Fodido demais é o terceiro e mais recente trabalho do quarteto carioca Do Amor. Gustavo Benjão (guitarra e voz), Gabriel Bubu (guitarra e voz), Ricardo Dias Gomes (baixo e voz) e Marcelo Callado (bateria e voz), nestas dez canções (mais bônus track), seguem firme em sua antropofagia pop globalizada, ao deglutir e transfigurar ritmos variados – do indie rock ao partido alto, passando pelo frevo e pelo free jazz – utilizando guitarras, distorções, sintetizadores e um senso de humor peculiar que são a assinatura da banda.
Quem conhece já está acostumado e até espera essa miscelânea sonora. Em Fodido demais, no entanto, o caldeirão do Do Amor pareceu mais equilibrado e enxuto (apenas 11 faixas, contando com a bônus track, pouco se comparado ao disco anterior, “Piracema”, com 18 canções). A concisão, os arranjos mais redondos e sutis e a seleção e a organização do repertório apontam para uma banda mais madura, sem que isso represente qualquer quebra no que vinha sendo feito até então. Os rapazes estão, claramente, polindo o projeto estético que vêm desenvolvendo.
Se até a faixa sete, Fodido demais apresenta a faceta rock da banda de forma mais evidente, mesmo que em sentido amplo e sem um respeito conservador ao gênero; as quatro últimas atiram-se de forma mais descarada no samba, no frevo e em demais ritmos do país. Mas sempre através de um filtro cosmopolita, como o partido alto com sintetizadores “Minhas vozes”, a bem-humorada “Metaleiro vento”, faixa que começa como um free jazz e logo incorpora ritmos regionais brasileiros, fazendo a cama sonora para versos como “Metaleiro vem/ Pegue nessa viola/ Eu sei que você curte Astor Piazolla/ E isso você nunca pode negar” e “Metaleiro sai/ Saia dessa redoma de fumaça preta/ Caia no reggaeton e abrace o capeta/ Ele brinca com fogo e você de Abadá”. O bloco “não rock” se completa com “Frevo da razão”, um frevo à moda Do Amor que conta com a participação luxuosa – e grave – dos vocais de Arnaldo Antunes.
Do Amor / Foto: divulgação
Mas rock e não rock não são boas formas de dividir o trabalho da banda, já que o apagamento dessas dicotomias e de quaisquer fronteiras sonoras é parte da proposta do quarteto. Assim, o indie rock de guitarras “Peixe voador”, música que abre o álbum, convive harmoniosamente com “Fodido demais”, canção densa cujo peso remete ao grunge e que traz trechos da obra Do Amor, do autor francês Stendhal, recitados pelos quatro integrantes, e com “A lince”, faixa com um quê de rock progressivo, mas com a virtude de não se deixar enfeitiçar pela egotrip virtuosística característica do gênero.
Duas faixas parecem estabelecer conexões mais próximas a músicas de outros trabalhos: o hit pop de Benjão “O aviso diz” é primo-irmão de “Ofusca”, canção de “Piracema”. O parentesco não é à toa, já que “O aviso diz” foi composta na época da pré-produção do disco anterior. Já “Make songs”, de Dias Gomes, remete não só a “I’m a drummer”, de Marcelo Callado, pelo jogo de palavras em inglês que as duas faixas estabelecem, mas, também, por obedecer a uma estrutura de repetições que parece atrair o baixista e que está presente, por exemplo, em “Exploit”, faixa do primeiro disco, “Do Amor”, lançado em 2010.
Fodido demais deve ser ouvido várias vezes, se possível com fones de ouvido, o que permitirá escutar as camadas sonoras e as texturas que se escondem por trás de arranjos que só são simples na superfície. Neste terceiro álbum, a Do Amor sedimentou sua proposta estética e valorizou ainda mais as canções, demonstrando que a maturidade trouxe sutilezas benéficas para a banda e, por que não, para os ouvintes.
Tiago Velasco nasceu em 1980. É doutorando em Letras na PUC-Rio, mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ, jornalista e escritor. Autor dos livros de contos Petaluma (Oito e Meio) e Prazer da carne (Multifoco), além do livro de não ficção Novas dimensões da cultura pop (Multifoco). Em 2015, ficou em quarto lugar no Prêmio Off Flip de Literatura na categoria contos.
Dividir-se para multiplicar: uma leitura de “Desinteiro”, livro de poemas de Guelwaar Adún
Por Alex Simões
“É colocando a violência do signo poético no interior da ameaça de violação política que podemos compreender os poderes da linguagem” (Homi Babha, O Local da Cultura, p. 97)*
O que pode ser um livro de poesia? Uma arrumação de poemas temporariamente suspensos no tempo, espacialmente dispostos num livro, ou unidade de sentido mediante o esforço de um artista que o assina e o pensa e o executa como projeto? Desinteiro, livro de estreia do experiente poeta-editor Guellwaar Adún, publicado em 2016 pela Ogum’s Toques, é um projeto desconcertante e consistente, um livro cuidadosamente pensado e executado para abalar a cena literária brasileira. Um livro de 164 páginas, dividido em quatro partes (Corda Retesada para Tiro, o Arco Armado, A Flecha, O Alvo), conta com capa belíssima de Dadá Jaques, ilustração de Raimundo Santos Bida e projeto gráfico do poeta que assina a obra.
Em Desinteiro o fragmento nos leva ao duplo, ao múltiplo, ao mesmo tempo que compõe um todo, por ser desinteiro, e não suas partes, suas metades. I-Tal e qual o livro, este ensaio de leitura pede licença a Exu para falar, Padêlicença. O “signo-como-símbolo” ** é tanto o dono do falo quanto o dono da palavra. É assim que se pode entender o trocadilho como estratégia de contra-ataque, de leitura descolonial da tradição, do poema como lugar do isso-e-aquilo. Eixo e Exu são muito mais que simples contraposições, são índices de um ouvido atento para a diferença entre o que se escreve e o que se diz, de um poeta que traz o que traduz, que se revela no que escuta e que problematiza na escrita o que a própria escrita pensada acriticamente não assimilaria como semelhante-quase-igual. Quando “encruzilhadas” é preterido por “encruzas”, tradições discursivas aparentemente distantes são alinhavadas: os pontos de candomblé e as rimas do rap. Ou como explicar a presença do étimo “encruzas” como item lexical no repertório de um poeta meio carioca, meio baiano? O seixoLalu acompanha Ogum(‘s Toques) e Oxóssi. Cancela ejós, dando luz a outros nós, sóis.
O filho de Oxóssi é guerreiro por definição. Reteza a Arca para o tiro e acerta o alvo branco. Desafia o olhar simplista, mostra o poder dilacerante que se exerce pela palavra, no alvo da página, no jogo entre palavra e alvo, nos interstícios, nas apropriações e nas aproximações: o rondeme é tanto o lugar do sacrifício ritual, quanto o panóptico sagrado a que voluntariamente se dirige o iniciado. Aqui o yorubá (e outras línguas africanas que meu ouvido colonizado não identifica), o espanhol, o francês, o inglês e o português se encontram no mesmo poema, dizendo serem os mesmos os problemas enfrentados na diáspora pelos filhos de África em seus encontros e desencontros, mediados pelos modos de gritar contemporâneos. Desse modo vemos um “eu” que vai aos poucos se dilacerando, em consonância com o rito de iniciação: meu eu,/ despido de meu corpo, (Diga a verdade às crianças); um eu que é um lugar sagrado: Meu corpo é meu templo (I-tal); um eu que se retesa no Arco Armado.
E é n’O Arco Armado, que o guerreiro e sua autoapresentação cede lugar para a cena da guerra e para a heteroapresentação (Ferdinandeando, Roteiro para Semembe). A guerra se dá na linguagem, na disputa por um território, naquilo que tem lugar (tempo) em e toma lugar de(espaço), relembrando Fanon, porque “Relembrar Fanon é um processo de intensa descoberta e desorientação. Relembrar nunca é um ato tranquilo de introspecção ou retrospecção. É um doloroso re-lembrar, uma reagregação do passado desmembrado para compreender o trauma do presente.” (Babha, 2005, p. 101) Fanon que, por sinal, é explicitamente retomado no texto de Guellwaar, não só em nome próprio e intimamente citado pelo prenome, como pela apropriação em forma de verbo em primeira pessoa, num dos poemas que, segundo minha limitada e parcial avaliação, constitui um dos momentos mais potentes do livro, inclusive por nele ouvirmos ao fundo a música versista de Cruz e Souza arrematando a polifonia complexa desse ouvido de músico-e-poeta: Frantz palavras e sotaques, fanoneio / portal do inverno, me recolho e me esgueiro. (Portal)
Já em A Flecha, muda-se a estratégia em relação aos nomes próprios. O que, em outros momentos é apropriação e de nomes próprios, para sinalizar afeto e/ou citação como estratégia poético-discursiva (baldwinamente, saramagueando, fernandiando, fanoneio), aqui é enfrentamento e nomeação: Thomé de Souza, não por acaso, vem em primeira pessoa logo após um poema em que é mencionada uma encomenda do rei (o rei e o mar) e antes do poema dedicado a Hamilton Borges Walê, um guerreiro nomeado e uma espécie de irmão-poético de Guellwaar, com quem compôs o grupo “Os Maloqueiros”, levando a poesia e o teatro para as ruas de Salvador. Essa parte termina no que seria o livro como tradicionalmente o concebemos, com a autoria assinada por um sujeito empírico, que assina uma construção verbal, mas que aqui é arquearia do verbo, em que o alvo é sempre o alvo.
Em O Alvo, o desinteiro se realiza, pleno. Lugar de inscrição do leitor, de incompletude assumida, de assunção da página em branco como locus do entrave, do conflito e da negociação entre leitor e autor, do princípio de cooperação entre o leitor que escreve e o poeta que lê: rasura e traço, poesia militante e não limitante, porque incompleta por consciência de si, por consciência do outro. Poesia em favor de, por ser poesia contra, no sentido formulado por Ricardo Aleixo (2000)***:
Vejo….. a ….“boa …poesia” ……como…. .sendo ….aquela …que… é,
independentemente. de. seus assuntos, contra. Contra a língua
cotidianaa. e ..a ..literária, …contra. a …poesia anterior, contra os
conceitos… correntes ..de poesia,. contra .a .poesia das palavras
“poéticas”,..contra ela mesma, …contra a comunicabilidade fácil,
contra…. .o difícil …de… superfície, ..contra a.. História, ..contra a
filosofia,…… contra. .a. ordem.. social e .política vigente, contra a
ditadura… do sentido único, contra a ideia de identidade (étnica,
cultural, …….religiosa,….. sexual etc.) ….enquanto… uma… “ficção
simplificadora” …..que ..tem… como ..fim… último ..a .exclusão da
alteridade, …..contra, ..enfim, ..a enfadonha.. convicção. de que a
poesia está morta.……………… ………………………………………………………..
Desinteiro é, portanto, um aceno em direção à poesia viva, que assume riscos, que interpela a participação ativa de leitoras e leitores, que dá a cara a tapa, propondo desafios e trazendo à cena vozes silenciadas, é a pergunta de Fanon “O que quer um homem negro?” tentando ser respondida: o homem negro quer, entre outras coisas, escrever poemas, dizer que está vivo, que caminha sobre espinhos brancos, assumindo sua condição de guerreiro em combate.
E eis a Dicção da Flecha, que prepara a cena do combate ao mesmo tempo que afirma o sagrado do combate, porque a guerra se faz no discurso, na inscrição do sujeito nesse discurso, e também na cisão desse sujeito, deslocado, diferenciado, reencenando as autoabolições, para, re-nascer. E aqui encerro a minha cena da cena, encerrado nesse discurso em que também me vejo, re-nascido, dividido e multiplicado, desinteiro, irmanado ao sujeito que opera o procedimento cirúrgico e demiúrgico na linguagem:
Em busca da paleta imperfeita na mosca, sem vida fácil, fixação, incerteza, zarabatana espreita olho ácido,ágil mira acesa
Notas:
* Trad. de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláudia Renate Gonçalves.
** Barthes, segundo Babha.op. cit.
*** Na Encruzilhada, no meio do redemoinho. In: Pedrosa, Célia (org). Mais Poesia Hoje. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2000. P. 154.
Alex Simões é poeta, escritor, professor, performer e tradutor de poesia. É autor de “Estudos para Lira” (inédito, Menção no Prêmio Copene 2001), “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (Domínio Público, 2013), “(hai)céufies” (Esquizo Editora, 2014) e “Contrassonetos Catados & Via Vândala”(Mondrongo, 2015). Colabora em Revistas Literárias, antologias e em blogs/sites de literatura. Ministra oficinas de poesia, com foco em versificação e ações performáticas em poesia. Recentemente traduziu o livro “Entonces Daniela” (Lummen Editora, 2015) e coeditou um número da Revista Organismo. Integra o Mapa da Palavra e é um dos colaboradores da Revista Barril.
os monumentos são zoológicos do medo
violentas cortinas rasgam a noite
preciso de distinção nos dentes
instantâneos que não mordem
………..o jardim de apuros
onde nossas garras desaprendem o espaço
***
TEMPLO
nunca intacto
repouso nesta superfície de cascalhos
sonhos aprendidos ao hálito da terra
lágrima primata incrustada na labareda
planície viva do princípio
tarde marmórea por onde encontro
suas coxas quentes
secretamente solares
***
A HORA DA PANTERA
I
……………o meu amor meu bêbado amor que ruge
na órbita tenaz de cabelos e orquídeas
no subterrâneo vicejante da floresta do tesão
a argyreia dos olhos trespassa a senha dos ciclones ……………desarma o fogo e o laser dos saguões cinéticos
e com seu batom negro devora o próximo planeta
II
………….o meu amor meu vertiginoso amor que salta
pelos viadutos abismos arvoredos farpas
dilacera o aro do tempo com patas atômicas
arranha verbos vorazes na espinha das almas ……………ressurge ofegante no sofá-cama escarlate
luzente entre gozo e caos
***
BANQUETE
estirados sobre uvas e fogueiras
oferendados aos olhos do dragão
adormecidos em tambores e maços
devorados na miragem nupcial da ordem
as fábricas nas unhas crescem
***
UMA PRESA FÁCIL
o mínimo possível
estancado com zelo
ruidoso fêmur
pesar o pesadelo
de tantos ossos
a feroz visão
em limiares doces
nervo e seiva
laborioso istmo
maravilha consternada
porém viva
uma presa fácil
habita aquela antiga e frágil cama
onde os livros doem mais
***
INSTANTE ESTRANGEIRO
a tradução nuvem diamante em língua
uiva ausente sobre o telhado escandaloso
convites dispersos ressonância incógnita
gestos indecifráveis de rubi tráfego
tração fútil aos volts de neurônio
retrógrado na distância
trilhos devoradores
despedida de maquiagens áridas
navego nu em mim
estrangeiro náufrago
***
NOS CORRIMÕES DO SILÊNCIO
enxágua esta espera
desespera frenética
aranha indeferida
do impresso
chovem granadas
Luís Perdiz é poeta, compositor e editor do portal de literatura “Poesia Primata”, voltado para a degustação e difusão da poesia brasileira contemporânea. Faz parte do projeto musical autoral “Estranhos no Ninho”, do coletivo “Ocupecompoesia” e colabora regularmente em revistas de literatura e antologias. Com poemas de “Saudade mestiça” (Patuá, 2016), seu livro de estreia, foi agraciado com menção honrosa no Programa Nascente USP. Atualmente vive em São Paulo.
Degradé (2015) é um filme “made in Palestine”. A informação que vem numa das cartelas de abertura é crucial. São poucos ou raros os filmes que chegam da Palestina no Ocidente. Só este fato já justifica uma visita ao filme. Veremos que a questão da visibilidade é um dos elementos mais importantes de sua proposta estética.
Uma das principais virtudes do filme dos diretores irmãos Arab e Tarzan Nasser (pseudônimos de Mohammed Abunasser and Ahmed Abunasser) é evitar o caráter de denúncia ou mesmo a posição de vitimismo nessa visibilidade. Embora as condições da ocupação israelense sejam efetivamente trabalhadas no filme, elas serão tratadas “metonimicamente”, isto é, de forma deslocada.
A história do filme se passa inteiramente dentro de um salão de beleza feminino e é protagonizado quase que exclusivamente por mulheres. A dona do salão é uma russa que diz que dá na mesma morar na Rússia ou na Faixa de Gaza. Ela é ajudada apenas por uma jovem palestina. Ambas atendem uma moça jovem e uma mulher mais velha, enquanto outras mulheres aguardam a vez de atendimento sentadas nas poltronas.
O cenário poderia perfeitamente se passar no Brasil devido ao caráter periférico e precário do estabelecimento. As mulheres também poderiam perfeitamente se passar por brasileiras, dada a tez morena da pele, certa malícia de comportamento e até mesmo por causa do vestuário. As mulheres vestem-se casualmente, com jeans e algumas de camiseta. Em particular, a jovem cabeleireira ajudante, sempre ao celular, se comporta não muito diferentemente de qualquer moça brasileira das periferias urbanas. Apenas uma das mulheres que aguardam sua vez, a mais religiosa, usa véu escondendo o cabelo.
Cena do filme “Degradé” / Foto: divulgação
O fato de representarem para as câmeras sem o véu cobrindo os cabelos é um elemento fundamental na estética de Degradé. O salão cabeleireiro é um espaço de intimidade feminina. As mulheres fazem os cabelos, as unhas, se depilam e até mesmo tomam banho, pois há uma sala de banho no andar superior. Também conversam sobre suas vidas amorosas e até mesmo sobre sua sexualidade. Uma das mulheres diz que seu marido perdeu o apetite sexual e ela está ali para se embelezar e tornar-se mais sexualmente desejável, segundo suas palavras. A moça sendo atendida está se embelezando para um possível casamento (que ela rejeita), enquanto a ajudante do salão não sai do celular, angustiada com o namorado que está do lado de fora do salão, carregando uma arma. Há também uma mulher, negra, que é divorciada.
O espaço de intimidade feminina do salão é, na verdade, um espaço fechado sem homens. Os homens estão do lado de fora, armados até os dentes, prontos para um conflito, não se sabe exatamente com quem. Um deles (vivido pelo próprio diretor) é o namorado ou o apaixonado pela jovem ajudante do salão, que aparentemente o rejeita por sua participação na guerrilha ou na milícia. Ele passeia armado e conduz uma leoa sequestrada do zoológico e que teve, supostamente, seus dentes arrancados pelos guerrilheiros/milicianos. A ajudante do salão tenta equacionar, sem sucesso, um equilíbrio entre seus deveres profissionais e sua agitação amorosa pelo homem que a persegue.
Assim, o filme figura uma demarcação rígida de espaços: o ambiente do salão é o espaço feminino de intimidade, como extensão do espaço doméstico, porém mais livre, pois as mulheres podem comentar sua vida íntima e amorosa, suas frustrações ou alegrias, umas com as outras. Do lado de fora, é o espaço masculino da guerra, do confronto, do poder e da dominação. Entre os dois, há a janela do salão e as conversas de celulares. Os celulares são usados abundantemente para as conexões entre esses mundos.
A repartição entre o mundo público masculino e o mundo privado feminino é uma divisão conhecida nas sociedades islâmicas; no entanto, o filme desconstrói essa ordenação assimétrica de poderes introduzindo outras perspectivas. Se a câmera cinematográfica confinada ao salão de beleza pode ser uma metáfora da clausura feminina ao mundo doméstico e da suposta falta de liberdade das mulheres muçulmanas no Oriente Médio, no entanto, a própria esfera masculina do poder, nos territórios palestinos, está enclausurada entre os muros da ocupação e da segregação. O confinamento do foco cinematográfico ao espaço interior do salão não é tanto uma metáfora, mas uma metonímia, um deslocamento do isolamento murado e restringido da Faixa de Gaza, e da restrição ao ir e vir, tema de várias conversas entre as mulheres.
O salão de beleza é antes um espaço de liberdade feminino do que de reclusão. Num certo sentido, as mulheres estão mais livres lá dentro do que os homens do lado de fora, com seus conflitos de território. Mas há um aspecto ainda mais sutil nessa assimetria de perspectiva: a presença da câmera no interior do salão abre uma brecha na visibilidade proibida da intimidade feminina: as personagens mulheres são filmadas sem o lenço, com seus cabelos gloriosamente livres e à mostra. A proibição das mulheres exibirem publicamente seus cabelos é reiterada no filme e será um elemento dramático no final da história. Portanto, há uma ambiguidade estética na exibição cinematográfica desses cabelos femininos. A questão não é apenas que Degradé desafia uma restrição de ordem imagética ao dar visibilidade ao proibido. O “controle do imaginário” é antes colocado em jogo. O jogo de esconder e exibir os cabelos e a narrativa ficcional que nos apresenta as divisões de territórios são um único e mesmo jogo encenado pela montagem cinematográfica.
Daí porque o título do filme seja Degradé, o nome que se dá a um corte de cabelo em camadas. Inicialmente um corte de cabelo militar masculino, tornou-se moda entre as mulheres que lhes deram outra conotação, própria ao embelezamento. Degradé é uma ressignificação do conteúdo militar e masculino do corte, traduzido para o mundo feminino e também indica o deslocamento de uma realidade que é mais complexa do que divisões estritas de sexo, poder e política. Pois a exibição dos cabelos femininos pelas câmeras, para o espectador, por um filme “feito na Palestina”, relativiza a proibição do tabu e revela, num jogo de aparências, as camadas intermediárias de visibilidade.
Cena do filme “Degradé” / Foto: divulgação
Mas “degradé” também sugere aquilo que é “degradado” e a degradação se intensifica no filme com o decorrer da narrativa e a presença dos “ruídos” e do “caos” do mundo de “lá fora” para o interior do salão. Pois o mundo do exterior também é o mundo do confinamento e da segregação. A condição de desespero da situação palestina se degrada pelas divisões políticas internas entre os grupos que disputam o poder. Numa das cenas mais interessantes do filme, é proposta uma inversão de perspectivas: uma das mulheres do salão começa a imaginar o que seria se as mulheres palestinas tomassem o poder dos homens. Ela começa a distribuir os cargos de um novo governo entre as demais mulheres presentes. Essa tomada imaginária de poder é interrompida pelo aumento de tensão exterior que acaba invadindo o espaço interior do salão. A luz é cortada, não há gasolina para o gerador, os barulhos de bombas e tiros de fora impedem qualquer paz interna. As próprias mulheres começam a brigar entre si. A entropia de um mundo fechado começa a tomar todas as relações e os ruídos crescentes impedem as conversas e o compartilhamento das intimidades.
Curiosamente, a situação de confinamento de Degradé é semelhante a de outro filme recente, o egípcio Clash, filme que se passa inteiramente no interior de uma camburão policial, com detidos das manifestações após a queda de Hosni Mubarak. Simetricamente, o filme egípcio focaliza apenas homens dentro do espaço estreito e interior da viatura. Como no filme palestino, também sabemos pouco ou nada do que se passa no exterior. No entanto, a situação de fora é trazida para dentro com toda sua carga de tensão e violência. Clash é um filme mais bem “fechado” e “redondo” do que Degradé. Neste, temos um excesso de personagens, algumas sem função essencial na trama. O resultado é a impossibilidade de se aprofundar em seus dramas, de modo que, em alguns casos, temos personagens rasas, tais como a moça que está grávida e sente as dores do parto no interior do salão, exatamente quando um conflito acontece do lado de fora. Apesar disso, a questão do jogo de aparências, dos cabelos que não podem ser mostrados aos homens, mas que são ostensivamente exibidos pela câmera, bem como a abordagem de temas sobre desejo e sexualidade feminina e a crítica ao mundo violento e corrompido dos homens dá ao filme palestino uma sutileza ausente no filme egípcio.
Mas é sintomático que esses dois filmes recentes apresentem os dramas do Oriente Médio sob a perspectiva do confinamento do espaço. Devemos mesmo expandir esta percepção e olhar essas obras como artefatos estéticos da periferia capitalista, aquela que outrora se chamava de Terceiro Mundo. Mesmo que a situação da Palestina seja fruto de uma ocupação neocolonial, a sensação de uma experiência “sem saída” é a tônica da vivência de muitos povos e uma das razões do desespero dos deslocamentos imigratórios. E poderíamos igualmente imaginar este filme tendo como ambiente uma comunidade periférica carioca, em meio ao conflito entre traficantes, milicianos e policiais. É exatamente dessas situações de clausura existencial que os imigrantes procuram escapar. Embora termine tragicamente, Degradé, por sua vez, é um filme que abre suas objetivas para ampliar a visão estética dos espectadores. Nas telas, suas protagonistas femininas não são apenas vítimas, mas sujeitos capazes de fazer a vida continuar, com suas lutas, mas também com experiências de libido, afeto e solidariedade. Como diria a teórica Donna Haraway, é preciso “lutar na barriga do monstro”. O filme dos irmãos Nasser joga uma luz nessa barriga e expande as fronteiras da obscuridade produzida pelos muros da segregação.
Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.
Está sozinha no palco, apenas os espelhos a multiplicam. Ela e seu tutu, que a deixa quase nua. Ela e seu corpo e a dança. Ela e seu olhar, que só vê o palco, a dança, seu corpo, os espelhos.
Quando a música termina, a bailarina não agradece a ninguém. Simplesmente para no palco. Para dezenas de vezes em seus espelhos. Dezenas de vezes imóvel. Estará esperando os aplausos?
Até que as duas mãos de seu público levantam a caixa, dão corda novamente, pousam e observam.
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Certificado de garantia Maxchild
Parabéns, papai. Parabéns, mamãe.
Vocês acabam de adquirir um produto MaxChild de alta qualidade e perfeitamente compatível com a sua família.
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Robinson Crusoé
Subo até o topo da duna de areia e vejo bem longe um sinal de fumaça. É vida, com certeza! Desço a duna a toda, fazendo os cálculos de como chegar até lá, e sigo a rota pensada, torcendo para não me perder mais uma vez.
Algumas horas depois subo mais uma duna e, ao chegar no topo, respiro aliviado. Desta vez não me enganei. Lá embaixo estão os motivos do sinal de fumaça. Um homem sentado em frente a uma fogueira. Desço ansioso, segurando a faca.
Ouço um ruído atrás de mim e me viro com o revólver engatilhado. Ele ainda tem tempo de saltar, mas eu atiro, acerto em seu rosto e ele cai ensanguentado e imóvel, com a faca a seu lado.
Me certifico de que está morto, pego a faca, subo até o topo da duna de areia e vejo bem longe um sinal de fumaça. É vida, com certeza!
***
Os bravos soldados do fogo
Para Cibele Fernandes
Acordei com a sirene. O barulho veio aumentando e eu esperei que fosse diminuindo. Mas não. Parou à minha porta. Levantei rápido da cama e corri para abrir a porta da frente, já dando de cara com os bombeiros carregando as mangueiras, gritando ordens, cercando o quintal e procurando, procurando. Eu também não encontrava nenhum sinal de fogo. Mas não tive tempo de alertá-los, eles já acionavam os hidrantes e encharcavam a casa toda. A princípio, não entendi aquele procedimento e até me aborreci. Mas eles foram gentis e pacientes e me fizeram ver que, por mais que a gente não perceba e mesmo não encontre, há sempre um incêndio.
***
Classificados 1 – Contentamento
Para Gabriela Amaral
É um bom emprego. Trabalhar com água é muito agradável, melhor do que com gente.
Primeiro tampo a pia, depois abro a torneira e deixo encher. Quando a pia está cheia, fecho a torneira, pego o conta-gotas e faço a sucção. Daí é só sair da casa, atravessar a ruazinha de terra e já estou na praia. Vou até o mar e esvazio o conta-gotas. Depois volto e repito a operação até esvaziar a pia. Então é só encher de novo e recomeçar.
Tem alguma coisa a ver com as marés, mas eu ainda não entendi muito bem. O importante é que eles estão contentes com o meu trabalho.
Cesar Cardoso é carioca e formado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 2012, publicou o livro de contos “As Primeiras Pessoas”, pela editora Oito e Meio. E em 2015 lançou “coisa diacho tralha” (poesia), pela editora Texto Território. Escreveu para a revista Caros Amigos e para os jornais O Pasquim e O Planeta Diário. É roteirista, tendo escrito programas de tv como Tv Pirata, A Grande Família e Sai de Baixo. Atualmente, é roteirista do programa Zorra, que em 2016 foi indicado ao International Emmy Awards de melhor comédia. Os contos aqui selecionados fazem parte do seu mais novo livro, “Urubus em Círculos Cada Vez Mais Próximos”, publicado recentemente pela Editora Oito e Meio.
meus seios estão agora
devorados por tigres
que os engolem
com fome e lascívia
esses pequenos órgãos
não serviriam ao leite
ou à valsa de teus dedos
ou à tua língua
veneno aos mamilos
tampouco seriam acampamento
às guerrilhas da morte
esses tigres estraçalham
as carnes miúdas
e sem pressa
e fervorosos de abundância
se encaminham para o ventre.
***
Revoada
amanhã ou hoje
voar ao sol
para sentir o calor
sobre os ossos
esse que eu não encontro
em parte alguma
e que a ausência não consola.
***
Andarilho
somente as pernas sentem o gozo
e quando muito
os pés – as pontas dos dedos
adormecem e flamejam.
mas se o cheiro do líquido
chegar à língua
e nela se fizer um gosto:
tua estrada proclamou-se sem fim.
***
Tontura
eu queria a insônia de Mekas
e ser com ele
aquele verde
e aquele sol
e alongar o corpo ao chão
dissolver o corpo ao chão
mas a minha insônia
ela só me agarra ao cigarro
e tua companhia não existe mais
há solidão e bagunça
canção alguma a ouvir
a não ser a voz
de um homem
embriagado
na televisão
eu não consigo estar nesse corpo
depois dessa imagem:
a voz dele como reza
e os copos vazios.
Mekas não me dirá mais nada.
eu já entendi o pausar do desejo
já me deitei sobre a náusea
e sobre o vômito
e sobre o som do acordeão
teimo em escrever isso que vai sendo pedido
mas eu me quero sono, me quero silêncio
os membros são pedaços de fúria
e não há controle
todo o meu vibrar em contradição
e ainda existe o teu ciúme
e meus olhos sobre teu dorso inteiro
e um pensar até doer a cabeça
e um desistir de parar ou tentar.
não, Mekas, eu não rezarei ao além.
***
Coração ou fragmento
guardo em silêncio feérico
teu corpo viçoso
ligeiro e pesado
no meu corpo em pedaços
guardaria assim mesmo
se fora de leveza e ternura
queria poder fingir inteirezas.
***
Útero ou dissolução
escorrega desse sangue
o eco de teu choro.
escorre entre as pernas
a insensatez das palavras –
enquanto escavam o colo
tuas dez garras miúdes,
suficientes e exatas
para bem-aventurar a loucura.
e o útero,
berço nunca plácido,
da rasura,
da sobra,
da secura dos galhos,
dissolve o corpo inteiro,
tua morada.
***
Além da memória
A Sidney Souto in memorian
o corpo não zera depois da morte
não estão nulos, os órgãos
eles se arranjam pelo espaço
os processos químicos prosseguem
e ele se entremeia na terra
e dança com ela, em silêncio.
também não zera depois do amor
mas visita um espaço
quase vazio, quase inteiro
e nele é quase místico, quase cético
quase terra, quase céu
depois do amor, o corpo é quase
um entre,
a não caber em escala alguma
como se fora poesia, mas ainda não o é
o corpo, talvez, zere aqui
nas palavras,
nesse dizer, um desdigo
aqui,
no buraco invisível,
imagem e só,
aqui, na palavra,
zero e infinito.
Sara Síntique é graduada em Letras Português-Francês e mestranda em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Nasceu em Iguatu (CE), em 1990, e reside em Fortaleza desde 2001. Autora do livro de poesia “Corpo Nulo” (2015, Editora Substânsia), também é atriz e performer.
Em entrevista concedida à Diversos Afins, em 2013, Eduardo Lacerda apontou dois desafios especiais para o crescimento da editora Patuá, que havia montado fazia apenas dois anos: publicar livros diferentes e únicos, que inovassem o caráter editorial de alguma forma; e conseguir gerar lucro com isso.
Passados três anos, a realidade financeira do selo não se distingue da de qualquer editora pequena e independente no Brasil, cujo editor, além de se preocupar com a qualidade artística da obra, “tem de embalar cada livro, levá-los aos correios, pagar contas em vários bancos diferentes, implorar para que alguém os compre e os leia, enviar para jornalistas, formalizar contratos, fazer páginas no site, tirar ISBN, emitir nota fiscal, fazer postagens no Facebook para divulgação dos livros”.
Quanto ao primeiro desafio, no entanto, pode-se dizer que foi superado com louvor. Com mais de 500 títulos lançados, a Patuá é hoje referência no mercado editorial para os autores que procuram uma maneira de debutar na literatura. Mas o reconhecimento não depende apenas dos estreantes. A notoriedade trazida por prêmios e pela presença constante na lista de indicados atrai, cada vez mais, escritores renomados que encontram, na editora, um novo porto de lançamento para seus trabalhos.
Na entrevista a seguir, Eduardo Lacerda faz um balanço dos últimos seis anos à frente da Patuá, tocando em temas que constituem um cenário realista do mercado editorial brasileiro, refletido a partir da experiência de se comandar uma editora que segue com a postura de independente. Com lucidez e otimismo, o poeta que se tornou editor fala ainda sobre vitórias e frustrações, mercado literário, premiações, formato digital, leitor no Brasil e da razão de seguir acreditando no que faz.
“Nossa expressividade ocorre, acredito, ao fazer algo relevante não só para a literatura como um todo, mas algo relevante para nossas vidas, para as vidas dos escritores e leitores que compartilham de uma mesma época. Um leitor pode ser tão importante quanto milhares de leitores”. Uma leitura recomendada para quem já está e para aqueles que pretendem ingressar nos caminhos sinuosos – e nem sempre recompensadores – do universo do livro.
Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal
DA – Passados quatro anos do lançamento da antologia poética “Outro dia de folia”, sua carreira de escritor segue em pausa. É mais fácil ser editor que poeta?
EDUARDO LACERDA – Eu não tenho uma carreira como poeta, tenho um livro publicado, composto por poemas escritos em um momento da minha vida no qual escrever era importante. Hoje escrever não é mais importante, acho muito importante ler e, como minha profissão, acho importante o trabalho de editor, o qual eu exerço com paixão, a paixão que eu não tenho mais como poeta. Mas também não é fácil ser editor, hoje leio muito menos do que lia há dez anos. Cuidar de uma editora pequena e independente me exige a leitura, mas também embalar cada livro, levá-los aos correios, pagar contas em vários bancos diferentes, implorar para que alguém os compre e os leia, enviar para jornalistas, formalizar contratos, fazer páginas no site, tirar ISBN, emitir nota fiscal, fazer postagens no Facebook para divulgação dos livros. A edição, como trabalho, vai além e fica aquém da leitura, para o bem ou para o mal. Mas acho que o mais difícil é ser leitor do que ser poeta, considerando que ser leitor exige isolamento, reflexão, convívio com os textos e muita recusa. Já muitos poetas (e mesmo eu, quando fui poeta e agora, como editor) buscam o que é público, o reconhecimento, a leitura do outro, a crítica do outro, a venda do livro, a participação no evento. Quando somos apenas leitores, nos bastamos a nós mesmos, mas um poeta e também um editor não se basta sozinho, precisa do outro, o outro é imprescindível na busca de si mesmo. Se eu pudesse, seria apenas leitor.
DA – Fundada em 2011, a Patuá carregou, durante um tempo, o rótulo de ser uma editora voltada para a poesia. Hoje, o catálogo é bem variado, inclusive com proporções igualitárias entre romances, antologias de contos e antologias poéticas. Essa realidade já fazia parte da ideia original, quando planejou o foco da editora, ou foi algo inevitável, que ganhou forma de acordo com os pedidos de leitura de originais que chegavam?
EDUARDO LACERDA – Um editor precisa ser apaixonado pelo que lê e precisa ser um bom leitor daquilo que pretende editar. Eu não sou um bom leitor de literatura infantil ou de literatura infantojuvenil, por isso não me arrisco muito a editá-la. Eu reconheço sua importância, mas acho que outros e outras profissionais farão uma edição muitíssimo melhor do que a minha. Sou um bom leitor apaixonado de poesia e, talvez, um leitor mediano, mas apaixonado, de prosa. É natural que a poesia tenha um espaço maior dentro da editora, minha formação anterior, como editor, foi editando fanzines, jornais e revistas literárias. Eu convivi, na última década, com centenas de poetas antes de efetivamente editar seus livros, de muitos já tinha editado poemas nesses jornais, revistas, zines, articulado eventos, saraus. É uma relação anterior que tenho com os poetas e com a poesia. Mas gosto muito de prosa, de contos e de romances, e é natural querer publicá-los também. Contudo, o número de poetas publicados ainda é muito maior.
DA – Outra característica da Patuá era de ser um porto para autores estreantes. Com o amadurecimento da editora, porém, escritores de renome, com títulos lançados pelos chamados grandes selos, começaram a ser publicados pela Patuá. Você percebeu isso como uma consequência da incapacidade das grandes editoras de manter esses autores ou como a procura destes por um selo pequeno, que oferece uma participação ativa nas etapas do processo de feitura do livro? Chegou a se preocupar quando esses contatos começaram a acontecer? O que procura um escritor consagrado ao entrar em contato contigo?
EDUARDO LACERDA – Ainda somos uma editora focada nos autores estreantes. Nesse primeiro semestre, publicamos dezenas de autores e autoras estreantes e, dos ditos consagrados, ou mais experientes, apenas o novo livro de poemas do Ronaldo Cagiano e o novo romance da Micheliny Verunschk, que apesar de muito reconhecida como poeta, teve seu primeiro – e muito premiado – romance publicado com a Patuá. Ano passado publiquei as antologias poéticas de dois autores que me formaram, mas não posso dizer que são consagrados, apesar de algum reconhecimento, que são o Sergio Cohn e o Fabio Weintraub, mas eles sempre foram publicados por editoras pequenas ou médias. Claro, temos muitos autores que publicaram seus primeiros livros com outras editoras pequenas ou de forma independente, muitos que já não são estreantes, mas que publicaram seu livro de estreia com a Patuá. Acho que um catálogo de 500 títulos, como o nosso, permite uma pluralidade de autores e autoras. Dependendo do recorte feito, a impressão pode ser uma ou outra.
DA – Nesses seis anos de existência, a Patuá acumula premiações expressivas, tais quais o Jabuti e o São Paulo de Literatura, além de ter autores da casa regularmente entre os finalistas. Qual é o efeito real de um prêmio para uma editora de pequeno porte/independente?
EDUARDO LACERDA – Em um primeiro momento, ganhar um prêmio aumenta o “prestígio” da editora, o que acaba atraindo muitos escritores querendo publicar conosco. Após o resultado positivo em algum prêmio, recebemos um número três vezes maior de originais. Também vendemos um número maior, mas não expressivo, de exemplares do livro premiado. Acho que prêmios são importantes, precisam existir, assim como os eventos literários, mas eles não definem a literatura. No caso da Patuá, minha felicidade em ganhar um prêmio é saber que rompemos uma lógica de que somente as grandes editoras ganham esses prêmios. Já ganhamos duas vezes o Prêmio São Paulo, duas vezes o terceiro lugar do Jabuti, de poesia e de contos, dois Prêmio Guavira (um prêmio menos conhecido, do Mato Grosso do Sul), tivemos muitos autores semifinalistas e um finalista do Oceanos/Portugal Telecom, tivemos já cinco autores finalistas do Jabuti e, em 2017, a Patuá tem dois livros finalistas do Prêmio Rio de Literatura.
DA – Hoje você já consegue selecionar o original que irá publicar? O que leva em conta nessa escolha? E de que forma lhe chateia a maneira de um autor se portar diante da editora, pelo fato de ser independente? Talvez algo que certamente este nunca fizesse, caso fosse recusado ou tivesse de negociar com um grande selo.
EDUARDO LACERDA – Eu sempre selecionei o original que publicamos. Não cobramos a edição, não ganho nada publicando algum livro sem acreditar nele, nem lucro monetário, nem um bom catálogo, posso até errar, mas erro por vontade própria, não porque o autor está pagando pela edição. Leio tudo o que publico, mas não posso dizer que consigo ler tudo o que recebemos para publicar, mesmo se me dedicasse apenas à leitura de originais, ainda assim o tempo necessário seria maior do que possível. Por isso (e por muitos outros motivos) acho bom que existam outras editoras trabalhando bons livros, não entendo uma outra editora como concorrente. Já sobre como os autores se portam, os autores e autoras são o que há de melhor e de pior no meu trabalho. Não teria conquistado nada sem a confiança de algumas pessoas, de alguns escritores e escritoras incríveis que me ajudam, apoiam, leem e compram nossos livros, que são muito generosos. Ao mesmo tempo é desgastante ter que responder algumas mensagens absurdas de madrugada, de pessoas que não confiam em nosso trabalho, que se estivessem em uma editora maior tratariam o editor de outra forma, mas eu, hoje em dia, ligo pouco para isso, para esses problemas. Em seis anos de trabalhos e mais de 500 títulos publicados, apenas três autores saíram com problemas da editora, brigados, alguns poucos outros tiveram problemas, mas que foram solucionados. Acho que a maior parte dos autores entende o que é e como funciona o trabalho de uma editora pequena e independente.
Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal
DA – A Patuá também oferece serviços editoriais para autores que optam por pagar por seus livros. Muito se discute sobre o papel do editor nesse tipo de situação; se o fato de o autor custear a tiragem não faria com que houvesse um olhar mais benevolente sobre os defeitos da obra. O que pensa sobre isso?
EDUARDO LACERDA – Do nosso catálogo de 500 títulos, posso afirmar que não chega a 10 o número de livros pagos pelos autores, talvez um pouco mais, mas provavelmente até menos. Todos os outros livros foram pagos por mim, por meio da venda de livros a leitores. E desses 10, apenas de um me arrependo, que posso admitir que publiquei por necessidade financeira e não por escolha minha e isso com consciência do autor. Um livro pago pela autora e do qual me orgulho é o nossa “Teresa – vida e morte de uma santa suicida”, da Micheliny Verunschk. O livro teve patrocínio da Petrobras, precisava de uma tiragem de 1500 exemplares e a autora tinha os recursos do prêmio para isso. O livro é excelente, de uma autora já reconhecida e que me enviou o original para leitura, original do qual gostei, era um livro que teria publicado gratuitamente (claro que com uma tiragem menor). Outros livros pagos pelos autores eu teria publicado gratuitamente, aliás, é o que faço quando pedem orçamento, leio e avalio, se aceito a publicação paga é somente se for por opção do autor. Dinheiro assim não me seduz, embora precise de dinheiro para manter o meu projeto. Pagar pela edição não é um problema, grandes e bons autores pagaram por suas edições. Ótimas editoras realizam esse trabalho com um critério e qualidade ainda maiores do que o meu. Não acho um mérito ou me vanglorio de não fazer muitos livros pagos, acho que é a minha opção de trabalho, que me traz alguns resultados positivos, como manter minha coerência editorial, que é até bem incoerente; e negativos, como deixar a editora quase sempre com problemas financeiros, não graves, mas também muitas vezes falta dinheiro para alguns projetos que gostaria de realizar.
DA – Seguindo nessa mesma linha de raciocínio, a proliferação das pequenas editoras proporcionou um aumento expressivo de novos autores no mercado. Muitos por meio dessa condição de pagar pela publicação de seus livros. Sendo assim, temos uma faixa etária cada vez mais baixa de escritores estreantes, muitos deles claramente despreparados para entregar uma obra de qualidade. Ao ter contato com alguns originais, você chega a conversar com esse tipo de autor, aconselha que espere um pouco, lapide a escrita, forme-se como leitor primeiro, antes de pensar em publicar o primeiro livro?
EDURADO LACERDA – Poucos escritores querem ouvir conselhos, muito menos os mais jovens. Com a facilidade de publicação, qualquer escritor encontrará uma forma de publicar seu livro de estreia (ou dezenas de livros por ano), seja por uma editora tradicional, seja por uma plataforma de autopublicação, seja pelo Wattpad, pela Amazon, por um blog, pelo Facebook. É uma opinião muito pessoal, muito, mas eu acredito que a literatura é um direito, é direito ler, é direito escrever. Se a facilidade gera banalização (e gera), também cria oportunidades de aumentarmos o número de escritores e de leitores, o que é ótimo. Não há como nos beneficiarmos de uma condição sem trazer junto vários de seus aspectos negativos. Agora, como filtrar esses aspectos negativos, isso é um ótimo desafio.
DA – O lançamento do primeiro livro, sobretudo quando o autor é jovem, é envolto por uma camada espessa de vislumbre sobre o que é o mercado e o meio literário. Muitas vezes, é difícil para um autor compreender que a carreira de um livro não depende do quanto ele ache que dará certo, que será um sucesso. Você lida com esse tipo de ingenuidade e, posteriormente, relatos de desapontamento? É papel do editor transmitir para o autor uma realidade que vai além daquela contida em seu livro?
EDUARDO LACERDA – Sim, lidamos com as decepções e frustrações de dezenas de escritores todos os dias. Não só com os autores mais jovens, mas também aqueles mais velhos, mais experientes. É comum receber ou publicar o livro de um autor mais velho, que já lançou livros nos anos 80 ou 90 e ver a decepção com as vendas, com a repercussão, diferentes da que tiveram há algumas décadas. Escuto muito desses autores “meu primeiro livro vendeu 300 exemplares na noite de lançamento, não vou vender menos do que isso”. Quando o livro não chega aos 50 exemplares vendidos, a decepção é enorme, alguns chegam a culpar a editora, que nunca trabalha de forma suficiente. Também os meios de divulgação são muito diferentes, alguns autores esperam ainda que o jornal irá noticiar o lançamento, mas sabemos que isso não ocorre mais. O lançamento de um livro, exceto para o autor e para a editora, não é mais um acontecimento social, que desperta interesse público (exceto em cidades menores, nessas cidades a dinâmica de um lançamento é muito interessante, os jornais locais noticiam, pessoas “importantes” da cidade muitas vezes comparecem). Podemos somar às decepções, além da recepção e das vendas, a inexistência de crítica literária (existem ainda alguns bons resenhistas, mas que não dão conta da leitura de milhares de lançamentos todos os anos) e os prêmios literários, poucos e que nem todos vão ganhar, mesmo com bons livros. Essa decepção ou frustração gera, em alguns autores e autoras, uma ansiedade, uma necessidade de lançar vários livros em um curto espaço de tempo, na expectativa de que o próximo livro alcance o sucesso que o anterior não encontrou. Assim um livro vai substituindo o outro sem que haja um tempo mínimo de trabalho. O editor deve explicar, mas também entender (muitos não entendem), que um livro é um trabalho a longo prazo. Um livro não pode morrer dentro do catálogo da editora e tem que continuar acontecendo, mesmo que os resultados venham bem devagar. É bem difícil, mas é possível.
DA – A Patuá trabalha com pequenas primeiras tiragens, entre 50 e 200 exemplares. Muitos desses livros acabam não alcançando leitores e, muito menos, os cadernos culturais e a chamada crítica especializada. Ter um livro publicado, assim, acaba sendo mais um capricho. Isso lhe angustia de alguma forma? E, diante de um cenário em que a literatura tem cada vez menos espaço nos jornais e nas revistas, como avalia a importância dos sites, blogues e demais plataformas digitais voltadas para a literatura?
EDUARDO LACERDA – Me angustia, mas não considero um capricho ter um livro publicado com uma baixa tiragem. A culpa não é do autor, da autora ou da editora, temos um problema gravíssimo de falta de leitores e descaso pela literatura. O escritor, a escritora, eles escrevem. A editora publica. Ambos trabalham para que o livro chegue ao leitor. Se o livro é bom, se o autor, se a autora, trabalham sua literatura e levam isso a sério, uma hora a literatura se sobrepõe ao que não é literatura. Mercado editorial não é literatura. O que eu faço, editar livros, não é literatura. Literatura é o que está escrito e que nós damos suporte, um bom suporte, que pode ajudar que a literatura chegue ao leitor, mas quem escreve é o escritor e lançar um livro para poucos leitores, embora seja triste, não é apenas um capricho. Os sites, blogs etc são muito importantes. Excelente literatura está sendo produzida e publicada diretamente nessas plataformas. Autores e autoras mais jovens, que ainda nem conhecemos, estão se formando, lendo, comentando, refletindo, a partir de literatura divulgada pela internet.
DA – Falando em digital, li uma entrevista sua, faz alguns anos, em que defendia apaixonadamente o livro físico. Ainda tem a mesma opinião sobre a relevância da obra em papel? Não há, num plano futuro, a intenção de lançar os livros da Patuá também em formato digital?
EDUARDO LACERDA – Eu ainda sou apaixonado pelo livro impresso, acho que nunca deixarei de ser, mas não sou contra ou avesso ao livro digital. Pelo contrário, acho incrível a possibilidade de termos milhões de livros acessíveis, o que pode ajudar a democratizar o acesso ao livro (pode, talvez ainda não esteja, porque formação de cultura e hábito de leitura não estão relacionados apenas com a disponibilidade de livros). Futuramente também a Patuá terá livros digitais, mas ainda não é um plano. Editar um livro pode ir além da plataforma ou suporte escolhido para ele existir, se impresso ou se digital. Eu ainda me importo muito com a possibilidade do encontro que o livro impresso permite, a festa de lançamento, as leituras públicas (embora muitos poetas leiam hoje em dia em seus celulares), as trocas de livros, as feiras, o livro impresso permite ainda um encontro entre pessoas que eu gosto muito. É um romantismo meu, ao qual me permito. Talvez esse encontro exista no livro digital também, talvez um dia passe a existir para mim.
Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal
DA – Ao contrário de muitos editores, que preferem trabalhar nos bastidores, você é um editor ativo, que participa de eventos e está sempre divulgando seus autores. A Patuscada, um misto de livraria e bar, é possivelmente a melhor representação desse tipo de atitude, cuja intenção maior é congregar autores e leitores. Essa é também uma maneira de ter uma contrapartida às livrarias, de projetar os livros que não estão nas vitrines dos shoppings literários? E já houve a intenção de levar os livros da Patuá para essas prateleiras?
EDUARDO LACERDA – Eu adoro livrarias, não detesto a forma como elas trabalham com as editoras, é simples. Acho que o Brasil tem pouquíssimas livrarias e que precisamos incentivar e criar milhares de outras, através de leis que promovam a isenção de alguns impostos para as pequenas livrarias (não para as grandes) e de outras ações. Aliás, eu costumo dizer que mesmo São Paulo não tem livrarias, temos algumas megastores e algumas boas livrarias em regiões ricas da cidade, como a Paulista, Jardins, Pinheiros, Vila Madalena etc e em alguns shoppings, essas mais para livros de alta vendagem, os chamados best-sellers. Não estou fazendo um julgamento de qualidade, apenas apontando como e o que trabalham. Será raro, nessas livrarias de shopping, encontrarmos livros até de autores conhecidos, reconhecidos e consagrados, como, por exemplo, Clarice Lispector ou Mário de Andrade. Poesia, talvez, aquela utilizada no vestibular do momento ou a lançada pelo último BBB poeta ou pelo Gregório Duvivier (novamente, não é um julgamento de valor, mesmo porque gosto de alguma poesia dele). Mas se pensarmos nas regiões de classe média, nas mais pobres ou nas periferias da cidade de São Paulo, não temos mesmo livrarias. Precisamos discutir o modelo como trabalham as livrarias. É impossível pensar que uma empresa (a livraria) pega produtos (o livro) em consignação, com frete de ida e volta por conta dos fornecedores (o editor), pede 50% de desconto no preço final do livro, depois de efetivar a venda ainda pede mais 120 dias para pagamento, se o livro for danificado o exemplar é devolvido da mesma forma, com prejuízo à editora. Até pouco tempo atrás esse sistema ainda garantia que nossos livros seriam expostos nas livrarias, mas atualmente a situação é ainda mais absurda, porque a maior parte das livrarias apenas cadastram os livros em seus sites e só nos pedem o exemplar se for vendido. Cuidar de um bar e livraria é uma experiência incrível, ainda assim com suas (minhas) frustrações. Vendemos pouquíssimos livros, muitos escritores aparecem por lá para beber, mas nunca levaram um livro. Enfim, não vou ganhar no grito, meu trabalho continua e, se fosse fácil, muita gente estaria fazendo.
DA – Dando uma olhada nas listas dos mais vendidos, fica evidente a hegemonia dos grandes selos, sobretudos aqueles que trazem, em seus catálogos, traduções de best-sellers internacionais. Como fazer uma editora independente ganhar expressividade nesse cenário em que a literatura contemporânea brasileira, sobretudo a composta majoritariamente por autores desconhecidos, está longe de representar a preferência dos leitores?
EDUARDO LACERDA – Como disse, a literatura, o que é literatura, não se mede pelo número de leitores; a literatura existe, resiste e será sempre assim. Nossa expressividade ocorre, acredito, ao fazer algo relevante não só para a literatura como um todo, mas algo relevante para nossas vidas, para as vidas dos escritores e leitores que compartilham de uma mesma época. Um leitor pode ser tão importante quanto milhares de leitores. Eu acredito nisso ou já teria abandonado a edição independente.
DA – O brasileiro é um leitor ruim?
EDUARDO LACERDA – Não podemos culpar o indivíduo pelo sistema. O Brasil, como país, tem um projeto político de não formação de leitores. É um projeto mesmo, político, social, cultural e econômico de um não interesse para formação de leitores. Começa com o descaso com a educação, mas somente a educação não garante que teremos leitores, passamos também por diversos períodos de proibição da circulação de livros e literatura. Nossa história é uma história de descaso com o livro, com a literatura e com o leitor. E não podemos chamar de leitor ruim quem não lê e quem lê aquilo que consideramos literatura ruim. Sim, acho que existe uma boa literatura, mas, como já disse, acredito que a leitura e a literatura são direitos, direito de ler, direito de escrever, direito de publicar. Experiências em saraus de periferia, por exemplo, que dão a palavra para a pessoa comum, de todas as profissões e de todas as cores, de todas as classes sociais, como chamar essas pessoas de leitores ruins? São leitores, talvez alguns ainda em formação, mas leitores. Estão se apaixonando pela literatura, pela poesia, estão escrevendo. O que poderá explodir e acontecer a partir disso até mesmo de boa literatura em nossa visão tão limitada do que pode ser boa literatura? Por outro lado, temos – eu tenho, eu pelo menos quero ter – o dever de ajudar a mudar esse país, de pensar um país que ame sua literatura, que ame o livro, seja ele impresso ou digital, que ame seus escritores, que ame seus leitores, sejam eles bons ou ruins.
DA – Olhando para o Eduardo Lacerda que, em 2013, criou a Patuá, consegue enxergar uma certa inocência na maneira como ele enxergava o mercado literário? E, passado esse tempo, qual a melhor coisa que ser dono de uma editora lhe proporcionou?
EDUARDO LACERDA – O Nelson Rodrigues que disse que sem paixão não dá nem pra chupar um picolé, também não se faz muita coisa sem inocência, nem mesmo amar é possível sem inocência. O grande desafio é continuar um pouco inocente e apaixonado. Eu descobri um caminho seguro nesse mercado literário e editorial, recebo os livros, leio, consigo, de alguma maneira, escolher alguns bons títulos, envio para um grande artista fazer a concepção de capa e projeto gráfico, mando pra gráfica, faço o lançamento, envio para jornalistas e críticos, vendo um pouco, pago os custos, faço o próximo livro, eventualmente ganhamos algum prêmio. Certo, não é só isso, isso é um resumo, mas é um caminho seguro. Como ser inocente e apaixonado e pensar que, sabendo disso, de algo que já dá bons resultados, posso pensar em algo diferente, que me contradiga, que me oponha ao meu trabalho e me renove? A melhor coisa de ser dono de uma editora é fazer os amigos que eu faço. Escritores e escritoras, sim, mas também pessoas admiráveis. Não sei se meu trabalho pode mudar o mercado editorial ou literário, não sei se estamos fazendo alguma história. Mas eu sei que estou fazendo a história da minha vida e de alguns/algumas escritores e escritores. E fazer sua própria história, de forma apaixonada, já me parece bem importante.
DA – Vale a pena trabalhar com livro no Brasil?
EDUARDO LACERDA – Vale, vale muito! Acho que se tivesse seguido uma carreira de professor, que é a minha formação, se tivesse terminado a graduação, feito um mestrado, um doutorado, talvez eu tivesse uma estabilidade financeira um pouco maior. Mas nunca teria me divertido tanto, feito tantos amigos, lido tantos ótimos livros.
Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.
Jade lavava pedrinhas antigas que encontrou numa gaveta da avó. Não pareciam pedras preciosas. Mas Jade as afagava com cuidado, submergidas, como se fosse o próprio corpo da avó. Morrer é se converter em pedra. O corpo duro em cima da mesa do velório lhe deu essa impressão. As articulações da mão estavam endurecidas. Não sei por que Jade tentou dobrar o punho da vó, como fizesse um exercício de fisioterapia que ela mesma tinha feito quando quebrara o braço. Tentava talvez dar ânimo à vó. Mas logo tiraram a menina abobada de perto do corpo. Jade: que aliás fisicamente era muito parecida com a vó, ou com o que ela tinha sido na juventude.
_ A vó gostava muito de você! disse a mãe para Jade, enquanto a menina continuava a alisar as pedrinhas coloridas.
A vó Vera foi a única de toda a família a aceitar a gravidez da filha, mãe solteira, e até se separou do marido que queria botar a filha grávida no olho da rua. Cidade de interior, moralismo e preconceito é coisa farta. Quando Jade nasceu, o pai ainda zombou, dizendo que ela tinha parido uma retardada. Os fofoqueiros da família diziam que devia ser filha de algum primo. No ano seguinte, quando o pai se finou, a mãe de Jade não foi no enterro e ainda postou na Internet: “Não me venham com condolências. Faz muito tempo que não tenho pai.” A vó Vera desaconselhava esses rancores, até podia entender, mas rezava para que os nós do rancor desatassem do peito da filha.
A gaveta que Jade estava arrumando tinha também um cachimbo. Mas ela fingia estar atenta às outras coisas. Com uma bacia de água ao lado, lavava as coisas da vozinha. Só de vez em quando ela lançava um olhar de rabicho para o outro lado da gaveta onde estava o cachimbo da vó. Sabia que se pegasse o cachimbo, a mãe ralharia, pois esta vez ou outra também lançava um olhar pra ver o que Jade estava fazendo, enquanto desocupava o armário.
_ Uma vez quando você tomou acetona, foi vó que levou você pro hospital!
_ E eu fiquei bêbada, mãe?
_ Não, mas teve que fazer lavagem no estômago.
_ Mas se não tivesse feito lavagem, eu ficava bêbada?
_ Não, Jade! Isso foi quando você era criança…
Jade não é mais criança. Mas sabe que é “meio retardada”, como os meninos da rua tantas vezes repetiram. Por isso ela pode cobiçar o cachimbo; e planeja pegá-lo escondido. É só esperar: porque primeiro a mãe conta alguma história da vó, depois algumas lágrimas rolam. E vai ser no próximo rolar de lágrimas que vou apanhar o cachimbo e jogar pra debaixo da cama.
Jade não é mais criança, mas também não pode fumar. Fumar faz mal. Jade é meio retardada, mas não deixou de ver que, no velório da vó, a mãe saiu pra fumar e voltou cheirando a cigarro.
Entre um acontecido e outro desenterrado da memória, a mãe começou a chorar de novo e logo saiu pra se assoar no banheiro. Jade então teve tempo de pegar o cachimbo, botar na boca e dar uma tragada imaginária. Depois o jogou para debaixo da cama.
_ Jade, vamos parar um pouco. Pra almoçar?!
_ Pode ser mãe, tô com fome.
Na verdade, ela tinha na boca um gosto da poeira velha acumulada no fundo da gaveta. Pensou nos restos mortais da vó, que estavam dentro de uma pequena urna na sala. Estava sem fome. Mesmo assim ela e a mãe foram almoçar. Jade comeu com gulodice.
***
Hieróglifos
Mãe, deixa ser meu o quarto da bagunça? Era desejo antigo. Ter um quarto. Quase uma casa. Não era só veleidade de menino. Deixa ser meu o quarto da bagunça! O caçula já tá grande, pode bem dormir sozinho. Mas o quarto de vocês já é uma bagunça! Olha, Mãe! Sonâmbulo descabido. Olha que eu monto cabana de lençol na garagem. Convoco os amigos, chamo os vizinhos. Trincheira de brinquedos e livros. E, quando crescer, faço festa durante a quaresma. E ainda viro boêmio! Não acredita?
Ela deixou. Agarrei tarefa de ajeitar tudo: traz a cama, cola um pôster, muda o espelho. Mãe, vou fazer uma tabela de basquete na parede! Bem em frente à cama… Pode? Pintei de amarelo o quadrado, circulei com preto e, para fixar a cesta, furei os dois exigidos buracos. Mas durou pouco. O queixo duro respondeu de través. Pisou tenso em desalento de é meu, é meu, é meu… Então a Mãe desaprovou, emprestou da bruxa uma vassoura e foi redesenhar o trabalho: tirou a cor de dentro do quadrado, espalhou por toda a parede o novelo amarelo embaraçando. Restos de palha da vassoura grudados na tinta. Colagem rupestre. Parede ficou amarela e branca. Pintura abstrata. Parecia um ninho profanado, com a gema dos ovos escorrendo.
Zanga de leão ferido: fui lá e também registrei minha raiva. Bosta. Buceta. Porra. Um ou outro palavrão genuíno desses escrevi… e até uma suástica desenhei. Mas as asas da suástica pus voltadas ao contrário. Sabe que nem quatro unhas encravadas? Lascou. Prédio do amor e da caça. Eficácia do signo. Primeira e última dádiva. E assim a parede muitos anos se preservou: contornada com gemas da vassoura improvisada em pincel e as minhas palavras raivosas. A parede do quarto voltou a ser, mais do que nunca, a parede do quarto da bagunça.
Com o tempo passou também a painel de recadinhos. Rasuras. Quem vinha em casa se sentia no direito de um cantinho pra rabiscar. Primo pequeno chegava e queria provar a todos que já sabia escrever o nome. Depois a medição dos adolescentes crescendo também era anotada ali. Assim foi: borrão desencantado da vida. Teste do estêncil. Resto de massa corrida. Sujeira de pincel…
Quando, em certa ocasião, veio o padre dizer missa aqui em casa, o canto de ouvir a confissão ficou sendo justamente ao pé da nossa parede rasurada. No quarto da bagunça. Debaixo da suástica de asas invertidas. Antes, porém, em gesto de contrição antecipado, minha mãe foi lá e cobriu de branco os termos mais técnicos. Foi coisa pouca. Não chegou a mudar o sentido da obra.
Outra vez, a parede recebeu também inscrição do tato em vermelho durante o sexo. Dedos desenhando com sangue menstrual da primeira namorada. E a mancha de sangue lá ficou – o vermelho se tornando marrom, quase preto – nem sei até quando.
Hoje, manchas todas devem estar inda lá na parede, debaixo de alguma camada, das tantas que foi preciso dar, em vão, para cobrir a ira, o amor e os carinhos que sujam de vida todo o lugar.
Marcus Groza é poeta e ficcionista. Autor do livro “Sossego Abutre” (Ed. Patuá – 2015), é coeditor da Revista Abate e da Revista Saúva.
traço a linha além da página o que exceder é horizonte
I.
-meu corpo
atravessa o espaço
com suas linhas-
-na fluidez da passagem
a linguagem retém
o gesto-
-entre cortes e costuras
tecidos e ranhuras
o traço
revela seu avesso-
-no ritmo
i-n-i-n-t-e-r-r-u-p-t-o
do ir e vir
sobre o papel-
-de-se-nho-
-de dentro pra fora
de fora pra dentro-
-remendos
e tessituras
II.
-a linha
do horizonte
é fronteira-
-ao mesmo tempo
aproxima
& afasta-
-agrupa
e separa
minha língua
da sua
meu corpo
do seu-
-a linha
do horizonte
ultrapassa
aquilo que fica
daquilo que
escapa-
-a rasura
no mapa-
-a comunhão
exata-
-entre
meu gesto
e o seu-
III.
-a linha
intermitente
da leitura-
-a leitura
intermitente
do poema-
-o poema
intermitente
da vida-
-a vida
intermitente-
IV.
que constelações
desenharão
estas linhas?
que caminhos
revelarão
nos mapas?
que tecidos
formarão
suas camadas?
que estórias
traçarão
sobre as páginas?
que riscos
correrão
sob o nada?
que marcas
deixarão
no papel?
V.
-a linha
quer adentrar
a memória
habitar
o instante
estruturar a
narrativa-
-a linha
quer inventar
paisagens
desviar
caminhos
conectar
linguagens-
-a linha
quer ser
um pedaço–
–do espaço-
-transformar-se
em estrela
constelar seu
rastro-
-a linha
pensa
o momento exato:
-um
emaranhado-
-de ponto-s-
em nós-
VI.
——sob a pele tatuada
o corpo tece sua gramática
alinhavando o pensamento
à sintaxe dos versos
fixando-se no desejo
de adentrar a sala
ampliar o horizonte
ser uma e ser mil
tornar-se trama
enredo
fazer arte
tecer o texto
alinhar os livros na estante
os quadros nas paredes
amarrar
uma a uma
as orelhas de cada página
a grande onda dos dias
a geografia das formas
o entorno e suas bordas
s u a s ó r b i t a s
pespontar o destino
pelos fios de Ariadne——
Hugo Lima é poeta, performer e educador. Tem poemas publicados em diversas revistas e jornais literários, como Dezfaces, Gueto, Mallarmargens, dentre outros. É autor dos livros Nus, Florais & Ping-Pong (2014), Corpo dos Afetos: para Herberto Helder (2015) e Dois Quartos, com Tida Carvalho (2017), pela Crivo Editorial, e Repeats & Bonus Tracks, que integra a terceira temporada da coleção Leve 1 livro (jun/2017). Mora em Belo Horizonte.
A verve provocativa de The so-called outside means nothing to me
Por Vivian Pizzinga
Cena da peça “The so-called outside means nothing to me” / Foto: divulgação
No palco, quatro jovens mulheres, vestidas com roupas largas, nada sedutoras, dividindo-se em emanações de uma mesma personagem, Minna, jovem isolada por escolha, em um apartamento num dia entediante. Relacionar-se com o mundo exterior – the so-called outside –, com o que há fora do apartamento, com o que há fora de si, implica muito desgaste: ficar o tempo todo balizando o que se diz com o que se pensa, medindo os parâmetros vigentes em uma dada cultura com a vida que caminha fora das capturas ideológicas, quaisquer que sejam; ficar ainda regulando o politicamente correto que, entretanto, é estrangeiro face aos pensamentos espontâneos mais genuínos, verificando a adequação do que se sente àquilo que se pode sentir, do que se pensa àquilo que é considerado pensável, ao que é aprovado socialmente, ao que está na moda, ao que é vanguarda ou, por que não?, ao que é sustentável. Essas constantes verificação e regulação são extremamente cansativas e perturbadoras. A personagem, dividida em quatro, prefere não. Este é o cerne em torno do qual começa a girar o sensacional The so-called outside means nothing to me, que teve apresentações no Cena Brasil Internacional, em junho de 2017, nos palcos do Teatro I do CCBB-RJ.
Há um cerco de emoções, esperas e questionamentos que se erige ao redor das quatro atrizes e delas emana. Trata-se de quatro moças que fogem aos padrões de beleza mais rapidamente identificáveis: usam óculos, têm cabelos emaranhados, nada lisos, não são magras nem fazem um uso sedutor do próprio corpo, não estão maquiadas. O cenário é desprovido de objetos ou quaisquer outros dispositivos que sirvam de atenuantes de tudo o que se passará ali, de tudo o que será dito, de toda a tradução corporal do texto bem urdido. O chão e a parede são pretos, não há matizes. A iluminação dá sinais de que inexistirá como elemento estético, uma vez que tudo começa em clara luz, com as pessoas ainda terminando de encontrar seus lugares na plateia, apesar de o toque da campainha que indica o início próximo do espetáculo já ter soado. É quando entram as quatro mulheres jovens, olhando com desconfiança para os espectadores, semblante de poucos amigos, suspeita sem disfarce algum, ausência deliberada de simpatia.
Foto: Guto Muniz
O espetáculo é dirigido por Sebastian Nübling e coreografado por Tabea Martin, e o texto, brilhante, carregado de uma inteligência provocativa, com senso de humor e ironia, é da premiada escritora alemã feminista Sibylle Berg, autora ainda de 13 romances, 21 peças, e possuindo grande projeção na Alemanha exatamente por sua característica provocadora. A nítida e quase palpável provocação de seu texto não traz, no entanto, um incômodo indigesto. É possível rir de si mesmo, quando o si mesmo é retratado da forma como o é em The so-called outside. O humor é, definitivamente, a melhor forma de provocação. E o que é mais interessante no espetáculo é que a dramaturgia e a coreografia acompanham a verve provocativa de Sibylle Berg: elas logram êxito em traduzir para os movimentos e expressões corporais tudo o que está sendo dito ali, através da linguagem verbal.
As atrizes que incorporam (com toda a literalidade do termo incorporar, pleno de corporeidade em seu paroxismo) todos os tensionamentos e solilóquios infinitos da personagem central pertencem ao The Maxim Gorki Theatre, que desembarca pela primeira vez no Rio. Trata-se de um dos mais politizados teatros públicos da Alemanha, tendo sido destruído durante a Segunda Guerra Mundial e reconstruído e reaberto em 1952, e cuja companhia tem um elenco fixo e multiétnico de 17 performers e um grupo paralelo composto exclusivamente por artistas imigrantes. Na apresentação carioca do espetáculo, temos Cynthia Micas, Nora Absdel-Maksoud, Rahel Jankowski e Suna Güler.
Pode-se dizer que o texto é feminista por colocar em xeque uma série de aspectos esperados do que deveria ser viver como mulher, sentir como mulher, fazer coisas de mulher, ter hábitos de mulher, vontades de mulher, pensamentos de mulher. Entretanto, e isso é o mais interessante, para trazer sua crítica contumaz, o texto não precisa do subterfúgio de atacar o homem, como se a questão toda se resumisse a dois polos opostos e necessariamente conflitantes. Não se refere ao homem ou ao gênero masculino como “macho” (ou algum equivalente) usando um mesmo tom de agressividade e ataque que denuncia no homem machista quando este se refere à mulher menosprezando-a exatamente por ser mulher. No feminismo de The so-called outside, a mulher tampouco será poupada. E esse é um dos grandes achados do espetáculo: os questionamentos vão muito além da denúncia que assinala as desigualdades de gênero. Há toda uma análise muito bem-humorada, cheia de boas sacadas, divertidíssima, das contradições e chatices da sociedade capitalista na qual vivemos. E sociedade capitalista são palavras que, unidas, podem soar aqui como militância lugar-comum, repletas de significados prévios e vagos, que guiam para um entendimento perigosamente rápido do que o espetáculo propõe, mas, ao elegê-las, estou apenas sendo fiel àquilo que o texto traz e que inclui também a própria crítica à crítica ao capitalismo e seus excessos sem nenhum recurso a fórmulas óbvias. Não, não há nada de óbvio no espetáculo. Porque as mulheres que estão ali se contorcendo, pulando, aglutinando-se, cuspindo água, jogando-se ao chão, gritando, cantando musiquinhas românticas da Whitney Houston e outras, simulando o grande encontro amoroso e utópico que, elas sabem, nunca vai existir na realidade tal qual na imaginação, essas mulheres estão também rindo de si mesmas e de suas agruras, e sobretudo das estratégias, sempre falhas, sempre inócuas, que são levadas a criar, cotidianamente, para fazer face a essas mesmas agruras.
Foto: Guto Muniz
Um exemplo disso é o momento da aula de zumba, em que uma das quatro atrizes fica dançando, separada das outras três, como se tivesse chegado ao grau máximo da felicidade, da euforia que serve de panaceia para os males da alma e do coração, mostrando que a melhor forma de lidar com a ansiedade, com as frustrações, é a aula de dança, é a agitação incessante do corpo, continente maior de desvarios emocionais. Não há maniqueísmo no texto de Sibylle Berg, dado que tanto a pressão para o consumo e para a acumulação típica dos modos de vida capitalista (e que incluem – ou podem incluir – as aulas de zumba, as aulas de yoga, as meditações transcendentais) são alvos do texto ácido da autora, como também o politicamente correto. Novamente, é preciso insistir: não há fórmulas prontas e pré-fabricadas em The so-called outside.
Um dos dilemas trazidos pela personagem é que Minna está apaixonada por uma amiga, Lina, que volta e meia manda um SMS. Toda vez que há um SMS para ser lido, a personagem apaixonada tem que usar uma série de subterfúgios para conter sua euforia e sua expectativa, para não se deixar levar pela ansiedade extrema. Ela quer e não quer ler, ela quer ler mais tarde para mostrar a si mesma o quanto é forte e o quanto não está desesperadamente esperando uma resposta de Lina, mas ela não resiste e, toda vez que o celular apita o SMS, Minna dá o que promete ser uma olhadinha rápida, e as mensagens da amiga sempre falam de alguma relação com outro homem, do que ela sente ao lado desse outro homem. É aí que Minna terá que encontrar maneiras para lidar com isso. Os recursos corporais e dramatúrgicos do espetáculo são a melhor expressão do desatino de Minna. Só mesmo os grunhidos, as caretas, os gritos, os pulos, só mesmo a torção de caras, bocas e corpos em uma verdadeira coreografia da repulsa e do desdém forçados para traduzir o que Minna sente. Para dar conta de expressar o insuportável.
E, no decorrer do espetáculo, a luz vai se apagando, acompanhando uma espécie de anoitecer do dia de Minna, quando há um recrudescimento da angústia que ela, de todas as formas, desesperadamente, tentara tapar. É nesse momento que, após uma correria insana pela vida, retratada em pensamentos obsessivos, por um dia que passeou por questionamentos inúmeros acompanhados de brutalidade e indignação, que ela vai se dando conta de que é jovem e o mundo, para quem é jovem, para ela, começa amanhã. Será?
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.