Contos que traduzem a conflitante realidade do povo negro brasileiro
Por Geraldo Lima
Cristiane Sobral [poeta, escritora, atriz, diretora e professora de teatro, nascida no Rio de Janeiro e radicada em Brasília] é uma das vozes mais contundentes da literatura negra brasileira. E, ao falar de literatura negra, falo do texto literário (poesia ou prosa) que, segundo Zilá Bernd, no seu livro Introdução à literatura negra (Editora Brasiliense, 1988, pág. 95), “configura-se como uma forma privilegiada de autoconhecimento e de reconstrução de uma imagem positiva do negro”. É, também, literatura que tem o compromisso de denunciar a discriminação racial e o quadro de exclusão em que vive a maior parte da população negra no Brasil. É, em suma, uma literatura que se propõe como militante, engajada, com todos os riscos que isso acarreta. E é assim nos dezoito contos que compõem o livro O tapete voador (Editora Malê, 2016), de Cristiane Sobral.
Nesse seu livro, Cristiane Sobral nos dá mostra de como esse tipo de narrativa se propõe como objeto estético e, ao mesmo tempo, como instrumento de conscientização do indivíduo negro sobre a importância de assumir a sua verdadeira identidade racial e cultural. O confronto, aí, é contra a ideologia doembranquecimento. A estratégia, nesse caso, é tomar uma situação cotidiana que exponha o problema da discriminação racial ou do conflito identitário do negro brasileiro, de modo objetivo, quase didático, de maneira que o leitor saia da leitura do texto com sua consciência mudada, ou, na linha do que alguns dos contos de O tapete voador sugerem, renasça com nova identidade cultural ou resista sem abrir mão das suas convicções raciais.
De imediato, ficamos tentados a ver nesse tipo de procedimento literário um defeito ou uma pobreza estética, ao qual faltaria sutileza na construção da narrativa e na representação psicológica das personagens. Sobre isso, nos alerta Zilá Bernd (ibid., pág. 98): “Assim, em literatura negra, a questão de avaliação do nível estético atingido não deve se pôr como elemento exclusivo de análise, ou como preocupação única da crítica. Jack Corzani, autor da importante obra La Littérature des Antilles-Guyane Françaises (1978), (…) recoloca o problema de privilegiar o estético no estudo de obras que se querem essencialmente funcionais, concluindo que esse critério corresponderia a condenar a pesquisa, a priori, à esterilidade”. Assim, devemos ver, em primeiro plano, o caráter de funcionalidade desse tipo de procedimento narrativo para explicitar, no caso, os problemas raciais e sociais que afetam o negro brasileiro.
E é de modo consciente e corajoso que Cristiane se equilibra entre estes dois polos (o estético e o ideológico) na construção dos dezoito contos que compõem esse seu livro. A sua habilidade na construção da narrativa que privilegia o elemento estético e a fabulação fica visível no conto Bife com batatas fritas. Nesse conto, a questão estética e a temática social são bem articuladas, de modo que o leitor não tem como não se comover com o quadro de miséria e orfandade de uma criança de periferia. Esse é, aliás, um dos melhores contos do volume e poderia figurar em qualquer antologia dos melhores contos brasileiros. No conto O limpador de janelas, o que chama a atenção é o modo como a narrativa se constrói a partir de frases muito curtas, fragmentadas, o que torna o ritmo acelerado e surpreendente, dando conta das várias peripécias amorosas do protagonista. Ao final, o personagem Samuel, um quase pícaro, um “pegador” nato, verá que a sua condição de negro em terras tupiniquins vai sempre lhe reservar surpresas desagradáveis. Por falar em final, é de se observar que há, propositalmente, um elevado tom de idealização em alguns casos, beirando o inverossímil, como o que acontece no conto Metamorfose, em que tudo acaba exageradamente bem.
Ainda que predomine o realismo, algumas histórias flertam com o fantástico, como nos contos O galo preto e A samambaia. O tom de sarcasmo, de deboche e de ironia molda algumas dessas narrativas, tornando ainda mais agudo e crítico o olhar da autora sobre os episódios de discriminação racial e de negação da própria negritude, como é o caso dos contos Lélio e Afrodisíaco (neste, ironiza-se o propalado vigor sexual dos negros). Ora narradas em terceira pessoa, ora em primeira – nesse caso, majoritariamente narradas por mulheres –, as histórias compõem um painel de situações variadas em que o indivíduo negro se vê frente a frente com a questão do preconceito racial, da miséria ou da crise de identidade. A subjetividade feminina é também ponto de destaque nessas histórias de enfrentamento e reconstrução da imagem, como nos contos Vox mulher, em que a protagonista expressa, numa linguagem marcadamente poética e intensa, seus desejos e seu orgulho de ser mulher negra, e Pixaim, no qual uma mulher rememora, de modo comovente, sua infância passada no Rio de Janeiro e marcada pelo sofrimento de se ver obrigada a mudar sua imagem, com o alisamento desastroso do cabelo, e reafirma, já residindo em Brasília, seu orgulho e sua alegria de se ver no espelho como ela realmente é: uma mulher negra e madura. “A gente só pode ser aquilo que é”, afirma ao final, num claro recado aos que procuram negar a sua origem.
Nem sempre os personagens são pessoas que negam a sua negritude. Algumas, pelo contrário, assumem a sua ancestralidade e suas características negras e as defendem com convicção. Tomemos, como exemplo, o conto O tapete voador, que abre o volume, e o conto Renascença, que o fecha. No primeiro conto, narrado em terceira pessoa, a personagem Bárbara, de origem humilde e orgulhosa da sua cor, é funcionária de uma grande empresa e tem o reconhecimento pelo seu trabalho. No momento, ela pretende se aperfeiçoar mais ainda e pede o apoio da empresa para fazer uma pós-graduação. Mas qual não será o seu espanto e a sua decepção ao ser levada à presença do presidente, que deve autorizar esse apoio, e encontrar lá, no posto mais alto, um homem negro? A decepção ficará por conta do que ele, partindo da sua estratégia de ascensão profissional e social, vai lhe aconselhar a fazer em relação à sua aparência. No segundo conto, também narrado em terceira pessoa, encontramos a personagem Teresa prestes a romper com a sua orientação religiosa. Negra, charmosa e orgulhosa da sua cor, sente-se preterida pelos homens negros da igreja evangélica que ela frequenta. “Teresa gostava muito da sua igreja, mas seu corpo negro também sentia naquele ambiente o peso do preconceito, da discriminação. Isso gerava muitos questionamentos. Por que não despertava o interesse dos rapazes da congregação? (…) O fato é que, naquela comunidade, os homens negros normalmente costumavam casar com mulheres brancas…” O fato de ser independente e ter um estilo próprio (“não alisava os cabelos”), chocava os outros fiéis, e sempre era aconselhada a mudar a sua aparência. Assim como Bárbara, só lhe resta resistir e ir em busca de um convívio em que seja valorizada sem precisar negar a sua identidade racial.
Num país em que a representatividade da população negra é baixíssima nos meios literários, nos quais circulam com maior desenvoltura as obras dos autores brancos e das autoras brancas, é de se celebrar o trabalho de escritores e escritoras como Cristiane Sobral, que dão voz e vez em suas narrativas e poemas à nossa gente tão excluída.
Geraldo Lima é natural de Planaltina-GO e reside em Brasília, DF. É escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas, “Baque” (conto, LGE Editora), “UM” (romance, LGE Editora), “Tesselário” (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco), “Trinta gatos e um cão envenenado” (teatro, Ponteio Edições) e “Uma mulher à beira do caminho” (Editora Patuá). Participou de algumas antologias literárias e tem textos publicados em jornais, suplementos literários, revistas impressas e revistas eletrônicas, sites e blogs. É autor do roteiro do longa de ficção “O colar de Coralina” – direção de Reginaldo Gontijo – e da peça de teatro “Trinta gatos e um cão envenenado”, encenada em 2016 em Brasília. E-mail: gera.lima@brturbo.com.br
[sem magia]
crio rituais para ser sozinha
como se a solidão
quisesse jantar
todas as noites
mas nunca chegasse a tempo
ela encontra meu corpo
recolhido
e
deita
em silêncio
como se cavasse uma cova
para uma multidão
desconhecida.
***
Construção
Este é o corpo
que funciona com
cordas suturadas
por andaimes
imaginários
o aço o sonho
o esquecimento
o sol o quadrado
o dia o estômago
o sexo o suor
as flores do outro
lado da rua
dançam todos
pendurados
sem grandes
promessas
—- Ouve o teu corpo
nascendo dos arcos inflamados
do fim de todo caminho
—- Ouve o teu corpo
nascer
Somente o que é possível
ser criado no vazio
– recitar poetas vivos
– boicotar o sex shop
– pular de viadutos esquecidos
– expectativas alcançadas.
***
a apoteose dos anos é o silêncio.
a última partida
quando soltei
a tua mão
descobri que nunca
gostei de futebol
perguntar sobre o jogo
era uma forma de
te amar
longe de mim
– hoje vago
como se estivesse
numa arquibancada
vazia –
[aquela escada
já desmoronou
pensei que tuas costas
fossem minha babel]
o último letreiro da partida:
“a felicidade é uma arma quente”
quando subi no ônibus
vi as janelas todas
decidindo
a loucura
o desastre
o grande desencanto final
rezei com todos os idiomas
do desespero
“protège moi
protège moi”
despi a cidade
com a violência
de uma criança
destroçada.
***
Isabel é codinome para partir
08h ela me acordou
08h30 eu assoprava o café
o café
doce demais
fraco demais
ausente
08h35 ela ajeitava a toalha da mesa
repetidamente
08h46 eu respirava mais baixo
09h ficaríamos em silêncio
perpetuamente
09h43 ela me comeu
11h57 eu ouvi o portão
gritar
entendi todas as cores
do mundo
todo o cheiro
desapareceria
todo o céu
seria uma parede rachando
uma rua em desencontro
um vulto do futuro
11h59 ela havia partido
definitivamente.
***
o outro lado do mundo alguém acerta sem saber
o amor devia ser assim feito preparar cuscuz
a gente mede a quantidade
com a xícara preferida
tem gente que nem precisa mais
mede pelo olho
pela boca
pelo cheiro
vai molhando aos poucos
e aperta
aperta
fica com a mão toda cheia de pequenos
cuscuz
porque antes a gente não podia
tocar
primeiro a gente molha
e desmancha as partes brutas
daí precisa esperar
porque o amarelo não vai brilhar
só vai absorver aquela água
não me pergunte como
a gente prepara a cuscuzeira
deixa uma outra água separada
porque o tempo vai fazer a gente
esperar
que essa outra água se transforme
mude de corpo
e encontre o cuscuz
para aquecê-lo
porque o amor deveria ser
o cuscuz na cuscuzeira
porque a gente sabe que não pode sufocar
o jeito que ele cai
nessa cuscuzeira
é determinante
não pode apertar desta vez
presta atenção
às vezes ele fica seco
às vezes ele fica molhado
às vezes ele vai embora
pelo ralo
porque
veja só
é muito complexo
encontrar alguém que acerte
pode ser a senhora da barraquinha de café
pode ser uma estrangeira
pode ser a sua vizinha
mas é muito difícil.
Teresa Coelho é recifense criada em Bonito (PE). Acredita no vulto dos desconhecidos, gosta de beber cerveja sozinha e lê poemas para as paredes. É graduada em Letras – Português/ Licenciatura pela UFPE. Publicou poemas na mallarmargens revista de poesia & arte contemporânea (RJ), no livro A TORRE: antologia de poesia confessional, cartas e diários íntimos (Castanha Mecânica, 2017), nas revistas Malembe (PB) Garupa e nos zines NAUvoadora (PE) Lambadaria (PE).
Entre aquilo que consideramos realidade e o que é produto de nossos arroubos imaginativos, parece haver uma linha tênue e quase invisível. É o momento em que ousamos ir além do que nossas percepções têm como algo fácil a ser apreendido e rumamos para outra dimensão da existência. Nesse cenário, uma conjunção entre o concreto e o abstrato confere sentido às maneiras que temos de encarar a vida e seus mais distintos matizes.
Na forma como promove intervenções no universo pictórico de um mundo dotado de delicadezas é que um artista demarca um caminho singular de possibilidades. Assim parece ser quando deitamos os olhos por sobre o trabalho da fotógrafa Bárbara Bezina, criadora que chama atenção pelo modo como harmoniza distintas porções da matéria humana.
Nascida em Necochea, na Argentina, Bárbara transita entre mundos paralelos com a pungência de sua arte, sobretudo sua maneira de conceber os objetos de suas imagens como sendo frutos de um exercício marcantemente intuitivo. Fazendo uso dos recursos da fotografia digital, a artista manipula os registros tomando por base uma interação entre a materialidade da vida e seu lado alternativamente onírico.
Foto: Bárbara Bezina
E eis que há um predomínio de figuras femininas representadas sob os mais variados prismas na criação de Bárbara. São mulheres que, envoltas numa aura de plasticidade sublime, caracterizam-se por refletirem enlaces poéticos da vida. Desse modo, somos conduzidos por alamedas imagéticas através das quais rostos, gestos e corpos engendram a língua secreta dos sentimentos. As possibilidades são múltiplas diante da perspectiva de se vislumbrar uma concepção da vida como sendo adjetivada pelo viés feminino.
Ao nos depararmos com a variedade de interpretações que as personagens femininas exercem no contexto criativo de Bárbara, abrimos a cabeça para crer que o efeito operado por suas imagens não pode ser percebido de maneira uniformizada pelos nossos sentidos mais básicos. Acrescente-se aqui o fato de que pessoas certamente mergulham de modos bem diferenciados no universo de uma artista que não lhes entrega facilmente os acessos de significação de sua manifestação criadora.
Mesmo que se olhe o mundo como um lugar repleto de seres e objetos de toda a ordem, nunca é demais considerar que a experimentação da arte é também um ato solitário no qual as visões e narrativas pessoais fazem significativa diferença. Não se trata de confinar artista e público a um espaço de restritas experiências; pelo contrário, é a percepção de que nos interstícios e silêncios uma determinada obra lança sobre nós suas epifanias.
Foto: Bárbara Bezina
Mirar as mulheres captadas por Bárbara é compreender que uma noção de espanto ali se produz, ou seja, é perceber que, muito além de uma mera fruição estética, tais imagens convocam as pessoas a sentirem também certo desconforto por estarem diante de uma representação densa da existência, a qual não somente pactua efusões, mas também pesos, desatinos e perdas.
Talvez o fato de optar por uma vida relativamente reclusa faça de Bárbara Bezina uma artista em permanente estado de alerta. A escolha pessoal de viver sozinha e longe do convívio social cotidiano pode, de alguma maneira, influenciar no resultado de suas criações. Tal opção de vida, sobretudo se considerarmos o silêncio como motor fundamental das mais distintas expressões artísticas, talvez seja uma espécie de catalisador das obras. Vivendo atualmente em San Juan, também na Argentina, ela já divulgou suas fotografias em diversas exposições tanto na Europa quanto na América.
Manejando cores e explorando formas e texturas as mais diversas, Bárbara deixa entrever também um caráter místico para suas imagens. É como se tudo fosse revestido por uma energia que nos convoca a compartilhar uma atitude de mistério e contemplação diante do papel exercido pelas personagens concebidas. De tal ordem é o impacto dessas figuras femininas que os olhos parecem transpassar o lado indizível das coisas.
Foto: Bárbara Bezina
* As fotografias de Bárbara Bezina são parte integrante da galeria e dos textos da 122ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
“O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo.”
(Nelson Rodrigues)
Não sei dizer quando começou a obsessão com as máscaras. Quando percebemos, todos estavam com seus rostos cobertos. Ontem mesmo, sentei no ônibus ao lado de um leopardo. No topo da cabeça, duas pequenas orelhas pontilhadas de manchas pretas sobre um fundo amarelado. Julguei que o objeto fosse de acrílico, mas era plástico. Havia dessas coisas: as classes mais baixas não dispunham de muito dinheiro para investir na confecção e acabavam improvisando. O resultado, às vezes, era desastroso.
Bela máscara, falei na primeira oportunidade, tentando chamar a atenção do leopardo. Quando ele se voltou para mim, pude ver seus olhos amarelados pelo corte no adereço. Talvez eu não tenha mencionado, mas havia máscaras para olhos também. Começou com as lentes de contato coloridas. Adiante, os rumos da criatividade. O leopardo não respondeu ao meu elogio. Ergueu uma das mãos como uma garra e fez um som gutural. Cumprimentei-o com um aceno e seguimos viagem.
Cheguei ao trabalho atrasado para variar. Pablo veio à minha mesa e reclamou dos prazos do projeto em que trabalhávamos. Usava uma máscara de abracadabra. Alternou o assunto e passou a me contar sobre suas aventuras no final de semana. Sentado sobre a bancada, falou como se as palavras tivessem prazo de validade.
ABRACADABRA
ABRACADABR
ABRACADAB
ABRACADA
ABRACAD
ABRACA
ABRC
ABR
AB
A
Alguém se aproximou sorrateiro. Colocou uma das mãos sobre o ombro de Pablo e perguntou sobre o andamento do projeto. Ele disfarçou o embaraço pelos atalhos da bajulação. Espetacular essa gaivota, chefe, disse referindo-se à máscara que nosso gerente usava. É um mandrião, ele corrigiu. Pablo tentou escapar da situação como pôde: ave magnífica, sem dúvida. Acabei por ajudá-lo. Abri uma planilha no computador e mostrei ao chefe que o projeto estava no prazo. Mantenha-o em dia, ele disse. Pigarreou, ajustou o nó da gravata e saiu. Tá sabendo que ele vai ser promovido no final do ano? Pablo perguntou assim que o gerente cruzou a porta da sala. Sei. E que diabos é um mandrião?, emendou. Virei-me para o computador e fiz a pesquisa: Mandrião — Ave da família Stercorariidae, conhecida pelo cleptoparasitismo. Cleptoparasitismo, nova pesquisa: forma de interação em que um organismo rouba recursos de outro organismo, geralmente um alimento que o outro capturou ou deixou armazenado.
Fui atendido por um chacal fêmea quando fui ao banco na hora do almoço. Tirei do bolso o boleto que precisava pagar e avisei que o código numérico não estava funcionando. Estranho, ela disse. Pegou o papel e começou a digitar a sequência no computador. Por que um chacal? O chacal uiva até a morte, ela disse. Olhou para os lados, confirmou que não era observada e segredou: é o que tenho vontade de fazer todos os dias, gritar até a morte. O chacal não é o símbolo de Anúbis? Ela fez que sim com a cabeça e a máscara acompanhou o movimento, as orelhas compridas do animal sacudindo para a frente e para trás. Os cabelos loiros também balançaram, escapando pela parte de trás do adereço. Ela se levantou, pegou um papel da impressora e me orientou a usar o novo código de pagamento.
Combinei um drinque com a mulher-chacal no fim daquele dia. Ela estava sentada em uma mesa próxima ao balcão quando cheguei. Não foi difícil identificá-la, apesar de não estar mais transfigurada no cão egípcio. Usava uma máscara peculiar.
É maia?
Não, é celta. Uma amiga trouxe de fora.
Deve ter custado uma fortuna.
Custou.
Você bebe um chope?
Não. Um Martini. Com duas azeitonas.
Pedi as bebidas ao primeiro garçom que passou. Um chope e um Martini. Com duas azeitonas. O homem-mosca anotou no bloquinho, pediu licença e se retirou para atender outra mesa. O que significa?, perguntei ao examinar a máscara que ela usava. Era toda moldada em couro, com ramificações que se entrelaçavam de uma extremidade a outra, muito parecida com a folha de uma árvore. Os olhos estavam expostos pelas duas aberturas na parte frontal e o corte para o nariz descia em uma abertura até a boca, por onde escapavam lábios pintados de azul. Tive vontade de lambê-los. Não significa nada, ela respondeu. Puxei assunto falando de trabalho, mas ela retesou a conversa. Débito, crédito, transferência eletrônica. O que quer saber? Sorri em resposta, aproveitando para experimentar a bebida que havia acabado de chegar. Ela prosseguiu: se é para falar de trabalho, vamos morrer de tédio. Recuei e disse que entendia. O que faço também não é nada interessante.
A conversa engrenou. Sorrimos de forma espontânea. Sorrimos quando sorrir significava apenas ser cortês e também quando era apenas o pincel da novidade falando por nós. Seu nome era Inês. Nome espanhol. Pura, casta ou cordeiro. Pesquisei o que podia sobre o nome antes do encontro, mas, na hora, não tive coragem de mencionar. Inês não me parecia nada daquilo. Faço aniversário hoje, ela falou. Sério? Não, é brincadeira. Só queria ver sua reação.
Fomos para minha casa depois do bar. Entre lençóis, ela confessou: lembra da história do aniversário? Lembro. Faço 35. Então era verdade? Era, foi um dos motivos de ter aceitado seu convite. Fui até a geladeira e peguei um bolinho recheado que estava guardado há semanas, sobras do aniversário de um sobrinho. Enfiei um palito de fósforo no doce e levei até o quarto. Risquei na lateral da caixa e acendi. Não dá para comer, mas você pode fazer um pedido. Ela fez. Depois apagou a chama com um sopro cuidadoso.
Inês examinava alguns livros em minha estante quando regressei da cozinha. Observei-a de um único ângulo, mas pude vê-la por vários outros. Os cabelos que escapavam da máscara estavam amassados e desordenados pelo tempo na cama. Vi a mulher um pouco acima do peso e as dobrinhas entre a barriga e as costelas. Pude ver os homens que antes ocuparam meu lugar; homens de prazer e dor, homens que sequer foram homens. Havia uma mulher também. Única, mas inesquecível. Vi um aborto, o medo dos filhos na hora errada. Vi seu primeiro emprego, uma loja em um shopping, horas de pé em um salto desconfortável atendendo a desejos e a mau humor. Trocou de trabalho outras nove vezes, o salário pouco, a perspectiva inexistente. A vida no banco não parecia tão ruim daquele ângulo. Vi expectativas estéreis. Casa, marido e filhos afogados em uma banheira rachada. Vi que gostava de artesanato, que decorava seu apartamento com pequenos apetrechos de materiais reciclados. Fazia maratona de comédias românticas no sábado à noite, enredos repetidos que não tinham qualquer relação com sua vida amorosa. Foi à Índia certa vez. Juntou dinheiro e foi. Classe econômica, hotel modesto. Economias que custaram uma fortuna. Conheceu um guru por lá. Deuses de mil braços e conceitos difíceis de explicar. Destruir para construir. Não era tão complicado. Queria ir para o Egito também, mas não deu. Não por enquanto.
Ah, então você também gosta do Egito!, ela comentou ao dedilhar a lombada de um livro sobre Nefertite. Por isso reconheceu a máscara do chacal. Fiz que sim com a cabeça. Ela tirou o livro do lugar e começou a passar as páginas. Ainda estava nua, apenas a máscara celta a ocultar o rosto. Comentei o que havia descoberto naquela tarde, que o chacal sequer existia no Egito. Não pude ver a expressão de curiosidade por trás do adereço, mas sabia que tinha despertado sua atenção. Prossegui: alguém confundiu o chacal com um bicho parecido, tipo um cão selvagem, e a lenda pegou. Imagina só: você é um deus, e os súditos o associam ao animal errado. Ela sorriu. Seus lábios não estavam mais azuis, as cores espalhadas por partes distintas de meu corpo.
Pablo soube de minha paixão por Inês após dois meses de encontros. Sem o menor vestígio de hesitação, me fez a pergunta mais impertinente de seu repertório: e então, como é o rosto dela? Repreendi meu amigo por sua indiscrição, mas ele foi insistente. Tirou o telefone do bolso, pressionou a tela algumas vezes e me pediu segredo. Era a foto de Cláudia, uma estagiária que trabalhava no RH da empresa. Pude reconhecer os olhos castanhos e os cabelos anelados que se escondiam por trás das máscaras que ela costumava usar. A foto trazia o rosto nu de Cláudia, que sorria e fazia uma posição atrevida para a câmera. Sardas avermelhadas polvilhavam as bochechas, a curva do rosto era angular e pequenas depressões se formavam nas extremidades dos lábios. Era uma jovem de beleza excepcional. Não diga nada a ninguém, meu amigo repetiu. Estamos saindo há apenas uma semana. É nosso segredo. Concordei com a cabeça, ainda entorpecido pela imagem que há pouco estava diante de meus olhos. Pablo, com a indolência que lhe era peculiar, voltou a perguntar: e Inês, como é? Fui evasivo mais uma vez. Afirmei que ela era uma mulher distinta, que não havia revelado seu rosto ainda.
A conversa com Pablo inquietou meus pensamentos. Transformou uma leve curiosidade em obsessão. Uma semana apenas, uma semana de envolvimento com a estagiária, e ele já estava com a foto do rosto dela em seu telefone. O desejo pelo rosto de Inês não era novidade, mas eu estava aguardando a ocasião apropriada.
Inês não pôde se encontrar comigo naquela noite. Sozinho em casa, elaborava hipóteses quanto ao formato de seu rosto. Tentei dormir, mas estava agitado. Fui até o computador e digitei um endereço. Era um site pornográfico. No menu de opções, selecionei a categoria mais requisitada pelos usuários. Um filme apareceu no monitor. A atriz, apenas de máscara, provocava o homem. Serpenteava em sua frente, enrodilhando-se em seu corpo, tocando-o onde ele precisava ser tocado, ora gentil, ora com firmeza. Copularam, treparam, satisfizeram-se. Em poucos minutos, o ápice: a atriz remove a máscara e a ejaculação é despejada em seu rosto. Maskless facial cumshot. O gozo, o pensamento em Inês.
O assunto das máscaras foi revisitado em sonho. Inês relutava ante meu pedido. Exigiu explicações ao ceder. Queria saber a razão pela qual eu estava sempre com o mesmo adereço. Não tem mistério, respondi. É só porque todos usam. Ninguém estranha que você esteja sempre com a mesma?, ela emendou. Só no começo. Depois deixa de ser relevante. Satisfeita com minha explicação, Inês levou as mãos à cabeça e revelou a face. Havia um rosto de serpente sobre o adereço. Eu podia ver as presas e a língua bifurcada. O susto me fez recuar. Inês ergueu novamente as mãos e retirou a pele escamosa, uma segunda máscara. No lugar de seu rosto, um rubi de cor púrpura, a face sólida como a pedra de sangue. Ela seguiu, desgrudando camadas e mais camadas de seu rosto. Assustado, acordei.
Sou direto em nosso encontro seguinte. Digo a Inês que desejo ver sua face. Ela é reticente na resposta e se esquiva. Digo que sei o quanto de intimidade aquilo exige de um casal. Pego em suas mãos para convencê-la de que já alcançamos aquele estágio, mas ela profetiza que não deveríamos nos apressar. Acontecerá quando houver de acontecer. Minha consciência discorda, mas aceito o argumento. Daria o tempo que Inês julgasse necessário, mesmo que a recusa gotejasse dúvidas em minha consciência.
Inês adormeceu em minha cama certa noite após esgotarmos nossas energias. Cedi à tentação diante da máscara a evocar o rosto de Circe em uma das pinturas de Waterhouse. Virou-se para o lado durante um pesadelo e balbuciou palavras incompreensíveis. A máscara prendeu no travesseiro e saiu do lugar, revelando parte de seu queixo. Levei uma das mãos até seu rosto. Com um dos dedos puxei o adereço com delicadeza, mas Inês despertou. Levantou-se da cama, preocupada em cobrir o rosto e destruiu qualquer reconciliação com olhos de fúria.
Levou algum tempo, mas consegui convencê-la a perdoar meu gesto impensado. Um caminho de desculpas e agrados até reconstruir o que possuíamos. Um pedido especial feito a um artesão a convenceu em definitivo. Presenteei-a com uma pequena estátua do reencontro de Ulisses e Penélope. Aos pés de Ulisses, a inscrição: Inês. Abaixo de Penélope, meu nome. Ela colocou o objeto sobre a estante e, emocionada, atirou-se em meus braços. Tomou então a decisão que eu tanto ansiava: pôs a mão sobre a nuca e removeu a máscara. Vi seu rosto alvo, um equilíbrio entre a simetria e um leve desalinho. Os cabelos loiros caíram em suaves cachos sobre a testa e pelos ombros. A mulher diante de mim revelava uma beleza que minha expectativa não tinha sido capaz de elaborar. Chegou então minha vez. Tomando a iniciativa, Inês colocou a mão por trás de meu pescoço e retirou a máscara. Surpreendeu-se ao ver os olhos castanhos, a boca fina e a pele marcada pela barba por fazer — a face idêntica à máscara que há anos eu usava.
Anderson Henrique nasceu no Rio de Janeiro e é formado em Letras. Possui textos publicados em coletâneas e premiados em concursos literários. Seu livro de estreia, “Anelisa sangrava flores”, foi publicado em 2014 pela editora Penalux. “Chame como quiser” é seu segundo livro.
A boa literatura também se faz com o não dito. O que o autor guarda entre as dobras da tessitura narrativa, o algo inexplícito que se torna uma voz secreta modulando além dos limites da história, na apreensão do leitor. São as lacunas acortinadas em mistério, as sombras do enredo que concentram, nos silêncios, seu maior impacto.
Ninguém detém a noite explora os cantos de obscuridade que tem lugar na natureza humana. Em seu segundo livro de contos, o escritor pernambucano Nivaldo Tenório compõe uma galeria de personagens mobilizados por desejos e terrores interiorizados e, portanto, muitas vezes inauditos. Ainda que situado no espaço das cidades pequenas, dos povoados distantes, o palco das verdadeiras ações está dentro desses indivíduos incapazes de se desatarem de conflitos e de atos cruéis para significar suas próprias existências. Um ambiente de reconhecimento onde é sempre escuridão adentro, ou uma escuridão que vive dentro de outra escuridão.
Diante dessas tétricas experiências da vida, a força simbólica reside na morte e em suas representações. O autor promove as relações entre animais noturnos e objetos umbrosos sob o signo da finitude, transformando o universo abstrato, de crises e surtos mentais, numa atmosfera de devaneio através da qual se desvela o passado de perdas e de impura formação. A prosa de ficção vagueia pelas rachaduras da realidade, com naturalidade e consciência imaginativa, revelando um autor pronto, habilidoso e maduro, detentor de todas as chaves que permite a imersão do leitor e nunca os deixa sair, mesmo ao alcançar, transformado, o ponto final.
Em entrevista exclusiva, Nivaldo Tenório mergulha em seu recente trabalho e examina sua atração pela subjetividade temática, apontando os caminhos que percorre da ideia de ignição até a conclusão de um conto. Além disso, explica a sua preferência pelas narrativas breves, a estreia tardia na escrita, suas influências e angústias criativas. Natural de um estado-celeiro de grandes escritores, o autor analisa a presença do regionalismo no cenário atual da literatura brasileira, a nova cena de autores nordestinos, a proliferação das editoras pequenas e seus efeitos, e a importância dos prêmios literários e da crítica especializada. Um olhar apurado e franco sobre o meio literário, que reflete as intermitências do próprio ofício da escrita. “Escrever talvez seja o modo mais cruel de perder tempo”, observa.
Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal
DA – Ainda que tenham uma construção geográfica bem concreta, os contos de “Ninguém detém a noite” são frequentados por personagens que lidam majoritariamente com questões relacionadas ao plano subjetivo, no qual se impõem signos e metáforas como representações da finitude. Essa é uma característica muito marcante do seu trabalho, que vem de sua coletânea de estreia, “Dias de febre na cabeça”. O que lhe motiva nessa exploração interna? Acredita que transitar pelo secreto de seus personagens é uma forma de consistir verdade ao seu fazer literário?
NIVALDO TENÓRIO – Grato pela análise, Sérgio. Acho que foi O’Connor quem disse que a ficção trata de tudo o que é humano e nós somos feitos de pó, e se alguém despreza o fato de ser pó, é melhor não tentar escrever ficção. Ela tem razão. Somos pó e parece que não há nada o que possamos fazer a respeito. Herdei isso de meu pai; um melancólico desconsolo com a nossa finitude. Lembro-me que era comum, nos momentos mais felizes ele de repente nos chamar a atenção para o fato de existir a morte, que estamos sujeitos a este fato inelutável: um dia simplesmente deixaremos de existir. Isto roubava-lhe metade da alegria. Falo no passado, mas ele continua vivo, embora com a idade sobreveio o avanço inescrupuloso de uma doença demencial que, pelo menos, deixou-lhe o saldo de não pensar mais na morte. Então herdei dele esse desconsolo e com o tempo, acho, se transformou em obsessão e tema de meus contos, pois o que vejo é a dimensão trágica do mundo muito além do alcance de nossas ações. Nossas escolhas não são sempre deliberadas, pensadas e, mesmo que fossem, são elas que definem fatalmente nossas vidas ou é a força das circunstâncias? Duvido do livre arbítrio. E é essa dimensão humana, marcada sobretudo pelo efêmero, que é o objeto de minha literatura. Alguém poderia dizer que disso já tratou exaustivamente Faulkner, Philip Roth – dois autores que continuo lendo depois de muitos anos – eu poderia citar outros, são muitos, mas o fato é que é isso o que sempre me fascinou na boa literatura – não posso esquecer de Machado – a capacidade de sondar o humano. E tudo isso, claro, não é nada se não se consegue progresso na forma, e transitar pelo secreto, como você tão bem colocou, foi o modo que encontrei de transformar minha obsessão – que divido com tantos outros – em literatura. Gosto do texto que sugere mais do que diz, por isso exploro as camadas do conto buscando o sentido secreto por trás das ações de personagens, e não estou interessado nos grandes feitos, mas nas coisas mais comezinhas, é ali que encontramos o humano.
DA – Essa humanidade cotidiana tem um apelo muito forte no histórico da literatura pernambucana, seu estado de origem. Só para citar dois grandes autores, João Cabral de Melo Neto e Osman Lins alimentavam seus fazeres literários com uma matéria oriunda de um plano subjetivo, mas que ao mesmo tempo refletia características particulares do lugar em que nasceram e estavam inseridos. Outro aspecto era trazer para a ficção momentos de suas vivências. Partindo da menção ao seu pai, o quanto o fato de ser pernambucano, de ser nordestino, influencia na escolha de seus temas? A sua literatura é também alimentada por experiências pessoais?
NIVALDO TENÓRIO – Quando eu era só um garoto e morava numa periferia pobre de minha cidade não havia muita coisa bonita do que se orgulhar, a família sofria os reveses da pobreza, mas meu pai conservava certo orgulho tão anacrônico quanto suas lembranças da fazenda onde nasceu, e de seu velho pai, um modesto e próspero plantador de café que também ostentava fama de valentia. Vovô e a fazenda desapareceram, a herança dividida entre tantos irmãos não deu pra nada. Então, papai, que não conheceu a pobreza quando era menino, fazia das tripas coração para que não sofrêssemos tanto com a nossa. Por exemplo, não queria que os filhos trabalhassem, nós devíamos nos dedicar aos estudos enquanto ele se matava como pequeno negociante do ramo de confecções. A primeira vez que trabalhei de verdade – se é que podemos chamar de trabalho – foi quando me alistei para o serviço militar. Mas a pobreza estava ali, nem eu nem meu irmão desfrutávamos de coisas que meninos da nossa idade e de famílias mais remediadas podiam dispor. Por volta dos 13 anos me interessei por livros. Sentia-me seduzido pelo objeto, sonhava poder comprar os livros da Bibliex – biblioteca do Exército – que eram anunciados na TV preto e branco. Eu não sabia o que aqueles livros continham. Eram livros, isso parecia bastar. Veja, Sérgio – agora você vai entender por que precisei recorrer a esses dados biográficos – eu acho que vivi numa bolha, construída com o esforço de papai e mamãe, fui um menino quieto, solitário, mal saía de casa e, quando descobri o prazer da leitura, os livros eram os únicos endereços possíveis. Lembro-me de passar um período das férias escolares inteiro lendo Anna Karenina. As coisas lá fora eram o resultado do esforço de meu pai, e não era muito, apenas o suficiente para sobreviver. Um sobrevivente não se sente especial, mas ler Tolstói me fazia sentir especial. O livro de Tolstói eu consegui na Biblioteca Pública Municipal, a bibliotecária me deixava levar emprestado os livros, e assim li Victor Hugo, Dumas, Rabelais, Balzac, e não foi nada programado, os livros mais bonitos eram os clássicos universais, eram os que mais me atraíam. Também tinha Machado de Assis, Lima Barreto, Monteiro Lobato e outros, mas naquela época só me interessava pelos autores estrangeiros. Talvez eu buscasse neles geografias diferentes da minha. Aqueles livros com histórias que se passavam tão longe, no tempo e no espaço, me garantiam uma distância maior da pobreza e daquele lugar que as circunstâncias me fizeram meu. E agora que falo isso, penso no que diz o José Luís Passos na apresentação do livro, de que os contos ambientados em cidades pequenas aspiram a uma maior largueza espiritual através da viagem ou alusão à cultura estrangeira. Então, respondendo à pergunta, acho que quanto ao tema – deste livro pelo menos – ser filho de meu pai e herdar algumas de suas idiossincrasias foi mais forte que ser pernambucano ou nordestino e quanto à experiência pessoal, acho que algumas estão nos contos sim, mas transformadas de tal jeito, que ninguém que tenha partilhado comigo tais experiências será capaz de reconhecê-las.
DA – É curioso você citar esse seu interesse inicial apenas por autores estrangeiros, pois me coloca diante de uma característica marcante da sua prosa; ou talvez a falta dessa característica marcante. Embora seja um autor nordestino, seus contos, ao contrário de uma lista imensa de novos e velhos autores, não trazem uma linguagem regional ou são ambientados num cenário expressivamente nordestino ou historicamente nordestino. Desde que começou a escrever, você se preocupou em não se enquadrar no que foi rotulado de “literatura regionalista”? Ou você acredita que é um processo natural da nova literatura brasileira ter um aspecto mais globalizado, independente da região onde é feita?
NIVALDO TENÓRIO – Não há dúvida de que um dos melhores – senão o melhor – capítulo da produção da literatura brasileira se deu a partir de 1930 com o Regionalismo de Gilberto Freyre – certamente um de nossos gênios – e falar de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e outros dessa geração é falar do cânone da Literatura Brasileira do Século XX. Guimarães Rosa também é regionalista como Faulkner, é o escritor regionalista do Sul dos EUA. Mas, quando hoje se taxa um escritor de regionalista, parece que por trás há uma clara intenção de segregação. E eu não sei se você já notou, Sérgio, mas a mim parece que esse rótulo só serve para o escritor nascido no Nordeste, talvez a culpa seja das novelas das oito da Rede Globo, e todos os coronéis, mocinhos e mocinhas que carregavam no sotaque baiano. Não sei. Conheço escritores no meu estado que não gostam de ser chamados de regionalistas só porque suas histórias são ambientadas no Nordeste. Ronaldo Correia de Brito não gosta, Raimundo Carrero tampouco, e eles têm toda razão. Quanto a mim, posso garantir, não houve intenção nenhuma de querer evitar o rótulo, nunca me vi pensando na questão, os contos eram escritos e só me dava conta da ambientação deles não evocar o Nordeste quando alguém me chamava a atenção para o fato. Confesso que acho algo desnecessário, principalmente num conto, o autor se preocupar em dizer que sua personagem parou pra descansar no trecho tal da Conde da Boa Vista, no Recife, ou que seu carro foi guinchado da BR Luís Gonzaga, em São Caetano, até Caruaru. Ao mesmo tempo, acho que não é isso de descrever o ambiente ou não que vai determinar se o conto presta. Apenas não acho necessário. Nunca estive interessado no homem ou mulher de Recife ou de São Paulo ou da pequena cidade onde moro, minha Garanhuns de clima ameno, localizada mil metros acima do mar e seus 130 mil habitantes, que há anos nem sobe nem desce no censo, pois lá impera a imobilidade. Estou interessado sim nos homens e mulheres e no que eles possuem de humano, não importa se transitam na Avenida Santo Antônio ou Quinta Avenida. Outro dia li a entrevista de um escritor brasileiro, desses que andam na moda. Ele dizia que não acredita nessa coisa de “ser brasileiro”. Não sei o que pensaria José de Alencar se um vidente lhe dissesse que mais de cem anos depois dele um escritor importante e brasileiro faria tal declaração. Alencar e seu projeto de construção da identidade cultural do Brasil, ele e seu romance ambicioso em conter toda geografia. A mesma reação teria o Mário de Andrade, que, ao modo dos artistas de sua geração e seu caráter anárquico, também ambicionou dar continuidade – de um modo diferente, claro, crítico e coisa e tal – ao tal projeto de construção da identidade cultural. Macunaíma é sem dúvida o romance tese dessa empreitada. Mas o fato é que o tal escritor da entrevista talvez não esteja enganado. Quase cem anos depois dos gritos e berros que ecoaram no teatro municipal de São Paulo, ainda estamos em formação e a única conclusão que chegamos é que não somos negros nem brancos nem índios. Mas teve um tempo, Sérgio, que eu achava estranho o fato de gostar tanto dos romances americanos da década de 20, por exemplo, ambientados na França e que falam de homens e mulheres – de quem uma escritora se referiu como geração perdida – vivendo o entre guerras e a frustração de ser humano e o quanto isso representa de impotência e fragilidade. Cheguei a escrever para um amigo, lamentando essa falha no meu caráter. Por que eu me sinto mais identificado com Fitzgerald do que Graciliano, e por que “Kind of blue” me encanta mais do que Samarica Parteira? Não estou dizendo que nossos escritores e músicos sejam melhores ou piores. Estou dizendo que um livro ou disco, escrito ou gravado quase cem anos atrás e milhares de quilômetros longe de meu país me encanta e me causa felicidade. De algum modo e apesar de todo estranhamento, eu, nascido em Pernambuco, Nordeste do Brasil, me encontro ali. Vislumbro meu reflexo. E como minha literatura primeiramente nasceu do reflexo de meu gosto de leitor, isso talvez responda tua pergunta.
DA – Aproveitando que falou de rótulos e da criação de estereótipos, queria me aprofundar nesse assunto e perguntar sobre a relação dos autores que não estão nas chamadas rotas Sul-Sudeste do mercado literário. Durante muito tempo (e ouso dizer que a imagem permanece fora do Brasil) os livros dessa região eram consumidos em função de seus aspectos exóticos, sertanistas. Hoje, a impressão que tenho é que melhorou, baseado no reconhecimento de autores citados, como Ronaldo Correia de Brito, Raimundo Carreiro e José Luiz Passos, além da grande Maria Valéria Rezende e de novos autores, a exemplo de Débora Ferraz e Franklin Carvalho. No entanto, você, que vive a realidade dessa região, como enxerga o interesse das editores e dos leitores (e, por que não, também dos críticos) para com os autores fora desses centros? Você acredita que há, ou já sofreu, algum tipo de discriminação pelo fato de não fazer parte de um círculo específico, de não socializar com o editor X ou com o autor Y?
NIVALDO TENÓRIO – Acho que o problema da dificuldade de ser lido ou editado não está no fato de viver, de fazer literatura no Nordeste. Acredito que problemas similares encontram escritores espalhados no Brasil, mesmo no Sul e no Sudeste. A questão é de outra ordem e tem a ver com leitores. Poetas e contistas – com raras exceções – não estão exatamente na ordem do dia. Fazer o tipo de literatura que eu faço significa escrever quase exclusivamente para outros escritores. Às vezes, tenho a impressão de que estamos presos numa espécie de autofagia. Nos eventos de literatura escritores falam para escritores, enquanto o resto do mundo está lendo o último livro do Dan Brown, do Paulo Coelho ou do Stephen King etc. Uma amiga minha, também escritora e que mora em Portugal, me diz que lá é a mesma coisa. Acho que vivemos a crise do leitor. Thomas Mann, num ensaio sobre Tchekhov faz a sua mea culpa e reconhece que não levava a sério a forma breve do conto, estava interessado nas grandes catedrais dos romances de fôlego. Não é o caso do leitor de hoje, este só está interessado no livro da moda, em bruxos e vampiros, e necessita, mais do que ninguém, de muita autoajuda para suportar a existência. É o que aquece o mercado. Outro dia vi, no Globo News Literatura, a Luciana Villas-Boas, a antiga editora da Record, hoje agente literária, que costumava aconselhar escritores a não escrever conto ou poesia porque não vende, falar de uma dessas novas autoras, surgidas na internet e que escreve excelentes livros, inspirada no “Cinquenta tons de cinza”. A Luciana garantia que não se tratava de mero pastiche da E.L. James, como se isso fosse uma garantia do talento literário da moça. Essa autora, de quem nos fala a Luciana, provavelmente não vai ser resenhada por você, Sérgio, mas, num tempo incrivelmente curto, já vendeu mais de 100 mil exemplares. Não quero parecer pessimista ou despeitado, mas é a realidade. Também sei que você não estava se referindo a esse tipo de livro, quando me fez a pergunta, mas é preciso entender que primeiro o problema é de leitores. Não há leitores interessados em literatura, falo de alguém que vai a uma livraria para comprar a nova tradução do Gombrowicz porque está a fim de ler um bom livro, um livro instigante. E não vale se for da área, nada de jornalista cultural, crítico ou escritor, falo de um cara comum, que dirige um táxi ou é médico ou estudante de engenharia. Então, Sérgio, não é morar longe do centro – embora isso atrapalhe um pouco, sem dúvida – o maior problema. Já foi por isso que Osman Lins pediu demissão, juntou os trapos e trocou Vitória de Santo Antão por São Paulo, mas isso foi na década de 60, quando não existia internet.
DA – A sua resposta é muito pertinente e me conduz a duas reflexões. A primeira é relacionada ao que chamou de crise de leitor, diante da qual estou completamente de acordo. O caso é que, na contramão dessa situação preocupante, temos um cenário literário onde nunca se publicou tanto quanto hoje. Isso tem a ver, óbvio, com o surgimento de inúmeras editoras pequenas e com a possibilidade cada vez mais acessível da autopublicação. Qual, na sua opinião, será o efeito dessa equação que não fecha e que se torna gradualmente mais complexa? Acredita que a facilidade com que se publica neutralizou um filtro editorial e, atualmente, a quantidade alimenta um catálogo contumaz de livros não lidos?
NIVALDO TENÓRIO – Você tem toda razão quando usa o termo contramão. De fato é muito fácil publicar um livro hoje, as editoras pequenas surgem como resistência, mas também como negócio, uma vez que na maioria delas é o autor o responsável em pagar a gráfica. Além do livro, temos a internet, mas apesar dela e sua facilidade e sedução, a publicação em papel continua o sonho de consumo e o fetiche da maioria de quem escreve um livro e deseja vê-lo publicado. É uma equação mesmo, e para mim esquizofrênica, uma vez que me confirma a suspeita de que no Brasil – não sei lá fora – existem mesmo mais escritores do que leitores. E a maior parcela dela é de um tipo estranho de escritor, a parcela de escritores que não compram livros, logo não leem. Conheço alguns do tipo, quase sempre se consideram injustiçados e quando a gente pergunta o que estão lendo respondem que não leem porque temem a famigerada influência. Algo em que notamos um grande zelo pela própria escrita. Fico imaginando como seria aquecido nosso mercado livreiro se todos os escritores comprassem livros. E não sei, Sérgio, confesso que não consigo explicar esse fenômeno de tanta gente escrevendo e publicando, sempre achei que o escritor surgia por causa de amor e obsessão pelos livros – acho que foi meu caso – ou como resultado de uma grande experiência, do tipo que é preciso registrar no papel para alertar a todos de um grande mal ou de uma grande injustiça, o genocídio de um povo, por exemplo ou por algo – e vou citar Augusto dos Anjos – como uma vontade absurda de ser Cristo para sacrificar-se pela humanidade, mas acho que é sentimentalismo da minha parte. Tantos escritores talvez seja só uma forma – para muitos deles, pelo menos – de querer aparecer na foto. O homem nunca gostou tanto da própria imagem como nos nossos dias. Mas nem tudo é ruim; contrariando o tal filtro editorial, fico muito feliz quando é incluído, entre os finalistas de grandes prêmios, autores autopublicados ou de pequenos selos editoriais. Já faz muito tempo que lamentamos não existir mais crítica literária nos jornais, lamentamos a morte de cadernos de literatura etc, isso talvez seja o que mais atrapalha, mas apesar de toda dificuldade – em razão dessa quantidade absurda de livros publicados todos os dias – é possível sim reconhecer um bom livro. Talvez o reconhecimento não venha na hora, talvez demore ou só ocorra postumamente, mas vem. E quanto à enorme quantidade de lixo publicado, a boa notícia é que o papel é biodegradável.
Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal
DA – Sinceramente, considero o reconhecimento póstumo a circunstância mais desleal que possa ocorrer com um escritor. Mas voltando a segunda reflexão, seus dois livros foram publicados por uma editora pequena. Foi uma decisão deliberada ou chegou a mandar o original para uma editora grande e não houve o interesse? Você mencionou o lado comercial das editoras pequenas e, na minha opinião, a qualidade gráfica da maioria desses selos pequenos nada deixa a desejar quando comparada a de uma grande editora. Os problemas são justamente a divulgação e a distribuição. A partir de sua experiência, quais são os prós e os contras que um autor lançado por uma editora pequena acaba por se deparar?
NIVALDO TENÓRIO – Eu nunca mandei meus livros para editoras grandes. De antemão, já intuía o resultado, na melhor das hipóteses uma carta educada dizendo que a editora não trabalha com meu perfil de escrita. O dinheiro movimenta o mundo. Quando mencionei o lado comercial das editoras pequenas quis dizer que elas utilizam estratégias de sobrevivência e, entre essas estratégias, a parceria com o autor é uma alternativa viável se se deseja algum lucro, no final. Imagino que uma editora pequena que publica 500 exemplares de um autor ainda desconhecido, embora bom contista, poeta ou mesmo romancista, corre sério risco de não conseguir só com a venda dos livros tirar os gastos da gráfica. As distribuidoras ficam com a porção maior do bolo e algumas livrarias cobram caro, algumas chegam a exigir 50 por cento. Também concordo com você, é excelente a qualidade gráfica de algumas editoras pequenas. Imagino que fazer o livro bonito acaba sendo uma estratégia comercial já que o público dessa editora, embora pequeno, é exigente. Tem bom gosto. Divulgação e distribuição são problemas sérios enfrentados até por médias editoras. Não é em toda livraria que você encontra um livro da Iluminuras ou Editora 34, só pra citar duas que gosto. E se publicaram autor brasileiro, contemporâneo, pior. Para o autor que se autopublica é um problema irreversível, apenas minimizado pelos selos pequenos. Acho que as livrarias também não ajudam e talvez a culpa não seja delas, afinal há tantas publicações de vampiros, bruxos e pastiches de 50 tons de cinza no mercado que as prateleiras simplesmente não cabem. Por isso, algumas ainda concordam em disponibilizar o livro no catálogo virtual. O Brasil é enorme e tal, mas o problema, insisto, é mesmo a falta de leitor. Outro dia ouvi que um autor – não me lembro quem – que ganhou o prêmio São Paulo verificou, um ano depois do anúncio do prêmio, ter vendido 100 livros. Parece mentira, mas não entendo porque alguém mentiria sobre isso. O livro fôra publicado por um grande selo, parece que também ganhara o prêmio Sesc e, com toda mídia e prestígio do prêmio, aumentou suas vendas em apenas 100 livros. Gosto da editora pequena. Algumas alcançaram respeito e isso, no fundo, é o que importa. Fazem um livro bonito e, sem muita pretensão, encontram o leitor especial, interessado em boa literatura. Se o mercado não é milionário, a culpa não é dela. Faz seu papel e o autor encontra seu lugar. Pequenas tiragens e distribuição – mesmo longe do ideal – possibilitam que o livro circule, concorra a prêmios e seja resenhado.
DA – Essa história do autor premiado é verídica, eu o conheço pessoalmente. Mas o final da sua resposta me instigou uma provocação: diante do que chamamos de crise de leitor, você acredita que o autor que lança uma edição de 500 exemplares, por uma editora pequena, tem muito mais uma preocupação em colocar um crachá de escritor e entrar para um clube do que ser realmente lido? Neste caso, o livro não seria mais um dispositivo para uma satisfação pessoal do que um meio pelo qual ele possa alcançar o objetivo final de toda obra literária, a atenção do leitor?
NIVALDO TENÓRIO – Falei em 500 exemplares porque é o número que muitas editoras que trabalham com gráfica offset sugerem, 300 ou 500 exemplares. Quanto mais diminui o número de exemplares, mais caro o livro fica. Meu “Dias de febre na cabeça”, edição do autor, a primeira edição, foram 500 exemplares. Na época eu sugeri 300, mas a diferença que a gráfica fazia no preço era ridícula. Então fiz os 500 mesmo sabendo que se livrar deles seria tão difícil quanto se livrar de um corpo. Sim, tem a história do crachá de escritor, concordo com você, mas no meu caso foi só essa lógica de gráfica offset. Algumas editoras estão trabalhando com tiragens bem pequenas, 70, 100 exemplares. Acho o ideal, se houver procura do livro é só imprimir mais exemplares.
DA – Você há pouco citou rapidamente os prêmios literários. Com o mercado editorial cada vez mais fechado, acredito que é senso comum de que vencer um prêmio literário é a maneira mais meteórica de se projetar um escritor. Quando se é uma estreia, pode ser até perigoso, pois o autor carrega consigo a responsabilidade de entregar um segundo livro, pelo menos, à altura do anterior. O que pensa sobre os prêmios literários? E, ultimamente, os prêmios no Brasil têm agraciado muitos autores nordestinos. O prêmio Sesc, por exemplo, teve suas últimas edições dominadas por novos autores do Nordeste, tanto na categoria Romance quando na categoria Conto. Como explicar isso? Você consegue identificar uma geração de jovens autores ganhando corpo na região?
NIVALDO TENÓRIO – Devo dizer que pra mim não é surpreendente que prêmios literários agraciem autores do Nordeste. Acho que o Nordeste tem uma sólida tradição de excelentes escritores. Por acaso me lembro do polêmico Bruno Tolentino, ele que era do Rio, poeta erudito que não gostava do Modernismo nem da Cultura Popular, disse uma vez: tirem a Literatura do Nordeste do Brasil, restaria o quê? Sem bairrismo, de fato o Nordeste é rico em escritores, Pernambuco então nem se fala. Manuel Bandeira, Osman Lins, João Cabral de Melo Neto – um dos poucos autores brasileiros que já foi citado para ganhar o Nobel – e Gilberto Freyre, reconhecido no mundo como um gênio. Uma boa representação da literatura contemporânea também é de Pernambuco. Apenas citando os escritores que residem aqui penso em Raimundo Carrero e Fernando Monteiro, só pra mencionar dois. E se falamos em escritores que adotaram Pernambuco, temos o grande Ariano Suassuna da Paraíba (hoje um clássico da Literatura Brasileira), Ronaldo Correia de Brito e Sidney Rocha, do Ceará, autores com uma sólida literatura, todos premiados. Autores que nunca deixaram o Recife. Já faz alguns anos o estado criou um prêmio que só premia autores que residem em Pernambuco, o Prêmio Pernambuco – que recentemente alguém teve a infeliz ideia de mudar o nome para Hermilo Borba Filho, também ele um intelectual de destaque e excelente dramaturgo pernambucano. O prêmio tem revelado autores até então inéditos e de notável qualidade literária, espalhados na região metropolitana e interior do estado. De fato, o prêmio tem poder de revelar o autor, embora isto não queira dizer que todo autor premiado é um grande autor. São muitas circunstâncias e pesa o fator sorte. Mas ajuda, principalmente quando democrático e livre de preconceitos. Por isso, gosto quando encontro, entre os finalistas de grandes prêmios, livros de autores autopublicados ou de pequenos selos editoriais, isso denota honestidade. Acho que a gente vai precisar de mais tempo e o olhar a uma certa distância para perceber se aqui, na região, houve de fato uma nova geração de escritores fazendo literatura de verdade. Nesse momento, pelo menos, só posso dizer que há muita gente escrevendo e o que se vê publicado aqui não é de jeito nenhum inferior ao que se vê publicado no Sul-Sudeste.
DA – Falando em distância, durante seu ofício criativo há uma preocupação com o leitor, quem a sua história poderá atingir e o que pode despertar nela? Certa vez, fiz uma pergunta parecida para um autor, que respondeu não pensar no leitor, pois escrevia para ele mesmo. Achei a resposta arrogante e narcisista. O que pensa sobre isso? O leitor não deveria fazer parte, em algum momento, do processo de construção de um livro?
NIVALDO TENÓRIO – O leitor é fundamental. Preocupa-me muito o leitor. Morro de medo do leitor pouco generoso, o leitor que lê em metrôs, olhando para o relógio, hiperativo, que manipula o celular, que consulta as redes sociais enquanto lê. Tenho medo que minha literatura, para este leitor, assuma algum tipo de hermetismo do qual não me sinto culpado. O conto é irmão da poesia, requer mais de uma leitura. Ninguém lê um poema uma só vez. Quantas vezes eu já não li “Opiário”?, Decerto muitas. Sem o leitor minha literatura fica incompleta. Você poderia dizer, com toda razão, que sem o leitor nenhuma literatura acontece. De fato. O próprio processo de escrita se completa com o leitor. Por isso, necessito de um leitor que me dê a mão, necessito de sua paciência e disposição para amarrar as pontas, quando se fizer necessário, de um leitor que saiba ler os silêncios, que se interesse pela outra história que todo conto conta e sinta prazer em despender toda energia que a leitura lhe exige. O leitor que idealizo é um leitor especial e por ele sinto enorme apreço. A gente se esforça para escrever um livro melhor que outro. Acho que este livro que acabei de escrever é mais maduro que o anterior, mas só quem pode de fato julgar isto é o leitor. Por outro lado, não perco o sono por causa do leitor de gosto médio, o leitor dos livros da moda, o leitor apenas interessado em puro entretenimento. É claro que todos os dias eu o espero de braços abertos, mas não vou perder o dia se ele me ignorar.
DA – Seguindo nessa linha do leitor, ultimamente surgiu um movimento do leitor sensível, que tem feito inclusive universidades retirarem de seus catálogos obras com conteúdo considerado controverso. Seus contos, por outro lado, trazem para seus enredos temas pesados, envolvendo fortemente a miséria humana. Como enxerga essa pressão que existe hoje para limar da literatura temas polêmicos que possam ferir certos grupos? Isso lhe faz repensar a ideia de um conto?
NIVALDO TENÓRIO – O primeiro réu desse caso, se não me engano, foi Monteiro Lobato. Queriam censurar e cortar trechos de sua obra por causa do tratamento que Tia Nastácia – por ser negra – recebia. E aí me lembro do Oscar Wilde: um livro não é moral ou imoral, é bem ou mal escrito; eis tudo. Ele tem razão. No caso do Lobato, principalmente, tem a questão do contexto histórico. Eu não acredito numa obra literária que se constitua num panfleto mesmo que as razões sejam as melhores, imagine quando as razões são as de promover discriminação racial ou de qualquer natureza. A obra de Monteiro Lobato não me parece um panfleto, aquilo que Narizinho diz sobre a negritude de Tia Nastácia é corroborado pelo espírito de época. E quem fala é a personagem. Não existe boa arte pautada em normas de conduta, etiquetas e outras frescuras. É só olhar para o passado, o que é que hoje todos acham do processo por imoralidade que sofreu Madame Bovary? Veja, durante essas discussões eu esperei que alguém se manifestasse sobre a Bíblia, pois é difícil encontrar um livro tão politicamente incorreto. Ali há desde discriminação contra a mulher a genocídios determinados pelo próprio Deus. No Decálogo, exatamente no décimo mandamento, Ele determina que o homem não deve cobiçar o servo de seu próximo, e aí não precisa recorrer a exegese para intuir que para Deus a escravidão era perfeitamente aceitável. Natural. E diferentemente de Monteiro Lobato, um homem do final do século XIX início do XX, Deus não é um reles mortal, sujeito ao condicionamento cultural. Então é uma grande besteira esse negócio, começa-se mal porque começa-se descriminando umas obras e deixando outras de lado em nome da mais pura e genuína hipocrisia. Mas acho que quem deve se encarregar de julgar é o leitor. O leitor faz a leitura que quiser. Estabelecer uma censura em nome do politicamente correto é no mínimo ridículo. Não me interessa se Celine era antissemita e simpatizante do nazismo, a mim só interessa o assombro que me causou Viagem ao fim da noite, além do mais ali não há nada que promova as ideias infelizes do autor. A propósito disso, reconheço um bom autor pela sua capacidade de fazer a clara distinção entre suas ideias, ideologias e a literatura. Conheço escritores que também são meus amigos e são, na vida privada, pessoas de forte ardor religioso, e não são poucos, pessoas capazes de uma fé que eu não consigo entender que raios de improbidade intelectual os fazem acreditar nos disparates e contos de fadas de suas religiões, pessoas com uma visão que eu só consigo atribuir ao intelecto mais simplório, mas que no caso deles não é, pois não são ignorantes, alguns têm mais cultura e leram mais do que eu. Então, são questões que eu nem procuro inquirir – tenho mais com que me ocupar – no fundo o que me interessa é que em seus livros não há nada disso e até os invejo por conseguirem tal distanciamento. Mas acho que acabei fugindo um pouco da pergunta. E não, essa pressão e sensibilidade de tais grupos jamais me fariam repensar a ideia de um conto.
DA – Por outro lado, você consegue identificar determinados escritores que se colocam por detrás de uma causa, da bandeira de uma minoria, de uma ideologia, e se utilizam desse expediente para chamar atenção para seus escritos? Percebe que a mídia especializada foca, em muitos casos, na condição social desse tipo de escritor e se esquece de avaliar o valor literário, se o livro é, no mínimo, bom?
NIVALDO TENÓRIO – Num mundo que não lê, talvez não seja tão ruim chamar a atenção para um livro em razão de seu apelo social. Sem dúvida, há tais escritores e acho até que são muitos, e suas bandeiras chamam sim a atenção da mídia e de leitores que se veem ali representados. Imagino que deve existir escritores bons e ruins fazendo isso. A mim só interessa a literatura. Literatura pela literatura. Se alguém consegue fazer os dois, se consegue que o carro-chefe seja a força do texto e não o apelo social, tem a minha atenção. E não é de se admirar que a mídia se interesse e promova livros medianos, como você coloca, mas que levantam bandeiras de grande apelo social. A mídia está interessada em notícia. Por literatura se interessa um número bem menor de pessoas e isso não vende jornais, não dá ibope.
Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal
DA – Mas ainda, por mais estranho que pareça, são justamente os cadernos e os suplementes literários que permanecem valorizados pelos autores, quando buscam uma resenha ou a divulgação de seus livros. No Brasil, ainda resiste uma cultura de associar projeção aos grandes jornais impressos, de não dar o valor devido ao espaço virtual, à atenção dada aos livros nos sites, blogues e afins. Como analisa essa transição? Os espaços virtuais reservados à literatura são uma maneira de compensar a falta de espaço na mídia impressa ou estamos diante de uma nova geração de críticos, que lidam com a literatura segundo a realidade de seu tempo?
NIVALDO TENÓRIO – Acho que são os dois, Sérgio. Sem dúvida, há uma nova geração de críticos mais antenados com as novas tecnologias e a literatura perdeu espaço na mídia impressa. Talvez o crescimento de uma esteja atrelado ao desaparecimento da outra. Aqui em Pernambuco, noto uma resistência. Há bons jornalistas interessados em escrever sobre literatura. Temos um suplemento cultural, o Pernambuco, que é um dos melhores cadernos de literatura publicados no Brasil. Quanto à preferência dos autores em verem suas obras divulgadas por cadernos e grandes jornais, deve ser um reflexo do próprio desejo de se ver publicado em papel. O cara publicou um livro nas redes sociais e tem milhares de seguidores, mas só se sente publicado de verdade quando seu livro está à venda nas livrarias. É o fetiche, é a tradição. Mesmo os escritores comerciais se sentem assim. Parece que o papel tem o poder de tornar oficial. É verdade que quando sai em jornal uma resenha aquilo só é lido por meia dúzia de pessoas. Todos só tomam conhecimento quando o link da matéria é divulgado nas redes sociais. Acho que essa crítica em blogues e sites vai crescer e vai ganhar mais prestígio à medida que as publicações em jornais ficarem mais raras e, se não desaparecerem dos grandes jornais, existirão apenas em jornais como Rascunho ou publicações artesanais para um número pequeno de assinantes. As facilidades que a internet oferece impediriam que hoje o Osman Lins desistisse de tudo, no Recife e Vitória de Santo Antão, e fizesse a mesma viagem que os sertanejos faziam para São Paulo.
DA – E no seu caso? Incomoda-lhe ou, de alguma forma, desanima adentrar uma dessas mega livrarias e não encontrar os seus livros? Qual a extensão que você almeja para sua carreira, para sua escrita?
NIVALDO TENÓRIO – Tudo o que almejo para minha carreira de escritor começa e termina no texto, quanto ao resto não é de meu controle. O meu livro não se encontra em mega livrarias – pelo menos o livro físico – não por ser de péssima qualidade. É exatamente o contrário. Quando entrei pela primeira vez na Livraria Cultura, da Avenida Paulista, não pude acreditar no que via. Mais da metade da livraria era dedicada aos livros da moda. É fácil reconhecer pelo colorido das capas. Não bastou que alguém tivesse escrito um livro tão ruim como “Crepúsculo”, era preciso que aparecesse um monte de imitadores com novos Crepúsculos que ganhariam as prateleiras de tais livrarias. Então, eu não tenho culpa se impera um gosto ruim ou mediano, se todo mundo parece tão carente de autoajuda e entretenimento que só aspira a mais bruxos e lobisomens em aventuras sensacionais. Mas eu estaria mentido se não dissesse que todo escritor deseja sim encontrar seu livro nas vitrines de livrarias. Alguns, quando encontram, chegam até a fotografar e exibir no Facebook, coitados, como um acontecimento realmente fabuloso. E talvez seja mesmo. Então, Sérgio, não me preocupo com isso. Interessa-me fazer um livro melhor do que o último. Este livro, acredito, é melhor do que o anterior, pois minha maior motivação é escrever cada vez melhor, embora isso, claro, quem julga é o leitor, seja lá onde ele estiver.
DA – Talvez seja uma heresia perguntar isso para um contista por excelência, mas você já pensou em escrever um romance? Caso não, o que o afasta do gênero? Caso sim, esse seria um próximo livro? Aliás, já tem um novo projeto literário?
NIVALDO TENÓRIO – Nunca tentei escrever um romance – apesar de ser um leitor de romances – mas já pensei sim, embora nunca tenha levado a termo, sequer começado. Encontro no conto o gênero necessário para minha criação. Há as pressões do mercado (que, é claro, eu não levo a sério) e dos amigos (que não sabem apreciar o conto), pois é comum coisas do tipo: e quando vai sair o romance?, como se todo esforço para escrever o conto fosse balela, um talento desperdiçado. Não por tais razões, o mercado que se dane e os amigos que aprendam a ler. Mas vou escrever. Não digo que já tenho um projeto, é só uma ideia que vem me assombrando ultimamente, de transformar um dos contos – porque me sugere uma narrativa de fôlego maior, o caso da tartaruga – em romance. Vou escrever, mas não tenho pressa. Sempre admirei os escritores obcecados por sua obra, que nos dão a ideia de que viveram apenas para escrever, como os russos e Balzac, por exemplo, mas tenho uma natureza infelizmente indolente, depois de um livro preciso de um tempo, mais do que razoável, para de novo me sentar e escrever. Tenho fôlego de contista, nunca estive interessado em quantidade.
DA – Diante de todas as frustrações e contratempos que trouxemos à tona, por que então continuar a escrever? Vale a pena ser escritor no Brasil?
NIVALDO TENÓRIO – Publiquei a primeira vez com mais de 30 anos. Escrever sempre foi mais importante do que publicar. A gente não escreve porque isso vai mudar nossa vida. Não vamos ficar ricos e nunca acreditei no exercício da escrita como terapia. Escrever, então, nunca representou obter algum tipo de vantagem. Acho que todo escritor tem dificuldade de responder esta pergunta. Hoje, mais do que nunca, quando para tudo que se faz, logo se espera obter resultados, lucros, vantagens. É isso ou você está perdendo tempo, dizem os pragmáticos. Escrever talvez seja o modo mais cruel de perder tempo. Não há garantias. Se escrevo e, se continuo escrevendo, faço porque sentiria muito se algo acontecesse que me impedisse de escrever. Não acho que seja mais fácil ser escritor em outro país. Quando a gente pensa no século XX, uma parcela significativa da grande literatura que aparece foi escrita na América Latina do Terceiro Mundo, com problemas de ditaduras e analfabetismo. Faulkner, Carson McCullers e Flannery O’ Connor escreveram no Sul dos EUA de pobreza, Ku Klux Klan e fanatismo religioso. Então, não é num país com problemas sociais resolvidos e índice zero de analfabetismo o lugar ideal para escrever e ser lido. Não há lugar ideal para escrever. Ouvi de uma editora francesa que, em Paris, o escritor ou escritora lança seu livro nas livrarias pequenas, lugares aconchegantes, cheias de histórias, com fotos de Hemingway penduradas nas paredes. Os lançamentos contam sempre com um público de 30 pessoas, no máximo, entre as quais se contam esposa, filhos, pais, parentes e amigos do escritor. O problema é maior, vai além das fronteiras, e tem a ver com a perda de certa noção da subjetividade. Mas uma coisa eu posso garantir, em todo tempo e em todos os lugares houve e há dificuldades, nenhuma delas, entretanto, é páreo para o desejo de escrever.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
Há um horizonte humano de
esquecimento
onde palavras
não proferidas
guardam o silêncio
de ruínas e lamentos.
Um testemunho de dor
sob o céu da Somália.
Entre a esperança e o tormento,
ruínas e lamentos,
a história aguarda
seu julgamento.
Seu inaudito
veredicto
sob um horizonte humano de
esquecimento.
***
PRIMORDIAL
Como as oscilações da chuva
nas alamedas
Eu poderia lhe dizer
sobre o tempo,
sua inconstância,
de palavras ditas
e perdidas
sob o vento frio
de setembro
Mas tínhamos a certeza
dos pormenores da vida
das oscilações da chuva
das alamedas
onde
caminhávamos
lentos passos intercalados
como legítimos filhos
do século passado.
***
NOTURNO
As razões de quem ama
não são argumentos.
Estratagemas para sentimentos
no amor não se pode tê-los.
As evidências de quem ama
são fatos secundários
como as alamedas
no mês de maio.
Os amantes sabem
do improviso
– flor casual do destino.
É possível que o amor seja
mesmo sem a convicção dos teoremas.
Leve – como no sono se propaga
o sonho em Marta.
***
ALGO
Eu cumpro protocolos
sobre o túmulo das roseiras!
Eu cultivo solos
sem eira nem beira!
Meus sonhos?
Restolhos
de um vilarejo
abandonado
onde olho a vida
e digo algo.
***
LAMENTO
Onde posso estar
que não seja
em mim
mesmo?
Parada
tumulto
Avenidas
que se cruzam
Vazio crepuscular
de um vulto
Onde posso estar
que não seja
mendicante argila
sob o firmamento
Jó
pó e lamento?
***
PRIMORDIAL II
Eu poderia dizer
das circunstâncias adversas
da escassa colheita
do riso sem primavera.
Eu poderia dizer
da dor e da espera
do tempo sem fim
da noite deserta.
Mas seja em Atenas
ou Alexandria
O amor seria
E eu poderia lhe dizer
dos revezes da vida
das coisas que ficam
e das coisas que passam.
Como do tempo sem fim
da noite deserta
Nasce o dia
o riso
e a primavera.
Hilton Valeriano é poeta, professor, formado em Filosofia e História. Autor do livro de aforismos “Margens”, publicado pela editora Mondrongo em 2017.
Existem realmente fronteiras para a arte? Usando de mais exatidão, as expressões artísticas, com toda a sua carga de diversidade e linguagens múltiplas, podem se curvar ante a ditames que as impedem de mostrar-se ao mundo? Ao que parece, o controle do homem sobre o homem nunca deixou de ser exercido. Seja para aplacar as possibilidades libertárias encerradas pelas epifanias da mente ou do corpo, seja para desfilar todo um império de moralismos montados numa égide de hipocrisias, são abertas cada vez mais novas alas de intolerância e desrespeito. Numa instância mais aprofundada, negar a alguém o gozo de sua humanidade plena é também um ato de barbárie. Nesse ínterim, a censura à arte parece ser uma das formas mais cruéis de tentar aniquilar a voz de alguém. E podemos deslocar tal intento limitador aos mais variados campos de expressão, da literatura, passando pela música, até as artes visuais. Então, qual seriam os elementos argumentativos que classificariam uma determinada obra como sendo um atentado à pauta conservadora da sociedade? Melhor pensarmos num jogo de oposições, através do qual interesses obscuros e moralistas alimentam um nocivo status quo de garras imperiosas. A tais tipos não interessa que uma voz, por exemplo, periférica ouse falar ao mundo sobre a inteireza de sua verdade pessoal marcada pela caracterização de sua identidade. A arte jamais deixará de ser atravessada pelas marcas pessoais de quem a engendra, ainda mais quando se trata da construção identitária que se mostra ao mundo por intermédio das criações. Assim, discurso e linguagem se amalgamam dentro de uma ideia que aponta para a mais viva representação de uma individualidade. A ninguém é dado o direito de exterminá-la. Definitivamente, não há espaço para destruições identitárias num ambiente como a Diversos Afins. Que novas vozes venham a transitar suas faces por aqui. O caminho está aberto. A Leva 121 traz, a propósito, uma importante entrevista com a poeta e performer Daniela Galdino, artista que conduz com maestria a segunda edição do coletivo de poetas e fotógrafas “Profundanças”. Sobre este e outros temas afeitos à Performance e à Literatura, o diálogo germinou algumas preciosas reflexões. Por aqui, agora trilham as alamedas poéticas os versos de Eunice Boreal, Celso Yokomiso, Tassyla Queiroga, Lilian Sais e Helena de Andrade. A partir do espetáculo “Para que o céu não caia”, Marcus Groza descreve sua experiência com vigorosas manifestações da dança. São de Guilherme Preger as impressões sobre o filme cubano “Últimos dias em Havana”. As narrativas de Rita Santana, Anchieta Mendes e Vinícius Canhoto compõem nossos dedos de prosa de então. Thiago Mourão nos apresenta uma significativa prévia do novo disco da cantora Illy Gouvêa. São de Saulo Dourado os atentos mergulhos no livro de crônicas “#Parem de nos matar!”, de Cidinha da Silva. Para coroar todas as alamedas desta nova edição, expomos as pinturas da artista portuguesa Cláudia R. Sampaio. Com os caminhos cada vez mais abertos, eis uma nova Leva. Boas-vindas!
– Talvez a cidade seja vista por mim de forma panorâmica, como se eu não estivesse dentro dela, morando nela, mas de passagem. Do meu ônibus, olho. Mesmo que eu morra e seja enterrada aqui, eu não sou deste lugar. Não tenho vínculos sentimentais com as suas ruas nem com a sua gente. Gosto muito das casas que resistiram ao tempo e permaneceram intactas no silêncio arquitetônico da Capital, maculadas pela poluição. Eu aprecio, observo e penso as pessoas e o espaço. Mas não sei a cidade. Se soubesse, eu estaria nela. Não estou. Os nomes das ruas começam a ter algum significado dentro de mim. Os sacolejos do ônibus, curvas e freadas bruscas tiram o meu pensamento do foco, e a minha atenção se desvia para alguém, um ponto, outra viagem, um cabelo, uma camisa, um cheiro. É na minha terra que meus mortos morrem. Vejo na mesma calçada, o edifício Haroldo Lima e a igreja Universal do Reino de Deus. Quantos paradoxos atravessam-me! Tenho que fazer a síntese para não sucumbir, surtar, sofrer! Sinto que sou vigiada.
Às vezes, ela, Verônica, sente certo pertencimento, sim, certa aderência à cidade. Confessar talvez fosse resgatá-la para o lugar do fracasso. A conquista dos espaços é ainda mais dura do que supunha desde sempre, e os anos passam. O que há é vida e desengano. Dentro, memórias amontoadas e irresolúveis girando como os discos de vinil que vivem dentro do quarto-e-sala no Largo 2 de Julho. Um sangramento inconfesso e umas lembranças, mais doloridas hoje que ontem, atormentam-na. Veste uma calça jeans, um mocassim vermelho, surrado pra caramba, e aquela velha blusa de malha macia, mole, com pequenas flores brancas sobre o fundo vermelho. O cabelo solto com umas flores de crochê, cachos mais definidos, fios hidratados, alguns nós embaraçados, creme. Cabelo de mulher negra: macio, mole e muito fino.
– Sinto-me seguida, guiada nas palavras que uso, nos gestos. Como se houvesse uma inteligência a conduzir – ou tentar –os meus passos. Mas isto não é da sua conta, ouviu? Não é da sua conta o que não quero revelar. Não gosto da delatora ignorada que me espia e talvez revele falsas impressões sobre mim e sobre a minha intimidade. Originalidade, minha cara, tenha originalidade! O que em mim interessa a você, diz respeito aos seus inconfessos desejos? Nada! Por que, então, me olha? Demônios! Sinto que aqueço e sangro por dentro. A boca inteira traz um gosto de sangue, e a cabeça – toda ela – parece conter a mesma sensação. Sinto-me sozinha, completamente sozinha em todas as minhas horas, sem que exista um par. Apenas a algoz que denuncia as minhas infâmias. Déspota que não olha pra si mesma e não tece seus próprios tecidos, apenas olha e é incapaz de manipular o tear; espia e manipula verdades, informações. Uma mulher! É mulher quem me delata. Habito um vestido de tecido barato, amarronzado, com manchas pretas que remetem à África, isto sim! Como acreditar no olhar que interpreta e é dono das verdades em narrativa de vida alheia? O olhar que orna o real como bem lhe apetece. Acreditar na edição desse olho, na sua montagem autoral?! Cacete!! Sinto frio e sede! Visto calafrios e enigmas. E não desisto de buscar a Poesia.
É uma quinta-feira! Início de tarde. Vejam – eu preciso cumprir o meu destino. O sol está muito forte e aquele ônibus não entra na estação da Lapa. Logo, é preciso caminhar até lá subindo o Vale do Tororó. E ela o faz, enquanto olha as vendedoras ocupadas com suas mercadorias, empurrando o pedestre para o asfalto com seus caixotes que me lembram o cenário de peças teatrais que vivem grudadas dentro de mim. Preciso acender velas. Perdão! Às vezes, caio em abstrações e penso em mim, no meu nome. Ela, Verônica, nossa personagem, vê beleza nos artefatos, nos objetos expostos, nas cores das malhas grudadas nas manequins cada vez mais próximas de um ideal de feminilidade baiana. Mas, apesar do cansaço, parece sorrir.
– Não, eu não gosto da Lapa! Eu, verdadeiramente detesto a Lapa e tudo o que a cerca! É tudo muito áspero, seco, escuro, sujo e concreto. O subsolo é uma prisão! Piso ainda nesta calçada sem olhar por onde ando e sei que preciso estar no agora para vencer o presente a cada passo: e não tropeçar! Mas como está difícil abandonar o passado. Como hoje ele me atravessa e insiste em lembranças antes apagadas! Hoje, sangro um pouco mais internamente. Os anos não me livraram de algumas imagens. Alguém para telefonar caso aconteça alguma coisa comigo? SAMU! E O Sol Também se Levanta desatinando sensações da leitura de tantos anos atrás, como se pudesse me levar de volta àquelas touradas, e às palavras que me trouxeram tanta estranheza; o cheiro das páginas do livro na memória. E o almoço? Comer sozinha. Preciso comprar um abacaxi. Falta-me oxigênio no cérebro! Gosto amargo de sangue na boca, vertigem nos olhos. Confusão de sombrinhas, pernas e poemas caídos no chão. Rostos de gente que não é a minha gente e uma perturbação nos dedos. O suor. Aquele mau cheiro de minha avó em meu corpo, os panos na pele, as pulseiras de ouro de tia Tonha no cérebro. E a febre nas pernas!
Parece tropeçar! Não consigo acompanhá-la agora. Ela, entre a multidão de trabalhadores, é apenas mais uma a levar empurrões, olhares e palavras de estupro. Como são comuns as palavras de estupro nas ruas dessa Bahia! Vence as escadarias e em algum momento se apóia em um homem, sorri uma desculpa e para. Depois prossegue sendo levada pela pressa, pelos atropelos, pelos ambulantes, pelas mercadorias, pelos dvds piratas em abundância atraindo seus olhos de fadiga.
– Estranhezas. Sensações. Impressões. Eu queria estar naquelas páginas novamente. Lembrança da alma em sincronia perfeita com os tijolos de uma cidade cujas cores não seriam as do romance lido há tanto tempo, mas cores de um amor abortado entre a baía de Todos os Santos e a baía do Pontal. O pôr-do-sol na Sapetinga, um deque, promessas inauditas. E o meu corpo suando frio enquanto resisto e observo o meu ceticismo quanto à chegada. Sempre temi encontrar em uma cidade o meu passado, a minha intimidade de outras vidas. Não perseguirei Toulouse, nem o Engenho de Santana, nem Milagres, nem Carcassone. Um chá e uns incensos talvez resolvam o meu drama, a minha tragédia. Uma caipirinha e um beijo. Eu preciso mesmo é de um beijo! Não, a boca está muito seca. Quero água! Que calor!
São quase duas horas da tarde. A fome dispara o alarme no corpo da mulher que sigo e as suas pernas doem; acho que tremem; são finas e fracas. Da distância em que estou, parece que cambaleiam um pouco. Verônica lamenta a sua peregrinação e outras mulheres em todo o mundo também o fazem, entretanto, seguem. Mas é apenas de Verônica o nosso olhar, os nossos gestos inúteis de ajuda, o nosso riso tentando entender a sua alma e inventar fingimentos para o seu caminho, construindo a trilha da sua chegada. Pensando no tempo para que a narrativa se cumpra. Como entender Verônica assim, entre a multidão que se esbarra na estação da Lapa correndo para alcançar, antes de qualquer pessoa, aquele degrau vazio da escada rolante – sempre tão cheia, insuficiente e suja – como se estivesse fugindo de algum suspeito? Suspeitando de tantos no medo moderno. Talvez outros já intuíssem a sua existência. Mas não tivessem querido alcançá-la na sua solidão sem par; talvez a temessem. Não havia para a nossa Verônica a parceria no mundo, a companhia absoluta, mesmo que invisível. Ela passava apressada pelos dramas alheios esquecidos em estações, em carteiras de identidade perdidas nos banheiros fétidos das rodoviárias, em ruas fétidas do centro de São Paulo, nos arredores das velhas catedrais, nos fétidos interregnos de Copacabana.
– Lembro daquele homem por quem me permiti ficar apaixonada por meses razoáveis. Ele me beijava em francês e queria que eu entendesse a sua língua. A língua eu entendia bem, sabia entendê-la, mas o idioma? Assim? De supetão? Não… E, ainda por cima, dissera que eu era a primeira a não entender a sua linguagem, me deixando estupidamente grilada durante uns tempos. Depois, dispersei o pensamento, mas de vez em quando me vem – não mais o homem, aquele rosto eu (quase) esqueci – mas o substantivo perca, inexistente no idioma oficial, infelizmente. As minhas perdas nunca deixarão de ser, realmente, intimamente, as minhas percas, muito mais lindo, mais forte, mais palatável, mais brasileiro, mais meu, mais de quem sabe intuir a língua e lambê-la. Exaspera-me a ociosidade da gramática. Fico feliz quando encontro percas na boca do povo. Percas são pérolas na boca do povo.
Lá vai ela! Na sua arrogância de personagem! O sol penetra seu tecido e enfraquece suas certezas. Titubeia um pouco tonta, enquanto sobe a ladeira, mas sabe que chegará. A pressão está caindo por causa do sol, da fome e do cansaço, da menstruação próxima e das frustrações políticas. Respira um pouco e para diante do vendedor de água de coco. Bebe toda a água sentindo-se revigorar imediatamente. Agradece ao moço oriental com um sorriso e segue levando consigo o seu encantamento, sua simpatia heróica, seu charme silencioso. O sol parece que está posto sobre a Praça da Piedade.
– Quase morri outro dia atropelada por um ônibus defronte ao quartel do corpo de bombeiros. Eu atravessava a rua distraída – talvez pensando no caruru da corporação suspenso por falta de verbas ou talvez pensando naquela cor para um vestido ou na intensidade da cor ou nos homens do calendário, na água, em Luma – quando ouvi um freio brusco ao meu lado. Segui, sem olhar a face metálica da morte. E agora aqui. Estamos aqui! Estou perdendo a ortografia.
Um carro buzina agora mesmo diante do seu corpo quase curvo com o peso das sensações. Sequer olha para o motorista e segue, querendo chegar em casa. A avenida Sete não percebe o episódio. Os transeuntes transitam sonâmbulos entre os ambulantes, volantes, volições, buzinas, pernas, barracas e desejos. É preciso segui-la antes que se perca ou morra. Para no mercadinho e compra um abacaxi maduro e cheiroso, além da farinha. Olha as pimentas frescas. Pensa se verá aquele rapaz suave que a deixa tonta. Ou sou eu a pensar naquele rapaz suave, doce, leve, lépido? Quem fica tonta? O repolho roxo é pequeno. Pensa na sua textura e na sua cor, no barulho da trituração. Chega ao edifício com o cansaço das operárias. O elevador está quebrado novamente e somente ela, àquela hora, sobe a escada. Quase sempre que sobe aqueles degraus, é rezando o pai nosso. Vê as plantas da vizinha sobre o muro e sente uma alegria, uma espécie de consolo, subversão da sujeira. As chaves. Abre a porta, segurando a sacola com os livros entre as pernas.
– O apartamento me resguarda. Tiro os sapatos, respiro e entro. Deixo os livros no sofá e abro a janela da sala. Beber água geladíssima! É a ordem do organismo inteiro. Embrulhos sobre a pia. Estico as pernas no sofá e tento relaxar um pouco, sacudo as pernas, pés descalços. O suor ensopou toda a roupa e o meu rosto. Com as mãos, tento amenizar o suor. É preciso me esticar antes de qualquer coisa. Penso no quanto devem ter me achado repugnante na rua, com tanto suor. Penso no caldo de cana que eu detesto porque um dia me causou enjôo. Alguns rostos me viam todos os dias saindo para a estação às cinco e meia da manhã, driblando os camelôs e toda espécie de ambulantes que organizavam suas mercadorias. As engenhocas eram papelões, lonas e ferragens que se transformavam em tendas. Olho o mofo das paredes do apartamento recém pintado, lembro das baratas que surgem à noite, e da velha casa do passado com tantos mofos e telhados pictóricos, bicicletas e poço, cisternas, tonéis e túneis. Os sonhos que me perseguem naquela casa. A profundidade escura do passado. Os gritos das mulheres violentadas, agredidas, ecoavam nas paredes do edifício. Meus gritos e meus silêncios também formavam o coro no poço do elevador.
Liga a tevê para se sentir acompanhada. Certifica-se de que não há homens na obra de um sobrado próximo. Despe-se. Antes, olha-se ao espelho e percebe uns sinais no rosto, típicos da família do seu pai. Umas pintinhas pretas. Segura os seios suados, suspende-os, aperta-os e sorri. As rugas sobre o nariz delineando o tempo. Caio chega confuso à memória. Vontade de ter morangos frescos. Perdi os tomates maduros na geladeira. O banho libertá-la-á de tudo aquilo, do cansaço, da dor nos tornozelos, nos músculos. Olha os crisântemos dentro do jarro azul e sabe que eles, mesmo murchando, a salvarão de Salvador e da sua máquina incessante de moer vidas, comer pernas e devorar os sonhos mais delicados, pelo menos durante uma semana. Pensa em O Jogo de Ifá de Sonia Coutinho. A cidade come os nossos sonhos com as impossibilidades. A cor da pele aqui também é uma conquista cotidiana, com guerras impensáveis. A cidade ilumina os sonhos da gente com os espaços ensolarados e cheios da arquitetura que não ilude mais a sua/minha expectativa. Cuidado ao partir, cuidado! Qual é o seu interior? A pergunta ressoa pelo chão frio. Umas lembranças teimam em lhe invadir hoje. A tarde começa a ficar nublada, o peso das nuvens recai sobre o seu ânimo.
– Observo o recrudescimento das cenouras na geladeira. Se ao menos eu fosse fácil, Deus! Por que me deste a visão? Alguma coisa na cidade me aprisiona. Serei eu a minha própria cela? Meus naufrágios naqueles navios noturnos serão criados pela minha própria mente? Haverá tempo de ser quem eu pretendia? O meu projeto de gente? Ou terei que atravessar eternamente o sacrifício e o desvio do túnel? Amolar a faca e imolar a garganta.
A água do chuveiro hoje cairá por mais tempo. Pega a toalha e começa a se enxugar, mas não quer sair; volta para a ducha como se ainda não tivesse entrado e tenta concentrar-se novamente no banho, no agora. Esforça-se para não pensar na conta do telefone que já chegou, mas pensa. Depois disso, o de sempre: cochilo, almoço, janela, lixo na porta, correspondências, louças, lousas. Novamente tenta seguir o ritual do banho, mas veio o calafrio ainda debaixo da água. Sabia da sua força, por isso buscou a toalha com sofreguidão. Era tarde, caiu lentamente no chão e quis paralisar o corpo, conter o bater dos dentes, mas era inútil. Soergueu-se com desespero por pura consciência da solidão e por medo de morrer ali tremendo de frio. Consegue chegar até a sua cama e cobre o corpo com o edredom. Paralisa os movimentos e lentamente consegue escapar do tremor. Permanece apenas respirando, imóvel. O corpo está quente, as pernas ardem.
Veio o incêndio. A partir daquele momento, todos os velhos sobrados ruíram sobre aquela mulher. A sensação de abandono entrou pela janela com as lufadas de fumaça que se misturavam na atmosfera lá fora. Ela olhava assustada. As labaredas cresciam no interior do prédio defronte do seu edifício. Conseguiu levantar e caminhar até a janela. A imagem da desolação dos moradores, a agitação e a gritaria. Dentro de si, tantas vozes querendo falar. E o calafrio oprimido apenas pelo medo de perecer sem defesas. Desligou a televisão e deu um telefonema inútil. Não havia conforto do outro lado nem reconciliação nem socorro.
De repente, é noite. Ela ouve a música de olhos fechados e começa a dançar na sala. Fica em pé na escrivaninha e vê o mundo mais amplo e se vê maior diante do mundo e sente desejo de abraçar toda a Baía. Há mosquitos circulando o espaço, a lâmpada e uma vontade de comer chocolate e lambuzar a boca. A música de Ella penetra seus sentidos e os tecidos ficam arrepiados. Ela faz movimentos leves do balé clássico que aprendeu em aulas de dança afro com Zebra e murmura a cantiga, o refrão. O corpo sua e o vento frio penetra as prateleiras da estante. Toulouse! Verônica agora caminha sozinha nos labirintos da cidade cor-de-rosa. Olha a feira nas calçadas e os objetos vendidos ali. Garrafas, antiguidades, roupas usadas, porta-retratos, frascos de perfume. Músicos se apresentam em cada esquina e dão ao ar uma atmosfera agradável de que a arte está em todos os lugares, principalmente nas ruas. Estala os dedos e morde os lábios ao som das Timbilas, marimbas e dança. Eu também desejo dançar, Verônica! Mas ela não me ouve, apenas grita: Nunca mais na sua vida ligue para mim. Você não sabe que hoje é o meu aniversário! Ouço Billy, ouço Ella. Há sussurros em seus lamentos. Ouvimos outrora Sarah Vaughan em uma vitrola antiga, bebemos vinho. A noite ia serena e carregada de silêncios, carícias – nunca houvera carícias ali, e escuridão. Apenas as sombras que vinham do beco dos artistas traziam o movimento do mundo lá fora e as músicas que se misturavam com as nossas. As nossas sombras dançavam no apartamento; sim, agora eu também danço. Ele tremia de uma forma violenta e eu nunca soube perguntar por que os tremores, por que a impotência, por que não aprofundamos absolutamente nada, sequer as carnes. A arquitetura da cidade espezinha os que vêm do meu interior. Preciso renovar o meu armário, entende? Sair desta! Cair fora! Preciso perder a minha própria pele e emergir outra figura. Ainda quero perseguir o cometa Lulin ou qualquer outro astro que me faça sair da minha própria atmosfera doméstica, caseira. Pensei que a ideologia estivesse enterrada e morta, mas não está. O elevador quebrava sempre que eu tentava buscar água mineral do outro lado da rua, numa esquina em que uma costureira aplicava o seu comercial na janela: costura-se, conserta-se. E eu pensava: Morre-se! Na entrada do meu apartamento: Morre-se. Como em Pompeia: A Casa do Poeta Trágico, mas, aqui, apenas: Morre-se! O vento entrava pelo apartamento inteiro e sobre a minha cabeça cansada destilava um ar frio de resgate dos sentidos perdidos durante o sol sem almoço, sem água. Aquele homem proferia as promessas do passado e beijava a minha boca como sempre, engolindo tudo no tempo da eternidade. E ele já não era. Os bombeiros erguem suas escadas, gruas, repórteres, gritos, e os moradores do sobrado que chegam. Mulheres correm. Uma delas se deixa ficar na calçada com a mão na cabeça, segurando o pensamento que teima em fugir daquele lugar, o armário, as contas, as roupas dos filhos que estavam na escola, fogão, prestações do ferro novo, a narrativa e a minha vida em incêndios. Sinto o calor, padeço. O peso do seu nome nas costas e uma vontade de rezar. Chorar por aqueles a quem amara. Os amores perdidos. Enxugar as faces de cada um; perpetuá-las em seus lençóis até a eternidade. Buscando entre os astros o abraço do pai, sem que o tocasse, entendendo a comunicação das energias, onde é prescindível o toque. Assim ela o fazia: enxugava as dores dos homens a quem amara no seu véu, no seu colo abnegado, mas falível, inquieto, insatisfeito, febril e irado. Santo sudário de imagens, memórias. Expulsá-los do seu templo de várias formas, a todos, num só ímpeto! Com a ira santa das fêmeas que despertam para a indiferença eloquente do macho; a ira das viúvas afortunadas que gritam e são ouvidas na arena. A minha verônica é mulher de sanhas e louca, por isso, Santa. É mulher de êxtases quando toma o chá, quando se entrega na meditação, quando goza em machos e em preces, quando faz silêncios cíclicos. E quando dança! Agora eu ouço o Bolero de Ravel no circo com todo o grupo presente, cumprindo a determinação cênica do meu diretor, indo pra tantas viagens desconhecidas, quase sem volta. Pedra. E Ele na vidraça da janela, com palavras de um poema destinado a outra, a ameaçar as minhas/suas certezas. Ela cresce. Sinto que o seu tormento também a mim me atormenta um pouco. Terei fome, também eu? Terei também eu estas víboras dentro de mim e do meu estado inerme de existir? Eu, a narradora fria que se surpreende ao também suar? Seria da narradora também o suor? E o orgasmo? Serei eu de natureza gozável também e humana? Terei também eu um sexo e um discurso, assim como as verônicas que se mostram nas telas, nos véus? Eu beijo… E o meu nome? Estou no Beco dos Artistas e me observo diante de uma parede de bar pintada, enquanto o artista plástico tenta, bêbado, explicar o seu processo criativo, certamente bem mais interessante que a obra, caso conseguisse expressá-lo. Era Sarah cantando e você viciado, sem que eu soubesse dos rituais em cocaína. Equus no palco e você tremendo ao meu lado, acho que por puro tesão àqueles cavalos magníficos, ou a cocaína? E tantos desejos circulando no meu sangue, perpassando vertigens e já não era você o homem com quem eu tentava uma transa séria, madura: – Foi bom pra você, mas eu estou aqui, desse jeito ainda! Houve uma segunda vez? Não sei! Não sei! Os diários, as cartas e as receitas médicas soltas no chão do apartamento, expostos aos olhares dos amigos que chegavam e os amigos dos amigos desconhecidos que atropelavam minhas palavras e; também eu bêbada, atropelada pelo ônibus durante a duração daquele beijo. Eu também vivi tudo isso, em algum lugar! E você chegava de outro encontro. E aquele beijo, após licores caros e queijos fartos à mesa de um restaurante onde eras percorriam todos os cantos do muro, hermeticamente fechado, consolidando um discurso de alienação do mundo lá fora. E o pedido para que eu fosse sentar ao seu lado e o não seguido do seu corpo me beijando até hoje? Onde estou? A pista traz luzes e é noite. Luzes de estrelas na estrada. Quantas luzes! Quem guiava o voiture enquanto nos beijávamos na estrada de Montppelier a Itacaré? Enquanto nos refugiávamos nos cafés das calçadas para apreciarmos aquele céu azul, ainda sem trio elétrico, nem turistas invasores? Ele nunca soube que você era uma artista! – ele nunca ouviu o que você falava, nem o seu silêncio! Ele só via o seu umbigo e o seu pênis. Estou perdendo o desejo de continuar sendo esta mulher. Falo com paredes, mas principalmente, com barcos e homens do mar, inalcançáveis. Queria me despir de todas as tibiezas. Sou muito fraca! Muito fraca. Ele nunca soube que você falava. O beijo no átrio da igreja de Santo Antônio com a lua na boca quase a dizer que ama e o infinito sutil dentro de mim, como se fôssemos eternos naquele lugar diante do sagrado e da heresia da lua. Os sapos continuam caindo do céu, minha orquídea! Como eu entendo os sapos caindo do céu sobre nossas cabeças naquele filme. Através da garrafa de vinho ou da taça de Martini, ela viu a imagem da mulher, cuja sombra dançara com ela a noite inteira e, ao perceber que tinha sido vista, correra para a parede e fora aprisionada como musgo, pelo mofo esverdeado. A outra me olha assustada pelo flagra e parece tornar-se uma ninfa, um fauno, uma árvore, talvez um irôko, um musgo. Ou sou eu a figura esmagada no mofo cujos olhos de espanto ainda gritam dentro de mim? Suo, suo, suo e fecho os olhos para um longo beijo. Daquela mulher, eu só conseguira arrancar o nome: Berenice. Mas a vida sempre escapou-me.
Rita Santana é uma ilhoa! Em essência, cada vez mais solitária e dedicada à escrita de forma indisciplinada, talvez caótica, mas com determinação absoluta. Publiquei em 2004 o livro Tramela (prêmio Braskem/contos); em 2006 o selo Letras da Bahia selecionou e publicou o Tratado das Veias (poesia. Alforrias (poesia) é uma publicação da Editus/2012 e consta da bibliografia do Mestrado em Letras da UESC/2018. Sou atriz, o que facilita vivenciar meus dramas como se assistisse a um espetáculo, com certo distanciamento, e professora, o que me possibilita trocar aprendizagens contínuas e enlouquecer um pouco mais. Profundamente triste com o destino do País: daí a necessidade cada vez maior da Arte e do seu desnudamento.
Celso Takashi Yokomiso nasceu em São Paulo. Graduado em Psicologia pela Universidade de São Paulo. Mestre e Doutor em Psicologia Social pelo IP-USP. Docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Escreveu LIMITES (prêmio Festival Universitário Xerox do Brasil e Livro Aberto, publicado pela Ed. Cone Sul,1998) e HIATOS (prêmio Nascente – USP e Editora Abril, 1999).
É certo que de passo em passo se constrói um caminho e é de single em single que a baiana Illy Gouvêa vem conquistando seu espaço, não só junto ao público e à midia, mas também aos artistas já consagrados da MPB. Pavimentando uma carreira cuidadosa e sólida, regida com louvor por Jorge Velloso, Illy lançou em junho deste ano seu primeiro de dois singles, Afrouxa.
Com cinco músicas, disponíveis gratuitamente no spotify, o trabalho tem como carro chefe a faixa Afrouxa, canção inédita de Arnaldo Antunes, um dos compositores paulistas mais baianos, em parceria com Davi Moraes e Pedro Baby. Esta primeira música já mostra de cara que, mesmo radicada no Rio, a baiana quer mesmo é trazer ainda mais a Bahia para o mundo.
Mas esqueça clichês de axés, arrochas, humor escrachado ou pagodões. A Bahia que Illy traz, sob regência do produtor Moreno Velloso, um craque, é a Bahia de ritmo próprio, com uma leve lembrança dos Novos Baianos, mas com outros baianos. E se arte fala e mostra, Afrouxa faz isso tudo e mais: traz sensação. É quase possível sentir o cheiro do dendê misturando com alfazema e mijo da lavagem do Bonfim. A musicalidade que acompanha os versos de manhã /ainda é cedo / de tardinha, amor/ ainda é cedo também é um explícito convite à cidade alta para ver o pôr do sol nascer, deixando neste verso o jogo de oposição poética, uma marca de Arnaldo. Tudo isso com a percussão contrastando a doçura vocal de Illy.
Imagens são o que não faltam nesta faixa, na qual os compositores mostram que a sereia (talvez do Rio Vermelho) é Iemanjá, que beija Iansã e também Nanã, ampliando o cenário da baía com beijo da chuva com o mar. E o tom libertário da música, de quem pede um pouco de espaço para curtir a profanidade baiana, exemplificando o beijo de Adão e Eva, sem esquecer a lealdade (não suposta fidelidade) do amor, segue para uma balada mais pop em Só Eu e Você, lançada em 2016 e produzida por Alexandre Kassin.
A música, com letra de Chico César, ficou conhecida pelo grande público ao se tornar tema de Claudia Ohana na novela Sol Nascente e é uma daquelas baladas que não saem da cabeça. A faixa traz também a intensidade artística de Illy, quando degusta dos versos vigorosos fazendo amor/botando pra moer/ só eu e você ou tudo em pausa só por causa do eclipse/ da elipse que o tempo fez por nós, dando sobriedade e sinceridade a um término de um romance de sexualidade profunda e energias explosivas. A balada pop, que já abre falando que o Instagram não terá fotos, comunica tanto com as novas gerações digitais, quanto com as gerações analógicas.
Illy / Foto: Fernando Young
E Illy é ainda mais Illy quando começa a faixa Ela, do baiano Arnaldo Almeida, integrante da histórica Confraria da Bazófia. Uma letra de mulher forte, extremamente apaixonada, intensa e, principalmente, inteligente. Não à toa, esta é a música do meio e nos dá a melhor pista do que virá no próximo single, Djanira, a ser lançado em novembro e que já tive a honra de ouvir. Sem o feminismo de fachada, em voga ultimamente na tal arte engajada, mostra não só o trânsito livre social da mulher ela é do centro mas não se incomoda/com as cores do subúrbio, como também a alma feminina, que se apaixona, mas observa. A mulher do século 21, que transpira formosura enquanto é sulamericana, inglesa, do tempo e, acima de tudo, baiana. Com a percussão da terra da magia e de musicalidade gostosa, fácil de ouvir e viradas empolgantes, Ela traz a suavidade da voz de Illy, mas com ataques nos versos um pouco mais firmes.
Enquanto você não chega, de mestres baianos como Cézar Mendes, Capinan e Pretinho da Serrinha, traz em sua musicalidade a lembrança do samba santoamarense, terra de Cezinha. Com a poética utlizando-se de termos do samba como enredo, porta-bandeira e compasso, é uma ode ao samba. Dentre tantas homenagens ao ritmo já produzidas, esta se destaca por mostrar a doçura de Illy de uma forma mais ágil, valorizando também a sonoridade do recôncavo baiano, em excelente produção de Alexandre Kassin.
Ainda aproveitando-se da influência do samba, talvez onde Illy se encontre melhor, Olhar Pidão tem musicalidade um pouco mais de balada, e a letra, do também baiano Ray Gouvêa, segue a linha da mulher forte e irresistível, em jogo de palavra que amacia o ouvido: quando você me olha com esse olhar de louça/outra moça fica pra trás. A faixa curta encerra o single deixando o ouvinte com gostinho de quero mais.
E virá mais Illy em Novembro, com o single Djanira, que, junto com Afrouxa, se tornará o albúm Voo Longe, produzido por Moreno e a ser lançado no ano que vem. Enquanto isso, você pode assistir aos clipes de Illy e aos vídeos dela com artistas como Caetano, Fagner, Chico César e Mart’nália.
Thiago Mourão é escritor, autor dos livros Mosaico de Sensações e Java Jota e de alguns artigos políticos em O Globo. Atualmente, prepara um livro de contos para ser lançado em breve. É também revisor responsável pela Editora Bem Cultural e trabalha com assessoria de imprensa da bela região do Vale do Café, no Rio de Janeiro.