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121ª Leva - 06/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Tassyla Queiroga

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

Vácuo

 

é possível convencer um corpo a entrar em movimento
desde o ventre
e se arrastar pra onde queira
o ponto que divide dentro e fora
é uma órbita
o umbigo é a primeira mamadeira
um oco enfeitado
que nunca se preenche
o buraco
precisa se manter limpo
o conceito de caule e seiva
nasceu da primeira
mãe
feita de instinto
em tempos tão remotos que nada tinha nome
cordão umbilical virou ponte
por onde o fermento entra
a coragem nasce na placenta
e não abandona
o umbigo
feito criança
precisa se manter limpo.

 

 

 

***

 

 

 

Tipo 9

 

da horizontal da cama à cozinha conto 12 metros
de poeira e coisas por arrumar. a vitrola
travada em Caetano denuncia: tudo
fora da ordem. me dissolvo em
preguiça, tal qual prego
enferrujado e da janela
do quarto vejo a
disposição do
vizinho
na varanda
varrendo e fumando
cigarro marlboro às 9 da manhã
acordar cedo no sábado é a nova revolução russa
eu ativista da paz
dissidente volto
a dormir mais.

 

 

 

***

 

 

 

Disparo

 

qualquer palavra é gatilho pro poema
o pensamento-som
viaja na velocidade da luz
e qualquer som é também gatilho
pra trilha sonora do poema
basta um batuque
pra se inspirar basta estar
vivo
e atento
como uma roleta russa
basta um disparo
pra que eu não durma
e o gatilho dos meus sonhos é o teu nome.

 

 

 

***

 

 

 

Terceiro andar

 

construir paredes com fendas
te dar a chave da entrada
empurrar os móveis pro canto
sala palco pra te ver dançar
bolero de frente pro espelho
arrumando a mala ao contrário
todo dia esquece uma peça
todo dia um convite pra aquietar no meu peito
o felino insaciável
leão rouco rindo de velhas piadas
roubando seu lado da cama
e nem existia lado antes da sua visita
você toma muito espaço
mal respiro
o cigarro na varanda é retrato
em preto e branco
do teu corpo
que eu rego todo dia
aluguel de uma história como essa não se paga
conjunto de talheres de prata
bibelôs de porcelana
mobília de dentes expostos
o muro frágil que construímos
entusiasma meu sarcasmo
distribui meu sangue em tua artéria
e veja: a matéria prima
dos encontros
é feita de saliva e cerveja
na calçada suja de um bar vazio
o assunto da conversa é teu nome
pronunciado pela minha boca
doze vezes antes da primeira vez em que você penetrou
a casa onde morava
a velha senhora tímida e seus gatos famintos.

 

Tassyla Queiroga é escritora paraibana, residente em São Paulo. Já participou de alguns saraus e reúne poemas para a publicação do seu primeiro livro.

 

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121ª Leva - 06/2017 Jogo de Cena

Jogo de Cena

BEBERAGENS DE ESPECTADOR: Dançar para que o céu não caia

 Por Marcus Groza

 

Cena de Para que o céu não caia / Foto: Sammi Landweer

 

Antes de entrar para ver Para que o céu não caia, de Lia Rodrigues, abri o programa e li as palavras acima. O espetáculo é inspirado no livro A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa. De imediato, podemos dizer que no espetáculo nada indica uma relação figurativa com o universo ameríndio e, nesse caso, o interesse aqui não recai sobre o aspecto tradutivo que nele possa haver em relação ao livro ou em relação ao mundo ameríndio: gostaria de fazer aqui um exercício mais simples, trazendo o relato da minha experiência como expectador desse espetáculo, no MIT-SP, em março de 2017.

Ao entrar, recebemos uma pequena toalha: a sala de apresentação está vazia, um linóleo preto, limpo com esmero. Como não fui um dos primeiros a entrar, apenas aderi à enorme roda que se começou a formar, todos sentados no chão, em roda. Talvez tenha sido decisão dos espectadores se sentarem daquela maneira, não sei. O estranhamento começa quando, como espectador, não defino muito bem que lugar devo ocupar. Enquanto todos vão se sentando, dois performers/bailarinos começaram a lançar pó de café ao longo das beiras da sala: estranhamento e sinestesia. Ao começar o espetáculo – e digo assim apenas por força do mau hábito que temos de achar que a coisa começa quando entram os artistas e a luz entra em ação –, os outros bailarinos entram portando potes que colocam sobre duas extremidades da sala no chão onde há pó de café. A entrada e essa ação já me mostram que o círculo formado por nós, espectadores, não vai funcionar: muitos como eu estavam de costas para os bailarinos. Todos se voltam, alguns se levantam. Os bailarinos em silêncio, com muita tranquilidade, aproximam-se e bordejam o público: apenas depois de longo instante, alguns deles vêm até nós e fazem um pequeno gesto ou resmungam baixinho algo incompreensível. Depois de outro instante, o público se junta ao centro. “Parece que finalmente acertamos, ufa! Agora vai começar”, penso. Depois entendo que já tinha começado e uma troca não-verbal, da ordem do sutil, já tinha se estabelecido.

Como espectador, posso dividir o espetáculo em duas partes: a inicial, em que não sei onde devo me posicionar, e a segunda, na qual uma roda se (re)estabelece e os bailarinos dançam no centro. Gostaria de destacar a primeira parte e, mais especificamente, o estado de liminaridade que, nessa primeira parte do espetáculo, se fez emergir para mim.

Depois que finalmente nos postamos no centro, os bailarinos em uma das extremidades da sala, próximos às paredes, dirigem-se aos potes que tinham colocado ali. Tirando de dentro um composto negro – que pelo cheiro do início julgamos ainda ser pó de café – pintam o rosto e depois todo o corpo, sempre com gestos controlados, em uma atitude cerimonial. Depois dessa caracterização, o olho – sempre bem aberto – ganha uma expressividade incomum. Levantam-se muito lentamente e caminham na nossa direção. Estamos sentados no piso, vulneráveis. Mas somos maioria.

Num estado de desaceleração acentuado, eles começam a atravessar a pequena multidão que somos, abrem caminho. Param diante de alguns de nós e aproximam o rosto a poucos centímetros e ficam nos encarando por um longo tempo. Olhos arregalados. Atravessam com extrema calma e delicadeza, mas fica claro que, vindo em nossa direção, vêm como se pudessem trombar em um de nós ou nos derrubar. Por isso, talvez, abrimos espaço. Sentam-se diante dos que estão sentados para encará-los e, da mesma forma, encaram os que estão de pé. A dilatação temporal ganha relevo, junto com a meia-luz e o silêncio: abrem um estado de suspensão, o ar parece mais espesso. Não sei o que vai acontecer comigo; isso talvez caracterize bem a liminaridade. No caso em questão, os códigos reconhecíveis do que seja dança ou teatro estão em suspensão.

 

Foto : Sammi Landweer

 

Um estado de suspensão é aberto para mim como espectador naquele momento: a sensação de não saber o que ia acontecer comigo não era exatamente um medo. No início, tive receio de que algum deles viesse me encarar, prevendo que seria desconfortante, como no jogo infantil de ficar encarando o outro sem piscar. Depois desejei que viesse, sim, curioso sobre o que poderia experienciar a partir desse contato quase íntimo. Quando um bailarino vem encarar uma pessoa na minha frente, tento também encará-lo (Embora ele não tenha me olhado, parece que foi aí que entrei no jogo; fui capturado talvez). Em seguida, uma outra bailarina vem encarar uma mulher que estava ao meu lado, e eu, novamente, tentava atrair o olhar dela fixamente como se fosse comigo. Assim que a bailarina se levanta, essa mulher que está ao meu lado também se levanta e a persegue, ficando, como que seduzida, olhando pra bailarina, enquanto esta continua encarando outras pessoas. Ao acompanhar essa “cena” entre uma bailarina e essa espectadora, ainda sentado, virei a cabeça e fiquei absorto assistindo àquela  “perseguição” – coisa discreta que poucos devem ter notado. E foi, nesse momento, que tive medo, sim: num dado momento, tenho um susto com uma movimentação à minha frente: podia ser uma outra pessoa vindo me encarar e eu estava, desguarnecido, entregue, com a cabeça voltada para trás. Não era. Nisso levanto e de longe continuo observando a mulher do público que ainda persegue a bailarina; enquanto esta, impávida, segue encarando outras pessoas. Nisso me ocorreu que talvez aquele modo de encarar fosse uma tentativa de dar ignição numa espécie de telepatia, numa intercomunicação mágica, silenciosa, numa comunicação sutil e não-verbal. A liminaridade é um estado de suspensão radical, em que se instaura uma instabilidade e mesmo certa vulnerabilidade. O estado liminar dá margem a devaneios: para mim, naquele momento, com toda a realidade, a telepatia parecia integralmente realizável. Por definição, na liminaridade não se distingue bem o que pode ser do que não pode ser.

Depois de nos atravessarem uma vez, os bailarinos vão até o outro lado e pintam todo o corpo com uma farinha branca e novamente atravessam, encarando as pessoas, longamente, indo até o outro lado. Começa então uma terceira travessia, para a qual os bailarinos agora colocam um trapo sobre o rosto e vêm em nossa direção, agora rastejando e zurrando, rastejando e gemendo. Instauram um clima de alta histeria. Novamente, vêm em nossa direção como se fossem trombar conosco, se não desviarmos. Já não somos mais um bloco no centro. Lentamente vêm na minha direção. É quase uma ameaça. Parecem, nesse ato de atravessar o público, uma força da natureza. Nessa terceira travessia, o deslocamento no plano baixo traz uma presença animal.

A segunda parte do espetáculo – nessa divisão que visualizei como espectador – certamente reverbera sob o signo liminar também. Mas agora há distinção entre público em uma grande roda e os bailarinos no meio. Às vezes, a roda precisa abrir um pouco mais; outras, pelo movimento convulsivo da dança parece que um deles pode se chocar com alguém do público. Embora o espetáculo todo seja sem música, o barulho dos pés roçando no chão enquanto dançam e a respiração ofegante dos bailarinos formam uma sonoridade vitalista, que pude notar num campo de sensibilidade poroso a micropercepções que não seria o mesmo se não tivesse sido instaurado aquele estado de liminaridade da primeira metade do espetáculo. A meia luz que predomina no espetáculo colabora muito para a liminaridade que se instaura. O curry com que mancham todo palco na cena final parece um pó muito brilhante quando então a luz aumenta, e o seu cheiro ressoa por um bom tempo no nariz, depois que saímos da sala de apresentação.

 

Foto: Sammi Landweer

 

Marcus Groza é poeta, dramaturgo e encenador. Autor do livro “e a lua como órgão principal” (Ed. Primata – 2017), entre outros, é doutorando em Artes Cênicas (Unirio) e editor da Revista Abate e da Revista Saúva.

 

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121ª Leva - 06/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Cidinha da Silva e a crônica como ato de nomear

Por Saulo Dourado

 

 

Números sobre a mortalidade negra no Brasil estão à disposição para quem quiser buscar e se inteirar. Gráficos, porcentagens, tabelas comparativas, que mostram o mapeamento de homicídios, um dos mais graves do mundo. Dos 30 mil jovens assassinados em 2012, 77% são pretos ou pardos, diz a Anistia Internacional. A CPI do Senado de 2016 conta que, a cada 23 minutos, um homicídio de mesma ordem acontece no país, e não há sinais de diminuição. Nas chacinas, autoridades discutem quantos foram os massacrados afinal, com 1 ou 2 a mais ou menos, como um placar.

O livro #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016), de Cidinha da Silva, traz os dados e as evidências das mortes físicas e simbólicas de toda uma população, mas os ultrapassa: dá forma e nome aos números. Afinal, com valores absolutos se consegue convencer a razão daquilo que deve importar, mas não o afeto. Quanto mais se banaliza em ofício e em notícias um acontecimento, menos o sentimos, e disso é preciso curar-se. Como antídoto, devemos entrar no particular e no miúdo para que fatos se conectem de novo às tripas e às mãos, para o sentimento e para o rebote.

A crônica tem um papel fundamental, o de tornar especial uma pessoa e um acontecimento a ponto de formar o elo de sentimento entre o particular e o todo. Eis o gênero literário que Cidinha da Silva conduz com ritmo e amplidão, e o mote que ela alcança. Seus textos dão nome, corpo e presença: Maria Julia Coutinho, Sueli Carneiro, Taís Araújo, Lázaro Ramos, Mirian França, Antônio Pompêo, Luiza Bairros, Aranha, Claudia da Silva Ferreira, Livia Nathália, Liniker… Em uma crônica sobre a postagem de Fernanda Lima que elogia as empregadas domésticas como “batalhadoras”, há uma pergunta pontual da autora: “E por que não pôs os nomes dessas mulheres?” Por que seriam anônimas batalhadoras, e mais uma vez todo um povo ser uma massa anônima? Esta reivindicação percorre o livro: a de tirar a mortalha da despersonificação, causa e efeito do prosseguimento de um genocídio.

Ao contrário da Odisseia de Homero, em que o herói Ulisses se salva de Ciclopes ao se chamar Ninguém, na realidade brutal e de negligência institucionalizada as quais vivem o povo brasileiro, aquele que for Ninguém, pelo contrário, é o alvo fácil. Não se trata de cada um ascender e se tornar Alguém para salvar-se; trata-se de narrarmos e escutar as narrativas dos nomes, como um princípio, para que o Alguém seja por princípio dignidade, e não camadas de ocultação e cinismo, como é no Brasil. “É preciso ir mais fundo”, diz Cidinha em Desde dentro, “É preciso ouvir a estas e a milhões de famílias desde dentro, desde antes das tragédias anunciadas (…) É preciso olhar com os olhos de ver e ouvir com ouvidos de escuta. Desde dentro.”

Os assuntos de #Parem de nos matar! são tantas vezes críticas ao lugar da banalidade das informações: as mídias em geral. A princípio, pode-se questionar: se há tantos casos cruéis contra a juventude preta, guerra civil entre policiais e narcotráfico, por que dedicar três crônicas a Maju do Jornal Nacional, programa de uma emissora eminentemente chapa branca? Está diretamente ligado, pois é preciso assistir e cobrar no palco dos afetos, em filmes, partidas de futebol, novelas, palestras, ministérios, àqueles com os quais a comoção, a admiração, os desejos se tornem vistas e refletidas. Eu preciso ver aquele que me faz sentir: eu preciso sentir candura ou raiva, ternura ou desprezo sem elos específicos de corpo e de pele.  Tudo aquilo que dirige os afetos a tornar um massacre um fato menos sensível é cúmplice de seus acontecimentos.

Sem o sentimento, é muito mais fácil esquecer-se e deixar acontecer. Eu particularmente fico contente por este livro ter-me feito passar irritações, náuseas, estranhezas, comoções, raivas e risos, ter-me deixado baqueado em uma tarde de domingo. Quer dizer que há energia de movimento pelas páginas e que passam por mim. Porque sentir é dar força, é vigor de natureza, e nessa dança não há sentimento ruim ou bom, há aquela que provoca o movimento de dentro para fora, a vontade de ser para além de si. Há métodos de ação? Provoca-se a consciência como as crônicas à Carolina Dieckmann e à Patrícia Moreira, ou por marchas, rolezinhos e protestos, ou por dentro das estruturas para refazê-las, como a política em Luiza Bairros, ou a música de Ellen e o humor de Chris Rock na abertura do Oscar. Ou tudo junto, nisto como em tudo que envolvam coletividades e mudanças.

São vários os subtemas dentro de um grande tema, em circunstâncias diversas. O cronista também é um rebatedor: a realidade se lança plural e inverossímil, e a crônica a devolve menos bruta, talvez mais brutal, tangida por olhar e saliva. O cronista cria veículos de sensações e também organiza e interliga acontecimentos, dá linhas de pensamentos. #Parem de nos matar!, então, enquanto uma compilação de dezenas de textos, está sob o desafio de traçar algum caminho, de ligar uma ideia à outra, e ganhar unidade. Consegue. A princípio, pensei que fosse uma ordem cronológica dos acontecimentos, depois vi que era por temas, e talvez sejam os dois movimentos se costurando. Misturou-se a tal ponto que um texto mais denso, como “Tempo Novo!”, que vai do racismo no futebol ao golpe parlamentar de 2016, seja coeso com o belo “Matias e o Boneco de Star Wars”.

Assim, me deixo levar totalmente por uma crônica como “Obituário de uma lembrança”, com a qual me reconheço nas palavras de conselho feitas da autora ao amigo anos antes, e aqui a recorto:

És a primeira pessoa de meu círculo próximo de convivência assassinada e quero que seja a última. Não sei lidar com isso e não quero aprender. Sou fraca e insignificante. Não tenho a força da poeta que declara firme: Dos nove homens de minha família assassinados, sete foram mortos pela polícia…

Cada um dos que se vai nesse massacre é a primeira de algum círculo, é sentido com uma força que não acreditaríamos se apenas o subtraímos ou o somamos. Do contrário, se não conseguimos religar as dores aos sentidos, o que senão as palavras para fazerem a força de ligação? As crônicas, lumiares das pequenezas, indo do cada um para o todo, e do todo para cada um, formam. O livro de Cidinha da Silva reúne.

 

Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador/Ba. Autor dos livros de contos “O Mar e Seus Descontentes” (Via Litterarum) e “O Autor do Leão” (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.

 

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121ª Leva - 06/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Anchieta Mendes

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

QUANDO A CHUVA MOLHA A ALMA

 

Mercedes viu o pai, naquele dia, chegar bêbado. O rosto avermelhado, a voz travada. Quando bom, as palavras saíam com dificuldades. Poucos entendiam os significados. Lá fora o céu empalideceu. O vento varria gravetos e as árvores envergavam. As galinhas corriam no terreiro em algazarras. O céu escurecia rapidamente. Sua irmã Francisca chegou da vizinha resfolegante. “Cuida! Vamos fechar as janelas. A chuva está vindo como nunca”.  O pai deitou-se no chão frio como de costume. Resmungou qualquer coisa indecifrável. Não se interessou pela chuva a vir, apesar de sempre esperar por ela. As outras irmãs fecharam-se no quarto. Helena precisou de ajuda de Isabel, a irmã mais próxima.

Mercedes ajudou as irmãs o mais rápido possível. Correu à janela para ver a chuva. Não tinha chegado, mas o cheiro estava no ar. Olhava para a estrada à distância. Olhava para o pai na sala deitado no chão, a não sonhar com a chuva. E ele não a viria tão torrente, tão forte capaz de deixá-los quase à deriva. A mãe deixou-o morto e não precisou dele para buscar formas de não se envolverem no dilúvio. Por mais que sentisse dó dele, Mercedes sabia, no íntimo, a cada dia o desprezo aumentar. Era um pai doutro mundo. Era um pai presente-ausente. Era um pai de lascar. Olhava agora para a mãe. Corpo esquálido, de ossos do peito a estufarem-se. Os olhos quase não cabiam nos côncavos. A pele presa aos ossos e aos nervos e às juntas. Pele ressequida e sugada. As pernas finas a formarem dois arcos. Os cabelos tingidos aqui e ali de branco e ruins de serem penteados. Ficava a se pensar como aquela mulher pariu cinco filhas com aquele corpo que mal se firmava em pé. Às vezes temia em a mãe se desmoronar e os ossos se espalharem pelo chão. Era uma mulher de aparência fraca, mas forte na luta, na lida, nas resoluções. Pecava pelo amor desvairado, pela inocência no pensar e no agir pelo marido longínquo. Não entendia a mãe, ou se fazia por não entender. Por que aquele amor de um só? Por que sofrer tanto por um homem? Procriação? Carne? Carne era só o que ele trazia na feira do mês, e só. O resto as mulheres da casa tratavam de conseguir às duras penas.

Ela chegou, aos poucos, perpendicular vindo da estrada, subir o alto, banhar as podas das árvores, tingir as cores encardidas das casas. Mercedes viu a chuva vir de tal forma branda para depois forte. Lembrou de Paulo, amigo de Francisca e que se tornou amigo de todas. Lembrou porque ele era como a chuva, apesar de sempre tardia, passageira. Vinha sempre, saltitante, mas logo ia a deixar reverberação no ar. Mas logo esqueceu da imagem fugidia daquele que seria o ponto cego da visão. Deixou-se a ver a chuva a tamborilar nas telhas, aos poucos e logo constante. Não quis ouvir as irmãs no quarto a rirem. A mãe chegou-se perto e as duas ficaram mudas, pelo vão da janela, a ver aquela coisa rara. Cada uma ao seu modo.  As irmãs no quarto, agora a rirem. Quis rir também, e assim o fez, de forma suave, a receber a chuva do caju. E nunca soube o porquê do caju. Naquelas bandas a fruta era rara, quase a não existir.

Foram assim serenas, controláveis, no princípio, que as águas de setembro molharam as lembranças de Mercedes. O pai deitado no chão da sala, bêbado. A mãe sem tantas palavras, mas nos olhos o brilho a espelhar os pingos d´água. As irmãs, no início, a rirem de qualquer coisa. Mas nem tudo foi assim. Tudo foi aos poucos, como qualquer chuva a banhar aquelas terras gris. Choveu. Choveu como nunca. Na proporção que as águas caíam, o cenário mudava. A casa edificada no alto parecia estar segura de provável inundação. Mas o que se veria nas próximas horas foi de causar medo. Os risos das meninas se foram, aos poucos.

Quando a noite chegou, e o pai ainda bêbado e jogado, a chuva veio junto. A luz dos postes era pouca para se enxergar o que acontecia lá embaixo. O caminho a dar na casa, em um dos lados, havia declive acentuado. Existia um vão convexo. Uma espécie de açude sem água. Na beira da estrada, um bar. No início da chuva, alguns bêbados celebravam em brados. Ouviam-se copos a se quebrarem e garrafas tilintarem. Mas depois apenas a chuva. Foi quando a luz se foi. Os risos das meninas também. O pai naufragado no álcool. A mãe, agora, preocupada. Todas trataram de buscar as lamparinas, as velas, algo para as iluminarem. As telhas cantavam, dançavam à chuva, explodiam em melodias agudas. Sentiam-se os respingos por entre elas, como se aspergissem água benta naquelas pecadoras. O pai não sentia, estava morto, e não era novidade morrer a cada dia. A chuva a aumentar.  Os olhos das irmãs, apesar de Francisca ser a mais velha, a expressarem medo.

As casas vizinhas, distantes, Mercedes tentava ver as frouxas luzes pelos rasgos das portas. Eram luzes disformes. Os grossos pingos da chuva turvavam a visão.  Não conseguia enxergar o que, pela manhã, seria o mar lá embaixo e sem condições de não ir a lugar nenhum.

Mas a noite ainda demoraria a chegar ao seu fim. A casa, com suas três portas, delimitava os dois mundos: o interior e o exterior inundado. Mercedes temeu o pior, mas segurou-se. Não tinha presenciado aguaceiro como aquele, apesar de não ver, mas sentia. Os respingos de entre telhas a banhavam como gotas de orvalhos exagerados. Banhavam a esperança de dias melhores, como estágio para que as futuras plantações vingassem. Lembrou, então, de ter deixado a escola, não porque quis, mas pela imposição do pai. Era preciso limpar os matos a engolirem o feijão. Era preciso encher os baldes de água da cisterna. Era preciso encher-se de tantas tarefas para esquecer a dor de ter deixado de estudar. Por isso cruzava com o pai no dia a dia como a um estranho nos caminhos empoeirados daquele terrível lugar.

A escola era do outro lado da estrada. Paralelo à estrada, o rio. Depois do rio a escola. Para chegar lá, muitas vezes, precisou nadar, com as roupas, a sacola com o livro e o caderno e o braço a puxar a água. Quando chegava à margem, esperava Francisca para se ajudarem a se vestir. Os meninos iam pelo outro lado, distantes. E esses meninos, apesar de próximos naquela geografia de Magdaluz, a cada dia, se tornavam mais distantes. Muito mais tarde, com a idade avançada, e as durezas da vida, não os via com os seus próprios olhos e nem os sentia com os seus restantes de sentidos.

Era bom estar sentada na cadeira da escola, apesar de péssima, mas era o que tinha. A manhã a passar a rabiscar cadernos, a juntar palavras naquele único livro, não era ruim. As duas filas das carteiras, de um lado as meninas e do outro os meninos, mostravam as divisões entre eles. A professora era rigorosa, e mesmo no intervalo não as deixavam ir longe, esconderem-se. Os óculos da professora deviam ter graus demais para enxergar tão longe. A sua amiga mais íntima, Eufrásia, de cabelos louros, pele branca como a neve, aparentava inocência, mas era uma diaba por dentro. Os quinze anos das duas emparelhavam entendimento, embora Mercedes se resguardasse nos ímpetos. Já Francisca não era bem assim. Por ter um ano a mais das duas, envolvia-se com Eufrásia em peripécias demais para a época. As trocas de bilhetes eram constantes e os assuntos, claro, eram sobre os meninos. Mercedes era quem acobertava os encontros delas com eles quando dos intervalos. Estava sempre atenta a todos os passos da professora e dos seus óculos longitudinais. Inventava sons, batia palmas sem ver para quê, cantava o que não sabia cantar, gargalhava por nada. Tudo para avisar às meninas das investidas da professora. Depois em casa, Francisca contava tudo, mas jurava de pés juntos, que tudo não passava de beijos, só beijos. Conte-nos, dizia Mercedes, os detalhes. Francisca minuciava cada ação e reação. Helena ouvia e imaginava tudo. Como as demais também. No final cada irmã guardava pra si aquele segredo como algo mais precioso do mundo.

Eufrásia não deixou a escola. Eufrásia casou, teve filhos e se separou do marido para viver com outro, e depois com outro e, hoje, não se sabe do paradeiro dela. Mercedes riu, enquanto sentia a chuva naquela escuridão de lá de fora. Dentro de casa, as luzes bruxuleantes dos candeeiros tornavam as irmãs e a mãe imagens fantasmagóricas. Quando elas se moviam, as sombras nas paredes se encontravam como a se engalfinharem.

Na mistura dos sons nos telhados, dos chinelos pela casa, deixava Mercedes entregue a devaneios e, ao mesmo tempo, atenta a tudo. Achava os movimentos da casa o seu mundo mais profundo. A chuva trazia, além dos fantasmas nas paredes, os vultos do passado. Na proporção em que a chuva se fincava na noite, a casa enchia-se dos parentescos vultos, vizinhos e figuras desfiguradas. Mercedes recebeu todos eles, entre desconfiada e deslumbrada. A tia Andaluzia gostava de falar alto, e foi logo expondo o seu ponto de vista em relação à situação da região: “a seca me dá agonia por ter que comer carne seca e farinha. Não tenho nada contra o gosto, mas minhas dentaduras não aguentam”.  Tratava logo em tirar do bolso do vestido o naco de fumo e a palha de milho. Insumos para o cigarro de cheiro maldito. Não se importava para o torcer de narizes dos outros. “retirem-se os incomodados. O terreiro é o local ideal para as bestas”. E continuava a falar, sempre se referenciando à dona da casa. A cada palavra a sair da boca, enxovalhada de fumo e fumaça, o olho direito fechava. Era a forma viciosa, um tique nervoso a deixar a outra pessoa a querer lhe imitar. Pelo olho fechado a fumaça soltava-se e enuviava aquele sentido incomum. Os gestos das mãos em jogar para uma e outra o cigarro de palha mordiscado era outro gesto intranquilo. Tia Andaluzia não era normal. Espalhafatosa, apesar do corpo magro, ao chegar num ambiente tomava conta de tudo. Os outros eram os outros.  Foi assim que ela entrou na casa, já por volta da madrugada, encharcada da chuva. Foi assim, também, em outros dias quando a chuva veio tão forte que não quis voltar de onde veio. “O marido se ajeita”. Ficou uma semana com a irmã de roupa única. As de baixo a irmã precisou comprar. O cunhado foi aos solavancos, no lombo do jumento, a resmungar injúrias para si, a comprar no comércio calcinhas para Tia Andaluzia. As filhas, naquele dia, não aguentaram de tanto rir. Queriam ver a encomenda, o tipo. Mas o pai sob protestos aos quatro ventos enviou a mercadoria pela vizinha. Chegou horas depois trazido pelo animal afogado na cachaça.

Outra personagem, a se livrar da chuva, foi Tio Nonato. Ao entrar trouxe na aparência, de nota, o rente cabelo à brilhantina. O cuidado com aquela indumentária era de causar comentários. Anexado pelo bigode fino, sempre penteado. Ambos os toques negros pela tinta rejuvenescedora. Trazia no bolso o pente fino, guardado como relíquia, parte do corpo, parte da vida. Juntados os irmãos sob o aguaceiro e aos olhos e mente de Mercedes, a noite arrastou-se diferente. Tio Nonato comentou sobre o cunhado caído para depois deixá-lo largado igual a todos. Os irmãos enfiaram-se na cozinha e beberam garrafas de café ao gosto das palavras e memórias elucidadas. Mercedes ficou no canto da porta a ouvir aquelas vozes misturadas do além e do presente.

Tio Nonato também ficou pós-chuva. Deixou a mulher na cidade distante, e acompanhou a Tia Andaluzia em visita à irmã. Foi num período de dois dias que Tio Nonato revelou-se doído pela paixão do passado. Em outras visitas à cidade de Magdaluz, há muito tempo, conheceu uma mulher. Trovadora, audaciosa, bonita, indecifrável por fim. Amor, paixão, atração, não se sabe. O que se sabe foi o rapto da mulher casada, notícia afora. A esposa de Tio Nonato soube e aguentou e chamou a amante de rapariga, praguejou, desejou morrer, serenou. Suportou o tempo de seis meses em que o aventureiro e apaixonado cabra desnudou-se das suas responsabilidades de marido. O filho de uma égua fugiu como o diabo foge da cruz. Fugiu como quem buscava nas carnes da outra o que não encontrava em casa. Voltou tempos depois ao largar a mundana quando abusou. Entregou de volta ao marido como objeto usado, e aquele traído a recebeu. E agora, no encharque da chuva, Tio Nonato mergulhou-se na cachaça a lembrar das aventuras e de querer saber do paradeiro da aventureira.

Foi assim a noite toda a lembrança, a memória a misturar-se com a realidade. As vozes das irmãs com a da mãe fizeram com que Mercedes confundisse o real do imaginário. Porém não deu para confundir quando as telhas dançaram. As telhas não suportaram o soprar do vento. Muitas foram arrastadas. Buracos se abriram no telhado. A chuva a continuar forte, tanto fora como dentro de casa, deixou a todas em pânico. O pai jogado e agora molhado. Era preciso sacudi-lo. Mas antes as irmãs e a mãe trataram de aparar o aguaceiro; cobrir os parcos móveis; de vassouras e rodos a puxar o excesso. O pai era um móvel-imóvel que podia inundar-se, por enquanto. Todas se molharam. O cuidado estava também em Helena. O cuidado estava nas louças e na última feira do mês. Helena se salvou, mas a feira foi de porta afora. A mistura aguou. A mãe quis ir atrás, mas foi impedida pelas filhas. Todas as roupas molhadas, grande parte dos móveis. Quando o pai foi arrastado pela leveza do álcool, a mãe atirou-se para impedi-lo. Foi então que as irmãs notaram o grande amor da mãe pelo pai. E nessa divisão de água entre os pais e as filhas, Mercedes tornou-se pioneira no estilo de vida que iria perdurar por todos os dias vindouros. Mesmo Helena com suas dificuldades, sentiu o quanto aquele episódio as marcaria para sempre.

 

Anchieta Mendes, natural de Juazeiro do Norte-CE, é escritor com prêmios literários e contos publicados em várias antologias. É autor de “Valados de giz” (Romance), “Alquimia” (Romance – Multifoco) e “Bicho Metropolitano” (Contos – Penalux).

 

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121ª Leva - 06/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Eunice Boreal

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

E me disse coisas

 

com o espanto
de quem não sabe
o que diz

Toda vez que tentava falar
Dos seus sentimentos
Sentia serpentes saindo
Dos seus poros
Em gritos contínuos
Enquanto apenas tentava pensar.

 

 

 

***

 

 

 

Elucubrações

 

Prometo apenas ser
Desenvoltura do laço.
Quando não, silencio,
Já não grito. Escuto
Labirintos que me vivem.

Vem! Se aceitas o meu lado secreto
Que nem sempre de encanto se mostra.
Vem! Tu, que sabes da Medusa,
Dos tempos, do grito…
Mas, alto, escutas o amor.

 

 

 

***

 

 

 

Partícula

 

Na origem do mundo
Quem sabe um neutrino
Que agora
Me atravessa
Também tenha
Vivido
Algum
Movimento
De todo
O início.
Talvez alguma espécie
Que me antecede
Tenha lembrado
Do primeiro
Sol nascente.
Talvez algum traço
Da minha pele
Teça o mapa
De todo
O caminho.
Mas
O que importa
A memória
Deste corpo
Físico
Se tudo
É sempre
Muito mais
Belo
Do que a gente
Imagina?

 

 

 

***

 

 

 

Tabuleiro

 

Dentro do jogo

De palavras

Nem todas

As peças

Foram

Dadas.

Dado

A essa

Partida

Nada volta

Tudo é

(A)I(N)DA.

 

 

 

***

 

 

 

Sentido

 

todas as estações revelam
os filhos e as flores dos fractais.
pedir licença ao novo e ao velho
não te invalida em nada
pois os sábios não precisam
se impor nos degraus imaginários.
há muito que o tempo sabe
todos dançam
circulares
mesmo enquanto se levantam.

 

 

 

***

 

 

 

Fronteira

 

O corpo é o único território
Que não precisa de cercas
Elétricas.

Mas também é possível
Você diz
Que alguns sons cheguem
Ao seu pé
Do ouvido
Como palavras-bomba.

Sim
Mas diferente
Da política
O corpo ainda está vivo
E permite reações diversas.

 

Poema-imagem de Eunice Boreal

 

Eunice Boreal é uma Poeta Multimídia. Começou os estudos da arte aos 9 anos de idade. Desde então, realiza trabalhos com a escrita, o desenho, a música, a interpretação e as filmagens. Além disso, une a sua prática artística aos estudos filosóficos, realiza palestras sobre a arte e também já trabalhou em parceria com o Cnpq. Parte da sua obra está presente na internet, em exposições individuais e mostras coletivas, como por exemplo a Vídeopoéticas II, que aconteceu no Centro Cultural São Paulo.

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Últimos dias em Havana (Ultimos dias en la Habana). Cuba. 2016.

 

 

Últimos dias em Havana é um drama cubano de 2016 dirigido pelo que é hoje considerado o mais importante diretor de Cuba, Fernando Pérez. O filme conta a história de Miguel (vivido por Patricio Wood) e Diego (Jorge Martinez), dois amigos de infância. Diego é um homossexual que sofre de aids e está fisicamente preso a uma cama. Miguel é aparentemente um homem assexuado que é obcecado por seu desejo de deixar a ilha e emigrar para os Estados Unidos. Ele espera conseguir o visto da embaixada americana para o qual vem se candidatando há algum tempo.

Sabemos que um evento de violência ocorreu na escola de juventude dos amigos, no qual Jorge foi vítima de discriminação e Miguel o teria protegido. Esse episódio selou a amizade entre os dois ao mesmo tempo que destinou Diego a uma vida de clandestina sexualidade. A história do filme se passa num momento em que Diego, deitado inválido sobre uma cama, tem a ajuda de Miguel para quase tudo, desde comida, remédio e banho. Diego confia em Miguel mais do que em sua família. A casa onde o casal de amigos mora pertence a Diego e a família deste teme que ela seja destinada em testamento a Miguel, uma possibilidade no direito da ilha socialista.

Últimos dias em Havana lembra imediatamente Morango e Chocolate (Fresa y Chocolate, 1994), de Tomás Gutierrez Alea, sobre história de Senel Paz, o maior sucesso de público da história do cinema cubano.  A referência é explícita: também aquele é um filme sobre a amizade entre dois homens, um deles homossexual. Justamente, as personagens gays de ambos os filmes têm o mesmo nome, Diego (e são interpretadas por atores de nome Jorge, Perrugoia e Martinez, respectivamente). No entanto, as personagens não homossexuais são bem diferentes, quase opostas. No filme de Alea, David é um jovem comprometido com a revolução que tem enorme preconceito contra os gays. No filme de Pérez, Miguel é um homem que sonha com a vida americana e considera a revolução socialista uma verdadeira catástrofe pessoal.

 

Cena do filme Últimos dias em Havana / Foto: divulgação

 

Em sua passagem pelo Brasil, Fernando Pérez admitiu a referência ao filme de Gutierrez Alea, porém disse que seu filme é um tributo a esse, considerado o maior diretor cubano, de quem foi assistente. Atualmente, Fernando ocupa a posição de destaque de seu mestre. No entanto, para o diretor ambos os filmes são muito diferentes, apesar do núcleo de história comum. Na verdade, não é uma questão tanto de referência quanto de diálogo. E num certo sentido, o filme de Pérez guarda um tom crítico em relação a Morango e Chocolate.

Toda obra de cinema, ou mesmo artística, de Cuba está marcada pelo estigma do documento. Se a presença e a persistência da revolução cubana permanecem incompreensíveis para muita gente, é através da arte que se procura explicar o mistério da longevidade da revolução, para o bem ou para o mal. Assim, há pessoas que se basearam no filme de Gutierrez Alea para criticar ou mesmo denunciar a suposta perseguição homofóbica na ilha caribenha. Morango e Chocolate não seria então uma obra de ficção, mas sim um testemunho do caráter homofóbico dos revolucionários, “representados” pela personagem de David.

Não adiantaria argumentar, no entanto, que o filme seja um drama ficcional ou que Gutierrez Alea foi um diretor que sempre apoiou a revolução, ou que o filme tenha sido financiado com dinheiro estatal cubano e que tenha passado, sem censura, nos principais cinemas da ilha, ou mesmo que a sorveteria Coppelia tenha se tornado um ponto turístico e que lá nunca falte justamente o sorvete de “fresa”. Tudo isso deveria matizar uma apressada leitura “realista” ou “documental” da obra. Morango e Chocolate é o que se chama, em teoria literária, de um filme “polifônico”, um filme de vozes e perspectivas. A crítica ao ranço preconceituoso, machista e homofóbico eventual de um guerrilheiro cubano é elemento narrativo do filme, mas também é ato de autorreflexão estética da própria revolução, que repensa seu significado através de uma obra de arte.

 

Foto: divulgação

 

Últimos dias em Havana retoma um diálogo que torna ainda mais complexa a questão da sexualidade na ilha caribenha. O Diego do filme de Fernando Pérez já não representa mais a antítese da revolução. Num certo sentido, ele está em paz com sua condição de cubano e com o regime socialista. Há, portanto, neste filme uma troca de papéis com sinais trocados: é Miguel, amigo e interlocutor de Diego, que não confia no regime. Mas Diego, por sua vez, não é exatamente uma pessoa conformada com a situação do regime burocrático que reprime ou cerceia sua sexualidade. Sua prisão são sua cama e sua doença, e sua luta é por manter vivas a libido e a delícia de viver, mesmo em seus “últimos dias”.

O que o filme põe em confronto não é mais o destino coletivo de uma nação socialista contra o livre exercício individual da sexualidade. De certo, a sexualidade de Diego precisou ser vivida de forma clandestina, mas ele sabe que tudo em Cuba se consegue sob a “vista grossa” do poder oficial. Tudo é vivido nas brechas entre as aparências oficiais do regime político e a realidade cotidiana das ruas. Assim, o que a narrativa do filme confronta não é mais o Estado contra o indivíduo, mas a aparência oficializada do governo pós-revolucionário e a urgência política da vida e dos afetos cuja existência se dá coletivamente. Agora é Miguel que, ao se individualizar em sua amargura e desejo de fuga, vive uma vida paralisada, cuja única esperança é receber uma aceitação da embaixada americana, enquanto Diego e outras personagens vivem mais plenamente seus desejos e suas sexualidades. Últimos Dias em Havana inverte assim a perspectiva de Morango e Chocolate: não é mais a revolta do indivíduo que assinala a verdade opressiva do regime coletivo. É a intensidade da vida coletiva que se “vira” em condições desfavoráveis e traz a verdade sobre a impotência existencial do indivíduo representado por Miguel. Embora não suporte o sistema político de Cuba, Miguel o representa muito mais do que Diego e seus amigos e familiares. Diego incorpora o afeto existencial e libidinal que é ausente do discurso oficial da burocracia no poder, no entanto, é a rigidez desse sistema que torna viável esta mesma corrente afetiva subterrânea, ao permitir que prossiga como se não existisse.

O filme de Fernando Pérez trabalha de maneira a tornar complexa a relação entre a aparência formal do regime político e a aparência estética cinematográfica. Se, no início, o filme parece aderir a uma estética folhetinesca de oposições fortemente marcadas entre os caracteres antagônicos de Diego e Miguel – o primeiro exuberante, porém imóvel, e o segundo afetivamente paralisado, porém circulante – esse antagonismo se torna menos trivial aos poucos, pois a amizade entre os dois está incluída nesta “política da vida” da qual Diego é portador. A entrada em cena de novas personagens como P3 (ou P4, vivido por Cristian Jesús Pérez) e Yusisleydis (Gabriela Ramos), a sobrinha de Diego, amplia o caleidoscópio atual da vida na ilha caribenha, trazendo à tela a vivacidade da geração contemporânea de jovens cubanos. Ambos, aliás, justamente não alimentam o sonho de emigrar e vivem no interior de um experimento social de sobrevivência à margem dos legados possíveis ou das promessas utópicas da revolução.

 

Foto: divulgação

 

A presença deles interrompe repentinamente a normalidade esquemática da relação entre Miguel e Diego, assim como interrompe a história do filme numa bifurcação do correr da narrativa cinematográfica. É com a entrada desses jovens que o filme ultrapassa o binômio quase-dialético da fórmula “morango e chocolate” para desviar a outros rumos estéticos. Formalmente, há dois elementos marcantes na construção cinemática. O primeiro está no uso da música diegética, interna ao enredo. Toda a trilha sonora do filme é ouvida no interior da própria história numa junção engenhosa entre narrativa ficcional e documento contextual. Assim, a belíssima canção cantarolada por Yusisleydis tem o aspecto simultaneamente de um momento lírico de fantasia, sendo no entanto extremamente realista, evitando o que seria um artificioso comentário sentimental do diretor e expressando inesperada erupção do real na trama. O mesmo para a canção Chupa Piruli que acontece num mercado de produtos de consumo de Havana. A cena joga com a ambiguidade de sua localização e parece ocorrer em uma espécie de Miami insólita localizada dentro da capital cubana. Essa canção não “comenta” de fora o enredo, mas emergindo por diegese da própria narrativa funciona como um comentário irônico que o filme faz das próprias expectativas do público.

E há, a partir de certo momento, o recurso brechtiano de distanciamento e estranheza provocado pela fala de Yusisleydis, que passa subitamente de personagem secundária à narradora da história. O filme então assume um aspecto fabuloso, porém ao mesmo tempo mais fortemente verdadeiro. Não é simplesmente o caso de dar “voz” ao povo cubano, pois Yusisleydis não “representa” os jovens da ilha. Ela só representa a ela própria. Sua fala tem o mesmo efeito da música diegética: emana do interior do dispositivo cinematográfico ficcional interpelando diretamente o espectador. O que importa é menos o que ela tem a dizer e mais o gesto de sua enunciação, a tomada da palavra. O que é exemplar não é sua mensagem, mas sim o gesto revolucionário de assumir a palavra sem intermediários.

Últimos dias em Havana parece um filme em paz com o regime socialista, porém não se pode acusá-lo de ser uma propaganda do Estado cubano, nem tampouco é uma obra dissidente. O filme não transmite a ideia de que a revolução está em seus últimos dias, mas também não está em seus momentos gloriosos. Se o filme indica que há algo novo nascendo é porque a revolução também sofre metamorfoses insuspeitas, entre a verdade da fábula e a gélida ilusão da realidade.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Lilian Sais

 

Pintura: Cláudia R Sampaio

 

três da madrugada
amplia tudo

conheço de cor
o silêncio

palavras batem
no fígado

e estouram no céu
da boca,

mas não ultrapassam
a barreira

dos dentes
cerrados.

como larvas,

sambam sobre tumba
pretérita.

bebo uma taça
de vinho,

profundamente,

e meu olhar agravado
denuncia:

esse inventário
não está

completo

 

 

 

***

 

 

 

apenas por hoje:
não existir.

todo hoje é
provisório,

todos os dias
é excessivo.

os apelos são sempre
abandonáveis

mas quanto pesam as presas
do elefante?

as pálpebras pesam
o inverossímil

das manchetes.

apenas por hoje:
calar as urgências

e adormecer
(quase) em paz.

 

 

 

***

 

 

 

nascer em são paulo
sempre é prematuro,
começo da ponta
de um peso, buraco
que não é túnel,
que chuva não
inunda, que cheiro
de café não
preenche, edifício,
fístula, santo:
quanto maior a pedra,
maior o câmbio, traste,
a vida em ricochete,
uma cadeira vazia na sala,
uma corda que pende
(e a cortina
do quarto
está sempre
fechada)

 

 

 

***

 

 

 

não foi em troia
nem na rússia:
quando sucumbi
de grandioso só
havia mesmo
solidão & silêncio.
restava tão pouco de mim
que nem era possível
sair à rua.
três toneladas o cigarro
entre os dedos,
e nenhum choro ou grito
na despedida.
desisti de tudo, salvo
da saudade:
quando sucumbi
soletrei infância
em maiúscula.

 

 

 

***

 

 

 

todo dia acorda todo dia toma banho
todo dia escova os dentes todo dia a comida
e o barulho todo dia o despertador tiro certeiro
certeiro o tiro todo dia existir ser gente
existir todo dia deixa para amanhã todo dia
ler todo dia os índices mas não os capítulos todo
dia toma omeprazol em jejum toma fluoxetina dá azia
todo dia toma ácido valpróico pra ficar boazinha
todo dia toma risperidona que é antipsicótico
remédio de louco mesmo você toma
remédio de louco mesmo o psiquiatra disse
todo dia 2 mg antes de dormir todo dia
toma o remedinho que é pra você ficar boazinha filha
não achar que o quadro da sala tá te perseguindo
na rua todo dia não achar que você vai morrer
todo dia conseguir sair da cama todo dia
o dia começa com tiro certeiro todo dia
o despertador toca com urgência todo dia
todo dia hoje parece demasia todo dia a mesma coisa
nenhuma o despertador tiro de trinta e oito todo dia
todo

 

 

 

***

 

 

 

eis a vida: produzir,
primeiro apenas fluidos, dos olhos,
sistema excretor,
para depois mais,
produzir objetos, relatórios,
projetos, máquinas,
massa, fumaça,
nota fiscal paulista,
e inequivocamente produzir
também paixões, declarações de amor,
laços, lágrimas, silêncios,
e se nada mais der certo,
produzir poemas,
esse vício, essa mácula,
esse consolo torto
ao qual me rendo
enquanto em algum ponto
entre o quarto e o sofá
você exerce seu pleno direito
justo, inteiro e irritante
de não mais se lembrar de mim.

 

Lilian Sais é doutora em Letras e pesquisadora e tradutora da área de grego antigo. Paulistana de nascença e fumante assídua por opção, é também leitora voraz da literatura brasileira contemporânea e coeditora da revista Libertinagem. Tem poemas publicados em Mallarmargens, Revista Gueto, Saúva e Zona da palavra. Gosta de samba, cerveja e poesia e é defensora da boemia, de piadas ruins e das conversas descompromissadas de mesa de bar. Os amigos dizem que é uma peste, mas que cozinha bem. Ela nega.

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Vinícius Canhoto

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

VAMPIRA DEBAIXO DO SOL

 

Sempre a procurei pelos livros, mas foi na biblioteca que a encontrei ao ver seus olhos estendidos sobre as mesmas órbitas de Der Zur Macht* que me revelaram milagres e epifanias de um crânio e um amor sem salvação. O ritmo de todas as caveiras prenunciava nosso diálogo com cadáveres no perímetro de sua boca sedenta e inflamada. Eu estava prestes a me desfazer como gelo afogado em whisky não bebido por seu batom, mas procurei pelo sol, procurei por um bar e, na medida que nossos passos se perdiam em busca de refúgio pelas calçadas, cresciam nossos delírios. A vi trazer o mundo na orelha como um brinco que se poderia perder em qualquer criado-mudo incapaz de nos denunciar. Eu sabia de seu desejo de violar todas as superfícies e todos os homens da superfície, também sabia que meu destino não seria diferente dos demais. Um doce mormaço nos fez levitar até os tentáculos de um polvo metálico para beijarmos o púbis das cervejas em copos de pecado. Nos excessos do dia, abriria a cortina da noite. Tremores de uma alucinação feroz em giros excêntricos pelos porões e sótãos de minha cabeça arrastaram seus joelhos para onde seus pés, por prudência, não deveriam ir alimentar o resto da vida com uma hora de loucura.

Hotel de carícias. Hora premeditada em que eu podia abrir as janelas de seu vestido e os olhos para a cumplicidade da lua e aproveitar o medo das nuvens de te ver transfigurar-se na penumbra onde seu rosto poderia praticar um crime delicado. Abri a porta de seu tornozelo que é a entrada de seu desejo. Sua penugem tão próxima das asas, dos dedos, do pênis, o sorriso de sua suave anatomia, os pequenos pêlos da perna que refletiam as luzes dos candeeiros e se deixavam colorir de cobre como seus cabelos se deixavam tingir com meu sangue. Não, nunca mais sairei do uivo de seu cão ou das páginas de seu caderno de adultério. As datas incandescentes contornam fragilmente as folhas de seu calendário bordado a fogo a incinerarem nossos dias. Beijos azulados deslocam seu ponto de fuga para além dos limites habituais e retalham a silenciosa atmosfera donde o suor é amigo e consorte dos amantes de março protegidos em alcovas das estrelas despregadas e das águas que encerram o Verão. Demência apaixonada onde encerramo-nos em quartos, onde a despi de todos os corpos que cobriram seu corpo. Jogos de dados lançados em lençóis pálidos, teu sexo refletido no espelho e chamando por mim. Naufraguei no cio das coxas como dois rios que dividiam o mar tingido por menstruações que afogaram tantos semens na travessia do canal da mancha em colchas que escondem segredos e ocultam digitais. O crime é mais importante que o castigo e as paredes possibilitam inserções mágicas e fórmulas algébricas que nunca se repetem. Arranquei da sua face todas as máscaras de rostos amados. Eu soube decifrar seus jogos noturnos. Pouco a pouco os trapézios de néon avançavam através das sobrancelhas cerradas da meia-noite nos meandros de armas e rosas. O vinho nos bebe e macula a cama. Os olhos de dois morcegos famintos abandonaram sorrateiramente as feridas nos travesseiros abertas por nossos poemas. Cortina de cabelos transforma qualquer imagem em miragem. Uma roleta giratória de revólver em permanentes disparos sobre a rosa carnívora. O perfume na garganta de espuma e fúria das invasões bárbaras. Nossas bocas só depois da madrugada fazem passar os pássaros em revoada sob a pele, porque o amor é só uma palavra, porque o céu foi nossa última chance essa noite.

O lápis do sol desenhava o contorno de seu corpo e tingia as marcas em meu pescoço. Seus caninos sorriam para mim.

 

* Vontade de Poder

 

 

 

***

 

 

 

DO AMOR DE DEPOIS

 

Ele imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento de alegria e impudor. Ela boca cheirando a álcool a equilibrar a lucidez de um cigarro. Eles numa atmosfera de embriaguez a viajarem entre o essencial e o acessório a lançarem dados e calcularem probabilidades impossíveis de encantos mútuos. Ele a compor um sarau de ensaios sofísticos. Ela a utilizar toda alvenaria da sedução. Eles a testarem o dom de reinventar o tempo e o espaço a partir de experiências. Ele a descobri-la ao acaso em caravelas naufragadas em mesas e toalhas. Ela a pensar que numa era o encontraria voluntariamente nos cafés e quartos. Eles a conversarem sobre poetas malditos, livros lidos, desafetos amados e moinhos de vento. Ele a esconder seus segredos e sussurrar suas senhas. Ela a contar tudo a cada minuto sua íntima história de desejo. Eles a excitarem a fúria das paixões num esforço de fé no tempo que endurece as coisas até chegar o momento em que se pode quebrá-las entre os dedos. Ele a sensação do porvir como um sonho irreal. Ela uma mulher com quem beber e esquecer entre silêncios e risos. Eles a se amarem com todas as forças de um tempo ancestral pendurados em fios imaginários na superfície da paisagem. Ele a conjecturar o roteiro de uma viagem sem volta. Ela mãos fecundas a gerar ironia e loucura. Eles a lutarem contra bocas famintas que estilhaçam vértebras e cospem ossos no asfalto. Ele caminha ao cambaio das ruas de verão. Ela a rasgar sua face mais contratual. Eles a beberem todos os delírios e devaneios mais profundamente que qualquer demônio. Ele corpo puxado pelo avesso. Ela corpo devassado. Eles a trocarem imagens do mundo através das bocas mudas. Ele linha do equador entre os braços. Ela mapa-múndi dentre as pernas. Eles a admirarem a miragem dos eternos corpos despidos. Ele a lê nua e decifra seus enigmas. Ela a sentir em seu dorso os dedos que tocam os acordes da melodia em sol maior. Eles a esconderem o prazer de se digladiarem numa arena que revela uma verdade em que não se reconhecem. Ele alma de anjo decaído. Ela carne de vinho e saliva de cerveja e sêmen dos suicidas. Eles a criarem uma primavera de pernas entrelaçadas e se perfumarem com todas as fragrâncias que envolvem suas peles num raio de quilômetros. Ele a colher laranjas em seu ventre e morder o pêssego do peito perdido. Ela a arder sobre um lençol mordido por flores molhadas de sigilo e sal. Eles a trocarem carinhos e confidências como cúmplices de crimes perfeitos. Ele com a certeza científica de que as pérolas se formam por meio de agressões externas para serem saqueadas do sofrimento das ostras. Ela a sentir seu mundo guiado pelos cinco sentidos que criam ciclos de culpa e prazer nos temores da vida de refugiada. Eles a roubarem de seus outonos e entranhas os frutos que incendeiam o paraíso ao imaginarem que inventaram um deus. Ele a adentrar seu labirinto e arranhas suas paredes com inscrições e datas. Ela o livro que ele nunca escreveu. Eles a dobrarem esquinas opostas e trilharem seus caminhos nos quais fantasmas os aguardam inteiros. Ele a beijar seus olhos de ressaca do amor de depois. Ela?

 

Vinícius Canhoto é escritor, professor, doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Autor de “Livro do Esquecimento”. 

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Helena de Andrade

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

Sangue

 

Essa urgência
acomodou-se ao redor das unhas
nas costuras de todas as roupas
paira como poeira levantada
Goles de ansiedade pela manhã
excretadas pela urina à noite
o motor é a esperança de que nada permaneça
mas os pés cimentados
Cinco litros bombeados
oxigenando cada partícula cismada
Universo derramando-se sobre a cabeça
escorrendo pelos braços
pingando dos dedos

 

 

 

***

 

 

 

Insones

 

É tarde
Enterraremos um ao outro
à sombra do esquecimento
Teu universo aflige
atordoa as certezas
Quisera a sinceridade ampla
É tarde
o tempo haverá de fechar as noites
Desejo que parta imediatamente
furte a ousadia
Aceito o desamor
à luz do passo do teu compasso

 

 

 

***

 

 

 

Pele

 

Atrai o que há por baixo da pele
Entre ossos e músculos
raivas incontidas
prazeres descabidos
Atrai o passado
martelado na cabeça
imoralidade dos erros
ideias frouxas
O que desejo está onde reside
a tua vontade
por dentre entranhas
Anseio pelo que vai atrás dos olhos

 

 

 

***

 

 

 

Trem em curso

 

O trem leva ainda que eu resista
Quando desce o morro desvairado
por pouco não me cospe janela afora
Cabelo ventado vedando a boca
fiarada adentrando as narinas, pintando o rosto de caracóis
por vezes, súbita felicidade
mas vertigem
Será implacável o tempo
há tantos cursos entrelaçados, vias cruzadas
se você fechar os olhos escutará a onomatopeia do riscar nos trilhos
A viagem, curta
morro a cada estação, deixando os meus pedaços
e colhendo cactos
certeza de que o florescer não dependerá de nós
Quanto à história, esta sim, cobre-se de nossa pele e suor
Impõe-nos um mundo e nos exige a coragem para movê-lo
O trem nos corta ao meio

 

 

 

***

 

 

 

Cavalo tonto

 

Esse desejo soa como cavalo em disparada
Trota tonto
Nada dito dará cabo ao frenesi
O coração à altura da cabeça
flor roxa tatuada no peito
e no sexo
O que fazer com a tua humanidade?
Não o selei, nem alisei teu pelo grosso
Arrebata meu sossego
atordoado, entorpecido
Arrebata-me

 

Helena de Andrade, fotógrafa amadora, montadora de vídeos, poeta, feminista. Trabalha no terceiro setor e é formada em Ciências Sociais, com Mestrado em Sociologia da Educação.

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Desobediência. Palavra que carrega em si um peso imediato. A uns, espanta e até mesmo repele; a outros, é frente de acolhida. Em tempos de cinismo, hipocrisia, reavivamento ultraconservador e de uma teatralizada desonestidade intelectual a nos rondar, ser desobediente pode se revelar uma valiosa e efetiva maneira de se estar no mundo.

É conveniente frisar que desobedecer não é uma atitude gratuita de simplesmente nadar contra a corrente de um ordenamento jurídico, político, social ou econômico com um banal artifício retórico. Significa entender-se como sujeito permanente de transformações, o qual luta acima de tudo para tornar presente a sua vez e voz num panorama necessário de existência pela preservação daquilo que lhe é demasiadamente humano e caro, a identidade própria.

Diante de um cenário de adversidades, o qual não é apenas secularmente constituinte de um país como o Brasil, há vozes que precisam se fazer presentes e, desse modo, marcar suas preciosas posições de existência. Aliando-se a este tipo de entendimento, uma poeta como Daniela Galdino faz do seu caminhar um permanente movimento de afirmação nos mais plurais níveis. E presenciamos esse vigor expressivo não apenas nos seus escritos, mas sobretudo nas frentes em que atua.

Dona de uma voz transgressora que demarca e expande a sua consciência do que representa ser mulher num mundo como o nosso, Daniela também se espraia pelos territórios da performance, do ensino e do ativismo cultural. Este último vem muito envolto numa noção sócio-política de engajamento frente a questões ligadas à visibilidade das mulheres, bem como aspectos importantes associados às temáticas de gênero.

A autora do emblemático livro de poemas Inúmera (Ed. Mondrongo), através do qual deixa transbordar toda a sua íntima, plural e peculiar visão de mundo, agora dedica o continuar de seus passos para a difusão do coletivo de poetas e fotógrafas Profundanças 2. Celebrando sua segunda investida editorial, esta obra privilegia as expressões de mulheres que se insurgem contra o manto da invisibilidade, o qual, dentro de uma nociva construção social, tentam lhes imputar cotidianamente.

O momento presente, pontuado nesta entrevista, pede que falemos sobre os desdobramentos de Profundanças 2, sua pungência diante dos duros cenários que pululam na atualidade. Urge também falarmos sobre Missivas, performance que Daniela Galdino tem realizado e que alerta para silenciamentos em torno da mulher. Por tudo isso, o agora se volta para ouvir uma artivista que cada vez mais abre seus caminhos para o diálogo com outras vozes. É preciso tirar os móveis do lugar, desarranjar viciadas estruturas, abrir caminho para o outro, sua verdade e inteireza.

 

Daniela Galdino / Foto: Ana Lee

 

DA – Na apresentação de Profundanças 2, você emprega o termo re-existência como um símbolo que situa as expressões das mulheres dentro de um contexto de afirmação identitária. Qual o sentido maior de fazer com que tais vozes não se calem?

DANIELA GALDINO – O sentido da desobediência, sobretudo. Em tempos tão ameaçadores à nossa sensibilidade, escrever literatura, atuar na coletividade em busca de leitoras/es, devolver os insultos cotidianos com poesia (por exemplo) é desobedecer à ditadura do pavor e do desencanto. Então, resta-nos dizer e nos associar a outres que também têm muito a dizer. É por isso que na apresentação da antologia Profundanças 2 também afirmo que “agora estamos irmanades pelo grito” e que “odiadores não representam a totalidade do mundo”. Entendo a re-existência como um intenso desafio de reelaboração de si e dos lugares que ocupamos ou pelos quais transitamos. Não podemos sucumbir à desesperança. Isso seria um total desrespeito àquelas que nos antecederam e, com luta/sonho/sensibilidade, abriram veredas para que atravessássemos. Não penso que a literatura deva se dar ao luxo de ignorar esses desafios. A palavra literária é grávida de vida, de cotidiano, de embates, de delírios, de transgressões.

 

DA – Da primeira edição até aqui, o que mudou fundamentalmente? O momento atual, o qual nos toma de assalto com toda sua nebulosidade, configurou uma nova tomada de consciência? 

DANIELA GALDINO – A primeira edição de Profundanças é de 2014. De lá pra cá, o país foi assolado por um golpe já denunciado pela imprensa, inclusive internacional. Em linhas gerais, essa foi a principal mudança para pior. No entanto, isso não significa que as outras formas de violência, as opressões (raciais e de gênero, por exemplo) sejam recentes. Não mesmo. A consciência crítica que nos leva a combater tais opressões também não é recente. Na literatura, a genealogia dessa consciência crítica é extensa, nos leva para o século XIX, se pensarmos em escritoras/es negras/os aqui no Brasil. O problema é que os espaços de consagração ou divulgação literária (como a universidade, as academias de letras, a escola, festas/festivais literários e mesmo o mercado editorial) historicamente têm tornado invisíveis as produções literárias que revelam discursividades dissidentes. Recente é o acordar (ainda lento, por sinal) de produtores de eventos, escolas, editoras para as “outras” vozes – negras, feministas, lgbti, etc. – e suas criações literárias. Alguns espaços sequer as reconhecem, como é o caso de boa parte das academias de letras, ainda insistindo naquele discurso desgastado: literatura é literatura e se basta, não deve ser “contaminada” por outras questões. Entendo que o estético e o político não devam ser apartados. E assim tenho sobrevivido como artista que dialoga com outres fazedores de artes. Estão nos bombardeando a todo instante. À literatura cabe a “tranquilidade” de se colocar à parte disso? A minha resposta é um estrondoso não. E, em verdade, a literatura não está isolada no mundo, há intensas formas de ativismo literário, de artevismo (como se diz).

 

DA – Com estas vozes dissidentes a que você se referiu, uma nova perspectiva de linguagem surge, algo evidenciada sobretudo pela forma de grafar certas palavras. E, sabemos, isso potencializa uma importante vertente discursiva. Acredita que tais mudanças no trato linguístico precisam também ser incorporadas nas práticas formais?

DANIELA GALDINO – Sim. Bem sabemos que a língua é reelaborada no social, que está em constante transformação. Em Profundanças 2, por exemplo, temos a presença de duas artistas trans não binárias, sendo uma delas da fotografia. Daí, generalizar pelo masculino se torna incômodo, não só para essas artistas, como para nós que construímos o projeto na coletividade. No âmbito do projeto passamos a grafar o termo “Fotógrafes”, como uma provocação para que outros gêneros sejam representados para além do binarismo masculino-feminino. Entendemos que não se trata só de uma troca de palavras, mas de um amplo sentido relacionado às formas de igualdade de gênero, o que, desejamos, devem ser incorporadas nas práticas cotidianas.

 

Daniela Galdino em Missivas / Foto: Ana Lee

 

DA – Quando você observa o resultado de um projeto como o Profundanças, consegue vislumbrar a presença efetiva de alguma transformação no campo das representações sociais?

DANIELA GALDINO – Profundanças é um projeto que está em curso, estamos no segundo livro num período de pouco mais de dois anos. Então, transformações serão percebidas no processo. Como é um projeto que combate a invisibilidade de escritoras no cenário da literatura, já se torna provocativo, ainda mais por ter a visualidade como algo importante. As duas antologias publicadas trazem, além dos poemas/contos/crônicas, ensaios fotográficos. Isso não é aleatório. Desejamos difundir imagens dessas escritoras em seus lugares de origem e/ou atuação, evitando qualquer forma de objetificação. Importante, também, por se tratar de um projeto que traz, em sua maioria, escritoras inéditas, muitas delas negras. Então, essa visualidade, esse contato de leitoras/es com imagens dessas escritoras, é uma forma de oposição à invisibilidade a que me referi há pouco. Além disso, Profundanças provoca deslocamentos, encontros. Cito como exemplo a poetisa Dayane Rocha que, apesar de ser pernambucana, não conhecia a cidade do Recife. Foi a partir de uma atividade do projeto (uma roda de conversa realizada no Espaço Pasárgada, em agosto/2017) que Dayane esteve pela primeira vez na capital do seu estado. Eu estava com ela e presenciei uma cena profundamente tocante. Chegamos ao Recife numa quinta-feira à noite, a cidade naquele intenso movimento de rua (trânsito frenético, pessoas saindo do trabalho, ônibus lotados). Nos dirigimos ao prédio onde ficamos hospedadas e, da janela de um vigésimo andar, vi Dayane chorando muito e observando os prédios imensos que restringem a visão da paisagem. Ela me disse: “quero voltar pra Brejinho”. Na manhã seguinte, eu me acordei com um poema que ela escreveu bem ao modo da tradição do Pajeú, o seu sertão (e ainda nos deixou um poderoso mote: “Recife, tu és mais dura/ que coração sem poeta”):

 

Buzinas, carros, barulho
O teu céu reflete prédios
Tua gente vira entulho
Por conta dos intermédios.
Tua paz é estressada
Até mesmo a passarada
Canta uma nota incompleta
Cantando na partitura…
Recife, tu és mais dura
Que coração sem poeta.

 

Trago esse exemplo para dizer que os encontros têm acontecido. Encontro com outras, com nós mesmas, com as estranhezas cotidianas… e isso tem nos transformado a todo instante. Dia desses, numa conversa in box, Renailda Cazumbá (escritora baiana que está em Profundanças) me disse: “você é uma refazedora de novos lares! Lares poéticos”. Somos colegas de trabalho na universidade e, aos poucos, comecei a desconfiar que Renailda escreve. Perguntei pela primeira vez, em 2013, ela disse que não. Na segunda vez, não perguntei. Já enviei o convite para ela participar de Profundanças, em 2014. Inicialmente ela não aceitou, depois foi convencida. Dito e certo: ela me enviou arquivo com poemas datados (alguns do final da década de 80). A partir disso, Renailda tem sempre relatado como foi difícil atribuir a si o nome de poeta; como tem disso uma revolução interior: se ver ao lado de outras mulheres que escrevem. Estou falando de uma mulher negra nascida no recôncavo baiano e vivida no sertão. Uma mulher que me diz: até a minha casa deixou de ser a mesma depois disso (a sua primeira experiência de publicação literária).

Já podemos falar de abalos na representação de si. E isso também envolve leitoras, leitores que temos encontrado pelo caminho. Pessoas diferentes nos mais diversos espaços (ruas, escolas, universidades, coletivos culturais, redes sociais, eventos etc) que têm nos feito relatos sobre a importância de se reconhecer na escrita e na imagem das escritoras que estão nos dois livros. Acho que a primeira poderosa transformação a que posso me referir é essa.

 

DA – Você crê que a literatura voltada para o ambiente virtual encerra uma substancial dinâmica de construção das identidades?

DANIELA GALDINO – Eu entendo que a literatura divulgada em ambientes virtuais nos insere em outras dinâmicas de diálogos com leitoras/es. Para você ter uma ideia, o primeiro volume de Profundanças já foi lido em escolas públicas, tivemos notícia de que circulou em turmas de um programa de formação de educadoras/es no sertão baiano. Ao mesmo tempo, numa pesquisa na internet, descobri que uma docente da UENF e IFF, a Analice Oliveira Martins, iriá apresentar uma comunicação acadêmica em Portugal (o Seminário Mundial de Estudos da Língua Portuguesa, outubro/2017). Nesse trabalho a profa. discute antologias literárias brasileiras e ensino, dentre as obras analisadas está Profundanças 1. Imagina a minha surpresa! Outro exemplo da repercussão: em novembro deste ano a mestranda Elis Matos (UESC) estará numa congresso na Argentina, apresentando um trabalho que aborda o feminismo não binário a partir do poema “Enquanto meus pés balançam”, de JeisiEkê de Lundu, que foi publicado em Profundanças 2.

No nosso caso, publicar um livro virtual resolve uma questão: a falta de recursos financeiros. Tem mais: Profundanças é um projeto independente, já nasceu na contramão e até o momento não vislumbrei captação de recursos via edital, por exemplo. Pode ser que no futuro façamos a opção pelo livro impresso. Por enquanto, a virtualidade tem nos levado ao encontro de leitoras/es distantes e desconhecidos. Eu, por exemplo, não conheço a Profa. Analice Martins, só depois de encontrar o resumo do seu trabalho na internet, fiz contato por e-mail.

Por ser um projeto que envolve imagens (ensaios fotográficos), sei que Profundanças demandaria custos relativamente altos. Isso talvez limitasse a quantidade de exemplares a serem impressos e, consequentemente, reduziria o público que teria acesso. O livro virtual tem nos dado uma maior liberdade nesse diálogo palavra-imagem e a grande aventura é saber que a circulação é ainda mais imprevista. Talvez tudo isso influencie a construção de identidades.

 

DA – Sua performance Missivas traz à tona importantes reflexões sobre a invisibilidade da mulher em nosso tempo. Desde o início do espetáculo, já somos tomados de assalto pela metaforização de um peso através da melancia que você carrega e vai passando, ao longo do caminho, por mãos masculinas. O que dizer desses sinais de alerta? 

DANIELA GALDINO – São incontáveis os sinais de que o patriarcado e seus tentáculos imputam a nós, mulheres: a inferioridade, invisibilidade, o aniquilamento. As violências se manifestam de várias formas e, o pior, vão se cristalizando como normalidade. A violência não tem existência por si só. É uma fabricação social e, como tal, necessita de sujeitos que movam essa roda. Por outro lado, se a violência é criada em sociedade, é nesse mesmo espaço que ela deve ser desconstruída, desfeita. Como proceder? Denunciando, (des)educando, descolonizando mentes e saberes, refazendo práticas cotidianas. O meu espaço de atuação tem sido a arte: a poesia e a performance. Como performer, tenho como prioridade sair do palco tradicional e ocupar as ruas e outros lugares aparentemente inadequados para a atuação artística. Prefiro me inserir no cotidiano das ruas, dos pontos de ônibus, dos mercados, das feiras – com seu ritmo, com seus sons, gritos e silêncios. Tem sido uma experiência fortíssima, pois a rua me traz o imprevisto, a possibilidade de interagir diretamente com desconhecides. E o contato – seja pelo choque ou acolhimento – faz de cada apresentação uma estreia. Tenho buscado esse diálogo, primeiramente, com as mulheres com as quais me encontro; mas é imprescindível deslocar, provocar e dialogar com os homens também. Só acredito em arte que potencialize as transformações (de si, de nós, do mundo).

 

DA – Como você percebe a reação do público masculino diante de uma performance que o põe no cerne de uma discussão?

DANIELA GALDINO – Missivas se divide em dois espaços: a rua, com um cortejo; e um ambiente que minimamente garanta condições adequadas para a trilha sonora e interpretação dos poemas. Nesses espaços as reações dos homens têm variado entre o espanto, o incômodo e até mesmo o desprezo. Explico essa última reação: na rua a performance implica em entregar uma pesada melancia para os homens, enquanto entrego cartas poéticas para mulheres e também digo frases secretas no ouvido delas. Ao mesmo tempo em que interajo com cartas e sussurros às mulheres, os homens seguram a melancia. Muitos já recusaram, teve até um, em Garanhuns (PE), que me hostilizou. Outros ignoram completamente a minha presença, desviam o caminho. A maior parte dos homens têm se incomodado, mesmo “aceitando” segurar a melancia. O desconcerto é visível, eles não sabem o que fazer com esse peso. Há, também, a reação na segunda parte da performance, quando interpreto os poemas e outras formas de interação com o público se desenvolvem. Geralmente fazemos uma roda de conversa após a performance e não houve uma só vez, desde a estreia (em março de 2016), em que não houvesse depoimentos de homens que assumem estar perturbados. Sinceramente, sinto prazer ao perceber essa perturbação que nada mais é do que o contato com as nossas palavras de mulheres dissidentes, com a ação performática e o convite para participar, acolher em si os desajustes. Importante dizer também que Missivas tem trilha sonora ao vivo e a proposta é convidar um músico a cada apresentação/temporada, que traz o seu repertório para dialogar com a proposta. Tenho feito questão de convidar homens para fazer a trilha porque dessa forma eu também os provoco, enquanto artistas, a ler/ouvir e se contaminar com o que nós, mulheres, escrevemos. Até então os parceiros musicais têm revelado incômodos e verbalizado isso nas rodas de conversa. Eles entram na performance e também percebem que, naquele instante, não são protagonistas; talvez aprendam a ouvir, não silenciar… Enfim, lógico que as transformações não são imediatas, mas só em gerar esse incômodo, já é maravilhoso pra mim enquanto artista dissidente.

 

DA – E o que dizer da interação das mulheres em meio às provocações sugeridas  por Missivas?

DANIELA GALDINO – Tem sido uma experiência incrível do cortejo à roda de conversa que acontece pós-performance. Estou circulando com Missivas desde março de 2016 e em todas as apresentações aprendi algo forte. As mulheres têm me ensinado muito. A forma de interação é diferente. Não digo que elas sintam mais do que os homens – isso nunca poderemos medir, o território do sensível -, mas a resposta tem feito do ato performático um intenso espaço energético. Tenho várias histórias para contar sobre Missivas, comecei a elaborar o diário da performance, sempre escrevendo dias depois de cada apresentação. Na verdade, relatos curtos que me façam lembrar do que aconteceu. E esses relatos trazem as mulheres na linha de frente. São várias histórias. Cito três.

Em 2016, numa das apresentações, uma jovem teve um ataque de choro e aquilo me chamou muito a atenção. Após a roda de conversa eu notei que ela estava abraçada com dois colegas gays e que os três choravam muito. Fui lá e ouvi isso: algo na performance disparou a memória dolorosa do estupro que a jovem havia sofrido há dois anos. Fiquei paralisada, a performance não fala de estupro, mas a força de tudo o que a moça tinha presenciado e vivenciado em Missivas ativou essa dor. Chorei junto com ela e os amigos dela. Algo que não foi publicizado, ficou entre nós. Difícil esquecer o que aquela moça me disse: “quando eu fui estuprada, era inverno, eu estava de calça, botas, casaco… e ainda assim o cara me violentou… ou seja, nenhuma mulher pede pra ser estuprada, nada justifica o estupro, nem mesmo se a vítima estiver com roupas curtas. Violência é violência”.

Recentemente, em Itabuna, eu estava fazendo o cortejo de Missivas para que um professor da UFSB (o Rafael Guimarães) fizesse o registro audiovisual que vai gerar uma vídeo-performance com fragmentos do trabalho de várias artistes. No cortejo, logo de longe avistei uma mulher que me chamou a atenção, me dirigi a ela e disse a frase secreta. Ela ficou paralisada, olhando profundamente nos meus olhos. Percebi que era uma mulher com transtornos mentais, retribuí a profundidade do olhar. Segui o caminho porque nessa parte da performance priorizo a comunicação com o olhar, sem mais palavras. Só que a mulher me seguiu, me perguntou: “o que é isso que você está fazendo? Por que você me disse aquilo?”. E eu não respondia com palavras, apenas com o olhar. Mas ela não se deu por vencida, me seguiu de novo, segurava a barra da minha saia e repetia a pergunta. Ela parou na minha frente, olhou de forma profunda e falou: “Não fique assim, você está tão bonita”. Depois, segurou no meu braço (sem impor força) e de forma acolhedora me disse: “Você tá bem? Tá precisando de alguma coisa?” Aquilo me emocionou, eu chorei retribuindo o olhar profundo daquela mulher e segui o meu caminho.

O terceiro exemplo foi em Ilhéus. Também no cortejo, me deparei com essa cena numa praça: uma idosa vendendo churrasquinho. A praça fica perto de um ponto de ônibus. No momento, havia incontáveis pessoas, pois o horário era de final de expediente. Apesar do intenso movimentar, ninguém me atraiu mais do que aquela mulher de marcas profundas na face.

Performance, pra mim, é um mergulho no imprevisto. A minha guia são as energias do momento. Eu também tenho amor pela rua – esse espaço-turbilhão onde o instante se consagra no diálogo com desconhecides. Pois sim. A energia me levou até aquela senhora trabalhadora. Cheguei perto dela e disse a frase secreta. Os olhos dela ficaram inundados; os meus, cheio de marés. Por alguns segundos nos olhamos fixamente. O instante se consagrou. Segui o meu rumo, mas me virei para trás e, novamente, conversei com o olhar inundado daquela mulher. Fiquei forte. Prossegui.
A fotógrafa Izabella Valverde (a qual não conheço) consagrou o instante pela segunda vez. E a cada momento em que olharmos para essa imagem, reviveremos o instante e acolheremos em nós as lutas, as inundações e a singeleza dessa senhora. A rua me ensina a cada ato performático. Sou grata a todas as mulheres que tenho encontrado pelas veredas…

 

Daniela Galdino em Missivas / Foto: Izabella Valverde

 

DA – Em que medida a convergência entre poesia e performance amplia as possibilidades de libertação pela arte?

DANIELA GALDINO – Nessa convergência só vejo desmedida. Sou uma artista em constante reelaboração, o que significa dizer que não meço as formas de ampliação do processo libertador. Quando as fronteiras entre linguagens artísticas e entre artista e público são rasuradas, o inesperado se apresenta. Gosto disso. Demorei para desenvolver essa consciência, sabe? Primeiro me assumi poeta. Há sete anos tirei a performer que estava no armário. Já havia feito teatro universitário nos anos 90, foi uma experiência incrível. No entanto, o mergulho na criação poética foi me trazendo uns estremecimentos que inicialmente eu não soube processar. Acolher e reler em mim esses impactos redefiniu caminhos. O entrelugar, a atuação híbrida que atrai a poesia para a performance e vice-versa têm me ensinado bastante. O caminho está se construindo nos caminhares, nos encontros, desencontros (comigo mesma e com o público). Esse processo já é libertador.

 

DA – Quem é Daniela Galdino? 

DANIELA GALDINO – Uma mulher desobediente, sonhadora, fazedora de incêndios íntimos. Sou uma incansável artista que não vê separação entre o estético e o político. Aprendente e desaprendente. Sou uma “rameira das palavras”, “uma interrogação vagando com pressa”. Sou esta que vive atenta ao mundo invisível e seus poderes; atenta às outras mulheres – seus desejos, delírios. Um poema que representa esse estado é “Arada” (publicado em Profundanças 2 e inserido no meu próximo livro, Espaço Visceral). Eis:

 

arada

 

ostento cara de terra
espírito de poço
índole mar

remota felicidade
sempre tive
irrigada padeço

estranheza, pra mim,
é abre-te sésamo

vagueio em cova funda
porque estou semente

gozo no sereno
inerte
numa pedra de amolar

corro as sete freguesias
e fastio não me alcança

levo fachos de gritos
aonde me querem muda

replantando-me
dou cestos fartos

 

Daniela Galdino em Missivas / Foto : Ana Lee

 

* Para baixar Profundanças 2, clique aqui.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.