Categorias
120ª Leva - 05/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O quanto pode encerrar a potência e os caminhos de uma voz que se quer dedicada à poesia? Por certo, há mais do que uma vontade de dizer coisas ao mundo, de vociferar intenções discursivas advindas da mecânica do pensamento. Não basta intentar criações como se estas fossem um mero jogo de representação dos sintomas pulsantes da vida e seus entornos. Desconfiamos, pois, que há muito mais por trás daquele que se mostra em palavras e versos ao mundo.

O poeta a quem dedicamos atenção agora abarca uma peculiar condição de estar no mundo, qual seja a de mostrar-se inquieto e desperto diante de questões que marcam sobremaneira a seara humana no quesito das identidades. É Jorge Augusto, intelectual baiano, educador, artífice do verso, editor e, principalmente, ativista cultural quem nos oferta possibilidades de diálogo a partir de um tão complexo território que é a literatura.

O Jorge com quem conversamos está envolto nas transformações que o tempo impôs a seus escritos. Desde os primeiros poemas, cobertos pela égide do desejo, até o momento presente, o autor tem revelado uma maturidade estética que é consequência natural de um processo pessoal de busca. Um de seus mais importantes projetos aponta para a condução da Organismo Editora, coordenando a Coleção de poetas baianos inéditos, bem como a Revista Organismo. É doutorando em Literatura e crítica da cultura pela UFBA. Na área de Literatura Brasileira, o cerne de suas pesquisas está voltado para temas como decolonialidade, modernismo brasileiro e literatura negra. Hoje, integra o corpo docente do IFMA.

Com poemas publicados na Antilogia – organização de coletânea entre poetas de Bahia e São Paulo (2011), no livro de poemas do Sarau da Onça, e na antologia Enegrescência (Ed. Ogum’s Toques), dentre colaborações para sites e revistas variadas, Jorge vai deixando entre nós os indícios de uma expressão que contempla uma percepção aguçada sobre a existência. Decerto, são revelações de uma alma que tenciona desarranjar acomodações e cujo alicerce do pensamento aponta para o ato frequente de vislumbrar a crítica salutar sobre o que está posto em matéria cultural.

O Jorge Augusto que nos confessa certo e atroz desengano diante do presente não repousa seus arremates no solo estático da desilusão. Pelo contrário, evidencia uma provocação que, em última instância, sugere uma mudança de rumos situada nalguma via de renovação. Como esta se dará só o futuro pode nos asseverar.

 

Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura

 

DA – Parte de sua produção poética possui uma atmosfera marcada por elementos sensoriais que sugerem instigantes percursos através dos sentidos, sobretudo no que se refere à construção do desejo. Em que medida essa característica é constituinte do poeta que você é hoje? 

JORGE AUGUSTO – Acredito que em pouca medida hoje. Confesso que quando li/ouvi sua pergunta, fiquei pensando com o que nos meus poemas ela dialogava. Porque nenhum dos poemas publicados nas antologias, que foram as últimas publicações, têm essa presença dos elementos sensoriais, pelo menos não deliberadamente, não por vontade, e consciência. Mas logo lembrei das revistas e dos poemas que publiquei, mais ou menos  em 2007 (período que comecei a publicar), na Germina Literatura e na Diversos Afins, no projeto Uníssono, por exemplo. E sua pergunta fez sentido para mim. Então, tive que respondê-la primeiro para mim, escutar a resposta, para depois dizê-la. Mas, sobre a construção do desejo, eu acredito que, assim como a fala na psicanálise, muitas vezes na escrita, mesmo e, sobretudo, à revelia do sujeito, há um exercício infinito, talvez, de elaboração do desejo ou da consciência dele. E desejo, aqui, no sentido amplo, desejo de revolução, de mudança, de foda, desejo de estar vivo. Enfim, acho que dos primeiros poemas para cá, e creio ainda está nos primeiros (e talvez já últimos), esse lugar, esse objeto do desejo, tenha mudado, ou melhor, expandido, alargado. Deixou de estar fixo no reduto do corpo e elasteceu-se a outros muitos corpus.

 

DA – Nesse processo de expansão de sua consciência poética, há uma preocupação intencional de se fazer ouvir por uma postura ideológica diante do mundo?

JORGE AUGUSTO – A postura ideológica diante do mundo vai, em qualquer expressão de linguagem, mais ou menos camuflada, mais ou menos exposta. Mas está sempre lá, na palavra, no silêncio, ou no silêncio da palavra. Acho, por exemplo, que o que você chamou de “preocupação intencional” em demonstrar uma ideologia pode estar, muitas vezes, melhor relacionada a uma escolha formal do que conteudística. Embora, para mim, o bom poema seja aquele em que essa separação forma-fundo é o menos visível possível, ou melhor, aquele em que essa divisão nem exista. E de resto não acho que foi uma “expansão de consciência poética”, mas uma mudança de opção, uma escolha estética, porque o tema, também, compõe a forma.

 

DA – O poeta deve ter um compromisso com o seu tempo?

JORGE AUGUSTO – Eu não acredito numa função trans-histórica do poeta. Não acredito que o poeta, ou a poesia, tenham uma função. Estas perspectivas acionam uma espécie de metafísica que não agencia nenhuma potência humana. Porém, acredito no papel histórico do (a) poeta. E são duas coisas completamente diferentes. O papel que o poeta deve desempenhar em seu tempo não tem nada a ver com uma função da poesia em si, transcendental e atemporal.  Pelo contrário, diz respeito ao uso que o poeta empresta à poesia em determinado contexto histórico. Esse papel não tem necessariamente nada a ver com o desejo do poeta, nem do seu tempo, mas com o que é necessário a esse tempo. Por isso, a poesia deve ser pensada numa relação ético-estética. A forma não é meramente uma construção estética, mas ética.  Nesse sentido, inverte-se aquela equação famosa em que o “grande” (assim entre aspas) poeta é aquele que ultrapassa sua época e está além do seu tempo, o bom poeta passa a ser aquele que entende que tipo de poesia o seu tempo precisa propor, que tipo de violência sobre a linguagem é necessária àquele tempo. Tanto a revista Noigandres quanto os cadernos negros foram, como projetos literários, igualmente importantes à literatura brasileira, em suas dimensões éticas e estéticas. É por causa disso, desse papel histórico que a poesia pode ter, que hoje é tão complicado pensarmos numa vanguarda ou numa estética que represente uma coletividade grande, de forma hegemônica, porque a sociedade globalizada é multitemporal e, consequentemente, com diversas necessidades diferentes, mesmo dentro de um único território político, como é o caso do Brasil. Assim, a poesia ganha vários, múltiplos papeis, num mesmo espaço-tempo.

 

DA – Há quem defina que a literatura não precisa ser dividida em frentes de atuação, sobretudo no que se refere às vozes pertencentes às minorias, tais como negros, gays, mulheres etc. Qual olhar você lança sobre esse tema, tendo em vista que a literatura é um importante instrumento de expressão identitária?

JORGE AUGUSTO – Essa questão carrega para mim uma série de falsas tensões. Por exemplo, é comum ouvir algum crítico ou “estudioso” da literatura perguntar: “por que chamar de “literatura negra”, ou de “literatura feminina” se a literatura é universal? Adjetivar a literatura é restringi-la e diminuí-la”. Essa fala, mil vezes dita e repetida nos mais diferentes círculos de conversa sobre literatura, é exaustivamente cansativa. Esse tipo de argumento mostra, ou uma ignorância do tema, ou um mau-caratismo, porque se tem algo óbvio na literatura, é que ela sempre foi adjetivada. Chamar uma literatura de inglesa, francesa ou alemã não é adjetivá-la? Chamar uma literatura de ocidental, não é adjetivá-la? Quantos livros de história da literatura ocidental (Europa, claro) nós víamos pelas prateleiras das livrarias? O que é necessário compreender é que essa adjetivação era também identitária, pois remetia, em grande parte, a relações entre os textos e a nação, ou língua e nação, ou texto e língua. É nesse sentido que alguns críticos chamam (ou chamavam) de literatura inglesa tudo que foi escrito em inglês, e que cada nação tomava para si um conjunto de textos e adjetivava. Ora, o que aconteceu nas últimas décadas foi uma reorganização, uma reorientação das construções discursivas sobre a identidade. Uma série de formações discursivas que viviam obliteradas sob as metanarrativas nacionalistas e marxistas ganharam novo protagonismo com o fim da esperança (pelo menos por agora) em uma sociedade não capitalista. Uma nova série de sociabilidades vai ganhando fôlego e politizando suas demandas e subjetividades, e, claro, essas sociabilidades engolidas historicamente pelas narrativas nacionais totalizantes precisam agora construir-se histórica e discursivamente como as nações se construíram. E para isso usam a literatura, porque, como todos sabemos, identidade é construção de linguagem. Portanto, não há absolutamente nada que diferencie, metodologicamente, chamar uma literatura de chilena, ou de negro-brasileira, os mecanismos discursivos de construção dessas adjetivações são os mesmos.

Outro argumento, um pouco mais respeitoso, mas ainda assim muito frágil, é a ideia de que, para chamarmos uma literatura de “feminina”, por exemplo, ela teria que ter necessariamente uma inovação formal que a diferenciasse das demais literaturas que a rodeiam com outros adjetivos pátrios. Essa proposição tem equívocos. Um deles é o de que não foi uma característica estética determinante quem fez com que as literaturas nacionais ganhassem seus adjetivos. Se não, poetas como Tomás Antônio Gonzaga, Castro Alves e tantos outros não seriam considerados literatura brasileira. Mesmo nosso modernismo assinalava no plano formal vários diálogos com as vanguardas europeias, como qualquer estudante sabe. É preciso compreender coisas muito simples, como o fato de que as revoluções formais que ocorrem na literatura, como Modernismo, Concretismo, Romantismo, agenciam conjuntos de textos. Já as adjetivações literárias como literatura brasileira, literatura feminina, literatura russa, literatura homoafetiva, agenciam coletividades de sujeitos. São coisas bem diferentes, mesmo podendo eventualmente misturar-se, num determinado contexto histórico, mas que são independentes umas das outras, pois uma diz respeito a como se produz, e a outra, a quem produz.

 

Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura

 

DA – Como você observa a dinâmica da construção das identidades no contexto digital, mais precisamente no que diz respeito às novas vozes autorais que publicam seus escritos em revistas digitais?

JORGE AUGUSTO – Acho que não sei responder esta pergunta, mas gosto de especular. Primeiro, acho que quando pensamos na produção de identidades no contexto digital, partindo da escrita, e aí acho quase impossível limitar a noção de escrita a texto, não temos como restringir esses autores ao contexto de publicação em revistas digitais. Antes, a ideia, para mim, seria pensar esse autor desde o post no facebook até o poema que sai no livro, que em muitos casos é o mesmo. Nesse sentido, não consigo pensar em outra possibilidade senão de chamar performance isso que você chamou de “construção identitária”. Essa performance diz respeito diretamente à relação entre autor e leitor, pois a internet e suas possibilidades de conexão e publicação possibilitaram um circuito de afetos novos ao poeta. O poeta e a poesia, como sabemos, são os patinhos feios das linguagens artísticas na indústria cultural de massa. O poeta é o mais barato, o que põe em circuito menor circulação de capital, e, por isso, não goza das mesmas projeções de publicidade que outros artistas. O poeta e sua obra estão quase sempre restritos ao próprio campo literário. Porém, as possibilidades de interação propiciadas pela internet abrem um novo circuito de circulação dessas obras e poetas que independe de acesso direto aos grandes veículos de divulgação massiva. E o mais perto que o poeta chega de ser pop é ter uma grande quantidade de seguidores nas redes sociais. O ápice é virar letrista de músicos famosos. Até aí o que há nessa presença do poeta no contexto digital são aspectos positivos: divulgação de sua obra e interação com o público, facilidade de acesso aos poemas e poetas, construção de uma rede de contatos e discussão entre autores, público e crítica etc.

Mas, a partir daí, o que nos interessa pensar é: que efeitos esse contato íntimo com o leitor causa na identidade, na performance do poeta enquanto poeta? E estamos diante de um fato: poeta nenhum escreve um poema por dia. Entramos aí talvez num jogo meio esquizofrênico, mas muito comum nas redes sociais, que é um trabalho de manutenção dos leitores, que só pode ser feito para além do texto literário. Assim, piadas, fotos, opiniões sobre tudo e qualquer coisa, interação contínua, etc., compõem o quadro de uma performance que não é mais, em muitos casos, de um poeta, ou escritor, mas simplesmente de uma pessoa pública.  A poesia, em alguns casos, vai, pouco a pouco, ficando em segundo plano. Isso é muito mais comum do que parece. Um poeta muito pop não é necessariamente um poeta lido, embora isso possa tranquilamente acontecer.  Em suma, o perigo nessa relação performática que atravessa a visibilidade do escritor e sua obra, expondo-os ao contato direto e cotidiano com o leitor, é tudo acabar num jogo de espelho narcísico. O que a nossa época menos precisa.

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

JORGE AUGUSTO – O que eu não endosso na pós-modernidade é seu funcionamento como sinônimo de contemporâneo, como se o “pós-moderno fosse o contemporâneo”, isso é visto muito em um senso comum, mas também em discussões acadêmicas com pouco esforço de pesquisa. A pós-modernidade é uma nomenclatura que remete a uma proposta epistemológica, comumente filiada ao pós-estruturalismo francês, mas não apenas, que traz no campo da teoria um questionamento e uma ruptura com uma série de propostas epistêmicas que marcaram o pensamento científico até metade do século passado. Mas é apenas uma das propostas vigentes, pois temos a pós-colonialidade, a decolonialidade, o feminismo-negro, entre outras, todas propostas epistêmicas de grande fôlego e que compõem o cenário contemporâneo na produção de conhecimento. Portanto, me incomoda, primeiro, o uso do termo pós-moderno como sinônimo de contemporâneo, o que oblitera, esconde, todas as outras propostas de debate. Segundo, o pós-moderno é marcado por uma “politização da subjetividade”, de uma maneira tal que a individuação de grupos e sujeitos, suas demandas e projetos, passam a ser construídas a partir de pontos de vista específicos no plano histórico, social e político, o que me parece correto, e o é, até a página três. Há nisso, nessa arquitetura que se criou para combater a desigualdade, que é a justa luta pela autorrepresentação e pelo poder, uma esquina que em certa medida a reforça. E essa afirmação é um tanto polêmica, e é justo que seja, mas tentarei explicar. À medida que a micropolítica ocupa o lugar da metanarrativa marxista e os grupos minoritários agenciam suas próprias demandas, a política ganha uma nova potência transformadora que, vimos, deu muitos frutos positivos, nos planos políticos, epistêmicos e subjetivos. Mas eu acredito que esses frutos positivos podem ser, agora, potencializados, se restituirmos a esses discursos minoritários o desejo pela emancipação social, num plano coletivo. E não, isso não pede, em nenhuma instância, a volta da metanarrativa marxista, nem o império da superestrutura, nem o determinismo de classe. Era impossível continuar pensando a partir do marxismo, e tudo o que se fez depois disso mostra que foi uma mudança necessária, porém, igualmente acredito que pensar com o marxismo ainda pode ser útil. Então, pensar a partir de, e pensar com, é muito diferente. Creio que nossa apatia no cenário político contemporâneo, no Brasil, tem como um dos motivos, a falta de conexão, de costura entre as demandas políticas que os grupos minoritários agenciam. Temos, enquanto minorias, muita coisa incomum, mas também, em comum, todos sabemos. A fase de ruptura radical de construção discursiva da singularidade foi e tem sido fundamental. Agora creio que tecer uma rede de demandas comuns é, também, estratégico e potente no nosso atual cenário. A luta contra a violência cometida contra a mulher negra, contra sua solidão, não é apartada da luta contra o genocídio dos jovens negros nas periferias brasileiras, e ambas estão ligadas de forma mais ampla ao completo abandono da educação pública nas periferias do Brasil. O que precisamos hoje é aprender a costurar as demandas sem tirar força e singularidade de nenhuma delas. Esse é o desafio do intelectual hoje. Portanto, paradoxalmente, há uma pretensa universalização do plano epistêmico, operada pela sigla pós-moderno, que me desagrada, e uma fragmentação no plano político, da qual tenho ressalvas.

 

DA – Pensando na sua atuação à frente de uma editora como a Organismo, quais desafios surgem com mais evidência quando se trata de disseminar a produção literária no contexto de uma iniciativa independente?  

JORGE AUGUSTO – As dificuldades são muitas. Uma editora pequena tem muitos desafios. Publicar é caro, distribuir também. Os serviços, se você quiser fazer um trabalho de destaque, também são caros. Enfim, do ponto de vista financeiro, às vezes parece inexequível. No caso da Organismo Editora, o desafio é ainda maior, pois, em nossa primeira coleção “novos autores”, publicamos apenas autores inéditos, ou seja, que teoricamente ainda estão construindo um público, portanto, sem grandes promessas de vendas; e também, essa coleção publica apenas poetas e, em sua grande parte, os poetas não vendem muitos livros; por fim,  trabalhamos com uma proposta estética muito específica, pois o projeto da Organismo é pensar o livro como um objeto que produza signos e sentidos, que dialogue com os poemas, o livro como agenciamento de sentidos. Assim, nessa coleção tudo está relacionado no livro, fonte, cor, corte, poemas etc. Buscamos mitigar no maior grau possível a dicotomia forma-fundo. A proposta é pensar o livro, enquanto objeto, como organismo vivo, que não é apenas um repositório de sentidos, como uma caixa de guardar poemas, mas que está sempre em interação com o leitor e os poemas, produzindo esses sentidos. Essa característica nos isola no mercado, além de encarecer, muitas vezes, o preço de publicação do livro. A maior distribuidora de livros da Bahia se negou a distribuir nossos livros com o seguinte argumento: “da próxima vez, faça algo mais simples, essas coisas não vendem”. E olhe que eles cobram de 50 a 60 por cento pela distribuição.

 

Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura

 

DA – Temos experimentado no Brasil um crescente número de editoras pequenas que preferem elas mesmas distribuírem seus livros e, assim, cuidarem de todo o processo de comercialização. Há alguma outra saída nessa tentativa de sobrevivência editorial? 

JORGE AUGUSTO – Tenho pouca experiência nisso, quase nenhuma, mas penso que temos algumas poucas alternativas, como intensificar cada vez mais as vendas pela internet, coisa que já acontece, essas editoras alternativas produzirem feiras em conjunto (também já é feito, mas pode ser intensificado). As editoras podem visibilizar catálogos em parceria, em seus sites, e cada vez mais os lançamentos terem uma importância maior, pois é o momento no qual as pequenas editoras conseguem escoar as publicações. Uma coisa que eu acho que deve ser feita é abrir nos grandes eventos espaço para as editoras menores. Sem esse espaço para publicização dos livros, fica muito difícil que eles sejam vendidos. Esse estado de coisas cria um fenômeno que me desagrada, e que remete a uma questão anterior que você colocou, pois, somam-se dois fatores: a histórica venda comedida dos poetas, a dificuldade de distribuição das pequenas editoras, junto com a exclusão dos grandes eventos. Com tudo isso somado, os poetas acabam tendo que virar promoters de sua própria obra, o que às vezes até funciona bem, outras nos lega uma série de constrangimentos horríveis, como a onda de autoelogio e autopublicação que vemos em redes sociais.

 

DA – No quesito da criação, como você avalia o novo panorama literário nacional?

JORGE AUGUSTO – O panorama atual da literatura brasileira tem uma peculiaridade histórica. Ele é, pela primeira vez, rizomático. E acho que a palavra é justamente essa, mesmo caindo num risco de parecer muito teórico. Acho que a ideia de múltiplo, por exemplo, não resolve. É rizomático no sentido de que são muitas linhas de fuga se cruzando e seguindo. Nessas quase duas décadas de século XXI, vimos a literatura brasileira ganhar diversas revistas importantes na internet, vimos as publicações de poesia assumirem uma crescente, sobretudo a partir das novas editoras. Mas alguns eventos se destacam, como a coleção de poetas lançados pelo selo Sete Letras, o grupo de poetas (até onde sei) majoritariamente do eixo Rio-SP que se formou em torno da revista Inimigo Rumor. Concomitantemente, tivemos um movimento que se forjou no contorno da revista Zunái, de Claudio Daniel, salvo engano chamava Neobarroco. E até aí o que tínhamos ainda era uma geração que buscava se debater na sombra do concretismo que, de algum modo, buscava dar o fantasmagórico passo à frente, tão inscrito na teoria da poesia concreta. Quem se livrou relativamente dessa questão, sobretudo na sequência das publicações, foi o grupo da Modo de Usar, inclusive com produção crítica. Mas até aí havia ainda uma multiplicidade que se irradiava a partir de uma linha de fuga do rizoma mais ligada à tradição. Há nesses grupos, na minha modesta opinião, um diálogo com essa tradição da literatura brasileira oficial, seja para negar ou buscar o passo à frente. Nas outras linhas de fuga do rizoma, acho que as expressões produzidas pelas estéticas minoritárias vêm gerar desde o século passado um conjunto de fortes cenas. Podemos tomar os Cadernos Negros como marco, chegando hoje à fortíssima e consistente literatura negra feminina, mas passando por uma literatura feminina, indígena, periférica, homoafetiva, ou seja, uma série de linhas de fuga vão se criando como tema diverso e como forma. Outros núcleos vão se formando como a editora Organismo e a Ogum’s Toques, na Bahia, as Edições Cartoneiras, em Recife. As diferenças se multiplicam e seguem em linhas de fuga. Nesse cenário, a criação é diversa, e aí vem a grande questão: a diversidade é uma qualidade ética nem sempre acompanhada de força estética. Portanto, não basta ser um poema filiado às minorias, ou um poema que seja contra-hegemônico em relação à literatura oficial, nem muito menos um poema que se enquadre na tradição para que seja tomado como um “bom poema”. Haver uma ampliação gigante de formas e temas possíveis como literatura nos permite dizer que há muitos projetos estéticos diferentes, mas não implica dizer que tudo que se faz dentro dessa diferença tem a mesma potência ético-estética.  Isso parece óbvio, eu sei, mas não tem sido. Há todo um investimento teórico, de certa parte da academia e de parcela da crítica literária, para pensar esses novos corpus, e o próprio conceito de literatura, em seu sentido clássico, tem sido rasurado em muitas frentes. Desse modo, vejo o panorama da literatura nacional produtivo, diverso e muito positivo, em relação às obras produzidas, mas ainda em gestação em relação à crítica desse mesmo cenário, sobretudo em relação ao que é produzido fora do eixo Rio-SP. E ressalvamos que não se trata de uma cena acabada, na qual o múltiplo é dado como construído, há processos de mitose e meiose ainda em curso, há propostas de escritas se costurando, enquanto outras se bifurcam e seguem por si. Daí, a cena ser rizomática e não apenas múltipla, pois as multiplicidades ainda estão em pleno acontecimento.

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

JORGE AUGUSTO – Creio que somos um país de subleitores, e que os leitores que temos são, em boa medida, subestimados. E uma coisa tem muito a ver com a outra. Eu acredito que a equação normalmente acionada para falar de leitores no Brasil é essa: “os leitores são subestimados porque são subleitores, ou seja, leem mal, ou não gostam de ler”. Primeiro, é fundamental identificarmos o que essas pesquisas que apontam a não leitura consideram como leitura.

Um livro chamado Cultura Letrada, de Márcia Abreu, nos fornece insights valiosos sobre isso. Mostra, por exemplo, que nem todo tipo de livro é valorizado como leitura, nos processos educacionais.  Portanto, há um tipo de leitura que é cobrada, obviamente aquela que redunda ao cânone e suas adjacências. É inegável como a indústria do livro cresceu no Brasil nos últimos anos. Alguém lê os best sellers, lê os livros que são adaptados pelo cinema, porque eles vendem muito. As pessoas não compram para colocar na estante. Quando nós, nos processos educacionais mais básicos, desconsideramos uma série de leituras, de diversas vertentes (do quadrinho ao clássico) que os meninos fazem, estamos subestimando não apenas essas obras, mas, sobretudo, os leitores e, consequentemente, produzindo subleitores. E subleitores aqui está empregado no sentido de sujeitos que leem apenas o necessário para o desenrolar da vida cotidiana mais prática, que não acionam a leitura em suas potências construtivas, inventivas e subjetivas. Porque, se lá no início, no ensino básico e fundamental, tudo que você lê é desqualificado pelo projeto pedagógico, pelo livro didático e pelo professor, o que está sendo posto em xeque, mesmo que “involuntariamente”, não é a obra que você gosta de ler, é a própria prática de leitura.

 

DA – Quem é Jorge Augusto?

JORGE AUGUSTO – Dizer quem sou é um estorvo e um teatro. Digo quem estou, é o máximo que posso tentar. Estou há algum tempo um homem pesado, sinto como se carregasse meu próprio peso como um escombro. Como se arrastasse, passo a passo, meu corpo como um trambolho. Desesperançado, desiludido. Eu disse em versos: “minha mãe morreu hoje /todo esse tempo, sem por que nem pecado / sem deus ou diabo, sigo só:/ homem sem fé, mas culpado”. E não mudou ainda, isso resume esse hoje que sou.  Talvez haja certo momento, certa lucidez em que a solidão é inevitável e saber vivê-la é decisivo entre o choro e o riso. Eu devo estar, agora, nesse exercício. Acho que é um exercício de morrer para nascer de novo, como metáfora, como símbolo, acredito que tem potência nisso. O ruim é que nada quer morrer, nem a esperança, nem o passado, nem o amor, nem o cachorro, nem o corpo, tudo fica se arrastando, insistindo. O sofrimento vem muito dessa insistência em não acatar as mortes, das ordinárias às mais contundentes. O luto é tão necessário, para o sujeito quanto a luta. Mas é importante dizer que essa desilusão não é harmônica, nem apática, pois é esse homem consciente das mortes e da perenidade, justamente aquele que pode arriscar. Enfim, hoje sou um homem negro, sem esperança nem no amor, nem no país, nem no homem. Amanhã me pergunte de novo e, provavelmente, te direi outros poemas. Por enquanto, estou naquele um minuto de silêncio.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

Categorias
120ª Leva - 05/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Lilian Aquino

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Último andar

 

Eu te encontrava no
elevador
tinha um espelho
daqueles que todo
mundo fotografa mas
a intimidade agora era
a distância subindo
desconhecendo nossos
reflexos esmaecidos
esquecidos das tantas
vezes que te chamei pelo
apelido diminutivo e
sem ter o que falar
– que não sou de gritos –
silenciava andar por
andar e eu repetia
a capacidade
máxima, o peso
a placa schindler
sem adivinhar o
quanto de carga
puxava no pensamento
aquele quadrado
suspenso por aço
correntes que prendiam
a respiração
porque eu te
tanto.

 

 

 

***

 

 

 

Uma janela sobre a cidade

 

Não devemos proteger
com panos quentes
cortinas cerradas
esta cidade
espreitada aqui do alto
porque este é um lugar
onde ainda se pode estar nu
Aqui os corpos
se movimentam
diante da varanda
exibidos
nesta sala erguida
acima de outras duas
salas como esta.

Uma cidade vista daqui de cima
três andares
onde podemos
ser o que somos
– corpos

 

 

 

***

 

 

 

Juízo

 

Ande,
me dê sua mão
No bolso você
só encontra a mesma
nota dissonante.
Venha aqui
e tire a mão do bolso
O asfalto que cobre
esta estrada
é a coisa mais certa
a cumprir
Ande,
agora você
se equilibra
e a mão está
na cabeça

bem onde deve estar

 

 

 

***

 

 

 

Indigesto

 

Como um comprimido
engulo este dia.
De oito em oito horas
me lembro
não há remédio
a não ser comer
esta demora que a vida leva
pra curar uma dor
Meus dentes estão moles
como balas de goma
impossível mastigar
estes segundos

 

 

 

***

 

 

 

Ladrilhos

 

Que andasse
a procurar objetos de louça
e os levasse
no bolso do casaco
polidos
era coisa sabida

E que no opaco
armário de cozinha
depositasse
essas preciosidades
não podia evitar.

seus objetos de louça
seu cuidar que luzia com
o brilho seu
seus achados de cerâmica
sem importar
o formato

Que recolhesse
e juntasse
as partes de modo imperfeito
era o que fazia:

o fragmento de louça.

 

 

 

***

 

 

 

Urbanismo

 

Lá onde morava
não tinha margem
nem esquinas:
era inteiro.

E se à noite pensava
via estradas, cruzamentos
canteiros
e flutuava sobre
a cidade aberta
traçando com giz
(um a um) seus limites

delineava
zonas de silêncio.

 

Lilian Aquino nasceu em São Paulo em 1979. Publicou ”Pequenos afazeres domésticos”  (Patuá, 2011) e “Daqui” (Patuá, 2017), contemplado pela Bolsa ProAc de Criação Literária em 2015. Tem ainda poemas em diversas revistas impressas e virtuais e em antologias.

 

 

Categorias
120ª Leva - 05/2017 Destaques Olhares

Olhares

Pelas fronteiras do corpo: a imagem em Angelik Kasalia

Por Fabrício Brandão 

 

Foto: Angelik Kasalia

 

A vida se expande em infinitas possibilidades. Com ela, delineiam-se formas cuja multiplicidade de sentidos exprimem a complexa representação de uma vasta ambiência humana. Carregando no semblante a marca indelével da finitude, fazemos do ato de existir um imenso palco através do qual transita especialmente a nossa busca por algum fôlego que nos anime o espírito.

O ato de pensar a arte como uma espécie de libertação pode estar associado à necessidade que temos de tornar a realidade uma experiência outra. A explicação talvez venha do fato de que não damos conta de suportar os acessos diários da vida, com seus matizes de ápice e declínio dos sentimentos. Restaria-nos, então, o refúgio numa dimensão deslocada do real, esfera de convívio na qual recriamos não somente a nós mesmos como também aos nossos semelhantes.

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Se cremos na harmonia entre mundos paralelos, ou seja, na tácita convivência entre o vivido e o inventado, podemos constatar que existir é avançar sobre o manto invisível das horas. Para além dos registros temporais, ousamos penetrar na zona indecifrável da vida, lugar que não se materializa de forma comum a todos os mortais. Assim, há chaves pessoais que precisam ser utilizadas para que distintos portais do autoconhecimento possam ser explorados.

Entendendo o corpo humano como um verdadeiro elo entre os mundos interno e externo, a fotógrafa Angelik Kasalia vem nos lembrar que a vida também está a serviço da arte, e não necessariamente o contrário como tanto se anuncia por aí. Suas imagens denotam de imediato o tom intimista que revela levezas e densidades dos seres retratados.

Como num imenso emaranhado embasado em requintes poéticos, o olhar de Angelik repousa sobre o sujeito tomado em sua mais delicada perspectiva de expressão. Nesse sentido, a zona de compreensão das coisas não se mostra algo determinada, pois o caráter que reveste as personagens expostas advém de um exercício de fruição abstrata das experiências. O resultado desse processo comunica tons, gestos e, acima de tudo, vozes que nos falam de mundos distantes ou próximos.

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Não seria exagero considerar que as porções humanas expostas na criação da fotógrafa em questão exalam uma marcante esfera de imagens envolta nos apelos do mistério. Talvez porque seja extremamente difícil dar conta de submeter à racionalidade o crivo de uma tentativa de explicação direta dos fenômenos abordados. Ainda assim, parece uma tentativa pouco razoável a de estabelecer conceitos para o que se vê diante desse ritual de subjetividades abraçadas a um teor de imaterialidade. Afinal, como classificar o intangível?

Angelik é, na verdade, a persona artística de Angela Kasalia, que nasceu e vive em Atenas, na Grécia, até os dias atuais.  Seu envolvimento com a fotografia deriva da necessidade de expressar suas emoções e sentimentos. Num tom confessional, ela afirma que seus registros, mesmo apresentando pessoas as mais diversas, refletem sua própria existência. Na perspectiva de observação do outro, a fotógrafa constata que encontra a si mesma a cada imagem concebida.

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Através de suas fotografias, Angelik ressignifica a experiência que emana do corpo. Considera este um verdadeiro agenciador de linguagens na medida em que propaga importantes efeitos potencializadores discursivos. Tomado numa acepção física, o corpo aqui exposto nas alamedas da arte aparece evidenciado pelo seu caráter transmissor de mensagens. De outro modo, e tencionando a via imaterial, vemos aquele mesmo corpo assumir proporções simbolicamente etéreas.

Os trajetos da imagem presentes nos registros de Angelik Kasalia vêm nos falar dessa linha tênue e delicada que divide corpo e alma humanos.  E tais dimensões, mesmo que sejam distintas por natureza, tendem a estabelecer uma relação de harmonização e complementaridade entre si. Os efeitos disso dependem dos mecanismos de interpretação de cada um de nós. Ao saírem de sua matriz criadora, as fotografias tomam novos aspectos, ganham impulso e chegam ao mundo como se fossem o prenúncio de uma aurora iluminada pela poesia. Ciclo que não se apaga.

 

Foto: Angelik Kasalia

 

*As fotografias de Angelik Kasalia fazem parte da galeria e dos textos da 120ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

Through the outlines of the body: the image in Angelik Kasalia

By Fabrício Brandão

Translation (Tradução): Luana Alves*

 

Life expands into infinite possibilities. With it, forms whose multiplicity of meanings are delineated, expressing the complex representation of a vast human ambience. Carrying in our countenance the indelible mark of finitude, we make of the act of existing an immense stage through which transits, especially, our search for some breath that animates the spirit.

The act of thinking art as a kind of liberation may be associated with our need to make of reality another experience. The explanation may come from the fact that we do not manage to withstand the daily spasms of life, with its hues of apex and decline of feelings. We would then be left with the refuge in a displaced dimension of the real, sphere of interactions in which we recreate not only ourselves but also our fellows.

If we believe in the harmony between parallel worlds, that is, in the tacit coexistence between the lived and the invented, we can realize that existing is advancing on the invisible cloak of the hours. Over and above the temporal records, we dare to penetrate the indecipherable zone of life, a place that does not materialize itself in a common way to all mortals. Thus, there are personal keys that need to be used so that different portals of self-knowledge can be explored.

Understanding the human body as a true link between the inner and outer worlds, the photographer Angelik Kasalia reminds us that life is also in the service of art, and not necessarily the opposite, as it is so usually announced. Her images immediately denote the intimate tone that reveals the lightness and density of the portrayed individuals.

As in an immense tangle substantiated on poetic refinement, Angelik’s gaze rests on the subject taken in a most delicate perspective of expression. In this sense, the area of understanding of things is not presented as something determined, since the mark that shrouds the presented characters comes from an exercise of abstract enjoyment of experiences. The result of this process communicates tones, gestures and, above all, voices that speak to us of distant or neighbouring worlds.

It would not be exaggerated to consider that the human portions exposed in the creations of the photographer exhale a striking dimension of images wrapped in the appeals of mystery. Perhaps because it is extremely difficult to submit to rationality the sieve of an attempt to directly explain the phenomena addressed. Nevertheless, it seems an unreasonable attempt to establish concepts for what is seen in the face this ritual of subjectivities embraced to a level of immateriality. After all, how to classify the intangible?

Angelik is, in fact, the artistic persona of Angela Kasalia, who was born and lives in Athens, Greece, to this day. Her involvement with photography stems from the need to express emotions and feelings. In a confessional tone, she affirms that her records, even presenting the most diverse people, reflect her own existence. From the perspective of observation of the other, the photographer states that she finds herself in each of the conceived images.

Through her photographs, Angelik re-signifies the experience emanating from the body. She considers it to be a true agent of languages insofar as it propagates important maximazing discursive effects. Taken in a physical sense, the body here exposed in the paths of art is evidenced by its message-transmitting character. Otherwise, and leaning towards the immaterial, we see that same body assume symbolically ethereal proportions.

The paths of the image in the records of Angelik Kasalia come to tell us of this fine and delicate line that divides human body and soul. And such dimensions, even if they are distinct by nature, tend to establish a relationship of harmonization and complementarity between them. These effects depend on the mechanisms of interpretation of each of us. When they leave their creative matrix, the photographs take on new aspects, gain momentum and come into the world as if they were the clarvoyants of an aurora illuminated by poetry. Cycle that does not fade.

 

* Luana Alves is a translator, graduated in Liberal Arts by UESC. Currently undertaking a master’s degree at the same university, developing researches in Translation and Post-colonial Literature.

* Luana Alves é tradutora, graduada em Letras pela UESC. Atualmente é mestranda na mesma universidade, desenvolvendo pesquisa na área de tradução e literatura pós colonial.

 

Fabrício Brandão publishes the magazine Diversos Afins, besides seeking shelter in books, records, films and in the passionate act of playing drums. Currently undertaking a Master’s Degree in Literature at UESC, and his research line brings together Literature and Culture.

 

Categorias
120ª Leva - 05/2017 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Itamar Vieira Junior

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Desfolhar

 

Antes andaram por estradas de sonhos etéreos. Colheram flores e mel. Arranharam a pele e guardaram pedaços das mesmas peles por baixo das unhas. Ficaram com cabelos entre os dentes. Sorveram com paixão a água de seus poços, das tormentas tão íntimas, sem se saciarem, nunca, sempre.

Depois veio a vida, o sol que nascia todos os dias e declinava, dando lugar à noite. As horas opressoras, os minutos sufocantes. A maternidade, a escola, a bebida, as palavras armadas, as feridas que doíam, fechavam e se abriam novamente. O tesouro, as dívidas, os anos que encolhiam. Os gritos. As janelas.

A boca é de vermelho. As unhas descascadas. A sacola da feira se arrasta. Salta as poças de lama nas ruas solitárias, lê versos que não guardam emoção, o arroz queima na panela, do chuveiro não jorra água fria. Todos gritam felizes infelizes. Os que moram à porta ao lado gritam. Os da porta à frente gritam. O de baixo está morto.

A chuva é uma suja estúpida, desonesta, serve de desculpa. Você sozinha na janela. Na televisão. No sofá. No balcão. No fogão. Limpando armário. Enxugando o chão. Veias secam. O corpo de dor, a espera que não se finda, pratas e cristais, anos e recomeços. O sangue. Um câncer. O seio.

Você rasga e escreve. Você lê e rasga. Escreve. O amante que não existe deita em seus braços. O marido volta para arrancar-lhe afetos e juramentos. Espera. A planta cresce e invade a casa. Enrama na parede, vira uma grande fenda. A casa arruinada é uma doce morada.

Por último deitada e fria na cama, de noite, de dia. Sorrindo. Urinando. Lívida. Sem dentes.  Honesta no começo, mentirosa ao final. O som da cidade preenchendo entranhas. Você desfolhando-se pequena e resoluta.

 

 

 

***

 

 

 

Azul

 

Da janela emolduro o momento do mundo numa imagem para nunca esquecer.

Na praça, poucas pessoas andam apressadas portando máscaras cirúrgicas. Algumas portam luvas e carregam coisas como mantimentos e material de limpeza. Há um ar de melancolia e esperança, um som profundo vindo de algum lugar. A praça e os edifícios cinzas, cor de nada, se harmonizam com as árvores secas onde nascem pequenos brotos e a promessa de renovação, em meio ao caos dos primeiros dias.

Há sete dias estou encerrado num quarto de hospital, isolado do mundo, sendo visitado quatro vezes por dia por enfermeiros e médicos portando as máscaras que se tornaram indispensáveis nesses dias de medo e de insegurança. Sinto falta de um rádio, de notícias, de um jornal, de música. Sinto falta de meu cão que divide trinta e seis metros quadrados de uma quitinete comigo, a cinco quadras do hospital. Minha mãe, minha irmã e meu sobrinho de cinco anos aparecem na praça mais ou menos a cada dois dias, o menino com máscaras, às dez da manhã, acenando, um sentimento de vigilância pelo que represento em suas vidas.

Desde o primeiro recado que recebi depois que pude levantar, há quase seis dias, com muitas dores, respiração ofegante e palidez – via-me através do vidro da janela quando o sol estava baixo no início da manhã ou fim de tarde – e olho da janela esperando o tempo em que poderei caminhar na praça novamente. Se tudo ocorrer bem, no mais tardar depois de amanhã atravessarei a praça para abraçar meu cão.

Antes de chegar ao hospital, havia uma grande tensão nas pessoas e instituições: voos haviam sido suspensos, para impedir a chegada do vírus a outras áreas do país que ainda não tinham sido afetadas. Países isolaram suas fronteiras. Havia o medo do iminente, da repetição das pandemias anteriores. Comércio, escolas, áreas de lazer completamente isoladas. Existiam contadores de mortos nos jornais, nos noticiários televisivos, com seus números cintilantes. O medo paralisava o mundo de uma forma que não havia imaginado.

O silêncio era o silêncio dos mortos. Incomodava como os mais altos sons. Tão incômodo como os motores dos ônibus, as buzinas dos automóveis, as turbinas dos aviões.

Agora, as coisas parecem estar mais claras. O fato de estarmos sobrevivendo dá um sentido de esperança a tudo. A vida poderá voltar à normalidade. O medo se dissipa e deixa apenas uma sensação de fragilidade e perenidade que às vezes somos convidados a ter.

Tanto era assim que hoje acordei com a irresistível vontade de escutar música, de cantarolar, de dedilhar um violão. Na noite anterior, um médico novo veio me examinar, e por trás da máscara havia olhos e mel, que permaneceram durante o resto do tempo em minha memória.

Durante a noite caminhei para a praia. A luz irradiava entre as sombras e os objetos, refletindo na areia e nos coqueiros verdes que fechavam o horizonte. Caminhava iluminado, sem sombra, sem medos, sem doenças. O hospital havia ficado num canto remoto de minha mente. De meu íntimo, caminhou o vendedor de perfumes, que havia estudado comigo, e tinha uma namorada jovem e frívola. No meu íntimo, não havia a namorada dele. Era ele, o chão de areia, os coqueiros verdes no horizonte, o mar cor de terra no limiar de minha imaginação e de novo a luz.

Seu cabelo permanecia leve à direção do vento, seus olhos úmidos e escuros, seu porte forte, a luz em seu rosto. Havia mais que imaginação nos limites do meu corpo e o seu braço então me enlaçou na altura da cintura, na mais íntima das ações que duas pessoas que não se encontram há anos pode se permitir.

Na voz, a doce melancolia do passado, o texto repassado e o reencontro do que se perdeu na história. Aqui há o tempo que não tivemos para repassá-la, o tempo para inventar a música que não cantamos e vivermos o que não foi e nem será possível. Existe a estranheza de um espaço com um tempo ora lento, ora corrido, no qual debruçamo-nos.

Margeando o mar, vejo-o descer, antes de tudo acontecer, de um trem azul, e me avisa sem cerimônia que precisa voltar logo, antes que o trem retorne àquele ponto. Abraço o seu pescoço temeroso de que seja para logo e você me diz que sempre desejou que o fizesse. Beijo a sua boca sem muitas cerimônias e em troca recebo um sorriso de aprovação para o sol que reflete em minha cabeça.

De repente, o mar borbulha em nuvens brancas e as embarcações tornam-se minúsculas aos olhos dos que nunca as viram. O trilho do trem é o próprio mar. Ele voltará a qualquer instante, repleto da mesma estranheza que o trouxe. Tudo isso aqui é mais que habitual. Toco sua pele com a mais generosa das intimidades e por um instante desejo despi-lo de todas as vestes para penetrar mais uma camada na intimidade que nos foi permitida.

Um barco de palavras, uma casa no mar vasto sob os nossos pés, a certeza de que nenhum infortúnio será capaz de submeter-nos novamente ao cotidiano linear em que nós vivemos. Navegaremos mais para a superfície dos ossos. Toco novamente sua pele e percebo um estranho veludo, quieto veludo que aflora em minhas mãos.

Seus olhos celebram a minha presença e somos mais felizes do que podemos ser a qualquer tempo. Esta é a certeza. Você salta sereno para terra com a mesma destreza que um gato pula de um a outro lado do telhado. Você desce metros com a leveza de um gato ladrão. Diverte-se quando flutuo de uma bolha do mar a outra, e me afasto de você. Mas sorri muito mais quando, com a mesma agilidade, se aproxima de mim e vê seu rosto tão bonito, refletido em meus olhos.

O vendedor de perfumes deixa aromas no mar e eles se misturam, emanam nas borbulhas que só fazem aumentar. Desvio-me sorrindo de um cardume de peixes alados e você segura minhas mãos pelas pontas dos dedos. Caminha sobre as águas para a areia, puxa-me pelos dedos até o chão.  Despe-me com seus olhos e logo estou nu.

Beija-me a testa com a tranquilidade. Retiro a sua roupa. Você se afasta de mim e corre para o trem. Eu permaneço íntimo do frágil solo. Vejo-o entrar despido no trem. Vejo suas nádegas redondas. Olha para mim e sorri.

A noite retorna e vejo a luz alaranjada dos postes de iluminações. Percebo que a febre cedeu. Sonhei. Percebo que é mais real e factível andar num trem sobre o mar, flutuar no oceano e me desviar de peixes alados. Sinto que a máscara me sufoca na clausura do quarto. Olho para a janela e desejo sair o quanto antes.

Quando o médico retornar, de máscaras e olhos de mel, tentarei sobre os seus olhos de forma mais profunda. Tenho mais forças que antes.  Tentarei ver, através de sua íris, a luz de um começo. Ou ficarei apenas com o olhar e desejo contido, enquanto puder.

Tudo ocorre no escuro do quarto, quando desperto do sonho ainda molhado da febre que cedeu, e vejo uma luz opaca adentrar a janela de vidro. Aquecem meus dedos e me fazem fechar os olhos novamente para que possa voltar a terra e o sonho.

 

Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, Bahia. É doutor em Estudos Étnicos (UFBA) com pesquisa sobre a formação de comunidades tradicionais quilombolas no interior do Nordeste Brasileiro. É também autor dos contos reunidos no volume “Dias” (Caramurê, 2012), vencedor do XI Prêmio Arte e Cultura (Literatura – 2012), e do livro de contos “A oração do carrasco” (Mondrongo, 2017), obra selecionada pelo edital setorial de literatura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (2016). Dois de seus contos foram traduzidos para o francês e publicados nas revistas L’Ampoule (en ligne) e L’Índex – espace d’ecrits.

 

 

Categorias
120ª Leva - 05/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Leandro Rodrigues

 

Foto: Angelik Kasalia

 

4 CENAS DO CÃO ANDALUZ

 

I

por que um cão sangrento
atravessa-nos à noite
e reduz a lua com
seu brilho no esgoto
numa parca brancura
disforme moldada
ou uivo do mal agouro
encarcerado/ sombra des-
fragmentada num osso
de nossa própria (in) existência
as vísceras repugnantes
à mostra para consumo
da matilha e suas fartas mandíbulas.

 

II

O ventre exaurido do parir eterno
constante:
………………….palavras, palavras, versos
desarticulados/ disformes
………………….e tão orgânicos.

III

costumeiramente rasgados
no cordão arrancado
com navalha fria, afiada
…………………bem trabalhada.

 

IV

no rescaldo de tudo
o cão – o grito
se deita – carne viva
………………..restos da pelagem
moldura mórbida estática
da sala de jantar imponente
com seus móveis discretamente apoiados
em calços vermelhos e
nas sombras tortas desfocadas
de todos aqueles animais mortos
da família – empalhados
o sangue que ainda respinga
pisado.

 

 

 

***

 

 

 

AFIAÇÕES DA LÂMINA

 

I

É rápido o golpe
O fracasso
A simetria fria
da dor
O novelo desfeito
O relógio que ousa
girar seus ponteiros
ao contrário
A nuvem que paira
cinza cor de chumbo
e encobre a paisagem
………….bucólica – anônima

É solitária a agonia
a chuva, a ausência da palavra
…………… …………………….. [ precisa
a intraduzível morbidez
do todo
……………..um jardim e seus canteiros
……………..em cores vivas.

 

 

II

É solitário o golpe
a imprecisão
da dor fria
cinza – do todo
O relógio desfeito
O novelo que ousa
desfiar-se ao contrário
– intraduzível morbidez
………………………………….[ que paira

palavra de chumbo,
paisagem precisa
que encobre um jardim
………………….anônimo – bucólico

É rápido o fracasso
em cores vivas,
a ausência da simetria
fria – chuva e agonia
…………………como a girar
…………………seus ponteiros
…………………de nuvem.

 

 

 

***

 

 

 

ARESTAS

 

a noite pontuou
seus versos certeiros
pontiagudas arestas
farpas afiadas
no peito.

 

 

 

***

 

 

 

FARPAS

 

uivo de sangue
a matilha estanca
a lua corada.

entre cortes e recortes
no farpado arame
dos dias
costuravas noites
com palavras despidas.

 

Leandro Rodrigues nasceu em Osasco–SP. Graduado em Letras, Pós-Graduado em Literatura Contemporânea, é Professor de Literatura e Língua Portuguesa. Lançou em 2016 o seu 1º livro: Aprendizagem Cinza pela Editora Patuá. Em 2017, participou do Jornal de Literatura  O Casulo Nº 11 e 12 e do livro Hiperconexões, organizado por Luiz Braz para a Patuá com 5 poemas. É um dos autores da Revista Zona Da Palavra. Já esteve em Incomunidade com alguns poemas em Abril de 2016.

 

 

Categorias
120ª Leva - 05/2017 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Sérgio Tavares

 

CAZUZA – SÓ SE FOR A DOIS

 

 

Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, lançou quatro álbuns de estúdio em carreira solo, antes de morrer, em 7 de julho de 1990, vítima da aids. “Só se for a dois” é seu segundo trabalho e, visto no conjunto da obra do cantor e compositor carioca, pode ser considerado um disco menor. É, de acordo com números da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), o que registra a vendagem mais baixa: 600 mil cópias. Artisticamente, também não tem canções icônicas, a exemplo de seu antecessor “Exagerado” e de seu sucessor “Ideologia”.

O caso é que “Só se for a dois” não pode ser analisado somente pelo universo que contém em si. Passados exatos trinta anos, sua importância está em ser um álbum inexoravelmente de transição, uma ponte modulante para tudo o que transformou a vida e a maneira de enxergar o mundo do seu autor.

Antes de entrar no repertório do disco, é preciso reconstituir um momento dramático, que seria chave de virada para a carreira de Cazuza. No livro “Só as mães são felizes”, construído a partir de depoimentos de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, a Regina Echeverria, esta relata que, um mês antes do show de estreia de “Só se for a dois”, o cantor começou a apresentar sintomas de debilitação da sua saúde. Preocupada, Lucinha pediu que o filho fosse ao médico. Na volta da consulta, ela perguntou sobre o parecer clínico, no que Cazuza respondeu: maneirar. E completou: “Isso é uma virose boba. Logo vou me curar!”.

Mas não era virose, nem doença boba. Às vésperas do show, o médico chamou Lucinha e seu marido João ao consultório e revelou que seu filho havia sido “tocado pela aids”. O próximo a saber foi o produtor Ezequiel Neves, que tinha Cazuza como neto (o chamava carinhosamente assim). Foi Ezequiel quem convenceu o cantor a retornar ao médico, e estava do outro lado da porta quando este ouviu o resultado do exame de sangue (ter o vírus HIV, nos anos 80, era uma sentença de morte) e correu atrás dele até a praia, numa cena refeita pela diretora Sandra Werneck, no filme “Cazuza – O tempo não para”. “Zeca, eu sei que todo homem nasce e morre um dia, mas eu não mereço isso!”, chorou igual a um menino.

Naquele mesmo ano de 1987, ao fim da turnê de “Só se for a dois”, Cazuza, seus pais e Ezequiel Neves fizeram a primeira viagem aos Estados Unidos, em busca de tratamento. “Não vou deixar você morrer, meu filho. Vou virar céus e terras, vou vender minha alma ao diabo, mas você não morre”, sentenciou Lucinha. Porém, foi somente na segunda internação no hospital de Boston, para combater uma febre incontornável, que o cantor iniciou o tratamento com o novíssimo AZT. Apesar de causar efeitos colaterais pesados, a droga restabeleceu o ânimo de Cazuza, que começou a trabalhar agora sob um lema: urgência!

Dessa fase, nasceu o álbum “Ideologia”, de 1988, e o espetáculo subsequente, dirigido por Ney Matogrosso, que iria resultar no disco ao vivo “O tempo não para”, lançado um ano depois. Nesse mesmo período, Cazuza concedeu uma entrevista ao programa “Cara a cara”, conduzido pela jornalista Marília Gabriela. A certa altura, ele declara que, por conta de uma “inveja criativa” pelas letras do Renato Russo, decidiu falar também sobre a sua geração, escrever sobre o Brasil, e sair da dor de cotovelo, do nhem nhem nhem.

Pois a identidade de “Só se for a dois” é justamente essa dor de cotovelo, esse nhem nhem nhem. Ao contrário de “Ideologia”, em que alarma: “O meu prazer/Agora é risco de vida”, o segundo trabalho traz versos leves: “O nosso amor a gente inventa/Pra se distrair”. Se antes saudava a vida: “Viver é bom/Nas curvas da estrada/Solidão, que nada”, agora entrevê a finitude em sua própria imagem: “Eu vi a cara da morte/E ela estava viva – viva!”.

 

Cazuza / Foto: divulgação

 

“Só se for a dois” é, portanto, um trabalho marcado pelo romantismo, por um lado que o próprio Cazuza definiu como o de “cantor de churrascaria”. Mas, posto na distância dos anos, é o derradeiro registro de um compositor que nunca mais existiria além dessas faixas, de um homem ainda despreocupado e repleto de vitalidade física e emocional, em oposto àquele que a aids e os sintomas da doença iriam cunhar: um artista que resolve processar as mazelas do país e a própria; que não tem outra alternativa exceto dar forma ao seu trabalho em meio à urgência, contra o tempo que não para.

Engana-se, porém, quem acredita que o disco seja embalado em platitude. Se a proporção sonora se despede aos poucos da gravidade e dos rasgados riffs de guitarra, herdados da passagem de Cazuza pelo Barão Vermelho, é possível divisar um artista experimentando casar seu timbre roufenho a novos ritmos. Nas 11 faixas que integram o elepê, há uma aposta em arranjos multíssonos, num escopo musical cuja densidade consiste em elementos do blues, do pop rock, da MPB, do uso de sintetizadores, da voz e violão.

À parte os hits “O nosso amor a gente inventa” e “Solidão que nada”, que figuram até hoje nas paradas noctâmbulas, as canções se alternam entre o andamento acelerado e o lento, às vezes emulando o canto à capela, nas quais se derramam contemplações sobre o amor, as despedidas de relacionamento, uma interação meio blasé com a melancolia, os deslindes mundanos e as introspecções de uma existência frívola e desregrada. A veleidade e a irreverência também dão as caras.

Em “Lobo mau da Ucrânia”, por exemplo, Cazuza faz uma versão radioativa do clássico personagem das histórias infantis, ambientando-o ao desastre de Chernobyl.  Já a faixa-título canta uma babel de miscigenação entre os povos e entre os corpos, ao passo que a dançante “Vai à luta” dá uma alfinetada nos críticos ao comportamento do cantor. “O pessoal gosta de escrachar/De ver a gente por baixo/Pra depois aconselhar/Dizer o que é certo e errado”.

“Completamente blue” e “Quarta-feira” flertam, em sonoridade e letra, com um clima down. “Heavy love” e “Balada do Esplanada”, por sua vez, são belos opostos. Enquanto a primeira fala de uma relação inconsequente (“não sei se é paixão ou doença”), a segunda é um pedido a alguém para que esqueça o mundo e fique contigo.

Porém, nem tudo é evidente e pressuroso. Ainda que sem a contundência dos álbuns posteriores, Cazuza planta alguns subentendimentos em duas composições, relacionados à sua bissexualidade (ou homossexualidade). “Ritual” traz a frase: “o amor na prática é sempre ao contrário”, e “Culpa de estimação” (caso o título não seja suficiente) fala de um cara (ele) que, por onde anda, tem ao lado a namorada, embora não saiba se o nome dela é Eva ou Adão. “Guarda segredo e diz que não é chantagem”.

“Só se for a dois” não prenuncia o artista aclamado que Cazuza iria ser, justamente por não ter sido a arte o motivo maior de sua busca por temas críticos e versos mais elaborados, de abandonar as areias de Ipanema e cobrar ao Brasil que mostrasse a sua cara. É, desse modo, um disco que guarda uma certa ingenuidade, um trabalho dominado por uma energia que, trinta anos depois, sabemos que estava prestes a se dissipar, tal uma foto despretensiosa batida minutos antes de um acidente.

 

 

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

Categorias
119ª Leva - 04/2017 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Numa estrada que sempre aparenta ser um tanto imprevisível, manter os passos com estabilidade é algo a ser celebrado, principalmente quando o alvo são as vias movidas pela literatura e pela arte. Nesse trajeto notadamente dinâmico, entram em cena novos atores a cada investida editorial e que trazem consigo detalhes importantes de seus mundos, de seus universos particulares. A partir da soma de um número incontável de expressões, um projeto como o da Diversos Afins consegue perpetuar seu objetivo principal, qual seja o de servir como um recorte da produção literária e artística contemporânea. A revista chega a onze anos de publicações consciente de seus propósitos, pontuada pelo compartilhamento de vozes, verbos, imagens e sons de sujeitos a demarcarem suas identidades diante dos complexos cenários mundanos. Entendendo o meio como uma fluida e mesclada plataforma de possibilidades culturais, percebemos que os ímpetos autorais comungam cada vez mais de uma noção plural de sentidos. Ou seja, estar no mundo revela aos criadores que as alternativas de produção de suas obras não representam uma ideia assentada em bases unívocas e cristalizadas. Ao longo de mais de uma década de edições, pudemos testemunhar uma variedade substancial de obras que apontam para perspectivas estilísticas e estéticas diferenciadas. E aqui não estamos a falar de intentos vanguardistas, mas de formas singulares de propagação do pensamento através da arte. Assim, cada autor trouxe até nós as marcas valiosas de suas existências enquanto sujeitos que almejam alguma transformação quiçá pessoal ou coletiva. É imensurável falar aqui dos colaboradores que nos ajudaram a manter viva a chama da revista. Torna-se impossível quantificar ou traçar qualquer painel classificatório dos diferentes tipos de contribuição que fizeram com que todos os esforços de publicação surtissem efeitos reais. Some-se a isso a importância do papel dos leitores, os quais têm se firmado como incentivadores permanentes do projeto, muitas vezes sugerindo caminhos. Como a abertura para o novo sempre esteve em pauta entre nós, nada mais natural do que trazer à cena, desta que é a nossa leva de celebração, criadores que comungam dos nossos ideais. É, por exemplo, o caso dos poetas Helena Zelic, Morgana Adis, Hugo Lima, Luís Perdiz e Sara Síntique. Do mesmo modo, a presença marcante dos desenhos e aquarelas de Samuel Luis Borges oferece-nos vias especiais de revelação. Em mais uma valiosa colaboração, Guilherme Preger convida-nos a percorrer os delicados ambientes do filme palestino “Degradé”. Trazendo densos recortes de vida, temos em mãos os contos de Kátia Borges, Cesar Cardoso e Marcus Groza. Numa pequena sabatina concedida a Sérgio Tavares, o editor Eduardo Lacerda fala um pouco sobre sua trajetória na condução da Patuá, uma das mais importantes editoras independentes do Brasil.  Alex Simões apresenta-nos “Desinteiro”, livro de poemas de Guelwaar Adún. Quando o assunto é teatro, Vivian Pizzinga volta seus olhares para a peça alemã “The so-called outside means nothing to me”. Numa preciosa contribuição ao nosso caderno musical, Tiago Velasco estreia entre nós falando do novo disco da banda carioca Do Amor. E assim, queridos leitores e parceiros, surge a Leva de número 119! Nossos mais calorosos agradecimentos a todos aqueles que, sem exceção, estiveram conosco até aqui perfazendo mais um aniversário. Evoé!

Os Leveiros

 

Categorias
119ª Leva - 04/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Morgana Adis

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

[indizível]

 

Como contar o que devo?
Da sordidez dos beijos.
Da miséria, da fraqueza.
Das línguas que espalham espaços- espasmos-líquidos
por onde podem escorrer as paredes
viscosas e róseas, ignorando tudo,
em órbita desgovernada,
e com o peso na linha tênue?

 

 

 

***

 

 

 

[juro]

 

Continua a vontade
de saber: sem
machucar os peitos do pé.
Na convicção ínfima de
imediato é extinta,
a mente.

Sentir o estalar pelos
ecos pintados nos ossos.
Triste em sensação,
persiste pelos séculos…
em sobras de tinta.
Amém!

 

 

 

***

 

 

 

[imaginário]

 

Atas meu cavalo alado
às nuvens secas e parcas.
Rendo a parte mais fraca
ao difuso, e no movimento
me junto às patas.

Patas que, em repente estranho,
cavalgam plenas e fartas
o desejo escuso do uso da faca,
cravada no exato momento
para que de mim partas.

 

 

 

***

 

 

 

[tatear]

 

Proponho sentir às cegas,
palpitar: sem desfecho!
De súbito, o arrebato
da silenciosa vigília-terna,
ecoa em repousos arredios
– na caligrafia que
se fez soar.

Miúdas cintilâncias
recortam a ausência
que se impõe sem dor;
aos corpos-folha: flores
e aromas presentes:
sob crianças noturnas
só-risos ecoados em fé.

Da seta cravada na espinha
lateja um unicórnio insólito.
Mergulha em sombras
transparentes ao fazer
da teia o orvalho
que quebra o espanto:
com acalanto nervoso.

Em piscadas bem abertas
recobramos a vigência
dos tempos retorcidos.
São constelações de letras
explícitas: transbordadas
pelo nado tateado, do vagar
ensandecido-errante.

Retido o encontro: sanar
em falares notívagos
delirantes, ínfimos percorridos,
enraizados no raro:
em pleno pulso
do absurdo-mágico:
quimeras do inerente-errático.

Presságio estático
caiu entre as nuvens: que
fitam angústias desde o véu
da caverna confidente.
No centro dos sempres
estamos libertos da
instância, mas não da infância.

Por dentro – o inequívoco:
convicção primal e surda
que impõe ritmo e cor
ao ser-sentir. Estampa
nas veias o cósmico grito de duas
esferas feitas do mesmo pó e
das constelações dos medos.

 

 

 

***

 

 

 

[quero ser]

 

De súbito, uma mui
pequena falta de atenção,
provoca o toque inestimável
entre elementos então
transmutados em respiro
sem piedade.
Quem disse? Meu corpo…
em resposta à língua
que bem preciso entender.
Como se pensa algo que
nem corpo é? Onde o
nunca é matéria! Tem enfim
uma centenária no jardim e veste
as sandálias da compaixão, pois
só assim consegue pisar o chão.
Compaixão por quem?
De mim é que não.

 

Clamo por concentrar
nas mãos o bem que desejo.
Seria como tocar o nada. Olhar
fixamente as lambidas de luz que
emanam o pulso intermitente e intuir
a força que emerge de todas as veias
conjuradas nas artérias,
num latejar mínimo,
que passaria incógnito se não fossem
as arteiras meninas dos olhos que,
pensativas, seguem de perto
o movimento da carne
que envolve o vulto oculto
e sem pele. Inconveniente
momento de perceber que
basta oferecer o intento para
escorregar pelos sistemas de
sóis e luas invertidos,
reconfigurados e ativos, recuperados
pela calma do respirar inteiro e… ser
ar para tocar as claves do íntegro
sabor e do suave brincar
das pontas.

Morgana Adis é a assinatura de Claudia Aguiyrre com as letras. Leitora antes de nada. Deixou de ser jornalista e professora de cinema, por uma vida mais integrada aos quatro elementos. Mantém-se documentarista e editora. Em ambos ofícios,  sente que o importante é ouvir. Orientada a escrever com mais regularidade pelo poeta Leopoldo Comitti o faz entendendo cada vez menos de tudo: desta vez com mais propósito. Nasceu em Santiago do Chile e vive o Brasil há quase quarenta anos. É uma das idealizadoras do Epigrama Coletivo Editorial e do Koletivo Artístico Nukanal.

 

 

Categorias
119ª Leva - 04/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Kátia Borges

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Nas profundezas do mar azul

 

Ele ficou me olhando como se quisesse pescar em mim peixes estranhos, desses que se abrigam nas profundezas do mar azul. Um amigo, que morreu de leucemia há muitos anos, me contou sobre peixes que desenvolvem antenas e moram em cavernas escuras, repletas de oxigênio, no fundo do oceano. Fiquei mudo, desejando colocar a cabeça para fora da água. Um ônibus passou, fazendo um barulho dos diabos. Puxei um cigarro e acendi. Não sei quanto tempo fiquei parado ali, sentado sozinho no banco de cimento, pensando nos peixes insanos, quase humanos, que habitam em mim.

Nunca mais deixei de sentir um gosto de água salgada na boca.

 

 

 

***

 

 

 

Que seja doce

 

Na escuridão aconchegante do cinema, olhou para o amigo como se o visse pela primeira vez. Estivera muito doente, longas noites em uma UTI, mas já não sentia um aperto no coração ao pousar os olhos nele. Chegava a cantarolar baixinho da mais pura, da mais simples felicidade apenas por tê-lo. O rosto do amigo, refeito, dispensava compêndios filosóficos. Era preciso colocar diariamente o passado no varal, como se faz com os lençóis molhados de suor após a febre. A febre, vespertina e monstruosa, não precisava mais ser medida, desmedidas temperaturas em um termômetro de incertezas. De repente os olhos do amigo encontraram os dela e ele riu. Quis falar alguma coisa, mas só lhe vinham na cabeça uns poemas tristes. A morte ainda os rondava, em sua dança, mas já não tinha par. “Que seja doce”, pensou, lembrando um conto de Caio Fernando Abreu, e voltou a prestar atenção ao filme.

 

 

 

 

***

 

 

 

Um céu de chumbo

 

Tudo parecia perfeito quando o telefone tocou em uma manhã remelenta de domingo. O marido ainda dormia e os filhos faziam uma algazarra dos diabos no jardim. Ela atendeu e, enquanto falava, percebeu que nuvens escuras vindas do nada estavam se adensando sobre a sua casa. Logo, logo, choveria. Pensou em chamar os meninos para dentro, mas havia esquecido momentaneamente os seus nomes. Escutou até o final, limitando-se a dizer apenas que sim e sim. Entendia a absoluta necessidade de ajudar. Iria, assim que possível. Não demoraria muito.

Quando o marido acordou, correu para contar a novidade. Uma amiga de infância estava doente. Era urgente ajudar. O homem olhou meio de banda. Conhecia todas as amigas da mulher. Qual delas? Empalideceu. Não havia como explicar. A existência da desconhecida traçava uma incômoda linha divisória. Se pudesse olhar para dentro dela, naquele momento, teria vertigem.

Com o passar dos dias e a inquietação da mulher, decidiu ceder. Ficaria uma semana, nem um dia a mais, e ele cuidaria dos meninos. Na volta, traria consigo a desconhecida convalescente, dissipando qualquer dúvida. Mas, o que havia de errado naquela história? Era a pergunta que martelava o juízo do homem, inconformado com o súbito segredo que se impusera entre eles.

Mas toda a combinação com a qual concordara era falsa. Ela jamais deixaria que a amiga entrasse em sua casa. Também não acreditava ser fácil retornar. Assim, quando beijou os filhos, ela o fez com intensidade redobrada. O mesmo se deu quando caiu nos braços do marido, na noite anterior à partida. Devia muito a ele e a gratidão costuma revestir o amor com predicados inomináveis.

 

 

 

 

***

 

 

 

Alzira

 

Alzira gosta de cachaça. Bebe logo cedo. No bairro onde mora, na periferia da cidade, num boteco perto. Os copos pequenos sorvidos às talagadas, o cotovelo apoiado na bancada, o corpo pequeno sacudido pelo gesto. A boca faz um esgar engraçado que não combina com o olhar triste. Antes de subir no ônibus passa a mão nos cabelos desgrenhados. Mostra a carteirinha ao motorista. Ajeita a magreza entre os passageiros. Não tem horário, não bate ponto.

Guarda o material de trabalho no cemitério. Com passos lentos desce a escadinha. Apanha a água sanitária, o amoníaco, a soda cáustica, a vassoura, o balde. Quando sobe, canta músicas aprendidas no templo. Deixou de ir por falta de dinheiro. Vergonha de tirar poucas moedas do bolso. Trocar pão por bênçãos. Ficaram as canções na boca, entre os poucos dentes que restam e o ritmo de quando ainda sabia tocar sanfona.

Se aparece um visitante, segue em silêncio. Diante da lápide, oferece seus préstimos: limpeza diária, mensal, anual, só um trato breve. Um real por túmulo. Em Dia de Finados, cobra mais. Ali, nunca chorou seus mortos. Se pudesse, vejam só, seria cremada. Não daria trabalho aos outros. Alzira cheira a álcool todo o tempo. Suas falas quase precisam de legenda como nos filmes mudos. Alzira não tem medo de fantasmas, só de gente viva.

 

 

 

 

***

 

 

 

Maresia

 

Por mais que viajasse, entrando e saindo de aviões, sentia sempre o mesmo perfume. O cheiro forte do mar, desde a infância. Quando fechava os olhos, o marulhar a embalava até que adormecesse. Dentro do ouvido, onde quer que fosse, levava consigo a essência dos oceanos. Podia sentir o gosto do sal na carne, sensível. Como um sabor que viajava em sua pele, a maresia parecia estar dentro da bolsa.

Respirava fundo, a 11 mil metros de altura, como se os pés estivessem fincados na areia macia, com os tornozelos mergulhados na água fria. Subia e cobria as suas coxas, envolvia o sexo, molhando os sentidos, acariciava os seios e entrava pela boca. Não tentava achar explicações. Deixava-se ficar assim com a alma encharcada.

Quando sentia dor, era somente sede. Rios secavam dentro do peito, crustáceos passeavam pelo solo em busca de abrigo, peixes morriam, sufocados pelo ar. Mas precisava, mais que mar, de algum estreito, pequena ilha, porto onde ancorar. Mal sabia que qualquer movimento é como o sacolejo de um saveiro, rasgando com sua quilha gigantescas ondas.

Vivia assim, morrendo em despedidas, içar de âncoras, presa de iscas, vítima de arpões, acenando em escadas de avião, com asas de metal rasgando o espaço. O corpo carregava os sentimentos, mala extraviada em alfândegas de países diversos. Falava pouco por ignorância, para manter-se a salvo em lugares estranhos. Não desejava maiores envolvimentos. Queria apenas um mar que a levasse, misturando sua pele branca à espuma das ondas.

 

Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012), São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Penalux, 2017). Teve alguns de seus poemas incluídos nas coletâneas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Éditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).

 

 

Categorias
119ª Leva - 04/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Helena Zelic

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

meninas

 

faz tempo
um poema que expresse
amor
só o amor, sem tempos duros
sem pratos quebrados na parede
e a angústia das lâmpadas

pensei
que estivesse o corpo intacto
que já não sentisse nada mas
o amor, esse escafandro
escancarado
crescendo as plantas marinhas

a gente deu as mãos
pensei de brincadeira
não consigo escrever esses versos
sem pensar em seu rosto
e seus cabelos
alguma coisa aconteceu
no meu organismo
não consigo imaginar alguém
que leia este poema
e não veja nele
o seu rosto e seus cabelos
meu rosto
meus cabelos.

 

 

 

***

 

 

 

cidades perdidas

 

existe são paulo e as multidões
a garoa e a chuva ácida
sobre os capôs, chapéus e cabelos.
aquela são paulo que,
dizem,
não existe mais
existe em santos
nas praças do centro
e nos tijolos das velhas indústrias
em meio ao fogo
dos despreocupados.

não tenho conhecimentos
químicos ou de vida
para saber se o tijolo,
no fogo,
derrete
ou vive.

minha tia anda pelas ruas
de santos
e se entende nas calles cubanas.
as vielas de salvador
têm as formas de Cuba,
para ela
todo lugar é a saudade de La Habana
e das casas de andares altos
que o tempo cortou no meio
para caber mais habitantes.
por fora, as portas são altas,
ainda são.

nenhuma cidade deixa de existir
quando se torna exemplo
dos postais, das réguas
da arquitetura
das utopias.
a memória nunca pode ser
armadilha das mudanças.

 

 

 

***

 

 

 

os clássicos

 

quem sabe quais seriam
as palavras de Safo
censuradas pelo tempo
[pela igreja católica]
abarcadas como ilhas mudas
pelos colchetes e chaves da história?

quantos beijos na boca
quantas bocas
[quantas? como?]
a despeito de menandro e apolo?

o que sussurravam as mulheres
nos ouvidos?
um mundo em festa.

os fragmentos das letras
são lacunas do encontro
entre uns corpos e outros.

há amores como há embarcações
e somem no mediterrâneo,
enormes e invisíveis.
[um mundo em festa!]
mais que ilhados,
subaquáticos.

 

 

 

***

 

 

 

um narrador que grita

 

nunca, nesta vida ou nas próximas
poderei escrever como uma poeta portuguesa.
posso imitar os versos grandiosos
de uma poeta portuguesa
posso copiar os sentimentos precisos
de uma poeta portuguesa
posso falsificar documentos
como faz a decadência das fronteiras
sem pátria e sem trabalho
duas casas e nenhuma.

posso dizer que sou
e assim chegar ao limite
convencer alguns católicos
não-praticantes do ofício da fé
andar nas ruas como uma poeta portuguesa
erguer talheres como uma poeta portuguesa
falar dos mares e do amor infinito e súbito
como o faria uma poeta portuguesa;
como se sozinha o detivesse
no centro do corpo
contra os monstros marítimos.

posso fingir que compreendo e que me espanto;
posso escrever como uma subdesenvolvida
a fingir que conhece a solidão do hemisfério norte
e os cânones das bibliotecas
que nomeiam ruas, escolas e tentativas.

posso esculpir um pássaro e narrar seu voo
como se voasse.
como se existisse para tal fim.

posso contar as pérolas
dos pecados da ave maria
(em segredo sepulcral).
mas nunca, sob hipótese alguma,
poderei escrever como uma poeta portuguesa.

são outros os meus heróis.

 

 

 

***

 

 

 

um lugar no mundo

 

que aquele rasgo na noite
seja um astro satélite
parece impossível

a distância tamanha
aproxima água e minério
a perder perspectiva

no meio do caminho
um abismo de sombras
pedágios, cavaleiros e dragões

o medo de altura
da humanidade visível
nas pedras que cortam a China.

 

 

 

***

 

 

 

mitos

 

como um país que não se esquece de seus mortos e seus vivos
como um povo que resguarda a língua anterior às fronteiras
porque são eles mesmos a língua,
a língua é eles
como tua capacidade de amar novas pessoas
e reconhecer perfumes antigos
e querê-los, porque assim respira mais.

como a dura revolta de nossos ossos,
como as multidões que se levantam,
tu tem direito à tua história.

 

Helena Zelic tem 21 anos, é estudante de Letras, comunicadora, militante da Marcha Mundial das Mulheres, coordenadora de literatura da revista Capitolina, poeta e autora de “Constelações”, publicado em 2016.