ponto. Mas a novela já havia acabado faz tempo e eu estava subindo pelas paredes.
– Qual o seu nome?
– Arlene.
– Por que está sozinha, Arlene?
– Não gosto das pessoas.
– Inteligente da sua parte.
– Você também não tem amigos?
– Só um. Zé da Monark.
– 50.
– O quê?
– Chupo, dou o xibiu, faço ver estrela.
– É tudo que preciso, Arlene.
Arlene me puxou pela mão e me levou por um corredor sem fim, onde você só escutava as putas se divertindo e o choro estridente do bruguelo. O quarto era escuro. Só uma cama e uma cortina na janela. Arlene sentou e começou a chupar. Pedi um tempo. Corri pra janela, mas vomitei na cortina. De repente, a criança parou de chorar. Respirei um pouco o ar gelado e aquilo me fez bem. Então bateram na porta. Bateram forte. Abri e era o Canhota. Com um só braço, o escroto fazia um barulho desgraçado.
– Vai me dizer que Arlene é sua irmã? – eu disse.
– TERMINOU?
– Como assim?
– TEM MAIS GENTE QUERENDO O QUARTO.
– Você que manda, canhota.
– ANDA LOGO. E NADA DE BATER NA MOÇA.
Voltei pra Arlene. Mandei ficar de quatro, botei a camisinha e enfiei. Quer dizer, acho que enfiei. Ou meti no meio das pernas, não sei, talvez minha ferramenta não fosse compatível, só sei que eu não sentia as paredes. Veio a suadeira. E o suor ardia nos olhos. Foi uma luta, uma caçada, a batalha do século, vi estrelas e cometas, mas consegui terminar. Então Arlene se levantou, acendeu a luz, se vestiu e ajeitou o cabelo. Foi quando peguei um lance estranho. Parecia que Arlene não tinha um olho. Ou era um olho de vidro. Ou era uma mancha branca. Deixei soltar um “puta que pariu!”.
– Algum problema? – disse.
– Ham?
– É meu olho?
– Que olho?
– Se incomodou com meu olho?
– O que tem seu olho?
– VOCÊ JÁ SE OLHOU NO ESPELHO?
– Não tem nada demais no seu olho.
– VOCÊ TAMBÉM É FEIO!
– Arlene…
– VOCÊ É MAIS FEIO QUE DOR NO RIM!
– Calma, Arlene. Vai acordar a criança.
– VOCÊ É FEIO COMO A DOR DA MORTE!
– A gente não precisa disso, Arlene. Vamos ficar numa boa. Olha, vou te dar 100. Você é linda, Arlene. Você é linda.
Arlene sorriu na mesma hora que escutamos o bracinho pesado do Canhota. Então fizemos as pazes. Depois tomei mais um trago e deixei o Castelinho. No caminho de volta, enquanto respirava aquele ar gelado, comecei a imaginar. Eu podia abandonar tudo, morar naquela cidade perdida, casar com Arlene, montar uma mercearia bacana. Esquecer a cidade que me esquecia. Uma vida sem fila pra entrar em elevadores. Pensamentos que se perderam com os latidos de uma suruba de vira-latas. Eu precisava descansar. O ônibus saía às seis. Acertei relógio pra 5h45. A rodoviária ficava bem ali ao lado da pousada de portão amarelo.
Paulo Bono nasceu e cresceu nas ruas da Lapinha, em Salvador. É flamenguista, publicitário, escritor e roteirista. Publicou Espalitando (Cousa, 2013, Contos e crônicas), participou da coletânea Casa de Orates (Mondrongo, 2016, Contos) e escreveu O Garoto (Saturno Filmes, 2014, 14 min.).
Ventos de dentro, quando nascem e tomam corpo de gente, ignoram contenções. Precisam soprar e dançar nos quintais dos dias, das noites e das madrugadas. Precisam varrer emudecimentos, rodopiar nos terreiros de que somos feitas/os, acordar o chão e lançar nuvens de poeira ocre-vermelho-cobre no mundo. Esses ventos são abalos necessários que incham de vida a arte e de arte a vida; só têm significância se sentidos por outres também atravessades por dentro (esse espaço ainda nem tanto conhecido) – cada qual ao seu modo de intensidade(s).
Ventos profundos e dançadores têm espalhado para outras paragens o universo sonoro de Rafique Nasser. Nascido e vivido em Valença (território cultural do Baixo Sul Baiano), com seus 19 anos, esse jovem negro do quintal de si dialoga bela e intensamente com o vasto acervo do cancioneiro nordestino setentista: Fagner, Ednardo, Orquestra Armorial, Ave Sangria, Lula Côrtes e Zé Ramalho manifestados nos poderes do invisível em Paebirú (e tantas outras possibilidades musicais daquela década vibrante). Também Rafique Nasser acolhe em si outras cantorias no que há de mais esperançoso, logo afrontoso: quem sabe um Dércio Marques na sua potência sonhática, por exemplo. Esses sobrevoos de Rafique reverberam aqui e acolá no EP Arado (2017).
Num ano bastante ebulido no cenário musical baiano, Arado, primeiro registro sonoro de Rafique Nasser, ficou entre os dez finalistas na votação de melhor disco de 2017, organizada pelo site El Cabong. Muito bem produzido no interior da Bahia, o EP reúne compositores e músicos de Valença, Ilhéus, Itabuna, Ipiaú, o que me faz pensar num elemento a mais dessa profundeza, desse lado de dentro que é tão saltante em Arado. Não por estar nas indicações do El Cabong esse EP captou a minha atenção. Conheci Arado a partir da indicação virtual feita por um amigo. E confesso: dei o play em casa mesmo, nos trânsitos de afazeres de casulo. Logo na abertura, suspendi as movimentações domésticas e fui colecionando pequenos assustamentos provocados por deliciosas descobertas. Foi primeiramente na interioridade do casulo que fiz o mergulho (novamente o lado de dentro).
Rafique Nasser / Foto: arquivo pessoal
Fiquei e fico sem poder baixar a guarda da esperança quando me re-inaugurei (e continuo reinaugurando-me a cada nova sessão sonora) ao ouvir o EP de um jovem que, com menos de vinte anos de permanência neste mundo, salta para trás e nos traz um caçuá transbordante em diálogos musicais. Rafique Nasser chega e não vem só. Uma falange de cantadores (os de ontem, os de hoje, todos permanecentes) toma assento e lança focos de incêndio nas nossas profundidades – que resguardam os sonhos, amores, as esperanças políticas. Já na primeira música, manifestado em psicodelias cortantes, Rafique brada e canta com a rouquidão macia de quem muito tem a dizer ao mundo: “Depois da bomba atômica vem/ um cogumelo para nos alimentar” (Rafique Nasser, Na Valença)
“O rasgo na terra é preciso” (Rafique Nasser/Ayam Ubráis, Arado). Diria que certeiro, necessário. Daí brotam os sentidos do novo, dos poderosos frutos teimosamente gestados em tempos tão ameaçadores quanto estes que nos cortam a experiência de existir. E assim é Arado: “esse canto torto”, que fere a inércia e alimenta movimentos de re-existências. Sensivelmente gestado pelas vias da marginalidade e camaradagem artística, esse EP pode ser acessado nas principais plataformas virtuais e vem como intenso chamamento para que a gente, do lado de cá, avie, tome rumo e corra trecho negando a imobilidade que parece ter se transformado no mote do agora que nos é imposto. São cinco canções, cinco chamamentos, cinco desafios/ventos de dentro, cinco intensidades imãtizando as nossas veredas do sensível.
Penso Arado como inauguração do jovem músico Rafique Nasser e também (re)inauguração nossa. Ver Rafique Nascer em poetência sonora é enxergar em nós ovo das esperanças cortantes, é “Deixar que Deus se vingue por nós/ já que o nosso algoz/ está sentado no trono do poder” (Rafique Nasser, Nessa terra). E assim, Rafique, nascido, vai conosco (re-inaugurades) cosendo e colhendo ameaças ao desencanto, dançando em pontas de facas e lançando ao mundo canções cortantes que mantêm “teso o arco da promessa”, como bem diz outro baiano, Caetano Veloso. Com olhar poético e voz dissidente, Rafique Nascer, acompanhado por tantes, é também o que eu chamo de “interrogação vagando com pressa”. Daí a experiência imprescindível de ouvi-lo em Arado.
Daniela Galdino (BA) é Poeta, Performer e Produtora Cultural. Docente da UNEB. Como Poeta, publicou Espaço Visceral (Editora Segundo Selo, 2018), Inúmera/Innumerous (Mondrongo, 2017), Inúmera (Mondrongo, 2013), Vinte poemas CaleiDORcópicos (Via Litterarum, 2005). Organizou Profundanças 2: antologia literária e fotográfica (Voo Audiovisual, 2017) e Profundanças: antologia literária e fotográfica (Voo Audiovisual, 2014).
Caía.
Transpunha a solidez
dos fatos para a solidão
dos fetos.
Bati em retirada
ao ter cobertos os cílios
pela força dos ventos. Nunca cheguei
ao destino. Meus olhos extraviavam
o peso…….largo…….da..expectativa.
***
meus ombros emigram de mim para os pássaros
Manoel de Barros – Poesias (1947)
meus ombros transitam. partem
de mim à procura de pássaros, cujo voo
leva o vento nas costas e o dorso
se erguia forte frente ao contraponto
da velocidade. na trajetória das asas,
perdia-se o rumo das coisas e só restava
o que pendia do espaço entre o pescoço
e o resto do corpo.
os ombros estão presos
ao futuro dos pássaros,
são indícios
para o mergulho dos homens
na envergadura dos braços.
***
o que de mim se vê perde-se
nos estilhaços do meu nome
uma teoria acústica se erige
pela subjetividade sonora
da palavra que nunca serei
mas os retalhos recobram
a difração do eu atado
à imagem muscular
nascida do encontro entre a voz
e o estrondo mudo dos tecidos
***
e se de repente
se repetisse
o gesto não
como uma agonia
acostumada,
mas somente aquela
pontada
aguda que segue o ritmo
inalcançável das flores?
o tempo indigno
das mãos deita sobre
a face desconhecida
do espelho. a imagem
ali nascida observa
tudo que se reflete
e vê
na repetição ardida
dos olhos
o ineditismo perdido
das rugas.
quisera eu ter mais tempo
para me jogar naquela piscina
azulejada que forma uma linha
côncava perpendicular
ao espelho imperfeito da água
e assim surpreender .meus mergulhos.
***
toco o muro. nele,
digitais encrespadas
pela sílica,
pelo cimento,
pelo tempo
que comeu a superfície chapiscada
em lances rápidos de movimentos
ensolarados.
cai a chuva.
tudo que é vivo se molha.
achei pensamentos
suspensos pelo carro
que passava em alta
velocidade e lançava
contra o muro minhas
mãos encorpadas d’água.
a chuva molhava
a rua e o movimento
rápido dos pés,
dos pneus.
não sei o que fazer
quando retirarem minhas mãos
do muro. ficamos ligados
como meninos achados na chuva.
era uma simbiose,
quem sabe.
***
POESIA
tinha uma janela escancarada no meio das costas por ela se previa a quadrangular visão do que se infiltrava radiante POESIA ERA OS BRAÇOS SE ENVERGANDO ANTE A BRUTALIDADE SURDA DOS VENTOS havia um fenômeno aquoso transbordando os olhos tudo era fluido e delirante nada se via pela secura das pálpebras POESIA ERA O ABRIGO DO ESCURO ENTORNANDO nas calçadas por onde andava colecionava a desorientação dos passos sempre encontrava chinelos trocados sempre eram mais calçados entulhados até o ponto de imprimir ansiedade nos adereços do chão POESIA ERA O QUE SE PERDIA tinha um POEMA escancarado no vão das costas tinha
POESIA
Fábio Pessanha é poeta, doutorando em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Publicou ensaios em periódicos sobre sua pesquisa atual, a respeito do sentido poético das palavras, partindo das obras de Manoel de Barros e Paulo Leminski. É autor do livro “A hermenêutica do mar” – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos e coorganizador do livro “Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento”, além de participar como ensaísta em outros livros.